Sunday, 31 May 2020

Fonte dos Anjinhos

Este tipo de bebedouro apareceu em Lisboa na segunda metade do século XIX. Era de origem francesa e tinhas características homólogas à famosa fonte francesa — a Fontaine Wallace, e era conhecida pela “Fonte dos Anjinhos”. Colocada na Praça D Pedro IV, foi produzida pela fundição Sommevoire, como consta na sua marca na base, e julgamos que a data da sua colocação terá sido posterior ao ano de 1882, por ocasião da transformação dos passeios laterais da praça, a 17 de Maio de 1882, onde era proposto para a parte central da Praça, uma nova distribuição para os candeeiros que ali se encontravam.

Praça D. Pedro IV [séc. XIX]
A Fonte dos Anjinhos ou Fontanário dos Quatro Anjinhos (assinalada em baixo)
Emílio Biel, in BNF

No Livro Rocio Rossio. Terreiro da Cidade, publicado pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, afirma-se que terá vindo de Paris ao mesmo tempo que as fontes implantadas no Rossio, produto da Fábrica de Fundição do Val D’osne(PC.CML.1999).
(BARRADAS, Mobiliário Urbano de Fundição Artística em Lisboa Oitocentista)

Praça D. Pedro IV [1908]
A Fonte dos Anjinhos ou Fontanário dos Quatro Anjinhos
Joshua Benoliel, in AML

Praça D. Pedro IV [194-]
Fonte dos Anjinhos; Café Nicola
Fernando Martinez Pozal, in AML
Praça D. Pedro IV [1959]
Fonte dos Anjinhos
Armando Serôdio, in AML














Friday, 29 May 2020

Largo das Portas do Sol

Lemos na Gazeta de Nuvens de José Gomes Ferreira: «Tão entranhadamente vivi a vadiagem por esses sítios que contínuo a considerá-los — desculpa, ó Alvalade! desculpa, ó Avenida de Roma! — a Lisboa verdadeira. Uma amálgama barulhenta de varinas, padeiros, homens de burrico, vendedeiras de azeitonas, suor luminoso ligado à caliça da paisagem por raízes de pregões, insultos de vinho fácil, meninas janeleiras à espera de cartinhas de desconhecidos, para namoros de estafermo, quiosques onde, nos intervalos das aulas, íamos comprar os tétés, como no meu tempo de menino chamávamos em Lisboa aos sorvetes, monotonamente fabricados em sorveteiras de manivelas emperradas, vozes roufenhas de tabernas, bêbados nocturnos no seu ritual de danças de insectos em redor de candeeiros — e as marchas de Santo António improvisadas, à última hora, nos pátios sem alegria pré-comandada.

Largo das Portas do Sol [ant. 1901]
Topónimo evocativo da porta da Cerca Moura que ali se abria, é uma reminiscência da cidade medieval.
Machado & Souza, in A.M.L.

Parece ser esta a Lisboa que mais soa, que mais canta e menos berra, que mais entoa e menos buzina. E por entre esses sons se descortinam textos, melodias, ãs vezes poesia.
É a esta Lisboa que eu volto sempre, quando quero encher os olhos de Lisboa.
(FERREIRA, José Gomes (1900-1985), Gazeta de Nuvens, 1975)
 
N.B, Monumentos que se destacam neste Largo, além da magnifica vista sobre o Tejo: Igreja de S. Braz ou de Santa Luzia e Palácio do Largo das Portas do Sol que foi dos Viscondes de Azurara.

Largo das Portas do Sol [pos. 1901]
Topónimo evocativo da porta da Cerca Moura que ali se abria, é uma reminiscência da cidade medieval.
Artur Bárcia, in A.M.L.

Sunday, 24 May 2020

Avenida da República

A Avenida de Berna é um símbolo da implantação da República em Portugal em 1910. Este arruamento das Avenidas Novas começou por ser a Rua Martinho Guimarães, dada pelo Edital municipal de 20/08/1897. Contudo, treze anos depois, com a implantação da República em Portugal, o primeiro Edital municipal após o 5 de Outubro de 1910, com data de 5 de Novembro de 1910, passou a denominar esta artéria como Rua de Berne.

Avenida da República [c. 1960]
Cruzamento com o eixo Avenida de Berna — Campo Pequeno; o edifício de gaveto, assim como, os prédios contíguos, até à Av. Barbosa Du Bocage — foram demolidos nas décadas de 1960-70.
Estúdio Horácio Novais, in F.C.G.

Friday, 22 May 2020

Avenida da República, 45

Moradia construida em 1905 e apeada no final da década de 1960 e inicio da década de 1970, altura em que ocorreram boa parte das demolições de edifícios erguidos no principio do século XX na então denominada Avenida Ressano Garcia. Na esquina diametralmente oposta encontra-se o Palacete Valmor, risco do arqº. Ventura Terra galardoado com o Prémio Valmor de 1906.

Avenida da República, 45 [1964]
Gaveto com a Avenida Visconde Valmor
João Goulart, in AML

Sunday, 17 May 2020

Rua da Bempostinha: a Bemposta Pequena

[...] Castilho — escreve Luís Pastor de Macedo  — depois de nos dizer que em Dezembro de 1705 se achava a rainha D. Catarina da Grã-Bretanha gravemente enferma no Paço da Bemposta, conta: "A essa doença da real Senhora liga-se a seguinte tradição, que alguns repetem: diz-se que foi causa de se abrir a serventia pública chamada hoje Bempostinha. [...] Tudo isso é lenda. Um documento de 1673, que logo citarei, fala já da Bemposta pequena, muito antes que a Rainha aí habitasse, e vinte anos antes que chegasse a Lisboa". [...]

Rua da Bempostinha  [1900]
Perspectiva tirada da Calçada do Conde de Pombeiro
Machado & Souza, in AML

Pela nossa parte diremos que a Bemposta Pequena só nos aparece nos registos paroquiais da freguesia dos Anjos em 1682, e que a denominação de Rua da Bempostinha só a topamos em 1707. Um e outro nome serviram para designar esta artéria até aos fins do século passado [séc. XIX]. [...] Ora se o Lugar da Bemposta quer dizer Rua da Bemposta como aliás parece dar a entender o declarar-se que a travessa corria no sentido norte-sul, não há dúvida, conjugando-se a petição com este passo do auto, que a nossa Rua da Bempostinha se chamava então de S. Boaventura. E temos assim duas serventias com o mesmo nome, nome que teria sido dado ao sítio, talvez quando elas ainda estivessem mal delineadas, e que depois serviu para indicar as duas, e uma delas, às vezes com o contrapeso do adjectivo larga.







Rua da Bempostinha [1900]
Machado & Souza, in AML








Pelo menos é isto que se pode deduzir, sem que no entanto nos demos por satisfeitos. O que já fica averiguado é que a Rua da Bempostinha, ou parte dela, já existia muito antes do ano apontado por Castilho pois em 1611, conforme vimos atrás, já se fazia um reconhecimento de foro imposto numas casas situadas naquela rua.
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Bibliografia
MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. II, pp. 206-209, 1942.

Friday, 15 May 2020

Convento dos Marianos (N. S. dos Remédios)

Aqui temos à esquerda o antigo Convento dos Marianos, e em cuja Igreja está desde há anos instalada a «Presbyterian Church».
O Convento dos Marianos, dos religiosos carmelitas descalços, foi fundado neste sítio em 1606, sôbre chãos que aqui possuíam Vasco Fernandes César e Francisco Soares, foreiros das comendadeiras de Santos-o-Velho; começado a habitar em 1611, recebeu a invocação de N. Senhora dos Remédios. O Terramoto não o abalou muito. Em 1834, pela extinção das Ordens, ficou na Igreja, apenas um capelão, a Cêrca foi alugada e depois vendida, e o Convento passou a servir de aquartelamento e depósito militar. Finalmente a própria Igreja foi posta em venda [em 1898] acabando por ser adquirida por ingleses protestantes [Igreja Evangélica Lusitana].

Convento dos Marianos [post. 1872] 
Rua das Janelas Verdes
Passado o portão de ferro forjado, simples e  forte, seguem de ambos os lados da entrada
desta capela e paralelo ao sentido da rua, a  escadaria que em outro lance, paralelo ao primeiro,
atinge novamente o  centro da construção.
Francesco Rocchini, in AML

A fachada tem, como vês, um interêsse relativo, mas não é trivial: pórtico com três colunas que dão para uma pequena galile, velha tôrre sincira e ausência de cruz ao alto.
Nos claustros o chão é de túmulos, com lousas já de difícil identificação; numa delas se pode ler a data de 1610. Nas paredes das casa, hoje [1938] oficinas, abobadadas, e que há pouco receberam obras, agora vedadas do pátio, podemos ver algumas lápides.¹

Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755, pormenor da Cerca e Convento dos Marianos
Rua das Janelas Verdes
 Os frades carmelitas tornaram-se conhecidos em Portugal pela designação de Marianos por causa do nome do primeiro prior Fr. Ambrósio Mariano de S. Bento.
in Museu de Lisboa

A Igreja, no seu interior, é  sóbria, de linhas simples. É formada e de uma só nave, com transepto, em forma de cruz. No centro eleva-se uma cúpula.  O coro está completamente cortado da Igreja, excepto por uma janela larga.
Havia na Ig1eja, antigamente, sete capelas, com famosos trabalhos de talha e muito bem doirados, na primeira das quais, à direita de quem entra, estava a  imagem da Senhora ido Carmo, e nas outras se adoravam imagens dos santos desta ordem.  As imagens, dizem autores da época, eram de fina escultura e  estavam bem tratadas, não se vendo em parte alguma a mais pequena parcela de poeira, tal era o cuidado e o desvelo dos monges carmelitas.²

Convento dos Marianosus, delimitação do convento e cerca [1856]
Rua das Janelas Verdes
A
delimitação, a vermelho, do convento e cerca extintos em 1834.
Carta topográfica de Filipe Folque, 1857, in A.M.L.
(clicar para ampliar)

Nota(s) No interior da antiga cerca, hoje delimitada por edifícios de habitação, foram construídos diversos armazéns e fábricas, nomeadamente a Companhia Fabril de Loiça (Fábrica Constância), aí instalada desde a sua fundação em 1836.  Mais recentemente alberga também ateliers de arquitectura e artes plásticas.

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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 59-60, 1938.
² DAGGE, Guilherme de la Poer; VARNHAGEN, Adolfo – Convento de Nossa Senhora dos Remédios dos frades Marianos em Lisboa, 1872.

Sunday, 10 May 2020

Profissões de Antanho: o varredor

A Camara Municipal tem, ao cuidado de pelouro especial, muitas carroças que todas as manhãs percorrem a cidade recolhendo o lixo das casas — relata Alberto Pimentel em 1903 —; tem muitos carros de régas, que por ahi andam, em tempo de poeira, refrescandoas calçadas; tem machinas de varrer, um batalhão de varredores e de esguichadores, capatazes e cantoneiros, a quem paga para que as ruas andem limpas de lixo, de poeira e lama. Mas a verdade é que não conhecemos cidade onde, como em Lisboa, o estado das suas ruas inspire tanto nojo ao transeunte.
(Lisboa, Por Alberto Pimentel, 1903, p. 587)

Rua da Junqueira |1927|
Esquina com a Calçada da Ajuda; pastelaria «A Chic (Chique) de Belém»
O varredor (ou cantoneiro), talvez uma das profissões mais antigas de Lisboa
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Friday, 8 May 2020

Quiosque da Ribeira das Naus — situado entre o Corpo Santo e Cais do Sodré — junto aos antigos edifícios do Arsenal da Marinha demolidos na década 1950 para rectificação e prolongamento da Avenida até ao Terreiro do Paço (Praça do Comércio); ao fundo, parcialmente visível, o abrigo de ferro do tempo das carruagens e dos dos cavalos que as puxavam.

Quiosque da Ribeira da Naus [190-]
Avenida da Ribeira da Naus
Eduardo Trindade, in AML

Sunday, 3 May 2020

A Avenida Faz-se, Sobretudo, Ao Domingo

A Avenida faz-se, sobretudo, ao domingo. 
A burguezia em seguida ás missas mais tardias, até ás quatro em que parte em debandada para o jantar de família; das quatro ás seis o mundo official, aquelle de que se falla, que se cita, apregoado nas gazettas, faz annos como toda a gente, está doente como toda a gente, tem, de vez em quando, a sua dèlivrance  — isto é, dá á luz robustas crianças como toda a gente... que as não dê fracas.
O aspecto do local, á hora fidalga, tem uma certa originalidade. Não se parece com cousa alguma com o que ha lá por fora.  
Incontestavelmente tem mais pittoresco, mais extravagancia, mais ruido, mais animação. 
(CABRAL, Carlos de Moura, Lisboa em Flagrante, 1899)

Avenida da Liberdade [séc. XIX]
A Avenida Faz-se, Sobretudo, Ao Domingo-
Fotógrafo não identificado, in AML

Era dia de festa, e a Avenida tomava o lugar do antigo antigo Passeio Público. Mas não apenas nos dias de festa, pois, bem cedo, a Avenida veio substituir o Passeio e «fazer a Avenida», sobretudo aos domingos, tornara-se num hábito lisboeta. Curiosa descrição do domingo lisboeta dá-nos a Ilustração Portugueza de 18 de Novembro de 1912, recordando que, «emquanto o povo vae d'assalto às hortas arrabaldinas ou nas excursões economicas, a meia burguezia invade a Avenida e o Campo Grande».

Avenida da Liberdade [post. 1894]
O povo aguardando pelo inicio do concerto musical junto coreto.
[...] sentam-se nos bancos ouvindo a banda regimental, que relembra com as suas musicas as tardes do Passeio Publico.
Artur Bárcia, in AML

Contra a nova Avenida insurgira-se Ramalho Ortigão que, em 1874, escrevia nas Farpas: «O projecto do boulevard do Rossio ao Campo Grande é de uma concepção bem triste e pretensiosa (...) O boulevard não serve senão para espalhar os maus habitos do café e do trotoir, o amor da ostentação, a ociosidade, o boulevardismo, a cocotice, o luxo pelintra da toilette [Ortigão: 1943]

Avenida da Liberdade [1898]
Comemoração do IV Centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia
[...] com as suas musicas as tardes do Passeio Publico. (...) enquanto os pares e os ranchos desfilam n'esse passo cadenciado e proprio do que já se convencionou chamar: fazer a Avenida.
Fotógrafo não identificado, in AML

Mas fez-se a Avenida — o grande sonho de Rosa Araújo (1840-1893), então presidente da Câmara — , a tal grande alameda arborizada ao estilo do boulevard à francesa, concebida como um prolongamento do Passeio Público. Inaugurada em 1886, a nova Avenida toma o lugar do Passeio, do qual herdara algumas árvores e estatuária e, tal como o Passeio, veio a constituir-se num novo importante espaço de convívio público.

Avenida da Liberdade [1898]
Comemoração do IV Centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
JANEIRO, Maria João , Lisboa: histórias e memórias, 2006.
Illustração Portugueza de 18 de Novembro de 1912.

Friday, 1 May 2020

Rua da Mouraria com a Rua do Capelão

Ora aqui estamos no fim do [rua] Capelão. E aí temos, à entrada — que para o nosso caso é saída  — a maior expressão típica urbana do sítio: êsses dois prédios pegados, n.° 6-8 do Capelão, já a voltar para a Rua da Mouraria, com andares de ressalto e um conjunto curiosíssimo. Nos baixos existe uma locanda, hoje «arranjada» e que teve tradições no bairro, não muito lisongeiras, quero crer.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 71, 1938)
 
Rua da Mouraria com a Rua do Capelão |c. 1910|
«A Tendinha da Mouraria»
Joshua Benoliel, in A.M.L.
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