Sunday, 23 June 2019

Café (do) Gelo

O Café Gêlo, restaurado em 1939, data de 1883, principiou por ser cervejaria [Botequim do Gonzaga, «um roliço botequineiro do Rocio» (Palmeirim, 1891)]; na renovação foi colocado na sala sôbre o Rossio, num ângulo de parede, um duplo baixo relêvo o «Vinho» e a «Cerveja», de A. Mesquita, e nas paredes das duas salas vários quadros de Albertino. [Araújo, 1939]


Foi no despontar do novo século — diz M. Tavares Dias — que os cafés da Baixa e do Chiado assumiram de vez a sua vocação histórica. Se o Romantismo tivera como tribuna e símbolo o Marrare do Polimento, se geração de 70 resumira o esplendor da cidade culta às mesas do célebre Martinho, a nova centúria viria justapor uma aura de lenda a qualquer local onde fosse exercida a venda de café à chávena. Sobre um tampo de mármore e devidamente acompanhado pelo refastelo da cadeira e da leitura do jornal, qualquer mistura fazia a fama de uma casa. Em breve se deram conta disso os proprietários da Brasileira que, fundada em 1905, começara por vender lotes de café ao balcão. O negócio impôs, dentro de meses, instalação de mesas e cadeiras. O Chiado elegante (agora muito mais comercial do que em 1850) exigia paradouro para tertúlia e não um mero posto de venda. E a Brasileira transformar-se-ia na principal herdeira da fama do Marrare e do Martinho. Mas muitos foram os estabelecimentos célebres ao longo do século XX.

Café do Gelo [c. 1910]
Praça D. Pedro IV, 64-65
O Café do Gelo, por volta de 1907, tinha umas mesas redondas, onde eram discutidas as políticas, as ideias, criticava-se e até se insultava. Tudo era falado no Café do Gelo. O Café do Gelo era, para o poder, o antro dos republicanos e da Carbonária.
Alberto Carlos Lima. in AML

 O Café do Gelo, nos números 64-65 do Rossio, possuía já velha reputação revolucionária quando, em 1907, foi ponto de encontro dos estudantes duma célebre greve académica — cujo extraordinário impacto fazia já prever os acontecimentos políticos dos anos seguintes. E foi dali que, segundo muitos testemunhos, saíram Alfredo Costa e Manuel Buíça na primeira manhã de Fevereiro de 1908, direitos ao Tenreiro do Paço. para dispararem sobre a família real. A mesa do Buiça era conhecida no Gelo e Raul Brandão fala dela nas suas Memórias. Dizia-se também que a arma que Buiça usou no regicídio — uma Winchester número 2131 — fora comprada mesmo ao pé do café, na Espingardaria  A. Montez do Largo Camões (Praça D. João da Câmara).
A fama revolucionária do Café do Gelo continuou pelas décadas adiante. Entre 1954 e 1955 beneficiou de uma remodelação completa, com substituição das antigas portas ao estilo oitocentista pela fachada envidraçada que ainda podemos ver no local. Foi também nessa altura que passou a ser conhecido apenas por Café Gelo, perdida que estava a necessidade de o designar de acordo com uma especialização do serviço. Em 1950 — plena época das carripanas de "esquimós" — os gelados não eram já, de modo algum, coisa considerada rara e exclusiva de certos cafés. Após estas obras, o estabelecimento transformar-se-ia em centro de reunião para os surrealistas cuja tertúlia ficou conhecida como «grupo do Gelo».[ ...]

Café do Gelo [1961]
Praça D. Pedro IV, 64-65
A nova fachada com o letreiro luminoso.
Artur João Goulart. in AML

Em 1962, durante a manifestação proibida do Primeiro de Maio, a polícia de choque estreou o depois famigerado «carro da água» no Rossio, inundando tudo de tinta azul. Foi uma das manifestações mais violentas de oposição ao regime de Salazar. Muitas montras da Baixa ficaram reduzidas a cacos, empedrado e grades do Rossio serviram de armas defensivas, houve vários feridos e um morto. Como nos tempos da Maria da Fonte ou dos comícios anti-monárquicos, a Guarda Republicana desceu do Carmo para ajudar a controlar a situação. Dentro do Gelo, escudados pelas mesas, alguns clientes habituais decidiram munir-se dos açucareiros de metal e arremessá-los, porta fora, à polícia. No dia seguinte a PIDE mandou averiguar junto do proprietário quem teriam sido os causadores de tais desacatos. Na sequência duma recusa de denúncia, houve a ameaça: o café fecharia se voltasse a abrigar gente suspeita. A tertúlia do Gelo ter-se-á então deslocado para norte, em direcção ao Palladium e a território mais seguro.

Café do Gelo [1966]
Praça D. Pedro IV, 64-65
Em 1883 chamava-se «Botequim do Gonzaga», passando depois para «Café Freitas» e finalmente «Café do Gelo». Na década de 1950 sofreu foi remodelado e passou a chamar-se «Café Gelo».
Fotografia anónima

Nos seus últimos anos (décadas de 70 e de 80), pouco ou nada sobrava já do antigo Café do Gelo. Mantinha o nome evocativo, mas a gerência tinha transformado a sala num snack-bar, estilo come-em-pé, com fabrico de pastelaria. O néon com a palavra «Gelo» foi finalmente apeado da fachada no início da década de 90. Hoje [1999], no mesmo lugar, pode ler-se a designação do fast-food em que se transformou: Abracadabra.
____________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 70, 1939.
DIAS, Marina Tavares, Os Cafés de Lisboa, pp. 93-95, 1999.

Saturday, 22 June 2019

Palacete dos Viscondes dos Olivais

Eis-nos na Rua de Buenos Aires — diz Norberto de Araújo — , que nasce dos Navegantes e pela qual a linha de eléctrico até Garcia de Orta, continuando Buenos Aires até às terras que deram o nome ao Chafariz das Terras. Também esta artéria tem pouco que referir, pois não leva mais que oitenta anos [c. 1860], de seu comêco mal edificada. [...]
Aqui temos no n.º 16, o Palacete que era dos Viscondes dos Olivais e que pertence hoje ao Dr. António Madureira Bastos; foi edificado em 1860, se não de alto a baixo, pelo menos transformado completamente dum prédio aqui existente. A fachada pouco tem de nobre, mas, a-pesar-da sua decrepitude, ou talvez do abandono a que o prédio está votado, avulta como a única construção representativa desta Rua do século passado.

Palacete dos Viscondes dos Olivais (Instituto Industrial de Lisboa) [1938]
Rua de Buenos Aires, 10-12
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Desconhece-se quando e porquê se fixou este topónimo na memória de Lisboa, apenas se sabendo, de acordo com Gomes de Brito, que era o “Sítio de Bonés Ares” tal como é referido na Relação universal de 1786 e mais tarde, surge também no Itinerário lisbonense de 1818 como «Rua de Buenos Ayres».
________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, 1938.
cm-lisboa.pt.

Wednesday, 19 June 2019

Uma montanha-russa no Parque Eduardo VII

A Avenida [da Liberdade] tinha os seus coretos onde aos domingos tocavam as bandas, a Rotunda tinha os tapumes de metro e meio para a futura estátua do Marquês e o Parque de Eduardo VII era um terreiro escalvado que servia para tudo, como os campos da feira das terras da província. 
Havia revoluções, o primeiro golpe estratégico era conseguir ocupar a Rotunda. Abriam-se trincheiras, colocavam-se peças e começavam a bombardear da Rotunda. Nos intervalos das escaramuças políticas, o alfacinha pegava no farnel e no garrafão e ia arejar para a Rotunda. Aparecia uma companhia de circo com montanha russa e fantoches, acampava na Rotunda. O grande Luna-Park foi a delícia dos lisboetas. [...] 
Na Rotunda caía Lisboa em peso. Comia-se um petisco e dava-se um passeio nas águas mansas já que a ida até Cacilhas era um prazer muito experimentado.

Parque Eduardo VII [193-]
A montanha-russa do Luna-Park — quando funcionou pela primeira vez — junto à Avenida António Augusto de Aguiar
Judah Benoliel, in AML

Bibliografia
AMARO, José, Cartas de um moinho saloio, p. 161, 1974.

Sunday, 16 June 2019

Chafarizes de Sant'Ana

Este Largo do Mastro é que foi o sítio exacto do «Campo do Curral» — recorda-nos o insigne olisipógrafo Norberto de Araújo. Mas é preciso não perderes de vista que essa cortina — o muro paredão que sustenta o jardim do Campo dos Mártires da Pátria — não existia sequer até hà cem anos [c. 1838]. Desde o Convento de Sant'Ana até ao Paço da Rainha (isto é: desde o Instituto Bacteriológico até à Escola do Exército), o pavimento, em encosta, era todo um, com mal pronunciada ondulação de terreno.


Adossado ao muro paredão que sustenta o jardim do Campo dos Mártires da Pátria encontramos o Chafariz do Campo de Santana virado ao Largo do Mastro. O muro é em cantaria de granito aparente, em aparelho isódomo e está fronteiro a pequena faixa de passeio público, pavimentado a calçada, a qual confina com um parque de estacionamento.
Chafariz simplista de planta rectangular, construido em 1887, autor desconhecido, assente em plataforma de dois degraus em cantaria de calcário lioz e vermelho. É executado em cantaria de calcário lioz, composto por espaldar rectilíneo, encimado por recortes lobulados e, ao centro, pequeno espaldar contracurvado, onde surgem as armas municipais, emolduradas por painel circular e a data «1887». Cada um dos lóbulos, com molduras múltiplas circulares, possui uma bica em chumbo, rodeada por pétalas de flores, que vertia para tanque rectangular, de perfil galbado, assente em pequeno rodapé rectilíneo, com bordos boleados; o interior encontra-se tripartido por blocos de cantaria, capeados a cimento, com escoamento metálico. No espaldar e no bordo do tanque surgem vestígios das antigas réguas de apoio ao vasilhame. No lado esquerdo, surge um vão de verga recta e moldura simples, protegido por porta metálica, pintada de verde, de acesso à caixa de água.
Monumento Nacional desde 2002.

Chafariz de Santa Ana [1944]
Largo do Mastro
Fernando Martinez Pozal, in A.M.L.

Nas imediações, situa-se um segundo chafariz, denominado Chafariz do Largo do Mastro. [vd. 2ª foto]
Este chafariz foi inaugurado em 1848, em Belém, no sítio do Chão Salgado, por iniciativa camarária, com projecto do arq. Malaquias Ferreira Leal. Na sua construção foram utilizados elementos escultóricos do Chafariz do Campo de Santana [vd. N.B.], que nunca chegou a ser construído, nomeadamente 4 golfinhos da autoria do escultor Alexandre Gomes. Por ocasião da Exposição do Mundo Português, em 1940, o chafariz foi retirado do local original e mais tarde, em 1947, reutilizado no Largo do Mastro, ao Campo de Santana. Chafariz elegante, de boa cantaria, em forma de obelisco, que apresenta uma urna de curvas reintrantes e de 4 faces, das quais emerge, respectivamente, um golfinho com a função de bica. A rematar este núcleo decorativo eleva-se uma alta pirâmide haxagonal, estriada, cintada por faixa lisa a um terço de altura, coroada por uma pinha.

Chafariz do Largo do Mastro [1947]
Largo do Mastro
Eduardo Portugal, in A.M.L.

N.B. Quanto ao novo e esplendoroso Chafariz de Santa Anna — que viria substituir o chafariz "interino" que ali existia — , diz-nos a Memória de Velloso de Andrade, que o projecto foi abandonado por razões desconhecidas:
"Este Chafariz, se se fizesse conforme o risco approvado, era de tamanha architectura, que devia conter as quatro figuras que estiveram no Lago do Passeio Público; o Tejo, e o Douro, que ainda existem no dito Passeio; os quatro Golfinhos, que se acham no Chafariz de Belém, e as quatro Carrancas, que serviram para o Chafariz d'Alcântara; como tudo se mostra no dito risco. As figuras acima ditas, foram feitas pelo Portuguez Alexandre Gomes, por 3:746$246 réis, incluindo 706$S46 réis, importe das seis pedras postas no telheiro ao Campo de Santa Anna, aonde as ditas figuras foram feitas; pelas quaes um Lord Inglez offerecia doze mil cruzados.[...] Em 1838 foi reformado, pondo-se-lhe em frente um semicírculo de columnellos, cujo espaço foi calçado de novo".
Este chafariz situava-se a norte do Campo de Santa Anna (Campo dos Mártires da Pátria) sobre a antiga Carreira dos Cavallos, hoje Rua de Gomes freire, conforme atesta o levantamento topográfico realizado em 1858 por Filipe Folque [vd. carta topográfica]. Em 1851, o Chafariz do Campo de Santa Anna (chafariz n.º 6) tinha 4 bicas, 5 companhias de aguadeiros, 5 capatazes e cabos, 165 aguadeiros e 2 ligeiros. Os sobejos foram concedidos ao Hospital de S. José, por Ordem de 23 de Maio de 1792. Abastecia, por volta de 1850, o antigo Hospital de Rilha-Folhes (hoje Miguel Bombarda) e o Asilo de Mendicidade.

Local do Chafariz do Campo de Santa Anna em 1858
Levantamento topográfico de Lisboa sob a orientação de Filipe Folque, 1858 (excerto)
A vermelho está assinalado o chafariz e o Aqueduto que levava a água ao Chafariz do Campo de Santa Anna; a azul, a antiga Carreira dos Cavallos, hoje Rua de Gomes freire.
in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 61, 1938.
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.
cm-lisboa.pt.

Friday, 14 June 2019

Largo do Mitelo, Paço da Rainha e Pátio do Costa

O Paço da Rainha fica situado entre os Largos do Conde Pombeiro e do Mitelo e a Rua da Escola do Exército tem o Paço de que advém o topónimo, também conhecido como Palácio da Bemposta já que nos séculos XVII e XVIII o sítio era designado por Bemposta Grande.
A Rainha a que o Paço se refere é D. Catarina (1638-1705), filha de D. João IV, que casou com Carlos II de Inglaterra e que ao enviuvar regressou a Portugal em 1693 e acabou por fazer casa no lugar do Campo da Bemposta, em 1649, a qual já habitava em 1702.

Largo do Mitelo e Paço da Rainha [1943]
Do lado esq., junto ao gradeamento, vê-se o Pátio do Costa vulgo «do Gato» seguido da capela do Palácio da Bemposta
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Este topónimo [Paço da Rainha] retomou em 1954 o topónimo mais antigo, fixado seguramente após 1702. No entanto foi denominado Largo da Escola do Exército pelo Edital de 05/11/1910 e depois, pelo Edital de 17/10/1924, passou a designar-se Largo General Pereira de Eça. [cm-lisboa.pt]

Largo do Mitelo, 16 [1900]
Pátio do Costa vulgo «do Gato»
Machado & Souza, in A.M.L.

Wednesday, 12 June 2019

Largo do Mitelo

Fosse como fosse, no fim dos exames do ano de 1871 José Valentim deixa o colégio — sem saudades, e passa a praticante de uma farmácia de Lisboa — a farmácia do Altinho ou da Peça — no Largo do Mitelo. O prédio da botica — em vez da botica está lá hoje uma espécie de baiúca ... — encontra-se no fundo do Largo e faz esquina para a Rua da Bempostinha. Ainda se lá vêem, por cima das portas da antiga farmácia uns azulejos com a palavra Altinho; e à esquina do prédio, que pertenceu aos herdeiros da marquesa de Pomares, está a peça que motivou o nome por que a farmácia era também conhecida.


Estamos no Largo do Mitelo — diz Norberto de Araújo. A designação e dístico municipal deriva da presença simpática dêste palácio de nobre aparência, fazendo esquina com o Largo do Mastro, e que «enche a rua», como diz o povo àcerca de uma coisa vistosa. É das edificações urbanas mais curiosa  do sítio da Bemposta.

Largo do Mitelo [1957]
Ao fundo vêem-se as casa do Altinho; à dir., a Rua da Bempostinha e (parte) do Palácio Mitelo
Armando Serôdio, in A.M.L.

Arruamento na confluência do Paço da Rainha, Rua da Bempostinha e Largo do Mastro que de acordo com Gomes de Brito, se refere ao desembargador Alexandre Metelo de Sousa Menezes (1687–1766) que faleceu no seu palácio erguido neste largo e por corruptela se transformou em Mitelo.
Ainda segundo Gomes de Brito, no mesmo palácio moraram o Conde da Lapa e o Marquês de Pomares, que foi Presidente da Câmara de Lisboa. A ermida do palácio do desembargador Metelo também foi o local de acolhimento do Santíssimo Sacramento da Igreja dos Anjos após 1755 e até à reconstrução do templo.

Largo do Mitelo [1900]
Casa do Altinho, observe-sea os azulejos com a palavra Altinho; à dir., a Rua da Bempostinha e (parte) do Palácio Mitelo
Machado & Souza, in A.M.L.

Bibliografia
PIMPÃO, Álvaro Júlio da Costa, Fialho, 1943.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 45, 1938.
cm-lisboa.pt.

Sunday, 9 June 2019

Ponte de Alcântara

Alcântara, que hoje faz parte de Lisboa, era há poucos anos um dos arrabaldes — escrevia Angelina Vidal por volta do ano de 1900. Ficava fora das muralhas de D. Fernando. 

Todos ai se lembram da ponte que formava a barreira de Lisboa, sobre o caneiro de Alcântara, de mefítica memória.

Al-cantara é palavra árabe que significa a ponte. Ficou com o nome que lhe davam os mouros, como afinal muitas palavras do seu idioma vieram até nós mais ou menos deturpadas.


A grande ponte de Alcântara é celebre pelos combates de 14 de maio de 1805, e 10 de Junho do mesmo ano. Ali se encontraram os heróicos soldados da Leal Legião Lusitana com as tropas invasoras, às quais aplicaram uma soberba derrota. Ficou memorado o valor e sangue frio dos nossos, nessas duas batalhas.
Também aqui se deu a desgraçada batalha de 25 de Agosto de 1580 [vd. 4ª imagem], na qual ficou derrotado D. António, Prior do Crato, e com ele vencido o nobre Portugal durante sessenta anos.
O combate tinha sido um arrojo da parte dos aportugueses, e só se pôde explicar por fanatismo patriótico. Quatro mil homens apenas compunham o exército de D. António, e esses mesmos mal armados, sem conhecimentos militares, e eram estes a fazer face a vinte e dois mil soldados do Duque de Alba, bem instruídos, bem armados e bem alimentados
Além do que não era só a força militar como também a marítima, constando de uma forte esquadra, que enchia o rio de Alcântara, ao tempo muito maior que modernamente.
Alcântara estava ainda quasi desabitada. Só depois da restauração se foi povoando, principalmente desde que D. Afonso VI foi habitar o palácio real do Calvário.
D. Pedro II também gostava muito do sitio, e aqui passava a estação calmosa; morreu neste palácio. Pouco a pouco se foi enchendo de arruamentos até que em 1755 já formava uma paróquia extra-muros.

Ponte de Alcântara em meados do séc. XIX
Nesta gravura vê-se a ponte já com a iluminação a gás e observam-se os portões em ferro das barreiras

e casas da guarda e a casa da apalpadeira que condicionavam o acesso à cidade de Lisboa. Sobre o lado norte da ponte ergue-se a estátua de S. João Nepomuceno. Numa planta datada de 1727, o comprimento da ponte, medido nas guardas, era de 90 metros, aproximadamente, e a largura de 6,2m.
Gravura por Cazellas, in AML

O antigo riacho que ali correra, e que ultimamente estava consideravelmente reduzido pelo desvio de aguas, que a ele aluíam, principalmente antes da construção do monumental Aqueduto, — obra que seria desnecessária se a esse tempo fosse já conhecida uma  singelíssima lei física com respeito à propriedade que assiste às correntes de agua canibalizadas, — tornara-se um foco de emanações pútridas, de miasmas fétidos, de perigosa vizinhança. O Caneiro de Alcântara foi afamado como uma das coisas mais dignas de lástima e mais repugnantes da capital que o teve por muito tempo por limite naquele ponto.
É um dos importantes benefícios que se deve ao progresso, a eliminação daquele foco infeccionante.
A prolongação da linha férrea de Cascais até ao Cais do Sodré e o estabelecimento da linha de Cintura, que liga a Estação de Alcântara com a do Norte, realizaram esta obra meritória. O velho Caneiro foi coberto em longa extensão, desaparecendo a antiga ponte.

O sítio da Ponte de Alcântara [1941]
O seu local era na junção das actuais Ruas de Alcântara  — donde é tomada a foto — e do Prior do Crato, D. António, na direcção dos carris da viação eléctrica, e perpendicularmente à linha férrea que vai da estação de Alcântara-Terra para a de Alcântara-Mar pelo leito da Rua de João de Oliveira Miguens. As cancelas da passagem de nível do caminho de ferro marcam aproximadamente o vão do arco central do ponte, e a linha da frontaria do Mercado de Alcântara e os topos fronteiros dos muros divisórios do terreno  do leito da linha férrea marcam a largura da ponte.
Eduardo Portugal, in AML

Na ponte [...] esteve uma estátua colossal de S. João Nepomuceno. primoroso trabalho de escultura feito pelo insigne escultor João António de Pádua, e colocada em 1743. No pedestal mandaram os moradores do bairro pôr uma inscrição que dizia: — A S. João Nepomuceno, novo taumaturgo do mundo, dominador da terra, do fogo, da agua e do ar, e sobretudo aplacador dos mares, um seu devoto, reconhecido para com o seu protector, ergueu estátua, no ano de 1743, depois de salvo.
O artista que tez esta estátua notabilizou-se em vários trabalhos de mérito superior, como os celebres púlpitos da igreja do Colégio de Santo Antão de Lisboa, o trabalho esculturado da capela-mor da igreja de S. Domingos, as imagens da capela-mor da Sé de Évora, etc. Pedro António Luques, hábil artista cinzelador, cooperou brilhantemente em todos os principais trabalhos de Pádua.

Ponte de Alcântara em 1862
Vê-se a estátua de S. João Nepomuceno com o seu gradeamento
(que consta era em bronze) erigida em 1743 e apeada c. de 1887, e á direita o começo da estrada e do muro de circunvalação construidos em 1845.
Gravura por Nogueira da Silva, in Archlvo Pittoresco

Esquecia-nos dizer que a estátua de S. João Nepomuceno foi arrancada de cima da ponte e mudada para o Museu do Carmo [onde se encontra na ala do cruzeiro, do lado da Epístola]. Ouvimos que a operação foi feita com tanta delicadeza que a estátua ficou truncada.
As dimensões desta obra monumental que se conserva. são: Plinto: 1,17m x 1,5m de frente, e 2,65m de altura; estátua com a sua base: 3,35m de altura; altura total: 6,0m.

Ponte de Alcântara
Portrait du site et ordre  de La bataille donnée entre le sr. don Antonio nommé Roy de Portugal et Le duc Dalba Lieutenant et capp.ⁿ général du Roy cath. Dom Philippe II devant Lisbonne par mer et par terre en un mesme jour le 25 d'aout 1580.
Desenho que representa a  batalha travada em 1580 nas vizinhanças da ponte de Alcântara, entre as tropas do pretendente D .  António e as do Duque de Alba. Vê-se ao centro (assinalada com um circulo) a ponte representada de cantaria com o  tabuleiro horizontal,  e com três arcos de volta Inteira; .ao meio está levantada uma barricada.
Desenho, in BNF

N.B. Com os elementos de que dispomos — diz o eng.º A.Vieira da Silva — , devemos presumir que a ponte era construída de cantaria, e teve de origem três vãos de arcos, sendo o central de volta inteira; que o oriental, por desnecessário, foi entaipado talvez no século XVII; e que o  ociental  foi vedado nos meados do século XIX. 
No arquivo do extinto Ministério das Obras Públicas existiam os desenhos de um projecto de regularização da ribeira e alargamento da ponte, em que esta e as suas circunvizinhanças estavam representadas. A planta destes projectos deve ser do 3.º quartel do século XVIII (1759 a 1769), em que o 1.º ministro de D. José era conde de Oeiras), e mostra um arco grande, e um mais pequeno perto do extremo ocidental da ponte. Parece dever Inferir-se que no 3.º quartel do século XVIII a ponte só conservava dois arcos dos três mencionados, ou que então possuía os. três, mas estando o oriental já tapado ou inutilizado.
_________________
Bibliografia
VIDAL, Angelina, Lisboa antiga e Lisboa moderna: elementos históricos da sua evolução, 1900.
Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa»,  A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças: notícia histórica, por A. Vieira da Silva, 1942.

Friday, 7 June 2019

Rua de Alcântara

Alcântara é nome de origem árabe — Al-quantãrã — e significa «a ponte». Norberto de Araújo recorda como «a existência da ponte é um facto antiquíssimo e naturalíssimo», visto aí passar a tal ribeira «hoje [1939] entaipada com o seu caneiro». «De madeira, de pedra, com uma configuração rudimentar, ou traçada já com expressão ajustada a trânsito largo largo — a ponte de Alcântara (e «Alcântara» significa «a ponte», como é sabido) existiu sempre».(*)

Rua de Alcântara [1939]
 Do lado dir. vê-se  o prédio ocupado pela «Sociedade Promotora de Educação Popular»
Prédios demolidos para abertura da Praça Gen. Domingos de Oliveira na década de 1960
Eduardo Portugal, in AML

A «Sociedade Promotora de Educação Popular» foi uma associação educativa fundada em Lisboa a 30 de Setembro de 1904, por influência maçónica. Estava sedeada, na Rua de Alcântara, nº 6, 2º. A Sociedade tinha como objectivo promover a assistência e a formação de crianças e adultos. Para tal criou cursos diurnos e nocturnos.

Rua de Alcântara [c. 1910]
«Sociedade Promotora de Educação Popular»
Prédios demolidos para abertura da Praça Gen. Domingos de Oliveira na década de 1960
Joshua Benoliel, in AML

(*) Falaremos da Ponte de Alcântara e do seu historial no próximo artigo.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.
cm-lisboa.pt.

Wednesday, 5 June 2019

Avenida Casal Ribeiro

A Avenida Casal Ribeiro integra o plano de expansão da cidade iniciado em 1879 com a demolição do Passeio Público para dar lugar ao leito da avenida da Liberdade, iniciativa posteriormente consolidada e desenvolvida através do projecto da “avenida das Picoas ao Campo Grande e ruas adjacentes” .


A Avenida Casal Ribeiro nasceu por via do Edital municipal de 29 de Novembro de 1902, para ser o topónimo da via pública que existia entre a Praça Duque de Saldanha e o Largo de Dona Estefânia. Entre Setembro de 1900 e Agosto de 1906 encontramos diversos documentos municipais relacionados com a execução da «Avenida do Conde de Casal Ribeiro», nomeadamente que foram expropriados e trocados terrenos para o efeito, como Espinhaço de Cão e Terra do Alto.

Avenida Casal Ribeiro [1926]
Cruzamento com a Avenida Defensores de Chaves (à dir.) e Rua Actor Taborda (à esq.)
Os dois edifícios na Avenida Casal Ribeiro — tornejando para a Rua Actor Taborda — nos números 35 (de onde é tomada a fotografia) e 37, ainda lá estão. Em último plano a Praça Duque Saldanha
Fotografia atribuída a Ferreira da Cunha, in AML

O homenageado é José Maria do Casal Ribeiro (1825--1896), conde de Casal Ribeiro por decreto régio de 28 de maio de 1870, que foi um político do rotativismo português dos finais do séc. XIX e como tal foi deputado, para além de ter desempenhado os cargos de Ministro da Fazenda (de 16 de março de 1859 a 20 de Julho de 1860), dos Negócios Estrangeiras (de 24 de Abril a 4 de Junho de 1860 e de maio de 1866 a 4 de Janeiro de 1868), e ainda das Obras Públicas, Negócios e Indústria (de 9 de maio a 6 de Junho de 1866), de Conselheiro de Estado bem como de embaixador em Paris e Madrid.

Avenida Casal Ribeiro, sul [1964]
Cruzamento com a Avenida Defensores de Chaves (à esq.) e Rua Actor Taborda (à dir.)
Ao fundo encontra-se o Largo de D. Estefânia
Arnaldo Madureira, in AML

Bibliografia
Cadernos do Arquivo Municipal, 2016.
cm-lisboa.pt.

Sunday, 2 June 2019

Palácio Valadares

O antigo Palácio Valadares, com sua fachada sobre o Largo do Carmo e em extensão sobre a Calçada do Sacramento, à parte o seu passado histórico, vale apenas pelo corpo da frontaria, na qual se rasga uma varanda armoriada.


O Palácio Valadares, no Largo do Carmo, é uma construção setecentista, desluzida de expres­são arquitectónica, mas cujo núcleo urbano, destruído pelo Terramoto, muito longe recuava, possuindo por isso uma significação olisiponense histórica, que é a única justificação do relevo desta notícia. No século XIII neste Sítio da Pedreira, e no local do Palácio Valadares, assentaram as casas do «Estudo Geral» — embrião da Universidade de Lisboa — , criado por D. Dinis, em 1290, e já a funcionar nesse próprio ano ou no seguinte. Pouco tempo depois, em 1802, as casas foram doadas pelo mesmo rei aos judeus Navarros, de Beja, arrabis-móres, mas logo em 1819 as mesmas casas, com seus largos terrenos de logradouro, passaram, por doação também, ao almirante geno­vês Manoel Peçanha (Pessanha, pelo decorrer do tempo), conservando-se a propriedade nos seus descendentes e sucessores, com algumas intermitências, durante todo o século XV. No princípio do século XVI estava a propriedade na posse dos Meneses, Condes e Marqueses de Vila Real, e nela se continuou até 1641, ano em que, por conspiração contra D. João IV, foram justiçados D. Luís de Meneses, 7 ° Marquês de Vila Real, e seu filho D. Miguel de Meneses, 2.º Duque de Caminha. Vagou então a propriedade para a Coroa, doando.a logo o soberano a seu filho, o Infante D. Pedro; certo é ela pertencer, em 1653, a D. Álvaro Abranches, um dos aclamadores de D. João IV, cuja filha, e única herdeira, casou no ano seguinte com D. Miguel Luís de Meneses, neto dos Vila Reais, feito Conde de Valadares em 1702, por ajuste com D. Pedro II, pelo direito que tinha, D. Miguel Luís, à casa de Vila Real. Voltaram assim os Meneses à posse do palácio do Carmo, conservando-se este nos Valadares até ao Terramoto, que inteiramente o subverteu, desaparecendo então o núcleo urbano primitivo do velho edifício, que remontava ao tempo do Rei D. Dinis.

Palácio Valadares [ca. 1949]
Calçada do Sacramento, 34-52; Largo do Carmo, 32
O Corpo principal, no qual se  destaca o portal nobre emoldurado de  cantaria, sobre o qual assenta a varanda larga, em contra­curvas de grades do século XIX, valorizando a janela do andar nobre o  remate com a pedra de armas dos Valadares. [vd. 3ª foto]
Horácio Novais, in Inventário de Lisboa













 
Foi o  5.º Conde de Valadares, D. José Luís de Meneses Abranches Castelo Branco, quem, a partir de 1785, fez reedificar o  palácio, em área, planta e  semblante em tudo diversos do que distin­guira o  solar dos Pessanhas e  dos Marqueses de Vila Real. Em 7  de Fevereiro de 1798, no tempo do 7.º Conde de Valadares e 1.º Marquês de Torres Novas, o novo palácio sofreu incêndio, que con­sumiu todo o recheio, mas conservando-se, após as obras de restauro, logo efectuadas, o exterior tal qual fora traçado em 1785. No século passado [XIX] o  palácio continuou na posse dos Valadares, mas porque o  filho do 9.° Conde, D. Francisco António,  casara com a  4.ª Marquesa de Vagos, os títulos da família proprietária do palácio acabaram por unir-se na pessoa de seu filho D. Marcos da Silva Noronha, falecido em 1906. No começo do ano seguinte, para efeito de partilhas, o  palácio do Carmo, que os Valadares e  Vagos no século XIX só transitoriamente habitaram, foi à  praça, sendo arrematado pelo confeiteiro e capitalista Baltasar Rodrigues Castanheiro; a propriedade pertence hoje [em 1950] aos três netos do arrematante de 1907 — Pedro, Rafael e  Carlos Castanheiro Viana.

Palácio Valadares [1959]
Calçada do Sacramento, 34-52; Largo do Carmo, 32
Junta de Freguesia de Santa Maria Maior
O corpo corrido em extensão, sobre a Calçada do Sacramento, com  duas  ordens de doze janelas, uma de sacadas rematadas por cornija no andar nobre, e outra de peito e de guilhotina no primeiro andar; a meia  altura do centro deste  corpo  vê-se urna  lápide [por cima e atrás do reclame], em  cantaria simples, com a inscrição: «No sítio deste Palácio existiu a primeira casa da Universidade de Lisboa, criada pelo rei D. Dinis, por carta de 1 de Março de 1290 com  o nome de Estudo Geral. Esta lápide foi mandada colocar pelo Grupo Amigos de Lisboa aos 6  de  Março de  1938»
Arnaldo Madureira, in
A.M.L.

No século passado já o palácio andava abandonado pelos Valadares, e  convertido em prédio de rendimento, sem beleza  alguma interior, pois o incêndio de 1798 tudo consumira. Logo a  seguir ao sinistro esteve ali instalada uma fábrica de arame (1798-1817). Ocupou-o, em 1819 a famosa «Assembleia Lisbonense», clube de recreio de alta distinção, cujas deslumbrantes festas deram brado, e  às quais chegou a  assistir a  família real, dando o  Rei D. João VI beija-mão. A «Assembleia» deixou o  palácio em 1829, mas logo em 1885 o  proprietário, que era então o 1.º Marquês de Torres Novas, alugou o  andar nobre ao Clube Lisbonense, também muito afamado, e  a cujas festas vinham por vezes D. Maria II, seu marido e filhos; o  clube acabou em 1880. O andar nobre, logo em 1881, passou a  ser sede da Direcção-Geral dos Correios, Telégrafos e  Faróis, que ali se manteve até 1887; no ano seguinte ocupou o  edifício todo João Pedro Tavares Trigueiros. Depois de 1892 um novo in­quilino abriu diverso e  mais condigno destino ao antigo palácio: o  Liceu Nacional (Liceu do Carmo), transferido do Palácio Regaleira, a  S. Domingos; a  este sucedeu o  liceu feminino D. Maria Amália Vaz de Carvalho, e  a seguir uma secção do Liceu Passos Manuel. Finalmente em Outubro de 1941 o edifício passou, excepto nas lojas e  sobrelojas,   a ser ocupado pela Escola Comercial Veiga Beirão. Numa sobreloja está instalada a  Junta de Freguesia do Sacramento [hoje de Santa Maria Maior], e  noutras sobrelojas e  lojas acomodam-se armazéns e  estabelecimentos comerciais.

Brasão de armas dos Valadares [ca. 1900]
Calçada do Sacramento, 34-52; Largo do Carmo, 32
 O Corpo principal, no qual se  destaca o portal nobre emoldurado de  cantaria, sobre o
qual assenta a varanda larga, em contra­curvas de grades do século XIX, valorizando a
janela do andar nobre o remate com a pedra de armas dos Valadares (primeiro  e
quarto quartéis armas de Portugal, segundo e terceiro armas de  Castela, centrados pelo escudo
dos Meneses de  Tarouca, este repartido em seis, um com estoque, três com quatro barras, dois
com dois lobos em campo, e ainda centrado com o anel dos Meneses).
Alberto Carlos Lima, in
Inventário de Lisboa

__________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1950.

Friday, 31 May 2019

Chafariz da Praça das Flores ou do Monte Olivete

Este era o chafariz n.º 11. Inicialmente situava-se perto do Arco de São Bento. O Arco foi demolido em 1838 e o chafariz, por sua vez, foi mudado para o início da Rua do Monte Olivete, junto à Praça das Flores. Foi mandado construir pela Direcção das Águas Livres em 12 de Junho de 1805. Tinha duas bicas, duas companhias de aguadeiros, dois capatazes, sessenta e seis aguadeiros e um ligeiro. Os seus sobejos eram repartidos por D. Genoveva Alexandrina e José Ramos da Fonseca. D. Genoveva tinha sido lesada com a destruição de algumas das suas propriedades  (entre a Rua do Arco a S. Mamede, e a a antiga Travessa do Pombal, hoje Rua da Imprensa Nacional) aquando da construção do Aqueduto para o Chafariz da Esperança  e não recebera indemnização, sendo a metade dos sobejos da água deste chafariz uma forma da a recompensar.

Chafariz da Praça das Flores ou do Monte Olivete [entre 1885 e 1910]
Largo Agostinho da Silva
Atrás, a Rua Prof. Branco Rodrigues
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Este chafariz não encosta à parede. Tem uma planta poligonal. É esquinado de pilastras encimadas de urnas. No seu lado frontal apresenta as armas reais da centúria de setecentos sobre molduras e requebros curvilíneos, rematado por um frontão em arco quebrado, semelhante a uma chaveta, e ladeado por 2 das pilastras, apresentando uma bacia de recepção de águas, ampla, que percorre toda a base frontal..

Chafariz da Praça das Flores ou do Monte Olivete [c. 1941]
Largo Agostinho da Silva
Confluência da Rua Marcos Portugal, Praça das Flores e Rua do Monte Olivete
António Passaporte, in AML

Bibliografia
ANDRADE, José Sérgio Veloso de - Memória sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa, Belém, e muitos logares do termo, 1851.

Wednesday, 29 May 2019

Anttiga Igreja do Coração de Jesus

Quási defronte do antigo Convento de Santa Marta temos a Igreja do Coração de Jesus — recorda-nos Norberto de Araújo — , cuja paroquial foi criada em 1770 com o orago de Santa Joana, na Igreja do vizinho Convento de Santa Joana, passando depois (1780) para o Hospício das Carmelitas, na Rua de Santa Marta.


O templo paroquial do Coração de Jesus só foi erguido neste local em 1790 a esforços, sobretudo, do Conde de Redondo; foi arquitecto Manuel Caetano de Sousa. A inauguração realizou-se a 30 de Maio. Entre 1877 e 1880 a Igreja recebeu restauros. 

Rua de Santa Marta [1944]
Ao fundo vê-se a antiga Igreja do Coração de Jesus, situava-se em frente ao Convento de Santa Marta, hoje Hospital de Santa Marta
Eduardo Portugal, in AML

A paroquial do Coração de Jesus é pobre, embora simpática. Possue no corpo da Igreja duas capelas por lado; à direita as de N. Senhora de Fátima e da Sagrada Família, à esquerda de N. Senhora das Dores e de S. Miguel. No altar da Capela-mór vêem-se sobre o sacrário do SS. as imagens do Sagrado Coração de Jesus e o S. Coração de Maria; nela se ostenta um quadro do orago da freguesia devido a Cirilo Wolkmar  Machado. O teto é de Pedro Alexandrino.



Igreja do Coração de Jesus [195-]
Rua de Santa Marta
Mário de Oliveira, in AML

Igreja do Coração de Jesus [1956]
Retábulo do capela-mor, de Volkmor Mochado
Fotografia anónima, in IL



A igreja foi demolida na década de 1960 e substituída de outra, com a mesma invocação, edificada na Rua Camilo Castelo Branco.

Igreja do Sagrado Coração de Jesus [195-]
Pormenor do tecto da autoria de Pedro Alexandrino
Armando Serôdio, in AML

N.B. Esta zona da cidade era servida pela Carreira de eléctricos Nº 6 RESTAURADORES-PRAÇA DA FIGUEIRA. Foi inaugurada em 1905, com o percurso inicial entre o Rossio e a R. Gomes Freire. Foi suprimida em 1960.
Percurso: Praça dos Restauradores, Av. da Liberdade, Rua Barata Salgueiro, Rua de Santa Marta, Rua Conde Redondo, Rua Gomes Freire, Campo dos Mártires da Pátria, Rua de S. Lázaro, Rua da Palma (sentido inverso, Poço do Borratem), Largo Martim Moniz e Praça da Figueira.
___________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 90-91, 1939.

Sunday, 26 May 2019

Palácio dos Condes de Coculim

Vemos os restos de outro nobilissimo palacio — diz mestre Castilho — , que vai deter-nos alguns instantes a estudal-o; é o que fica pegado, pela sua esquina Occidental, ao chamado arco de Jesus, ou porta-do-mar-a-S. João. O palacio a que me referi era o dos Condes de Coculim, cujo brasão de armas, as faxas dos Mascarenhas, orna ainda a esquina do edifício. Pelas mostras, deveu ser uma casa bellissima; só restam as lojas, poucas janellas de sacada no primeiro andar, e um enorme portão, no mais arrogante estylo do século XVII. O terremoto aluiu todo o resto.


Quanto ao antigo Palácio Coculim, refere Norberto de Araújo o seguinte: «Bem de admirar-se é êsse forte cunhal brasonado [ao centro, vd. foto 3] das armas dos Mascarenhas — muitos Mascarenhas titulares houve em Portugal! — , e que corresponde ao apelido dos Condes de Coculim, cujo primeiro senhor do título era filho de D. João de Mascarenhas, 1.° Marquês de Fronteira (1670) e 2.º Conde da Tôrre. [...]

Palácio Coculim [ant. 1900]
Rua do Cais de Santarém, 38-66; Arco de Jesus, 2-10; Beco do Armazém do Linho; Travessa de São João da Praça
 Fotógrafo não identificado, in AML

Pois disse-te que êste Palácio, à nossa direita [desde o cunhal do Arco de Jesus até à Travessa de São João da Praça [ao fundo à esq.], era dos Condes de Coculim (1755), em cujos restos, que o Terramoto poupou, estão hoje [em 1939] os armazéns de ferro da firma Sommer. No comêço do século XVII pertencia aos Condes de Linhares; supõe-se, sem que se possa ter a segurança, que uma serventia que existiu até 1755 nos baixos dêste prédio — que interiormente ainda se denota, em forma de arco, tornado armazém — fôsse o Postigo do Conde de Linhares, aberto na muralha, já muito depois da construção da Cêrca de D. Fernando, e que ligava o Cais de Santarém com S. João da Praça.
Repara nesse portal [visível entre as duas carroças, vd. fig.2] de cantaria almofadada, com verga ornamentada, ao estilo do século XVII; é quanto resta, expressivo, do Palácio dos Coculins.

Portal seiscentista do Palácio Coculim [193-]
Rua Cais de Santarém, 52
Eduardo Portugal, in AML

Cunhal brasonado com Pedra de armas
dos Mascarenhas Condes de Coculim [1959]

Rua Cais de Santarém; Arco de Jesus
Armando Serôdio, in AML

N.B. Desde 2018 — e após obras de reabilitação — está instalado no palácio o primeiro hotel-museu da cidade, o Hotel Eurostars Museum. O grande atractivo deste hotel é ser também um museu, expondo o precioso espólio arqueológico achado no local durante as obras de construção. Uma domus romana foi posta a descoberto e pode ser vista in situ, bem como um troço da muralha e da rua adjacente, do mesmo período (séculos II e III).
_________________
Bibliografia
CASTILHO, Júlio de, A Ribeira de Lisboa, vol. pp. 177-178, 1893.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 25, 1939.

Friday, 24 May 2019

Campo das Cebolas

O Campo das Cebolas, designação já do século de seiscentos, e o Cais de Santarém, que precedem o Terreiro do Trigo, têm um semblante muito comercial do lado de terra, e só de passagem os percorremos.[...] 

Do Arco da Conceição [actual Arco das Portas do Mar, vd. 2ª foto], sem significado algum de história ou de arqueologia, começa o Campo das Cebolas — cujo nome deriva da descarga e armazéns que daquêle produto se fazia —, desfigurada tira urbana que de palácios foi. 


Campo das Cebolas [190-]
 Rua da Alfândega, Rua dos Bacalhoeiros (dir.): ao centro vê-se o antigo Terreirinho das Farinhas (hoje demolido) e, do lado esq., o  Instituto Médico Virgílio Machado fundado em 1903.
Paulo Guedes, in AML

Na actual confluência da Rua da Alfândega, Rua dos Bacalhoeiros, Rua do Cais de Santarém e Avenida Dom Henrique fica o Campo das Cebolas que, de acordo com Gomes de Brito "Era antigamente Rua direita da Ribeira. (...) Comquanto no Tombo da Cidade (1755), venha designado sob o nome de «Rua direita da Ribeira», já a planta de J. Nunes Tinoco (1650), o menciona com o título actual.” Como Campo das Cebolas aparece na descrição paroquial da freguesia de "Santa Maria Mayor" anterior ao terramoto de 1755 e, como "rua da praya, ou Campo das Cebollas", na planta da freguesia de S. João da Praça após a remodelação paroquial de 1770.

Casa dos Bicos Panorâmica sobre o Campo das Cebolas [1969]
Ao centro, no prédio logo abaixo da Sé, vê-se  o Arco das Portas do Mar (ou da Conceição) que estabelece
a comunicação entre a Rua dos Bacalhoeiros e as ruas de Afonso de Albuquerque e das Canastras.
No sítio do prédio do arco terá existido o Chafariz da Preguiça ou do Arco das Portas do Mar (1569).
Armando Serôdio, in AML
___________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 23-24, 1939.
cm-lisboa.pt.
VIEIRA da SILVA, A., A Cerca Moura de Lisboa, 1899.

Wednesday, 22 May 2019

Profissões de antanho: o vendedor de capilé

— Capilé, copo com água!

Cortejo cívico, procissão, parada militar, feira ou qualquer outra manifestação que provoque ajuntamento, logo surgia e surgirá sempre, a completar o panorama, certo e sabido, o homem da «água fresquinha ou capilé»!
O material para o «negócio» é simples: um tabuleiro de zinco com quatro pernas, dois copos, uma garrafa de capilé, limões, uma faca para os cortar e uma bilha de água com a rolha trespassada por um pedaço de cana para não ter de a destapar, conservando a água isolada e fresca.
Depois é só instalar-se em local bem visível ou circular através da multidão e apregoar:
— Água fresquinha ou capilé! Capilé, copo com água!...

Vendedor de capilé  [1918-08]
Praça do Comércio
Joshua Benoliel, in A.M.L.

E não lhe falta freguesia porque há sempre gente que mesmo que não tenha sede lhe desperta a sede, mesmo que observe os copos mal lavados, passados ali num ápice, que ele não pode gastar muita água com tais preocupações, pois, se muita gastasse, pouca lhe ficaria para vender.
— Capilé, copo com água! Água fresquinha ou capilé!





Marchand de boisson [entre 1903 e 1908]
Largo Duque do Cadaval, vendo-se a Estação do Rossio(*)
Charles Chusseau-Flaviens, in G.E.H.
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo





O capilé, ou xarope de avenca, também se vendia em abundância, ou na conhecida casa de Santo Antão, em frente do Coliseu, cheia de avencas no tecto, hoje transformada em botequim, ou nos demolidos quiosques do Camões, e, ainda, pelos vendilhões de água fresca e do capilé de cavalinho, chupado pelos rapazes em canudos de folha, sôbre os quais bailarinas, toiros e t oireiros giravam.
O prémter marchand d'eau — velhote vestido de branco, com chapéu de  palha — fez época no Rossio.
 — Capilé, copo com água!

___________________
Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 298, 1986.
Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», 1945.
Web Analytics