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sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Praça do Martim Moniz: os vendedores de manjericos e o Mundial

A tradição conta-nos que Martim Moniz era um dos cavaleiros de D. Afonso Henriques que em 1147, na conquista de Lisboa, se atravessou numa porta da muralha do Castelo dos Mouros, impedindo o seu fecho e, sendo de imediato morto pelos sitiados enquanto garantia a abertura necessária para a entrada dos exércitos cristãos conquistarem a cidade.
Em 1908, o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915. Contudo, as alterações urbanísticas do local iniciadas a partir da década de 30, a pretexto de ligar a Avenida Almirante Reis ao Rossio, acabaram por fazer desaparecer o Mercado da Figueira, parte da Mouraria e este arruamento. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

 Praça do Martim Moniz |1961|
Venda de manjericos.
Augusto de J. Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Quando o Hotel Mundial foi inaugurado, em 1958, tinha o lobby virado para as traseiras da Igreja de São Domingos e para a Barros Queirós, ruela muito comercial que leva ao Rossio. Depois, o Mundial expandiu-se, quase ocupou o quarteirão, triplicou os quartos e abriu-se para o Martim Moniz. {Fernandes: 2024]

Praça do Martim Moniz |1964|
Festas populares de Junho: venda de manjericos junto ao Hotel Mundial.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

domingo, 3 de março de 2024

Profissões de Antanho: vendedores de melancias

 — Quem a quer da  várzea, melancia á faca!

Era assim o pregão saloio, que os saloios sempre ganharam a vida com a barriga de Lisboa — recorda Calderon Dinis. Escarafunchando a terra magnífica que Deus lhes deu, sabiamente a têm aproveitado tirando partido de tudo o que ela lhes dá. Sempre assim foi e noutros tempos eram eles mesmo que, de rua em rua, apregoavam e vendiam as suas couves e alfaces, como as favas e as ervilhas.
Com a saborosa melancia vermelha e fresca que era uma beleza, os saloios corriam meia Lisboa com as suas carroças, a malta a comprar e eles mesmo a parti-las em grossas talhadas, refrescando-se os lisboetas nas tardes quentes, que aquilo foi sempre fruto de Verão.
Estamos a lembrar-nos que, no largo de Cacilhas, onde hoje é parque e estação de autocarros, se fazia o grande mercado da melancia, amontoadas em pirâmides, tal era a quantidade do magnífico fruto!

Vendedeira de melancias no cais da Ribeira Nova |1912|
As saborosas e frescas talhadas.
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Vem das várzeas nos grandes catraios — lê-se na Illustração portugueza, 1910 —, nos barcos d'agua à riba e nos cais, da Ribeira Velha a Belém, é ver os homens atirando-as com metódica precisão, dos botes para terra como grandes bolas num torneio. Raramente uma cai para gaudio, regalo e refresco da garotada que d'olho alerta espera sempre ganhar alguma coisa nos espectáculos que presenceia.
Neste tempo a melancia, nascida nas Várzeas de Alcochete e Ribatejo além, bem regada e linda na sua cama de folhas largas é manjar de todas as mesas; cai na cidade como um chuveiro de balas: expõe-se nas portas dos estabelecimentos frutas onde os ricos vão e aparece aos montões nos mercados. As portas das vendas e dos pequenos Jugares lá estão duas ou três; nas mercearias mostram-se com a designação do preço por quilo como se em vez daquela casca verdenegra, que tanas promessas de frescura contem, tivessem os exteriores vermelhos de queijos flamengos.
Mas onde ela tem todo o seu carácter, onde aparece como o anuncio de um grande consolo é na cidade, para os que a não deixam; anunciada no pregão cantarolado:

 — Quem a quer da várzea, melancia á faca!

Profissões de Antanho: descarga melancias no cais da Ribeira Nova |1912|
Uma melancia a voar do barco para o cais.
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O pregão atroa Lisboa por este tempo de calor ardente e as mulheres com as suas gigas a cabeça, tostadas pela soalheira, vão vendendo a mais fresca das frutas, a melancia de coração rubro, que é um alarme e é uma delicia.

 — Quem a quer da várzea, melancia á faca!
___________________________________________
Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.
Illustração portugueza, 1910.

domingo, 7 de janeiro de 2024

Avenida da República; gelados «Esquimaux»

«Olha o esquimó fresquinho!»

Foi com a fábrica Esquimaux que os lisboetas passaram a chamar «esquimó» ao gelado vendido em dose certa. Estava-se na década de 1930 e a designação permaneceu ao longo dos primeiros anos do segmento de mercado agora chamado «de impulso», com as marcas Olá e Rajá — Olh'ó Rajá fresquinho, é fruta ou chocolate! — nas décadas de 1960 e 1970.¹

Avenida da República |1936|
Carro publicitando a marca de gelados «Esquimaux».

Ferreira da Cunha, in in Lisboa de Antigamente

Estes gelados e sorvetes, em copo, cone e cassata eram distribuídos por funcionários vestidos a rigor conduzindo triciclos. Eram produzidos pel'A Sibéria-Fábrica de Gelo, Gelados e Esquimaux (Marca Registada) com sede na Rua de Dona Estefânia, 205.

Triciclo com a marca de gelados «Esquimaux» |c. 1940|
Prove um e verá o que é bom.
Autor desconhecido, in in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ DIAS, M. Tavares, Lisboa Desaparecida, vol 8, 2003.

domingo, 4 de junho de 2023

Profissões de antanho: o vendedor ambulante de gravatas

Os chineses, como vendedores ambulantes, fizeram época.
Foram eles que primeiro apareceram nas ruas de Lisboa a vender gravatas e bugigangas — recorda Dinis Calderon —  colares de vidros de várias cores, pó-de-arroz especial, anéis eléctricos que tinham a vantagem de dominar o reumático, etc. Naquele tempo era vê-los pela Baixa na sua voz branda: — Qui quer glavatas de linda colores? Qui quer deixar de padecê reumatique?

Profissões de antanho: o vendedor ambulante de gravatas |1960|
Avenida de Roma, junto ao n.º 30; o arruamento que se vê à esq. dava acesso à Piscina do Areeiro.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Antes tinham aparecido as chinesas dos bichos que prometiam curar todas as doenças dos olhos, pois tiravam uns bichinhos que elas afirmavam provocar inflamações e outros males. Teve de intervir a polícia, pois o povo, sempre crédulo, procurava-as para se submeter aos tratamentos.
Mas os chineses, como vendedores ambulantes, foram desaparecendo pouco a pouco das ruas, cedendo a venda das gravatas a todo o comerciante de ocasião que facilmente os substituíram, comércio que pouco durou depois do 25 de Abril, uma vez que, após a liberdade, todos adquiriram o direito de andar sem gravata!... E, o negócio deixou de interessar, considerada a gravata um objecto decorativo, só para cerimónias oficiais, casamentos e baptizados...==

Profissões de antanho: o vendedor ambulante de gravatas |1960|
Avenida Almirante Reis junto à Alameda Dom Afonso Henriques 
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Rua de Sant'Ana à Lapa

O topónimo original do arruamento é Rua de Sant'Ana e assim figura na planta da cidade de 1856. Conforme consta no processo 1841/50 foi acrescentada a palavra "à Lapa" por parecer da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 19/05/1950.
A sua origem radica no culto popular a Santa Ana, muito divulgado na Lisboa antiga, como imagem catalisadora da grande devoção das mães portuguesas, padroeira do vendedores de objectos usados, das mulheres que fazem renda, das donas de casa, dos marceneiros, dos torneiros, dos moços de estrebaria e fabricantes de vassouras e de especial devoção em casos de pobreza e para se encontrarem objectos perdidos. [cm-lisboa.pt]

Rua de Sant'Ana à Lapa [1960]
Cruzamento com a Rua de Buenos Aires
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Venda das amêndoas em Sexta-feira Santa

Dia de sol. Mulheres veladas de negro em visita aos templos. Mais bichas a formigar pelos passeios do Chiado. Desta feita, bichas gulosas roendo amêndoas, saboreando o açúcar que vai faltando no café. E o corrupio passa, dá a volta à Baixa, alastra-se pelo Rossio e entra em S. Domingos. A quinta-feira santa é toda a Lisboa tradicional cheirando a rosmaninho. Que lindo dia de sol!
(in Arquivo nacional, Emprêsa Nacional de Publicidade, 1942)

Venda das amêndoas em Sexta-feira Santa |15 de Abril de 1927|
Cruzamento das antigas Ruas da Palma e do Martim Moniz (antiga zona da Guia)
Estas artérias foram extintas e substituídas pela actual Praça do Martim Moniz na década de 1940-50.
Fotógrafo: não identificado, in Lisboa de Antigamente

Crianças junto da tômbola das amêndoas da Casa Pia de Lisboa [1907-04]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O Rossio Velho

No século da tomada de Lisboa confluíam ainda nêste sítio os dois braços de água dos vales do Andaluz e de Arroios-Mouraria, correndo ao Tejo em regueiro. [...]
No século XIV o arrabalde do Rossio  — «Ressio› se dizia — fazia [já] parte da cidade. Rossio de S. Domingos, Rossio de Santa Justa, logo Rossio de Valverde — estava feito o Rossio de Lisboa, cujas orlas de edificação a Câmara e o Rei por vezes disputavam. [...]

Praça D. Pedro IV |séc. XIX|
Venda ambulante de refrescos; carro Chora
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Do final de setecentos até hoje, o Rossio — na sua fisionomia pombalina — limitou-se a enfeitar-se, arruar-se, arrumar uma zona a poente, rever a sua orientação, construir um teatro, erguer um monumento, pôr de pé uma estação terminal de linha férrea, empedrar o chão, recortá-lo depois — usar do seu direito de capital, praça titular de Lisboa.

Praça D. Pedro IV |séc. XIX|
Venda ambulante de bolos; carro Chora
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 61-62, 1939.

domingo, 18 de agosto de 2019

Rua Andrade

O Bairro Andrade — diz Norberto de Araújo — foi aqui a grande primeira nota de urbanismo, entre campos e lugares aprazíveis; fundou-o um proprietário de terrenos locais, o qual, concedida a autorização municipal, o rasgou em xadrez regular, pondo às ruas os nomes das senhoras de sua família; leva pouco mais que quarenta anos [finais séc. XIX].


A Rua Andrade foi atribuída por deliberação camarária de 10 de Novembro de 1892, confirmada pela presidência da Câmara em 30 de Janeiro de 1893, a qual atribuiu também na mesma área os seguintes topónimos: Rua Maria Andrade, Rua Maria, Rua Palmira e Rua Antónia Andrade, no arruamento que ligava o Caminho do Forno do Tijolo com a Rua Maria.

Rua Andrade [1960]
Esquina com a Av. Almirante Reis; em frente à 'Leitaria Bijou' — antiga Farmácia Bezelga; do lado esquerdo da foto ficava o antigo Cinema Lys.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Das actas das sessões da Comissão Municipal no ano de 1892, pode ler-se o seguinte sobre o dia 10 de Novembro de 1892:
«De Manuel Gonçalves Pereira d'Andrade, proprietário do 'Bairro Andrade', cujas ruas estão na posse da Câmara, pedindo que n'ellas sejam conservados os nomes que indica.
Deferido, com a alteração de Rua Antónia Andrade em vez de Rua Maria Antónia».
Daqui se pode inferir que a Rua Andrade recolhe a sua denominação do proprietário do Bairro Andrade e as restantes ruas do bairro, também indicadas pelo proprietário serão provavelmente de familiares — quiçá mulheres e filhas — do proprietário do Bairro Andrade.

Rua Andrade junto à Rua Palmira [1960]
Vendedeira de quinquilharia
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no amL.
Rua Andrade, 55 [1960]
Vendedor ambulante de fruta
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no amL.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 15, 1938.
cm-lisboa.pt.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Profissões de Antanho: o capelista-ambulante

Ainda hoje — diz Calderon Dinis — se vêem por aí, sobretudo nas feiras, estas carripanas muito bem ordenadas de capelistas-ambulantes, onde nada falta, das agulhas e alfinetes ao retrós e às linhas de alinhavar e coser botões, de mistura com bonés e chapéus-de-chuva, colares, rendas ou entremeios, meias para homem ou senhora, canivete e limpa-unhas, calçadeiras e atacadores, lâminas de barbear, pincéis e outras coisas que não nos ocorre mas são sempre de utilidade. 

Capelista-ambulante |1908|
Praça do Comércio vulgo Terreiro do Paço
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Estes vendedores não apregoam; instalam-se num local certo, correm os taipais do seu estabelecimento-ambulante e esperam a clientela.
No nosso tempo pairavam muito à volta da Praça da Figueira, quando ali existia o mercado que o camartelo camarário destruiu para realizar a actual praça onde preside, a cavalo, o Mestre de Avis, D. João I. Anteriormente estaria indicado para ali Nun'Álvares Pereira, mas desinteligências políticas, que sempre as houve, desde que o Mestre se arvorou em defensor do reino, levaram o Condestável, amuado, para junto do Mosteiro da Batalha, onde dizem que está melhor, à espera da Ala dos Namorados!

Capelista-ambulante |c. 1940|
Largo do Chafariz de Dentro - "Casa das Colunas"
 Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Voltando aos capelistas-ambulantes, se tiverem muito interesse em os procurar, dêem um salto pela Ribeira Nova, que ainda por lá encontrarão um, à beira do mercado.

Capelista-ambulante |c. 1940|
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

fBibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

As floristas do Rossio

As floristas do Rossio — no dizer de Alfredo Augusto Lopes — que em 1927-28, usaram batas brancas, que lhes ficavam muito bem, como ficava muito bem ao local, aquelas bancas, todas iguais, com toldos do mesmo padrão, e não sei porquê, ou por outra, porque não interessa, foi «sol de pouca dura»; mas em compensação, vieram as outras vendedeiras, as actuais, com as batas azuis, que, vão mudando de cor, e algumas têm a côr de «certo animal, quando foge», usam também uns «sbouquetes», que  tanto  são  isso,  como  ,são  uma  meias  velhas  enroladas,  o  que  tudo  lhes  fica  muito  mal.¹


Praça Dom Pedro IV [1927]
 As barracas de venda de flores, em torno da estátua de D. Pedro IV; ao fundo, destaca-se o vultoso edifício da Escola Académica.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Os jornais de Lisboa costumam entrevistar todos os anos as  floristas do Rossio. Sobre esse quadro da vida lisboeta, vai citado, a seguir, trecho de uma crónica de Dinah Silveira de Queiroz, aparecida no Correio Brasiliense de 23 de Novembro de 1979: Hoje o Rossio é um jardim movente no qual as mulheres vendem cravos, amores-perfeitos, rosas e até flores artificiais. As de Maria Manuela são finas: botões-de-rosa, que ela arma em buquês, dentro de uma bacia de barro, aqui também chamada de alguidar. A pele lisa, os lábios cheios, esta mulher de quarenta e dois anos vende suas flores desde os oito. Assim, com estas flores e concorrendo com sua voz cada vez mais alta com as outras floristas, também oferece as flores do campo que brotam sozinhas aos olhos de Deus, para transformá-las em modo de viver.²

Praça Dom Pedro IV [1927]
As floristas do Rossio, por tradição, buscavam sempre o lado sul da praça. Os principais dias de venda eram pela Páscoa, Dia dos Finados e Natal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ Olisipo : boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1944.
² CASTRO ALVES, Dário Moreira de, Era Lisboa e chovia: todas as personagens de Eça na Lisboa bem-amada, 1984.


quarta-feira, 8 de março de 2017

Profissões de antanho: o azeiteiro

– Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine!

– Azêite dôôc´i bom vináágre!


Grande parte dos produtos de consumo normal continuavam nas mãos dos vendedores ambulantes que os iam apregoando pelas ruas ou ofereciam-nos de porta em porta. Constituíam os vendilhões, com os seus trajes próprios, os seus pregões, e até a variedade dos seus produtos, uma das notas mais castiças e mais vivas do folclore lisboeta. Eram numerosos, cruzando as ruas em todas as direcções, parando nas praças, de giga à cabeça ou trazendo um burro pela arreata, sucedendo-se uns aos outros durante o dia, em cumprimento dos horários mais favoráveis à venda dos produtos de cada um, ou reaparecendo com as estações do ano.

Mouraria [Início séc. XX]
Vendedor ambulante de azeite
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Rua da Imprensa Nacional [entre 1903-1908]
(Antiga Travessa do Pombal; ao fundo o Instituto Politécnico)
Vendedor ambulante de azeite

Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Obs: o local não se encontra identificado pelo fotógrafo

O Azeiteiro que também vendia vinagre e petroline, com o fato cheio de manchas de óleo, transportava as grandes almotolias de folha, às duas e três, suspensas dos braços, e outras às costas. Se tinha carroça, podia trazer um maior número de unidades. Era um tipo geralmente pacato, sério no seu negócio que reclamava com um pregão banal:

– Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine!
– Azêite dôôc´i bom vináágre!

Rua da Prata com a Rua de Santa Justa [entre 1903-1908] 
Vendedor ambulante de azeite
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Obs: o local não se encontra identificado pelo fotógrafo
Campo de Santa Clara [Início séc. XX]
Vendedor ambulante de azeite na Feira da Ladra,
Campo de Santa Clara.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
(O povo de Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, CML, 1978)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Calçada do Combro: vendedor ambulante de esponjas naturais

No séc. XV, esta artéria (Cç. do Combro) era parte da Estrada de Santos ou da Horta Navia. Gomes de Brito considera que era a calçada da «Bella Vista». De acordo com o olisipógrafo Norberto Araújo teve, além destas, as seguintes designações:
«Pois desçamos, Dilecto, a Calçada do Combro — que foi «do Congro» no século XVIII, «do Congo», em alguns documentos, e devia ser, afinal, pela lógica toponímica, do «Cômoro», isto é: do alto.»

Calçada do Combro: vendedor ambulante de esponjas naturais [ant. 1913]
Salta aos olhos, pela novidade, o vendedor de esponjas marinhas, que lhe afogam meio corpo.
Elevador da Estrela-Camões
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 
Este elevador fora projectado em 1882 pelo engenheiro Mesnier du Ponsard com um troço mais longo, mas nunca foi completado, tendo funcionado somente entre o Camões e a Estrela até 1913. Chamado popularmente «maximbombo», acabou por ser substituído pelo carro eléctrico. Os seus carros foram vendidos para barracas de banhos, para barracas de feiras e para casas de guarda no campo.
 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Vendedor ambulante de refrescos no Largo Duque do Cadaval

Do Largo Duque do Cadaval (Freguesia de Santa Justa) não existe atribuição oficial do topónimo nem quaisquer data de referência De acordo com a DEAT/CML [Divisão de Alvarás, Escrivania e Toponímia] em email de 18/l l/05, «trata-se de um terreno propriedade da CP. e, como tal, não é da competência da CML atribuir-lhe denominação». 
(in Ler história - Edições 52-53, p. 233)

O prémter marchand d'eau, velhote vestido de branco, com chapéu de  palha,  fez época no Rossio. apregoando as suas refrescantes beberagens:
— Capilé?
— Groselha?
— Salsaparrilha?

Marchand de boisson  [entre 1908 e 1914] 
Largo Duque do Cadaval, vendo-se a Estação do Rossio
[D. Nuno Álvares Pereira de Melo (1638-1727), 1º Duque de Cadaval]

Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógraf
o

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Largo Trindade Coelho, antigo de São Roque

No ano de 1509 grassava em Lisboa uma grande peste, e o rei D. Manuel I mandou erguer junto ao cemitério, que se situava perto do Convento da Trindade, uma ermida a que chamou de São Roque para albergar uma relíquia do santo vinda de Veneza. Por essa altura um proprietário local, de nome Bartolomeu de Andrade, iniciou a construção de um conjunto de casas nas cercanias, a que se chamou Vila Nova de Andrade, ao Alto. Em 1553 os jesuítas tomaram conta de ermida e em 1555 iniciaram a construção de um majestoso templo, a actual Igreja de S. Roque.
E foi assim que a Vila Nova de Andrade, do Alto, que crescia junto ao convento, passou a ser conhecida por Bairro Alto de São Roque, e depois por Bairro Alto. Desta associação nasceu o topónimo Largo de São Roque, que passou a Largo Trindade Coelho por edital de 1913.

Largo Trindade Coelho, antigo de São Roque |entre 1908 e 1914|
Ao fundo, a Calçada do Duque e a Rua Nova de Trindade
Inscrição no original: «Marchand de dindon», que é como quem diz, vendedor de perus.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo

N.B. José Francisco de Trindade Coelho, destacado jurisconsulto, escritor e jornalista, nasceu em Mogadouro a 18 de Junho de 1861 e faleceu em Lisboa a 19 de Agosto de 1908.
Cursou Direito em Coimbra, cidade onde começou a escrever nos jornais sob o pseudónimo de Belistírio. Aí exerceu advocacia e fundou duas publicações: «Porta Férrea» e «Panorama Contemporâneo», [cm-lisboa.pt]

Largo Trindade Coelho, antigo de São Roque |c. 1948|
Ao fundo, a Calçada do Duque e a Rua Nova de Trindade
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Profissões de antanho: o vendedor de alhos

- Mé-c´á réstia d´ààlhos nóóvos!


Este sítio, aliás aprazível em suas redondezas, teve triste sina e era mal afamado. O Largo de Santa Bárbara (de 1911 a 1937 «chamado de 28 de Janeiro»), foi o «Campo da Fôrca», e ainda no século de seiscentos aqui se supliciavam desgraçados.¶
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 75, 1938)

Largo de Santa Bárbara [entre 1908 e 1914]
Vendedor de alhos; à esq. no nº 15 do largo, a «Relojoaria Silva» no começo da Rua Jacinta Marto
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Bairro do Carmo

Este Largo do Carmo — conforme descrito na publicação Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa" — foi diversamente nomeado no decorrer dos séculos:
   
   Terreiro do Marquês — 1649 
   Terreiro do Bairro do Marquês — 1663 
   Largo do Marquês — 1671  
   Terreiro do Carmo — Princípios do Século XVIII  
   Adro do Carmo — Nalguns assentos paroquiais do princípio do Século XVIII.
   Largo do Carmo — 1716
 
Esta designação de Largo do Carmo, aparecida em 1716, começa a fixar-se;  depois, só em raras ocasiões reaparece o Adro. A nova sinonímia fixa-se, pois, quási definitivamente.

Largo do Carmo [entre 1903 e 1914]
Vendedor de galinhas
Ao fundo vê-se a Rua da Oliveira ao Carmo e o edifício da «Ordem Terceira do Carmo»
Charles Chusseau-Flaviensi, in Lisboa de Antigamente
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo
.

Em 1787, já depois do Terramoto, aparecer-nos-á a Praça do Carmo. O dia da festa de Santo Alberto, a 7 de Agosto, era dia grande em todo o Bairro do Carmo. A relíquia do Santo, mergulhada na água que enchia talhas, quartas e potes, era depois distribuída ao povo, como febrífuga [que combate a febre] milagrosa. A distribuição desta água, primitivamente feita junto da capela de S. João Baptista, à entrada da porta principal do lado .direito do Templo do Carmo, passou a ser feita no Adro do Carmo, em virtude do pleito que ocasionou, estadeando-se no local uma verdadeira feira de vasilhas de barro ...
«com a nova relíquia sacrossanta
banhada no cristal liquido e puro»

Largo do Carmo [entre 1903 e 1914]
Vendedor ambulante de legumes
Ao fundo nota-se o antigo Palácio Valadares. Por aqui passaram várias instituições, 
como por exemplo: o Clube Lisbonense (1834 a 1880), local de diversão frequentado pela 
“fina flôr” de Lisboa, o Liceu Nacional, o Liceu do Carmo, a
 Escola Veiga Beirão e é hoje a Escola E.B. 2.3. Fernão Lopes.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo.

O Largo do Carmo é um local repleto de história. Exemplos disso são os dois prédios que se vêem à esquerda na 1ª. imagem. No primeiro, no nº 15, fica a casa onde se supõe ter nascido Camilo Castelo Branco a 16 de Março de 1825. Três portas mais adiante, no nº 18-1º Esqº, também por aqui terá vivido num quarto alugado — entre os anos de 1908 e 1912 — o enorme poeta e escritor, Fernando Pessoa.

Travessa do Carmo, Largo do Carmo [entre 1903 e 1914] 
Padeiros
Ao fundo, o antigo palácio do conde de Valadares no Largo do Carmo
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo.
 
Bibliografia
Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», Vol. 83, 1946.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Bairro da Estrela

Agora, Dilecto, vamos lançar-nos, na jornada da Estrela, um dos sítios de Lisboa mais ridentes, tocado ainda de um certo romantismo no seu Jardim — o Passeio da Estrela. É um bairro de Lisboa que, a-pesar-da ressonância do seu nome, não vai além de uma grande Calçada, em rampa, com ruas novas irradiantes no seu traçado, Calçada que morre no grande Largo — praça que é das mais belas da cidade —, do qual ainda a designação «Estrêla» se prolonga em linha recta até Sant'Ana e num braço, que sai do Largo, até Campo de Ourique.

Praça da Estrela [1918]
Ardina e vendedor ambulante de leite junto ao Jardim da Estrela.
Rey Colaço, in Lisboa de Antigamente
Casamento na Basílica da Estrela [c. 1910]
Praça da Estrela
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Passado o edifício magnífico do antigo Parlamento, e a fazer esquina na Rua da Imprensa (que vai entroncar na de Santo Amaro) ficava o palacete Sotto-Maior [arrendado], o mais representativo deste arruamento, cujo parque era, e é, a última reminiscência da Cerca dos frades, em logradoiro que em 1860 pertencia a Faustino da Gama(?)¹. Em 1937 o citado palacete recebeu grandes transformações na passagem ao Estado, sendo destinado residência dos presidentes do Conselho de Ministros e de suas famílias.
(ARAÚJO. Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 43-44, 1939)
¹ O palacete, erguido em 1877, assentava em chãos propriedade do capitalista Joaquim Machado de Cayres (1827-1886).
 
Calçada da Estrela com a Rua da Imprensa à Estrela [190-]
Antigo Palacio Sotto-Mayor (hoje Palacete de São Bento); vendedor ambulante de leite.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Rua da Betesga com a Rua Augusta: Hotel Camões

No local daquele prédio de gaveto, provavelmente o antigo «Hotel Camões», viria mais tarde a surgir o edifício projectado pelo arquitecto J. C. P. Ferreira da Costa em 1909, onde se instalaria a «Camisaria Confiança» e o «Hotel Internacional» — antes Hotel Camões —, com entrada pelo nº 3 da Rua da Betesga. (v. próximo artigo)

Rua da Betesga com a Rua Augusta [Início séc. XX]
Antigo Hotel Camões depois Hotel Internacional; Venda ambulante de refrescos

Nota(s): local da foto não se encontra identificado no arquivo.
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

Refere Castilho na sua Lisboa Antiga que «Betesga é uma ruasinha ou beco sem saída, que faz saco, ou fundo de saco; daí deriva o verbo etnbetesgar. Esta viela é antiga, e já se encontra nos escritores do século XVI.»
«A Betesgua, como se escrevia no tempo em que também se escrevia “Postiguo” e Santiaguo”, isto é, nos séculos XV e XVI, é um dos sítios de Lisboa de mais antiga denominação de que há noticia.» 
 (BRITO, Ruas de Lisboa, 1935) 

Rua da Betesga [Início séc. XX]
Junto ao antigo Hotel Camões depois Hotel Internacional; capelista ambulante

Nota(s): local da foto não se encontra identificado no arquivo.
Augusto Bobone[?], in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Praça Dom Pedro IV

 Vendedor ambulante de castanha assada

«Quentes e boas!
Apregoa-se a castanha,
Desde o Rossio ao Saldanha,
Os pregões são sempre assim.»

Praça Dom Pedro IV [1907]
Vendedor ambulante de castanha assada

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O segredo de como são assadas e como ficam com a cor «branca» está na temperatura do forno que é aquecido por brasas de carvão vegetal; as castanhas são colocadas num assador metálico (antigamente era em barro e ainda há quem use) com forma de cone em que a ponta de cima foi cortada de maneira a servir de «boca» e o fundo é perfurado por vários orifícios e encaixa perfeitamente no forno, de maneira a aproveitar o calor ao máximo. As castanhas antes de irem para o assador são cortadas com um único e profundo golpe e durante a assadura são repetidas vezes polvilhadas com sal grosso e mexidas.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra

Conhecidos por "Pelotiqueiros", defendiam o "apostolado de extermínio contra o callo, contra a queda de cabelo, a nevralgia, a perfídia surda da cárie. [...]
Na Praça de Camões e no Rossio encontramo-los à escolha, scientíficos ou práticos, e os especialistas dentro dos dois campos nunca deixam de espalhar a semente do seu saber á mingua do terreno que a receba e lh'a restitua em fructos compensadores. Teem publico numeroso, attento, e a confiança invejável que redunda em moeda corrente. 
 
Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [1906] 
Largo do Chiado
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [1910]
Praça Luís de Camões
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [1910]
Praça Luís de Camões
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Há sempre quem acredite e compre estes produtos milagrosos, alguns pelotiqueiros anunciavam vender água recolhida do Jordão perfumada com essências. O preço era módico e prometiam o reembolso devido, caso o produto não provocasse os efeitos desejados.»
(in Illustração Portuguesa - nº 224, pp. 713-717, 6 de Junho de 1910)

Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [190-]
Praça Dom Pedro IV, atrás o Hotel Continental
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [190-]
Praça Dom Pedro IV, atrás o Teatro D. Maria
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Estes «pelotiqueiros», como então se lhes chamava, apareciam sobretudo nas feiras e praças públicas, mas também os havia estabelecidos, como as «chinesas» milagreiras, cuja expulsão, em 1911, provocou graves motins e mortos. 
(in Retrato de Lisboa popular, 1900, António Barreto, Maria Filomena Mónica, 1983)

Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra  [1906]
Rua da Palma; Hospital do Desterro. Em 1917 foi transferido para este exacto local o Chafariz do Intendente,
J. Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente
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