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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Pátio do Pinzaleiro

Esta abertura do Pátio do Pinzaleiro — diz Norberto de Araújo —, que tem o seu eirado no começo das Janelas Verdes, não possui pitoresco algum. [Araújo: 1938]

Não se conhece a origem do topónimo desta pequena serventia que liga a Av. 24 de Julho à Calçada de Santos/Janelas Verdes. Sabe-se, no entanto, pelo "Anuario del comercio de 1908", que neste local terá residido um tal Domingos Pinzaleiro conhecido na capital por possuir uma empresa de carruagens de aluguer: coupés, landaus, etc. É, pois, provável que o topónimo derive do nome deste afamado morador.
[Machado: 1998]

Pátio do Pinzaleiro |1946|
Ao cimo espreita o antigo palácio dos Condes de Murça na Calçada Ribeiro Santos (antiga Rampa de Santos). 
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

domingo, 10 de maio de 2026

Beco da Formosa e Pátio do Prior

Formoza (beco da) segundo à esquerda na rua de S. Miguel, indo do largo de S. Miguel e finda no beco das Cruzes, freguezia de S. Miguel 2 a 20 e 1 a 19.
Prior (pateo do) fica no beco da Formosa, freguezia de S. Miguel 1 a 11. Nota: A entrada é no beco da Formosa n. 15. [Velloso: 1869]

O casal que, mão na mão, vem a sair do Beco da Formosa, que desemboca à nossa esquerda, são Karl Faller e a sua misteriosa acompanhante, do romance «Parlando (2001)», de Bodo Kirchhoff .
Os dois chegaram em breve à rua que ficava por cima da esbranquiçada confusão de vielas de Alfama e no cimo de uma escadaria fortemente inclinada, que levava à barafunda de casas e ruelas, ela disse subitamente «Eu vou por aqui», como se aquele atalho fosse só dela, agradeceu o almoço e logo, logo, desatou a correr escada abaixo. Não pude fazer nada, só pude segui-la com o olhar, até ela, lá em baixo, virar para o interior de um beco, como se nunca ali tivesse estado, e eu arranjar forças ou ânimo para voltar a segui-la. 

 

Beco da Formosa e Pátio do Prior em 1946 e 1962
À esq. vemos Alfama antes da remodelação realizada na década de 1960 e, à dir., depois daquela. Ao cimo nota-se o Beco das Cruzes.
Imagens por Fernando Pozal e Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

 

Lancei-me pela escada, a dois ou três degraus de cada vez, corri todo o beco, tão estreito que uma pessoa podia tocar em ambos os lados, mas ela já lá não estava, ali só estavam mulheres que vendiam avulso peixes com formas de serpentes, e eu corri ainda mais para o interior de Alfama – «onde há sempre alguém, em qualquer lugar, a martelar ou a serrar, como se o bairro inteiro fosse um nunca mais acabar de pessoas a fabricar ou consertar qualquer coisa; no cruzamento de duas vielas logo a seguir, uma delas com o nome de «da Formosa», inesquecível nome, apanhei-a finalmente, e ela disse «Pois bem, seja», deu-me a sua mala para que eu a levasse e em troca pegou na minha pasta e na minha mão.
De mão na mão, de forma estranhamente sensata, como se houvesse a modalidade de desporto «andar-de-mão-na-mão», percorremos o tortuoso Beco da Formosa e chegámos a uma praça que era uma espécie de pátio interior com uma igreja lá metida à pressão.==

Beco da Formosa e Pátio do Prior |1962|
Alfama antes da remodelação realizada
na década de 1960.

Salvador Fernandes, in Lisboa de Antigamente
Beco da Formosa e Pátio do Prior |1966|
Alfama depois da remodelação realizada
na década de 1960.

Eduardo Gageiro, in Lisboa de Antigamente












sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Calçada Conde Penafiel: antigo pátio do Lindim (ou Landim) (actualizado)

Observa daqui aquele renque de casitas modestas, defendidas da Calçada por cortina de ferro — antigo pátio do Lindim — , e que oferecem certo pitoresco. Debruçam-se, jeitosamente, sobre a serventia em curva; tal como aquela outra casa pequenina, na Travessa da Mata, pitoresca pela lei dos contrastes, estão certamente condenadas a desaparecer. [Araújo: 1938]

Calçada Conde Penafiel |1901-07-18|
Antigo pátio do Lindim (ou Landim) 
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

As barracas de que falámos há pouco, construídas em toda a encosta sobranceira ao actual Largo do Correio-mor, deram origem à formação de vários pátios. O maior, que se situava no local onde hoje campeia — numa reminiscência triste um renque de modestíssimas casas, foi, durante muitos anos, conhecido por pátio do Lindim (ou Landim), nome que adveio certamente do apelido do seu proprietário, pessoa que sabemos ter residido próximo, nas escadinhas de S. Crispim, no prédio n.º 11. [Andrade: 1945]

Calçada Conde Penafiel |1959|
Antigo pátio do Lindim (ou Landim) 
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 12 de junho de 2022

Rua do Açúcar, 16: Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão

No início da Rua do Açucar, alinha-se um conjunto de habitações destinadas a operários. Destacam-se o Pátio do Beirão, nascido a partir do solar da antiga Quinta do Bettencourt. A Rua do Açúcar é um topónimo cuja data de atribuição se desconhece mas que será seguramente a partir do século XVI, já que a denominação deriva, como refere Ralph Delgado, de uma refinaria de açúcar existente nesta rua, num dos prédios colocados a seguir à segunda Quinta da Mitra. Esta indústria era pertencente, em 1763, a um súbdito inglês, Christian Smith que morava na Quinta do Bettencourt, e ainda existia em finais do século XVIII (quando integrava o morgadio do Esporão), como nos refere a obra Pelas Freguesia de Lisboa – Lisboa Oriental. [cm-lisboa.pt]

Rua do Açúcar, 16: Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão [1967]
Antiga Direita do Açúcar
Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

Da refinaria não subsistem vestígios. Sucessivamente arrendada, a quinta acabou por ser ocupada por trabalhadores das fábricas, mantendo o portal setecentista como testemunho do seu passado nobre.

Rua do Açúcar, 16: Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão [1967]
Antiga Direita do Açúcar
Palácio Bettencourt / Pátio do Beirão, portal setecentista
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

domingo, 15 de dezembro de 2019

Escadinhas da Barroca e Pátio do Salema

Entremos pelas Escadinhas da Barroca  — que não tem escadinhas!, [Homessa! Tem e não são poucas no troço que leva à Tv. de Sant'ana— caríssimo Norberto de Araújo] e iniciemo-nos em pitoresco.
Contempla este prèdiozito, n.ºˢ 10 e 12, expressivo, como uma aguarela congeminada por artista de olisiponense fantasia. Lisboa sobrepõe-se, em todos os sítios e bairros; uns pedaços há que não aderem ao urbanismo, nem sequer do século passado — e muitos havemos de encontrar. Este é um deles. [...]

Escadinhas da Barroca, 10 e 12  |c. 1900|
Arruamento que liga o Largo de São Domingos à Travessa de Santa’ana e ao qual aparecem 
já referências em 1755, nomeadamente como “rua da Barroca das Escadinhas” devendo a sua
origem à proximidade ao Palácio da Barroca que a partir de 1777 se designava
por Palácio do Galvão.
José Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Entra-se agora no Pátio do Salema, cujo lado poente é constituído por casas encostadas e pertencentes ao Palácio Almada: é este Pátio um recanto sombrio, que tem ao fundo um umbral do vizinho Convento da Encarnação, e que nos mostra apenas uma edificação sólida mas decrépita: o prédio n.° 4, de portal de certa vista, onde, antes da proclamação da República, existiu uma associação republicana, que deu local às famosas «reuniões do Pátio do Salema», areópago de idealista.¹

Pátio do Salema (Escadinhas da Barroca) |1939|
Alguns pátios transformaram-se em via pública, tais como os do Almotacé, do

Conde de Soure, do Salema, do Salgueiro, do Silva e Cruz, do Tijolo.
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

¹ Em 1864, foi fundado no Pátio do Salema um centro republicano, donde saiu o Partido Reformista, que foi, por assim dizer, a guarda avançada do Partido Republicano. Era o denominado «Clube dos Lunáticos». Servia como ponto de encontro dos idealistas que em 1848 tinham acreditado na possibilidade de mudança de regime, onde se encontravam em torno de António de Oliveira Marreca, Gilberto Rola, Francisco Maria de Sousa Brandão, José Elias Garcia, Saraiva de Carvalho, Bernardino Pinheiro e Latino Coelho.
_____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 12-13,, 1938.
Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», Vol. 17, 1942.

domingo, 20 de outubro de 2019

Pátio do Marechal

Por trás do quarteirão, à esquerda desta Rua [do Barão], passa a Travessa das Merceeiras, que teve em tempo saída, pelo hoje Pátio do Marechal, antigamente Rua deste nome que levava da Alfama (Porta de S. Pedro) até S. Martinho (Rua do Arco do Limoeiro hoje Rua de Augusto Rosa); a muralha que antecedeu estes prédios, foi construída em 1837.
Aqui, quási ao fundo desta Rua, ainda à esquerda, defronte da face norte da Igreja de S. João da Praça, é que existiu a fábrica de massas, que um incêndio devorou, e que se propagou ao templo, pela Capela-mor, [...]

Pátio do Marechal [1901]
Travessa das Merceeiras
Machado & Souza,in Lisboa de Antigamente

O Visconde de Castilho julga que os vestígios de muralha, que se notam ainda no paredão Norte da actual Travessa das Merceeiras, próximo do Pátio do Marechal, seriam os.embasamentos que sustentavam o palácio dos condes de Vila-Nova, cuja frontaria e pátio deitavam cá em cima, do outro lado, para defronte de S. Martinho.

Pátio do Marechal [1903]
Travessa das Merceeiras
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 40-41, 1939.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga. Segunda Parte. Bairros Orientais, vol. IX, 2ª edição Revista e ampliada pelo autor e com anotações do Eng. Augusto Vieira da Silva, 1936.

domingo, 9 de setembro de 2018

Pátio de D. Fradique e Palácio Belmonte

Um recanto aberto, impregnado de melancolia, é este do Pátio de D. Fradique. Nado e criado à sombra do Castelo, passagem do Chão da Feira para o Menino Deus, este Pátio tem qualquer cousa de original na Lisboa do pitoresco urbano. De seu título ele evoca um D. Fradique Manuel, que teve aqui casa, e da qual advém o Palácio dos Condes de Belmonte, senhores no sítio, cujo pórtico brasonado de Figueiredos e Cabrais, se abre numa lateral do primeiro compartimento [vd. 2ª foto].¹

 

Pátio de D. Fradique [ant. 1938]
Portal de acesso ao pátio de D. Fradique na Travessia do Funil, 12; [Rua do Chão da Feira]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Uma curiosidade lisboeta é este Pátio de D. Fradique. Ele constitui o prolongamento natural do Chão da Feira, que acabamos de ver com a sua Porta de S. Jorge e os seus dois cubelos circulares decorativos, e do qual se passa ao Contador Mor através de três serventias curtas e estreitas: as travessas de S. Bartolomeu, do Chão da Feira, e do Funil, está já contígua ao Pátio. [...]
Contém-se o "sítio" numa área pequena que abre com um portal simples, aqui no topo do Chão da Feira, e fecha com outro na Rua dos Cegos; este recinto logo da entrada é que constitui propriamente o Pátio, pois que o recinto mais largo, passado o arco ou passadiço, bem pode chamar-se um terreiro, como dantes se chamou "Hortas de D. Fradique".

Palácio Belmonte no pátio de D. Fradique «de Cima» [1907]
Portal nobre do solar dos antigos senhores da Ota e de Belmonte,  janela central da 
fachada sul encimada pelas armas dos Figueiredos  — cinco folhas de figueira, em aspa,
em campo rodeado da legenda «Pro Deo et Pro Patria. P.N.A.M»
Travessa do Funil, 12; à direita
observa-se o passadiço, de acesso ao terreiro ou Pátio
de D. Fradique «de Baixo»
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Este recinto, no seu todo, constitui serventia pública de passagem, com portas sempre escancaradas, embora seja de propriedade particular.  
Quem deu nome ao Pátio? Supôs-se, com certa verosimilhança, que fosse um D. Fradique de Toledo, comandante general das tropas de Filipe IV, de Espanha, e comandante geral de uma esquadra saída de Lisboa, e que, em 1625, tomou a cidade da Baía aos holandeses.

Pátio de D. Fradique [1907]
A antiga "Porta de D. Fradique" é hoje um passadiço abobadado (com 22 metros 

de comprimento por 3 e meio de largura) que liga os dois pátios:
o Pátio «de Cima» (Palácio Belmonte) e o Pátio «de Baixo» ([Pátio de D. Fradique).
Pode ver-se no topo do passadiço, de lado a lado, um oratório/capela
dedicado a Nosso Senhor do Livramento
, ali colocado em 1878 e por onde se
chegava pelas duas escadas laterais que se vêem na foto.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Este D. Fradique, Marquês de Valdueza, tinha um irmão, D. Fernando, homem de ruins fígados, que foi, aqui no Castelo, comandante dos presídios castelhanos, os quais situados na Praça Nova deitavam sobre a área do actual Pátio; D. Fradique talvez aqui tivesse morado, e tem-se escrito que ele próprio foi comandante dos presídios.  
Parece, porém, incontroverso que o D. Fradique, que deu nome ao local, tivesse sido D. Fradique Manuel, em 1518 moço fidalgo do Rei Venturoso, pois é certo que antes do domínio espanhol em Portugal já a este Palácio, «senhor» do Pátio, andava ligado o nome de «Fradique».²

Pátio de Dom Fradique «se Baixo» [c. 1940]
A fachada do Palácio Belmonte virada para o rio e para o Pátio d«e Baixo», evidencia as sobreposições e acrescentamentos a que o edifício foi submetido ao longo dos séculos, destacando-se o amplo terraço, sobre uma casa térrea do Pátio de D. Fradique «de Baixo», guarnecido de uma fina balaustrada, ao centro da qual blasona a pedra de armas dos Figueiredos e Cabrais

 O caminho à esquerda conduz ao portal na Rua dos Cegos
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Com efeito no meado do século XV, um corregedor de Lisboa, Brás Afonso Correia, possuía neste sitio uns terrenos e casas que comprara (1449) a um Aires da Silva, e meio século depois (1508) adquiriu à Câmara mais um pedaço de chão e quintal. Esta propriedade de Brás Correia, que foi instituída em cabeça de vinculo pelo mesmo Brás em 1520, situava-se no que veio a ser depois o Pátio de D. Fradique «de Cima», que é aquele onde se rasga o portal do palácio.
Foi no final ainda do século XVI o no começo do século XVII que um descendente do corregedor do Lisboa (Rui de Figueiredo?) teria dado às suas casas quinhentistas, encostadas ao muro da Alcáçova, a forma apalaçada que em parte ainda hoje ostenta, no Pátio «de Cima». Em 1684 um descendente do fundador da Casa, Pedro de Figueiredo Alarcão, comprou umas casas e hortas, contíguas ao seu palácio pelo Nascente (Pátio de Baixo), ao 4.º Conde de Atalaia, D. Luís Manuel de Távora, quarto neto de um D. Fradique Manuel, descendente em linha directa, por bastardia, de um D. João Manuel, bispo de Ceuta e capelão mar de D. Afonso V, e filho natural do Rei D. Duarte.

Pátio de D. Fradique «de Baixo» [1968]
 À esquerda vê se parte final da fachada sul do Palácio Belmonte; o carreiro à direita conduz ao portal na Rua dos Cegos [vd. foto seguinte]
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Fora aquele D. Fradique o transmissor de seu nome ao Pátio «de Baixo», denominação também atribuída a uma porta da Cerca Moura, situada onde existe hoje o corredor abobadado que faz ligação com os dois pátios [vd. 3ª foto], ou, melhor com os dois recintos do Pátio de D. Fradique, e ainda às «Hortas de D. Fradique». Desapareceram pois os Manuéis (Atalaias) desta sitio, ficando toda a propriedade unida no vinculo dos Figueiredos (1684), no Pátio de D. Fradique. O Palácio sofreu pelo Terramoto (era então de Rodrigo António de Figueiredo Alarcão) bastantes estragos, cujas obras de restauro o devem tem em parte desfigurado. Andou depois, em vários períodos, arrendado totalmente, quer na sua parte nobre quer suas dependências modestas.
O seu maior interesse histórico-arqueológico reside no facto de nele estarem integrados, e com nitidez, elementos de muros da Alcaçova e das torres e muralhas da Cerca Moura.³

Pátio de D. Fradique «de Baixo» [1961]
Portal na Rua dos Cegos, 44
 Ao fundo vê-se o Palácio Belmonte e passadiço abobadado que liga os dois pátios
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

No interior do Palácio Belmonte cumpre salientar as salas temáticas, os tectos apainelados ornamentados e o património azulejar. Classificado como Imóvel de Interesse Público é, actualmente, uma unidade hoteleira (Palácio Belmonte, no Pátio «de Cima» [vd. 1ª foto]. O Pátio de de D. Fradique «de Baixo» é propriedade da edilidade e encontra-se em ruínas (e ao abandono).⁴
____________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, Vol. III, p. 47-48, 1938.
² idem, Legendas de Lisboa, p. 186, 1943.
³
idem, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, pp. 39-41, 1947. 
⁴ monumentos. pt; igespar.pt.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Pátio da Pascácia, da Sociedade ou das Laranjeiras

Eis-nos na Rua de Santa Cruz [do Castelo] — na companhia de mestre Norberto de Araújo —, onde podes notar esse prédio [...] dos três representativos do Castelo; é o n.° 74. Guarda exteriormente um certo aspecto, e tem também um pequeno pátio, «das Laranjeiras», sem nenhuma expressão. A fachada acusa restauro dos fins do século XVIII, e na traseira nota-se uma varanda, muito decorativa, guarnecida de azulejos policromos [vd. 2ª imagem], tal um terceiro pavimento solto do edifício.

Casa nobre na Rua de Santa Cruz do Castelo, 74 |1954|
Varanda guarnecida de azulejos policromos
Fernando Martinez Podal, in Lisboa de Antigamente

A escada marca o tipo reedificador do fim do século do Terramoto, com os seus dois arcos, um dos quais abre para a escadaria, de silhares de azulejo. As salas eram belas; têm sido desprovidas do seu encanto ceramista. [...] Foi dêste edificio, sede de um clube local que aqui já não existe, que saíu em 1935 a «Marcha do Castelo», uma das quinze organizações bairristas que animaram as festas de Lisboa por essa época. ¹

Casa nobre na Rua de Santa Cruz do Castelo, 74 |1961|
Varanda guarnecida de azulejos policromos
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Popularmente conhecido por Pátio da Pascácia deve o nome a uma conhecida parteira da freguesia. O seu pátio nobre pertence a uma antiga casa apalaçada do séc. XVII, sofreu alterações após o terramoto, que resultou numa feição pombalina, hoje muito adulterada por mutilações associadas a alteração de usos, tendo mesmo, em tempos, albergado uma padaria. Existem vestígios de traçado maneirista quer na fachada principal quer na posterior; nesta ultima, que dá acesso ao interior, podem observar-se, da época pombalina, painéis de azulejos. Encontra-se ainda uma casa de dois pisos que serve de moradia. ²

Casa nobre Rua de Santa Cruz do Castelo |194-|
Pátio da Pascácia

Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 26, 1938. 
² monumentos.pt

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Beco e Pátio das Canas

Esta Adiça vale um poema popular. Deixemos, por momentos, seguir a Adiça — que morre nas portas do Sol, ao alto — e enfiemos pela Galé. Em frente está o Pátio das Canas, no alto do beco deste dístico. 


O Pátio das Canas é de um bairrismo puro, mais que modesto, e que bem se marca, garridamaente, quando das festas do Santo António e do S. João. Agora, ao sol e aos gatos, parece adormecido: também o pitoresco tem as suas horas de acalmia.

Beco e Pátio das Canas |c. 1900|
Perspectiva tirada da Rua da Adiça
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Queres ver uma curiosidade? Nota neste Pátio, na fachada do prédio, à esquerda, cujo ingresso é pela Calçada de S. João da Praça — a Adiça, como venho dizendo — as janelas do segundo andar: são quinhentistas, ainda com seus desenhos simples, de aresta quebrada, cujo espírito transcende da materialidade inocente de lavores.
Não notes que eu chame tua atenção para elas: é que em toda a Lisboa, de Algés ao Poço do Bispo, contam-se pelos dedos os elementos arquitectónicos deste jeito e idade.

Beco e Pátio das Canas |c. 1900|
José A. Bárcia, 
 in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 51, 1939.

sábado, 28 de maio de 2016

Alto do Longo, à Rua de O Século

O olisipógrafo Norberto Araújo recorda-nos a origem para o curioso topónimo deste arruamento do Bairro Alto, com início na Rua O Século e fim na Travessa do Conde de Soure:

Porque se chama Alto do Longo? Afirma-se que um quarto avô do Alexandre Herculano, homem de grande estatura, alcunhado «O Longo» deu nome ao sitio; o povo nunca chamou «longo» a uma pessoa alta mas sim «comprido». O certo é ter existido por aqui cerca, na Rua Formosa [actual Rua de O Século] um homem chamado de seu apelido «Longuo», o que poderia explicar a designação se a passagem do homem pela vida não fosse tão recuada, segunda metade do século XVII (morreu em 1669). 

Alto do Longo (esq.) e Rua de O Século [1943]
Este estreito arruamento,
espécie de aldeia dentro da cidade, tem início na Rua de O Século [entre os n.ºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Alto do Longo é, contudo, anterior ao ano do Terramoto. Devia ter principiado por ser na «Cotovia» uma espécie de «bairro pequeno das minhocas» do século XVIII [...] São estas sobreposições de urbanismo, estes vincos dispares na fisionomia dos bairros, que constituem o encanto de Lisboa.==

Alto do Longo (esq.) e Rua de O Século [c. 1945]
Este estreito arruamento, espécie de aldeia dentro da cidade, tem início na Rua de O Século [entre os n.ºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente
Alto do Longo, pátio [1943]
Este estreito arruamento, espécie de aldeia dentro da cidade, tem início na Rua de O Século [entre os n.ºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Janelas quase rentes ao chão— observa Norberto de Araújo — , beirais sem flor à altura de um braço, dois pátios de presépio pobre de cartolina — eis o Alto do Longo. [...] Pois é um presépio de humildade e pobreza, aliás sem imundície, e sem aspecto de pardieiro, como noutros sítios já vimos. [...] ==1

Alto do Longo  junto à Travessa do Conde de Soure [c. 1945]
Este estreito arruamento, espécie de aldeia dentro da cidade, tem início na Rua de O Século [entre os n.ºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 63-64, 1938.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Pátio do Tronco

Com entrada pela Rua das Portas de Santo Antão existe o Pátio do Tronco. Neste Pátio existiu no século XVI a Cadeia Municipal do Tronco.
Diz-nos a história que, com 28 anos de idade, em 15 de Junho de 1552 dia do Corpo de Deus, Luís de Camões passeava entre o Rossio e as Portas de Santo Antão. Tinha regressado um ano antes de Ceuta, onde num combate com os Mouros perdera uma vista. Em dado momento repara numa briga e reconhece que nela estavam dois amigos seus; não hesitou em envolver-se na desordem, ferindo com um golpe de espada na nuca um criado do Paço, de nome Gonçalo Borges.

Pátio do Tronco [c. 1940]
Traseiras do Cinema Odeon; Rua das Portas de Santo Antão

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Camões foi preso e levado para a Cadeia do Tronco de Lisboa, onde permanece largos meses (apesar de perdoado pelo ofendido) foi libertado em 24 de Março de 1553 por carta régia do dia 7 desse mês. A carta dizia «Mancebo pobre que me vai este ano servir à Índia».
Pela passagem do nosso poeta por esta prisão, o túnel que dá acesso ao Pátio do Tronco está assinalada por um painel de azulejos de Leonel Moura, inaugurado em 1992.

Túnel de acesso ao Pátio do Tronco [post. 1992]
Rua das Portas de Santo Antão

sábado, 22 de agosto de 2015

Pátio (Quinta) do Biaggi, às Amoreiras

Leite de Vasconcellos (1858-1941), na sua "Etnografia Portuguesa", fala-nos assim dos chamados bairros operários:
Desprovidos quase sempre de qualquer tipo de instalações sanitárias e de abastecimento de águas, os pátios não dispunham de condições de salubridade mínimas, ao que acrescia a sua localização térrea, exposta assim às humidades, e à ausência de radiação solar, por se encontrarem ensombrados, muitas vezes em caves atrás de prédios.

Pois sigamos — para trás. À esquerda sai-nos agora a Travessa do Barbosa, que conduz ao Pátio do Biagi, com saída ou entrada (conforme nos orientarmos) pela Rua das Amoreiras, pátio que é coevo de fundação da Fábrica das Sedas. [Araújo: 1038]

Pátio (bairro) do Biaggi, às Amoreiras [ant. 1930] 
Biaggi (ou Biagi), nome do primitivo dono ou fundador, e que parece italiano.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente


Este pátio do Biagi ou Biaggi, nome do primitivo dono ou fundador é um dos maiores de Lisboa: principia na Rua das Amoreiras, n.° 73, por uma escadaria, e termina na travessa, antigo beco do Barbosa, que em cima vai ter á Rua de S. João dos Bem-casados [actual Rua Silva Carvalho]. A numeração das casas, que são em grande parte baixas («lojas»), vai do cimo das escadas, em diante, de n.° 1 a 104 ou pouco mais, o que representa outras tantas famílias. As rendas são pagas aos descendentes do fundador do pátio. Existem lá dentro várias ruas, anónimas, dois largos, uma taberna (indispensável!), e um lugar de hortaliça. Quasi um bairro. 

Pátio (bairro) do Biaggi, às Amoreiras [ant. 1930] 
... mastros que servem agora para se estender a enxugar roupa  lavada (ou suja!).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A miséria é porém extrema, e pululam por toda a parte inúmeras crianças, que logo se acercam, movidas de curiosidade, dos forasteiros que vão ao pátio. Numa das visitas que lhe fiz depararam-se-me num dos largos uns restos de mastros que me disseram serem de antigos festejos do S. João, mastros que servem agora para se estender a enxugar roupa  lavada (ou suja!).
[Leite de Vasconcellos, Etnografia Portuguesa, vol. II, 1936]

Panorâmica tirada da Mãe de Água sobre as terras do Biaggi [1944]
 O Inquérito aos pateos de Lisboa aponta no pátio do Biaggi 88 «lojas» e 17 primeiros andares: ao todo 105.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Na segunda metade do século XIX os «pátios» tornaram-se uma forma dominante de habitação popular em Lisboa. Em 1905 havia 233 «pátios» em Lisboa, com um total de 2278 habitações e alojando 10487 pessoas. 
[Caeiro da Matta-Estudos Económicos e Financeiros III, Habitações Populares, Imprensa da Universidade Coimbra, 1909]

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Pátio do Carrasco (ou do Gama)

Do passado arquitectónico fala-nos ainda o Pátio do Carrasco, essa curiosidade cenográfica de Lisboa, em cuja fachada se vislumbram três janelas quinhentistas, de verga, e caneladas, com vestígios do delicioso mainel que as bipartia. Para o interesse pitoresco do sítio do Limoeiro o Pátio do Carrasco chega, mais no conjunto do que no pormenor, frentes de pardieiros disfarçados, escada decorativa sem alpendre, boca de entrada sem arco nem abóbada dois palmos de pobreza resignada, que se engrinalda pelo Santo António, e canta durante todo o ano.
(ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 71, 1943)
Em Lisboa, e imediatamente à frente do Largo do Limoeiro, junto à antiga Cadeia encontramos o Pátio do Carrasco, estranhamente funesto e degradado. Por aqui terá vivido temporariamente Luís António Alves dos Santos (1806–1873), «o Negro», marcado pela casualidade histórica de ter sido o último carrasco de Portugal.

Pátio do Carrasco |c. 1940|
Largo do Limoeiro, 3
Muito interessante é a fachada sobre o Largo do Limoeiro, onde se abrem em três pavimentos, janelas do séc. XVI, de verga direita canelada, com moldes e contra-moldes nas ombreiras, em algumas das quais se percebem vestígios do mainel que as bipartia ao alto. É dos poucos exemplares de casas quinhentistas existentes em Lisboa, É curioso o aspecto interior do pátio, onde há ainda pormenores construtivos dos séc. XVII e XVIII. [Proença: 1924]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Dizem que haveria ali um túnel subterrâneo por onde Luís caminhava até à prisão do Limoeiro, mesmo ao lado. No local onde estaria essa passagem, ainda hoje se ouvem gritos.
Os moradores pensam que são do próprio Luís, atormentado pelas mortes que causou e que fizeram dele «o último carrasco de Portugal», com um salário de 4.100 réis e direito a referência num livro de Camilo Castelo Branco.

Pátio do Carrasco |c. 1960|
Largo do Limoeiro, 3
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Mas é aqui que a história se torna difícil de entender: é possível que Luís Alves nunca tenha executado ninguém. Da única vez que foi encarregue de o fazer, em Tavira, deu ao seu imediato o dinheiro que tinha consigo, para que o substituísse. Como na época os carrascos usavam capuz, era possível trocarem de lugar sem que ninguém se apercebesse. Será que Luís grita atormentado pelas mortes que causou na juventude? O carrasco lutou ao lado dos absolutistas, no século XIX, e confessou ter matado dois homens em legítima defesa. Morreu aos 67 anos, com um ataque de asma, já depois da abolição da pena de morte em Portugal.
(FIDALGO, Vanessa, 101 Lugares para Ter Medo em Portugal, 2013)
Pátio do Carrasco, Roque Gameiro, 1925
 É curioso o aspecto interior do pátio, onde há ainda pormenores construtivos dos séc. XVII e XVIII.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Quinta e Pátio do(s) Geraldes

Da Rua de Artilharia Um, pela a Travessa da Fábrica dos Pentes à Rua Castilho


«Vamos descer a Rua de Artilharia Um, dístico aposto em Agosto de 1911, e que sucedeu ao da velha Rua de Entremuros, esta por sua vez, e desde 1768, modificação designativa da antiga Estrada. Com efeito, esta comprida artéria de Campolide velho descia ao Rato entre muros de quintas; havia, porém, uma quinta chamada de Entremuros, e que teria dado o nome à serventia rústica de setecentos. Esta Rua, antiga, de Entremuros foi designada, simultaneamente quási, na voz do povo e nos escritos dos cartórios, por Rua dos Ciprestes, Rua dos Quentais e Rua dos Geraldes, isto pelos fundamentos de assimilação de que mais adente falarei. [...]

Quinta e Pátio do(s) Geraldes [c. 1900]
 Rua de Artilharia 1, Rua Castilho e Rua Rodrigo da Fonseca
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Pátio do(s) Geraldes [1888]
Rua de Artilharia 1, Rua Castilho e Rua Rodrigo da Fonseca
Exposição Pecuária Nacional em 1888 no Valle de Pereiro (depois Parque Eduardo VII).
Augusto Bobone, in BNP

 
Aqui defronte da Travessa da Fábrica dos Pentes existiu no século passado [séc. XIX] a Quinta e Pátio dos Geraldes, com tanto renome no sítio, e desaparecido há meia dúzia de anos [c. 1933] para urbanização do local. O Palácio, com suas chaminés cónicas (das quais ainda há os vestígios da base (Maio de 1939) no quarteirão por edificar entre as Ruas Castilho e Rodrigo da Fonseca), com sua frontaria armoriada, sua capela de belo pórtico e seu agradável conjunto solarengo, teve história alfacinha, fidalga e política, que aqui não tem lugar.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 94 e 97, 1939)

Quinta e Pátio do(s) Geraldes [1915]
 Legenda: Em cima, a Rua de Artilharia 1; a vermelho a Rua Castilho; a laranja a Rua Rodrigo da Fonseca; a azul Rua Joaquim Augusto de Aguiar (por terminar)
Projecto das ruas Castilho, Rodrigo da Fonseca, Artilharia Um, Joaquim António de Aguiar e Parque Eduardo VII.
in Lisboa de Antigamente
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