Friday, 16 April 2021

Chafariz da Infância

Nesta antiga Rua da Infância — hoje da Voz do Operário — , tornejando a Travessa de São Vicente, ficava situado o Chafariz da Infância — de data de construção e autor desconhecidos. Terá sido demolido cerca de 1912 para dar lugar à actual sede da «Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário»

A Rua da Infância — recorda o ilustre Norberto de Araújo — tem um troço moderno, que parte exactamente de onde está o edifício da Sociedade de Beneficência «Voz do Operário», e vai até à Graça; daí para baixo havia já a Travessa das Bruxas, antigamente muito estreita, à qual já aludi atrás, e que se continuava, subindo a poente, como hoje, pela actual Travessa de S. Vicente, até defronte do Convento dos Agostinhos, ou seja o dos frades da Graça.

Chafariz da Infância [centre 1903-1908]
 Actual da Voz do Operário, tornejando a Travessa de São Vicente
Charles Chusseau-Flaviens, in GEH

Já agora outra informação te dou. Esta Travessa de S. Vicente, hoje, como vês, já com prédios modernistas (1937), e relativamente larga, era a estreita Travessa das Bruxas que ia dar ao Largo de S. Vicente, antes de se abrir a Rua da Infância. Na esquina do edifício da «Voz do Operário» desta Travessa existiu, no século XVII, uma porta vulgar de quinta, chamada de «Heliche», na citada propriedade dos Abelhas, assim conhecida porque nas casas da Quinta morou, em 1667, um Marquês, espanhol, de título Elche , nome corrompido em Elice ou Heliche.

Chafariz da Rua da Infância [c. 1900]
Actual da Voz do Operário, tornejando a Travessa de São Vicente, antiga das Bruxas
Machado & Souza, in AML

Localização da Tv. de S. Vicente e do chafariz na antiga Rua da Infância em 1890

Bibliografia
ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 50-58, 1938.

Sunday, 11 April 2021

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa

A Casa-Museu Anastácio Gonçalves (antiga casa-atelier de José Malhoa) situada na Avenida Cinco de Outubro, 6-8,  obteve o Prémio Valmor de 1905. Classificada Imóvel de Interesse Público pelo Dec. 28/82 de 26 de Fevereiro. Abre ao público em 1980.


Edifício projectado pelo arquitecto Norte Júnior em 1904, foi seu construtor Frederico Ribeiro, "o constructor da primeira casa de artista que fizesse em Lisboa". Dominado pela linguagem ecléctica em voga, sobressai, no entanto, o gosto pelo neo-românico. Edificada para residência e atelier do pintor José Malhoa, foi adquirida em 1932 pelo médico oftalmologista Dr. Anastácio Gonçalves (1889-1965), que a doou ao Estado, sendo mais tarde adaptada a casa-museu e recebendo obras de ampliação em 1996 sob projecto dos arquitectos Frederico e Pedro George, anexando uma moradia contígua também da autoria de Norte Júnior [vd. 2ª imagem]

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa, Prémio Valmor de 1905 [1905]
Para os autores da A Construção Moderna o edifício encontra-se “entre essas raras manifestações de arte que hão de servir de padrão de estimulo à Lisboa estética do futuro (...)”. [A Construção Moderna, ano VI, n.º 1, Fevereiro de 1905]
Avenida Cinco de Outubro com a Rua Pinheiro Chagas (esq.)
Paulo Guedes, in AML

Edifício com dois pisos e cave, sobressai o espaço correspondente ao ateliê, denunciado exteriormente por um janelão e uma clarabóia de iluminação zenital. Identificam-se três corpos: o central, avançando a fachada principal; sobre o lado esquerdo, um corpo recuado com escada e alpendre protegendo a porta de entrada; e, do lado direito, um núcleo praticamente autónomo pertencendo à zona da sala de jantar. Sublinhando a separação dos pisos, percorre o edifício um friso de azulejos em azul com elementos vegetalistas da autoria de Jorge Pinto, interpretações livres dos desenhos de Malhoa e António Ramalho, transpostos para pintura a fresco por Eloy Amaral. As esculturas das fachadas são de António Augusto Costa Mota.

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa, Prémio Valmor de 1905 [1908]
Moradia contígua à Casa-Museu Doutor Anastácio Gonçalves, também assinada por Norte Júnior, anexada ao edifício principal, em 1987; antiga Casa António Pinto da Fonseca Mota (1908). 
Rua Pinheiro Chagas, 2-6
Paulo Guedes, in AML

O grande janelão de sacada, correspondente ao atelier, é encimado por frontão onde se exibe a inscrição «PRO ARTE». Sobressaem ainda dois vitrais na sala de jantar e na sala anexa ao atelier. Merece menção a serralharia artística com elementos arte nova, destacando-se o portão principal em forma de borboleta, com desenho do arquitecto e execução de Vicente Esteves.
As janelas que se abrem no vão do arco dessa fachada, com as pedras de peito das laterais de forma curva, sugerem que todo o conjunto está confinado a um círculo. O gradeamento das varandas, em ferro, segue a tendência Arte Nova.

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa, Prémio Valmor de 1905 [1908]
Núcleo praticamente autónomo, do lado direito,  pertencendo à zona da sala de jantar.
Avenida Cinco de Outubro, 6-8
Paulo Guedes, in AML

N.B. A Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves é um espaço museológico da cidade de Lisboa onde se expõe o acervo reunido pelo médico coleccionador António Anastácio Gonçalves. O conjunto de cerca de 3.000 obras de arte compõe-se por três grandes núcleos: pintura portuguesa dos séculos XIX e XX, porcelana chinesa e mobiliário português e estrangeiro. Existem ainda importantes núcleos de ourivesaria civil e sacra, pintura europeia, escultura portuguesa, cerâmica europeia, têxteis, numismática, medalhística, vidros e relógios de bolso de fabrico suíço e francês. Para além das obras reunidas pelo coleccionador, a Casa-Museu encerra ainda um significativo espólio documental e um conjunto de desenhos, aguarelas e pequenos artefactos pertencentes ao espólio do pintor Silva Porto.

Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa, Prémio Valmor de 1905 [191-]
Foi descrita em 1909 como uma “(...) casa artística, o ninho feliz de um grande e genial artista. (...) Quer se analyse em conjuncto, quer em detalhe, a casa do sr. Malhôa é uma casa artística em toda a accepção da palavra, e, considerada irreprehensível sob todos os pontos de vista”. [A Arquitectura Portuguesa, Lisboa, Fevereiro de 1909]
Avenida Cinco de Outubro com a Rua Pinheiro Chagas vendo-se a moradia contígua erguida em 1908 (esq.)
Joshua Benolielin AML

Bibliografia
ALMEIDA, Álvaro Duarte de, Portugal património: Lisboa, 2007.
ACCIAIUOLI, Margarida, Casas com escritos: uma história de habitação em Lisboa, 2015.

Friday, 9 April 2021

Inauguração do pedestal iluminado para o sinaleiro dos Restauradores

Estavam agora nos Restauradores à espera que o sinaleiro lhes autorizasse a passagem.
 — Quase uma hora! Tenho de ir andando.


Topónimo dado pela edilidade lisboeta presidida por José Gregório da Rosa Araújo à «nova praça que fica limitada do lado do nascente e do lado do poente pelos predios do antigo largo do Passeio Publico e de parte das antigas ruas Oriental e Occidental do Passeio Publico, do lado do norte pela recta que une os cunhaes formados na juncção da rua dos Condes e da calçada da Gloria com as duas ruas acima referidas, e do lado do sul pela cortina da rua do Jardim do Regedor e pelos prédios do antigo largo do Passeio Publico», conforme refere o Edital de 22/07/1884.

Inauguração do pedestal iluminado, para o sinaleiro dos Restauradores [1927]
Praça dos Restauradores
Antigo Largo do Passeio Público e parte das Ruas Oriental e Ocidental do Passeio Público 
Fotógrafo: não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Sunday, 4 April 2021

Chafariz do Loreto, de Neptuno ou dos Galegos

Já que evocámos o passado seja-nos licito lembrar o celebrado Chafariz dos Galegos, ou seja o Chafariz de Neptuno, que durou até 1859, com a sua estátua daquele «deus», obra de Machado de Castro (1771).
Ao fundo da praça, ao norte, erguia-se um vistoso chafariz, a que frei Nicolau não duvida chamar formosíssimo, com quatro bicas a correr. O chafariz tinha uma estátua de Neptuno (não sei desde que tempo), assim como o do Terreiro do Paço tinha um Apolo.


A nossa atenção vai demorar-se na recordação do antigo chafariz de Neptuno, que tão airosamente compôs este curioso centro urbano, num lapso de tempo que foi de 1780 a 1858. O conjunto arquitectónico dessa obra pública, risco dos arquitectos Miguel Ângelo Blasco e Reinaldo Manuel dos Santos, estava estava coroado pela figura mitológica — deus do mar e das águas, entre os romanos — , de tridente fundido em bronze, conjunto modelado por Machado de Castro, e que a Câmara de Lisboa encomendou em 1771, sendo executado em Itália, em mármore de Carrara

Chafariz do Loreto,  do Neptuno ou dos Galegos [c. 1842]
Largo do Chiado, antigo das Portas de Santa Catarina
Era bem curioso este Chafariz, com dois tanques ao rés-da-rua, e outros tanques no plano superior — defendido de platibandas para o qual se subia por uns escadórios. [Araujo: 1939]
Litografia de Charles Legrand

Por Chafariz de Neptuno ou Chafariz do Loreto, se designava, indiferentemente, esse monumento de grande utilidade pública. Possuía quatro tubos de correr água e estavam-lhe adscritas seis companhias de aguadeiros, seis capatazes e cabos, cento e noventa e oito aguadeiros e um ligeiro.
Quando a bonita peça de arte começou a ser desmontada, em Novembro de 1858, formou-se, em seu redor, enorme ajuntamento de povo e esboçaram-se protestos, sendo muitas as solicitações no sentido de que o chafariz fosse transferido para local próximo e acessível. 
tanque foi levado para a Rua do Tesouro Velho, actual António Maria Cardosoajustado ao muro do jardim do palácio do conde de Farrobo, onde se conservou até 1916, e a estátua representativa recolheu ao depósito de águas das Amoreiras. Depois, numa peregrinação sem brilho, saiu dali para o Museu Arqueológico do Carmo [1866], e dos Barbadinhos [1881] para a Praça do Chile [1942]. Finalmente, foi embelezar o pequeno reservatório de água que ocupa o centro do Largo de D. Estefânia [1951], sendo-lhe introduzido um vistoso sistema de iluminação.

Portas de Santa Catarina, actual largo do Chiado [c. 1842]
Chafariz do Loreto,  do Neptuno ou dos Galegos
Assentou o Chafariz do Loreto onde está, sensivelmente, a Estátua ao Chiado, e fez a delícia panorâmica deste Largo em toda a primeira metade de oitocentos, no tempo em que no prédio, que veio a dar a Joalheria do Leitão, havia ainda na esquina um candeeiro «de cegonha» [esq. Araújo: 1939]
Litografia por Charles Legrand

Esse senhor omnipotente deixou um profundo desgosto nos seus leais servidores, um regimento de aguadeiros que, numa rendida e disciplinada vassalagem, prestaram culto à carrancuda figura, que António Pedro Lopes de Mendonça, graciosamente lapidou, «Neptuno de tridente em punho, a pescar galegos».
Essa obra de arte ornamental que o camartelo levou, não foi a que primitivamente se estudara e esteve para ser executada, sob projecto de Carlos Mardel, prospecto muito mais grandioso, como se depreende da estampa inserta abaixo, cujo original se guarda no Museu de Lisboa. Conforme esclarece Matos Sequeira, o modelo «Era do género do lindo chafariz da Esperança, com a sua dupla varanda e o seu pano de fundo, de três corpos, rematado por vasos flordelizados, e ficava encostado ao casario que , depois, Francisco Higino Dias Pereira substituiu pelo seu prédio nobre.» [Palácio do Loreto, ou Pinto Basto]

Frontaria do Chafariz das Portas de Stª Catarina [1752]
O terramoto de 1755 inviabilizou a construção do chafariz de Santa Catarina e o projeto de Carlos Mardel não passou do papel. 
Desenho por Carlos Mardel (1696-1763), in Museu de Lisboa

Alçado e planta do Chafariz do Loreto, com estátua de Neptuno 
O chafariz do Loreto custou vinte e cinco contos de réis. O Neptuno deste chafariz, devido ao cinzel de Machado de Castro, foi pago com a quantia de 2015$000 réis. [Sequeira: 1917]
Imagem publicada in: RAMOS, P. O., EPAL: iconografia histórica, vol. 1, p. 65, 2007

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 100, 1939.
CASTILHO, Júlio de, A Lisboa Antiga, p. 66, 1893.
ANDRADE, José Sérgio Velloso d’ – Memória sobre chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém, e muitos logares do termo, 1851.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 276-277, 1987.

Friday, 2 April 2021

Praça do Chile

Em 1942, a Praça do Chile vai receber a estátua de Neptuno, obra do escultor Machado Castro (que dominava o celebrado Chafariz do Loreto), que será transferida mais tarde para a Estefânia, substituída (em 1950) pela estátua de Fernão de Magalhães oferecida pela República do Chile à cidade de Lisboa.

Praça do Chile [post. 1942]
A estátua, de 1771, em mármore de Carrara, é obra do escultor Machado Castro
Judah Benoliel, in AML

O ajardinado que rodeava o lago ali existente foi substituído por outro, quando se mudou o lago para o Largo D. Estefânia e se colocou em seu lugar a estátua de Fernão de Magalhães. Desta forma foi construído em volta desta estátua um ajardinado com cerca de 532m2, arrelvado, tendo-se aberto uma pequenas «fitas» para cultura de plantas de estação, e plantado 4 arbustos. Para a construção do ajardinado houve que repor, no local do lago, uma boa quantidade de terra de boa qualidade. A construção deste ajardinado demorou apenas 3 dias.
(in Anais do Município de Lisboa, CML, 1951)

Praça do Chile [post. 1942]
A estátua, que ornamentou, em tempos, o Chafariz do Loreto (ao Chiado), após a sua demolição, esteve colocada na Mãe de Água, no Museu do Carmo, no Depósito de Águas dos Barbadinhos e na Praça do Chile, tendo sido transferida para a sua actual localização, no Largo de Dona Estefânia, em 1951
Judah Benoliel, in AML

Sunday, 28 March 2021

Avenida General Roçadas

O General Roçadas foi governador de Angola e o último comandante do Corpo Expedicionário Português cujo nome foi atribuído a um troço do Caminho de Baixo da Penha, por Edital de 27/12/1930, criando-se assim a Avenida General Roçadas, hoje nas freguesias de São Vicente e da Penha de França.

Com a legenda «Herói das Campanhas de África 1865–1926» esta artéria homenageia José Augusto Alves Roçadas (1865–1926), militar que assentou praça em 1882, concluiu o curso da Escola do Exército em 1889 e, chegou a capitão de cavalaria aos 29 anos. De 1897 a 1900 foi enviado para Angola como chefe do estado-maior das forças portuguesas no território e, em 1902 desempenhou o mesmo cargo na Índia. Voltou a Angola em 1904 como governador de Huíla e, em 1907 vingou o massacre de Cunene o que lhe valeu ser galardoado pelo rei D. Carlos com a Torre e Espada, nomeado ajudante-de-campo do rei e, a promoção a major. Com a subida ao trono de D. Manuel II foi também promovido a tenente-coronel. Ainda em 1908 foi Governador de Macau e depois, Governador de Angola, funções de que se demitiu com a implantação da República e regressou a Portugal, comandando a partir daí várias unidades militares.

Avenida General Roçadas [195-]
Troço do Caminho de Baixo da Penha
Judah Benoliel, in AML

Em Outubro de 1914 Roçadas voltou ao sul de Angola para combater os alemães, com 1 600 homens. No combate de Naulila e, apesar da superioridade numérica das forças portuguesas venceram os alemães, o que obrigou os militares portugueses a recuar para norte do Cunene e do Caculevar, o que impulsionou os povos de Humbe a revoltarem-se expulsando a ténue presença portuguesa na área e, Alves Roçadas voltou para Portugal em 1915. Em Setembro de 1918, Roçadas passa a general e torna-se o comandante da 2ª divisão do Corpo Expedicionário Português em França, o último enviado durante a I Guerra Mundial e assim, foi encarregue do repatriamento e da extinção da presença portuguesa na França e na Bélgica.
Em 1919 foi nomeado governador dos territórios da Companhia de Moçambique e de lá voltou apenas em 1923. Integrou a partir daí o grupo de militares e civis em torno de Sinel de Cordes que preparou o golpe de 28 de maio de 1926, sendo mesmo o General Roçadas o indicado para tomar o poder, o que não aconteceu por ter adoecido pouco tempo antes do golpe e falecido um mês depois. [cm-lisboa.pt]

Avenida General Roçadas [195-]
Judah Benoliel, in AML

Friday, 26 March 2021

Rua das Taipas

Na lomba, aos pés das Taipas de hoje, elevava-se casario, e estava desenhada a encosta da Glória, depois Calçada formalizada nos roteiros. Mas cá em cima, num plano irregular, circundada de chãos que eram de particulares, desagregados dos prazos pertencentes a Santa Maria (Sé) e a Santa Justa, o «cômoro», planície que olhava, como hoje, a Lisboa velha, não tinha foros de alameda.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 71, 1938)

Rua das Taipas [c. 1900]
Antiga de São Sebastião vulgo de São Sebastião das Taipas
Panorâmica tirada de São Pedro de Alcântara; Colina de Santana
Paulo Guedes, in AML

A travessa das Taipas já em 1778, na citada relação manuscrita do tenente coronel Monteiro de Carvalho, aparece com o actual nome de rua de São Sebastião das Taipas. Tinha, então, de risco pombalino, dezasseis propriedades do lado nascente e duas do lado do poente.
(MATOS SEQUEIRA, Gustavo de, Depois do Terremoto, 1933)

Rua das Taipas [c. 1900]
Antes de São Sebastião vulgo de São Sebastião das Taipas
Palacete Gama Pinto (1853-1945), médico-oftalmologista.
Paulo Guedes, in AML

N.B. Em 1885, Gama Pinto regressou a Lisboa e, três anos depois, fundou o Instituto de Oftalmologia sito na Rua do Passadiço, o primeiro centro de formação de oftalmologistas do país que, hoje, tem o seu nome. Gama Pinto foi certamente o primeiro especialista em oftalmologia em Portugal.

Sunday, 21 March 2021

Chafariz Alcolena ou da Boa Memória

Obra do arq. régio Possidónio da Silva, este chafariz foi inaugurado em 13 de Junho de 1850, em frente à Igreja da Memória. A necessidade da sua construção prendeu-se com o facto do habitual ponto de abastecimento de água localizado no Palácio das Secretarias, na Calçada da Ajuda, ter sido adaptado para residência do rei consorte D. Fernando de Sax-Coburgo. Sugerindo os chafarizes de obelisco, traduz, apesar da sua simplicidade, uma elegância de formas, que concilia superfícies ondulantes e rectilíneas

Chafariz Alcolena ou da Boa Memória [1932]
Calçada do Galvão
A falta de água em Lisboa e o assalto ao chafariz, sob o o olhar atento do policia, assim que aquela aparece.
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Do seu tanque de recepção de águas rectangular eleva-se ao centro, sobre uma base quadrangular, uma pirâmide alongada, como se fosse um jarro bojudo, de secção quadrangular com o colo alto e arestas curvas. Este conjunto surge rematado por uma espécie de vaso ou urna, coroado por uma esfera. Numa das faces da sua base exibe as armas camarárias. [cm-lisboa.pt]

Chafariz da Memória [1939]
Calçada do Galvão [antiga Estrada do Penedo]
Eduardo Portugal, in AML

N.B. Este topónimo homenageia António José Galvão, oficial-mor do Corpo de Sua Magestade (Intendente das Polícias). No nº 25-28 deste arruamento encontra-se a «Casa do Galvão», casa nobre de gosto barroco, construída numa quinta doada, em 1758, pelo rei D.José I a António José Galvão.

Friday, 19 March 2021

Cinema Rex

O Cinema Rex, nos limites da Mouraria, localizado ao lado do extinto Real Coliseu e depois da garagem Liz, foi inaugurado em 1936, no edifício onde desde 1929, tinha funcionado a Federação Espírita Portuguesa. Com lotação de 5478 lugares, o Rex possuía balcões e camarotes, tal como um cinema de estreia. Em 1968/1969, Vasco Morgado “transforma” o Rex no «Teatro Laura Alves», homenagem merecidíssima à grande mulher e actriz. Encerrado no final da década de 1980, reabre nos anos 90 como Teatro Laura Alves, com um interior renovado. Quase desaparecido no incêndio de 2012, perdura um resto de fachada de obscura utilização.

Cinema Rex [1960]
Rua da Palma, 253
Armando Serôdio, in AML

Sunday, 14 March 2021

Sociedade Nacional de Belas Artes

O Dr. Barata Salgueiro, em 1882, — diz Norberto de Araújo — doou ao Município uma parcela de terreno para fundação de uma grande escola destinada a 3.000 crianças.
A Escola nunca se fêz, e a Câmara, abusivamente quanto a nós, pôs os terrenos em praça em 1903, e os chãos doados foram retalhados para edificações, escapando um pedaço que foi mais tarde cedido à Sociedade Nacional de Belas Artes [1901]. É êste onde assentou o edifício da Sociedade, com frente à Rua Barata Salgueiro, e cujo arquitecto foi Álvaro Machado. Não se construiu o edifício sem que os herdeiros de Barata Salgueiro protestassem perante os tribunais, chegando a ganhar a sua causa no Tribunal da Relação (1912).
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 41, 1939)

Sociedade Nacional de Belas Artes |1913|
Rua Barata Salgueiro, 36
Fotografia anónima, in O occidente

Friday, 12 March 2021

Avenida Duque de Loulé, 8

Antiga Rua Duque de Loulé (1902) - Por delib. e edital da CML, respectivamente de 25 e 29/01/1917, foram desanexados da Rua de Andaluz e incorporados na Avenida Duque de Loulé, os prédios que, naquela rua tinham os nºs 131 a 139, 145 a 149 e 151 a 161.

Avenida Duque de Loulé, 8 [194-]
Estadista 1804-1875
Eduardo Portugal, in AML

Em 1826, Nuno José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto, Duque de Loulé, foi nomeado Par do Reino.
Depois de, em Inglaterra, ter aderido ao Partido Liberal, regressa a Portugal onde, a partir de 1833, chefia vários ministérios (Negócios Estrangeiros, Marinha e Ultramar, Obras Públicas, Comércio e Indústria), acumulando a Presidência do Conselho com alguns desses cargos ministeriais.
Em 1859, foi nomeado Conselheiro de Estado efectivo e, entre 1870 e 1872, eleito Presidente da Câmara dos Pares. Enquanto parlamentar, as suas matérias de interesse centraram-se no estado da agricultura e das finanças do Reino. Aos direitos humanos também dedicou particular atenção, nomeadamente aquando da discussão da Lei da Liberdade de Imprensa.
A par da sua actividade política, o Duque de Loulé seguiu a carreira das armas como oficial do exército de cavalaria e, durante dez anos, foi grão-mestre da Confederação Maçónica Portuguesa. [parlamento.pt]

Sunday, 7 March 2021

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa»

Pode São Bento ter-se convertido no símbolo da Política; o Terreiro do Paço no símbolo da Burocracia; a Rua dos Capelistas no símbolo da Finança; o Chiado alcançou o privilégio de os superar a todos, porque se converteu no símbolo do Bom-Tom. Passando a pontificar na Literatura e na moda, consequentemente os homens de letras passaram a escrever para o Chiado, os janotas a apurar-se para o Chiado, as Senhoras a vestir-se para o Chiado. Mais do que uma rua, ainda que das mais afortunadas de Lisboa, o Chiado tornou-se uma verdadeira instituição nacional  quase que um autêntico Estado dentro do Estado, com o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia, a sua Catedral. Eça de Queiroz não hesitou mesmo em afirmar: «o que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, mundanos decide no Chiado que Portugal seja — é o que Portugal é.»¹


Quem está neste Largo do Chiado — relembra Mário Costa — , pode dar um saltinho até à Praça de Luís de Camões, e é justo que se atreva a essa pressuposta acrobacia, para trazer à lembrança os traços pitorescos que o progresso apagou, a começar na eliminação dos típicos quiosques com venda de refrescos, onde se bebia o melhor capilé de Lisboa. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in AML

Ajudavam a compor o singelo friso, os esfuziantes vendedores das popularíssimas castanhas assadas no forno — quentes e boas, dé réis vinte! — ; o pictural homem do realejo, acompanhado do urso amestrado, que dançava ao som do toque de pandeireta; a sugestiva tela que conglobava as incomparáveis cenas interpretadas pelos inimitáveis pantomineiros de praça pública  empoleirados em pequena tripeça, fazendo uso do mais cómico palavreado, uma arenga às massas ingénuas — às vezes também desfrutadoras – propagandeando milagrosos produtos, tudo maravilhoso, elixires da longa vida, para fazer crescer o cabelo e extrair calos sem dor, os únicos para tirar as nódoas do fato.

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in AML

 Foi-se toda essa colorida pintura, muito século XIX, quadros que enterneciam, pela ingenuidade do desenho. Também certo dia se arrancaram os utilíssimos bancos de duas tábuas, que foram o consolo de velhos reformados; e, em nome da civilização, se demoliu outro estilo de quiosque, todo de ferro e em forma cilíndrica, disfarçado por grande biombo, com entrada só para homens. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [1912]
Ao fundo notam-se os antigos bancos de duas tábuas e o desaparecido urinol
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 90-102, 1987.

Friday, 5 March 2021

Praça de Luís de Camões

O olisipógrafo Júlio de Castilho no seu estudo «Pregões de Lisboa, Música do Coração do Povo», recorda:

A melopeia dos pregões é música, deliciosa música, nativa no coração do povo. Em cada nota diz-nos muito; na letra e na harmonia solta eflúvios de campo, lembra as hortas do Areeiro, os pomares de Benfica, as latadas de Loures, a fragrância das sebes nas sombrias azinhagas, as fainas das bandadas casaleiras. Pregões da Primavera no Bairro Alto, nas vielas de Alfama ou do Castelo, lembro-me bem das íntimas saudades, que na mente dorida me acordáveis, quando, longe dos meus, em plaga estranha, destes torrões natais curti a ausência. Escutava na memória da alma as sabidas vetustas melodias dos pregões desta mágica Lisboa…»
(in Lisboa – Revista Municipal, n.º 116-117, p. 73, 1968)

Praça de Luís de Camões [séc. XIX]
— Água fresquinha e pura! Olha o púcaro de água fresca! Áá-Áá!
— Áúúú! Á–ú! Áááuga!
Fotógrafo não identificado, in AML

Sunday, 28 February 2021

A Escola Académica e o antigo Palácio Caldas Aulete

Foi o sr. Francisco José de Caldas Aulete — recorda o ilustre Júlio de Castilho — , cavalheiro inteligente, enérgico, e activo, quem tomando de aforamento em 1835 aquelas ruínas, começou com ousadia e bom gosto o despejamento e arborização do pequenino largo que fica no topo da Rua da Condessa, e a edificação do palácio, hoje afogado nas informes construções da Escola Académica. A iniciativa do sr. Caldas se deve exclusivamente a completa metamorfose daquela encosta. Das obras dele pouco se pode já apreciar, porque a Escola demoliu em parte, e em parte recobriu, o que havia.

Escola Académica [c. 1900]
Calçada do Duque; entrada lateral da Estação do Rossio
Fotógrafo não identificado, in AML

O largozinho a meio da calçada, onde desemboca a Rua da Condessa, era antes das obras últimas um sitio lindo, com um quid de nobreza e distinção, que em poucas paragens desta Lisboa se encontrava. Ao fundo, com umas heras pendentes, aqui, ali, um farto lanço da muralha guerreira d'el-rei D. Fernando. Lembra-me que havia lá no alto uma pequena porta ogival [vd. 2ª imagem], puro moyen age, e para que levava uma escadaria estreita, de lanços, ao rés da parede. Aquela linha extravagante e inesperada quebrava a extensão do muro, e compunha.
O pátio ajardinado e sombrio era o digno átrio de tão recatada residência, dominada pitorescamente pelas ameias da muralha feudal.

… Tour vieille, et maison neuve.

Aos lados da entrada, dentro do pátio, dois leões colossais, de pedra, que tinham pertencido á quinta do marquês de Ponte de Lima em Mafra. Todo o muro exterior junto ao portão fora pintado pelo nosso insigne e fantasioso Cinatti; eram rosaças e ornamento a claro escuro, e do mais apurado gosto.
Por dentro, que vivenda luxuosa e elegante! os belos salões caíam sobre uma densa mata chilreada, e desfrutavam, como pano de fundo, através da rota cortina verde florida dos arvoredos, a nobre vista da Alcáçova. O arquitecto foi o cenógrafo italiano Luiz Chiari, já então velhíssimo. O vestíbulo, que era oitavado, pintou-o o nosso André Monteiro, assim como a casa de jantar, adornada de caçadas e paisagens; finalmente foi o brilhante pincel de José Francisco de Freitas, que encheu de flores as paredes das salas, cujos magníficos espelhos tinham pertencido á rainha a senhora D. Carlota, e vindo do Ramalhão.
No palácio do sr. Caldas varias pessoas conhecidas habitaram, além dos proprietários que ali estiveram muitos anos.¹

Portão do antigo Palácio Caldas Aulete 
Largo formado pela Calçada do Duque com a Rua da Condessa
Desenho conjectural por J. Castilho

Em 1863António Florêncio dos Santos adquiriu toda a propriedade a Francisco Júlio de Caldas Aulete (1826—1878) — professor, lexicógrafo e solicitador da Casa Real, autor de diversos livros didácticos e iniciador do Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa —  que foi completamente transformada para nela instalar a Escola Académica (1847-1977).
A Escola Académica, inaugurava a 8 de Janeiro de 1865 na Calçada do Duque, com a presença da família Real, um edifício de quatro andares construído de raiz.
Esta Escola foi pioneira no nosso país ao reunir valências de instrução primária, secundária e profissional, num mesmo estabelecimento de ensino.
Desde 1927 pertence à CP (Comboios de Portugal).²

Largo formado pela Calçada do Duque com a Rua da Condessa [1946]
Portão do antiga Escola Académica, hoje C.P. (Comboios de Portugal)
Martinez Pozal, in AML

Bibliografia
¹ CASTILHO, Júlio de, A Lisboa Antiga, pp. 148-149, 1893.
² Revista universal Lisbonense.

Friday, 26 February 2021

Calçada do Duque

Sobre a origem do topónimo «Calçada do Duque» e da «Rua do Duque», diz o olisipógrafo Júlio de Castilho o seguinte: 

Esta íngreme calçada teve vários nomes: o mais antigo que lhe conheço é o de calçada do Postigo do Condestável, tomado da denominação da porta que lhe ficava ao cim0, porta assim chamada em honra do fundador do próximo convento do Carmo. Depois chamou-se calçada do Postigo do Carmo; depois calçada do Postigo de S. Roque, quando àquela porta, ou postigo, deu nome a imagem de S. Roque colocada na sua parte superior. Este nome durou até 1715. [...] Entre esse ano e o de 1745 trocou-se o nome no de calçada do Duque. Esse Duque é o do Cadaval, cujo palácio existia dentro de um grande pátio na rua do Príncipe, ao Rossio, onde veio a construir-se a estação do caminho de ferro. [...] Depois do terremoto este ultimo titulo acabou. 

Calçada do Duque [1941]
Castelo de S. Jorge
Eduardo Portugal, in AML

O edital do Governo Civil de 1 de Setembro de 1859 incorporou sob a denominação de calçada do Duque a linha que principiava no Rossio e seguia á direita até S. Roque. Com os desaterros feitos para a estação do caminho de ferro tudo isso mudou. 
E houve ainda mais; o nome do Duque alastrou, depois que a Camara demoliu o palácio dele. Os habitantes da próxima rua dos Galegos requereram a mudança dessa designação para rua do Duque! Porquê não se percebe; os Galegos são uns cidadãos como os outros, e mais úteis que muitos Portugueses. Para que foi expungir o antigo letreiro? Apesar de absurdo sem razão plausível, a Câmara aprovou-o, o Governador Civil sancionou-o, e desde Maio de 1867 a rua dos Galegos é a rua do Duque. Seja assim.==

Calçada do Duque [1946]
Ao cimo, a Rua da Condessa e o antigo Palácio Aulete depois Escola Académica
Martinez Pozal, in AML

Bibliografia
CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga: O bairro alto de Lisboa, p. 8, 1879.

Sunday, 21 February 2021

Os Lagos do Rossio

Estes dois lagos — «fontanas» diriam os italianos — substituem, ou sucederam, a dois poços que no Rossio existiam desde 1837; foram inaugurados em 1889. A escultura , de ferro bronzeado , é francesa. 
O Rossio foi empedrado, em xadrêz, em 1837; o empedrado — que todos conhecemos — às ondas negras e brancas, do risco do general Pinheiro Furtado, e executado em parte por presos do Castelo de S. Jorge, datava de 1848-1849, e subsistiu até 1 de Setembro de 1919, dia em que começou, com inúmeros protestos, a transformação da grande placa central, sendo poucos dias depois retirados 16 bancos, e arrancadas 32 árvores.

Os Lagos do Rossio [post. 1937]
Vista nocturna: pormenor da Fonte Sul da Praça Dom Pedro IV
Estúdio Horácio Novais, in FCG

O módulo central de ambas as fontes caracteriza-se por apresentar um grupo escultórico bastante elaborado, coroado por quatro peixes, que vertem água para uma taça circular de pequena dimensão, a qual transborda para uma segunda taça, localizada num nível inferior, esta octogonal e de maior dimensão, que, por sua vez, transborda para um lago circular existente na base, onde quatro figuras, que representam sereias, funcionam como repuxo direccionado para a taça maior. Este elemento integra a Lisboa Pombalina, que está classificada como Conjunto de Interesse Público.

Os Lagos do Rossio [post. 1937]
Vista nocturna: pormenor da Fonte Norte da Praça Dom Pedro IV
Estúdio Horácio Novais, in FCG

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 68, 1939.
cm-lisboa.pt.

Friday, 19 February 2021

Antiga Estação Ferroviária da Parede

Esta estação situa-se no troço entre as Estações de Pedrouços e Cascais da Linha de Cascais, que foi inaugurado pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses em 30 de Setembro de 1889. A estação entrou ao serviço com o nome de Parede-Galliza.

Antiga Estação Ferroviária da Parede [1889]
Fotografia anónima
Estação Ferroviária da Parede [1928]
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Legenda da foto no arquivo: «As crianças [da Colónia Infantil de O Seculo] na estação da Parede»

Sunday, 14 February 2021

Neve em Lisboa

«Lisboa já é uma cidade civilizada: até tem neve». Podia ler-se no jornal "Diário de Lisboa" em 16 de Janeiro de 1945. E continuava ... «A cidade tomou aspectos novos. De um modo geral, o transito foi diminuto. Os estabelecimentos apresentavam-se, quasi todos, com as portas fechadas, sôbre as quais se tinham colado letreiros improvisados. "Empurre". Noutros foram corridas as cortinas, que tinham sido instaladas, há meses, durante o período de defesa passiva». «O mau tempo prejudicou o serviço de "eléctricos", pois, por estar muito pessoal doente — 220 guarda-freios e condutores! — o numero de carros a funcionar tem sido menor. Verdade seja que há menos passageiros — o que, de resto, também se verifica nos comboios. É que o numero das pessoas constipadas ou com gripe ascende a muitos milhares, estando muitas de cama, ao mesmo tempo que diversos patrões têm dispensado, nestes dias maus, grande parte do pessoal. 

Neve no Campo Grande |1945-01|
Ferreira da Cunha, in AML
Neve no jardim do Campo Grande |1945-01|
Ferreira da Cunha, in AML

Hoje, foram retirados da circulação os carros abertos.» «Grupos de patinadores do "Ski Clube de Portugal", entre eles algumas senhoras, procuravam as zonas de neve mais consistente para as suas praticas desportivas. Claro que estavam longe de conseguir as imensas vertentes da Serra da Estrela, mas mesmo assim divertiram-se toda a manhã, pois o sol não logrou o degelo com facilidade.» «É caso para perguntar: Estamos no polo norte ou em Lisboa? Até as coordenadas geográficas nos trocaram!» No dia seguinte, 17 de Janeiro de 1945, a neve tinha-se dissipado na cidade de Lisboa e às 9h 30m da manhã a temperatura mínima era de 1,6º C. A mínima nacional era registada nas Penhas Douradas com -6,3ºC e a máxima em Lagos com 6,7 ºC à mesma hora. A queda de neve em Lisboa, e no resto do país, tinha começado a 12 de Janeiro, tendo-se prolongado pelos dias seguintes até 17 de Janeiro.

Neve na Praça dos Restauradores |19--|
Ferreira da Cunha, in AML
Neve na Praça do Marquês de Pombal |19--|
Ferreira da Cunha, in AML

Friday, 12 February 2021

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova

O Mercado da Ribeira Nova há vinte anos — lembra Norberto de Araújo — era, quási exclusivamente, de peixe, e o das hortaliças e frutas arrumou-se até 1927 nuns barracões, entre a linha do caminho dc ferro, à qual se encostava por lado de terra, e a Avenida 24 de Julho

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in AML

Esse Mercado de frutas e verdes junto à linha férrea fôra originado por uma greve de hortaliceiras na Praça da Figueira; as rebeldes foram-se instalar no Cais de Santarém onde estiveram dois anos, até que, despejadas dali, se instalaram (1905) no sítio — hoje [1939] ajardinado — onde fizeram o seu negócio (quem se lembrava já da greve?) até 1927. Entretanto juntaram-se-lhe as hortaliceiras da Ribeira Nova.

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 57, 1939.

Sunday, 7 February 2021

Quinta da Cruz do Tabuado

O sítio do Andaluz antiquíssimo, o avô de toda esta área — estrada que ia da Corredoira (que deu em Santo Antão) até Palhavã e até Alvalade — possui o padrão da Bica, trivialíssima, a marcar-lhe o passo semi-milenário da idade.
Hoje está reduzido a um pequeno Largo, e — com o Largo das Palmeiras de permeio — à Rua do Andaluz, que leva à Praça José Fontana, antiga Cruz do Taboado

Quinta da Cruz do Tabuado [1957]
Rua do Andaluz, 50-52
Armando Serôdio, in AML


A Rua do Andaluz, já guarnecida de prédios modernos, ou reedificados sôbre antigos casarões setecentistas, mostra ainda reminiscências do tempo velho. Aqui temos, à esquerda, subindo, um antigo solar, n.° 50-52, da «Quinta da Cruz do Tabuado», dístico que permanece ainda, em ferro, na sobreporta que introduz num pátio, e que fazia parte do logradouro da Casa. Não sei de quem fôsse nem há tempo para investigar; é hoje do Dr. Rui Ulrich. Tem o prédio, muito decadente, ainda certa expressão, com sua revestimenta de azulejos «de navio» no primeiro andar.

Quinta da Cruz do Tabuado, portão [1957]
Rua do Andaluz, 50-52
Observa-se o dístico, em ferro, na sobreporta
Armando Serôdio, in AML
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 46, 1043.
ibid, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 99-100, 1939.

Friday, 5 February 2021

Rua da Misericórdia, 63-65: «Casa Maciel»

A «Casa Maciel» (2ª à dir.) fabricava candeeiros e artigos de decoração, lanternas tradicionais e modernas, alugando também material para eventos.
Começou por fabricar candeeiros de petróleo, de azeite ou de óleo de baleia e era especializada em lanternas de carruagens. Forneceu os modelos de lanterna em ferro zincado que foram colocados nas ruas de Lisboa sob encomenda do Intendente de Pina Manique. A «Casa Maciel» forneceu também a Coroa Portuguesa e as Sés Catedrais de Portugal, bem como palácios, casas senhoriais e museus portugueses e além-fronteiras. Manteve-se na posse da mesma família desde há 7 gerações, tendo sido registada oficialmente em 1810, mas começando a laborar em 1798. Foi Rui Pragana quem criou durante a 2ª Guerra Mundial o sistema “bailarina” (forma de aquecer água sem usar fogo), que permitia a todas as famílias usufruírem de luz nas suas casas através do aproveitamento de desperdícios, como jornais e tecidos. A «Casa Maciel» fabricou durante 100 anos formas de bolos, por ex., para o Palácio de Queluz na última visita da rainha Isabel II a Portugal.

Rua da Misericórdia, 63-65 [entre 1901 e 1908]
Vulgo do Mundo, antiga de São Roque, antes Larga de S. Roque
«Casa Maciel» (pormenor)
Machado & Souza, in AML

A crise, a falta de operários especializados e a adaptação das suas instalações a lobby do hotel em que se transformou o edifício que a albergava, ditaram o seu encerramento em Agosto de 2015. Soube, entretanto, por mensagem de um prestável leitor, da intenção dos descendentes na reabertura desta vetusta loja lisboeta. [circulolojas.org]

Rua da Misericórdia, 63-65 [entre 1901 e 1908]
Vulgo do Mundo, antiga de São Roque, antes Larga de S. Roque
«Casa Maciel»
Machado & Souza, in AML

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