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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Rua Garrett que foi «do Chiado»

Saiamos da freguesia dos Mártires — sugere Mestre Castilho — , não sem deitar uma vista de olhos à célebre rua dos elegantes lisbonenses, ao nosso Boulevard de Gand, à nossa Regent Street, ao nosso velho e falador Chiado, hoje crismado (bem mal a propósito, quanto a mim, salvo melhor juízo) em Rua de Garrett.

Antigamente essa grande artéria, que seguia desde o convento do Espírito Santo (palácio Barcelinhos) até à frente do palácio do marquês de Marialva (praça de Luiz de Camões), tinha em cima o nome de rua das Portas de Santa Catarina, e só era Chiado para baixo da rua da Cordoaria Velha (a nossa rua de S. Francisco). Ultimamente chamava-se a tudo, em linguagem oficial, rua das Portas de Santa Catarina, mas a denominação de Chiado invadira, e dominava no uso. Os janotas da casa Havanesa estavam tanto no Chiado, como os fregueses da loja do José Alexandre. O edital do Governo Civil de Lisboa, de 1 de Setembro de 1859, incorporou nesse nome os dois nomes seguidos da mesma rua, passando a chamar-se em toda a sua extensão rua do Chiado.

Rua Garrett que foi «do Chiado» |c. 1950|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem sem data; local da foto não está identificado no arquivo

Esse nome do Chiado, destronado pelo do imortal Garrett, pelo edital de 14 de Junho de 1880, também tinha os seus foros, e não muito mesquinhos; foi injustiça desconhecer-lhos. Garrett presou-se de bom companheiro em letras; ¿porque o obrigou a Câmara Municipal a ser mau companheiro depois de morto? Tenham a certeza disto: se o pudessem consultar, pediria ele que deixassem quieto no seu lugar o velho Chiado, o poeta António Ribeiro Chiado, seu predecessor, e seu colega (se bem que muito somenos, é claro) na carreira literária. [Castilho: 1879]

Rua Garrett que foi «do Chiado» |c. 193-|
O Chiado durante Quinta-feira Santa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 15 de dezembro de 2024

Rua do Alecrim que foi «do Conde»

Do fundo N. da Praça do Duque da Terceira sobe em declive violento a Rua do Alecrim, antiga Rua do Conde (de Vimioso), que, para ganhar o desnível, passa sobre dois arcos, um na R. Nova de Carvalho e outro na de S. Paulo.

Ora agora podemos ver a interessante perspectiva desta Rua do Alecrim — diz Norberto de Araújo — , com seus estabelecimentos de bric-à-brac, as fachadas dos seus prédios com recorte nas cantarias e sacadas bem desenhadas, e ao fundo um retalho do Tejo, alegria de Lisboa.
E «do Alecrim» ― porquê ? Que originou a modificação no tradicional dístico de Rua do Conde?
 
Rua do Alecrim que foi «do Conde» |1965|
Tinha um traçado pré-pombalino, sendo «uma das artérias mais características destes sítios, muito lisboeta, com o seu delicioso enfiamento até S. Roque, direita como um fuso e em dois terços da sua extensão corresponde à seiscentista Rua do Conde». [Araújo: 1939]

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No quarteirão ao alto da Rua do Alecrim, entre esta e a Rua das Flores, uns trinta metros abaixo de onde está a Farmácia Andrade [vd. 3ª imagem], fazendo esquina para uma rua de Brás da Costa, desaparecida, existiu uma Ermida, integrada numa propriedade, fundada por D. Ana de Vilhena entre 1628 e 1641, e cuja Imagem de Nossa Senhora, que viera de S. Miguel de onde D. Ana era natural, foi chamada «do Alecrim» por inspiração de uma criança, filho da fundadora da Ermida, muito tempo antes de esta ser erigida.=

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |Início séc. XX|
Antes de ser rua, «era o torcicolo do Cata-que-farás que serpeava, na subida, tocando,
à direita, uma confusão de casas encostadas às muralhas trecentistas de D. Fernando» [França: 1994]
Alexandre Cunha, in Lisboa de Antigamente

Uma curta paragem no Largo do Barão de Quintela onde, numa madrugada de 1866, vamos encontrar Hans Christian Andersen. Acabava de chegar a Lisboa e tinha pedido ao cocheiro que o «conduzisse ao Hotel Durand na praça perto da Rua das Flores». Num outro prédio, num «segundo andar, por trás de uma janela iluminada», está Alípio Abranhos «a olhar, desesperadamente, para a tenebrosa pacatez do Largo». O palácio Quintela, que dá o nome ao largo, possui a sua fachada principal virada para o largo e ocupa um vasto terreno entre as ruas do Alecrim e António Maria Cardoso. Foi comprado, em 1777, por Luís Rebelo (irmão de Inácio Pedro Quintela). Nesse terreno, esteve um outro Palácio, o dos condes de Vimioso, que ardeu em 1726. O largo foi terraplenado em 1788 e a estátua de Eça de Queirós, obra do escultor António Teixeira Lopes (1866-1942), que nele se encontra, foi inaugurada no dia 9 de Novembro de 1918.

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |1965|
Palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo (esq.); Farmácia Andrade
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No primeiro lanço da rua, vindos  da Praça do Duque da Terceira, que assenta sobre dois arcos mandados construir pelo marquês de Pombal, situava-se o Hotel Bragança (no n.º 12, à direita), fundado em 1912, então como pensão, e só anos mais tarde tornado hotel, para cujo nome foi necessário obter autorização da Casa de Bragança. Foi neste hotel que Saramago hospedou Ricardo Reis, quando este regressa do Brasil, em 1935: «(...) quando o automóvel já está a dar a volta ao largo, e o motorista avisa. O hotel é aquele, à entrada da rua. Parou em frente de um café, acrescentou, O melhor será ir ver primeiro se há quartos, não posso esperar mesmo à porta por causa dos eléctricos».

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |190-|
Não deve ser confundido este «Hotel (Pensão) Bragança (1912)» da Rua do Alecrim, 12, fundado por Manuel Miguez Simas, como simples Pensão, com o «Hotel Bragança» (ou Braganza), citado em «Os Maias» de Eça de Queirós, sito na Rua Vítor Cordon (antiga rua do Ferragial de Cima), 45.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
JANEIRO, Maria João , Lisboa: histórias e memórias, 2006.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 51, 1939.
PROENÇA, Raul, Guia de Portugal, Generalidades: Lisboa e arredores, 1924.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Rua Garrett, antiga do Chiado

O topónimo Rua Garrett, foi atribuído no âmbito das Comemorações do tricentenário da morte de Camões em 1880 à velhinha Rua do Chiado.

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854). Iniciador do Romantismo, refundador do teatro português, criador do lirismo moderno, criador da prosa moderna, jornalista, político, legislador, Garrett é um exemplo de aliança inseparável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta. É considerado, por muitos autores, como o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto nos deixou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.

Rua Garrett, antiga do Chiado |1926-09-09|
Lojas na esquina da Cç. do Sacramento: Ao Último Figurino fund. 1910; a Antiga Casa José Alexandre fund. 1840; ao fundo os Armazéns do Chiado fund. 1894.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Bando precatório a favor das vítimas do terramoto no Faial»

De origem irlandesa, a grafia do seu último apelido «garet» foi por ele próprio alterada na sua assinatura para «garrett» com o objectivo que as pessoas lessem a letra tê para pronunciar correctamente o seu nome como «garrete».

Rua Garrett, antiga do Chiado |1951|
Na imagem merecem destaque a antiga Tabacaria Estrela Polar , o Café Chiado à dir,  a Basílica dos Mártires e, encimando a foto, a Igreja de Encarnação.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

domingo, 24 de dezembro de 2023

A tracção eléctrica: o carro do fio e os guarda-fios

A tracção eléctrica — registava Alfredo Mesquita em 1903 — serve já hoje a cidade de Lisboa em todas as direcções. É um dos seus mais importantes e mais recentes melhoramentos. 

As nossas ruas estreitas não justificam de certo o emprego exclusivo dos condutores aéreos para a transmissão da energia eléctrica, sendo naturalmente indicado o sistema misto de condutores aéreos e subterrâneos como o mais adequado ás condições em que se encontram os arruamentos. Sob o ponto de vista estético, não se enriqueceu também a cidade com o emaranhado dos fios, que em muitos locais atingem o aspecto de verdadeiras redes, em outros o de enxugadouros.
 
Largo do Chiado |1926|
A tracção eléctrica:  o  "carro do fio" e os "guarda-fios". Igreja de Nossa Senhora da Encarnação.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Não é menos certo que os acanhados passeios das principais ruas comerciais, reservados ao trânsito dos peões, foram prejudicados com o pejamento á circulação que lhes resulta de terem sido destinados a alicerces das desgraciosas colunas a que se prendem os fios da rede. Mas é grande verdade, também, que o regímen da tracção eléctrica fez esquecer em absoluto, e com incontestável satisfação dos habitantes de Lisboa, o antigo regímen das mulas dos americanos, dos solavancos dos Ripert, das molas desconjuntadas do Jacinto, do Florindo, do Salazar e da Luzitana. . . E hoje a vista de alguma d'essas já raras carriolas, que ainda se arrastam pelas ruas da cidade, oferece um contraste deplorável a par d'um carro eléctrico comodo e veloz.

Praça do Comércio |1927-03-30|
Guarda-fios levantando as linhas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A fábrica geral da electricidade está situada em Santos, nos terrenos conquistados ao Tejo. Tem uma área de 6.200 metros quadrados adquiridos ao Estado em hasta publica, por 62:000^000 réis. Sendo o terreno formado por aterro moderno, as fundações foram dispendiosíssimas. Está tudo assente em estacaria e num monólito de cimento que suporta os edifícios e máquinas.==

Avenida 24 de Julho |c. 1927|
À esq. nota-se a Estação geradora de Santos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo. Lisboa, pp. 526-527, 1903.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Rua da Misericórdia, 81: travão partido, eléctrico desarvorado

Esta artéria tinha-se denominado Rua do Mundo (1910), para perpetuar o nome do jornal que estava sediado neste arruamento e ainda antes designava-se Rua de São Roque (1889). Inicialmente designada Rua Larga de S. Roque, em memória da Igreja e Convento de São Roque que era também o topónimo inicial de Bairro Alto de São Roque e Rua da Misericórdia — a partir de 1937, em referência à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, com sede no Largo Trindade Coelho.
 
Rua da Misericórdia, 81 |1910|
Travão partido, eléctrico desarvorado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 26 de novembro de 2023

Rua Serpa Pinto: Vendedor ambulante Azeite, petróleo e vinagre

Esta Rua de Serpa Pinto — diz Norberto de Araújo — no troço que desce do Largo do Directório [actual Largo de São Carlos] até à confluência do Ferregial e Víctor Cordon, é de dístico recentemente reposto [1937].


– Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine!
– Azêite dôô-c´i bom vináágre!
 
À direita — nos degraus onde se senta o amodorrado moço de fretes — nota-se a fachada lateral da Igreja dos Mártires; do lado esquerdo, tornejando a Rua Garrett, a casa de modas «Paris em Lisboa» fundada em 1888; ao fundo, no topo, a «Casa do Ferreira das Tabuletas» na Rua da Trindade, 28-34.

Rua Serpa Pinto, cruzamento com a Rua Garrett  |séc. XIX|
Vendedor ambulante Azeite, petróleo e vinagre
Antiga Rua Nova dos Mártires. Por deliberação e edital da CML respectivamente de 12 e 16/11/1885, a Travessa de Estevão Galhardo, foi integrada na Rua Serpa Pinto, por ser o prolongamento desta.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O topónimo Homenageia o benemérito explorador africano Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto, de seu nome completo — que em 1879 e 1884, atravessou a África, de Angola à Contracosta e realizou outras explorações, feitos assombrosos para o tempo, causa do brutalíssimo ultimato inglês de 1890 e da revolta de 31 de Janeiro de 1891. O general visconde de Serpa Pinto nasceu em Cinfães em 1846 e faleceu em 1900.

domingo, 26 de março de 2023

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca

A Rua das Flores já existia antes do Terramoto, no troco até à Rua do Ataíde, ambas seiscentistas. E de igual modo existia a Rua da Horta Seca, designação, que, tal a das Flores, e a das Parreiras (sobre a qual assentou a Rua da Emenda) evocam os tempos de quinhentos em que por aqui eram quintas e chãos rústicos da herdade de Santa Catarina.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 51, 1939)

Praça de Luís de Camões com a Rua da Horta Seca |1959|
Realce para o espectacular "espada" Buick Super "The Black Beauty" (1949–1953)
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Encontramos no Arquivo Histórico Português, Vol . VIII, pág. 421, no estudo do dr. António Baião, acerca da Inquisição uma referência a este sítio, datada de 1583. É a primeira à direita na rua do Alecrim vindo do Loreto e termina na rua das Chagas, ensina o Itinerário Lisbonense, de 1818. Fora das portas de Santa Catarina. [Brito: 1935]
 
Rua da Horta Seca |1922-07-21|
Rua da Emenda;  ao fundo nota-se o Palácio do Manteigueiro; Rua e Palacete das Chagas
Legenda no arquivo: «Bodo aos pobres promovido pelo sr. governador civil»
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está «identificado no arquivo

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Rua Garrett: a «ladeira vaidosa»

Chiado às quatro horas da tarde, quando os amanuenses vêm para cima e as cocottes vão para baixo. [Ortigão: 1889]


Afinal ele não é uma designação — é um código de costumes. Não é uma rua — é um índice de Lisboa». As palavras são de Norberto de Araújo, das Legendas de Lisboa, e definem o Chiado, a tal «ladeira vaidosa» de Ramalho Ortigão ou a «personificação de Lisboa elegante» de Júlio de Castilho. Quantos não foram os poetas e escritores que ao Chiado se referiram em termos semelhantes? Estamos, pois, num dos «píncaros do mundo» e quem o afirma é Guerra Junqueiro. No Chiado, «instituição profundamente gomosa», se «exibem as raridades do sport e a fina essência da elegância», e Fialho de Almeida sabia-o. O conselheiro Acácio, este, «aprumava a estatura» ao descer o Chiado e Artur Corvelo, que deixava a Capital, «ia devorando com os olhos os lugares que amava: a Casa Havanesa, a janela do seu quarto, lá em cima no [hotel] Universal [prédio dos Armazéns do Chiado] — que ferro ir-se!»

Rua Garrett |1912|
Antiga do Chiado: a "Ladeira Vaidosa"
A elegância das modistas; Tabacaria Estrela Polar na esquina com a Rua Ivens.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Colocação da estátua de Camões

O monumento consagrado ao immortal poeta Luiz de Camões, está n'esta praça e foi inaugurado no dia 9 de Outubro de 1867. O risco, desenho e esculptura é de Victor Bastos. Tem este monumento desde o solo até ao pedestal 11,48 centimetros. A estatua de Camões tem quatro metros d'alto e foi fundida na fabrica Preseverança. O pedestal do monumento é um octógono de 7,48 centimetros de alto assente sobre quatro degraus. 

Colocação da estátua de Camões |1867|
A estátua, ainda envolta em panos, é parte do monumento erigido a memoria do insigne
poeta na Praça de Luiz de Camões (antigo Largo do Loreto até 1860) Camões (praça de Luiz
de) fica entre as ruas do Loreto, Norte, Gavias, Alecrim, larga de S. Roque, Flores e Horta
Secca; freguezia da Encarnação 1 a 48. [Velloso: 1869]
Colecção Alcídia e Luís Viegas Belchior, in Lisboa de Antigamente

Nos angulos do octogono tem oito plintos em que assentam oito estatuas feitas de pedra lioz, tendo cada figura 2,40 centimetros e são: Fernão Lopes, Corte Real, Pedro Nunes, Vasco Mouzinho, Gomes Eannes, Sá de Miranda, João de Barros e Cantanhede. A praça do nascente ao poente mede 66 metros e de norte a sul 36.
(in Roteiro das ruas de Lisboa e immediações, por Eduardo O. Pereiro Queiroz Velloso, 1869)

Monumento a Luiz de Camões |1867|
Observe-se o gradeamento em volta do monumento e que tanta celeuma causou à época.
Praça de Luís de Camões
Augusto Moreira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 22 de maio de 2022

Palácio do Manteigueiro

Também conhecido como Palácio Condeixa, foi edificado em finais do séc. XVIII (1787). Deve-se ao arquitecto pombalino Manuel Caetano de Sousa o seu plano de construção [Eduardo de Noronha atribui a obra ao arquitecto Altronochi, Milionário. Artista, p.184]. Com uma arquitectura setecentista imponente, o palácio passou de residência a sede da Assembleia Lisbonense (1836) e, actualmente, é ocupado pelo Ministério da Economia.
Leia a agitada história deste celebrado palácio que vale bem a pena.


O Palácio do Manteigueiro, na Rua da Horta Seca à esquina da Rua da Emenda (que foi Travessa do Mel), foi edificado por volta de 1787 por uma curiosa personagem que Lisboa em peso conheceu, um certo Domingos Mendes Dias, transmontano, enriquecido no Brasil com géneros de mercearia, que transitara de aguadeiro a merceeiro, volvido depois em grande negociante de manteigas: daí a alcunha. Este homem — que se não fora a riqueza acumulada não passaria dum ignorado e humilde cidadão, chegou a fidalgo da Casa Real — era de uma sordidez tão engenhosa que fazia servir o jantar dentro de uma gaveta para a fechar rapidamente se alguém aparecesse, levantou, todavia, um palácio maravilhoso com incrível prodigalidade. Foi a sua criação. Morreu deixando toda a fortuna a António Pereira Coutinho, da velha família dos Pereiras Coutinhos, morgado de Vilar de Perdizes, a favor de quem, e querendo mostrar-se de origem fidalga, fizera testamento, com a condição de este se deixar tratar por primo — e o palácio veio a pertencer a João Fletcher, inglês de tanta preponderância na sociedade portuguesa do seu tempo, talvez a partir de 1826, época em que o palácio se transformou num grande centro de reuniões, principalmente da colónia inglesa. Mais tarde, em 1860, passou aos Condes de Condeixa [vd. imagem abaixo]. No segundo ano da República habitou neste palácio o Presidente Manuel de Arriaga.

Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91; possui outro meio de comunicação na Rua das Chagas, onde um portão de ferro, com o n.º 18, abre para um extenso corredor, que liga com o jardim, nas traseiras do edifício, e que servia à criadagem e dava passagem às carruagens.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
 As actuais pedras de armas que coroam a janela de tribuna da entrada do palácio, são da família Condeixa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Domingos Mendes Dias era considerado um dos maiores capitalistas do seu tempo e deixou uma fortuna que, na data do falecimento, foi avaliada em seis e meio milhões de cruzados, correspondentes a dois mil e seiscentos contos de réis. Apesar disso, até ao fim da sua vida, revelou-se um espírito tacanho, peculiar à sovinice de que deu bastas provas. Vivia com uma preta de avançada idade, que lhe preparava os alimentos, tudo do que havia de mais barato.
Devido ao seu feitio miserável, este estranho milionário chegou a ser preso pela ronda, por se tornar suspeito, uma noite em que transportava às costas a fruta verde que apanhara do chão, numa das suas quintas dos arredores. 
Contava-se que, nas longas noites de Inverno, o seu prazer favorito consistia em «formar cartuchos de cem peças de oiro». Jamais soube tirar do dinheiro o bom partido que ele pode dar, esse ricaço asqueroso, que faleceu nos princípios do século XIX (2), em consequência de um ataque de ladrões, à punhalada, pois que, mesmo nessa emergência, achando os gastos exagerados, implorou do médico que o tratava, que fosse mais comedido nos remédios... Da poupança surgiu a gangrena, que o levou como a qualquer pobre de Cristo.

Palácio do Manteigueiro, fachada principal na fase primitiva [c. 1900]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Primitivamente de um só andar, águas-furtadas e dois pisos térreos, de janelas gradeadas,
que o declive do terreno permitiu edificar, correspondendo a loja e sobre-loja, do lado
da Rua da Emenda, tem hoje três pavimentos superiores.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Contrastando com a sua manifesta avareza, o milionário-«manteigueiro» vivia num ambiente de riqueza. Os interiores do palácio eram de um «luxo asiático», expressão de que se serviu Tinop. As quatro salas (branca, vermelha, verde e amarela), com os tectos pintados por Pedro Alexandrino (1730-1810) e ricas portas de madeira do Brasil, estavam forradas de damasco, recheadas de colgaduras e de «Opulenta mobília». Os espelhos eram de boas chapas de cristal e tanto as molduras como os tremós estavam dourados com «peças d'ouro derretidas». O salão de baile, como a sala de jantar, corriam ao longo da fachada virada à Rua da Horta Seca.

Palácio do Manteigueiro, escada nobre [2020]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Fotógrafo Hélder Carita, Tiago Molarinho, in A Casa Senhorial

A Assembleia Lisbonense — também chamada Assembleia da Horta Seca, considerada durante os catorze anos da sua vigência, o melhor centro da plutocracia e da alta política, que constituíam a nata dos partidários da «Carta» — instalou-se em 1836, no Palácio do Manteigueiro; quando para lá foi, mutilou-o de cima a baixo. Mandou arrancar os tectos de excelente madeira de teca, todas as portas e ombreiras de magnifica madeira do Brasil. e vendeu tudo a ferros-velhos: o estuque igualitário destruiu, de vez, a preciosa concepção do velho Altronochi, arquitecto que ali pusera o melhor da sua arte. Ficou um casarão incaracterístico, de gosto duvidoso, mobilado á feição de Poisignon, com todas as chinesices então muito em moda no boulevard dos Italianos.
Por aqui passou, todavia, o que em Lisboa posava e orientava.

Palácio do Manteigueiro, capela [1966]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Desmontado e guardado no Patriarcado de Lisboa, o oratório do palácio constituía  uma das peças mais elaboradas de todo o programa interior.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

No 1.º andar, merece especial referência a linda capela, com rica obra de talha e elegante cúpula, de um só altar, figurando no retábulo a imagem de Nossa Senhora. Não sabemos se é contemporânea das fundações do palácio, ou se teria sido mandada construir pelo visconde de Condeixa. No ano de 1913 instalou-se aqui a sede da Vacuum Oil Company acabando por comprar o edifício em 1920. É esta empresa que realiza as grandes obras do edifício acrescentando um andar nobre ao edifício. Se a morfologia do palácio é assim radicalmente alterada, as escadarias nobres foram preservadas protegendo-se uma estrutura arquitectónica de inequívoco valor estético. Nestas obras é igualmente desarmado o oratório da casa e guardado no Patriarcado de Lisboa.
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Bibliografia
ALMEIDA, Mário de. LISBOA do Romantismo, 1917.
COSTA, Mário, O Palácio do Manteigueiro, in Olisipo, Abril de 1958.
acasasenhorial.org.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Largo do Chiado: vendedora ambulante de fitas-métricas

O vocábulo Chiado — segundo Mário Costa, no seu Chiado Pitoresco e Elegante, 1965 — de efeito sonoro e quase mágico, designa como adjectivo aquele que se revela astuto, ladino, malicioso. No dicionário de Caldas Aulete, chiado, o mesmo que chiada ou chiadeira, quer dizer o ruído provocado pelo acto de chiar, som agudo e desagradável. Há uma hipótese segundo a qual o nome Chiado adviria do ruído carruagens que, séculos atrás, subiam a calçada (ladeira) do Chiado. Alberto Pimentel e Matos Sequeira, olisipógrafos ambos, estudaram a origem do nome Chiado.
Enquanto o primeiro concluiu que ele derivou da existência e modos de proceder de duas figuras excêntricas, alcunhadas de Chiado (Gaspar Dias, o vinhateiro, e António Ribeiro, o poeta chocarreiro), o segundo pesquisador afirmou convictamente que a transmissão de tal nome derivou da popularidade de que gozou o taberneiro na vida que fez em pleno Chiado, no século XVI, vida pública que o levou a tomar larga familiaridade com o chistoso vate, ex-frade franciscano, que em religião usou o nome de fr. António do Espírito Santo.

Largo do Chiado |1960|
Vendedora ambulante de fitas-métricas
Dístico de 1925; antigo Largo das Duas Igrejas ou Praça Do Loreto e antes lugar da Porta (ou Portas) de Santa Catarina, construída na cerca de D. Fernando, entre 1373 e 1375; Igreja da Encarnação.
Arnaldo Madureira, 
in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Semana Santa em Lisboa

Na quarta-feira de Cinzas, os católicos, arrependidos por tantos disparates que teriam cometido durante o Entrudo, iam penitenciar-se às igrejas e saíam à rua, refeitos, com cinza na testa, aplicada pelos sacerdotes. Os agnósticos, ou os mais esquecidos das obrigações, partiam para «fora de portas» a deglutir famosas ementas que faziam parte das cozinhas das casas de pasto dos arredores e onde, naturalmente, havia vinho afamado.

Semana Santa em Lisboa |1907|
Igreja de Nossa Senhora do Loreto no Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Semana Santa, à saída da Igreja do Loreto |1907|
Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

As tipóias carreavam, por estradas hoje desaparecidas debaixo dos arranha-céus, toda uma malta de pândegos que ia afundar em bebedeiras os restos histriónicos dos dias do Carnaval. No António das Caldeiradas, em Belém; no Ferro-de-Engomar e nas Pedralvas, por Benfica, no Perna-de-Pau, ao Areeiro, o Caliça, o Quebra-Bilhas e outros que não nos ocorre, fazia-se o rescaldo da paródia! Acabaria a estúrdia noite alta com fados cantados por gargantas privilegiadas.
Depois do Carnaval, a Quaresma. São cinco semanas de encontro com Deus. Depois a Semana Santa!
Para a canalha miúda eram mais uns dias de férias. Depois da licença, as amêndoas e o folar cheio de ovos. Mas a Semana Santa era algo de solene. Podia-se não ser crente, que família católica impunha já na quarta-feira de Endoenças a gravata preta. Não se discutia. Havia sermões nas igrejas e vasta audiência aos pregadores de maior fama. — Que belo sermão ouvimos hoje! — Os padres, Governo, Farinha e Fernandes de Castro, entre outros, atraíam um público de qualidade. la-se de igreja em igreja para os ouvir!

Semana Santa, à saída da Igreja da Encarnação |1912|
Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Semana Santa, à saída da Igreja da Encarnação [|22-4-1922|
Largo do Chiado
 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Senhoras durante a Semana Santa |1912|
Rua António Maria Cardoso; ao fundo, o Largo do Chiado
Pela Páscoa, na altura da Semana Santa, era tradição o luto carregado, as pessoas vestiam-se de escuro e com discrição.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Quinta-feira Santa era o dia de maior respeito, havia silêncio nas ruas, apesar da multidão que, de luto, visitava as sete igrejas da obrigação. O ar cheirava a rosmaninho que atapetava as entradas dos templos, onde mulheres vendiam raminhos com alfazema e alecrim. Nas pastelarias, cheias de gente, os caixeiros não tinham mãos a medir para aviar as guloseimas.
Naquele tempo, o sábado de Aleluia era uma festa! Desapareciam dos altares os reposteiros roxos, reboavam os sinos no entusiasmo da vida nova! Colaborando no festival de Deus, bandos de pombos eram libertos nas naves das igrejas.
Depois do Concílio foram alteradas algumas normas, mas o Domingo de Páscoa continua a ser a alvorada cheia de luz que a todos enternece e enche de alegria. É o grande dia litúrgico; desapareceram os lutos, desejam-se reciprocamente as Boas-Festas!


Largo do Chiado
Venda do rosmaninho em Quinta-feira Maior [22-4-1922]


Largo do Chiado
Venda do rosmaninho em Quinta-feira Maior
 [18-04-1935]
in Lisboa de Antigamente



Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Rua do Loreto

Luís Pastor de Macedo refere que esta artéria «É uma parte do antigo caminho que ia das Portas de Santa Catarina (Largo do Chiado) para Santos e Alcântara. Brandão na sua "Estatística de 1552" dá-lhe já o nome de rua do Loreto, os sacadores da derrama de 1565 designam-na por rua dr.tª q vay do loreto pª calçada do congro, o cura da Sé, em 1605, por rua direita fora da porta de Sª Cª, e os registos paroquiais da freguesia da Encarnação dão-lhe geralmente a denominação simples de rua Direita, algumas vezes, poucas, a de rua Direita do Loreto e só por acaso rua do Loreto, a não ser em grande parte do século passado e no actual [XIX e XX], em que tanto uma como outra das últimas denominações citadas, foram as únicas empregadas. Depois do terremoto, isoladamente, deram-lhe também o nome de rua Larga do Loreto. 
Esta rua, antes da demolição dos célebres casebres do Loreto (ruínas do palacete dos Marialvas) e portanto antes de se ter feito a Praça Luís de Camões, chegava pelo nascente até à rua Larga de S. Roque, hoje rua da Misericórdia.»
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés a Lés, vol. III, 1942)

Rua do Loreto [1950/60]
Junto à Praça de Luís de Camões
Estúdio Horácio Novais, 
in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG).

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Rua dos Duques de Bragança que foi «da Luta»

A primeira designação desta artéria foi Rua Duque de Bragança. Com a implantação da República passou a Rua da Luta (edital de 18/11/1910) e na década de cinquenta do séc. XX retornou ao nome inicial embora no plural.

Nesta artéria, antiga «da Luta» — num terreno pertencente à Casa de Bragança — foi construído o elegante Teatro D. Amélia, tendo começado as obras em Junho de 1893, e inaugurando-se os espectáculos em 22 de Maio de 1894. Logo depois do advento da República, em 1910, foi o nome do teatro mudado para teatro da República, e mais tarde para teatro de S. Luiz, do título honorífico do seu empresário visconde de S. Luiz de Braga.
Em 13 de Setembro de 1914 ardeu completamente o edifício, tendo sido reconstruido aproximadamente com o mesmo risco, reabrindo em Janeiro de 1916.

Rua dos Duques de Bragança [1913]
Efeitos do assalto ao jornal «A Nação» aquando da revolta monárquica de 21 de Outubro de 1913 dirigida por João de Azevedo Coutinho. Embora prevista também para o Porto, acaba por se restringir à capital com a destruição das redacções dos jornais «O Dia» e «A Nação» e alguns estragos no Museu da Revolução.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Bibliografia
CASTILHO, ,Júlio, Lisboa antiga, 2ª ed., 1937.
cm-lisboa.pt.

domingo, 4 de abril de 2021

Chafariz do Loreto, de Neptuno ou dos Galegos

Já que evocámos o passado seja-nos licito lembrar o celebrado Chafariz dos Galegos, ou seja o Chafariz de Neptuno, que durou até 1859, com a sua estátua daquele «deus», obra de Machado de Castro (1771).
Ao fundo da praça, ao norte, erguia-se um vistoso chafariz, a que frei Nicolau não duvida chamar formosíssimo, com quatro bicas a correr. O chafariz tinha uma estátua de Neptuno (não sei desde que tempo), assim como o do Terreiro do Paço tinha um Apolo.


A nossa atenção vai demorar-se na recordação do antigo chafariz de Neptuno, que tão airosamente compôs este curioso centro urbano, num lapso de tempo que foi de 1780 a 1858. O conjunto arquitectónico dessa obra pública, risco dos arquitectos Miguel Ângelo Blasco e Reinaldo Manuel dos Santos, estava estava coroado pela figura mitológica — deus do mar e das águas, entre os romanos — , de tridente fundido em bronze, conjunto modelado por Machado de Castro, e que a Câmara de Lisboa encomendou em 1771, sendo executado em Itália, em mármore de Carrara. 

Chafariz do Loreto,  do Neptuno ou dos Galegos [c. 1842]
Largo do Chiado, antigo das Portas de Santa Catarina
Era bem curioso este Chafariz, com dois tanques ao rés-da-rua, e outros tanques no plano superior — defendido de platibandas para o qual se subia por uns escadórios. [Araujo: 1939]
Litografia de Charles Legrand

Por Chafariz de Neptuno ou Chafariz do Loreto, se designava, indiferentemente, esse monumento de grande utilidade pública. Possuía quatro tubos de correr água e estavam-lhe adscritas seis companhias de aguadeiros, seis capatazes e cabos, cento e noventa e oito aguadeiros e um ligeiro.
Quando a bonita peça de arte começou a ser desmontada, em Novembro de 1858, formou-se, em seu redor, enorme ajuntamento de povo e esboçaram-se protestos, sendo muitas as solicitações no sentido de que o chafariz fosse transferido para local próximo e acessível. 
O tanque foi levado para a Rua do Tesouro Velho, actual António Maria Cardoso, ajustado ao muro do jardim do palácio do conde de Farrobo, onde se conservou até 1916, e a estátua representativa recolheu ao depósito de águas das Amoreiras. Depois, numa peregrinação sem brilho, saiu dali para o Museu Arqueológico do Carmo [1866], e dos Barbadinhos [1881] para a Praça do Chile [1942]. Finalmente, foi embelezar o pequeno reservatório de água que ocupa o centro do Largo de D. Estefânia [1951], sendo-lhe introduzido um vistoso sistema de iluminação.

Portas de Santa Catarina, actual largo do Chiado [c. 1842]
Chafariz do Loreto,  do Neptuno ou dos Galegos
Assentou o Chafariz do Loreto onde está, sensivelmente, a Estátua ao Chiado, e fez a delícia panorâmica deste Largo em toda a primeira metade de oitocentos, no tempo em que no prédio, que veio a dar a Joalheria do Leitão, havia ainda na esquina um candeeiro «de cegonha» [esq. Araújo: 1939]
Litografia por Charles Legrand

Esse senhor omnipotente deixou um profundo desgosto nos seus leais servidores, um regimento de aguadeiros que, numa rendida e disciplinada vassalagem, prestaram culto à carrancuda figura, que António Pedro Lopes de Mendonça, graciosamente lapidou, «Neptuno de tridente em punho, a pescar galegos».
Essa obra de arte ornamental que o camartelo levou, não foi a que primitivamente se estudara e esteve para ser executada, sob projecto de Carlos Mardel, prospecto muito mais grandioso, como se depreende da estampa inserta abaixo, cujo original se guarda no Museu de Lisboa. Conforme esclarece Matos Sequeira, o modelo «Era do género do lindo chafariz da Esperança, com a sua dupla varanda e o seu pano de fundo, de três corpos, rematado por vasos flordelizados, e ficava encostado ao casario que , depois, Francisco Higino Dias Pereira substituiu pelo seu prédio nobre.» [Palácio do Loreto, ou Pinto Basto]

Frontaria do Chafariz das Portas de Stª Catarina [1752]
O terramoto de 1755 inviabilizou a construção do chafariz de Santa Catarina e o projeto de Carlos Mardel não passou do papel. 
Desenho por Carlos Mardel (1696-1763), in Museu de Lisboa

Alçado e planta do Chafariz do Loreto, com estátua de Neptuno 
O chafariz do Loreto custou vinte e cinco contos de réis. O Neptuno deste chafariz, devido ao cinzel de Machado de Castro, foi pago com a quantia de 2015$000 réis. [Sequeira: 1917]
Imagem publicada in: RAMOS, P. O., EPAL: iconografia histórica, vol. 1, p. 65, 2007

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 100, 1939.
CASTILHO, Júlio de, A Lisboa Antiga, p. 66, 1893.
ANDRADE, José Sérgio Velloso d’ – Memória sobre chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém, e muitos logares do termo, 1851.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 276-277, 1987.
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