Dizer Alcântara na toponímia lisboeta é, só por si, compor um quadro de movimento e de febril agitação bairrista — recorda Norberto de Araújo, o grande enamorado de Lisboa. Alcântara foi um lugar, um sítio; é um bairro, uma zona com individualidade e consciência. Tudo gira em Alcântara: fábricas, oficinas, linhas, ruas — vidas.
O que em Alfama é estático é, em Alcântara dinâmico. Este bairro tem azougue.
O seu pitoresco é de cosmograma. Não existe neste rincão da Cidade nada de contemplativo. Apenas nas Necessidades, com seu jardim, com seu obelisco, com o seu palácio e na sua tapada — mora o repouso. Persiste ali um pedaço de beleza e gracilidade de miradouro. É a mancha aristocrática e requintada do bairro.
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| Praça General Domingos de Oliveira |1965| Remodelação da Rotunda de Alcântara, devido à construção do acesso à ponte sobre o Rio Tejo; à dir. observa-se o antigo Eden Cinema. Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente |
Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. Do tempo velho ficaram e falam deliciosas legendas: Baluarte, Trabuqueta, o Arco, as Fontainhas, a Triste-Feia; a Horta Navia — saudade de Alcântara quinhentista, o Fiúza — reminiscência de Alcântara palaciana, o Sacramento — evocação de Alcântara conventual.
Foram-se os marinheiros rude golpe no coração do bairro! — ; ficou a Praça da Armada com seu Neptuno de tridente no Chafariz. O risonho vale de Alcântara vai-se sumindo, mas nas lombas do Alvito e da Cruz das Oliveiras demora-se a expressão popular campesina que ficou do rústico antigo.
O prédio setecentista cor-de-rosa da quina poente-sul do Largo — pombalino e altaneiro — é com a sua famosa adega do «Sete-e-Sete» — o padrão bairrista de Alcântara [vd. 1.º imagem à dir.]: cinco gerações o contemplaram — sequiosas.
Pequeno mundo alfacinha, vizinho do Calvário, da Pampulha, da Avenida da India — desentranha-se em vida. É o pregão cantante do trabalho. Contido entre a Serra e Tejo, possui a índole atávica de um poeta, a alma rude, nostálgica de um mareante.==
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| Praça General Domingos de Oliveira |1966| Vista tomada da R. da Quinta do Jacinto — onde brincan os ganapos. Ao fundo nota-se o pináculo da torre sineira do Palácio das Necessidades. Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente |
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| Praça General Domingos de Oliveira |1966| Rua de Alcântara (esq-) e acesso à ponte sobre o Rio Tejo- Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente |
N.B. A edilidade lisboeta, através edital de 18/08/1966, presta homenagem ao General Domingos de Oliveira atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]
Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira (1873–1957) foi presidente do Conselho de Ministros em 1920, ministro interino da Justiça, membro vitalício do Conselho de Estado (1949) e oficial-general do Exército. A sua carreira reúne inúmeros louvores e condecorações, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis e a da Ordem Militar da Torre e Espada.
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 142-143, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.





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