Friday, 15 October 2021

Panorâmica da Praça de Espanha

Sítio chamado de há muitos séculos Palhavã, onde se ergue o majestoso palácio deste nome, construído em 1660 pelo 2º conde de Sarzedas. Em 1918 foi leiloado e vendido pelos Azambujas ao Governo de Espanha, representado por D. Alejandro de Padilla, então Ministro Plenipotenciário que aí instalou a delegação do seu país. O palácio transitou no séc. XVIII para a posse dos marqueses do Louriçal e em 1861 foi adquirido pelo 3º conde de Azambuja, ou dos Lumiares como era conhecido.
 
Panorâmica da Praça de Espanha [1973]
Era a Praça situada na confluência das Avenidas António Augusto de Aguiar, Calouste Gulbenkian, de Berna, Columbano Bordalo Pinheiro e Santos Dumond, vulgarmente designada por Praça de Espanha.
Francisco Leite Pinto, in AML

Informação (Parecer) da Secção de Escrivania, solicitando oficialização do topónimo Praça de Espanha:
«Considerando que se trata de uma nomenclatura dado pelo vulgo que está suficientemente enraizada e tem plena justificação, a Comissão é de parecer que à praça situada na confluência das Avenidas António Augusto de Aguiar, Calouste Gulbenkian, de Berna, Columbano Bordalo Pinheiro e Santos Dumont, vulgarmente conhecida por Praça de Espanha, seja atribuída essa denominação que, assim, se torna oficial.» (22 de Janeiro 1979)

Sunday, 10 October 2021

Palácio ou Paço das Necessidades

O Palácio ou Paço das Necessidades, com seus corpos de edifícios na parte Norte, e com sua fachada elegante e discreta, e da qual olhando o Tejo, avança a frontaria da Igreja, é, Dilecto, como observas, de um conjunto gracioso, e, como expressão arquitectónica, muito equilibrado.


Dilecto: o Palácio das Necessidades, como o de Belém constitui uma página viva da história política e realenga dos últimos cem anos. Escuso de te reavivar a memória. Não é indiferentemente que nos quedamos a olhar a sua fachada. Glórias e tragédias, alegrias e dores, confiança e certeza, fausto e penumbra — passaram por ele.
Não temos que o olhar com saudade, mas com um certo respeito comovido: não será do seu tempo aquele que for insensível às cousas do passado.

Palácio das Necessidades, pórtico da Capela, vendo-se o pináculo de Torre [c. 1900]
Largo das Necessidades
A Frontaria, sobre o Largo das Necessidades, em três corpos de edifício,  contínuos, adornados de vinte e quatro janelas de sacada, coroadas de ática; e  nela, como parte integrante, a frontaria da Capela.
Fotógrafo não identificado, in AML

Deve-se a D. João V o Paço das Necessidades, hoje Palácio Nacional, e sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Desde 1607 que existia neste sitio do Alto de Alcântara uma ermidinha da invocação de N.ª Senhora das Necessidades, cuja irmandade foi constituída por marítimos da carreira da Índia. Meio século depois (1659) Pedro Castilho, servidor de D. João IV, comprou umas casas contiguas à Ermida, ampliando o piedoso sacelo [pequeno templo ou santuário] das Necessidades; no meado do século XVIII a Ermida e um largo prazo de terreno da Lapa (ou Cova) da Moura e da Ribeira de Alcântara pertenciam a um descendente daquele Pedro Castilho, Gaspar (ou Baltasar) Pereira Lago de Castilho. Foi a este que o Rei D. João V, que atribuiu a intercessão da Senhora das Necessidades à cura de uma grave doença (1742), comprou terrenos e casas com o tríplice objectivo de erguer uma nova igreja condigna, de edificar um paço real e de construir uma grande casa para os padres da Congregação do Oratório. O arquitecto Caetano Tomás de Sousa traçou o projecto, ficando a Igreja de N.ª Senhora das Necessidades integrada no Paço, e este contiguo ao convento e à sua larga quinta. As obras principiaram logo em 1748 e estariam concluídas em 1750.

Palácio das Necessidades [post. 1910]
Largo das Necessidades
O p6rtico da Capela, aberto por três arcos laterais entre quatro colunas, e por dois arcos laterais, e, nele, um vestíbulo ou galilé.
Paulo Guedesin AML
Palácio das Necessidades [1908]
Largo das Necessidades
A Guarda no Palácio das Necessidades após o Regicídio.
Alberto Carlos Limain AML

O irmão de D. João V, infante D. Manuel, aventureiro militar da Europa, dado camo pretendente ao trono da Polónia, e que regressara à Pátria em 1784, foi o primeiro morador do novo Paço, ainda que por pouco tempo, e depois o seu irmão D. António. Até D. Maria, porém, os soberanos não residiram senão eventualmente nas Necessidades, servindo este Paço para hospedar príncipes estrangeiros (o príncipe de Gales, depois Jorge I V, por exemplo, e seus irmãos) ou algum infante da Casa de Bragança. D. Maria II é que fez das Necessidades residência habitual, assim como D. Pedro V e D. Estefânia (que nele morreram), D. Manuel II, que no Paço residia quando da revolução de 8 de Outubro de 1910.
Proclamada a República, o Palácio das Necessidades, como outros paços reais, entrou no património da Nação; esteve alguns anos encerrado até que em 1916 para ele se transferiu da ala Nascente da Praça do Comércio o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Palácio das Necessidades [c. 1870]
Largo das Necessidades
A varanda superior da Capela, e nela, as estátuas de S. Felipe Nery e de S. Francisco de Şales, obra de Alexandre Giusti, e ainda a estátua de S. Pedro, a um lado da porta, do mesmo escultor italiano, e a de S. Paulo, do outro lado, trabalho do escultor português António de Almeida.
Francesco Rocchini, in BNP

Interiormente, nas salas e mesmo nos pátios, foi, em várias épocas, o Palácio beneficiado, restaurado e transformado, nomeadamente em 1836 quando do casamento de D. Maria II com D. Fernando, cujas iniciais subsistiam entrelaçadas em muitos motivos decorativos, e em 1886 quando do casamento de D. Carlos com D. Maria Amélia de Orleans. Pode afirmar-se, porém, que a estrutura do Palácio é a original, pois o Terremoto de 1755 nenhuns danos lhe causou. De 1910 até à data variaram, porém, quási totalmente, as utilizações das salas e câmaras, adaptadas a repartições e gabinetes, sendo o recheio substituído e realizadas algumas transformações decorativas. A capela não tem culto desde 1910 e muitas das suas alfaias e imagens encontram-se no Palácio da Ajuda, em depósito. A antiga «Casa Forte das Necessidades» onde se guardava o «Tesouro», está vazia, havendo sido transferidas as suas preciosidades de ourivesaria para o Museu de Arte Antiga.

Fotografia aérea da zona de Alcântara, vendo-se na esquerda alta, o Palácio e a Tapada das Necessidades [1971]
Armando Serôdio, in AML

Do antigo Convento da Congregação do Oratório apenas restam silhares de azulejos. Quanto ao Palácio, cujo recheio quási inteiramente desapareceu daqui para outros palácios nacionais, conserva ainda o seu ar palaciano, um certo ambiente austero de beleza fria, e salas que mal fazem lembrar a opulência antiga.
Nota, Dilecto, a torre da antiga Igreja, recuada à esquerda da frontaria do edifício. Parece uma sentinela de Nossa Senhora das Necessidades.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Paços e  palácios nacionais, 1946.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 18-19, 1939.

Friday, 8 October 2021

Largo do Calvário

Ora, Dilecto — diz Norberto de Araújo — estamos no Largo do Calvário, coração do bairro urbano desenvolvido no final do século passado [XIX], e já com expressão própria, ainda que limitada.
E do Calvário — porquê? Porque neste sítio, no lado sul da Rua Primeiro de Maio, antiga de S. Joaquim, existiu um Convento, das religiosas franciscanas, e que datava de 1617.

Como a própria Alcântara, de individualidade muito mais marcante, no século XVII, e mesmo no XVIII, o Calvário pouco mais era do que uma Póvoa aflorando timidamente de entre quintas, herdades e hortas a norte, como mar a beijar-lhe a orla por edificar. 

Largo do Calvário [1930]
Frente ao Paço Real de Alcântara, situado a sul do já então Largo do Calvário encontravam-se as enormes cocheiras reais; em 1903 aí existia o Clube de Lisboa (ou o Clube do Calvário) e só em 1911 foi instalada a Sociedade Promotora de Educação Popular. O Cinema Promotora, foi inaugurado em 1912. 
Ao centro, o Lactário n.º 3.
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Antes do Convento se erguer no lugar onde a Quinta do Porto (do «porto», porque aqui atracavam barcos) edificara-se no final do século XVI um solar particular, destinado a ser «alguém» no sítio: foi esse solar que deu o Palácio ou Paço Real do Calvário, mais rigorosamente «de Alcântara», mas que recebeu a designação invocativa do orago do Convento, seu fronteiro, e assim ajudou a fundamentar o nome de um sítio (Calvário) dentro de outro (Alcântara).==

Largo do Calvário [1965]
Frente ao Paço Real de Alcântara, situado a sul do já então Largo do Calvário encontravam-se as enormes cocheiras reais; em 1903 aí existia o Clube de Lisboa (ou o Clube do Calvário) e só em 1911 foi instalada a Sociedade Promotora de Educação Popular. O Cinema Promotora, foi inaugurado em 1912.
Armando Serôdio, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. IX, p. 30, 1939.

Sunday, 3 October 2021

Palácio Alagoas (ou Cruz-Alagoa)

Desde este ponto — Rua Maestro Pedro de Freitas Branco — até à esquina da antiga Real da Fábrica das Sedas — recorda Norberto de Araújo — ergue-se um edifício urbano enorme, uniforme, com rés-do-chão, andar nobre e um segundo andar, e capela.

Foi este o palácio dos Morgados de Alagoa, edificado entre 1757 e 1762, em terras do já citado D. Rodrigo, por José Francisco da Cruz Alagoa, antepassado dos Condes de Sobral.
Arrendado em parte a vários inquilinos logo poucos anos depois de construído, vivendo noutra parte a família do proprietário, foi posto à venda em 1835 por morte do Cruz Alagoa. Pertenceu depois ao Dr. José Vaz Monteiro, e de mão em mão acabou por se subdividir em duas propriedades: a principal que estamos vendo n.º 177 a 195 é desde 1918 do Visconde de Sacavém, havendo antes pertencido ao Dr. Magalhães Barros; a da esquina, n.º 167 a 175, pertence ao Dr. Carlos Chapalimaud.
Palácio Alagoas (ou Cruz-Alagoa) [1968]
Rua da Escola Politécnica, 161-195, esquina com a Rua Maestro Pedro de Freitas Branco
Armando Serôdio, in AML

Mostra este casarão um certo ar solarengo português embora sem beleza; a capela, que foi invocação de Santo António, com seu janelão de coro e óculo iluminante, hoje [em 1939] profanada, tem silhares de azulejos do Rato, e possuía alguns painéis. O portal principal conduz ao pátio que foi nobre, por um corredor com seu passadiço.

Palácio Alagoas (ou Cruz-Alagoa) [1961]
Rua da Escola Politécnica, 161-195; perspectiva tomada da antiga Fábrica das Sedas e que emprestou o nome a este troço da rua até 1859.
Artur Goulart, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 20-21, 1939.

Friday, 1 October 2021

Campo dos Mártires da Pátria, esquina com a Rua Gomes Freire

Espreita-me agora, Dilecto — diz Norberto de Araújo — daqui, da esquina que nos levará a Santo António dos Capuchos, o que resta de humilde, na primitiva fase da construção urbana popular, no Campo de Sant'Ana de hoje.

Campo dos Mártires da Pátria, esquina com a Rua Gomes Freire [c. 1938]
O prédio de rendimento (esq.) com número de polícia 69-70 ainda lá está, orgulhosamente de pé. Já os outros dois ao lado deste foram demolidos e no seu lugar ergue-se, actualmente n.º 72, um prédio de «jeito moderno» conforme relembra mestre Araújo.
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

São aquelas casitas, à direita, quási na esquina, n.ºs 71 a 77 [actual n.º 72], uma triste ruina representativa deste sitio, do tempo da sua Praça de Touros. Ao lado se levantou, em Março deste ano [1938], no lugar de velhos pardieiros já condenados desde 1906(!) e só agora demolidos, um prédio de jeito moderno, a desdizer da vulgaridade arquitectónica do Campo.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, 1938)

Campo dos Mártires da Pátria, esquina com a Rua Gomes Freire [ant. 1938]
Edifícios já demolidos.
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Sunday, 26 September 2021

Rua de Barros Queirós

Era a antiga Travessa de São Domingos, passou a designar-se Rua de Barros Queirós em homenagem a "Tomé José de Barros Queirós". A atribuição deste topónimo foi ainda acrescentada com uma legenda de «Ilustre cidadão, vereador da 1ª Câmara Municipal Republicana de Lisboa – 1926».

No Edital de 21 de Junho de 1926 pode ler-se: “[...] o Senado Municipal, em sessão de 7 de Junho corrente, prestando homenagem á grande figura republicana que foi Tomé José de Barros Queiroz, um dos mais ilustres propagandistas da Republica, trabalhando e lutando por ela e prestando relevantes serviços á cidade, quando vereador, resolveu dar á travessa de S. Domingos a seguinte denominação: Rua Barros Queiroz / Ilustre Cidadão, Vereador da 1ª Câmara Municipal Republicana de Lisboa – 1926”.

Rua de Barros Queiroz [1908]
Antiga Travessa de São Domingos
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

A justificação possível da alteração do topónimo Travessa de São Domingos para Rua de Barros Queirós reside no propósito – que se verificou durante o período da 1ª República – de acabar com a influência que a religião e a monarquia tinham na vida quotidiana e profissional das pessoas. O novo regime alterou a denominação das ruas, praças, largos, instituições e edifícios por outros conotados com a República.
Ainda, e por parecer da Comissão Municipal de Toponímia, em reunião de 19/05/1950, foram suprimidos os dizeres "Ilustre Cidadão – Vereador da 1ª Câmara Municipal de Lisboa – 1926" dos letreiros toponímicos e acrescentada a partícula “de”.

Rua de Barros Queiroz [1944]
Antiga Travessa de São Domingos
Eduardo Portugal, in A.M.L

N. B. Tomé José de Barros Queiroz nasceu em Ílhavo a 2 de Fevereiro de 1872 e faleceu a 5 de Maio de 1926 em Lisboa.
Foi aprendiz de oficina, marçano e caixeiro e, pelo empenho e esforço chegou a comerciante de candeeiros no Largo de S. Domingos; político do período da Primeira República Portuguesa que, entre outras funções, exerceu os cargos de deputado, Ministro das Finanças, Ministro da Instrução Pública e Presidente do Conselho de Ministros. Foi membro da Maçonaria, na loja "Acácia". [cm-lisboa-pt; ANTT]

Rua de Barros Queiroz [1940]
Antiga Travessa de São Domingos; Igreja de São Domingos, abside; Rua da Palma.
Eduardo Portugal, in A.M.L

Friday, 24 September 2021

Avenida Casal Ribeiro, 50

Este prédio de rendimento, construído no início do século XX, com elementos de Arte Nova, foi demolido em meados do séc. XX para a construção do edifício que acolheu a Companhia Nacional de Electricidade.

José Maria Caldeira do Casal Ribeiro (Lisboa, 1825-1896) – faz jus à diversidade de actividades que pautaram a sua vida. Licenciado em Direito, começou por ser um revolucionário republicano, inspirado pelos ideais da Segunda República Francesa. Colaborou no jornal O Atheneu, na Revista Universal Lisbonense, n’A Semana de Lisboa e fundou A Civilização (1856-1857).
Ao longo da sua vida relacionou-se com diversas figuras nacionais e internacionais, mantendo relações de duradoura amizade com Alexandre Herculano, Oliveira Martins ou António José de Ávila.
D. Luís agraciou-o com o título de conde de Casal Ribeiro em 1870. O conde de Casal Ribeiro foi um proprietário abastado, ligado pelo casamento à rica família Farrobo Quintela. Foi agraciado com a grã-cruz da Ordem de Cristo e com numerosas condecorações estrangeiras, entre as quais a Grã-Cruz de Alberto, o Valoroso (Saxónia), a Legião de Honra (França), a cruz de São Gregório Magno (Roma), da Ordem da Rosa (Brasil) e da Ordem de Carlos III (Espanha). Foi sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa e da Academia de História de Madrid. [fcsh.unl.pt]

Avenida Casal Ribeiro, 50 [post. 1902]
Prédio erguido quarteirão entre a Praça do Duque de Saldanha e a Av. Defensores de Chaves. 
Paulo Guedes, in AML
Avenida Casal Ribeiro, 50 [post. 1902]
Topónimo atribuído pela CML em 1902 à nova via que liga a Praça do Duque de Saldanha ao Largo de D. Estefânia. Em 2º plano as traseira dos prédios da Rua de D. Estefânia.
Paulo Guedes, in AML

Sunday, 19 September 2021

Antigo Convento de Santa Apolónia

À entrada da Rua de Santa Apolónia aí tens o que resta do antigo Convento de Santa Apolónia: o pórtico da Igreja. Dou-te outra notícia velha.
O Mosteiro de Santa Apolónia, das religiosas franciscanas da primeira regra de Santa Clara — recorda Norberto de Araújo, teve seu começo neste sítio, junto de una Ermida quinhentista que aqui havia, do orago de Santa Apolónia que deu o nome ao sítio, e que fora reedificada em 1671; dele, com carácter de simples recolhimento, foi fundadora em 1693 uma religiosa, D. Izabel da Madre de Deus, senhora muito favorita de D. Catarina de Bragança, Rainha de Inglaterra. Em 1718 o Recolhimento converteu-se em Convento, bem pequeno por tal sinal. Sofreu alguns estragos pelo Terramoto e foi restaurado. Em 1833 as freiras, por motivo das lutas liberais, recolheram ao Convento de Sant'Ana, e para aqui mais não voltaram. Extintas as Ordens no ano seguinte, a Casa serviu de moradia a alunos aprendizes do Arsenal do Exército, e cm 1852 passou à Companhia Real dos Caminhos de Ferro.

Igreja do antigo Convento de Santa Apolónia [1945] 
Rua de Santa Apolónia, frente ao Palácio Pancas Palha
Eduardo Portugal, in AML

Como atrás disse — quando foi inaugurado o primeiro caminho de ferro, antes de abrir a grande Estação Central, por este edifício se fazia a entrada dos passageiros; desde há muito que, interiormente, a Igreja está despida de sinal religioso, constituída em armazém da Cooperativa do Pessoal dos Caminhos de Ferro.

Igreja do antigo Convento de Santa Apolónia [1945] 
Rua de Santa Apolónia, frente ao Palácio Pancas Palha
Eduardo Portugal, in AML

N.B. O convento foi demolido no final década de 1950 e a fachada da igreja foi transferida para a frontaria da nova Igreja de São Marcos, em Arripiado (Chamusca).

Antigo Convento de Santa Apolónia, lado sul visto do rio [1945] 
Rua de Santa Apolónia, edifício pertencente à companhia dos Caminhos de Ferro
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, p. 27, 1939.

Friday, 17 September 2021

Cais do Sodré

As designações «Cais do Sodré» e Praça dos Remolares foram comuns durante muito tempo, antes de se erguer a Estátua; «Remolares», perdeu-se na oralidade. Há no povo uma atracção particularíssima para os vocábulos sonantes. «Sodré» — canta. «Remolares» — já o disse atrás — era designação muito antiga. A designação «Sodré» é-lhe posterior, e teve a sua origem no facto de por aqui terem vivido e erguido prédios uns Sodrés, António, Duarte, Vicente, negociantes, descendentes de um Frederico Sodré, inglês, que passara a Portugal no tempo de D. Afonso V.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 37-38, 1939)

Panorâmica tirada do Tejo sobre o Cais do Sodré [1880]
J. A. Vieira, in A.M.L.

Sunday, 12 September 2021

Hospital Real de Todos-os-Santos

O Rossio era uma praça, irregular, mas já muito espaçosa. o Hospital de Todos-os-Santos com a sua esplendida fachada; os arcos do Rossio, onde se acomodavam as mais luxuosas lojas, que vendiam as fazendas da moda, tornavam aquela praça a mais importante da capital.


Neste Rossio — diz Norberto de Araújo —  do lado nascente, à nossa direita, erguia-se até pouco antes do Terramoto o imponente Hospital de Todos-os-Santos, fundação de D. João II, e cuja primeira pedra foi lançada a 15 de Maio de 1492. Os terrenos eram dependentes dos frades de S. Domingos.
Possuía um formoso pórtico gótico , de dupla entrada , para o qual se subia por uma escadaria de vinte e um degraus, e de um lado e do outro, ao nível do chão, corriam magníficas arcadas, em maior extensão do lado norte, e em cujo número não acertam os eruditos nem velhas estampas, mas que andaria por trinta.

Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
  Hospital de Todos-os-Santos;  B  Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C  Convento da Graça; D  Castelo de S. Jorge; E  Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Água-tinta, desenho à pena a nanquim de Zuzarte, século XVIII (1787)
Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
  Hospital de Todos-os-Santos;  B  Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C  Convento da Graça; D  Castelo de S. Jorge; E  Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um cortejo fúnebre e um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Pintura a óleo sobre gravura de Zuzarte, autor desconhecido (1787)

Estas arcarias do Hospital de El-Rei — como de começo se chamou – e que davam abrigo a muitas dezenas de tendas e bazares — constituíam um dos encantos panorâmicos do Rossio. A Igreja continuava-se do prolongamento do pórtico, isto é: na direcção poente-nascente.
Junto deste Hospital — que foi uma das mais nobres instituições de Lisboa de todos os tempos, servindo os pobres — funcionava a «Roda dos Engeitados», do lado da Rua da Betesga.
O Hospital de Todos-os-Santos dependia da Santa Casa da Misericórdia. Sofreu um incêndio em 27 de Outubro de 1601, facilmente reparável em seus estragos, outro, horroroso, em 10 de Agosto de 1750, que o reduziu a cinzas, fazendo muitas vítimas, salvando-se, porém, 730 doentes e centenas de crianças que foram recolhidas pelas janelas e portas contíguas a S. Domingos.

Hospital Real de Todos-os-Santos no séc. XVIII
Igreja do Hospital Real de Todos-os-Santos, portal manuelino, admirado por toda a Europa, não só pelo seu trabalho de escultura, mas também pela sua imponência.
Gravura da autoria de Jaime Martins Barata

O Hospital tinha a sua frente obliquamente recuada em relação ao alinhamento oriental do Rossio que temos à vista, de modo que só pelas alturas onde hoje estão os Armazéns e a Loja do Povo [Praça de D. Pedro IV, 87-92] a linha antiga coincidia com a actual [vd. planta topográfica]. No interior da Retrosaria «Botões de Ouro», n. 86 [hoje sapataria], situada entre aqueles dois estabelecimentos existem ainda abóbadas e um lanço de arcaria de volta perfeita — resto vivo das arcadas do Rossio — , e até Julho de 1933 estava à vista um capitel de coluna, singelamente ornamentado, um meio metro acima do nível actual da Praça, único, venerando vestígio que foi entaipado por ocasião de umas obras de limpeza. Tenho tentado conseguir que ele seja, de novo, posto à vista; acredito na boa vontade dos donos do estabelecimento.

Sítio do Hospital de Todos-os-Santos, convento de S. Domingos e Poço do Borratém antes do terremoto de 1755 (a preto), e na actualidade (1937) (a vermelho
Planta topographica exacta do Sitio que comprehende a Ilha em que estava edificado o Hospital Real de Todos os Santos. Desenhos de J. de Castilho

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo, Lisboa, 1903
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26, 1938.
CASTILHO, Júlio de,  Lisboa antiga, vol. IV,  1935, 

Friday, 10 September 2021

Avenida 24 de Julho: prédios de rendimento

Estes enormes prédios de rendimento, que se seguem, fazendo o quarteirão que se contém entre [a Avenida] 24 de Julho, [Avenida do] Presidente Wilson [hoje Avenida Dom Carlos I], [Rua] Vasco da Gama [hoje Largo Santos] e o Jardim de Santos datam da década de 1870 a 1880. [...] à sombra desse quarteirão urbano de que te falei, correm os cinquenta metros da Rua [Largo] Vitorino Damásio; José Vitorino Damásio, engenheiro, director do Instituto Industrial, foi quem dirigiu as obras do Aterro [hoje Av. 24 de Julho] desde S. Paulo a Santos (1858).
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 88)

Avenida 24 Julho [1905]
À esquerda, o Largo de Santos, antiga Rua Vitorino Damásio
Legenda: «Ornamentações por ocasião da visita a Lisboa do Presidente francês Émile Loubet [vd. N.B.]»
Chaves Cruz, in AML

N.B. "O dia de hoje há-de ficar memorável nos anais da História pátria", escrevia o DN na primeira página de 27 de Outubro de 1905. Nessa data, a monarquia portuguesa dava as boas-vindas a Émile Loubet, o presidente da República Francesa, a única da Europa, a par da Suíça. A verdade, no entanto, é que «a apoteose com que o saudou o Povo de Lisboa foi como que a proclamação da República na capital portuguesa." (in História do Regímen Republicano em Portugal)

Sunday, 5 September 2021

Largo e Convento do Carmo

Este topónimo remete para a existência do Convento do Carmo no local. A propósito deste Largo refere o olisipógrafo Norberto de Araújo o seguinte:

O Largo, na sua configuração, é bem diverso do que era há cento e oitenta anos [c. 1750], antes da urbanização pombalina, e então mais estreito, mais baixo, em nível, cerca de um metro (o que bem se comprova pelo rebaixamento que faz a Igreja-ruína do Carmo), e também mais nobre, mais senhor de si, mais «Bairro do Marquês» (de Vila Real), «Bairro de Vila Nova» (de Santa Catarina), Bairro do Carmo, alfim — designação que teve no decorrer dos séculos.
Principia por observar este gracioso Chafariz, que não existia ao tempo do Terramoto. O Chafariz do Carmo data de 1796, ou de pouco antes, integrado na obra das Águas Livres, pois recebe água das Amoreiras; se antes existia outro — e é verosímil que assim tivesse sucedido — não to posso assegurar cu, embora Júlio de Castilho o admita e escrito esteja em várias obras. [...]

Largo do Carmo [c. 1910]
Chafariz do Carmo; à esq. vê-se a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, a frontaria do quartel da GNR e fachada arruinada da Igreja- Convento do Carmo; destaque para os urinóis públicos, que por esta época, eram 
Artur Benarus, in AML

Quanto às origens do Convento do Carmo, adianta o mesmo autor:
Contempla-une exteriormente o Carmo de Nuno Álvares. É a evocação material espiritualizada dos séculos da piedade e do heroísmo; é a única ruína em Lisboa que tem vida, e que nos oferece ainda a visão rasgada de um passado distante, de um mundo diverso do mundo de hoje.
Uma ruína — que não quere morrer.
Quando da batalha de Aljubarrota, Nuno Álvares Pereira fez à Virgem um voto: o de lhe erguer um grandioso templo. Foi isto a 14 de Agosto de 1385. Passados quatro anos Nuno Álvares começou a cumprir aquilo a que se votara (...).==

O Convento e as ruínas da Igreja do Carmo vistas do Rossio (Praça de D. Pedro IV [post. 1850]
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VI, pp. 75-76, 1938.
ibid. p. 82
.

Friday, 3 September 2021

Jardim da Estrela: os «sofás de ferro»

Uma das primeiras tipologias de mobiliário urbano a surgir na Lisboa oitocentista foi a tipologia Banco. De início era pouco visível nos espaços públicos oitocentistas, mas com o avançar do século, e com a introdução das novas necessidades de embelezamento urbano e das novas tecnologias na indústria da fundição, foram surgindo, por toda a cidade, diferentes modelos de bancos. Os primeiros a serem utilizados foram os modelos de bancos conhecidos como “sofás de ferro”. Surgiram no imaginário da capital, nomeadamente no Passeio da Estrela (ao centro), em 1859 pelas mãos do Instituto Industrial de Lisboa a pedido da autarquia lisboeta e seguiam os modelos franceses pertencentes às Fundições J. P. V. André e da J.J. Ducell et Fils.
(FREIRE, João Paulo - Lisboa do meu tempo e do passado. Lisboa: Parceria A.M. Pereira,. 1931-1932)

Jardim da Estrela: os «sofás de ferro» [post. 1862]
Tipologias de mobiliário urbano em ferro fundido que estiveram sob a influência da indústria de Fonte d’Art francesa e que foram surgindo na cidade de Lisboa, entre a segunda metade do século XIX e princípios do século XX.
Francesco Rocchini, in AML

Sunday, 29 August 2021

O Rocio d'Eça

"Vamos nós tomar esta tipóia e abalar para o Ramalhete?
Eram quatro horas, o sol curto de Inverno tinha já um tom pálido.
Tomaram a tipóia. No Rocio, Alencar que passava, que os viu — parou, sacudiu ardentemente a mão no ar. E então Carlos exclamou, com uma surpresa que já o assaltara essa manhã no [hotel] Braganza: [...]"
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

Praça Dom Pedro IV, antiga do Rocio [1897
Cena de rua: gente, tipóias de praça, coupés, choras, e os pesados americanos rangendo nas calhas — ou fora delas, como parece ser o caso.
Fotógrafo não identificado, in AML

No Rocio, sob as árvores, passeava-se; pelos bancos, gente imóvel parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com o chapéu na mão, abanando-se, o colete desabotoado; a cada canto se apregoava água fresca "do Arsenal"; em torno do largo, carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céu abafava — e na noite escura, a coluna da estátua de D. Pedro tinha o tom baço e pálido de uma vela de estearina colossal e apagada.
Basílio, ao pé de Luísa, ia calado. "Que horror de cidade!" — pensava. — "Que tristeza!"
(Eça de Queiroz, ln O Primo Basílio, 1878)

Praça Dom Pedro IV, antiga do Rocio [post. 1902
Por decreto de 31/10/1836 publicado no Diário do Governo a Praça do Rossio passou a denominar-se Praça de Dom Pedro e esta, por Edital de 26/03/1971, passou a designar-se Praça D. Pedro IV.
Paulo Guedes, in AML

Friday, 27 August 2021

O Rossio Velho

"Do Rocio, o ruido das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar dos americanos, subiam, n'uma vibração mais clara, por aquelle ar fino de Novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul-ferrete, vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as copas mesquinhas das árvores do município, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma indolência e n'uma dormência."
(in Eça de Queiroz, Os Maias, 1888)

O Rossio Velho [séc. XIX]
As «ondas» negras e brancas do Rossio datam de 19448-4948; Teatro Nacional Almeida Garrett, desde 1910 «de D. Maria II»; Convento da Encarnação; Monumento a Dom Pedro IV; Fonte Monumental do Rossio (1889); Fonte dos Anjinhos (1882); Americano, Tipóia; calçada portuguesa; Quiosque dos Libertários; Urinol; observe-se, como curiosidade, a lanterna do 1º candeeiro a frente, pintada com publicidade ao Coliseu dos Recreios.
Fotógrafo: não identificado, in AML

"Maior e mais abrutada, talvez seja. Mas não é esta lindeza do nosso Rocio, o ladrilhinho, as árvores, a estátua, o teatro... Enfim, para meu gosto e para o regalinho de Verão, prefiro o Rossio... E já o disse aos turcos!"
(Eça de Queiroz, in A Relíquia, 1887)

Sunday, 22 August 2021

Rua de São Mamede e o antigo Largo do Correio-Mor

Deve o seu nome à Paróquia de São Mamede que aqui se situava — recorda-nos Norberto de Araújo.
Depois do Terramoto este local ficou sendo conhecido por "monturos de S. Mamede" [...]
Este largo, fazendo parte da Rua de S. Mamede, e defronte do edifício Penafiel, foi construído com sua rotunda e cortina há relativamente pouco tempo — 1864 — pela Câmara Municipal com o auxilio financeiro do Conde de Penafiel, descendente dos antigos Correios Mores, de apelidos Gomes da Mata. Compreende-se, assim, a denominação Travessa da Mata (melhor seria "do” Mata) que sobe, pelo nossa esquerda, em cotovelo, desde o Largo até entroncar na Calçada do Conde de Penafiel. O letreiro pomposo desta artéria foi mandado fazer pelo próprio Conde em 1867.

Rua de São Mamede e o antigo Largo do Correio-Mor, dístico  tradicional  que provinha  do  século  XVIII [190-]
Antes Rua Nova de São Mamede (1889); Calçada Conde Penafiel e, ao fundo, a Travessa do Mata
Paulo Guedes, in AML

Observa daqui aquele renque de casitas modestas, defendidas da Calçada por cortina de ferro — antigo pátio do Lindim [ou Landim] — , e que oferecem certo pitoresco. Debruçam-se, jeitosamente, sobre a serventia em curva; tal como aquela outra casa pequenina, na Travessa da Mata, pitoresca pela lei dos contrastes, estão certamente condenadas a desaparecer.==

Rua de São Mamede e o antigo Largo do Correio-Mor, dístico  tradicional  que provinha  do  século  XVIII [190-]
Antes Rua Nova de São Mamede (1889); Calçada Conde Penafiel
Paulo Guedes, in AML

Nota(s): Em meados do séc. XX foi colocado neste Largo o pano de fachada do antigo Chafariz das Mouras.
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Bibliografia
ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 23-24, 1938.

Friday, 20 August 2021

Rua dos Duques de Bragança que foi «da Luta»

A primeira designação desta artéria foi Rua Duque de Bragança. Com a implantação da República passou a Rua da Luta (edital de 18/11/1910) e na década de cinquenta do séc. XX retornou ao nome inicial embora no plural.

Nesta artéria, antiga «da Luta» — num terreno pertencente à Casa de Bragança — foi construído o elegante Teatro D. Amélia, tendo começado as obras em Junho de 1893, e inaugurando-se os espectáculos em 22 de Maio de 1894. Logo depois do advento da República, em 1910, foi o nome do teatro mudado para teatro da República, e mais tarde para teatro de S. Luiz, do título honorífico do seu empresário visconde de S. Luiz de Braga.
Em 13 de Setembro de 1914 ardeu completamente o edifício, tendo sido reconstruído aproximadamente com o mesmo risco, reabrindo em Janeiro de 1916.

Rua dos Duques de Bragança [1913]
Efeitos do assalto ao jornal «A Nação» aquando da revolta monárquica de 21 de Outubro de 1913 dirigida por João de Azevedo Coutinho. Embora prevista também para o Porto, acaba por se restringir à capital com a destruição das redacções dos jornais «O Dia» e «A Nação» e alguns estragos no Museu da Revolução.
Joshua Benoliel, in AML


Bibliografia
CASTILHO, ,Júlio, Lisboa antiga, 2ª ed., 1937.
cm-lisboa.pt.

Sunday, 15 August 2021

Rua do Arsenal

O topónimo Rua do Arsenal advém de ter existido no local o Arsenal Real de Marinha (à dir.), mandado construir por D. Manuel os chamados estaleiros da Ribeira das Naus. O terramoto de 1755 destruiu esse importante complexo, tendo sido reconstruído em 1759 segundo projecto de Eugénio dos Santos. No início da segunda metade do séc XIX, o Arsenal da Marinha começa a adaptar-se à construção de navios de ferro movidos a vapor. Este possuía um dique, construído em 1792, destinado à reparação dos navios que foi atulhado em 1939 aquando da abertura da Av. Ribeira das Naus. Hoje alberga diversos serviços da Administração Central da Marinha de Guerra.

Rua do Arsenal [1858]
Antiga Direita do Arsenal antes Rua do Arco dos Cobertos; Largo do Corpo Santo (esq.); à dir., destaca-se
o Arsenal da Marinha (oficinas); ao fundo, na embocadura do Terreiro do Paço e o arco erigido por ocasião
da chegada da princesa Estefânia a Lisboa, em 17 de Maio de 1858, vinda de Düsseldorf, para casar
com o rei D. Pedro V.
Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF

Da porta do Arsenal — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , para poente (Rua do Arsenal fora, então Rua do Arco dos Cobertos) ficava a Casa da Ópera, construída dois anos antes do Terramoto; defronte do Pátio citado da Capela, do lado sul, isto é, na Rua hoje do Arsenal, entre a face do edifício onde estão repartições dos Correios, e a face lateral da Câmara, rasgava-se um não grande Largo do Relógio ou das Tendas da Capela.== 

Rua do Arsenal [191-]
Antiga Direita do Arsenal antes Rua do Arco dos Cobertos; Largo do Corpo Santo (esq.); à dir., 
o Arsenal da Marinha (oficinas); ao fundo, destaca-se na embocadura do Terreiro do Paço
Joshua Benoliel, in AML

Friday, 13 August 2021

Carros «americanos» no Terreiro do Paço

Data de 1803 o aparecimento do omnibus, puxado a muares, para a exploração dos quais se constituiu uma Empresa de Transportes com sede na Praça do Pelourinho. No entanto, incómodos, caros e raros, o povo miúdo pouco beneficiou com eles. Verdadeiramente populares e servindo já vastas zonas da cidade foram os seus sucessores, os carros americanos, inaugurados em Lisboa em 1874.

Carros «americanos» no Terreiro do Paço [c. 1895]
Rua do Arsenal; Arco Triunfal da Rua Augusta
Fotógrafo não identificado, in AML

Sunday, 8 August 2021

Rua da Alegria

A razão porque se chama "da Alegria" não a sei — diz Norberto de Araújo — , nem creio que alguém a conheça. Matos Sequeira, que muito estudou (não se limitou a apontar) estes sítios, não nos diz algo; conjectura. Por o local ser ameno, lavado de ares, ridente por natureza? Eu lembro que as designações de sítios partiam quási sempre de lindas invocações religiosas, tal a "Glória", a "Estrêla". Ora eu adquiri, há anos, uma velha imagem de N. Srª da Alegria, e que bem pode corresponder a uma invocação pessoal, caprichosa, pois "Alegria" não consta dos oragos de qualquer região do país. Mas também pode suceder que a poética religiosa se comprazesse numa invocação, que não chegou até nós em documento vivo. A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto. [...]
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 28, 1939)

Rua da Alegria [séc. XIX]
A 1ª transversal é a Rua de Santo António da Glória; em cima, a Rua da Mãe de Água
O topónimo Rua da Alegria foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, 
através de Deliberação Camarária datada de 18/05/1889 e Edital de 08/06/1889, 
à antiga Rua Nova da Alegria.
Fotógrafo não identificado, in AML

Friday, 6 August 2021

Profissões de anranho: Venda ambulante de pão

A serventia [Rua Primeiro de Dezembro] — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — parece que fora chamada pelo vulgo, no tempo de Pombal, depois do Terramoto, Rua Nova das Hortas e Rua das Hortas (e que constituiria referência oral à Horta da Mancebia ou a horta dos terreiros do Duque de Cadaval ou dos Condes de Faro, mais para Norte). Antes de 1755 a Rua tinha já o traçado sensivelmente idêntico ao de hoje, e chamava-se Rua de Valverde – lindo nome.

Profissões de antanho: Venda ambulante de pão [séc. XIX]
Esquina da Rua do Jardim do Regedor com a Rua Primeiro de Dezembro
Ao fundo nota-se a fachada da Estação de Comboios do Rossio.

Chaves Cruz, in AML
Nota(s): o local da foto não está identificado no AML

Sunday, 1 August 2021

Ermida da Saúde

Eis-nos, agora, diante da Igreja de N. Senhora da Saúde, a da famosa procissão que constituía um dos encantos populares religiosos de Lisboa do século passado [XIX], e que perdurou até à República. 

Neste sítio se elevava no século XVI, logo no começo (1506), uma ermida da invocação de S. Sebastião, advogado contra as pestes, construção que foi da iniciativa dos artilheiros da guarnição de Lisboa.
Em 1596, por deliberação do Arcebispo D. Miguel de Castro, a igrejinha converteu-se em paroquial de S. Sebastião (da Mouraria), desanexada da de Santa Justa, e assim o bairro tomou independência como freguesia. (...)

Ermida de Nossa Senhora da Saúde [190-]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
José Artur Bárcia, in AML
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Procissão de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima, in AML

A sede da paróquia em 1646 foi levada para a Igreja do Socorro; a actual Igreja da Saúde continuava a chamar-se de S. Sebastião, sem honras de Paroquial, mas muito mais representativa. 
Só em 1662 a Igreja de S. Sebastião passou a chamar-se de N. S. da Saúde, quando a imagem foi transferida do Colégio de Jesus [ou dos Meninos Órfãos], de que te falei, aqui a dois passos, para a actual «residência». E de Nossa Senhora da Saúde passou a ser até hoje [1938]. S. Sebastião esqueceu.
Pelo Terramoto o templo recebeu dano, mas pouco, porque logo dois anos depois estava restaurado e aberto ao público.»
A Ermida — melhor é classificá-la assim — constitui um dos restos piedosos de Lisboa velha, embora os artilheiros hoje já se não preocupem com a devoção. Oferece uma certa ingenuidade; lembra uma capela de aldeia, pois não lembra?

Tem uma só nave, e mais não precisa. Os altares laterais são os de Nossa Senhora piedade e de Cristo Crucificado, e as imagens são em pintura e não escultura, obra do pintor setecentista António Machado Sapeiro. Na capela-mor vês as imagens de Santo António, S. Sebastião, de roca, e sempre muito alindada. O retábulo que notas é do escultor Brás de Oliveira. São interessantes os azulejos oitocentistas da Igreja.

Aí tens, Dilecto, o que é a Igreja de que falam os versos de um fado, até há dois anos, muito em voga:
Há festa na Mouraria
é dia da Procissão
da Senhora da Saúde...
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Saída do andor com a imagem de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima, in AML

Mas na Mouraria, hoje, já não há procissão. A procissão da Saúde era dos mais curiosos espectáculos da Lisboa religiosa, com um carácter diverso da dos Passos e da do Corpo de Deus ou S. Jorge.
A primeira vez que se realizou foi em 20 de Abril de 1570. A última em 20 de Abril de 1910. Saia de manhã cedo da Mouraria, ia à Sé onde se cantava um Te-Deum, e depois a S. Domingos, onde havia sermão. Recolhia ao entardecer à Mouraria — e era de ver-se.
Na procissão iam as três imagens citadas, de S. Sebastião, dos Artilheiros, e da Saúde, ambas da mesma confraria, e a de Santo António que andou sempre ligado a S. Sebastião aqui no bairro, de outra irmandade. Música religiosa, bandas militares, filarmónicas locais; foguetes, sinos, alarido típico do sítio; «anjinhos», soldados vestindo capa vermelha sobre a farda, e, nos seus últimos trinta anos, o Infante D. Afonso, como figura de destaque, simpática ao povo. O Capelão, a Amendoeira, o Outeiro, o Coleginho, os Álamos, despejavam-se sobre a Mouraria: quadro de costumes lisboetas dos mais sugestivos que pode imaginar-se, sem a grandeza da procissão do Corpo de Deus, nem a compostura fidalga da dos Passos da Graça — plebeia, original, bairrista, enternecedora.

Enquadramento da Ermida da Saúde na Pç. do Martim Moniz depois das demolições na Mouraria [1949]
A igreja actual é de pequenas dimensões e data do século XVIII. É um símbolo da arquitectura religiosa barroca embora a sua fachada principal e simples seja atribuída ainda ao mestre João Antunes dos inícios de 1700. 
Artur Pastor[?], in AML

N. B.  Os artilheiros da Guarnição de Lisboa, denominados por bombardeiros, mandaram erguer em 1505, uma pequena ermida dedicada a São Sebastião, padroeiro e advogado da peste, em cumprimento da promessa feita ao mártir pelo fim da epidemia que nesse ano se estendeu por toda a cidade e que matou muitos habitantes.
Em Outubro de 1569, o rei D. Sebastião devido a mais um surto epidémico que matou milhares de pessoas, pede ao Senado da Câmara de Lisboa a construção de uma igreja maior, consagrada a São Sebastião, e em Dezembro, ordena que a sua edificação seja efectuada na Mouraria perto do local da antiga ermida.

Ermida de Nossa Senhora da Saúde, interior [1902-01-25]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
O culto a Nossa Senhora da Saúde é muito importante na cidade de Lisboa e anualmente realiza-se a procissão em agradecimento e protecção à Virgem, tradição que se mantém desde o século XVI.
Machado & Souza, in AML

Bibliografia
ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 76-77, 1938.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa, 1.ª ed., Sacavém, Carlos Quintas & Associados – Consultores, 1994, pp. 874-876.

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