Monday, 31 August 2015

Relógio da Rotunda do Aeroporto

Primitivamente designada por Praça existente no local em que se encontram a Avenida Alferes Malheiro, a Avenida do Aeroporto, a Estrada de Sacavém e outros arruamentos, o presente nome foi-lhe atribuído por edital da Câmara de 17 de Fevereiro de 1947. Na reunião de 3 de Fevereiro desse ano tinham sido apreciadas duas informações da Secção de Escrivania da Câmara Municipal de Lisboa, que expunham a conveniência da atribuição de um nome ao prolongamento da Avenida Almirante Reis e que terminava no Aeroporto de Lisboa (actuais Avenida Almirante Gago Coutinho e Alameda das Comunidades Portuguesas) e da praça formada pelo cruzamento desta com a Avenida Alferes Malheiro. Os nomes escolhidos na altura foram Avenida do Aeroporto e Praça do Aeroporto.

Relógio da Rotunda do Aeroporto [1967]
João Brito Geraldes, in AML

No centro da praça encontrava-se uma pequena zona ajardinada, cujo tratamento paisagístico incluía um relógio mecânico integrado num mostrador horário feito de plantas. Daí o nome popular de Rotunda do Relógio. Desde a construção de um viaduto de ligação da Segunda Circular à Avenida Marechal Gomes da Costa (prolongamento desta até ao Tejo) quando da realização da Exposição Mundial de 1998, deixou de existir, encontrando-se hoje em dia apenas um elemento escultórico em forma de relógio de pulso voltado a Sul, centrado com o eixo da Avenida Gago Coutinho. De notar que a posição e orientação do viaduto faz com o mesmo possa ser interpretado como "ponteiros" do relógio.

Café Martinho da Arcada

«O Café-Restaurante «Martinho da Arcada» é o mais antigo de Lisboa, pois data de 1782. Era então a «Casa da Neve», mas logo dois anos depois se intitulava «Casa de Café Italiana», e pertencia a Domingos Mignani; pertenceu, já no decorrer adeantado do século passado [XIX], a Martinho Bartolomeu Rodrigues (e dai o nome de Café-Martinho «da Arcada», por oposição ao Martinho, no antigo Largo de Camões, ao Rossio, e que foi fundado, mais tarde, pelo mesmo Rodrigues). O estabelecimento, que até há pouco tempo mantinha uma aparência discreta de oitocentos, foi remodelado no ano passado [1937] por Alfredo de Araújo Mourão, seu proprietário desde 1925.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 29. 1939(

Praça do Comércio [centre 1903-1908]
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House
O local não se encontra identificado pelo fotógrafo.

Este café tornou-se famoso por ter sido frequentado por Fernando Pessoa, mas também teve como clientela Lopes Mendonça, Afonso Costa, Manuel da Arriaga, Bernardino Machado, França Borges, Cesário Verde, António Botto, Augusto Ferreira Gomes e António Ferro. O chamado Grupo do Orpheu assentou arraiais no café e Almada Negreiros aí declamou o seu Manifesto Anti-Dantas.
Em 1782, quando abriu ao público vendia bebidas e sorvetes. Também se adquiriam neste estabelecimento os bilhetes para as seges que faziam o percurso entre o Terreiro do Paço e Belém.
Este café foi classificado imóvel de interesse público.

Praça do Comércio [1942]
Eduardo Portugal, in AML

Palácio dos Arcos

Apesar de o Palácio dos Arcos ser muitas vezes associado à constante presença de D. Manuel I, o Venturoso e sua filha, nesse local, há ainda um outro facto que o faz ficar ligado eternamente à história de Portugal. Reza a tradição que foi das varandas do Palácio dos Arcos que D. Manuel I viu partirem as naus e caravelas portuguesas a caminho da Índia. Mais tarde, também outros reis de Portugal (D. Fernando, D. Luís e a rainha D. Maria Pia) se deslocavam constantemente a este Palácio para, entre outras coisas, poderem assistir às célebres regatas de Paço de Arcos.

Largo da Alcáçovas; Rua Costa Pint0 [c. 1919]
Garcia Nunes, in AML

O Palácio dos Arcos foi construído nos finais do século XV, pertencendo inicialmente a Antão Martins Homem que era o segundo capitão da Vila da Praia. Mais tarde, o Palácio dos Arcos viria ser reedificado, durante o século XVIII. No ano de 1698, D. Teresa Eufrásiade Meneses criou o morgadio de Paço de Arcos, do qual o Palácio dos Arcos fazia parte.
Depois, D. Teresa Eufrásia de Meneses, passou a deixar o legado do morgadio a D. Jorge Henriques, o Senhor das Alcáçovas. Muitos anos depois, o Palácio dos Arcos foi adquirido pela família Lencastre, cujo brasão ainda se encontra exposto na varanda do edifício. Da estrutura inicialmente edificada, o Palácio dos Arcos conserva ainda os dois torreões unidos por uma larga varanda que é sustentada por três arcos. O Palácio dos Arcos mantém ainda uma capela com um altar barroco, que foi dedicado desde o início a Nossa Senhora do Rosário.Actualmente o monumento é  um hotel de charme. (in historiadeportugal)

Sunday, 30 August 2015

Abrigo e bilheteira do Ascensor da Glória

Fazendo a ligação entre a Av. da Liberdade/Restauradores e a Rua de São Pedro de Alcântara/Bairro Alto é, actualmente, o ascensor mais movimentado da cidade, transportando cerca de três milhões de passageiros por ano. Construído pela Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, segundo projecto de Mesnier du Ponsard, e inaugurado em 1885, foi, entre os elevadores de Lisboa, o pioneiro da tracção eléctrica, instalada em 1914.

Ascensor da Glória [1927]
Calçada da Gloria; Rua das Taipas, tornejando para o Largo da Oliveirinha; Travessa do Fala-Só
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal 'O Século'

Inicialmente, locomovido por contrapeso de água, recorreu, mais tarde, ao vapor, enquanto que as viagens nocturnas eram iluminadas por velas de estearina. Construído por dois carros, ligados por um cabo subterrâneo,que sobem e descem alternada e simultaneamente ao longo de duas vias de carris de ferro, foi o único que proporcionou aos utentes lugares no tejadilho - a chamada «Imperial» - onde se acedia por uma escada de caracol. Em 1926 tornou-se propriedade da Carris. O Ascensor da Glória e o meio urbano que o envolve está classificado como Monumento Nacional.

Ascensor da Glória [1931]
Calçada da Gloria; Rua das Taipas, tornejando para o Largo da Oliveirinha; Travessa do Fala-Só
Eduardo Portugal, in AML

Saturday, 29 August 2015

Praça da Alegria - A Feira da Ladra e o Palácio Azul

Afirma o mestre olisipógrafo Norberto de Araújo «que «a Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; a razão porque a Basílica de Santa Maria Maior era a detentora de grande parte dos domínios directos por aqui, não na sei. Lisboa está cheia de lapides fcreiras à «Basilica», a «S. M. M.», à «See».
Os prédios por aqui datam, os mais antigos, do princípio do século passado, ou da agonia do século XVIII, e a maioria dêles são de 1840-1850. (...)
Cabe aqui dizer-te, Dilecto, ou lembrar-te, que um tempo houve - ainda isto por aqui mal povoado andava (em 1778 havia apenas oito prédios formais de feição pombalina) - em que êste largo ou praça se chamou «do Suplício». Uma certa Dona, Izabel Xavier Clesse, alem de atraiçoar seu marido, o marcante Tomaz Goilão, lembrou-se de - o envenenar. Foi neste local enforcada em 31 de Março de 1771. O povo durante três anos designou a Praça pelo sucesso que a infamara; depois, esqueceu-se.
Oferece uma certa curiosidade na sua fisionomia e desenho o prédio do lado nascente, caindo sôbre o Sul, n.°' 9 a 11, no qual está instalada a esquadra da Polícia «da Alegria» que teve há anos a sua sede na Rua das Portas de Santo Antão.
Foi êste o famoso «Palácio Azul», de que muito se falava (apenas por estar pintado de azul) há cem anos.. Construiu-o, pouco mais ou menos em 1796, D. Álvaro de Távora, Conde de S. Miguel, que casou com D. Luiza de Pilar de Noronha, filha dos Condes dos Arcos; em 1832 foi Quartel do Estado Maior General, e no ano seguinte sede dos Conselhos de Guerra. Em 1840 pertencia a propriedade ao Barão de Alrneirim, pai de Anselmo Braamcamp Freire, que nesta casa nasceu; em 1845 sofreu transformações que não lhe alteraram o curioso semblante. E ai está hoje quási como há cem anos, no seu exterior.» 
(in «Peregrinações em Lisboa», Norberto de Araújo, vol. XIV, p. 29)
 
Feira da Ladra na Praça da Alegria (1809-1818) da autoria de Nicolas Delerive
Actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga

 Ainda de acordo com o mesmo autor «a Feira da Ladra (ou da Lada?), é um mercado lisboeta que remonta ao século xII, e cuja avó foi aquela que se realizava, um dia por semana, no Chão da Feira, ao Castelo, com carácter muito diverso do que oferece hoje. Em 1430 estava no Rossio; onde perdurou até ao Terramoto, passando depois para as antigas hortas de Valverde (Praça da Alegria de Cima), mas irradiando depois, por abuso dos feirantes, até aos Restauradores de hoje. Em Fevereiro de 1823, transferiram-na para o Campo de Sant'Ana, de onde após cinco meses de mal contente pousio voltou para o Passeio Público (Alegria). Em Maio de 1835, tomou para Sant'Ana, onde esteve até Abril de 1882, que foi quando a Câmara a fêz rodar para êste Campo de Santa Clara, por poucos dias, é certo, pois os feirantes protestaram, talvez por ficar longe, tornando a Feira a Sant'Ana. Finalmente - decorridas apenas algumas semanas - em l de Julho de 1882, velha Feira da Ladra teve em definitivo seu lugar marcado neste sítio, e em Santa Clara se conserva desde há cinqüenta e sete anos.» 
(in «Peregrinações em Lisboa», [1938-39] Norberto de Araújo, vol. VII, pp. 72-73)

[Inscrição na gravura] «Vista da antiga praça da Alegria, com a feira da ladra; aguarella comprada* por 1:000 reis ao saloio Aniceto da quinta das Córtes aos Olivaes em 22 de Fevereiro de 1882.»
*terá sido adquirida pelo Visconde Júlio de Castilho (nota constante no AML)

Friday, 28 August 2015

Elevador de São Julião (actualizado)

O elevador do Município, também conhecido como elevador da Biblioteca ou elevador de S. Julião, foi o sétimo elevador a ser construído em Lisboa. A sua construção foi financiada pelo Dr. João Maria Ayres de Campos. O seu autor foi o famoso Eng. Raoul Mesnier de Ponsard, o mesmo do Elevador de Santa Justa. À semelhança deste último, também subia na vertical a uma altura de 29,6 metros até ao primeiro pavimento, do qual saía um viaduto à altura de 20 metros sobre a Calçada de São Francisco. Foi Inaugurado em 1897 e funcionou até 1915 e a estrutura foi desmantelada em 1920, sendo substituído pelo carro eléctrico da Rua da Conceição – Calçada de São Francisco - Camões.

Elevador de São Julião [post. 1920]
Calçada de São Francisco
Eduardo Portugal, in AML

A entrada fazia-se pela porta de uma residência particular, o n.º 13 de Largo de S. Julião, e a saída fazia-se igualmente por outra residência particular, pelo terraço do Palácio do Visconde de Coruche, no então Largo da Biblioteca (hoje Lg. Academia de Belas-Artes, 13).

Torre Elevador de São Julião [1932]
Largo Academia de Belas-Artes
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Este elevador ficou ligado à intentona de 28 de Janeiro de 1908, conhecida como Golpe do Elevador da Biblioteca, em que conspiravam carbonários, republicanos e dissidentes progressistas. Foram presos António José de Almeida, Afonso Costa, Álvaro Poppe e mais suspeitos, num total de noventa e três conspiradores.

Alçados do project do Elevador de São Julião [s.d.]
Dois alçados do projecto da instalação de um ascensor com uma passadeira metálica superior que liga o Largo da Biblioteca Pública com a Praça do Município. O primeiro alçado [esq.] é descrito como: "vista em elevação perpendicularmente a um plano contendo os eixos das duas torres". Ao nível do Largo do Município está escrito: "casa das máquinas de gás e das bombas", que aparece representada no respectivo alçado. Também estão indicados: nível do Largo da Biblioteca; o 4º andar da habitação da sra. Street (nível a que passa uma passadeira metálica que liga as duas torres); Calçada de S. Francisco; nível do Largo do Município; 29.50 m (altura a que está instalada a passadeira superior). O segundo alçado é descrito como: "vista em elevação segundo uma linha que passa pelo eixo das duas torres". Também estão indicados: nível do Largo
da Academia de Belas-Artes; Calçada de S. Francisco; nível do Largo do Município; o 4º andar da habitação da sra. Street.
 in Ascenseur Município-Bibliotheca á Lisbonne [Material cartográfico

Calçada de São Francisco

Esta Calçada começa no Largo da Academia Nacional de Belas Artes e vem em declive bastante acentuado até à Rua Nova do Almada onde termina. É terceira calçada mais íngreme em Lisboa que «deixa até os motores dos eléctricos a rebentar pelas costuras» (Appio Sottomayor).

Calçada de São Francisco [c. 1953]
Judah Benoliel, in AML

A Calçada de S. Francisco relembra o primeiro convento de franciscanos em Lisboa chamado de «Cidade de S. Francisco», que se situava no antigo Monte Fragoso, como era conhecida a colina sobranceira ao Tejo. Este convento, como o próprio nome indica, era bastante vasto, indo desde a Rua Capelo ao Largo da Academia Nacional de Belas Artes e da Rua Ivens à Rua Serpa Pinto. Dois incêndios destruíram parcialmente o convento e o terramoto de 1755 acabou por o arrasar completamente. [in cm-lisboa.pt]

Calçada de São Francisco [c. 1953]
Judah Benoliel, in AML

Thursday, 27 August 2015

Rua dos Fanqueiros

Esta rua denominava-se Rua da Princesa antes Rua Nova da Princesa (decreto de D. José, 5 de Novembro de 1760) e nela ficaram arruados os «Mercadores de Lançaria ou Fancaria, destinando-se os sobejos della se os houver, às lojas de quinquilharia.»

Rua dos Fanqueiros [1947]
Eduardo Portugal, in AML
Rua dos Fanqueiros [1947]
Eduardo Portugal, in AML

Panorâmica da zona da Alameda D.Afonso Henriques

Monarca português (c.1108-1185), foi o primeiro rei de Portugal, governou entre 1128 e 1185. Era filho de D. Henrique de Borgonha e de D. Teresa de Aragão. Em 1128, no campo de S. Mamede (Guimarães), venceu os partidários de sua mãe e assumiu o governo. Em defesa do trono conquistou Santarém (1147) e, com a ajuda dos cruzados, a cidade de Lisboa (1147). Alargou depois as suas conquistas a Évora e a Beja.

Encimada pelos edifícios do Instituto Superior Técnico a Alameda D.Afonso Henriques, com 120 metros de largura, desce num vale e subindo novamente fecha condignamente com a Fonte Monumental. Ao longo dela ergueram-se, entre os anos 1936 e 1946, um conjunto de blocos de habitação. A Fonte Monumental além de valorizar os edifícios do Técnico, vinha proporcionar um excelente miradouro da obra realizada.

Panorâmica da zona da Alameda D.Afonso Henriques [post. 1929] 
Em último plano, o Instituto Superior Técnico e, mais abaixo, a Av. Almirante Reis. 
Pardal Monteiro, in AML

O conjunto arquitectónico do IST, foi concebido como uma "Acrópole" sobre o vale da avenida Almirante Reis e num dos extremos da Alameda Dom Afonso Henriques. O arquitecto foi Porfírio Pardal Monteiro, tendo sido inaugurado em 1935. O conjunto dos sete edifícios é exemplo importante do Modernismo Português e representa uma segunda fase na obra de Porfírio Pardal Monteiro onde a simplificação das formas e quase ausência de ornamentação são características fundamentais.

Wednesday, 26 August 2015

Calçada do Carmo

«A Calçada do Carmo, que foi Calçadinha do Carmo, rasgou-se na encosta dos terrenos do Convento, para onde as habitações dos Carmelitas tinham face poente.É uma rampa, onde de pitoresco - vulgar pitoresco - existe apenas esse Beco da Ricarda que em cotovelo morre na Rua do Duque.»
in «Peregrinações em Lisboa», Norberto de Araújo, vol. VI, p. 79)

A «Ginginha», Calçada do Carmo, 37-A [1945]
Fernando Martinez Pozal, in AML

A «Ginginha» da Calçada do Carmo abre as suas portas em Lisboa em meados dos anos 30, propriedade de Abílio Teixeira. Funcionou desde os anos 30 até aos anos 60 do século passado. Este estabelecimento colocava à disposição dos seus clientes produtos ao gosto dos lisboetas, durante mais de três décadas. Entre eles contam-se o licor de ginja, vinhos, vinhos generosos, e refrescos.

Calçada do Carmo [1945]
Calçada do Duque
Fernando Martinez Pozal, in AML

Sobre a origem do topónimo Calçada do Duque e da Rua do Duque afirma o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo o seguinte: «A Rua da Condessa de Cantanhede, freguesia do Sacramento, (...) é a actual Rua do Duque, depois de ter sido também designada Rua de D. João Coutinho e Rua dos Galegos. Um fidalgo de primeira plana começa a aglomerar propriedades. É o Conde de Cantanhede, D. Pedro de Meneses, Alferes-mor de D. Manuel, senhor de Tancos e de Atalaia. Compra as casas que Rui de Sousa Cid adquirira a Leonardo Àlvares e, em breve o veremos adquirir outras propriedades próximas, na rua que ia do Postigo para o Carmo, e que veio a chamar-se mais tarde, pelo nome da sua terceira mulher, a Condessa de Cantanhede D. Guiomar. Foi assim que nasceu a rua, sucessivamente chamada de D. João Coutinho, dos Galegos, e do Duque».  in «Lisboa de lés-a-lés»

«Café Lisboa-Bar»,  Calçada do Carmo [1967]
Calçada do Duque
Vasco Gouveia de Figueiredo, in AML

Tuesday, 25 August 2015

Beco de São Miguel, antigo Beco dos Mortos

«Como as casa são apertadas e escuras, aquela gente vive na rua. D'ai a legião enorme de garotos, semelhante a formigueiros, que enxameia o bairro. Trabalha-se, cozinha-se, lava-se e cose-se á porta de casa. [...] No pateo do Penereiro, por exemplo, um sapateiro batia sola sobre o joelho, duas mulheres, sentadas no lageado, remendavam uma vela de lona, emquanto uma outra ainda estendia nas cordas alguns trapos encardidos. No beco do Almotacé, nas soleiras das portas, as mulheres cozinhavam e cosiam, cantando e conversando umas com as outras

Lisboa miserável. Como se vive em Alfama. Uma visita áquele centro domicilia-rio de operarios miseravelmente pagos, de vagabundos,famintos e gatunos. (in O Século, Lisboa, p. 1, 21 ago. 1912)

Beco de São Miguel [c. 1910]
Crianças em Alfama
Joshua Benoliel, in AML

E Beco dos Mortos porquê?
S. Miguel Arcanjo que significa: "Quem como Deus?" é o defensor do Povo de Deus no tempo de angústia, o padroeiro da Igreja universal e aquele que acompanha as almas dos mortos até o céu.
[contributo do nosso leitor João Sales Pinot]

Beco de São Miguel [c. 1900]
Escadinhas de São Miguel
Fotógrafo não identificado, in AML

Monumento ao Duque de Saldanha

No ano de 1889, no reinado de D. Luís, foi decretado pelas Cortes Gerais o “levantamento” de um "monumento" em homenagem a João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha de Oliveira Daun (1790-1876), 1.º conde, marquês e duque de Saldanha.
Esta estátua colossal foi inaugurada apenas em 1909, pelo rei D. Manuel II, na presença de descendentes do duque de Saldanha, do vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Anselmo Braamcamp Freire, de vereadores, dos membros da comissão encarregue de erigir a obra e outras individualidades.
Esta peça é composta por um pedestal quadrangular concebido em calcário de lioz, ladeado por colunas com capitéis canelados. Na parte superior desta estrutura assenta a estátua pedestre, em bronze, do marechal e duque de Saldanha, representado em uniforme militar completo, numa postura enérgica e vigorosa, própria de um chefe militar.

Praça Duque de Saldanha [1909]
Inauguração do monumento ao Duque de Saldanha
Paulo Guedes, in A.M.L.

Na face frontal do pedestal está colocada uma estátua alegórica “vitória alada”, em bronze, empunhando uma espada. Nas outras faces existem outros elementos decorativos, entre eles, o Brasão Real, rodeado por uma coroa de ramos de louro e carvalho; três medalhões simbólicos, referentes à vitória na Guerra Peninsular (1808-1814), às Campanhas de Montevideu (1816-1823) e às Campanhas da Liberdade (1826-1834); assim com três festões de folhas.
As esculturas e todos os elementos ornamentais em bronze foram executados na fundição de canhões do Arsenal do Exército entre 1904 e 1907. [cm-lisboa.pt]

Praça Duque de Saldanha [1909]
Inauguração do monumento ao Duque de Saldanha
Paulo Guedes, in A.M.L.

Monday, 24 August 2015

Companhias Reunidas de Gás e Electricidade

Com armazéns arrendados na «Praia da Boavista» desde 1847, a «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz» possuía, em 1852, cinco gasómetros e duas baterias de fornos. Entre 1875 e 1877 mandou construir a fachada neogótica que ocultava as instalações da fábrica do lado do Aterro da Boavista. A Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz (fábrica da Boavista) e a Companhia Gaz de Lisboa (fábrica em Belém) fundem-se, em 1891, passando a designar-se Companhias Reunidas de Gás e Electricidade - C.R.G.E., Inicia-se, assim, um ciclo de produção de gás de cidade, igualmente conhecido como gás iluminante, que vem beneficiar a população, melhorando as suas condições de vida em vários níveis.

Avenida 24 de Julho [193-]
Kurt Pinto, in AML

A iluminação a gás inaugurou-se em Lisboa em Julho de 1848, com os primeiros 28 candeeiros, nas ruas da Baixa (Rua dos Capelistas [hoje dos Fanqueeiros], Rua do Ouro e Rua da Prata), no Chiado, na Rua do Alecrim, no Cais do Sodré, em S. Paulo e na Boavista.  
[in Lisboa: histórias e memórias, Maria João Janeiro, 2006, p. 130]

Avenida 24 de Julho [Inicio séc. XX]
Fotógrafo não identificado, in AML

No dia 10 de Outubro  de 1914 uma violenta explosão na casa das caldeiras da Fábrica do Gás, localizada na Rua da Boavista, provocou 18 mortos, cerca de 60 feridos e elevados danos materiais. Este trágico acontecimento deu origem a severas críticas acerca da localização de tão perigoso equipamento numa zona tão densamente povoada da cidade.
A cobertura que a revista Ilustração Portuguesa deu a este acontecimento pode ser aqui revisitada.

Rua da Boavista [1914]
Incêndio no edifício da Companhia de Gás e Electricidade
Joshua Benoliel, in AML

Sunday, 23 August 2015

Observatório Astronómico do Paço da Bemposta

Também conhecido por posto astronómico e geodésico da escola de guerra, ou simplesmente como era conhecida a torre do relógio, situava-se em frente ao Paço da Bemposta,  ou o palácio da Rainha D. Catarina de Inglaterra, que no século XIX era a antiga escola do exército e da Guerra, hoje Academia Militar.
Esta escola tinha funcionado na Politécnica mas em meados do século XIX foi transferida para este novo espaço e houve a necessidade de se construir um observatório astronómico para se complementarem os estudos científicos dos futuros militares.
De planta quadrada, no seu interior uma escada em caracol dá acesso ao primeiro andar, onde se encontra o relógio e o seu mecanismo, seguindo-se um segundo e terceiro andar e a cúpula onde se faziam as observações astronómicas.
Actualmente inactivo faz parte do património do Exército e mais concretamente da Academia Militar.(exercito.pt)

Paço da Rainha [c. 1910]
[Antigo Largo da Escola do Exército, antes Largo General Pereira de Eça]
Joshua Benoliel, in AML

Igreja e Convento de Nossa Senhora da Penha de França

A primeira ermida  (Alto da Penha de França) com esta invocação surgiu na sequência de um voto efectuado em Alcácer Quibir pelo imaginário António Simões. A sua construção iniciou-se em 1597-98. Em 1601 foi entregue aos eremitas calçados de Santo Agostinho. Entre 1625 e 1635 foi edificado um novo templo, em substituição do anterior. No século XVIII a igreja sofre nova campanha de obras, concluídas em 1754 que ficariam bastante danificadas pelo terramoto no ano seguinte, sendo de seguida reconstruída com o apoio do marquês de Marialva. Já no século XX passa a Igreja Paroquial. 

Panorâmica da Penha de França tirada da Rua Morais Soares [Início séc- XX]
Paulo Guedes, in AM.L.
 
A fachada principal da igreja, toda em cantaria de calcário, desenvolve-se em 3 planos e 3 corpos distintos, marcados por dois contrafortes com pequenos nichos. No corpo central, vazado situa-se a escadaria monumental de acesso ao templo. Sobre o vão rematado com arco abatido, e ao nível do 3º piso janela de sacada que abre para bacia com balaústres, suportada por mísulas. O conjunto e encimado por cartela com emblema da Ordem de Santo Agostinho. Ao nível dos corpos laterais, portas de verga recta no embasamento, sobrepujado por vão em arco de volta perfeita e grande janela no 3º piso. No enfiamento do plano central, pano de muro vazado por óculo sendo o conjunto rematado por frontão triangular, coroado com cruz de ferro e fogaréus de cantaria, sobre acrotérios. O acesso ao interior faz-se através de escadaria, que acede a nartex.

Largo da Penha de França [1949]
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

O interior é de planta axial. A nave possui altares laterais (3 de cada lado) intercalados por portas e janelas de peito, no nível superior. Púlpitos em cantaria e cobertura efectuada por abóbadas com trabalho em estuque e pintura. Na fachada tardoz torre sineira e grande registo de azulejo. Por sua vez, a construção do Convento data do século XVII sendo Teodósio de Frias o arquitecto responsável pelo seu traçado. Em 1700 possuía 40 religiosos. O edifício conventual situa-se contiguamente ao alçado principal da igreja, organizando-se em 3 andares separados por frisos de cantaria. Ao nível do piso térreo, vãos de portas e janelas, que nos superiores passam a janelas rectangulares de verga destacada, que no último piso são de menores dimensões e sobrepujadas por óculos. Possui claustro rectangular, com arcos de volta perfeita ao nível do piso térreo, e janelas de sacada de verga recta no sobre claustro. O convento possui grande variedade de revestimentos azulejares, com exemplares desde o século XVII, policromados, século XVIII com painéis historiados e de figura avulsa. Destaca-se o revestimento da antiga cozinha conventual. Como a igreja, todo o conjunto sofreu danos em consequência do terramoto de 1755. 
A Igreja e edifício do antigo Convento de Nossa Senhora da Penha de França, incluindo o seu património integrado encontram-se Em Vias de Classificação. [cm-lisboa.pt]

Largo da Penha de França [1949]
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

Saturday, 22 August 2015

O Pátio (bairro) do Biaggi, às Amoreiras

Leite de Vasconcellos (1858-1941), na sua "Etnografia", fala-nos assim dos chamados bairros operários:
«Desprovidos quase sempre de qualquer tipo de instalações sanitárias e de abastecimento de águas, os pátios não dispunham de condições de salubridade mínimas, ao que acrescia a sua localização térrea, exposta assim às humidades, e à ausência de radiação solar, por se encontrarem ensombrados, muitas vezes em caves atrás de prédios.»

O Pátio (bairro) do Biaggi, às Amoreiras [ant. 1930]   
Eduardo Portugal, in AML     

Na segunda metade do século XIX os «pátios» tornaram-se uma forma dominante de habitação popular em Lisboa. Em 1905 havia 233 «pátios» em Lisboa, com um total de 2278 habitações e alojando 10487 pessoas. 
[Caeiro da Matta-Estudos Económicos e Financeiros III, Habitações Populares, Imprensa da Universidade Coimbra, 1909]

Panorâmica tirada da Mãe de Água sobre as terras do Biaggi vendo-se a abertura da futura rua Dom João V [1944]
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Friday, 21 August 2015

Livraria Bertrand

 «Viúva vestida de seda preta geriu livraria no século XVIII»

 
Uma mulher a conduzir o destino de uma livraria no final do século XVIII não será o mais habitual na história literária, mas aconteceu em Lisboa, naquela que ostenta hoje o título de mais antiga do mundo. Invariavelmente vestida de seda preta, Marie Claire Rey Bertrand passou a liderar, sob a designação «Viúva Bertrand e Filho», o negócio de família depois da morte do seu marido, Jean Joseph.

Livraria Bertrand, Rua Garrett [séc. XIX]
Fotógrafo não identificado, in AML


Em 1753, o francês formara com o seu irmão, Pierre, a sociedade «Irmãos Bertrand», herdeira do estabelecimento fundado 21 anos antes por Pedro Faure na Rua Direita do Loreto, em Lisboa. Mais de 280 anos depois, a Bertrand mantém-se no Chiado – na Rua Garrett.

Por ali passaram e ficaram, em conversa de amigos ou em acesas tertúlias, Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Antero de Quental e Ramalho Ortigão.
Em 2011, o Guinness World Records reconheceu a Livraria Bertrand do Chiado como a mais antiga do mundo em funcionamento.(fonte(s):Bertand Editores;DN-Inês Banha)

Livraria Bertrand, Rua Garrett [s.d.]         
Fotógrafo não identificado

Quinta da Rabicha

Nesta quinta, que pertenceu à família do conselheiro Hintze Ribeiro, Presidente do Conselho no reinado de Dom Carlos, existia um dos famosos "retiros das hortas", particularmente celebrado por Bulhão Pato, Fialho de Almeida, entre outros. O passeio às hortas, ao domingo, era um hábito dos lisboetas e aí confraternizavam nobres e fadistas.
Eis o que nos diz, sobre esta quinta, Bulhão Pato nas suas «Memórias»:
«[...] A Quinta da Rabicha era pequena e em forma de triângulo. Toda colmada de um odorífero e viçoso pomar, que dava primorosas laranjas. Água abundante e corrente. [..]
«Na Rabicha, o sumptuoso hotel, ao ar livre, debaixo de um parreiral, ao pé do tanque, sempre transbordando de água, fornecia as pescadinhas de rabo na boca, ovos duros, queijo saloio, pão de Belas, alface repolhuda, a verdadeira alface lisboeta, que nem a de Rom lhe dá de rosto. Era um banquete. Um cruzado novo - 480 réis - sobrava para quatro homens comerem e beberem à farta.» (Pato, Bulhão, «Memórias», pp. 67-68)

Quinta da Rabicha [c. 1912] 
Aqueduto das Águas Livres e ponte da Rabicha
[Ficava debaixo do arco grande do Aqueduto e foi cortada pelo caminho-de-ferro de Sintra que ali chegou em 1885]

Paulo Guedes, in AML

Thursday, 20 August 2015

Imprensa Nacional, descendente da Impressão Régia

Criada por Alvará de 24 de Dezembro de 1768, a Impressão Régia, também chamada Régia Oficina Tipográfica, só a partir de 1833 passou a ser designada Imprensa Nacional.
Para dar início à sua laboração, foi adquirida a oficina tipográfica de Miguel Manescal da Costa e o palácio de D. Fernando Soares de Noronha, à Cotovia, na então Rua Direita da Fábrica das Sedas, quase defronte do Colégio dos Nobres [actual Escola Politécnica], mas com entrada pela Travessa do Pombal, actual Rua da Imprensa Nacional. O palácio foi comprado em 1816, pelo preço de 18 contos de réis. Em 1895, o velho edifício, considerado inadequado para as necessidades de um estabelecimento fabril em contínuo desenvolvimento, começou a ser demolido, para dar lugar ao actual. A obra, que decorreu por fases, ficou concluída em 1913.

Imprensa Nacional em construção, não existindo ainda a fachada principal virada à Rua da Escola Politécnica, como se pode ver nesta foto de 1911.
Joshua Benoliel, in AML

 À Impressão Régia foi, nos termos do Alvará de 1768, «unida a fabrica dos caractéres que até agora esteve a cargo da Junta do Commercio», fundada em 1732 por Jean de Villeneuve. Este francês viera para Portugal chamado por D. João V para ensinar a sua arte. Foi-lhe cometida a «continuação do ensino de aprendizes da mesma fabrica de letra, para que não faltem no reino os professores desta utilissima arte».
[...]
Mais tarde, entre 1802 e 1815, teve este cargo o célebre gravador Francesco Bartolozzi, chamado a Lisboa pelo então presidente do Real Erário, D. Rodrigo de Sousa Coutinho.

Rua da Escola Politécnica, 135-137 [post. 1913]
[Rua do Noronha; Rua da Imprensa Nacional]
Joshua Benoliel, in AML

Chafariz de Belém no antigo Largo do Chafariz, actual Largo dos Jerónimos

Como a água da nascente do Chafariz da Bola diminuiu, a Câmara decidiu em 28 de Maio de 1846 construir um novo chafariz em Belém, no sítio do Chão Salgado. Ligou-se para esse efeito a velha mina à nova mina numa distância de 124 braços e procedeu-se à reforma de 240 palmos do antigo encanamento, sendo este prolongado até ao Chão Salgado, mais 924 palmos.

Chafariz de Belém, Rua de Belém [1939]
Eduardo Portugal, in AML

Este novo chafariz foi projectado por Malaquias Ferreira Leal, sendo inaugurado em 4 de Abril de 1848, às 12h12 minutos. Encheu o primeiro barril o criado do Sr. Domingos Fernandes, morador em frente ao chafariz, n.º 46. Os quatro golfinhos eram do chafariz do Campo Santana e foram executados por Alexandre Gomes. Toda esta obra custou 9:325$900 réis. Era também designado por chafariz n.º 23 de Belém. Tinha em meados do século XIX quatro bicas, uma Companhia de Aguadeiros, um capataz e trinta e três aguadeiros. Em 1940, aquando das Festas da Fundação da Nacionalidade [Exposição do Mundo Português] este chafariz foi transferido para o Largo do Mastro, local onde ainda hoje permanece.

Chafariz de Belém, Rua de Belém [ant. 1939]
José Chaves Cruz, in AML

Wednesday, 19 August 2015

Convento das Trinas do Rato (Convento das Trinitárias de Campolide)

O convento - que tinha a invocação de N. Senhora dos Remédios - foi fundado em 1633, por Manuel Gomes Elvas para recolhimento de senhoras de linhagem, e em número de 40, como revela a lápide de 1637, que se encontra sobre o portal maneirista. Instalado num local, considerado como zona de retiro, o edifício confinava com os terrenos dos padres oratorianos da Congregação de São Filipe de Neri. Teve como principais mecenas e responsáveis pela conclusão das obras, Manuel Correia de Lacerda  e Luís Gomes de Sá e Meneses, por alcunha «O Rato», que deu o nome ao recolhimento e ao actual largo. A decoração da igreja e do convento deveu-se à acção de D. Tomás de Almeida, 1º Cardeal Patriarca  de Lisboa, responsável também pela criação da actual freguesia de Santa Isabel. O traço arquitectónico do convento ainda se mantém já que o terramoto de 1755, pouco o afectou. Salienta-se o conjunto maneirista da capela-mor da igreja, em pedraria lavrada, com pinturas alusivas à Paixão de Cristo.

Convento das Trinas do Rato, fachada principal, Largo do Rato, [c. 1900]
Alberto Carlos Lima, in AML

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo  «o edifício, que pelo Terramoto alguma cousa sofreu, sendo prontamente reparado, foi reconstruído em 1885 pelo arquitecto Luiz Caetano Pedro de Ávila; em 1937-1938 novas transformações sofreu na fachada, desaparecendo então o ante-pátio fronteiro, que fôra  o terreiro do «Jôgo da Péla›, peculiar nas clausuras, e que chegara aos nossos dias transfigurado em serventia pública (ainda em 1936) com a esquadra, a taverna do «João do Canto›, e casas de habitação.»

Convento das Trinas do Rato, fachada principal, Largo do Rato, [1968]
Armando Serôdio, in AML

Calçada Nova de São Francisco

A Calçada Nova de São Francisco que vai do meio da Rua Nova do Almada em escada até à Rua Ivens, tal como a mais antiga Calçada de S. Francisco, advém do primeiro convento de franciscanos lisboeta fundado em 1217, que era conhecido como "Cidade de S. Francisco", nomeadamente pela sua vastidão já que abrangia desde a Rua Capelo ao Largo da Academia Nacional de Belas Artes e, da Rua Ivens à Rua Serpa Pinto.
 
Calçada Nova de São Francisco [Início séc. XX]
Vendedor ambulante de fruta
Fotógrafo não identificado, in AML

Dois incêndios (em 1708 e em 1741) destruíram parcialmente o convento e o terramoto de 1755 acabou por o arrasar completamente. Os frades sobreviventes mudaram-se para Campolide, para as Quintas dos Padres Quentais e de D. Helena, pelo que ficou o local conhecido como Alto de S. Francisco.

Calçada Nova de São Francisco, [1960]
Fotografia tomada do interior da livraria «Coimbra Editora». A escultura no interior «A leitura», é de Helena Matos
Artur Pastor, in AML

Tuesday, 18 August 2015

Rua Voz do Operário

A Rua Voz do Operário, situada nas Freguesias de S. Vicente e da Graça, é um topónimo que foi atribuído por deliberação camarária de 11 de Fevereiro de 1915 e edital municipal de 14 de Outubro de 1915, no arruamento até aí designado por Rua da Infância.
Com esta atribuição a vereação republicana procurou consagrar a Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário, fundada em 1879 e sediada nesta artéria desde 1913.[cm-lisboa.pt]

Rua Voz do Operário [c1902]
Quartel de Sapadores Bombeiros, erigido em 1890-1891
Machado & Souza, in AML

Este arruamento foi aberto na antiga Quinta da Abelha, nos princípios do último quartel do séc. XIX e por deliberação camarária de 22 de Novembro de 1880 foi-lhe dado o nome de Rua da Infância, o qual segundo o olisipógrafo Vieira da Silva ( «Lisboa Antiga», vol. VII) se deve ao facto de, no n.º 19 daquela rua se ter inaugurado em 1877, uma das casas da Sociedade das Casas de Asilo da Infância Desvalida, então chamada Asilo de S. Vicente.

Chafariz da Rua da Infância [c. 1900]
Machado & Souza, in AML

Nesta antiga Rua da Infância, tornejando a Travessa de São Vicente, ficava situado o Chafariz da Infância — de data de construção e autor desconhecidos. Terá sido demolido cerca de 1912 para dar lugar à actual sede da «Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário».

Localização do chafariz na antiga Rua da Infância em 1890

Algés

«Algés é um dos vários topónimos que na zona de Belém atestam a presença da ocupação árabe. Durante a Idade Média, era um reguengo que incluía toda a zona até à Junqueira. Mais tarde, com o desenvolvimento dos transportes, esta zona foi sendo absorvida pela expansão da cidadein Bellem/Belém, Reguengo da Cidade

«Vae construir-se muito brevemente em Algés ao norte da estrada real uma nova praça de touros.
Consta-nos que será um vasto e bem construido circo. O seu custo está orçado em cinquenta contos de rèis.
A praça fica n’ un sitio magnifico de onde se disfructa um lindo panorama de terra e mar – muito accessivel e para onde ha transportes faceis, commodos e baratos. Por tudo isto será ella ‘preferida à do Campo Pequeno para onde os transportes são difficeis e caros
in «A Gazeta de Oeiras», nº28, de 5 Novembro de 1893

Em 5 de Outubro de 1893 era assim noticiada na imprensa regional,a construção da Praça de Touros de Algés. Construída por um grupo de socios do Real Clube Tauromáquico é inaugurada a 23 de Maio de 1895 com capacidade para 7500 espectadores. Demolida na década de 1960.

Praça de Touros de Algés (à dir.) e Parque Anjos (em baixo à esq,) [1930]
Manuel Barros Marques, in AML

O Parque Anjos foi construido - sobre chão que fora dos Condes de Cabral - pelo abastado industrial e comerciante Policarpo Pecquet Ferreira dos Anjos, proprietário do Palacete Anjos ao Príncipe Real e do Palacete Anjos aos Restauradores. É constituído pelo Palácio Anjos, datado de finais do século XIX, um dos mais emblemáticos edifícios históricos do Concelho de Oeiras e uma referência da arquitectura de Veraneio de Algés e por uma paisagem envolvente caracterizada por uma variedade riquíssima de espécies botânicas. Actualmente alberga o Centro de Arte Colecção Manuel de Brito, contendo um importante espólio de arte contemporânea do País, reunido pela família de Manuel de Brito ao longo de décadas, podendo ser agora apreciado pelo público.

Monday, 17 August 2015

Palacete Seixas

Em 1900 estava em adiantada fase de edificação o que vem a ser denominado o Palacete Seixas situado num talhão de grande área de terreno na extremidade direita da Avenida da Liberdade, a contornar a Praça Marquês de Pombal e com acesso na retaguarda pela Rua Rodrigues de Sampaio. O projecto, de que se desconhece o autor, teve como primeiro responsável Alberto Pedro da Silva e, posteriormente, Guilherme Francisco Baracho.

A promotora de construção foi D. Carmen Grazilla Castilho da Rocha, mas já em 1908 ele é vendido ao industrial Carlos Seixas (l873-?) – homem de cultura e mecenas de muitos artistas como Sousa Pinto, Carlos Reis, Columbano, Falcão Trigoso, Silva Porto, José Malhoa, entre muitos outros – que promove, nos primeiros anos, algumas alterações: uma garagem com entrada pela Rua Rodrigues Sampaio, n.º 113, um galinheiro e uma estufa. É de admitir que estaria praticamente concluída naquela data.

Palacete Seixas [post. 1908]
Avenida da Liberdade, 270; Praça do Marquês de Pombal, 18
Fotógrafo não identificado

A elegância dos tramos marcados pelas duplas pilastras terminadas no primeiro andar por capitais compósitos, o par de janelas de volta perfeita geminadas, que se abrem de cada lado do gaveto e os óculos iluminantes abertos na cobertura amansardada configuram-lhe uma matriz classicizante de sintaxe arquitectónica com ressonância no ecletismo francês do final do séc. XlX. 

O mirante que lhe rematava a clarabóia central na sua configuração de minarete islâmico é dissonante à estrutura arquitectónica, mas a sua estilização de coreto em miniatura, assentava com aceitável leveza e registo poético no remate geométrico da cobertura. Em Setembro de 1948, um violento incêndio destrói parcialmente o 2.º andar, o sótão e a cobertura.
É desde 1997 propriedade do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e alberga o «Instituto Camões». Integra a Zona da Avenida da Liberdade que se encontra Em Vias de Classificação.

Bibliografia
José de Monterroso Teixeira

instituto-camoes.pt

Rua de Serpa Pinto, antiga «da Leva da Morte»

Esta Rua de Serpa Pinto, no trôço que desce do Largo do Directório [actual Largo de São Carlos] até à confluência do Ferregial e Vítor Cordon, é de dístico recentemente reposto. Nesta rua em 16 de Outubro de 1918 foi fuzilado numa escolta em que, com outros prisioneiros, era conduzido, não se sabe para onde, o Visconde da. Ribeira Brava, aplicando-se-lhe, e a alguns companheiros, a célebre «lei das fugas»
No ano de 1924 a artéria passou a ser oficialmente chamada «da Leva da Morte», lúgubre designação que mais tarde foi convertida em Rua 16 de Outubro. Há dois anos regressou à designação de Serpa Pinto, em prolongamento desta artéria que, atravessando o Chiado, vem desde o Largo Rafael Bordalo Pinheiro. A artéria, quando foi aberta, recebera o nome de Rua Nova dos Mártires.

Rua Serpa Pinto,  antiga «da Leva da Morte» [1918]
Local onde foi que foi encontrado numa valeta, degolado por um golpe de baioneta o Visconde da Ribeira Brava
Joshua Benoliel, in AML

O episódio sinistro que ficou conhecido como «Leva da Morte» nasceu da eclosão em Coimbra, no dia 12 de Outubro, de uma revolução constitucionalista contra o poder do Presidente-Rei Sidónio Pais. O Governo decretou o estado de sítio e encheu as prisões  de presos políticos, na sua maioria gente do Partido Republicano Português. Ao final da tarde de 16 de outubro,  os 153 detidos no Governo Civil de Lisboa, rodeados por 253 guardas,  saíram do edifício para rumarem à estação de comboios do Cais do Sodré, para serem transferidos para os fortes de São Julião da Barra, Alto do Duque e Caxias, num cortejo estranhamente encabeçado por corneteiros e tambores. Quando a coluna chegou à Rua Vítor Cordon soou um tiro e, a partir daí desencadeou-se um forte tiroteio com os guardas a disparar quase à toa em todas as direcções. A rua ficou atapetada com 7 mortos entre os quais um dos famigerados mandantes do regicídio de 1908, o Visconde de Ribeira Brava, e 60 feridos (31 presos e 29 guardas). Na época, a  versão que pareceu mais óbvia foi a de que o massacre fora preparado pela polícia sidonista e daí a necessidade dos tambores e das cornetas para avisar quem do exterior iria intervir.

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 17, 1938)
(SANTOS, Miguel Dias, A contra-revolução na I República, 1910-1919)
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