Sunday, 1 August 2021

Ermida da Saúde

Eis-nos, agora, diante da Igreja de N. Senhora da Saúde, a da famosa procissão que constituía um dos encantos populares religiosos de Lisboa do século passado [XIX], e que perdurou até à República. 

Neste sítio se elevava no século XVI, logo no começo (1506), uma ermida da invocação de S. Sebastião, advogado contra as pestes, construção que foi da iniciativa dos artilheiros da guarnição de Lisboa.
Em 1596, por deliberação do Arcebispo D. Miguel de Castro, a igrejinha converteu-se em paroquial de S. Sebastião (da Mouraria), desanexada da de Santa Justa, e assim o bairro tomou independência como freguesia. (...)

Ermida de Nossa Senhora da Saúde [190-]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
José Artur Bárcia, in AML
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Procissão de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima, in AML

A sede da paróquia em 1646 foi levada para a Igreja do Socorro; a actual Igreja da Saúde continuava a chamar-se de S. Sebastião, sem honras de Paroquial, mas muito mais representativa. 
Só em 1662 a Igreja de S. Sebastião passou a chamar-se de N. S. da Saúde, quando a imagem foi transferida do Colégio de Jesus [ou dos Meninos Órfãos], de que te falei, aqui a dois passos, para a actual «residência». E de Nossa Senhora da Saúde passou a ser até hoje [1938]. S. Sebastião esqueceu.
Pelo Terramoto o templo recebeu dano, mas pouco, porque logo dois anos depois estava restaurado e aberto ao público.»
A Ermida — melhor é classificá-la assim — constitui um dos restos piedosos de Lisboa velha, embora os artilheiros hoje já se não preocupem com a devoção. Oferece uma certa ingenuidade; lembra uma capela de aldeia, pois não lembra?

Tem uma só nave, e mais não precisa. Os altares laterais são os de Nossa Senhora piedade e de Cristo Crucificado, e as imagens são em pintura e não escultura, obra do pintor setecentista António Machado Sapeiro. Na capela-mor vês as imagens de Santo António, S. Sebastião, de roca, e sempre muito alindada. O retábulo que notas é do escultor Brás de Oliveira. São interessantes os azulejos oitocentistas da Igreja.

Aí tens, Dilecto, o que é a Igreja de que falam os versos de um fado, até há dois anos, muito em voga:
Há festa na Mouraria
é dia da Procissão
da Senhora da Saúde...
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Saída do andor com a imagem de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima, in AML

Mas na Mouraria, hoje, já não há procissão. A procissão da Saúde era dos mais curiosos espectáculos da Lisboa religiosa, com um carácter diverso da dos Passos e da do Corpo de Deus ou S. Jorge.
A primeira vez que se realizou foi em 20 de Abril de 1570. A última em 20 de Abril de 1910. Saia de manhã cedo da Mouraria, ia à Sé onde se cantava um Te-Deum, e depois a S. Domingos, onde havia sermão. Recolhia ao entardecer à Mouraria — e era de ver-se.
Na procissão iam as três imagens citadas, de S. Sebastião, dos Artilheiros, e da Saúde, ambas da mesma confraria, e a de Santo António que andou sempre ligado a S. Sebastião aqui no bairro, de outra irmandade. Música religiosa, bandas militares, filarmónicas locais; foguetes, sinos, alarido típico do sítio; «anjinhos», soldados vestindo capa vermelha sobre a farda, e, nos seus últimos trinta anos, o Infante D. Afonso, como figura de destaque, simpática ao povo. O Capelão, a Amendoeira, o Outeiro, o Coleginho, os Álamos, despejavam-se sobre a Mouraria: quadro de costumes lisboetas dos mais sugestivos que pode imaginar-se, sem a grandeza da procissão do Corpo de Deus, nem a compostura fidalga da dos Passos da Graça — plebeia, original, bairrista, enternecedora.

Enquadramento da Ermida da Saúde na Pç. do Martim Moniz depois das demolições na Mouraria [1949]
A igreja actual é de pequenas dimensões e data do século XVIII. É um símbolo da arquitectura religiosa barroca embora a sua fachada principal e simples seja atribuída ainda ao mestre João Antunes dos inícios de 1700. 
Artur Pastor[?], in AML

N. B.  Os artilheiros da Guarnição de Lisboa, denominados por bombardeiros, mandaram erguer em 1505, uma pequena ermida dedicada a São Sebastião, padroeiro e advogado da peste, em cumprimento da promessa feita ao mártir pelo fim da epidemia que nesse ano se estendeu por toda a cidade e que matou muitos habitantes.
Em Outubro de 1569, o rei D. Sebastião devido a mais um surto epidémico que matou milhares de pessoas, pede ao Senado da Câmara de Lisboa a construção de uma igreja maior, consagrada a São Sebastião, e em Dezembro, ordena que a sua edificação seja efectuada na Mouraria perto do local da antiga ermida.

Ermida de Nossa Senhora da Saúde, interior [1902-01-25]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
O culto a Nossa Senhora da Saúde é muito importante na cidade de Lisboa e anualmente realiza-se a procissão em agradecimento e protecção à Virgem, tradição que se mantém desde o século XVI.
Machado & Souza, in AML

Bibliografia
ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 76-77, 1938.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa, 1.ª ed., Sacavém, Carlos Quintas & Associados – Consultores, 1994, pp. 874-876.

Friday, 30 July 2021

Rua dos Lagares que foi caminho da Carreirinha

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo em Lisboa de Lés a Lés, defende que uma azinhaga existente em 1510 perto do lagar de azeite de Pero Lopes do Carvalhal «tem todas as possibilidades de ser a antecessora da citada rua. (...) Com respeito ao caminho da Carreirinha, forma por que foi designada primitivamente a rua de que nos ocupamos ela reaparece em 1738, continuando depois a ser usada durante algumas dezenas de anos» e observa que «no século XVIII o nome de Carreirinha é aplicado ao mesmo tempo que se aplica os de rua da Graça, rua Nova da Graça, rua da Graça atrás dos Lagares e rua detrás dos Lagares, circunstância que pode levar a supor-se que a serventia estivesse talvez dividida em duas denominações, pelo menos.» para concluir que «Esta rua é a antiga Carreirinha, a rua do Lagar das Olarias dos meados do século XVI, e a actual rua dos Lagares.§
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa De Lés-a-Lés, vol. III, 1940-1943)

Rua dos Lagares [c. 1900]
À esquerda, a Calçada do Monte e, à direita, o Largo das Olarias; ao fundo, a torre
sineira do Convento da Graça.

Machado & Souza, in AML

Por seu lado, Norberto de Araújo diz que «a Rua dos Lagares — que foi nos séculos velhos «Rua por trás dos Lagares» — , muito calma, a mais grave do sítio, e cujo lado direito, sobre o Largo das Olarias, acusa aspecto mais antigo. Encosta pelo lado oposto ao que foi a Cerca dos frades da Graça, e cujo terreno em parte ainda é pertença do Quartel da Graça, que herdou o Convento.§
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 33, 1938)

Rua dos Lagares, 14 [c. 1900]
Topónimo fixado na memória da cidade em data que se desconhece e por terem aí
existido uns lagares de azeite.

Machado & Souza, in AML


Sunday, 25 July 2021

Palácio (ou Quinta) das Águias (ou dos Cortes Reais)

O Palácio das Águias, na Rua da Junqueira, foi começado a erguer, no seu núcleo primitivo, em 1718, pelo licenciado e advogado da Casa da Suplicação Manuel Lopes Bicudo, em chãos do mor­gado de Saldanha, convertidos em quinta. Não ia a propriedade além do posterior do palácio actual — então casas nobres de mediana grandeza — e a frente do terreno quinteiro era defendida, do lado da Junqueira, por um simples muro com cinco janelas.


Ai temos o Palácio das Águias, no n.º 138 da Rua da Junqueira, para além de um formoso jardim, e com entrada também pela Calçada da Boa Hora. Este Palácio das Águias— diz Norberto de Araújo — não deriva seu nome, como se pode supor, das águias que se elevam sobre os pilares das umbreiras, pois já tinha aquela designação antes de 1841, ano em que foi construída a cortina gradeada com o portal principal.

Palácio das Águias, a decorativa fachada Sul [c. 1950]
Rua da Junqueira, 138; Calçada da Boa Hora, 3-5 e 29
Fachada Sul, sobre o Jardim Grande, sobranceira a uma esplanada guarnecida de balaustrada, ornada com quatro estátuas de fino mármore, e para a qual esplanada se desce por uma pequena escadaria de lanços laterais.
Horácio Novais, in I.L.

Como se observa à primeira vista trata-se de uma construção rica do século XVIII, várias vezes transfigurada, por obra, melhorias e reparos, pelo tempo adiante. Foi o Palácio mandado edificar, entre 1713 e 1716, num aspecto menos grandioso, pelo licenciado Manuel Lopes Bicudo em chãos do Morgado Saldanha, é claro. Logo em 1731 os direitos do edificador passaram a Diogo de Mendonça Côrte Real, que foi Secretário de Estado de D. José, como seu pai, do mesmo nome, o fora de D. João V. Diogo de Mendonça foi desterrado em 1756, mas a casa não foi confiscada, e andou de aluguer, havendo, entre outros, habitado nela D . José Manuel, Cardeal Patriarca. O palácio foi legado pelo Mendonça Côrte Real aos Hospitais Civis, administrados pela Santa Casa da Misericórdia, que andaram em demanda com os descendentes do Côrte Real de 1764 a 1837! Em 1838 a Misericórdia tomou alfim conta da propriedade (quinta e solar), e em 1841 adquiriu-o [bastante arruinado por setenta e oitos anos de abandono] em hasta pública José Dias Leite Sampaio, feito Barão da Junqueira em 1834 e Visconde em 1851. Este Sampaio era Contratador do Tabaco ao tempo da compra e possuidor da Quinta de Alorna, no Ribatejo, morreu em 1870, e de uma sua filha, Condessa da Junqueira, falecida em 1913, houveram a propriedade sete herdeiros, todos primos. Estes constituíram uma sociedade, transmitida depois a um grupo de capitalistas, um dos quais, o Dr. Manuel Caroça, acabou em 1918 por adquirir as cotas dos restantes, ficando com o grosso da fortuna da Condessa da Junqueira, e recolhendo o Dr. Fausto Lôpo de Carvalho, genro daquele, uma pequena cota de um sócio isolado. A estes dois senhores pertence hoje [em 1950] o Palácio das Aguias, cuja quinta, porém, já não tem a extensão que teve em tempos.

Palácio das Águias, Gradeamento, Portão e Pavilhões [c. 1950]
Rua da Junqueira, 138; Calçada da Boa Hora, 3-5 e 29
A Cortina de Gradeamento (1841), sobre a Rua da Junqueira, que substitui o 
primitivo muro de cinco janelas, e  nela: O Portão  Central, de ferrageria, n.º 138 da Rua, que fecha em arco côncavo, ladeado por pilastras rematadas por águia aberta, com SS no peito (heráldica dos Sampaios); os dois Pavilhões Extremos, quadrangulares, com sólidas bases de alvenaria, coroados por mirante rematado por cúpula redonda, zincada, e apoiada em doze colunas.
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Este Palácio, não sendo o mais belo da Junqueira, é de facto uma construção setecentista adornada de bom gosto, com sua fachada, recuada do eixo da Rua, com esplanada, arcarias, jardins, lagos, cascata; o edifício — melhorado no século passado [XIX] pelo arquitecto Fortunato Lodi — ostenta bons silhares de azulejos, e possui uma capela, fundada em 1748 por José Nogueira, onde se guarda um retábulo de Guillard, «Anunciação», de muito mérito. Vê a graciosidade dos pavilhões, ou mirantes, nos ângulos  frente à Rua [vd. 2ª imagem], realizando um conjunto interessantíssimo de casa olisiponense nobre — tipo extramuros.

Palácio das Águias, Frontaria Nascente, que corresponde à entrada principal e  a porta da capela (dir.) [c. 1950]
Rua da Junqueira, 138; Calçada da Boa Hora, 3-5 e 29
Fachada Nascente, sobre o jardim superior que nasce do portão n.º 1 da  Travessa  da  Boa-Hora.
Horácio Novais, in I.L.

N. B. Em 1996, o palácio da Quinta das Águias foi classificado como imóvel de interesse público. Actualmente, a propriedade continua desabitada, sendo comercializada por uma conhecida imobiliária internacional, contudo, encontra-se muito degradada em todos os níveis.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Outros  palácios  do  património  nacional, 1950.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 57-58, 1939.

Friday, 23 July 2021

Travessa do Cabral

As artérias que cortam a Bica, transversalmente — diz Norberto de Araújo —, são esta Travessa do Cabral, a da Portuguesa, a da Laranjeira e a do Sequeiro, tôdas com a mesma perspectiva e balanço de nível, descendo por escadinhas das Chagas, encontrando o vale — onde corre o ascensor — e voltando a subir, sempre por escadinhas, à Rua do Marechal Saldanha.
Norberto de Araújo recorda que a travessa herdou o nome do bacharel Manuel Rodrigues Cabral, que nasceu no final do século XVI e morreu em 1632. O olisipógrafo deixa-nos a seguinte nota curiosa nas suas Peregrinações: “ (…) Nota apenas no nº 35, no prédio da esquina nascente da Rua da Bica de Duarte Belo, esse curioso pórtico nobre, que faz hoje a porta de uma loja de barbeiro; nenhum de nós pode afirmar, mas pode admitir, que foi aqui o solar de Rodrigues Cabral. (…)»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 68, 1939)

Travessa do Cabral [entre 1960 e 1969]
Ao fundo a Rua. do Almada
Artur Pastor, in AML

Sunday, 18 July 2021

Palácio Sanches de Brito

«EDIFICADA, 1730, ARQUITECTO LUDOVICE QUE O FOI DO PALACIO DE MAFRA. RESTAURADA E ACCRESCENTADA SOB A DIRECÇÃO DE J. A. SANTOS CARDOSO E MOREIRA RATO — 1867»


De acordo com a inscrição existente na placa sobre uma porta do primeiro andar deste edifício, o palácio terá sido construído em 1730 sob a direcção do arqª João Frederico Ludovice, «que o foi do Palácio de Mafra», sendo restaurado em 1867. Foram encontradas referências a esta propriedade nos antepassados da família Sanches de Brito desde finais do século XVI, estando a mesma na posse de Álvaro Sanches de Brito já nos inícios do século XVII. Este facto poderia corroborar a informação contida na placa, datando o edifício de 1730 e indicando o nome de J. F. Ludovice. No entanto, esta informação, que não revela a fonte primordial em que se baseou, é contraditada por um documento de 1748, constante de um Livro de Cordeamentos. [...]

Palácio Sanches de Brito [ant. 1910]
Campo dos Mártires da Pátria, vulgo Campo de Sant'Ana, antigo Campo do Curral
Embaixada da Alemanha e instituto Alemão, despis Palácio Patriarcal.
Joshua Benoliel, in AML

Aquilo que se pode afirmar com segurança documental é que no início do século XVIII havia umas casas onde habitava Álvaro Sanches de Brito, casas essas que seu filho, João da Costa de Brito, fez demolir e substituir por outras com uma fachada com um corpo central saliente. Aliás, as características arquitectónicas do edificado apontam para data mais tardia de 1730, como se dirá adiante, levando outros autores a atribuírem o edifício ao arq.º Mateus Vicente de Oliveira (1706-1785), discípulo de Ludovice. [...]
Seria que as casas de residência de Álvaro Sanches de Brito foram objecto de uma intervenção de Ludovice, em 1730? É pouco provável que uma obra realizada sob a orientação de Ludovice, por certo de monta, fosse demolida dezoito anos depois, em 1748, para dar lugar a novo edifício, aliás bem aparentado com o gosto introduzido e difundido em Lisboa pelo mesmo mestre alemão. Aliás, Ludovice ainda estava vivo em 1748, pelo que poderá ter indicado o seu discípulo Mateus Vicente para dirigir o projecto. Esta afinidade poderá ter induzido em erro os autores dos restauros datados de 1867, afixando na placa a informação da autoria de Ludovice e a data de 1730. [...]

Palácio Sanches de Brito [1907-03]
Campo dos Mártires da Pátria, vulgo Campo de Sant'Ana, antigo Campo do Curral
Embaixada da Alemanha, visita do Rei de Saxe a Lisboa.
Joshua Benoliel, in AML

Pelo menos até 1833, a propriedade manteve-se na família, sendo mais tarde vendida à família Costa Lobo, responsável pela campanha de obras de 1867, como parece indicar a existência do seu brasão de armas em ferro sobre a porta de entrada. Nestas obras ter-se-ão provavelmente acrescentado alguns elementos decorativos em pedra, sobretudo em torno da mesma porta axial, bem como a balaustrada sobre a cornija e as estátuas que a coroam. [...]
No princípio do século XX esteve instalada no palácio a embaixada da Alemanha, ao tempo que era embaixador o Conde de Tattenbach, que aqui deu grandes festas, sobretudo aquando da visita a Lisboa do Kaiser Guilherme II. Depois, um dos membros da família Costa Lobo doou a sua parte do edifício à Misericórdia de Lisboa, vindo este a ser arrendado para instalação da residência do patriarca de Lisboa, em 1913. A outra parte acabou por ser adquirida pelo cónego Manuel Anaquim e pelo padre António Joaquim Alberto que depois arremataram a parte da Misericórdia (1923/24), mantendo-se o Patriarcado na sua posse até tempos recentes.

Palácio Sanches de Brito [1907-07]
Campo dos Mártires da Pátria, vulgo Campo de Sant'Ana, antigo Campo do Curral
Embaixada da Alemanha
Machado & Souza, in AML

Nota(s): Os mencionados membros desta família Sanches de Brito, nos finais do século XVII e ao longo do século XVIII, destacaram-se nas lides marítimas, como oficiais de marinha de guerra, como coronéis de mar e capitães de mar e guerra. O primeiro, Álvaro, chegou a ser governador da fortaleza de São Lourenço da Barra (Cabeça Seca), o filho, João da Costa de Brito chegou a capitão de mar e guerra, com uma carreira militar que ultrapassou os 40 anos ao serviço da armada.
Por fim, José Sanches de Brito, fidalgo da Casa Real e comendador da Ordem de Cristo, chegou a almirante da Armada Real.
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Bibliografia
MATOS, José Sarmento de; PAULO, Jorge Ferreira, «Da relevância dos Livros de Cordeamentos no estudo da arquitectura de Lisboa – O caso do Palácio Sanches de Brito», MATOS, José Sarmento de; PAULO, Jorge Ferreira, 2014.

Friday, 16 July 2021

Rua da Paz

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo este arruamento já existiria seguramente em 1602 e seria até anterior a esta data como Rua da Peixeira. Surge referido nas descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755 bem como nas plantas após a remodelação paroquial de 1780.

Rua da Paz [1960]
Esquina com a Rua dos Poiais de São Bento
Arnaldo Madureira, in AML

De mais a destacar, — acrecescenta  o ilustre  olisipógrafoaí tens no começo da Rua da Paz o prédio n.°ˢ 5-9, velho palácio setecentista, com seu ar solarengo desfeiado pela idade, onde nasceu, em 1791, e morreu em 17 de Janeiro de 1856, o historiador e erudito Visconde de Santarém, conforme o atesta a lápide colocada na frontaria em igual dia e mês de 1913. [Araújo: 1939]

Existe ainda nos arquivos municipais um contrato de arrendamento a Maria da Luz Galvão de Sequeira, em 1890, do prédio n.ºs 5 e 7, para instalação de uma escola central.

Rua da Paz. 5-9 [1913-01-17]
Descerramento da lápide
em homenagem ao segundo Visconde de Santarém, Manuel Francisco de Barros e Sousa.
Joshua Benoliel, in AML

Monday, 12 July 2021

Profissões de antanho: a vendedora de figos

— Quem quer figos quem quer merendar?


Bem, elas ofereciam os figos para o almoço, mas a verdade é que ninguém ficaria almoçado só com figos, a não ser que comesse tantos que enchesse a pança! Não era de acreditar, até porque as raparigas que cantavam alegremente o pregão apareciam de manhã e também pela tarde. E nesta altura já o pregão era outro:
— Quem quer figos , quem quer merendar?! Ó figuinhos de capa rota!

Vendedoras de figos transportando os cestos à cabeça, após a descarga no cais da Ribeira Nova [1912]
Antigo Cais dos Vapores devido à Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890;  Cais do Sodré
Joshua Benoliel, in AML

E lá iam com a ceira à cabeça, os figos cobertos por largas folhas de figueira, que tudo aquilo cheirava a campo e abria o apetite para adoçar a boca com os belos figos estaladiços, que era um louvar a Deus!
E a verdade é que a rapaziada não largava as mães a pedir-lhes o regalo de merendar uma pratada de figos.
— Tem cuidado, rapaz, que se não lhes tiras a capa rebenta-te a boca!
E por toda a cidade, na época própria:
— Quem quer figos, quem quer merendar?!

Vendedoras de figos transportando os cestos à cabeça, após a descarga no cais da Ribeira Nova [1912]
Antigo Cais dos Vapores devido à Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890;  Cais do Sodré
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

Friday, 9 July 2021

Chafariz da Penha de França

Chafariz de desenho simples, mandado construir pela Câmara Municipal de Lisboa e datado de 1870. Assente numa base prismática lisa, destaca-se um elegante vaso de galba (semelhante a um vaso de jardim), de bordo largo, decorado por uma sanefa envolvente, suspensa de botões debaixo do bordo e cuja galba surge ornamentada por rosetas, dispostas na vertical das pontas caídas da sanefa.

Chafariz da Penha de França [post. 1870]
Largo da Penha de França
Fotógrafo não identificado, in AML

Sunday, 4 July 2021

Avenida Infante Dom Henrique, antiga Marginal Oriental

Hoje, em terreno conquistado ao rio, corre a Avenida Infante Dom Henrique , entre a estação e a estrada de ferro de um lado, e o cais atracável, de outro, onde se situa o Terminal de Contentores de Santa Apolónia.

Poucas vezes, na toponímia citadina, terá havido um nome como este de «Avenida Infante Dom Henrique» que tenha recebido um tão unânime e caloroso aplauso da população.
O topónimo Avenida Infante Dom Henrique foi oficializado pela câmara através de Edital de 24/07/1948 identificando a “via pública projectada entre a Praça do Comércio e a Praça de Moscavide (actual Praça José Queirós)”. Segundo informação do Urbanismo da CML de 1953, este arruamento era conhecido por Avenida Marginal  Oriental.

Avenida Infante Dom Henrique[ant. 1957]
Estação de Santa Apolónia, ou do Cais dos Soldados
Judah Benoliel, in AM L

A Estação de Santa Apolónia, ou do Cais dos Soldados — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , ocupa com seus terrenos, toda a linha marginal até Xabregas, sem interrupção. A estação, ou gare, propriamente dita, não foi, de começo do caminho de ferro, neste sítio, mas mais adiante, no edifício que fora Convento de Santa Apolónia, ocupado pela Companhia Real, e que se situa no encontro da Calçada e Rua de Santa Apolónia, defronte da Calçada dos Barbadinhos. [...] O caminho de ferro foi inaugurado em Portugal com um troço desde Santa Apolónia ao Carregado em 29 de Outubro 1856. [...]

Avenida Infante Dom Henrique[ant. 1957]
Estação Fluvial Sul e Sueste
Judah Benoliel, in AM L

O edifício da Estação — a Central da sua época — chamou-se do «Cais dos Soldados», oralidade que perdura nos aduaneiros e nos ferroviários, porque no local dos cais das mercadorias ao longo da Rua da Bica do Sapato, existiu na primeira metade do século passado, mesmo rente ao Tejo, um quartel de cavalaria; era esta área de soldados.
O edifício da Estação é do risco dos engenheiros João Evangelista de Abreu (que deu o nome à Rua que acompanha a margem, para poente, desde o Caminho de Ferro até à Alfândega), Angel Ugart e Lecrimer, havendo a primeira pedra sido colocada em 20 de Outubro de 1862. A inauguração solenizou-se a l de Maio de 1865.
A gare coberta tem 117 metros de comprimento por 25 de largo.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, pp. 17-18, 1939)

Avenida Infante Dom Henrique[1959]
Estação de Santa Apolónia, ou do Cais dos Soldados
Arnaldo Madureira, in AM L

Friday, 2 July 2021

Avenida Infante Dom Henrique

Em Outubro de 1970, entrou em funcionamento o Terminal de Contentores de Santa Apolónia, apetrechado para o desembarque e embarque de contentores, com gruas porta contentores, incrementando-se eficácia e consequentes ganhos.
O Porto de Lisboa inaugurou uma nova e importante etapa acompanhando a evolução do transporte de mercadorias – o desenvolvimento da contentorização. O porto assume a função de ligação crucial entre os meios de transportes marítimos, fluviais e terrestres.

Avenida Infante Dom Henrique [195-]
Cais de Santa Apolónia, carros armazenados na Alfândega do Porto de Lisboa
Judah Benoliel. in AML

Sunday, 27 June 2021

Profissões de Antanho: vendedor de água fresca e Capilé

Mais uma recordação da Lisboa do século passado, da Lisboa dos trapeiros imundos, das saloias de botas de cano alto e de saia rodada, dos vendedores de sinas, dos aguadeiros, das ciganas, da mulher da fava-rica, da mulher dos farrapos ou das garrafas para vender, do homem dos balões, dos pirolito, da água fresca e do capilé.

Vendedor ambulante de água fresca e Capilé [1908]
Avenida 24 de Julho; ao fundo nota-se a Fábrica de Gás da Boavista.
Joshua Benoliel, in AML

O Xarope de Capilé é uma receita antiga, incluída no Cozinheiro Moderno (1780), confeccionado a partir de frondes de avenca e com um toque de água natural de flor de laranjeira, dilui-se com água para obter um refresco ligeiramente doce, e não era vergonha nenhuma para o grande Eça de Queiroz, declarar o capilé como sua bebida preferida para acompanhar o Bife à Marrare.

Vendedor ambulante de água fresca e Capilé [1908]
Avenida 24 de Julho
Joshua Benoliel, in AML

Friday, 25 June 2021

Rua da Palma, 43: Casa Travassos

É aquela rua onde na sua parte mais estreita - a que vai do Socorro à Rua dos Fanqueiros - faz com que o lisboeta experimente a sua paciência, quando por ela passa, quer de eléctrico, quer de automóvel, tal a lentidão com que o trânsito se escoa por ali.==
(Luís Pastor de Macedo, «Lisboa de lés-a-lés», vol. III, 1981)

Casa Travassos, que vendeu a Sorte Grande [1938]
Rua da Palma, 43 (antes das demolições, hoje Praça de Martim Moniz)
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Sunday, 20 June 2021

Banco de Lisboa e Açores

O Banco de Lisboa & Açores, que temos à vista, é na sua fachada o mais imponente edifício moderno da Baixa; não é obra trivial — risco de Ventura Terra — , com suas quatro colunas, nas quais, acima de placas de mármore , assentam cabeças de leão; três largas varandas, muito decorativas, sobre pianhas em concha regular, enobrecem a frontaria.

Banco de Lisboa & Açores [12 de Maio de 1911]
Rua Áurea, 82-92
Ornamentações por ocasião do IV Congresso Internacional de Turismo de Lisboa
Joshua Benoliel, in AML

O Banco Lisboa & Açores foi fundado em 1875, e transferiu-se para este local, deixando a sua sede na Rua do Comércio (passada ao Banco de Portugal) em 1907; o edifício novo fora concluído em 1906.

O vastíssimo hall, circular é precedido de um pequeno vestíbulo com pinturas e pormenores de arte; toda a construção, na parte aberta ao público, é nobre de materiais.

Banco de Lisboa e Açores [1928]
Rua Áurea, 82-92 (N→S)
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. No período de 1968-1969, além da sede, em Lisboa, e de filiais no Funchal, Ponta Delgada e no Porto, o banco possuía 14 dependências e 29 agências espalhadas pelo País.
Entretanto, na sequência da tendência crescente de concentração de capitais e de fusão de instituições, constituindo organismos mais sólidos e credíveis, também o Banco Lisboa & Açores negociou a sua integração com o recém-criado Banco Totta-Aliança. A Portaria de 14 de Novembro de 1969 autorizou a fusão dos dois bancos, ficando a nova instituição com a denominação de Banco Totta & Açores, entidade que iniciou funções a 01 de Janeiro de 1970.

Banco de Lisboa e Açores [1928]
Fachada sobre a Rua dos Sapateiros, 21
Fotógrafo não identificado, in AML
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 55, 1939.

Friday, 18 June 2021

Profissões de Antanho: venda ambulante de bolos e pinhões

Nos quatro cantos da praça, as quatro bandas militares emendavam as marchas festivas; os pregões dos tendeiros e dos vendedores ambulantes pareciam animados do mesmo furor de emulação: 
— Piiinhão quente! Está quentinho o pinhão!

Venda ambulante de bolos e pinhões [Início séc. XX]
Cais das Colunas, Praça do Comércio, antigo Terreiro do Paço
Fotógrafo não identificado, in AML
Nota(s): o local da foto não está identificado no arquivo

Sunday, 13 June 2021

Travessa do Oleiro

«Tv. do Oleiro he a segunda á esquerda na Rua do Poço dos Negros, vindo da Esperança, e termina na Rua dos Poyaes de S. Bento.»
(Itinerario lisbonense, 1804)

Segundo o olisipógrafo Matos Sequeira esta artéria «chamou-se primitivamente (segundo quartel do século XVII) Travessa do Benedicto abaixo do Poço Novo, e ainda em 1641 era assim conhecida. Depois passou a denominar-se do Oleiro, depois outra vez do Benedicto (1671), de João Latino (em 1760) e novamente, até hoje, do Oleiro.
O Benedicto que deu o nome a esta serventia, era um João Benedicto, que largos anos ali teve a sua oficina de oleiro. Esquecido o nome, ficou o mister a substituí-lo na designação local. As olarias abundavam nestas paragens, aproveitando naturalmente o barro dos terrenos da calçada do Combro e imediações.

Travessa do Oleiro |1960|
A primeira transversal é a Rua do do Poço dos Negros; ao fundo vislumbra-se o Beco do Carrasco
Arnaldo Madureira, in AML

Nos Elementos para a Historia do Município (tomo IX, pág 238), vejo uma postura da Câmara, do ano de 1610, proibindo aos oleiros a extracção do barro dos terrenos da herdade da Calçada do Congro [hoje "do Combro"], sob pena de prisão e multa, a fim de evitar desmoronamentos naquele local. Nos registos paroquiais e róis de confessados da freguesia de Santa Catarina, que percorri atentamente, encontrei, numerosos oleiros dados como moradores deste ponto, desde os fins do século XVI.»
(MATOS SEQUEIRA, Gustavo de, Depois do terremoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Vol. 2, pp. 47-48, 1916)

Thursday, 10 June 2021

Mosteiro dos Jerónimos: Túmulo de Luiz de Camões

No túmulo de Luiz de Camões, assim está escrito: "Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos poetas de seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu."

 
Em 1880, as ossadas de Vasco da Gama e do poeta Luiz de Camões foram trasladadas para o Mosteiro dos Jerónimos. Os seus túmulos, da autoria do escultor Costa Mota tio, encontram-se no sob-coro da igreja. Vasco da Gama (do lado norte) e Luís de Camões (do lado sul) foram os dois representantes máximos da epopeia lusíada, que mereceram a honra de repousar ao lado de reis. Luiz de Camões, filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá Macedo, nasceu em 1524(?), tendo feito os seus estudos em Coimbra.
 
Túmulo de Luiz de Camões [ant. 1946]
Mosteiro dos Jerónimos
Fotografia anónima

Em Ceuta, onde combateu os Mouros, perde um dos olhos. De regresso a Lisboa, é preso, em 1552, devido a uma rixa com um funcionário da Corte. Em 1553 é perdoado pelo rei e parte para a Índia, onde tomou parte em várias expedições militares. Segundo alguns autores compôs nesta altura o primeiro canto de Os Lusíadas. Em Macau exerceu o cargo de provedor-mor de defuntos e ausentes. Em 1569 regressa a Lisboa, publicando a obra Os Lusíadas três anos mais tarde. Morre em 10 de Junho de 1580, doente e na miséria.

Túmulo de Luiz de Camões [ant. 1946]
Mosteiro dos Jerónimos
Inscrição no túmulo: « PARA SERVIR-VOS, BRAÇO ÀS ARMAS FEITO;
PARA CANTAR-VOS, MENTE ÀS MUSAS DADA.
*LUSÍADAS * CANTO X * ESTANCIA CLV »
Garcia Nunes, in AML

Sunday, 6 June 2021

Rua Tomás da Anunciação, 153

O pintor Tomás da Anunciação, que se destacou sobretudo pela pintura paisagista e de animais, está desde o ano seguinte à sua morte perpetuado numa rua de Campo de Ourique, até aí denominada Rua nº 3 dos terrenos da antiga parada de Campo de Ourique.

Tomás José da Anunciação (1818–1879) nasceu na Ajuda e, iniciou a sua carreira como desenhador de estampas no Museu de História Natural do Palácio da Ajuda para, a partir dos 19 anos, frequentar a Real Academia de Belas-Artes de Lisboa, instalada no Convento de S. Francisco, onde a partir de 1852 se tornou professor da nova cadeira de Pintura de Paisagem, Animais e Produtos Naturais. Em 1857, com o seu quadro Vista de Penha de França, assumiu as funções de professor catedrático e, a partir de 1878, tornou-se Director da Academia. Distinguiu-se como pintor paisagista e animalista, sendo de realçar na sua obra de mais de 500 quadros, alguns títulos como O sendeiro (1856), Vitelo (1873), Perdidos do Rebanho, Ovelhas e Borregos e Rebanho Passando Um Riacho. Refira-se ainda que foram seus alunos José Malhoa e Silva Porto, bem como que deu aulas de pintura à Rainha D. Maria Pia. [cm-lisboa.pt]

Rua Tomás da Anunciação, 153 [191-]
Junto à Rua de Campo de Ourique
Joshua Benoliel, in AML
Nota(s): o local da foto não está identificado no AML

Friday, 4 June 2021

Revista das ambulâncias Praça da Estrela

Estamos já em pleno coração da Estrela — diz Norberto de Araújo.
Eu não te disse, Dilecto, que esta era uma das mais belas Praças de Lisboa? O monumental, o paisagista, o urbano, conjugam-se neste Largo da Estrela (chamado até 1889 do Coração de Jesus), e desta harmonia, que talvez não houvesse sido estudada, resultou um admirável logradouro citadino-alegre, movimentado, limpo, lisboeta puro.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, 1939)

Revista das ambulâncias militares [entre 1897 e 1899]
Praça da Estrela
Francesco Rocchini, in AML

Sunday, 30 May 2021

Palácio dos Guiões

Neste sítio principia a Rua de Filipe Néri, aberta no final de setecentos, na quinta de «D. Elena», e que pertenceu depois (1755) aos oratorianos; o nome deriva, é claro, da existência da Casa religiosa citada. Já agora contempla, na Rua de S. Filipe Néri, descendo, do esquerdo, o famoso Palácio dos Guiões, éste que aí vês com certo ar decorativo solarengo.


O Palácio dos Guiões — sua denominação de sempre — sito na Rua de S. Filipe Néri, é uma edificação do terceiro quartel do século XVIII, erguida em terrenos da quinta de D. Helena (D. Helena Maria de Melo), a qual no ano do Terramoto, mas antes dele, passada à posse dos padres da Congregação do Oratório dos padres de S. Filipe Néri.
Levantou o palácio o desembargador Romão José da Rosa Guião e Abreu, familiar do Santo Oficio, que logo a seguir ao sismo grande aforou, uma boa porção de terreno da citada quinta aos padres da Congregação. O edifício estava de pé em 1767, mas é de crer que o seu fundador já nele residisse antes do palácio acabado. O desembargador morreu, no final do século e o palácio passou a quatro filhos, todos desembargadores, e a uma filha, que ali residiam em 1820. 

Palácio dos Guiões, frontaria armoreada [c. 1950]
Rua de São Filipe Néri, 80
O antigo Palácio dos  Guiões, que  teve certa grandeza, divide-se por três  andares noutras tantas alas, não  passando, em  rigor, de um grande casarão burguês, com muitas dezenas de  dependências.
Horácio Novais, in IL

A fazenda dos Guiões desmantelou-se, e em 1888 já o palácio, que o desembargador Romão fundara setenta anos antes, ia à praça, com os protestos do seu administrador de então, o primogénito António José, que conseguiu demorar a execução da penhora até 1842. Parece que a propriedade passou mais tarde a um Manuel Lecoingt, que no edifício tinha instalado um «Colégio Luso-Britdnico» desde cerca de 1858; não teve o palácio melhor sorte, pois em 1888 ia novamente à praça por execução contra o dito Lecoingt, arrematando-o o Conde da Praia e Monforte, depois 1.º Marques, proprietário do Palácio Praia, no Largo do Rato, e que na velha casa dos Guiões algum tempo teria residido.
Por morte de D. António Praia, em 1908, o palácio ficou para sua filha, D. Francisca Maria Coutinho Borges de Medeiros da Gamara e Sousa, que veio a ser Condessa de Cuba, por seu casamento com D. Alexandre de Lencastre, e falecida em Janeiro de 1945. O palácio foi então legado à Ordem Terceira de Jesus, à qual hoje pertence.

Palácio dos Guiões, frontaria armoreada [séc. XIX]
Rua de São Filipe Néri, 80
O Muro, de defesa do jardim, na parte inferior da rua.
Horácio Novais, in A.M.L.

O velho Palácio dos Guiões — amplamente restaurado, sem grandeza, em 1910 — foi habitado, além dos seus proprietários, por famílias afins, e depois de 1880 serviu de aquartelamento ao regi­mento de caçadores 6, até nele se instalar o antigo «Colégio Luso-Britânico».
 
Palácio dos Guiões, fachada lateral Sul e trecho dos  jardins [séc. XIX]
Rua de São Filipe Néri, 80
O  terraço, do lado Sul, que abre da Sala de Jantar — mais destacada — no andar nobre, caindo sobre os jardins e guarnecido de muretes.
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1950.

Friday, 28 May 2021

Jardim-Escola João de Deus

Aí tens, Dilecto, defronte do Liceu [Pedro Nunes], e erguidos em terrenos que a este pertenceram até 1912, os dois interessantes edifícios do Jardim-Escola João de Deus e Museu anexo, ambos do risco de Raúl Lino.


Em 1876, João de Deus (1830-96) dera à estampa a sua famosa Cartilha Maternal, onde se introduzia um método de ensinar a ler assaz revolucionário. Reagindo contra a tradição do aprender de cor, João de Deus procurava basear-se antes na decomposição da palavra nos seus elementos componentes. Apesar dos seus muitos inimigos, este novo sistema, analítico e intuitivo, mereceu os aplausos da maioria dos educadores progressistas e tornou-se uma espécie de bandeira para os propagandistas culturais republicanos. O filho de João de Deus, João de Deus Ramos (1878-1953), continuou a luta iniciada por seu pai em prol de uma reforma pedagógica infantil. Foi ele fundador em Portugal das escolas experimentais infantis, os jardins-escolas, onde se aplicavam princípios modernos de pedagogia, assentes no conceito de desenvolvimento integral da criança, no esforço de desenvolver a sua capacidade criativa e a sua maturidade emocional.

Jardim-Escola João de Deus [1916]
Avenida Álvares Cabral
inauguração do Jardim-Escola e Museu João de Deus realizou-se no dia 11 de Abril de 1917.
Joshua Benoliel, in AML

O número de jardins-escolas, porém, nunca se multiplicou, por falta de verbas para os construir. Em regra, os governos republicanos davam o apoio mais entusiástico a iniciativas como esta, mas não davam dinheiro. Nestes termos, bem difícil se tornava o caminho para a frente: o primeiro jardim-escola inaugurou-se em 1911, em Coimbra dirigido por António Joyce, o segundo e o terceiro abriram as suas portas em 1914; mas em 1927, só cinco jardins-escolas existiam ao todo em Portugal. 
A inauguração do Jardim-Escola e Museu João de Deus realizou-se no dia 11 de Abril de 1917.

Jardim-Escola João de Deus [1916]
Avenida Álvares Cabral
inauguração do Jardim-Escola e Museu João de Deus realizou-se no dia 11 de Abril de 1917.
Joshua Benoliel, in AML


Nota(s): A história dos Jardins-Escola João de Deus tem origem na constituição da Associação de Escola Móveis pelo Método de João de Deus, fundada a 18 de Maio de 1882, por iniciativa de Casimiro Freire, secundado por algumas personalidades destacadas do seu tempo como Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros.

Jardim-Escola João de Deus [1956]
Avenida Álvares Cabral; Monumento a Pedro Álvares Cabral (1467/8-1520), inaugurada em 1941.
António Passaporte, in AML

Bibliografia
Marques, A.H. De Oliveira, História de Portugal, 1982.

Sunday, 23 May 2021

Largo do Rato com a Avenida Álvares Cabral

Rato foi e Rato é — diz Norberto de Araújo; só os dísticos municipais e os letreiros dos eléctricos dizem Praça do Brasil, titulo pomposo com o qual a República portuguesa nascente em 1910 quis consagrar a República irmã mais velha de Além Atlântico. 

 
Irregular sob todos os pontos de vista, desnivelada a despeito da sua transformação em 1937-1938, a Praça do Brasil nem por isso deixa de oferecer um certo interesse paisagista. Terreiro natural, ou eirado, largo ou simples logradouro, o Largo da Rato é anterior à tessitura urbanística do sítio. 

Largo do Rato [1943]
Avenida Álvares Cabral, rasgada entre 1906 (Norte) e 1930 (Sul)
Duas imagens tiradas do mesmo ângulo mas separadas por um ano. Descubra as diferenças.
Eduardo Portugal, in AML
 
«Rato» é designação que não adveio do começo da tímida póvoa, e só apareceu na terceira década do século XVII; antes foi «Campolide» — o que hoje se atesta numa lápide foreira no começo da Rua das Amoreiras — , depois «Cotovia», quási no nosso tempo, designações genéricas que chegaram aqui por extensão.
De um padroeiro [Luís Gomes de Sá e Meneses], do Convento das freiras da Santíssima Trindade [Convento das Trinas] se trespassou para a casa religiosa e para o sítio do seu eirado o nome de «Rato», que era um cognome, quási apelido pessoal.==

Largo do Rato [1944]
Avenida Álvares Cabral, rasgada entre 1906 (Norte) e 1930 (Sul)
Duas imagens tiradas do mesmo ângulo mas separadas por um ano. Descubra as diferenças.
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 11-12, 1939.
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