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Wednesday, 24 December 2025

Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal

O Rossio só me confrange uma vez por ano, justamente na época que atravessamos, quando em contraste com a sua toilette cada vez mais cuidada, ali tomba, em vésperas do Natal, a ronda soturna, o rosário deselegante e miserável dos vendedores de brinquedos «a dez tostões».

É já um lugar-comum chamar à Praça do Rossio a sala de visitas de Lisboa. Concedamos que todo o vasto recinto tem hoje, efectivamente, o caracter peculiar a uma capital. Mas é talvez o pombalino, beliscado aqui e ali por incómoda alteração, é o Arco do Bandeira, serão mesmo os dois «pastiches» do Teatro Nacional e da estátua de D. Pedro, que ao local dão uma presença, um estilo nitidamente lisboeta, como não é possível encontrar em outra parte. O Rossio, a Praça do Rossio, a que o povo, com instinto seguro, nunca chamou a Praça de D. Pedro, desprende da sua perspectiva, do recorte regular dos seus prédios e janelas, sobretudo quando se vem de fora, quando se vem do Norte, uma serena e cariciosa amabilidade, que eu só com paro ao conforto do lar, depois de um dia de trabalho.

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1964-12|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A Praça do Rossio, nesses momentos, quando no ar tern seu quê de amigo, e nos trata por tu, e nos acolhe com sua graça alfacinha, - é o local de privilégio de Lisboa, o lugar-bruxo que nos sabe sempre bem atravessar, mesmo sem pretexto aparente, sem necessidade. 
Pincelada à noite, em suas mansardas, pelo vermelho, o azul, o verde luminoso dos tubos neon, dir-se-á que a Praça do Rossio, escovada e moderna, ganha outro caracter. Os novos estabelecimentos e cafés, decorados por uma publicidade bela, desenhados por luz sapiente, colorida e bem distribuída, como que surgem transformando o estilo, o caracter antigo, imprimindo a sua nota internacional.

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1965-12|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1966-01|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Muito embora a instalação de todo esse cenário venha pintalgando lojas e telhados, o Rossio resiste, permanece pombalino, reserva-nos sempre a sua serenidade cariciosa. O seu estilo guarda sempre o segredo que nele adivinhamos, sem o desvendar.
Lisboa, a bela, não perdeu ainda, no pormenor do seu toucado, um certo desprendimento, um descuido peculiar que vive paredes meias com o desleixo. Um pouco mais e esta cidade constituiria o burgo mais aprazível da Europa do Sul. [Luíz Moita: 1939]

 Praça de D. Pedro IV: Iluminações de Natal |1959-12|
Lagos do Rossio
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Imbuídos no espírito natalício decidimos inserir abaixo as mesmas imagens do fotógrafo Armando Serôdio mas coloridas e geradas por IA com a chamada «quebra de página». Caso queira continuar e visualizar clique em «ler mais [read more]»

Sunday, 19 October 2025

Sitio onde a Rua da Adiça encontra a Rua Norberto de Araújo

A Adiça, denominação muito antiga, foi durante 63 anos (1893 a 1956) Calçada de S. João da Praça. O fontanário singelo que aqui se encontrava em tempos (vd. 2ª imagem), foi substituído por este que ali se vê escondido numa pequena gruta.
Mal sabia o insigne autor das "Peregrinações" que ao dizer, em 1943, o que abaixo transcrevemos, quase vinte anos volvidos (1956), a edilidade aprovaria uma nova designação para o troço da R. da Adiça — desde o n.º 53-70 até ao Largo das Portas do Sol — passando a denominar-se "Rua Norberto de Araújo" — homenagem ao ilustre olisipógrafo (1889-1952).

Sítio onde a Rua da Adiça encontra a Rua Norberto de Araújo (fontanário) |post. 1965|
A Adiça. Aí temos um dos mais contemplativos recantos da Alfama. [Araújo: 1939]
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está «identificado no abandalhado amL

O Sítio da Adiça — recorda Norberto de Araújo — nasce nas Portas do Sol e morre em S. Rafael. [...] Adiça! Que graça arcaica de legenda toponímica! Hoje chama-se Calçada de S. João da Praça [(até 1956. depois voltou a denominar-se R. da Adiça]. Os velhos do lugar só sabem onde fica a Adiça. Eis um dos mais típicos e generosos compartimentos alfamistas. [Araújo, 1943]

Local onde a Rua Norberto de Araújo e Rua da Adiça se encontram |1950|
Observa-se o primitivo fontanário na R. da Adiça antes das remodelações em Alfama na década de 1960. 
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Friday, 9 August 2024

Fonte Monumental, vulgo Fonte Luminosa

Na Alameda Dom Afonso Henriques — constrói-se num dos topos o Instituto Superior Técnico e o Instituto Nacional de Estatística, ambos da autoria do arq.º Pardal Monteiro — e no outro eleva-se uma Fonte Monumental (vulgo Fonte Luminosa) com seu miradouro sobre a Alameda.
Apesar de concebida originalmente em 1940, foi inaugurada apenas em 28 de Maio de 1948, com base num projecto do arquitecto Carlos Rebelo de Andrade, enquadra-se no estilo conservador, frequentemente apelidado Português Suave, dominante na década de 1940. 

Fonte Monumental, artístico remate da Alameda D. Afonso Henriques |c. 1950|
Branco, António Castelo, in Lisboa de Antigamente

As esculturas são da autoria de Maximiano Alves (Cariátides) e de Diogo de Macedo (Tejo e Tágides); os baixos-relevos (painéis laterais) de Jorge Barradas.
Poucos sabem que a fonte se chama Monumental, devido às suas tágides e aos seus cavalos submersos a arrancar para o céu.
 
Nota(s): Saiba mais aqui: https://www.facebook.com/media/set/...

Fonte Monumental, artístico remate da Alameda D. Afonso Henriques |c. 1950|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 20 March 2022

Construção da Praça do Chile

Este arruamento foi atribuído na Sessão de Câmara de 25 de Outubro de 1928 por proposta de um vereador, conforme aparece descrito nas actas: «O Sr. Quirino da Fonseca: — Sr. Presidente apresento as seguintes propostas: «Estando a ultimar-se a Rotunda onde actualmente chega a Avenida Almirante Reis, tenho a honra de propor que, em homenagem à República Sul Americana do Chili, essa Rotunda seja denominada Praça Chili.»

Construção da Praça do Chile [1942]
Fotógrafo não identificado, in DN

Em 1942, a Praça do Chile vai receber a estátua de Neptuno, obra do escultor Machado Castro, que será transferida mais tarde para a Estefânia, substituída (em 1950) pela estátua de Fernão de Magalhães oferecida oferecida pelo Chile.

Praça do Chile [1942]
Ajardinada a rotunda nota-se o lago ainda sem a estátua do Neptuno; Avenida Almirante Reis.
E lá bem no Alto — a Cabeça de Alperche com a Ermida da Penha de França.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Depois da demolição do velho Chafariz do Loreto, andou a estátua do Neptuno a peregrinar, do depósito de águas das Amoreiras para o Museu Arqueológico do Carmo, e deste para os Barbadinhos, daqui para esta Praça do Chile, para finalmente se estabelecer no lago da rotunda do Largo de Dona Estefânia em 1951.

Praça do Chile [1950]
Av. Almirante Reis com a R. António Pereira Carrilho.
A estátua de Neptuno, de 1771, em mármore de Carrara, é obra do escultor Machado Castro.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Friday, 4 February 2022

Rua do Arco do Carvalhão, 300-302

Antes de ser «do Arco do Carvalhão» a rua chamava-se «do Sargento-Mor» — recorda o ilustre Norberto de Araújo. [...] Mas nós estamos no Arco do Carvalhão — sob dois Arcos enormes do Aqueduto. Terrenos eram estes de Sebastião José de Carvalho e Melo, ainda antes de ele ser Pombal e Oeiras, e estendiam-se, ultrapassando a actual Rua das Amoreiras, no lanço da Cruz das Almas para cima, até à actual Rua Marquês da Fronteira [...] O «Carvalhão» era então o futuro Marquês de Pombal, e do apelido derivaram os nomes da Rua actual [...]»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 79, 1939)

Rua do Arco do Carvalhão, 300-302 |1954|
Chafariz; viaduto ferroviário
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 30 April 2021

Rua do Vale Formoso de Cima

Topónimo atribuído em data que se desconhece mas seguramente anterior a 1911, já que a informação municipal n.º 2610 da Repartição de Urbanização e Expropriações da DSUO (do processo 30278/42), mostra que pelo levantamento da planta da cidade concluído em 1911, o troço da Estr. de S. Cornélio com a extensão de cerca de 400 metros para sueste da Rua Conselheiro Dias Ferreira, fazia parte da Rua do Vale Formoso de Cima.

Rua do Vale Formoso de Cima, 77  |1966|
Artur Goulart,  in Lisboa de Antigamente
 
Também se sabe que a antiga Rua Direita do Vale Formoso de Baixo, por deliberação camarária de 18 de Maio de 1889 e respectivo Edital municipal de 8 de Junho de 1889 se passou a designar Rua do Vale Formoso.
Assim o que se pode inferir é que a toponímia local evoca a posição topográfica do sítio.
Nesta artéria foi erguida na segunda metade do século XIX a Quinta do Desterro e em 12 de Junho de 1935, foi fundado o Vale Formoso Futebol Clube. Por um ofício de 3 de Abril de 1937, sabe-se também que no nº 162 era a Quinta do Tim-Tim. [cm-lisboa.pt]

Rua do Vale Formoso de Cima, 1 |1966|
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 28 May 2016

Alto do Longo, à Rua de O Século

O olisipógrafo Norberto Araújo recorda-nos a origem para o curioso topónimo deste arruamento do Bairro Alto, com início na Rua O Século e fim na Travessa do Conde de Soure:

Porque se chama Alto do Longo? Afirma-se que um quarto avô do Alexandre Herculano, homem de grande estatura, alcunhado «O Longo» deu nome ao sitio; o povo nunca chamou «longo» a uma pessoa alta mas sim «comprido». O certo é ter existido por aqui cerca, na Rua Formosa [actual Rua de O Século] um homem chamado de seu apelido «Longuo», o que poderia explicar a designação se a passagem do homem pela vida não fosse tão recuada, segunda metade do século XVII (morreu em 1669). 

Alto do Longo (esq.) e Rua de O Século [1943]
Este estreito arruamento,
espécie de aldeia dentro da cidade, tem início na Rua de O Século [entre os n.ºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Alto do Longo é, contudo, anterior ao ano do Terramoto. Devia ter principiado por ser na «Cotovia» uma espécie de «bairro pequeno das minhocas» do século XVIII [...] São estas sobreposições de urbanismo, estes vincos dispares na fisionomia dos bairros, que constituem o encanto de Lisboa.==

Alto do Longo (esq.) e Rua de O Século [c. 1945]
Este estreito arruamento, espécie de aldeia dentro da cidade, tem início na Rua de O Século [entre os n.ºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente
Alto do Longo, pátio [1943]
Este estreito arruamento, espécie de aldeia dentro da cidade, tem início na Rua de O Século [entre os n.ºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Janelas quase rentes ao chão— observa Norberto de Araújo — , beirais sem flor à altura de um braço, dois pátios de presépio pobre de cartolina — eis o Alto do Longo. [...] Pois é um presépio de humildade e pobreza, aliás sem imundície, e sem aspecto de pardieiro, como noutros sítios já vimos. [...] ==1

Alto do Longo  junto à Travessa do Conde de Soure [c. 1945]
Este estreito arruamento, espécie de aldeia dentro da cidade, tem início na Rua de O Século [entre os n.ºs 230 e 232] e fim na Travessa do Conde de Soure.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 63-64, 1938.
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