Wednesday, 25 December 2019

Presépio do Largo do Chiado

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854). Iniciador do Romantismo, refundador do teatro português, criador do lirismo moderno, criador da prosa moderna, jornalista, político, legislador, Garrett é um exemplo de aliança inseparável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta. É considerado, por muitos autores, como o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto nos deixou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.

Rua Garrett [1966]
Presépio do Largo do Chiado
Armando Serôdio, in AML

De origem irlandesa, a grafia do seu último apelido «garet» foi por ele próprio alterada na sua assinatura para «garrett» com o objectivo que as pessoas lessem a letra tê para pronunciar correctamente o seu nome como «garrete».
A meio do século XIX, ainda o Governo Civil tinha a incumbência da denominação dos arruamentos decidiu este que as Ruas do Chiado e Portas de Santa Catarina passassem a ter a denominação única de Rua do Chiado (Edital de 01/09/1859) e, só passados 21 anos (1880) passou a Rua Garrett.

Sunday, 22 December 2019

Lojas de antenho: Casa dos Espartilhos

A fábrica de espartilhos a vapor« «os melhores espartilhos de Portugal», com loja na Rua do Ouro, foi fundada em 1892 pelos empresários Santos Mattos. Isso mesmo é comprovado por um prospecto antigo, exibido na exposição 100 anos-Amadora, na Casa Roque Gameiro. Um folheto mais recente situava na Porcalhota (actual Amadora) a fábrica da casa de espartilhos, cintas e soutiens  — «não tem, no genero, outra que a eguale».

Rua Áurea, 123 |1911|
A «Casa dos Espartilhos» à hora da expedição das vendas e encomendas
Fotógrafo: Joshua Benoliel, in Ilustração Portuguesa



























A rua [do Ouro] tinha duas horas ao dia de um tal ou qual movimento: à entrada e à saída das secretarias. Depois, pelo dia adiante, uma carruagem de vez em quando, alguma traquitana de praça, o omnibus da companhia, e os clássicos carros chiando estridulamente pelos eixos. À noite uma necrópole, um hypogeu de Thebas. Todas as lojas fechadas, um ou outro transeunte a passo dobrado, o pregão soturno dos aguadeiros, a aparição lamentosa da patrulha...»
(Júlio César Machado (1835-1890), «Cláudio», citado por Luís Pastor de Macedo, Lisboa de Lés-a-Lés)

Rua Áurea, 123 [1911]
A Casa dos Espartilhos ornamentada para o IV Congresso Internacional de Turismo
Joshua Benoliel, in AML

Friday, 20 December 2019

Rua José António Serrano

Com a legenda «Doutor Tratadista, Osteólogo, 1851–1901» foi o nome de José António Serrano fixado na que era a Calçada do Colégio, por deliberação camarária de 6 de Dezembro de 1906.
José António Serrano (Castelo de Vide/01.10.1851 - 07.12.1904), foi Lente da Escola Médica e o primeiro cirurgião português que obteve a cura de um tumor sólido do ovário (por meio de laparatomia, em 1889) e a realizar uma histerectomia abdominal. Defendera tese em 22.12.1875 e três anos depois foi nomeado preparador e conservador do Museu de Anatomia da Escola sendo também cirurgião do Banco do Hospital de São José e, a partir de 1895, director de enfermaria do Hospital do Desterro bem como, em 1901, director da Repartição de Estatística do Hospital de São José. Foi lente substituto em 1880 de Anatomia Descritiva e lente proprietário em 1889, para além de ter regido na Escola de Belas Artes a cadeira de Anatomia Artística e Higiene de Edifícios. As suas obras essenciais foram «Manual Sinóptico de Anatomia Descritiva» e «Tratado de Osteologia Humana». [cm-lisboa.pt]

Rua José António Serrano |ant. 1949|
[Antes das demolições do Martim Moniz]
Antiga Calçada do Colégio [dos Jesuítas de Santo Antão-o-Novo, hoje Hosp. S. José,cerca;
Miradouro de Nossa Senhora do Monte
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Wednesday, 18 December 2019

Avenida Dom Carlos I

Antiga Avenida do Presidente Wilson, Avenida das Cortes, antes Rua Dom Carlos I (1889), antes Rua Duque de Terceira (1866), antes Rua dos Ferreiros a Esperança, antes Rua dos Ferreiros a Santa Catarina) e Travessa Nova da Esperança.



Filho de D. Luís e de D. Maria Pia de Sabóia, nasceu em Lisboa a 28 de Setembro de 1863. Aí também morreu assassinado no dia 1 de Fevereiro de 1908. Trigésimo terceiro rei de Portugal (1889-1908), ficou conhecido pelo cognome de "o Martirizado". Casou em 1886 com D. Amélia de Orleães, princesa de França, filha dos condes de Paris, de cujo enlace nasceram D. Luís Filipe e D. Manuel. O seu reinado ficou marcado por eventos que fomentariam o espírito republicano e o descrédito crescente do regime monárquico. O primeiro destes eventos aconteceria logo em 1890: o ultimato inglês, motivado pelo "Mapa cor-de-rosa" (1886) que punha em causa as pretensões do imperialismo britânico, nomeadamente o ensejo de ligar o Cabo ao Cairo. Portugal foi obrigado a abandonar os territórios africanos em questão, o que constituiu uma humilhante derrota para a diplomacia portuguesa e para o País. Este facto provocou uma explosão de sentimentos anti-britânicos um pouco por todo o reino e em todos os quadrantes políticos. Este ambiente é aproveitado pelos republicanos que, após este incidente diplomático, reagem com maior veemência do que nunca.

Avenida Dom Carlos I |ant. 1908|
Cortejo Real em dia de abertura do Parlamento na Avenida Dom Carlos
António Novais, in A.M.L.


No Porto, estala uma revolta que acabaria por fracassar mas que proclamaria a República pela primeira vez na História portuguesa (o 31 de Janeiro de 1891). O rotativismo entre os Partidos Progressista e Regenerador entrara em descrédito, aumentando de eleição para eleição o número de representantes republicanos. Assim, em Maio de 1906, D. Carlos chama João Franco a formar Governo, o qual, contrariando promessas anteriormente feitas, encerra a Assembleia Legislativa e dá início a uma ditadura. A ditadura de João Franco desencadeou uma onda de protestos, sobretudo devido aos adiantamentos à Casa Real e à repressão política. Em 21 de Janeiro de 1908, uma tentativa revolucionária foi dominada pelo Governo, tendo sido feitas inúmeras prisões. Na sequência deste movimento, foi elaborado um decreto que previa a deportação do reino para os conspiradores, decreto que D. Carlos promulgou. Passados poucos dias, em 1 de Fevereiro de 1908, chegava a família real portuguesa a Lisboa vinda de Vila Viçosa, desembarcava junto do Terreiro do Paço e daí seguia para o Paço das Necessidades quando se deu o regicídio, no qual morreram D. Carlos e o seu filho D. Luís Filipe, o herdeiro do trono. (in Diciopédia 2002).

Avenida Dom Carlos I , sul|1965|
À dir. nota-se o Chafariz da Esperança

 Armando Serôdio, in A.M.L.

Sunday, 15 December 2019

Escadinhas da Barroca e Pátio do Salema

Entremos pelas Escadinhas da Barroca  — que não tem escadinhas!, [Homessa! Tem e não são poucas — caríssimo Norberto de Araújo] e iniciemo-nos em pitoresco.
Contempla êste prèdiosito, n.ºˢ 10 e 12, expressivo, como uma aguarela congeminada por artista de olisiponense fantasia. Lisboa sobrepõe-se, em todos os sítios e bairros; uns pedaços há que não aderem ao urbanismo, nem sequer do século passado — e muitos havemos de encontrar. Este é um dêles. [...]

Escadinhas da Barroca, 10 e 12  |c. 1900|
Arruamento que liga o Largo de São Domingos à Travessa de Santa’ana e ao qual aparecem 
já referências em 1755, nomeadamente como “rua da Barroca das Escadinhas” devendo a sua
origem à proximidade ao Palácio da Barroca que a partir de 1777 se designava
por Palácio do Galvão.
José Artur Bárcia, in A.M.L.

Entra-se agora no Pátio do Salema, cujo lado poente é constituído por casas encostadas e pertencentes ao Palácio Almada: é êste Pátio um recanto sombrio, que tem ao fundo um umbral do vizinho Convento da Encarnação, e que nos mostra apenas uma edificação sólida mas decrépita: o prédio n.° 4, de portal de certa vista, onde, antes da proclamação da República, existiu uma associação republicana, que deu local às famosas «reuniões do Pátio do Salema», areópago de idealista.¹

Pátio do Salema (Escadinhas da Barroca) |1939|
Alguns pátios transformaram-se em via pública, tais como os do Almotacé, do

Conde de Soure, do Salema, do Salgueiro, do Silva e Cruz, do Tijolo.
Eduardo Portugal, in A.M.L.

¹ Em 1864, foi fundado no Pátio do Salema um centro republicano, donde saiu o Partido Reformista, que foi, por assim dizer, a guarda avançada do Partido Republicano. Era o denominado «Clube dos Lunáticos». Servia como ponto de encontro dos idealistas que em 1848 tinham acreditado na possibilidade de mudança de regime, onde se encontravam em torno de António de Oliveira Marreca, Gilberto Rola, Francisco Maria de Sousa Brandão, José Elias Garcia, Saraiva de Carvalho, Bernardino Pinheiro e Latino Coelho.
___________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 12-13,, 1938.
Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», Vol. 17, 1942.

Friday, 13 December 2019

Rua Inácio Pardelhas Sanchez

Este topónimo com a legenda «Médico/1919-1982», resultou de uma sugestão apresentada pela Junta de Freguesia de Campolide, fundamentada no facto do homenageado ter residido nas imediações deste arruamento e ter dedicado a sua energia, conhecimento científico e compreensão humana aos doentes que a ele recorriam, sem olhar aos seus recursos económicos ou situação social.[cm-lisboa.pt]

Rua Inácio Pardelhas Sanchez |1945|
Antiga Rua A, do Bairro da Liberdade; Campolide; Marco fontanário junto às Escadinhas da Liberdade
Martinez Pozal, in AML

Wednesday, 11 December 2019

Escadinhas da Liberdade

O Bairro da Liberdade, na chamada En­costa de Campolide, formou-se a partir de um conjunto de habitações que foram surgindo em finais do século XIX prolongando-se pelas primeiras décadas do século XX, no âmbito de um processo de industrialização que tinha como pólo principal o Vale de Alcântara. O acréscimo de população do Bairro verificou-se em meados da década de 60, motivada pela migração de população rural para Lisboa na procura de melhores condições de vida.

Escadinhas da Liberdade |1945|
Este topónimo advém da sua proximidade ao Bairro da Liberdade
Martinez Pozal, in AML

Aquando da construção do Aqueduto das Águas Livres, no séc. XVIII (1732-1748), já aqui tinha existido um chamado Bairro da Liberdade para acolher os mi­lhares de operários daquele grandioso empreendimento, tendo-se então multiplicado as habitações precárias, e que precárias e degradadas permaneceram ao longo de décadas.

Sunday, 8 December 2019

Lojas de antanho: Pastelaria Marques e Bazar Suisso (Casa Saboia)

Propos-lhe entrarem na pastelaria Marques. Aceitou. Só havia duas mesas de vago, ao fundo. Avançaram para a última. Um criado, de guardanapo no sovaco, casaca indiscretamente lustrosa, acercou-se, inquiriu: 

 — Chá preto ou verde

 — Queres ? 

 — Preto.

 — Traga preto.


Entremos agora nos n.°' 70-72 que, desde 1903, nos dão comunicação à Pastelaria Marques, de Manuel Marques & C.ª, hoje Manuel José de Carvalho, Lda., num edifício que tem interesse histórico por ter sido residência do marquês de Niza¹, e onde estiveram também instaladas a Casa Sabóia, a Perfumaria Francesa e o Turf-C1ub, entre outros. No decurso dos anos aumentou a sua área e chegou a ocupar os n” 66 a 78, dispondo de um grande salão para banquetes. Regista, nos seus anais, a convivência, em animados entretiens, de individualidades muito conhecidas, como o Dr. Pinto Monteiro, Machado Vieira, Dr. Mário Madeira, conde da Ervideira, Sebastião Teles, condes da Aurora, de Bobone, Lousã e das Alcáçovas, visconde do Zambujal, Ramada Curto, e outros.
Foi um dos edifícios afectados pelo incêndio de 1988 e hoje, recuperado, encontra-se aí uma galeria comercial.

¹ Marina Tavares Dias conta que o marquês de Niza, morador no edifício onde se encontrava a Marques, mandara chamar os galegos que por ali passassem e os obrigara a saltar da janela do 1° andar para a rua, dando-lhes depois moedas de ouro, que não foram recebidas porque os galegos tinham fugido.

Lojas de antanho: Pastelaria Marques e Bazar Suisso [c. 1910]
Rua Garrett, 70-72
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Onde hoje o leitor encontra a Pastelaria Marques, em pleno Chiado, existia então a conhecidíssima Livraria Gomes, fornecedora de Suas Majestades e Altezas, que se orgulhava de receber, para o cavaco, um escol de políticos e literatos.

Pastelaria Marques, rescaldo de incêndio  [1966]
Rua Garrett, 70-72; à dir., com o toldo escuro vê-se a Casa Sabóia, n.°' 66-68
Judah Benoliel, in A.M.L.

O Bazar Suisso encerrou por volta de 1910. Seguiu-se-lhe o florista J. Peixinho, Lda., com o seu Jardim de Lisboa, provindo da Rua do Carmo, n.° 49. Nos tempos modernos, nos históricos n.°' 66 e 68, entrou a Casa Sabóia, com lindos e vistosos artigos de novidade, um autêntico escrínio de beleza, que a mulher atenta e que gosta de bem vestir, não deixa de apreciar. A propriedade, da firma Matos, Correia & C.ª, estabeleceu-se por escritura de 19 de Dezembro de 1931.

Casa Saboia  [1971]
Rua Garrett, 66-68
Joaquim Pereira Silvestre, in A.M.L.

Bibliografia
COSTA, Sousa, Coração de Mulher, 1955.
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 168, 1987.

Friday, 6 December 2019

Lojas de antanho: Jardim de Lisboa

Foi em fins de Dezembro  — noticiava, em 1911, a Ilustração Portuguesa — que o sr. J. Peixinho, bem conhecido e antigo florista da Rua do Carmo, [49], inaugurou o Jardim de Lisboa, na Rua Garrett, [66]-68, um esplendido estabelecimento de completa novidade e mais um atrativo da nossa capital.

Para ser mundano, para ser galante, para ser cavaqueador, para ser político, romântico, ou estróina — o Chiado tem as suas livrarias, as suas casas de novidades, as suas tabacarias,os seus cafés, as lojas de moda, os doceiros e os floristas. [Araújo, 1943]

Jardim de Lisboa de J. Peixinho & Filhos, Floristas [ant. 1911]
Rua do Carmo, 49
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Em perfumes, sedas, veludos, rendas e flores, foi sempre o Chiado que deu mostras do melhor gosto e da mais fina escolha. Os produtos fabricados, com requintes de arte, e as substâncias da natureza, tratadas com todo o carinho, pelos mais sabedores, mereciam a primeira fila das tentações da mulher. Os perfumes da Bénard e do Robert (da Rua Nova da Trindade), tinham prestígio e chegavam longe. Distinguindo a floricultura artificial, saída das mãos de artistas, há que exaltar o português Constantino José Marques, que obteve em Paris o título de «Rei dos Floristas». As suas prodigiosas flores, tão finamente imitadas do natural, vinham de longe para decorar as principais montras do Chiado. Tornaram-se moda as «flores constantinas».

Jardim de Lisboa de J. Peixinho & Filhos, Floristas [post. 1911]
Rua Garrett, 66-68; à esq. nota-se a montra da Pastelaria Marques
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 252, 1987.

Wednesday, 4 December 2019

Profissões de antanho: o vendedor d'ostras

O pregão do homem das ostras é curto, sacudido, rijo como a concha do molusco. Vê-se que o vendedor d'ostras não pode perder tempo, por causa do que lhe gasta o abril-as:

 

— Quem quer ostras?

— Ostras, ostras!


Todas as tardes os homens das ostras as vinham vender, apregoando e cirandando por aí, quase sempre indivíduos de meia-idade para quem aquele fraco negócio ia dando para as necessidades da vida, então sem reforma. Normalmente eram homens que tinham sido do mar e junto deste, pela Margem Sul do Tejo, por Aldeia Galega (hoje Montijo) e proximidades, esgravatariam nos bancos de ostras os preciosos moluscos que vinham vender pelas ruas e aos restaurantes onde se cozinhavam bons pitéus.

Vendedores d'ostras [191-?]
Rua da Misericórdia, antiga de S. Roque
Alberto C. Lima, in A.M.L.

No estrangeiro, sobretudo em Inglaterra e França, as nossas ostras foram sempre muito apreciadas, e neste último pais até apresentadas nos restaurantes com o aliciante letreiro: huítres portugaises.
A avolumar a fama das ostras portuguesas dizia-se que um navio que as levava para França naufragara perto da foz do Loire, e os moluscos, libertados dos caixotes, ter-se-iam fixado nos bancos daquele rio, cerca de Nantes, onde agora as exploram em viveiros, mas sempre com o cartaz de huítres portugaises!
É de lamentar que a poluição das águas do Tejo tenha acabado com as nossas ostras, o que não só fez desaparecer os vendedores que, melodiosamente embora em baixo tom, as apregoavam, como acabou um excelente petisco popular.

— Quem quer ostras?

— Ostras, ostras!

 

Marchand d'huitres [c. 1914]
Lisbonne [Baixa/Chiado?]
Charles Chusseau-Flaviens, in G.E.H.

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, p. 290, 1986.

Sunday, 1 December 2019

Algés, praia dos pescadores

Se queres dar, leitor, o mais bello dos passeios permittidos ao habitante de Lisboa — sugere Ramalho Ortigão — , faze o que eu hontem fiz.
Levanta-te ás 5 horas da manhã, n'um domingo, veste-te à luz do candieiro, porque em Setembro ainda não é bem dia a essa hora, pega na tua bengala e no teu binoculo e vae à ponte dos vapores ao Caes do Sodré. Tomamos um bilhete de ida e volta no vapor de Cascaes por dez tostöes. Ainda é cédo, o vapor não parte senão ás 7 horas. 

Algés, praia dos pescadores [entre 1885 e 1893]
De Pedrouços até Cascaes seguem-se quasi ininterrompidamente as differentes estações dos banhos. vem primeiro Algés, com a sua ponte e os Seus dois palacios. [Ortigão, 1876]
Francesco Rocchini, in A.M.L.

Entramos no café Grego e fazemo-nos servir uma chavena de leite ou chá preto.
Os passageiros veem chegando em multidão ao caes. A ponte dos vapores enche-se de alegres e frescas toilettes de manhã. Lisboa madruga para fugir á calma e á semsaboria de um domingo de verão dentro da cidade. Enchem-se os vapores de Cacilhas e de Belem.
Embarcamos, accendemos um charuto, subimos à ponte do vapor. Magnifico espectaculo!
Diante de nés estende-seem toda a sua magestade, como um pequeno Mediterraneo, o bello Tejo, que scintilla Sob a bruma aquatica como um peito de aço coberto por um véu de gaze, batido pelo largo Sol. 
_________________
Bibliografia
Ortigão, Ramalho, As Praias de Portugal - Guia do banhista e do viajante, 1876.

Friday, 29 November 2019

Rua de São Domingos, 60

A Rua de São Domingos que nos dias de hoje é parte das freguesias da Lapa, Prazeres e Santos-O-Velho, foi fixada na memória da Lisboa setecentista já que a encontramos referida nas plantas executadas após a remodelação paroquial de 1770, com parte da artéria pertença da freguesia de Santos e parte da Lapa. [cm-lisboa.pt]

Rua de São Domingo [190-]
Esquina com a Rua das Praças [Centro Social Do Sagrado Coração De Jesus]
O eléctrico exibe a bandeira com destino ao «Largo das Duas Egrejas», denominação do Largo do Chiado até 1925.
Paulo Guedes, in AML

Wednesday, 27 November 2019

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26

Palacete urbano da 2ª metade do séc. XIX, riscado pelo arq.º Victor Vaz, representando uma arquitectura residencial ecléctica, integra-se na tipologia do palacete urbano que se generalizou na Lisboa das Avenidas Novas e dos bairros aristocráticos do final do séc. XIX e 1º quartel do séc. XX. Inicialmente utilizado para habitação, veio à posse do Estado para instalação de serviços no final do séc. XX. Apresenta planta composta em L, volumetricamente traduzida por dois paralelepípedos. O alçado principal surge delimitado por cunhais de cantaria e estruturado em dois níveis.O piso térreo é rasgado pelo portal e seis janelas de peito rectangulares,enquanto que o piso superior surge rasgado por seis óculos com emolduramento calcário, destacando-se, no corpo central, uma janela de sacada com balaustrada de cantaria. 

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26 [1957]
Judah Benoliel, in A.M.L.

O edifício é rematado por platibanda interrompida a eixo por frontão neo-barroco, ornamentado com volutas e enrolamentos. Uma escadaria de dois lanços rectos convergentes em patamar, com guardas de ferro fundido ritmadas por plintos de cantaria encimados por figuras, evidencia-se no alçado posterior do corpo principal. No interior destaca-se o tratamento decorativo em estuque nos tectos e sobreportas dos salões, assim como as pinturas. [cm-lisboa.pt]

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26 [post. 1933]
Alçado posterior e jardim.
Estúdio Mário Novais in F.C.G.

Sunday, 24 November 2019

Madragoa, o velho Mocambo do século XVIII

De que deriva o nome de Madragoa? — questiona Norberto de Araújo.

Tem sido isto um inocente problema e talvez continue a sê-lo, assediado por explicações mais ou menos fantasistas. O verosímil — e fiquemo-nos, Dilecto, nesta verdade — é que «Madragoa» é vocábulo de corruptela.


Havia aqui perto o Convento das freiras bernardas — já to disse atrás — que, primeiro, justificou o nome à actual Rua das Madres. Mas, paralela, pelo norte, corria a Rua das Madres, de Goa, pois assim se chamava no século XVI a artéria que corre superior, em 1802 oficialmente Rua da Madragoa, e em 1859, como hoje, Rua Vicente Borga. No extremo desta Rua, à esquina das Trinas, existia um hospício de senhoras da Índia, as tais «madres de Goa», e por corruptela fonética — Madragoa. E aí tens uma explicação.

Rua das Madres [1940]
Ao fundo corre a Travessa do Pasteleiro
Eduardo Portugal, in AML

Madragoa!
Nome ressonante e plebeu: pescadores, ovarinas, homens da estiva; mulheres de Estarreja e subúrbios, donas de trabalho na prancha do carvão e nas areias da lota, de peitos altos, saias de cinta dobrada nos corpos durazios a contrastar nas cinturinhas ágeis das raparigas da Murtosa; cordões de ouro, bailaricos de S. João, mareantes de olhar nostálgico, traficantes do peixe de olhar vivaço; tavernas onde se fala do mar e das fainas ribeirinhas.
Ao cabo, uma colónia aveirense trespassada à capital — e que se arreigou, no único bairro de Lisboa que não tem Lisboa por fundo dinástico.

❞Ó velha Madragoa,
Não tens um só painel
Um arco ou um brazão
Só tens ó Madragoa
Nos lábios doce mel
No peito um coração.

Rua Vicente Borga [1945]
Dístico de 1859 originado por corruptela de Vicente Borchers — filho de um negociante
alemão, um tal Conrado Bicker, natural de Hamburgo —, que morou na antiga Rua 

da Madragoa após ter casado com Maria Clara Sousa Peres, no séc. XVIII, e acabou 
por substituir o antigo topónimo.
Eduardo Portugal, in AML

Em todo êste pitoresco, desligado da história — um pouco de miséria, ao lado da mediania suficiente, que com pouco se contenta para ser rica,
A Madragoa normal é buliçosa, rumorejante, mas incaracterística ao primeiro contacto: há que adivinhá-la; há que surpreendê-la aos domingos à noite ou nas quadras populares festivas.
A sua «côr local» existe, mas oculta-se sob um esfuminho de trivialidade.
Rigorosamente a Madragoa é um reduzido xadrez irregular — recorda-nos Norberto de Araújo — que se condensa numa área que corresponde à décima parte do Bairro Alto e da Alfama, às dimensões da Mouraria popular.

Travessa do Pasteleiro à Esperança [1950]
Desconhece-se a origem do topónimo, mas sabe-se que é muito antiga, pois, vem já 

citado no Livro IV de Óbitos da Freguesia de Santos-o-Velho. Presume-se que derive 
do facto de ali ter vivido um conhecido pasteleiro.
Eduardo Portugal, in AML

No sentido oriente-poente é cortada pela Ruas do Machadinho, de Vicente Borga, das Madres, limitadas estas pela Esperança, avenida bairrista e independente da característica castiça, e de norte a sul pelas Travessas do Pasteleiro, das Inglesinhas (que morre na Rua das Madres), das Izabéis, (um trôço apenas)  e pela Calçada do Castelo Picão, a artéria empinada e representativa.

❞ Uma saudade do mar, tem
Seu monumento em Lisboa
Velho bairro popular
Sombrio e vulgar
Que é a Madragoa.
E reza a história que foi, lá
Numa noite de natal
Que veio a luz o primeiro
Herói marinheiro
Que honrou Portugal.

Rua da Esperança [c. 1900]
O nº 46 corresponderá à loja de alfaite que ali se vê à esquerda. Segue-se a Tv. do Pasteleiro e, ao fundo, a Avenida Dom Carlos I. Boa parte destes prédios ainda lá estão.
Fotógrafo não identificado, in AML

Como vais vendo, Dilecto, a Madragoa, o velho Mocambo do século XVIII, teve o seu ambiente religioso, como tôda a Lisboa afinal, mas sem grandeza, sem beleza, e de tal modo modesto — à parte o casarão das Bernardas- — que de todo se perdeu.
O que por aqui impressiona é o rapazio à sôlta, a multiplicidade de tavernas, a vida feita quási à soleira das portas.
Esta gente, êste sítio, devem ter e têm, a sua alegria, mas não transparece, não sorri. É um formigueiro de vidas, em cujo quadro falta o fundo ancestral, robusto, «água-forte» da Alfama.
____________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 22, 1938.

Friday, 22 November 2019

Rua dos Fanqueiros, 226-232

Em 5 de Novembro de 1760, foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste diploma D. José estabelece a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio. Esta rua denominava-se Rua Nova da Princesa e nela ficaram arruados os «Mercadores de Lançaria ou Fancaria, destinando-se os sobejos della se os houver, às lojas de quinquilharia».

 
 
 
 
Rua dos Fanqueiros, 226-232 [1932]
«Armazéns Azevedo», perspectiva tirada da Rua da Assunção
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
(clicar para ampliar)





Wednesday, 20 November 2019

Mosteiro de S. Bento (da Saúde ou dos Negros)

Da actual Estrêla  — recorda Norberto de Araújo — até ao fundo do que é S. Bento havia, em encosta, no século de quinhentos duas herdades ou grandes quintas contíguas: a de cima, propriedade de Luiz Henriques; a de baixo, de Antão Martines. 


Os frades benedictinos de Tibães já se tinham instalado em 1573 na quinta do Henriques, onde construíram um pequeno Convento, chamado mais tarde de Nossa Senhora da Estrêla ou da Estrelinha.
Como êste fôsse pequeno, os monges deitaram os olhos para as terras que desfrutavam só com os olhos, e suas não eram, as do Martines, e compraram-nas, por tal sinal por macuta e meia (1596). A essa quinta chamava o povo a Quinta (ou Casa) da Saúde, porque em 1569 e 1570, por ocasião de uma peste, aqui se instalara uma espécie de hospital de pestilentos.
É esta a razão por que ao grande Convento novo se chamou de S. Bento da Saúde¹

O antigo Mosteiro de S. Bento (da Saude ou dos Negros) já depois de convertido em Palácio das Cortes nos meados do século XIX [c. 1854]
Nota-se a Calçada das francesinhas (principio da actual Calçada da Estrela) entre as hortas dos frades (de S. Bento) e a das freiras (da Esperança), esta a sul. vê-se também o Mosteiro das Francesinhas à esquina do Caminho Novo ((hoje Rua de João das Regras).
Aguarela de Jan Lewicki,
in FBAUP

A origem do Palácio de S. Bento remonta a 1598, ano em que se iniciou a construção do convento beneditino na Quinta da Saúde. O arquitecto régio Baltasar Álvares foi o autor do projecto, continuado depois da sua morte por Frei Pedro Quaresma e por Frei João Turriano, e nunca concluído na totalidade dada a magnificência a que aspirava. Até 1833 o edifício pertenceu aos Frades Negros de Tibães e era conhecido por Convento de S. Bento da Saúde, sendo sua padroeira Nossa Senhora da Saúde cuja imagem existia no altar-mor da igreja conventual. 
O mosteiro foi submetido ao longo da sua história a constantes alterações arquitectónicas e acrescentos, na sequência de grandes incêndios e do terramoto de 1755, época em que ainda não tinham terminado as respectivas obras de acordo com o projecto inicial e nem estava concluída a capela–mor. Outras modificações resultaram de adaptações a novos gostos e novos estilos arquitectónicos e decorativos. 
O edifício do mosteiro, por ser demasiado vasto e em grande parte desocupado, teve a partir de então utilizações diversas tais como Arquivo da Torre do Tombo, a Patriarcal, hospedaria de bispos, “prisão”, Academia Militar, armazém dos despojos militares franceses e sepultura de muitos mortos, como o embaixador de Espanha. 

Perspectiva do Mosteiro de São Bento da Saúde (pormenor), cópia anónima do projecto de Baltasar Álvares [c. 1730-1750]
in FBAUP

No edifício restam, para além da matriz arquitectónica edificada no séc. XVII, o Refeitório dos Frades, com o pavimento original de mármore branco e negro e painéis de azulejos de c. 1770 com episódios da Vida de S. Bento, a igreja conventual com pavimento de mármore branco e rosa e actualmente Átrio do Palácio, o claustro ainda que reduzido e alterado na década de [19]30. A inacabada cripta do Marquês de Castel-Rodrigo situada sob a capela-mor da igreja sabe-se que ainda existe, embora permaneça por localizar.

N.B. Com o decreto real de D. Pedro IV, datado de Setembro de 1833, as duas Câmaras – Pares e Deputados – foram instaladas no edifício do Mosteiro de S. Bento que passou a designar-se Palácio das Cortes. O seu recheio foi nessa altura disperso e encontra-se actualmente em outras igrejas de Lisboa e em museus. Depois de um incêndio em 1895 ter destruído por completo o edifício, foi decidido reedificá-lo de raiz, com o objectivo de prosseguir a sua missão legislativa.

Palácio de S. Bento depois de convertido em Palácio das Cortes [1858]
Rua de S. Bento
Era um dos mais imponentes edifícios de Lisboa, apesar de nunca concluído, um mosteiro de grande prestígio a cujas cerimónias acorriam a corte e as grandes famílias da nobreza. A sua decadência tem início a partir do governo de Marquês de Pombal, e acentuada pelas Invasões Francesas e pelas Guerras Liberais culmina em 1834 ao serem extintas as ordens religiosas e as suas propriedades integradas nos bens do Estado.
Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 32-34, 1939.
SANTOS, Maria José Silva, O parlamento de Portugal, p. 75, 2002.
parlamento.pt.

Sunday, 17 November 2019

Profissões de antanho: o vendedor de barquilhos

O barquilho, uma espécie de bolo de massa tostada, feito de farinha não fermentada, a que se adiciona açúcar e mel, era e é — ainda hoje — utilizado na venda de sorvetes. Este petisco é a suprema palavra de pastelaria para o rapazio.


À porta das escolas e dos liceus e por aí, por toda a cidade, onde quer que encontrassem poiso, era certa e sabida a presença dos galegos dos barquilhos com grandes latões pintados de vermelho, em cuja tampa rodava a roleta da sorte. Talvez fosse, para a freguesia miúda, a primeira sensação de ganhar ao jogo!

Profissões de antanho: o vendedor de barquilhos [c. 1930]
Praia de Algés[?]
A venda de barquilhos feita habitualmente nas praias.
Ferreira da Cunha. in A.M.L.


A verdade é que a rapaziada daquele tempo, em troca de uma moeda, fazia rodar por três vezes a roleta, e da soma dos três números que ela marcava, o vendedor entregava os barquilhos correspondentes.

Profissões de antanho: o vendedor de barquilhos [c. 1930]
Praia de Algés[?]

«O rapaz dá cinco reis, move a roda que faz girar uma pequena esfera; esta vai cair em uma cavidade, e segundo o número que ela tem pintado, ganha outros tantos barquilhos, que ele bem depressa faz chegar ao estômago.»[C.P., 1870]
Ferreira da Cunha. in A.M.L.

Na sequência do jogo da roleta por vezes havia discussão: o rapazito habilidoso a tentar intrujar o vendedor, e este, no jogo do gato e do rato, a defender-se. Bastava inclinar de certa maneira o latão para que a palheta que marcava os números parasse no sitio que mais lhe convinha. E, não raro, havia zaragata!...

Profissões de antanho: o vendedor de barquilhos [p-. 1902]
«O homem dos barquilhos para em qualquer lugar mais concorrido, e poe diante de si uma caixa, que tem na tampa uma espécie de roda da fortuna.»[C.P., 1870]
Ferreira da Cunha. in A.M.L.

Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974, p. 212, 1986.
Commércio do Porto [C.P.] 13 de Janeiro de 1870:

Friday, 15 November 2019

Rua do Telhal

Era já sabido de nossos paes, que, em sendo terça-feira, á tarde, trepavam, conforme podiam, pela rua do Telhal acima, muitos e bons sucios, contentes de estarem neste mundo, todos de barriga cheia com a alegria a descançar em cima d'ella como um pachá no coxim. [Os Dois mundos, 1879]


Este é um topónimo cuja fixação na memória de Lisboa se desconhece embora já apareça referido nos registos paroquiais de 1755 da Freguesia de S. José bem como nas plantas paroquiais executadas em 1770 e depois, em 1857, no «Atlas da Carta Topográfica de Lisboa» de Filipe Folque.

 

Rua do Telhal [1907]
Cruzamento com a Rua de São José
Machado & Souza


Rua do Telhal [1907]
Junto ao nº. 31 e descendo no sentido da Rua das Pretas
Machado & Souza



Por documentos camarários de, respectivamente, 1874 e 1875, sabe-se que o arruamento foi alargado e macadamizado. [cm-lisboa.pt]

Rua do Telhal [1953]
Demolições e obras de pavimentação
Judah Benoliel, in A.M.L.

Wednesday, 13 November 2019

Central Tejo

Situada entre as Avenidas da Índia e de Brasília, a Central Tejo foi inaugurada em 1909. A sua junção com a Central da Boavista permitiu fornecer electricidade a Lisboa e a toda a faixa costeira até ao Estoril. A partir de 1911 passou a ser designada como Central Tejo à Junqueira.
Edifício concluído em 1919, com projecto dos engenheiros Veillard e Touzet. A actual Central Tejo localizou-se junto a uma fábrica de electricidade, de pequenas dimensões, ali instalada desde 1908. 

Central Tejo, panorâmica da fachada Sul vista do Tejo [post. 1939]
Cais de Belém
Na imagem, o navio inglês Switzerland, ex Monassir, construído em 1920 pela firma Caledon Steamship Building & Engineering Co..
Kurt Pinto, in A.M.L.

Os edifícios destacam-se pela sua arquitectura, quer pela forma e volumetria, quer pela utilização plástica dos materiais, como o tijolo vermelho, o ferro e o vidro, relevando uma indiscutível modernidade e grande impacto urbano. Do conjunto destacam-se os grandes janelões de vidro, que conferem uma marca de leveza aos edifícios, sendo simultaneamente importantes do ponto de vista funcional. 

Central Tejo [1940]
Avenida da Índia e Avenida de Brasília depois das obras
Eduardo Portugal, in A.M.L.
Central Tejo [1940]
Rio Tejo
 
Kurt Pinto, in A.M.L.

A Central Tejo insere-se nos modelos técnicos das centrais termo-eléctricas. Tinha como missão fornecer energia eléctrica e gás de iluminação pública à cidade de Lisboa, desempenhando um papel fundamental na produção eléctrica e sua divulgação, até ao surgimento das centrais hidroeléctricas. Laborou de 1909 até cerca de 1975, ininterruptamente até cerca de 1954. 

Central Tejo [1916]
Avenida de Brasília
A Guarda Nacional Republicana junto à Central Tejo durante a greve dos eléctricos
Joshua Benoliel, in A.M.L.

O equipamento tecnológico foi sendo alterado de acordo com exigências técnicas e de aumento de produtividade. No início da sua laboração contava com dois geradores e seis caldeiras de baixa pressão. Actualmente, pode visionar-se, no interior do edifício, caldeiras de alta pressão da firma Babcok & Wilcox e grupos turbo-alternadores tipo Parsons. Pertence à EDP desde 1976 (aquando da formação da empresa), constituindo um edifício para fins museológicos, denominado de Museu da Electricidade.
Classificado desde 1986 como I.I.P.-Imóvel de Interesse Público.

Fotografia aérea sobre a zona de Belém, vendo-se a Central Tejo [post. 1919]
Avenida de Brasília; Rio Tejo
 
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Bibliografia
igespar.pt; cm-lisboa.pt

Sunday, 10 November 2019

Cinema Restauradores

Localizado nos restauradores  — por baixo do Éden — em pleno coração de Lisboa esta sala de cinema iniciou a sua actividade em 28 de Outubro de 1911. Inicialmente tinha o nome de «Salão Chantecler» ou «Galo». Os seus proprietários, Júlio Augusto Estevens e António Moreira Gaspar, acabariam mais tarde por mudar o nome da sala para o tornar mais apelativo, passando deste modo a ser designado como Cinema Restauradores. 
O Cinema Restauradores tinha capacidade para 499 espectadores. Até 1927 os filmes mudos que lá passaram tiveram grande sucesso devido essencialmente a algo que ficou conhecido como fono-cinema e mais popularmente como fitas faladas.

Cinema Restauradores [1966]
Praça dos Restauradores
Sessão Dupla: A Cortesã do Oriente (1953) e Os 3 Magníficos (1961)
Garcia Nunes, in A.M.L.

A 20 de Dezembro de 1935, ao mesmo tempo que são levadas a cabo obras de remodelação e modernização, assume o nome de Restauradores e assim ficaria conhecido nos próximos 30 anos.
Na década de 60 a sua popularidade tinha diminuído consideravelmente e acabaria por encerrar em 1968, dando lugar a um estabelecimento pertencente à Companhia União Fabril. Actualmente o edifício alberga um hotel.

Praça dos Restauradores [1914]
Ao lado esq. da entrada  para a antiga Topografia «Anuário-Comercial» observa-se o velho Animatographo Chantecler, com o famoso Galo na frontaria, antecessor do Cinema Restauradores (clicar para ampliar; Cinema ;Éden Teatro.
Joshua Benoliel, in A.M.L.
  
Pela passagem entre o Éden e o Palácio Foz — recorda o ilustre Norberto de Araújo — se faz entrada, hoje [1939], para o Anuário Comercial, importante estabelecimento gráfico, desde 1914 propriedade de uma sociedade anónima. O «Anuário», fundado por Carlos Augusto da Silva Campos, começou a publicar-se em 1880 sob o nome de «Almanaque Comercial de Lisboa» título que prevaleceu até 1887. Em 1893 era «Anuário-Almanaque Comercial», propriedade de Manuel José da Silva, tendo por capitalista o Conde de Bumay.
Neste Pátio esteve, há anos, instalada a esquadra da policia, que depois passou à Rua de Santo Antão e hoje está na Praça da Alegria.

 Tipografia do anuário Comercial [post. 1911]
  Praça dos Restauradores
Ao lado esq. vê-se a entrada  para o velhinho Animatographo Chantecler vulgo Galo.
Em cartaz, o filme  de 1911, «Sangue siciliano»
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.
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Bibliografia
RIBEIRO, M. Félix, Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa 1896-1939, 1978- 
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2017.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 18, 1939.
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