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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Panorâmica sobre os terrenos ao sul da Avenida das Forças Armadas

Em 1º plano vê-se parte da Av. Cinco de Outubro e da antiga Azinhaga das Torrinha (Quinta das Freiras) hoje Av. Álvaro Pais — onde hoje se ergue o Edifício Marconi; à dir. a Av. das Forças Armadas, em cima no último plano vê-se a Escola no Bairro de Santos, o Hospital de Sta. Maria e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa [vd 2ª imagem] e vista parcial do Mercado do Rego.

Panorâmica sobre os terrenos ao sul da Avenida das Forças Armadas |c. 1955|
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. A 30 de Dezembro de 1974, a Câmara Municipal de Lisboa numa perspectiva clara de mudança toponímica, eliminando indícios referentes ao regime Salazarista, passou a denominar a Avenida 28 de Maio, Avenida das Forças Armadas. A homenagem é efectuada ao M.F.A. (Movimento das Forças Armadas) contribuiu para o êxito do 25 de Abril de 1974.

O antigo edifício do Castelinho da Quinta da Torrinha (1892) onde se instalou, em 1920, a Escola Superior de Farmácia é composto por uma casa de estilo eclético com coberturas em terraço, que culmina num corpo torreado no topo, adornada com elementos de inspiração militar, como ameias, guaritas, rusticidade dos socos e a imponência dos pilares que decoram os cunhais. A fachada principal exibe detalhes de inspiração Arte Nova, como os azulejos que a coroam.

Avenida das Forças Armadas, Edifício do Castelinho da Quinta da Torrinha |1953|
Remodelação da antiga Av. 28 de Maio; Hosp. de Santa Maria e edifício da Fac. Farmácia da Universidade de Lisboa — Avenida Professor Gama Pinto.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Campos de Futebol de Antanho: antigo Estádio do Sporting Clube de Portugal

O primeiro campo do Sporting Clube de Portugal foi inaugurado em 8 de Maio de 1906, no nº 73 da Alameda do Lumiar (atualmente Alameda das Linhas Torres), num local conhecido como Sítio ou Quinta das Mouras. Os terrenos foram doados pelo Visconde de Alvalade, atendendo ao desejo do neto, José Alvalade, de fundar um novo clube após a cisão do Campo Grande Football Club. A doação incluiu também um edifício na mesma Alameda, que serviu como a primeira sede do S.C.P..
No ano seguinte, a 4 de julho de 1907, ocorreu uma remodelação que melhorou bastante as condições desportivas: além de um segundo campo de futebol, passou a contar também com uma pista de atletismo.

Antigo Estádio do Sporting Clube de Portugal |c. 1917|
Designado Estádio do Lumiar ou Stadium de Lisboa.
Em segundo plano, ao centro, a «Villa Sousa» sita na Alameda das Linhas de Torres, 22. Campo Grande.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Antigo Estádio do Sporting Clube de Portugal |c. 1917|
Exercícios de ginástica no antigo estádio do Sporting Clube de Portugal.
Ao fundo, na zona N. do Campo Grande e da dir. para a esq,, veem-se as traseiras do o Restaurante do Campo Grande e do Palácio Valência-Vimioso. A esq. obervam-se alguns dos edifícios na 
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O Sporting Clube de Portugal. deixou o Sítio das Mouras e, em 1917, mudou-se para o número 412 do Campo Grande, data em que foi inaugurado. com a designação de Stadium de Lisboa, também conhecido como Estádio do Lumiar. [sporting.pt]

Panorâmica sobre o Campo Grande e Lumiar |c. 1947|
Antigos campos do SLB — [1940-70] Campo Grande, em baixo — e do SCP — Stadium de Lisboa ou do Lumiar [1914] em obras — depois primitivo Estádio José de Alvalade [1947].
No topo N. do Campo Grande destaca-se o Palácio Valência-Vimioso que torneja para a Alameda das Linhas de Torres (dir.) e o Restaurante do Campo Grande. Na esq. baixa nota.se o Palácio Pimenta (Museu de Lisboa). 
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Panorâmica de Lisboa tomada do Miradouro da Senhora do Monte

Ao chegar ao topo, encontrei o Miradouro da Senhora do Monte, o primeiro dos tantos que cá se me ofertaram aos olhares. Confesso-te que nunca esquecerei daquela santa de branco, numa cúpula tomada de flores, defronte à igreja que paira sobre a cidade. Soube que essa santa é a protetora das grávidas [...]
Do Miradouro da Senhora do Monte, vi o emaranhado de vielas onde se desenha a Mouraria, e ouvi ecoar de uma das casas o Fado manhoso, numa voz feminina, que me invadiu o pensamento. Ali constatei o que antes me havia sido dito por ti, talvez inspirada numa antiga canção: Lisboa é cidade-mulher, das cantoras do Fado às colinas e regatos do Tejo: tudo guarnecido de formas femininas. Após tantos anos de incredulidade, orei: Ó, Senhora do Monte, olhai as mulheres dessas freguesias, olhai também por Maria da Penha.
[NOVAIS, Klaus Escritos Degredados, 2014]


Panorâmica de Lisboa, tomada do Miradouro da Senhora do Monte [entre 1908 e 1929]
(clicar para ampliar)
Destacam-se na imagem: em baixo ao centro, a cúpula do extinto Real Coliseu de Lisboa (1896-1929) (A) na Rua da Palma; à direita deste, o Hospital do Desterro (B); um pouco acima a Escola Municipal nº 1 (C)  — a mais antiga de Lisboa; logo acima, ao centro, a Faculdade De Ciências Médicas (D) da Universidade Nova de Lisboa no Campo dos Mártires da Pátria; mais acima para poente, a Rua do Instituto Bacteriológico (e o edifício Câmara Pestana) (E) e, no fim desta, vislumbra-se torre sineira da Igreja da Pena (F) na Calçada de Sant'Ana; em último plano, na extrema esquerda, as torres da Basilica da Estrele, (G) e, em ultimíssimo plano adivinha-se o Palácio Nacional da Ajuda (H).
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

domingo, 26 de julho de 2026

Rua de Campolide, 437-441

Vejamos agora esta antiga Rua de Campolide na companhia de Mestre Norberto de Araújo.
Campolide — que significa? Qual a origem do vocábulo?
Nós não temos tempo, nem plano, para nos embrenharmos nestas complicadas dissertações etimológicas. A versão de que a palavra corresponde à abreviação de Campo-da-lide (século XIV, tempo do Cerco a Lisboa pelos castelhanos) está posta de parte. Alguns séculos antes a designação existia; já o Rei D. Afonso II (1211) possuía «duas vineas in Campolide».

Rua de Campolide, 437-441 |c. 1936|
Fila de automóveis defronte da garagem C. Santos; ao fundo vê-se o viaduto da Linha de Cintura (Sete Rios) na direcção da actual Av. Columbano Bordalo Pinheiro. A representação da Mercedes-Benz para Portugal foi atribuída em 1936 à firma C. Santos, começando por incluir veículos automóveis e passando, posteriormente, a englobar todos os veículos produzidos por esta marca alemã. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Parece mais acertado ficarmos na ignorância da origem da palavra — acrescenta o mesmo autor — que corresponderia já no ciclo da tomada de Lisboa ao que o cruzado Osberno chamava, pela sónica, Compolet, e que seria Campolit." ==
[ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 77, 1939]

Rua de Campolide, 437-441 |1961|
Viaduto ferroviário de Sete Rios. A dir vê-se o edifício C. Santos (fund. 1912). Todos estes prédios estão demolidos.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Fotografia aérea da zona Sete Rios |1977|
Em primeiro plano, na dir. baixa, observa-se o viaduto da Linha de Cintura sobre a Rua de Campolide e, nela, o edificado (demolido) que se pode ver nas imagens acima, e as instalações da firma C- Santos. À esq-, nota-se o Jardim Zoológico; em cima, ao centro, o então Hotel Penta defronte do Hospital Santa Maria e da Cidade Universitária; mais à esq, a Universidade Católica e o antigo Estádio de Alvalade e, à dir., o Hospital Santa Maria. 
Fernando Gonçalves, in Lisboa de Antigamente

domingo, 19 de julho de 2026

Campos de Futebol de Antanho: Campo da Feiteira

A primeira grande surpresa de Afonso, ao chegar ao campo [da Feiteira] e ao ver as equipas no aquecimento, foi a de que nada parecia ter mudado. O Sport Lisboa e Benfica alinhava com o antigo equipamento do Grupo Sport Lisboa, camisolas vermelhas e calções brancos, e o próprio emblema da águia se mantinha ao peito, acrescentando-se-lhe agora uma roda de bicicleta, o símbolo do Bemfica. [SANTOS, 2004]

Campo da Feiteira |c. 1909|
Inaugurado em 1907, tinha capacidade para 8 mil espectadores, e o campo media 120 metros por 79.
Quinta da Feiteira junto à Estr. de Benfica, e nela: Chalet Ribeiro, Villa Ana (1890) e igr. de Benfica.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O major Faria Leal, antigo dirigente do Sport Benfica (fund. 1906), revelaria mais tarde: «O futebol tomou logo de princípio enorme incremento e adquiriu-se, por arrendamento, na Quinta da Feiteira”, de que era proprietário o brasileiro comendador César José de Figueiredo, um campo. Este campo, hoje ocupado pelo grande bairro fronteiro à igreja de Benfica, e que foi arrendado por uma ridicularia, fora um extenso faval sulcado de regos, que foi convenientemente trabalhado à enxada pelos próprios sócios, para que pudesse ser adaptado ao jogo. O facto de sermos o primeiro clube que possuía campo próprio atraiu à nossa convivência os jogadores de outros clubes, principalmente os do Sport Lisboa (fund. 1904) que como todos eles, se treinavam e jogavam nos areais de Alcântara e Belém, ou no Largo da Luz. Desta convivência resultou, mais tarde, a união Sport Lisboa e Benfica (1908), que subsistiu até hoje.» [Dias: 2000]

Campo da Feiteira |entre 1907 e 1910|
O terreno na Quinta da Feiteira foi oficialmente adquirido pelo clube em 26 de Maio de 1907, e o campo foi inaugurado em 14 de Julho do mesmo ano.
Quinta da Feiteira junto à Estr. de Benfica vendo-se o Chalet Ribeiro e a Villa Ana. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Foi no seio de um grupo de antigos alunos da Real Casa Pia que surgiu a ideia de fundar um clube, o Grupo Sport Lisboa. Em 1904,  realizou-se uma reunião histórica nas instalações da Farmácia Franco, sita na velhinha Rua Direita de Belém.  Nela estiveram presentes dezoito elementos, entre eles, Cosme Damião, que contava apenas dezoito anos e era jogador da equipa, assumindo mais tarde o posto de capitão do grupo e um jogador importantíssimo, vindo a ser, no entanto, como dirigente que mais se destacou, mesmo nunca chegando a presidente. [C.F. Casa: 2013]

Campo da Feiteira |1910-01-23|
Equipa do Sport Lisboa e Benfica, no campo da Feiteira. Cosme Damião é o capitão da equipa (com a bola). Jogo entre o Sport Lisboa e Benfica e o Clube de Carcavelos arbitrado por Eduardo Pinto Basto.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Lisboa: do Tejo a Monsanto

Ó macio Tejo ancestral e mudo


Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
«Lisbon Revisited (1923)»Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

Lisboa: do Tejo a Monsanto |1967|
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

Lisboa: do Tejo a Monsanto |c. 1920|
Antes de ser erigida a Estação Sul e Sueste; Terreiro do Paço; Arsenal de Marinha
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 26 de abril de 2026

Beco de Santa Helena

Helena (beco de Santa) primeiro à esquerda na rua do Castello Picão, indo da calçadinha de S. Miguel e finda no largo das Portas do Sol, freguezias de S. Miguel 1 a 13, S. Vicente 2 a 12 e 15 a 25. [Velloso: 1869]

Enfiemos por este Beco de Santa Helena na companhia. mais uma vez, do olisipógrafo Norberto de Araújo.
No seu primeiro lanço este beco nada tem de especial, mas no seu segundo, de escadarias, passado o Beco do Garcês, a perspectiva é já repousada, com o ambiente que advém, à direita, dos jardins do Palácio do Conde de S. Miguel (dos Arcos ou do Salvador).

Beco de Santa Helena |c. 1960|
Perspectiva tomada das Portas do Sol antes da remodelação do sítio. Ao fundo
nota-se a 
Igreja de São Vicente de Fora.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Não se desdenha de ser Alfama, mas uma Alfama tranquila, sem gatos nem mulherio, um sítio que não oferece pano para mangas aos escritores que só encontram gracilidade urbanista onde o carácter é plácido e onde não existe nem um cunhal, nem uma gelosia, nem um sinal de povo, nem uma garatuja de nobreza, nem um sopro religiosidade..==

Panorâmica sobre o Beco de Santa Helena |c. 1960|
Perspectiva tomada junto ao nª 21 onde se vêem os frades de pedra. Do lado esq. observa-se o muro do Palácio do Conde de S. Miguel (dos Arcos ou do Salvador) que desemboca no Beco do Garcês.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Embora se desconheça a data de atribuição do topónimo sabe-se que esta designação é anterior ao Terramoto.
Na Idade Média e na Idade Moderna, os topónimos apareciam de forma natural, inspirados numa atividade, num acidente geográfico, numa propriedade, no nome do proprietário mais importante, numa direção ou, até, em nomes de santos, igrejas, conventos e ordens religiosas.

Beco de Santa Helena |962|
Perspectiva tomada junto ao nª 21 — próximo do Mural História de Lisboa (dir.).
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

N.B. Santa Helena, de família plebeia e pagã, nasceu em meados do século III na Turquia); essa cidade, mais tarde, foi chamada Helenópolis, em sua honra, pelo seu filho e futuro imperador Constantino, o primeiro imperador cristão. Muito piedosa, Santa Helena partiu em peregrinação para a Terra Santa, onde se diz que encontrou a verdadeira Cruz do Salvador.

Beco de Santa Helena |1945|
Perspectiva tomada da Rua do Castelo Picão na direcção do Beco do Garcês.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 59, 1939.
BACKHEUSER,Everardo, Toponímia: (Suas regras — Sua evolução), 1049.

domingo, 19 de abril de 2026

O Sítio de Alcântara

Dizer Alcântara na toponímia lisboeta é, só por si, compor um quadro de movimento e de febril agitação bairrista — recorda Norberto de Araújo, o grande enamorado de Lisboa. Alcântara foi um lugar, um sítio; é um bairro, uma zona com individualidade e consciência. Tudo gira em Alcântara: fábricas, oficinas, linhas, ruas — vidas.
O que em Alfama é estático é, em Alcântara dinâmico. Este bairro tem azougue.
O seu pitoresco é de cosmograma. Não existe neste rincão da Cidade nada de contemplativo. Apenas nas Necessidades, com seu jardim, com seu obelisco, com o seu palácio e na sua tapada — mora o repouso. Persiste ali um pedaço de beleza e gracilidade de miradouro. É a mancha aristocrática e requintada do bairro. 

Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Antigo Largo de Alcântara 
À dir. destaca-se o prédio setecentista — pombalino e altaneiro — referido mais à frente por Norberto Araújo,   
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Remodelação da Rotunda de Alcântara, devido à construção do acesso à ponte sobre o Rio Tejo; à dir. observa-se o antigo Eden Cinema. 
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. Do tempo velho ficaram e falam deliciosas legendas: Baluarte, Trabuqueta, o Arco, as Fontainhas, a Triste-Feia; a Horta Navia — saudade de Alcântara quinhentista, o Fiúza — reminiscência de Alcântara palaciana, o Sacramento — evocação de Alcântara conventual.
Foram-se os marinheiros rude golpe no coração do bairro! — ; ficou a Praça da Armada com seu Neptuno de tridente no Chafariz. O risonho vale de Alcântara vai-se sumindo, mas nas lombas do Alvito e da Cruz das Oliveiras demora-se a expressão popular campesina que ficou do rústico antigo.
O prédio setecentista cor-de-rosa da quina poente-sul do Largo — pombalino e altaneiro — é com a sua famosa adega do «Sete-e-Sete» — o padrão bairrista de Alcântara [vd. 1.º imagem à dir.]: cinco gerações o contemplaram — sequiosas.
Pequeno mundo alfacinha, vizinho do Calvário, da Pampulha, da Avenida da India — desentranha-se em vida. É o pregão cantante do trabalho. Contido entre a Serra e Tejo, possui a índole atávica de um poeta, a alma rude, nostálgica de um mareante.==

Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Vista tomada da R. da Quinta do Jacinto — onde brincam os ganapos. Ao fundo nota-se o pináculo da torre sineira do Palácio das Necessidades.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Rua de Alcântara (esq-) e acesso à ponte sobre o Rio Tejo.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

N.B. A edilidade lisboeta, através  edital de 18/08/1966, presta homenagem ao General Domingos de Oliveira atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]
Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira (1873–1957) foi presidente do Conselho de Ministros em 1920, ministro interino da Justiça, membro vitalício do Conselho de Estado (1949) e oficial-general do Exército. A sua carreira reúne inúmeros louvores e condecorações, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis e a da Ordem Militar da Torre e Espada.

Fotografia aérea da zona industrial de Alcântara |1950-04|
Caminho de ferro; Palácio das Necessidades; Estação de Alcântara-Terra e Mercado de Alcântara; Vale de Alcântara...
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 142-143, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Estr. Marginal: o Convento e o Forte da Boa Viagem

O Convento da Boa Viagem, cujas ruínas chegaram aos nossos dias — tendo desaparecido os vestígios mais importantes quando se construiu a Estrada Marginal Lisboa-Cascais e o Estádio Nacional — era tido como localizado na margem direita do Jamor, no sítio ainda boje conhecido pela Boa Viagem em cujo alto se conservou, por memória, uma pequena ermida.

Estr. Marginal, Alto da Boa Viagem |ant. 1952|
Vista da Avenida Marginal e da linha de Cascais, anterior a 31 de Março de 1952, em fundo o Farol da Gibalta (Oeiras). Restaurante Boa Viagem.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente
 
Era aqui, também, que estava o Forte da Boa Viagem, e em todas as cartas antigas onde se traça a barra do Tejo, lá aparece assinalado tanto este forte como um edifício com uma cruz — indicativo de igreja, ermida ou convento. [Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa, 1961]
 
Estr. Marginal, Cruzeiro: ponte setecentista sobre o Rio Jamor |c. 194-|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Mercado de Arroios

Fui um dia visitar o mercado de Arroios, gostei da sua arquitectura, tipo de panela com a tampa em cima a fazer de telhado, a praça cheia de tudo, hortaliça, fruta de toda a qualidade, peixe fresquinho tapado de gelo, encontrei lá uma sardinha de olhos azuis que andava a passear, perguntei-lhe se havia assim sardinhas tão boas todos os dias no mercado de Arroios, respondeu-me que em em Portugal não falta nunca a boa sardinha. [Covas: 2007]

Erguido no centro de um populoso bairro lisboeta — vulgo Bairro dos Actores —, o mercado de Arroios (1942) assentou numa concepção estrutural inovadora. Com uma planta central, com um pátio central aberto, a construção articula-se em torno de uma série de grandes vigas dispostas em círculo que se estendem por três pisos. De cada lado desta estrutura matricial está suspensa uma laje que cobre o primeiro andar, onde as lojas se abrem para a rua exterior e para o pátio interior, respectivamente. Este sistema de corpos escalonados permite uma abertura de aberturas em vários níveis que convergem para alcançar uma iluminação natural cheia de força e diversificada, bem como uma espacialidade claramente inovadora para a época. [Ana Tostões]

Mercado de Arroios (construção) |1939|
Rua Ângela Pinto; ao fundo as Ruas Lucinda Simões e Carvalho Araújo.
DN, in Lisboa de Antigamente

O projecto urbanístico aprovado em sessão de Câmara de 7 de Abril de 1928 determinou o futuro da zona contida entre a Praça do Chile e a Alameda Dom Afonso Henriques, tendo a Rua Ângela Pinto (1869-1925) sido o topónimo dado à «Circular, em volta do mercado». Com a publicação do Edital de 12 de Março de 1932, ficou perpetuada a memória de uma das maiores actrizes do teatro português na toponímia da cidade de Lisboa.

Panoramica sobre o Mercado de Arroios e envolvente |1942|
Rua Ângela Pinto; Rua Carlos Mardel.
Projecto do arquitecto Luís Benavente, datado de 1938-40.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 7 de dezembro de 2025

Avenida de Brasília: Forte do Bom Sucesso

Junto das magníficas e nunca bastante exaltadas pedras da Torre de Belém, construiu-se, em 1780, o Forte do Bom Sucesso pelo risco do exímio Valleré. Bom Sucesso, porquê? Porque os barcos quando ali chegavam, ao cabo de longas ou pequenas travessias, estavam em bom resguardo, no abrigo, livres das tormentas. Assim seria bom o seu sucesso.
Junot mandou ligar uma bateria corrida à Torre de Belém. Muito mais tarde foi alterado o risco pelo capitão Sanches de Castro, depois general e Ministro da Guerra. Começaram as obras em 6 de Abril de 1870. [Martins: 1945]

Forte do Bom Sucesso [entre 1926 e 1936]
Avenida de Brasília (dist. 1960)
No espaço fronteiro está instalado o Museu do Combatente, erguido em homenagem aos combatentes portugueses mortos na Guerra do Ultramar.
António Passaporte (Colecção Loty), in Lisboa de Antigamente

N.B. O topónimo "Av. de Brasília" nasceu de um pedido do Almirante Sarmento Rodrigues – Ministro do Ultramar de Salazar, de 1950 a 1955 – ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que era então António Vitorino França Borges, para se fixar em Lisboa a nova capital brasileira que iria suceder ao Rio de Janeiro (1763 a 1960), que por sua vez já sucedera a Salvador (1549 a 1763). O dístico foi atribuído pela edilidade em 1960.

Forte do Bom Sucesso [entre 1926 e 1936]
Avenida de Brasília (dist. 1960)
Perspectiva tomada da Torre de Belém observando-se ao fundo a Serra de Sintra.
António Passaporte (Colecção Loty), in Lisboa de Antigamente

domingo, 12 de outubro de 2025

Aqueduto das Águas Livres: a «incrível magestade os seus enfileirados trinta e cinco arcos»

A grandiosidade do Aqueduto das Águas Livres deslumbrou os viajantes que demandaram Lisboa. Mesmo os menos pródigos em encómios aos marcos monumentais da cidade reconheceram os seus atributos estéticos e funcionais: 
No vale de Alcântara, a curta distância de Lisboa, tive ocasião de ver o famoso aqueduto que ligava duas colinas [...] Era todo de mármore branco e não ficava a dever nada aos mais magnificentes aquedutos que nos deixaram os antigos, quer em utilidade e grandeza, quer em elegância. [Gorani, 1765, p. 100]

 

Aqueduto das Águas Livres |1946|
A extraordinária arcaria do vale de Alcântara, numa extensão de 941m, é composta por 35 arcos, incluindo, entre estes, o maior arco de pedra em vão do mundo, com 65,29 m de altura e 28,86 m de largura.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Não existe em Lisboa nenhum edifício que se imponha pela vastidão e majestade ou mesmo pelo seu conjunto [...] O único edifício público que merece ser visto está fora de Lisboa — é um soberbo aqueducto, destinado a abastecer de água esta cidade [...]: nele se conjugam a magnificência com a beleza, o ousio à solidez da construção. [Carrere, 1796, pp. 29-30]
É impossível comunicar aos outros o sentimento de admiração que se apossou de nós logo à primeira vista, porque a imaginação não pode elevar-se a uma concepção tão sublime como aquela que a realidade apresenta. [Ruders, 1798-1802, p. 48]

Aqueduto das Águas Livres |190-|
Quinta da Rabicha
Construído entre 1731-1748, contou desde o início com o apoio de. D. João V. Na direcção das suas obras trabalharam. o Coronel Engenheiro Manuel da Maia, Custódio Vieira e o romano António Canevari, arquitecto italiano, e João Frederico Ludovice.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Aqueduto das Águas Livres |1900|
O Aqueduto das Águas Livres «n'uma  recta quebrada» foi «a grande obra de engenharia do reinado joanino» que partiu de uma iniciativa do procurador da cidade, Claudio Gorgel do Amaral, em 1728. Com um grande declive, a vista é particularmente dominada pela imponente conduta de água que, com trinta e cinco arcos, se estende sobre o vale fundo. Árvores altas e casas de quatro andares parecem ficar como a seus pés.
Cunha Moraes, in Lisboa de Antigamente

O Aqueduto das Águas Livres, no seu troço mais monumental, sobre o vale de Alcântara, é atravessado por várias estruturas viárias (ramais ferroviários de Alcântara e da ponte 25 de Abril, avenidas de Ceuta e Calouste Gulbenkian, Eixo Viário Norte/Sul, entre outras). O Monumento, propriamente dito, sobre a Ribeira de Alcântara, começado a construir-se em 1739, na extensão de 941 metros, e nele, a assinalar: 35 arcos, dos quais: 18, de volta inteira, do lado de Lisboa; 14 (os do centro) de perfil ogival, com robustos pegões, o maior dos quais — «Arco Grande» — mede 65,29m de altura e 28,86m de boca (largura); e 3, de volta inteira.
Chamei de ominosa memoria ao arco grande; todos me entendem — diz Júlio de Castilho; foi o alto d'aquella ogiva, o theatro lugubre das façanhas de Diogo Alves, o assassino. O ecco d'essa aboboda, que repete varias vezes cada palavra , ainda se lembrará talvez dos ais angustiosos das victimas arrojadas lá de cima, e volteando no ar até se espalmarem no lagedo natural do chão. 
(Júlio de Castilho (1840-1919) . «Aqueducto das Aguas Livres, 26 de Outubro de 1901)

Aqueduto das Águas Livres, Arco Grande |c. 1912|
Calçada da Estação e linha férrea Lisboa-Sintra, inaugurada em 1887, chegou a Campolide em 1895.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

domingo, 7 de setembro de 2025

Edifício da Ford Lusitana

A sede da “Ford Lusitana, SARL”, fundada em 11 de Janeiro de 1932, situava-se na Rua Castilho em Lisboa, e foi projectada pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro em 1930. Foi demolido em 1974.

O edifício-sede da Ford Lusitana, situava-se no gaveto da Rua Castilho com a Rua Marquês de Subserra, no quarteirão seguinte aquele onde mais tarde o autor viria a projectar o Hotel Ritz.
Para além de escritórios, oficinas e venda de peças o edifício que se destinava a «expor e vender Automóveis, camiões e tractores, também exibia e vendia aviões».
O edifício adopta uma arquitectura de grande horizontalidade ao longo das duas ruas, sendo essa característica acentuada no 1º andar coberto por um terraço.

Edifício da Ford Lusitana, filial da Ford Motor Company U.S.A. |1937|
Rua Castilho, 149 com a Rua Marquês de Subserra, 2
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No gaveto, fazendo charneira entre os volumes ao longo das ruas surge um grande corpo cilíndrico de vidro, luminoso onde a marca se destaca dia e noite [vd. última imagem].Este volume redondo, para além de uma forte componente publicitária que, com êxito imprimiu ao edifício, marca a entrada principal para clientes no edifício. Na altura da sua construção o edifício tinha grande exposição, sendo visível desde a Praça Marquês de Pombal, dominando o lago então existente no atualmente denominado Parque Eduardo VII.

Edifício da Ford Lusitana |c. 1940|
O Parque Eduardo VII foi ajardinado em 1929; a esq., sobe a Rua Joaquim António de Aguiar.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Vista aérea sobre o Parque Eduardo VII |c. 1950|
Ao centro observa-se o edifício-sede da Ford Lusitana e, à esq. deste, os terrenos do futuro Hotel Ritz (1959). Atrás nota-se o Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Concebido para ter grande presença na noite de Lisboa, apresentava rasgados vãos ao nível do R/C onde os modelos da marca se podiam facilmente observar por quem passava nas zonas circundantes.
Neste projecto o arquitecto escolhe as peças e desenha mesmo algum mobiliário, o que permite a concepção da obra como um todo.
(PACHECO, Ana Assis - Ob. cit., 1998)

Edifício da Ford Lusitana |c. 1940|
Gaveto da Rua Castilho, 149 com a Rua Marquês de Subserra, 2
Fachada com corpo cilíndrico de vidro, luminoso onde a marca se destaca dia e noite-
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957) foi um dos mais importantes arquitectos da primeira metade do Século XX em Portugal e principal responsável pela viragem modernista da arquitectura portuguesa. O legado do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro conta com obras como as Gares Marítimas de Alcântara (1943) e da Rocha do Conde de Óbidos (1948), a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (Prémio Valmor 1938), o edifício do Diário de Notícias (anos 1930, premiado em 1940), entre muitas outras.
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