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domingo, 21 de novembro de 2021

Torre de Belém

Neste monumento, de maior beleza que imponência, há a considerar o Baluarte, avançado desde os extremos da frente Sul da Torre, com seis faces, e com cerca de 41 me­tros de comprimento, e a Torre, propriamente dita, vertical, com quatro faces regulares, e com cerca de 36 metros de altura.


A Torre de Belém, o mais belo monumento fortificado de todo o pais, ainda que reduzido hoje a um padrão de beleza, evocativo das glórias marítimo-militares, com reflexos dos descobrimentos e projecção da opulência quinhentista, data de 1515-1519-1521, anos respectivamente do começo da obra, da sua conclusão, e da investidura do seu primeiro alcaide-mor, Gaspar de Paiva. 
Realização do reinado de D. Manuel não resta dúvida de que foi concepção de D. João lI, destinada a defender a entrada do rio. O «Baluarte do Restelo», também chamado «Castelo de S. Vi­cente a-par de Belém». ou. simplesmente, «Torre de S. Vicente», foi executada por Francisco de Arruda, designado em 1516 o «mestre do baluarte do Restelo», lavrante de pedraria, pertencente a uma família de artistas que trabalharam em Tomar, na Batalha, nos Jerónimos, e na construção de fortalezas em Çafim e Azamor.

Torre de Belém  [c. 1866]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
Em  cada um dos vértices da face Norte uma guarita, com sua cúpula, igual às da muralha do baluarte; sobre estas dois nichos com baldaquinos, num dos quais se  vê a imagem escultórica de S. Miguel e noutro a de S. Vicente, padroeiro da Torre e da cidade de Lisboa; uma janela de perfil românico, à altura do primeiro andar; um lindo balcão, saliente da parede, apoiado em cachorros, com dois arcos assentes sobre três colunelos, com balaustrada e cúpula, no mesmo perfil do grande varandim da face principal; uma janela geminada sobre aquele  balcão.
Autor desconhecido, iin Lisboa de Antigamente

Parece incontroverso que a primeira traça ou desenho da fortaleza não foi de Francisco de Arruda, mas do cronista, também debuxador [o mesmo que desenhador], Garcia de Rezende, ainda no reinado de D. João II, e/ou, de Boytac, o insigne «mestre» dos Jerónimos, já no reinado de D. Manuel. Francisco de Arruda foi, porém, o grande arquitecto realizador desta obra, cujos planos, se os havia, ele interpretou, ou transformou na «mais graciosa, a mais elegante, e a mais encantadora das jóias cinzeladas sob a ins­piração das fantasias mouriscas» (Oliveira Merson: 1861).
A antiga fortaleza desenvolve-se, com inspiração nacional autónoma, nascida dos elementos construtivos gótico-romanos, a qual através das sugestões da Índia e da África mourisca, deram o manuelino, exuberante, neste monumento, de originalidade, de simbolismo e de fantasias, singularmente reguladas pelo poder contemporizador de Francisco de Arruda. Esteve o «Baluarte do Restelo» rodeado de água por todos os lados, até que o deslocamento do curso do Tejo o foi envolvendo de areias, prendendo-se à torre como uma nau de quinhentos encalhada, com a proa mergulhada no rio, A Torre de Belém tem expressão nacional, na evocação dos descobrimentos e dos feitos marítimos que se lhes seguiram, mas constitui também, nas suas particularidades históricas, um documento olisiponense, de formoso semblante e impecável beleza.

Torre de Belém e Forte do Bom Sucesso  [c. 1900]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
Em 1780 inicia-se a construção do forte, com projecto do engenheiro e general francês Vallerée (segundo o sistema do marquês de Montalembert); o mesmo ficava ligado à Torre de Belém por meio de um passadiço. Durante a ocupação francesa, em 1808, o general Junot determina que a bateria seja ligada à Torre de Belém por uma bateria corrida, chamada Bateria Nova do Bom Sucesso ou do Flanco Esquerdo.
Autor não desconhecido, in Lisboa de Antigamente

A iconografia do monumento é vastíssima. A sua crónica é dilatada, viva de glórias mas tam­bém testemunho de tristes factos políticos: baluarte recamado da simbólica e da mística portuguesa do mar; prisão do Estado, do século XVII ao XIX. Conta algumas vicissitudes; no tempo de Filipe II a Torre de Belém esteve pronta ser arrasada, a conselho de um arquitecto napolitano, Vicencio Cazale, que no lugar daquela jóia pretendia construir uma «grande fortaleza». Em 1780-82 foi a Torre de Belém ligada por um suporte de bataria, ao forte do Bom Sucesso, e quando, mais tarde, este forte passou a ficar isolado, a Torre sofreu em parte desmantelamento. No período das invasões francesas de 1807 a 1810, foram reduzidas as ameias e guaritas do baluarte a meia altura, e retirados os arcos do varandim e outros elementos decorativos. Em 1845, por efeito dos protestos de Almeida Garrett, e a esforços do Duque da Terceira, governador da Torre, foi o monumento reintegrado pelo engenheiro militar António de Azevedo e Cunha. Em 1865 foi nela colocado o farolim que só há poucos anos dali foi retirado, e em 1867 deu-se-lhe a vizinhança das instalações abarracadas e negras da fábrica do gás, e a sentinela obesa do gasómetro.

Torre de Belém e Fábrica de Gás de Belém e gasómetros (dir.)  [c. 1900]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
A  muralha envolvente,  hexagonal, com cerca de um quarto da altura da Torre, e 
nela: A guarda ameiada em escudos de Ordem de  Cristo; Seis guaritas (das oito que envolvem, decorativamente todo o monumento) no vértice das faces do polígono, com janela de vigia, apoio cónico, e cúpula golpeada de gomos, no estilo  bizantino; Dezassete frestas rectangulares, ou canhoneiros, abertas na  muralha um pouco acima do nível de água.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

O monumento, constituído pela torre propriamente dita, quadrangular, e por um baluarte hex­agonal, que defende a torre por envolvimento e avança sobre o rio, forma uma peça de conjunto, na qual os elementos interdependem sem dispersão; desta sorte não comporta a anotação de espécie móveis ou soltas. Objecto de vários estudos, monografias criticas e descrições, a Torre de Belém está desde há muito inventariado em pormenor; pela sua unidade não admite neste trabalho mais que uma síntese de inventário.

Torre de Belém  [c. 1869]
Antiga Praia do Restelo hoje Avenida de Brasília
No  Baluarte há que  anotar o portal principal de acesso ao monumento, contíguo  pelo nascente ao envasamento da Torre, servido (actualmente) por ponte levadiça, ornado ao  gosto da Renascença, com arco lavrado de volta redonda, sobrepujado de escudo régio e de esferas armilares.
Jean Laurent Minier, iin Lisboa de Antigamente

N.B.  1982 — A Torre de Belém é classificada Monumento Nacional e Património Mundial (UNESCO)  2007 — Nomeada como uma das Sete Maravilhas de Portugal.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1944.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Algés, praia dos pescadores

Se queres dar, leitor, o mais bello dos passeios permittidos ao habitante de Lisboa — sugere Ramalho Ortigão — , faze o que eu hontem fiz.
Levanta-te ás 5 horas da manhã, n'um domingo, veste-te à luz do candieiro, porque em Setembro ainda não é bem dia a essa hora, pega na tua bengala e no teu binoculo e vae à ponte dos vapores ao Caes do Sodré. Tomamos um bilhete de ida e volta no vapor de Cascaes por dez tostöes. Ainda é cédo, o vapor não parte senão ás 7 horas. 

Algés, praia dos pescadores [entre 1885 e 1893]
De Pedrouços até Cascaes seguem-se quasi ininterrompidamente as differentes estações dos banhos. vem primeiro Algés, com a sua ponte e os Seus dois palacios. [Ortigão, 1876]
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Entramos no café Grego e fazemo-nos servir uma chavena de leite ou chá preto.
Os passageiros veem chegando em multidão ao caes. A ponte dos vapores enche-se de alegres e frescas toilettes de manhã. Lisboa madruga para fugir á calma e á semsaboria de um domingo de verão dentro da cidade. Enchem-se os vapores de Cacilhas e de Belem.
Embarcamos, accendemos um charuto, subimos à ponte do vapor. Magnifico espectaculo!
Diante de nés estende-seem toda a sua magestade, como um pequeno Mediterraneo, o bello Tejo, que scintilla Sob a bruma aquatica como um peito de aço coberto por um véu de gaze, batido pelo largo Sol. 
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Bibliografia
Ortigão, Ramalho, As Praias de Portugal - Guia do banhista e do viajante, 1876.

domingo, 27 de agosto de 2017

Os alfacinhas vão a banhos: praia do Tamariz

Aberta sobre os rochedos, ampla, soberba na sua amplidão e largueza, a Avenida Marginal, cortada entre palacetes, chalés e jardins, passa no Estoril onde existiram dois fortins: o de S. Roque, hoje o Tamariz, e que foi propriedade do Conselheiro Schrõeter, sua moradia de verão, com o parque junto da praia (próximo da casa chamada da Serra), e o de Santo António d'Assubida ou Forte da Cruz, sobre as quais, em 1896, foi construída a Casa (Chalet) Barros. 


Praia do Tamariz [1930]
À direita, uma vigia do Chalet Barros; ao fundo, a Casa Schroeter
Em 1929, Fausto Figueiredo adquiriria esta habitação para a instalação de um salão de chá, que, desde então, se popularizaria por Tamariz.

Colecção José Santos Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Estamos na região dos Estoris — escreve Raúl Proença no Guia de Portugal — estações balneares e estações de inverno, já com pretensões a paragens civilizadas e com mimos de conforto e vegetação, e cuja fiada de vivendas, hotéis, casinhas rústicas ou palácios constitui a única estância cosmopolita que temos entre nós. Começa aqui, propriamente, a Riviera portuguesa – a Enseada azul. De facto, os olhos mergulham num deslumbramento azul e o mar toma a cada momento tonalidades incomparáveis.

Praia do Tamariz [1965]
Ao fundo, a Casa (Chalet) Barros erguido em 1896; paredão.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Praia do Tamariz [1931]
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

O Estoril é, antes de mais, a praia do Tamariz – que já Henrique Galvão, no seu romance escrito para cantar a glória e a urgência de salvar Portugal pela saga colonizadora das nossas Áfricas, Velo d’Oiro (1932) celebrava como o mais chic dos cosmopolitismos do Portugal de então –, aqui documentado com fotografias que nos mostram a praia famosa e os banhistas que nela se regalam, à sombra das suas duas elegantes vivendas totémicas que são o ex-libris desta praia, cada qual num extremo do Tamariz, a antiga Casa Schröter – um nome ligado ao mundo financeiro e, ainda, à aventura ditatorial de João Franco, já que no seu gabinete foi ministro da Fazenda Ernesto Driesel Schröter –, que Fausto de Figueiredo compraria e acabaria em restaurante, com uma concorrida piscina anexa, e a Casa (Chalet) Barros, com o seu torreão florentino e o seu ar de casa assombrada, 

Banhistas na Praia do Tamariz [primeiro quartel do séc. XX] 
Paulo Guedes, iin Lisboa de Antigamente

A Praia do Tamariz é considerada a praia por excelência da Costa do Estoril. Localizada em frente aos Jardins do Casino Estoril, esta praia dispõe de bons acessos uma vez que se encontra junto à estação de comboios e autocarros e à Estrada Marginal. O passeio marítimo (Paredão), os apoios de praia e a restauração associada a grandes palacetes complementam o enquadramento equilibrado. Esta praia dispõe, ainda, de uma Piscina Oceânica de acesso gratuito.

Piscina do Tamariz, junto à Casa Schröter [1960]
Colecção José Santos Fernandes, in Lisboa de Antigamente
Aspecto do novo Tamariz [c. 1970]
O Palacete Schröter foi construído no início do Século XX pelo Conselheiro Driesel Schröter.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MARTINS, Rocha, Lisboa de ontem e de hoje: as colinas da cidade, p. 226, 1945.
Guia de Portugal: v. Generalidades. Lisboa e arredores, coord. Raúl Proença, pp. 594-598, BNL, 1924-1927.
FERNANDES, A. José Santos, O passado nunca passa, CMC.

domingo, 16 de julho de 2017

Os alfacinhas vão a banhos: praia de Cascais

Quem há cem e picos anos conheceu a praia de Cascais. justificava. certamente, o dito célebre de «uma vez a Cascais e muitas mais».
Era ali. na aristocrática praia de Cascais, que os elegantes e as elegantes de então — a nobreza e a alta burguesia — tinham os seus encontros. se organizavam as partidas. as regatas. as «ginkanas», que depois chamavam à praia e à vila pessoas dos quatro cantos de Portugal e até do estrangeiro.

Praia da Ribeira Cascais [c. 1900]
O edifício da esquerda está identificado como o Casino da Praia.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Praia da Ribeira Cascais [1900]
Banhistas na Praia da Ribeira. Ao fundo destaca-se-se o Casino da Praia.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ali, «onde o mar beijava constantemente as areias», na praia elegante por excelência, passearam as mais lindas mulheres de Portugal do seu tempo. e fidalgos de velhos pergaminhos bateram o fado  — como ele era batido então por fidalgos e boémios.
E não admira que assim fosse. Nesses dias fugitivos em que durava a época da praia, tão breves como um sonho raramente realizado, tudo se fazia na praia. Ela era casino, casa de chá e campo de desportos, e não poucas vezes centro de má língua. Todas as tardes. o rei D. Carlos, por lá dava o seu passeio largo, segredando com este e com aquele dos seus íntimos, tantas vezes falando de política e muitas outras inteirando-se das inofensivas intrigas da côrte. pelas quais era tão guloso ...

Praia de Cascais [1906]
A tarde. na praia. num grupo de elegantes conversa animadamente. discutindo aquelas preciosas futilidades que em todos os tempos e em todas as épocas sempre ocuparam o espírito das senhoras.
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente
Praia de Cascais [1906]
Um grupo de elegantes da época. vendo as provas náuticas que se realizam ao largo.
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

Correram mundo, nas côrtes mais poderosas. as notícias perturbadoras da vida elegante em Cascais. No enquadramento admirável do mar, tão azul como o céu, da suavidade do clima, das moradias nobres, dos jardins e das matas luxuriantes, a côrte portuguesa cobrava, em três meses quentes, energia, vivacidade, ternura, para o resto do ano. 
Ir a Cascais, à praia. imprimia carácter e dava distinção. Não havia pessoa de sociedade ou que quisesse parecê-lo. homem ou mulher, que não fosse veranear para Cascais e que. estando ali, não fosse passar as tardes para a praia. Todos lá iam. Os que não iam para ver  — iam para se mostrar ...

Praia de Cascais [1906]
Debaixo do toldo.
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

Vão longe as calças esticadas, os jaquetões compridos, os colarinhos afogadores; e as saias pregueadas, de grandes rodas. os chapéus mal equilibrados em pequeninas cabeças, as sombrinhas de seda. Mas perto fica, sempre, porque é uma tradição de beleza, a saudade do tempo em que a côrte e os dignitários, a aristocracia, a finança. o alto funcionalismo, punham de banda os rigores do protocolo, e folgavam e se praziam em jogos desportivos, em concertos de música. em arraiais luzidos e bizarros.

Praia de Cascais [1906]
Um grupo gentil de senhoras da alta roda. que cm 1906. veraneavam em Cascais. numa daquelas tardes luminosas de Setembro. frente ao oceano. passando uma tarde amena.
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia

Joshua Benoliel, Arquivo gráfico da vida portuguesa, 1903-1918.

sábado, 16 de julho de 2016

Os alfacinhas vão a banhos: praia de Pedrouços

"A praia de Pedrouços, como todas as da grande Bahia do Tejo, é lisa, plana, de areia fina. O mar é tranquillo, sereno como um lago, o melhor dos banhos, na maré enchente, para as creanças fraquinhas, para as mulheres débeis, fatigadas. (...) As praias do Tejo, de Pedrouços a Cascaes, são como as dos golphos da Itália (...), as mais propicias á constituição dos valetudinários e dos anemicos." 

É no período de 1852-1885, que a sociedade alfacinha consagra de bom-tom os longos passeios à beira-mar, nomeadamente entre a burguesia ascendente já convertida ao Romantismo. E eis que surgem as primeiras praias alfacinhas, todas em Belém: O Bom Sucesso, a praia da Torre e a praia da aldeia de Pedrouços.

Praia de Pedrouços [1920] 
A sociedade alfacinha consagra de bom-tom os longos passeios à beira-mar.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

As crónicas da época falam de ilustres banhistas: Almeida Garrett que não dispensava a praia de Pedrouços — chegou a alugar a Casa do Arco da Torre no Verão de 1852 — , a Marquesa de Rio Maior que a ela faz referência nas suas memórias. Segundo Ramalho Ortigão, Pedrouços tinha então um bom hotel, «o Hotel Club, fresco, aceado, dirigido por uma senhora franceza e apresentando a boa apparencia interior, modesta e confortável da pension burgeoíse.»

Praia de Pedrouços [1937] 
(...) Junto de Pedrouços, para o lado de Lisboa, fica a praia de
Belém [ao fundo], cujas condições são muito similhantes ás de Pedrouços.

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Praia pequena, aburguesada, não tinha areia para tanta gente, nem «aposentos» para os mais exigentes. Diz Ramalho que «todos vivem em contacto intimo uns com os outros, mesmo ficando cada um em casa. Pela manhã, a gente abre a janella do seu quarto, deita a cabeça de fora e pôde fazer a barba no espelho do seu visinho do prédio fronteiro».

Praia de Pedrouços [1937]
 (...) Chefes de secretaria, officiaes, amanuenses, tabelliães, guarda-livros, caixeiros de escriptorio, escrivães, retemperam annualmente em Pedrouços a sua pallida e sedentária fibra plumitiva.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

É pena que, de tantas senhoras que se banham em Pedrouços, no Dafundo, em Paço d'Arcos, em toda a orla do Tejo, tão poucas nadem» — acrescenta Ramalho em forma de lamento — sugerindo que «n'estas aguas serenas seria da maior vantagem para as mulheres a natação. Este nobre exercício, executado de bruços, obriga a uma forte contracção os músculos do dorso e do pescoço, gymnastica extremamente benéfica para as pessoas que se fatigam com o menor exercício, e ás quaes a natação desenvolve muito a força da columna vertebral. 
Seria um óptimo serviço á therapeutica o estabelecimento n'esta praia de uma escola de natação para as senhoras. 

Praia de Pedrouços [1921]
 (...) Meninas de bibes brancos, escrupulosamente nitidos, trazem os seus barcos. 
C. Garcês, in Lisboa de Antigamente

Escreve o autor de As Praias de Portugal que «Nas praias da Allemanha é raríssima a mulher que não sabe nadar. Outra diflerença: as portuguezas vão para a agua com demasiado fato; as allemãs chegam a ir vestidas unicamente com o seu bracelete. Para que esta innocente liberdade paradisíaca, para que esta simples toilette pre-historica se torne possível, ha na Allemanha algumas praias privativas das senhoras, onde o ingresso é prohibido aos homens por meio de um dístico collocado a distancia n'um poste de madeira. Áo que transgride a disposição do letreiro, appiica-se uma multa de cerca de duas libras..... Meu Deus! é enorme. Aconselho a escola de natação, mas não aconselho na toilette senão modificações parciaes, porque, a nudez por um lado, as duas libras por outro, em Allemanha é a lei para todos, em Portugal seria para cada um a ruína: tantas vezes a multa seria paga! ¹

Praia de Pedrouços [c. 1910]
Alberto Malva, edições, postal, in Lisboa de Antigamente

¹ ORTIGÃO, Ramalho, As praias de Portugal: guia do banhista e do viajante, pp. 41-43, 1876.

sábado, 2 de julho de 2016

Os alfacinhas vão a banhos: praia da Cruz Quebrada

No Verão Lisboa despovoava-se. «De resto, Lisboa no verão era tão secante!...» (Queirós: 1928). A Mala da Europa de 18 de Agosto de 1898 noticiava «uma grande e alegre debandada, por terras de aguas, de praias e consagradas estancias estivaes»; mas os que ficavam iam a banhos a Belém, a Pedrouços, Algés ou Cruz Quebrada.
No Cais do Sodré tomava-se o vapor até Belém e aí, na praia da Torre, «as barracas dos banhistas, brancas, pontiagudas» davam ao sítio um «ar de um acampamento de ópera cómica» (Ortigão: 2001). Torneios de natação e regatas no Tejo animavam a estação estival e, em Pedrouços, em Alcântara ou em Algés, os cais e as praias «com barracas de pinho cru, pintadas às listas por fora» (Miguéis: 1960) a cheirarem «a sal e a urina» animavam-se e enchiam-se de gente. [1]

Praia da Cruz Quebrada |1931-09-07|
Domingo de praia
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Setembro entrou e com elle a grande lufa-lufa dos banhos do mar.
Lisboa e o paiz inteiro não pensam agora senão em banhar-se! Os lisboetas molham se nos poços das barcassas, alastram-se em colonias numerosas e ruidosas pelas praias do Tejo, as praias ao pé da porta, Pedrouços, Algés, Cruz Quebrada, Caxias, Paço d'Arcos, Oeiras, os mais elegantes vão até ao Estoril e Cascaes, os mais pacatos até á Ericeira, os mais misanthropos até Santa Cruz: os provincianos esses emigram em grandes caravanas para as praias de mais luxo, as praias afamadas de banho d'onda e de roleta permanente, Espinho, Figueira, Povoa, e a preoccupação de todos os bons portuguezes, desde Monsão até Tavira, é apenas uma só — o mergulho! [2]

Praia da Cruz Quebrada |1931-09-07|
Depois do almoço
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
[1] JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, p. 23.
[2] O OCCIDENTE: revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, 11 Set. 1893.

sábado, 18 de junho de 2016

Os alfacinhas vão a banhos: praias do Estoril

Nos alvores do século XIX, com o surgimento do comboio e dos eléctricos, os lisboetas aventuram-se numa ida até às praias nos arrabaldes da capital, sobretudo nos meses de Setembro e Outubro. De acordo com o escritor Ramalho Ortigão (1836-1915), os banhos de mar com fins terapêuticos são benéficos, mas são aconselhadas certas precauções, a saber:

É importante que o banhista ao chegar à barraca, se dispa com a máxima rapidez, enfie um calção de malha de lã, se envolva numa capa ou n’um plaid [tecido de lã] e corra imediatamente para a água. desembuçando-se no momento da imersão. 

Praia do Monte Estoril [1909]
Nunca esquecer a touca de gutta-percha.
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente
Praia do Monte Estoril [1909]
Um passeio a pé com o cabelo solto como usam as senhoras nas praias da Alemanha.
Joshua Benoliel,
in Lisboa de Antigamente

As senhoras devem usar a touca de gutta-percha para não molharem o cabelo e quando não tenham a touca não lhes convém mergulhar a cabeça. Basta-lhes refrescar repetidamente a fronte e o alto do crânio com a mão molhada durante o tempo que estiverem na água. [...] Depois do banho deve ser o corpo rapidamente friccionado com um lençol áspero até dar à pele uma cor rosada. [...]
Comer imediatamente depois do banho, no período da reacção, é inconveniente. O mais salutar depois do banho é um exercício moderado, um passeio a pé, de meia hora, na praia, debaixo de um chapéu de sol, com o cabelo solto como usam as senhoras nas praias da Alemanha.» [1]
 
Praia de S. João do Estoril ou da Poça [meados séc. XX]
À dir. destacam-se o edifício dos Banhos da Poça, hoje a Colónia Infantil,  iniciativa do milionário americano Mcfadden (1931) e o Forte de São Pedro da Poça.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Praia de S. João do Estoril ou da Poça [1927]
Concurso de construções na areia.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
[1] ORTIGÃO, Ramalho, As Praias de Portugal: Guia do Banhista e do Viajante, pp. 165-168, 1876.

sábado, 4 de junho de 2016

Os alfacinhas vão a banhos: praia de Algés

Invocando aquilo que consideravam ser a «decência pública», o Estado Novo preconiza o condicionamento dos comportamentos permitidos nas zonas balneares através de uma série de regulamentações que surgiam no Decreto-Lei nº 31.247, de 5 de Maio de 1941, incluindo penalizações pecuniárias entre os trinta escudos (0.15€) e os cinco contos (25€) para os prevaricadores, uma verdadeira fortuna para a época. De acordo com o referido decreto, eram estas as «condições mínimas» a que deviam obedecer os fatos de banho, específicas para homens e mulheres:

Praia de Algés [1912]
 «Um salto custoso!»
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente
  
Homens: «Fato inteiro em que o pano anterior se prolonga cobrindo toda a frente do calção, de costura a costura lateral. O calção deve ser justo à perna, de corte direito e terá um comprimento de perna mínimo de dois centímetros. A frente do fato, qualquer que seja a forma do decote, deve cobrir a parte anterior do tronco, tapando os mamilos. As costas podem ser decotadas até à cintura.
(...) Não é permitido o uso de fatos que se tornem imorais pela sua transparência e pela excessiva elasticidade do tecido. (…)

Praia de Algés [1912]
«Agora é que vai!»
Joshua Benoliel, in Ilustração Portuguesa
Praia de Algés [1912]
«Esperando o bote que a levará para o largo.»
Joshua Benoliel, in Ilustração Portuguesa

Mulheres: «O fato de banho para senhoras deve ser inteiro e ter saiote fechado. O calção interior é justo à perna, de corte direito e deve ter o comprimento de perna mínimo de dois centímetros.
O saiote, que pode ser independente do corpo do fato, terá o comprimento necessário para exceder, pelo menos de um centímetro, a extremidade inferior do calção depois de vestido.
A frente do fato deve cobrir a parte anterior do corpo, não podendo o decote ser exagerado, a ponto de descobrir os seios. As costas poderão ser decotadas até dez centímetros acima da cintura, sem prejuízo do corte das cavas que devem ser, quanto possível, cingidas às axilas.»

Praia de Algés [1912]
«Nada como um banho revigorante!»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Praia de Algés [1912]
Na volta do banho e a caminho da barraca.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente
 

domingo, 16 de agosto de 2015

Praia das Maçãs (Eléctrico de Sintra)

Segundo a tradição, o nome desta praia teve origem nas maçãs que desaguavam no areal, caídas de maduras nas águas da Ribeira de Colares, depois desta atravessar os pomares de macieiras. Entre os moradores que por ali habitaram as primeiras casas no séc. XIX, contava-se o pintor, escritor e compositor Alfredo Keil (1850-1907), autor do hino nacional A Portuguesa.
A ideia de ligar Sintra a Colares e, posteriormente, à Praia das Maçãs, surgiu em 1886. Durante vários anos foram feitas sucessivas tentativas para a concretização deste projecto que fracassaram uma a uma. 
Só em Novembro de 1898 foi dado um passo de gigante, quando a Câmara Municipal de Sintra concedeu a Nunes de Carvalho e Emídio Pinheiro Borges, pelo prazo de 99 anos, a concessão para construir e explorar um caminho de ferro a vapor entre Sintra e a Praia das Maçãs, mais tarde substituída pela tracção eléctrica.
 
Praia das Maçãs [c. 1951]
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Em Julho de 1900 é constituída a Companhia do Caminho de Ferro de Cintra à Praia das Maçãs que, em 1904, passou a denominar-se Companhia Cintra ao Oceano.
Em Agosto de 1902, na zona da Estefânia, começou a construção desta linha e em Março de 1903, são encomendados à firma americana J. G. Brill Company, 13 eléctricos, sendo sete carros motores e seis atrelados.
A 31 de Março de 1904 é aberto o primeiro troço desta linha, entre Sintra (Vila Velha) e São Sebastião de Colares, numa extensão de 8,900 metros e a 10 de Julho do ano seguinte, é aberto o troço até à Praia das Maçãs, numa extensão de 3,785 metros. 
 
Eléctrico que fazia o percurso de Sintra à Praia das Maçãs
«Cintra ao Oceano»
[post. 1904]
Fotógrafo não identificado, iin Lisboa de Antigamente

domingo, 9 de agosto de 2015

Baía de Cascais: Casino da Praia e Chalet Seixas (actualizado)

O Casino da Praia foi edificado em 1873 sobre a muralha que ligava os dois baluartes da Praia da Ribeira (integrados no sistema defensivo da costa, projectado em meados do século XVII), numa área onde anteriormente se encontravam uns armazéns e um terraço pertencente ao Ministério da Guerra. Terá sido José Joaquim de Freitas, juiz de paz na altura e proprietário dos armazéns, que veio a adquirir o terraço e a construir o edifício do casino.

Praia da Ribeira na hora dos banhos [1910]
Casino da Praia e, ao fundo, o Forte de Santa Catarina.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Inicialmente constituído por dois pisos, foi ampliado parcialmente para três no final do século XIX. Embora as suas linhas arquitectónicas fossem pouco interessantes, a sua localização privilegiada e uma grande esplanada virada para a baía de Cascais permitiam admirar a beleza da paisagem e a actividade dos banhistas que aqui se dirigiam. Nos dias de competição, era o sítio ideal para assistir confortavelmente ao desfile de embarcações e ao espectáculo da praia coberta de tendas.[...]
Na década de 40 do século XX o edifício foi encerrado e, posteriormente, demolido. (in cm-cascais.pt)
 
Baía e Praia de Cascais vistas da Cidadela  [c. 1900]
Passeios Príncipe Real D. Luís Filipe e Maria Pia. Ao fundo, Praia da Ribeira
Ao fundo observa-se o Casino da Praia.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Construído em 1916 e desenhado pelo arq. Manuel Joaquim Norte Júnior como casa de veraneio, de estilo ecléctico, para Henrique Maufroy de Seixas, o Palacete Seixas ergue-se sobre os vestígios do antigo Forte de Santa Catarina ou Baluarte da Foz— um dos redutos defensivos de Cascais e da linha do Tejo. É hoje propriedade da Marinha Portuguesa. 
A fachada principal exibe elementos decorativos e de composição inspirados na arquitetura medieval, como o elegante alpendre mainelado do torreão, rematado em coruchéu., as janelas e varandas com balcões sustentados por mísulas, além dos capitéis de estilo neo-românico.Voltado para a praia, ergue-se o volume que se destaca pelo grande terraço e pela torre com arcada e remate em coruchéu; ao centro, está o corpo com janelas simetricamente dispostas, de moldura em arco de volta perfeita no piso térreo e, no superior, antecedidas por balcão; à esquerda, fica o volume com a entrada principal do palacete, ladeada por escadaria, com duas varandas alpendradas nos dois primeiros pisos e um terraço na mansarda. [DGPC, Catarina Oliveira, 2015]

Baía de Cascais: Casino da Praia e Chalet Seixas [1940]
Maufroy de Seixas construiu "uma das últimas casas deste veraneio de excepção" [SILVA: 2011]
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

sábado, 4 de julho de 2015

Praia da Ribeira de Cascais (actualizado)

Sem vocação balnear, a praia da Ribeira, mais conhecida por praia do Peixe, da Baía ou dos Pescadores, deve o seu nome ao facto de ali desaguar a Ribeira das Vinhas, situa-se na zona mais frequentada de Cascais, coroando a Baía.
Tradicionalmente uma praia de pescadores, tem por isso menos vocação balnear, uma vez que é ainda ali, e ao porto de pesca localizado ao lado, que acorrem os barcos dos pescadores de Cascais. Durante as festas da vila, é nesta praia que se fazem as famosas largadas de touros.

Vista Panorâmica da Praia da Ribeira |1900|
Um dos epicentros do quotidiano das gentes de Cascais localizou-se na Praia da Ribeira, ou Praia do Peixe, como será mais conhecida localmente.
Ao fundo nota-se o Casino da Praia e a Muralha do Cavaleiro.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A presença sazonal da Família Real em Cascais, a partir de 1870, em função da moda dos banhos de mar, transformou a vila de Cascais na rainha das praias portuguesas, obrigando os pescadores a cederem aos banhistas parte da Praia da Ribeira.

Passeio Dom Luís I |séc. XIX|
Praia da Ribeira de Cascais

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Foi a partir deste areal, hoje conhecido por Praia dos Pescadores, que D. Carlos impulsionou a prática da vela, do remo e da natação, transformando Cascais no mais prestigiado campo de regatas em Portugal, onde se disputou, por exemplo, em 1893, a primeira Corinthian Race nacional, regata em que as embarcações correm tripuladas apenas por amadores ou, em 1898, a primeira regata internacional nas nossas águas.

O Rei Dom Carlos e a Rainha Dona Amélia e comitiva na praia da Ribeira |1906|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Praia das Maçãs: Hotel Restaurant Royal Belle-Vue

Hotel Restaurant Royal Belle-Vue


O projecto e iniciativa estiveram a cargo de Eugène Levy. Traçaram-se novas ruas, macadamizaram-se estradas, regulamentaram-se as construções, organizaram-se os espaços, e, segundo um projecto do arquitecto Ventura Terra, proveu-se à construção do Hotel Royal Belle Vue, construído por Francisco dos Santos. Esperava-se que o referido Hotel impulsionasse o turismo balnear, tendo-se apostado, por isso, na higiene, elegância e conforto. 
O Hotel Royal possuía água potável, directamente canalizada para o restaurante, e iluminação eléctrica em todos os quartos. Foi destruído por um incêndio em 1921.

 Hotel Restaurant Royal Belle-Vue [c. 1913]
Praia das Maçãs
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1913, foi cenário de um "complot" levado a cabo por revolucionários do «Movimento 27 d'Abril» para assassinar — «a tiro ou à bomba» — Afonso Costa, chefe do governo, que ali se encontrava a banhos. O golpe foi frustrado pela intervenção da polícia, tendo sido detidos dois homens, Miguel Gaião e Jaime Granja, sindicalistas.

Hotel Restaurant Royal Belle-Vue [c. 1913]
Joshua Benoliel,in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
Jornal O Século nº 9901, , p. 3, 10 Julho 1909.
Ilustração Portuguesa N.º 398, 6 Out. 1913.
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