Friday, 6 December 2019

Lojas de antanho: Jardim de Lisboa

Foi em fins de Dezembro  — noticiava, em 1911, a Ilustração Portuguesa — que o sr. J. Peixinho, bem conhecido e antigo florista da Rua do Carmo, [49], inaugurou o Jardim de Lisboa, na Rua Garrett, [66]-68, um esplendido estabelecimento de completa novidade e mais um atrativo da nossa capital.

Para ser mundano, para ser galante, para ser cavaqueador, para ser político, romântico, ou estróina — o Chiado tem as suas livrarias, as suas casas de novidades, as suas tabacarias,os seus cafés, as lojas de moda, os doceiros e os floristas. [Araújo, 1943]

Jardim de Lisboa de J. Peixinho & Filhos, Floristas [ant. 1911]
Rua do Carmo, 49
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Em perfumes, sedas, veludos, rendas e flores, foi sempre o Chiado que deu mostras do melhor gosto e da mais fina escolha. Os produtos fabricados, com requintes de arte, e as substâncias da natureza, tratadas com todo o carinho, pelos mais sabedores, mereciam a primeira fila das tentações da mulher. Os perfumes da Bénard e do Robert (da Rua Nova da Trindade), tinham prestígio e chegavam longe. Distinguindo a floricultura artificial, saída das mãos de artistas, há que exaltar o português Constantino José Marques, que obteve em Paris o título de «Rei dos Floristas». As suas prodigiosas flores, tão finamente imitadas do natural, vinham de longe para decorar as principais montras do Chiado. Tornaram-se moda as «flores constantinas».

Jardim de Lisboa de J. Peixinho & Filhos, Floristas [post. 1911]
Rua Garrett, 66-68; à esq. nota-se a montra da Pastelaria Marques
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 252, 1987.

Wednesday, 4 December 2019

Profissões de antanho: o vendedor d'ostras

O pregão do homem das ostras é curto, sacudido, rijo como a concha do molusco. Vê-se que o vendedor d'ostras não pode perder tempo, por causa do que lhe gasta o abril-as:

 

— Quem quer ostras?

— Ostras, ostras!


Todas as tardes os homens das ostras as vinham vender, apregoando e cirandando por aí, quase sempre indivíduos de meia-idade para quem aquele fraco negócio ia dando para as necessidades da vida, então sem reforma. Normalmente eram homens que tinham sido do mar e junto deste, pela Margem Sul do Tejo, por Aldeia Galega (hoje Montijo) e proximidades, esgravatariam nos bancos de ostras os preciosos moluscos que vinham vender pelas ruas e aos restaurantes onde se cozinhavam bons pitéus.

Vendedores d'ostras [191-?]
Rua da Misericórdia, antiga de S. Roque
Alberto C. Lima, in A.M.L.

No estrangeiro, sobretudo em Inglaterra e França, as nossas ostras foram sempre muito apreciadas, e neste último pais até apresentadas nos restaurantes com o aliciante letreiro: huítres portugaises.
A avolumar a fama das ostras portuguesas dizia-se que um navio que as levava para França naufragara perto da foz do Loire, e os moluscos, libertados dos caixotes, ter-se-iam fixado nos bancos daquele rio, cerca de Nantes, onde agora as exploram em viveiros, mas sempre com o cartaz de huítres portugaises!
É de lamentar que a poluição das águas do Tejo tenha acabado com as nossas ostras, o que não só fez desaparecer os vendedores que, melodiosamente embora em baixo tom, as apregoavam, como acabou um excelente petisco popular.

— Quem quer ostras?

— Ostras, ostras!

 

Marchand d'huitres [c. 1914]
Lisbonne [Baixa/Chiado?]
Charles Chusseau-Flaviens, in G.E.H.

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, p. 290, 1986.

Sunday, 1 December 2019

Algés, praia dos pescadores

Se queres dar, leitor, o mais bello dos passeios permittidos ao habitante de Lisboa — sugere Ramalho Ortigão — , faze o que eu hontem fiz.
Levanta-te ás 5 horas da manhã, n'um domingo, veste-te à luz do candieiro, porque em Setembro ainda não é bem dia a essa hora, pega na tua bengala e no teu binoculo e vae à ponte dos vapores ao Caes do Sodré. Tomamos um bilhete de ida e volta no vapor de Cascaes por dez tostöes. Ainda é cédo, o vapor não parte senão ás 7 horas. 

Algés, praia dos pescadores [entre 1885 e 1893]
De Pedrouços até Cascaes seguem-se quasi ininterrompidamente as differentes estações dos banhos. vem primeiro Algés, com a sua ponte e os Seus dois palacios. [Ortigão, 1876]
Francesco Rocchini, in A.M.L.

Entramos no café Grego e fazemo-nos servir uma chavena de leite ou chá preto.
Os passageiros veem chegando em multidão ao caes. A ponte dos vapores enche-se de alegres e frescas toilettes de manhã. Lisboa madruga para fugir á calma e á semsaboria de um domingo de verão dentro da cidade. Enchem-se os vapores de Cacilhas e de Belem.
Embarcamos, accendemos um charuto, subimos à ponte do vapor. Magnifico espectaculo!
Diante de nés estende-seem toda a sua magestade, como um pequeno Mediterraneo, o bello Tejo, que scintilla Sob a bruma aquatica como um peito de aço coberto por um véu de gaze, batido pelo largo Sol. 
_________________
Bibliografia
Ortigão, Ramalho, As Praias de Portugal - Guia do banhista e do viajante, 1876.

Friday, 29 November 2019

Rua de São Domingos, 60

A Rua de São Domingos que nos dias de hoje é parte das freguesias da Lapa, Prazeres e Santos-O-Velho, foi fixada na memória da Lisboa setecentista já que a encontramos referida nas plantas executadas após a remodelação paroquial de 1770, com parte da artéria pertença da freguesia de Santos e parte da Lapa. [cm-lisboa.pt]

Rua de São Domingo [190-]
Esquina com a Rua das Praças [Centro Social Do Sagrado Coração De Jesus]
O eléctrico exibe a bandeira com destino ao «Largo das Duas Egrejas», denominação do Largo do Chiado até 1925.
Paulo Guedes, in AML

Wednesday, 27 November 2019

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26

Palacete urbano da 2ª metade do séc. XIX, riscado pelo arq.º Victor Vaz, representando uma arquitectura residencial ecléctica, integra-se na tipologia do palacete urbano que se generalizou na Lisboa das Avenidas Novas e dos bairros aristocráticos do final do séc. XIX e 1º quartel do séc. XX. Inicialmente utilizado para habitação, veio à posse do Estado para instalação de serviços no final do séc. XX. Apresenta planta composta em L, volumetricamente traduzida por dois paralelepípedos. O alçado principal surge delimitado por cunhais de cantaria e estruturado em dois níveis.O piso térreo é rasgado pelo portal e seis janelas de peito rectangulares,enquanto que o piso superior surge rasgado por seis óculos com emolduramento calcário, destacando-se, no corpo central, uma janela de sacada com balaustrada de cantaria. 

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26 [1957]
Judah Benoliel, in A.M.L.

O edifício é rematado por platibanda interrompida a eixo por frontão neo-barroco, ornamentado com volutas e enrolamentos. Uma escadaria de dois lanços rectos convergentes em patamar, com guardas de ferro fundido ritmadas por plintos de cantaria encimados por figuras, evidencia-se no alçado posterior do corpo principal. No interior destaca-se o tratamento decorativo em estuque nos tectos e sobreportas dos salões, assim como as pinturas. [cm-lisboa.pt]

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26 [post. 1933]
Alçado posterior e jardim.
Estúdio Mário Novais in F.C.G.

Sunday, 24 November 2019

Madragoa, o velho Mocambo do século XVIII

De que deriva o nome de Madragoa? — questiona Norberto de Araújo.

Tem sido isto um inocente problema e talvez continue a sê-lo, assediado por explicações mais ou menos fantasistas. O verosímil — e fiquemo-nos, Dilecto, nesta verdade — é que «Madragoa» é vocábulo de corruptela.


Havia aqui perto o Convento das freiras bernardas — já to disse atrás — que, primeiro, justificou o nome à actual Rua das Madres. Mas, paralela, pelo norte, corria a Rua das Madres, de Goa, pois assim se chamava no século XVI a artéria que corre superior, em 1802 oficialmente Rua da Madragoa, e em 1859, como hoje, Rua Vicente Borga. No extremo desta Rua, à esquina das Trinas, existia um hospício de senhoras da Índia, as tais «madres de Goa», e por corruptela fonética — Madragoa. E aí tens uma explicação.

Rua das Madres [1940]
Ao fundo corre a Travessa do Pasteleiro
Eduardo Portugal, in AML

Madragoa!
Nome ressonante e plebeu: pescadores, ovarinas, homens da estiva; mulheres de Estarreja e subúrbios, donas de trabalho na prancha do carvão e nas areias da lota, de peitos altos, saias de cinta dobrada nos corpos durazios a contrastar nas cinturinhas ágeis das raparigas da Murtosa; cordões de ouro, bailaricos de S. João, mareantes de olhar nostálgico, traficantes do peixe de olhar vivaço; tavernas onde se fala do mar e das fainas ribeirinhas.
Ao cabo, uma colónia aveirense trespassada à capital — e que se arreigou, no único bairro de Lisboa que não tem Lisboa por fundo dinástico.

❞Ó velha Madragoa,
Não tens um só painel
Um arco ou um brazão
Só tens ó Madragoa
Nos lábios doce mel
No peito um coração.

Rua Vicente Borga [1945]
Dístico de 1859 originado por corruptela de Vicente Borchers — filho de um negociante
alemão, um tal Conrado Bicker, natural de Hamburgo —, que morou na antiga Rua 

da Madragoa após ter casado com Maria Clara Sousa Peres, no séc. XVIII, e acabou 
por substituir o antigo topónimo.
Eduardo Portugal, in AML

Em todo êste pitoresco, desligado da história — um pouco de miséria, ao lado da mediania suficiente, que com pouco se contenta para ser rica,
A Madragoa normal é buliçosa, rumorejante, mas incaracterística ao primeiro contacto: há que adivinhá-la; há que surpreendê-la aos domingos à noite ou nas quadras populares festivas.
A sua «côr local» existe, mas oculta-se sob um esfuminho de trivialidade.
Rigorosamente a Madragoa é um reduzido xadrez irregular — recorda-nos Norberto de Araújo — que se condensa numa área que corresponde à décima parte do Bairro Alto e da Alfama, às dimensões da Mouraria popular.

Travessa do Pasteleiro à Esperança [1950]
Desconhece-se a origem do topónimo, mas sabe-se que é muito antiga, pois, vem já 

citado no Livro IV de Óbitos da Freguesia de Santos-o-Velho. Presume-se que derive 
do facto de ali ter vivido um conhecido pasteleiro.
Eduardo Portugal, in AML

No sentido oriente-poente é cortada pela Ruas do Machadinho, de Vicente Borga, das Madres, limitadas estas pela Esperança, avenida bairrista e independente da característica castiça, e de norte a sul pelas Travessas do Pasteleiro, das Inglesinhas (que morre na Rua das Madres), das Izabéis, (um trôço apenas)  e pela Calçada do Castelo Picão, a artéria empinada e representativa.

❞ Uma saudade do mar, tem
Seu monumento em Lisboa
Velho bairro popular
Sombrio e vulgar
Que é a Madragoa.
E reza a história que foi, lá
Numa noite de natal
Que veio a luz o primeiro
Herói marinheiro
Que honrou Portugal.

Rua da Esperança [c. 1900]
O nº 46 corresponderá à loja de alfaite que ali se vê à esquerda. Segue-se a Tv. do Pasteleiro e, ao fundo, a Avenida Dom Carlos I. Boa parte destes prédios ainda lá estão.
Fotógrafo não identificado, in AML

Como vais vendo, Dilecto, a Madragoa, o velho Mocambo do século XVIII, teve o seu ambiente religioso, como tôda a Lisboa afinal, mas sem grandeza, sem beleza, e de tal modo modesto — à parte o casarão das Bernardas- — que de todo se perdeu.
O que por aqui impressiona é o rapazio à sôlta, a multiplicidade de tavernas, a vida feita quási à soleira das portas.
Esta gente, êste sítio, devem ter e têm, a sua alegria, mas não transparece, não sorri. É um formigueiro de vidas, em cujo quadro falta o fundo ancestral, robusto, «água-forte» da Alfama.
____________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 22, 1938.

Friday, 22 November 2019

Rua dos Fanqueiros, 226-232

Em 5 de Novembro de 1760, foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste diploma D. José estabelece a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio. Esta rua denominava-se Rua Nova da Princesa e nela ficaram arruados os «Mercadores de Lançaria ou Fancaria, destinando-se os sobejos della se os houver, às lojas de quinquilharia».

 
 
 
 
Rua dos Fanqueiros, 226-232 [1932]
«Armazéns Azevedo», perspectiva tirada da Rua da Assunção
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
(clicar para ampliar)





Wednesday, 20 November 2019

Mosteiro de S. Bento (da Saúde ou dos Negros)

Da actual Estrêla  — recorda Norberto de Araújo — até ao fundo do que é S. Bento havia, em encosta, no século de quinhentos duas herdades ou grandes quintas contíguas: a de cima, propriedade de Luiz Henriques; a de baixo, de Antão Martines. 


Os frades benedictinos de Tibães já se tinham instalado em 1573 na quinta do Henriques, onde construíram um pequeno Convento, chamado mais tarde de Nossa Senhora da Estrêla ou da Estrelinha.
Como êste fôsse pequeno, os monges deitaram os olhos para as terras que desfrutavam só com os olhos, e suas não eram, as do Martines, e compraram-nas, por tal sinal por macuta e meia (1596). A essa quinta chamava o povo a Quinta (ou Casa) da Saúde, porque em 1569 e 1570, por ocasião de uma peste, aqui se instalara uma espécie de hospital de pestilentos.
É esta a razão por que ao grande Convento novo se chamou de S. Bento da Saúde¹

O antigo Mosteiro de S. Bento (da Saude ou dos Negros) já depois de convertido em Palácio das Cortes nos meados do século XIX [c. 1854]
Nota-se a Calçada das francesinhas (principio da actual Calçada da Estrela) entre as hortas dos frades (de S. Bento) e a das freiras (da Esperança), esta a sul. vê-se também o Mosteiro das Francesinhas à esquina do Caminho Novo ((hoje Rua de João das Regras).
Aguarela de Jan Lewicki,
in FBAUP

A origem do Palácio de S. Bento remonta a 1598, ano em que se iniciou a construção do convento beneditino na Quinta da Saúde. O arquitecto régio Baltasar Álvares foi o autor do projecto, continuado depois da sua morte por Frei Pedro Quaresma e por Frei João Turriano, e nunca concluído na totalidade dada a magnificência a que aspirava. Até 1833 o edifício pertenceu aos Frades Negros de Tibães e era conhecido por Convento de S. Bento da Saúde, sendo sua padroeira Nossa Senhora da Saúde cuja imagem existia no altar-mor da igreja conventual. 
O mosteiro foi submetido ao longo da sua história a constantes alterações arquitectónicas e acrescentos, na sequência de grandes incêndios e do terramoto de 1755, época em que ainda não tinham terminado as respectivas obras de acordo com o projecto inicial e nem estava concluída a capela–mor. Outras modificações resultaram de adaptações a novos gostos e novos estilos arquitectónicos e decorativos. 
O edifício do mosteiro, por ser demasiado vasto e em grande parte desocupado, teve a partir de então utilizações diversas tais como Arquivo da Torre do Tombo, a Patriarcal, hospedaria de bispos, “prisão”, Academia Militar, armazém dos despojos militares franceses e sepultura de muitos mortos, como o embaixador de Espanha. 

Perspectiva do Mosteiro de São Bento da Saúde (pormenor), cópia anónima do projecto de Baltasar Álvares [c. 1730-1750]
in FBAUP

No edifício restam, para além da matriz arquitectónica edificada no séc. XVII, o Refeitório dos Frades, com o pavimento original de mármore branco e negro e painéis de azulejos de c. 1770 com episódios da Vida de S. Bento, a igreja conventual com pavimento de mármore branco e rosa e actualmente Átrio do Palácio, o claustro ainda que reduzido e alterado na década de [19]30. A inacabada cripta do Marquês de Castel-Rodrigo situada sob a capela-mor da igreja sabe-se que ainda existe, embora permaneça por localizar.

N.B. Com o decreto real de D. Pedro IV, datado de Setembro de 1833, as duas Câmaras – Pares e Deputados – foram instaladas no edifício do Mosteiro de S. Bento que passou a designar-se Palácio das Cortes. O seu recheio foi nessa altura disperso e encontra-se actualmente em outras igrejas de Lisboa e em museus. Depois de um incêndio em 1895 ter destruído por completo o edifício, foi decidido reedificá-lo de raiz, com o objectivo de prosseguir a sua missão legislativa.

Palácio de S. Bento depois de convertido em Palácio das Cortes [1858]
Rua de S. Bento
Era um dos mais imponentes edifícios de Lisboa, apesar de nunca concluído, um mosteiro de grande prestígio a cujas cerimónias acorriam a corte e as grandes famílias da nobreza. A sua decadência tem início a partir do governo de Marquês de Pombal, e acentuada pelas Invasões Francesas e pelas Guerras Liberais culmina em 1834 ao serem extintas as ordens religiosas e as suas propriedades integradas nos bens do Estado.
Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 32-34, 1939.
SANTOS, Maria José Silva, O parlamento de Portugal, p. 75, 2002.
parlamento.pt.

Sunday, 17 November 2019

Profissões de antanho: o vendedor de barquilhos

O barquilho, uma espécie de bolo de massa tostada, feito de farinha não fermentada, a que se adiciona açúcar e mel, era e é — ainda hoje — utilizado na venda de sorvetes. Este petisco é a suprema palavra de pastelaria para o rapazio.


À porta das escolas e dos liceus e por aí, por toda a cidade, onde quer que encontrassem poiso, era certa e sabida a presença dos galegos dos barquilhos com grandes latões pintados de vermelho, em cuja tampa rodava a roleta da sorte. Talvez fosse, para a freguesia miúda, a primeira sensação de ganhar ao jogo!

Profissões de antanho: o vendedor de barquilhos [c. 1930]
Praia de Algés[?]
A venda de barquilhos feita habitualmente nas praias.
Ferreira da Cunha. in A.M.L.


A verdade é que a rapaziada daquele tempo, em troca de uma moeda, fazia rodar por três vezes a roleta, e da soma dos três números que ela marcava, o vendedor entregava os barquilhos correspondentes.

Profissões de antanho: o vendedor de barquilhos [c. 1930]
Praia de Algés[?]

«O rapaz dá cinco reis, move a roda que faz girar uma pequena esfera; esta vai cair em uma cavidade, e segundo o número que ela tem pintado, ganha outros tantos barquilhos, que ele bem depressa faz chegar ao estômago.»[C.P., 1870]
Ferreira da Cunha. in A.M.L.

Na sequência do jogo da roleta por vezes havia discussão: o rapazito habilidoso a tentar intrujar o vendedor, e este, no jogo do gato e do rato, a defender-se. Bastava inclinar de certa maneira o latão para que a palheta que marcava os números parasse no sitio que mais lhe convinha. E, não raro, havia zaragata!...

Profissões de antanho: o vendedor de barquilhos [p-. 1902]
«O homem dos barquilhos para em qualquer lugar mais concorrido, e poe diante de si uma caixa, que tem na tampa uma espécie de roda da fortuna.»[C.P., 1870]
Ferreira da Cunha. in A.M.L.

Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974, p. 212, 1986.
Commércio do Porto [C.P.] 13 de Janeiro de 1870:

Friday, 15 November 2019

Rua do Telhal

Era já sabido de nossos paes, que, em sendo terça-feira, á tarde, trepavam, conforme podiam, pela rua do Telhal acima, muitos e bons sucios, contentes de estarem neste mundo, todos de barriga cheia com a alegria a descançar em cima d'ella como um pachá no coxim. [Os Dois mundos, 1879]


Este é um topónimo cuja fixação na memória de Lisboa se desconhece embora já apareça referido nos registos paroquiais de 1755 da Freguesia de S. José bem como nas plantas paroquiais executadas em 1770 e depois, em 1857, no «Atlas da Carta Topográfica de Lisboa» de Filipe Folque.

 

Rua do Telhal [1907]
Cruzamento com a Rua de São José
Machado & Souza


Rua do Telhal [1907]
Junto ao nº. 31 e descendo no sentido da Rua das Pretas
Machado & Souza



Por documentos camarários de, respectivamente, 1874 e 1875, sabe-se que o arruamento foi alargado e macadamizado. [cm-lisboa.pt]

Rua do Telhal [1953]
Demolições e obras de pavimentação
Judah Benoliel, in A.M.L.

Wednesday, 13 November 2019

Central Tejo

Situada entre as Avenidas da Índia e de Brasília, a Central Tejo foi inaugurada em 1909. A sua junção com a Central da Boavista permitiu fornecer electricidade a Lisboa e a toda a faixa costeira até ao Estoril. A partir de 1911 passou a ser designada como Central Tejo à Junqueira.
Edifício concluído em 1919, com projecto dos engenheiros Veillard e Touzet. A actual Central Tejo localizou-se junto a uma fábrica de electricidade, de pequenas dimensões, ali instalada desde 1908. 

Central Tejo, panorâmica da fachada Sul vista do Tejo [post. 1939]
Cais de Belém
Na imagem, o navio inglês Switzerland, ex Monassir, construído em 1920 pela firma Caledon Steamship Building & Engineering Co..
Kurt Pinto, in A.M.L.

Os edifícios destacam-se pela sua arquitectura, quer pela forma e volumetria, quer pela utilização plástica dos materiais, como o tijolo vermelho, o ferro e o vidro, relevando uma indiscutível modernidade e grande impacto urbano. Do conjunto destacam-se os grandes janelões de vidro, que conferem uma marca de leveza aos edifícios, sendo simultaneamente importantes do ponto de vista funcional. 

Central Tejo [1940]
Avenida da Índia e Avenida de Brasília depois das obras
Eduardo Portugal, in A.M.L.
Central Tejo [1940]
Rio Tejo
 
Kurt Pinto, in A.M.L.

A Central Tejo insere-se nos modelos técnicos das centrais termo-eléctricas. Tinha como missão fornecer energia eléctrica e gás de iluminação pública à cidade de Lisboa, desempenhando um papel fundamental na produção eléctrica e sua divulgação, até ao surgimento das centrais hidroeléctricas. Laborou de 1909 até cerca de 1975, ininterruptamente até cerca de 1954. 

Central Tejo [1916]
Avenida de Brasília
A Guarda Nacional Republicana junto à Central Tejo durante a greve dos eléctricos
Joshua Benoliel, in A.M.L.

O equipamento tecnológico foi sendo alterado de acordo com exigências técnicas e de aumento de produtividade. No início da sua laboração contava com dois geradores e seis caldeiras de baixa pressão. Actualmente, pode visionar-se, no interior do edifício, caldeiras de alta pressão da firma Babcok & Wilcox e grupos turbo-alternadores tipo Parsons. Pertence à EDP desde 1976 (aquando da formação da empresa), constituindo um edifício para fins museológicos, denominado de Museu da Electricidade.
Classificado desde 1986 como I.I.P.-Imóvel de Interesse Público.

Fotografia aérea sobre a zona de Belém, vendo-se a Central Tejo [post. 1919]
Avenida de Brasília; Rio Tejo
 
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Bibliografia
igespar.pt; cm-lisboa.pt

Sunday, 10 November 2019

Cinema Restauradores

Localizado nos restauradores  — por baixo do Éden — em pleno coração de Lisboa esta sala de cinema iniciou a sua actividade em 28 de Outubro de 1911. Inicialmente tinha o nome de «Salão Chantecler» ou «Galo». Os seus proprietários, Júlio Augusto Estevens e António Moreira Gaspar, acabariam mais tarde por mudar o nome da sala para o tornar mais apelativo, passando deste modo a ser designado como Cinema Restauradores. 
O Cinema Restauradores tinha capacidade para 499 espectadores. Até 1927 os filmes mudos que lá passaram tiveram grande sucesso devido essencialmente a algo que ficou conhecido como fono-cinema e mais popularmente como fitas faladas.

Cinema Restauradores [1966]
Praça dos Restauradores
Sessão Dupla: A Cortesã do Oriente (1953) e Os 3 Magníficos (1961)
Garcia Nunes, in A.M.L.

A 20 de Dezembro de 1935, ao mesmo tempo que são levadas a cabo obras de remodelação e modernização, assume o nome de Restauradores e assim ficaria conhecido nos próximos 30 anos.
Na década de 60 a sua popularidade tinha diminuído consideravelmente e acabaria por encerrar em 1968, dando lugar a um estabelecimento pertencente à Companhia União Fabril. Actualmente o edifício alberga um hotel.

Praça dos Restauradores [1914]
Ao lado esq. da entrada  para a antiga Topografia «Anuário-Comercial» observa-se o velho Animatographo Chantecler, com o famoso Galo na frontaria, antecessor do Cinema Restauradores (clicar para ampliar; Cinema ;Éden Teatro.
Joshua Benoliel, in A.M.L.
  
Pela passagem entre o Éden e o Palácio Foz — recorda o ilustre Norberto de Araújo — se faz entrada, hoje [1939], para o Anuário Comercial, importante estabelecimento gráfico, desde 1914 propriedade de uma sociedade anónima. O «Anuário», fundado por Carlos Augusto da Silva Campos, começou a publicar-se em 1880 sob o nome de «Almanaque Comercial de Lisboa» título que prevaleceu até 1887. Em 1893 era «Anuário-Almanaque Comercial», propriedade de Manuel José da Silva, tendo por capitalista o Conde de Bumay.
Neste Pátio esteve, há anos, instalada a esquadra da policia, que depois passou à Rua de Santo Antão e hoje está na Praça da Alegria.

 Tipografia do anuário Comercial [post. 1911]
  Praça dos Restauradores
Ao lado esq. vê-se a entrada  para o velhinho Animatographo Chantecler vulgo Galo.
Em cartaz, o filme  de 1911, «Sangue siciliano»
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.
________________
Bibliografia
RIBEIRO, M. Félix, Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa 1896-1939, 1978- 
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2017.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 18, 1939.

Friday, 8 November 2019

O Rossio Velho

No século da tomada de Lisboa confluíam ainda nêste sítio os dois braços de água dos vales do Andaluz e de Arroios-Mouraria, correndo ao Tejo em regueiro. [...]
No século XIV o arrabalde do Rossio  — «Ressio› se dizia — fazia [já] parte da cidade. Rossio de S. Domingos, Rossio de Santa Justa, logo Rossio de Valverde — estava feito o Rossio de Lisboa, cujas orlas de edificação a Câmara e o Rei por vezes disputavam. [...]

Praça D. Pedro IV [séc. XIX]
Venda ambulante de refrescos; carro Chora
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Do final de setecentos até hoje, o Rossio — na sua fisionomia pombaIina — limitou-se a enfeitar-se, arruar-se, arrumar uma zona a poente, rever a sua orientação, construir um teatro, erguer um monumento, pôr de pé uma estação terminal de linha férrea, empedrar o chão, recortá-lo depois — usar do seu direito de capital, praça titular de Lisboa.

Praça D. Pedro IV [séc. XIX]
Venda ambulante de bolos; carro Chora
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 61-62, 1939.

Wednesday, 6 November 2019

Prédios dos Restauradores: «Ilha dos Escritórios»

Êste prédio, que encosta ao Avenida Palace, n.° 13, — recorda Norberto de Araújo — é, como um seu similar do Rossio (esquina norte da Rua do Amparo), uma verdadeira «vila», por tal sinal (e nisso também se assemelham) sem qualquer expressão moderna de confôrto e de higiene a classificá-los; nele existem 89 escritórios, e ainda, no quarto andar, uma «Pensão Restauradores». Foi a última das propriedades que José Rodrigues Sucena (Conde de Sucena por mercê de D. Luiz) adquiriu nestes sítios (1915) ; hoje pertence à Caixa Geral de Depósitos, como adeante direi [refere-se à construção do primitivo Éden Teatro].

Predios dos Restauradore  [c. 1937]
Praça dos Restauradores, 13; Hotel Avenida Palace
 Mário Novais, in F.C.G..

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 18, 1939.

Sunday, 3 November 2019

Igreja de São Luiz, dos Franceses

Neste pedacinho [da Rua das Portas de Santo Antão] até à Anunciada do Convento das dominicanas, erigido sobre a casa dos agostinhos de Santo Antão de 1400 — e eis a razão do nome da rua — chegaram a contar-se sete palácios, desde o dos Condes de Almada, a par de S. Domingos, até ao dos Condes da Ericeira, passando pelo primeiro dos Castelo Melhor, pelo dos Pais do Amaral Barberini, pelos do Conde de Povolide e dos Morgados de Oliveira. Igrejas, só uma, a de S. Luiz, dos franceses, que recua a 1552, e ali está ela ainda, com as suas flores de lis e as armas dos Bourbons sobre o pórtico.


Eis-nos defronte da pequena Igreja de S. Luiz, dos franceses — diz Norberto de Araújo — , erecta extra-muros, e que teve contíguo um Hospital, de certo modo no século passado [XIX] substituído pelo «Asyle de Saint-Louis» — Hospital de S. Luiz — na Rua Luz Soriano.

Rua das Portas de Santo Antão [1909]
Igreja de São Luiz, dos Franceses; Palácio Alverca (Casa do Alentejo)
Joshua Benoliel, in A.M.L.

É simples a fachada, na qual apenas o pórtico, com as armas dos Bourbons e o escudo da flor de lis, tem algum interêsse arquitectónico.
Na sobreporta ali vês a legenda latina, que afirma, na tradução, que «a S. Luiz foi dedicado êste templo pelos franceses habitantes nesta real cidade, no ano do Senhor de 1552. Conclui-se e acrescentou-se em 1622».
Parece, porém, que a inscrição não é de todo exacta ou suficientemente explicita. Eu julgo — talvez — mais acertada a versão de que a Confraria é que foi criada em 1552, instalada na Ermida de N. Senhora da Oliveira a S. Julião, onde estaria ainda em 1558, começando em 1563 a construir-se o templo neste lugar, concluído em 1572, na sua primeira fase. A reconstrução ampliada é que será de 1622.
Depois do Terramoto voltou esta Igreja a receber benefícios (1766), aliás repetidos sumariamente no século passado.

Igreja de São Luís dos Franceses [c. 1914]
Perspectiva tomada da Travessa  de Santo Antão
Beco de São Luís da Pena, 34-34A; Rua das Portas de Santo Antão
Charles Chusseau-Flaviens, in G.E.H.

Interiormente a Igreja de S. Luiz, muito ao tipo francês, pouco oferece de notável; não posso dela dar uma resumida descrição que seja — como o tenho feito de uma centena de igrejas e ermidas de Lisboa — porque, nos meus passos de ensaio, não me foi consentido tomar notas e colher informações directas, o que registo sem acrimónia embora com estranheza.
Posso dizer que o altar-mór e as capelas colaterais no corpo da igreja foram construidos em Genebra, por um artista italiano; são em mármore de Carrara [Pasquale Bocciardo (1705-1791)].
E pois que interessa à iconografia de Lisboa anotemos êste grande quadro, à esquerda da parede no corpo da Igreja. É uma «Vista de Lisboa», da primeira metade de seiscentos, muito deteriorada.
O terreno da cortina defronte de S. Luiz, sôbre a Rua, pertence à Igreja; os seus três estabelecimentos são dêste século.

Igreja de São Luís dos Franceses [c. 1914]
Perspectiva tomada da Rua do Jardim do Regedor
Beco de São Luís da Pena, 34-34A; Rua das Portas de Santo Antão
Charles Chusseau-Flaviens, in G.E.H.

N.B. No século XIX o imóvel passa para a posse do Estado Francês e em 1882 é instalado o órgão realizado em Paris por Aristide Cavaillé-Coll. No andar superior, em três salas, funcionava o hospital de São Luís, da Confraria do Bem-aventurado São Luís, que socorria todos os franceses pobres e necessitados de auxílio médico.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 207.
ibid, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 102-103, 1939.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo. Dicionário da História de Lisboa, pp. 808-810, 1994.

Friday, 1 November 2019

Avenida da República

Este topónimo, juntamente com mais nove, faz parte do primeiro Edital da vereação republicana, datado de 5 de Novembro de 1910, ou seja, precisamente um mês após a implantação da República. Após a proclamação da República a Câmara de Lisboa alterou a toponímia, substituindo os nomes das figuras públicas comprometidas com a monarquia e os topónimos de cariz religioso por outros evocativos dos ideais republicanos e esta Avenida da República é disso um exemplo claro, substituindo o topónimo do criador das Avenidas Novas em 1904  —  Ressano Garcia — pela própria República.

Avenida da República [1926]
Junto ao Viaduto de Entrcampos; à esq., o antigo Mercado Geral de Gados, depois Feira Popular; à dir., a Rua Visconde de Seabra
Legenda no arquivo: «Exercícios da Polícia Cívica no Campo Grande»
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O topónimo «Visconde de Seabra» perpetua na toponímia de Lisboa o nome de António Luís de Seabra (1798-1895), 1º visconde de Seabra, com título atribuído em 25 de Abril de 1865, responsável pela organização do projecto de Código Civil que foi promulgado por Carta de Lei em 1 de Julho de 1867.
Formado em 1820, a sua carreira desenvolveu-se como deputado, membro da Câmara dos Pares, Ministro da Justiça (1852 e 1868), reitor da Universidade de Coimbra (1866-68) e juiz do Supremo Tribunal de Justiça. [cm-lisboa.pt]

Avenida da República [ant. 1934]
Junto ao Viaduto de Entrcampos; à dir., a Rua Visconde de Seabra
Legenda no arquivo: «
Volta a Portugal em carro»
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Wednesday, 30 October 2019

Convento de N. S. da Encarnação : «O Mosteiro da Infanta»

O Convento da Encarnação foi mandado construir pela Infanta D. Maria (1521-1577). É um convento de freiras beneditinas, uma das belas jóias da arquitectura religiosa a ver em Lisboa, pouco conhecida, talvez, pela sua localização. E porque sua igreja só abre uma vez por semana, aos domingos. É um tesouro bem guardado.

Vicissitudes várias, relacionadas com o contexto histórico das décadas seguintes, levaram a que o Convento de Nossa Senhora da Encarnação, só viesse a ser fundado em 1614, sob a égide de Filipe III.


Convento de Nossa Senhora da Encarnação: «O Mosteiro da Infanta» [ant. 1866]
Largo do Convento da Encarnação
Panorâmica tirada de São Pedro de Alcântara, vê-se o Convento da Encarnação, a Igreja de São Luís dos Franceses, e, em último plano, o Convento da Graça
Francisco Rocchini, in AML

Viveu a Senhora Infanta [D. Naria] — recorda o ilustre Norberto de Araújo — entre artistas, latinistas e teólogos. Devota como seu irmão, D. João III, não esqueceu nunca a filha de D. Manuel, o «Venturoso», os hábitos da corte do Paço da Ribeira, onde nascera em 1521. Era riquíssima. A sua vida de sempre menina decorreu, deslizou entre mesuras paçãs e perfumes de incenso. [...]
Diz-se que foi amada por Camões, e que talvez lhe tivesse dado asas para o Poeta voar a tão «alto pensamento». Era uma linda senhora, de nariz um tudo nada imperfeito, o que lhe imprimia um ar de malícia excelsa, e lhe aumentava o picante da expressão, misto de sensualidade e idealismo, como no desenho de Chantilly, cópia de Gregório Lopes. [...]

Convento de Nossa Senhora da Encarnação: «O Mosteiro da Infanta» [ant. 1880]
Largo do Convento da Encarnação
Perspectiva da Praça D. Pedro IV, observando-se em cima, à dir, o Convento da Encarnação
Fotografia anónima, in AML

É um casario soturno, quase misterioso, debruçado sobre o Rossio. Na sobreporta da Igreja ostenta-se o brasão daquele infantado virginal. Por todo o edifício, pelos claustros e terraços, esconsos e escadarias, pejadas de oratórios, de altares, de mistérios místicos — passa ainda, apesar de no mosteiro nunca ter vivido, o talhe esbelto da Senhora Infanta, vestida com o hábito branco de S. Bento, ornado da cruz verde de Avis, tal qual cai ainda hoje dos reposteiros moles.
No exterior, em pleno Largo do Convento, uma casinha setecentista de um pitoresco inverosímil, milagre de arquitectura ingénua e popular, reúne-se à ostentação artística da Igreja, repousada nos seus azulejos, pinturas de bom pincel e lavores de prata.

Convento de Nossa Senhora da Encarnação: «O Mosteiro da Infanta» [c. 1940]
Largo do Convento da Encarnação
Do lato esq. vê.se o portal nobre do convento e à dir., a entrada da Igreja Igreja ostentando o brasão da infantado
Eduardo Portugal, in AML
Convento de Nossa Senhora da Encarnação: «O Mosteiro da Infanta» [c. 1940]
Largo do Convento da Encarnação

Um aspecto do Claustro
Eduardo Portugal, in AML

Um grande incêndio ocorrido em 1734, e os danos provocados pelo Terramoto de 1 de Novembro de 1755 obrigam a grandes intervenções no edifício conventual.
Após a extinção das ordens religiosas, a 30 de Maio de 1834, as condições de vida no convento decaem consideravelmente por ter cessado a entrada dos rendimentos provenientes da Ordem de Avis. O Convento da Encarnação é extinto em Março de 1896 após a morte da última religiosa e integrado na Fazenda Nacional. Já no início do século XX passa a integrar os «Recolhimentos da Capital», conjunto que desde 2011 está sob gestão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Convento de Nossa Senhora da Encarnação, interior da igreja [c. 1900]
Largo do Convento da Encarnação
Uma parte do Claustro
Alberto Carlos Lima, in AML

Convento de Nossa Senhora da Encarnação, coro [c. 1900]
Largo do Convento da Encarnação
Uma parte do Claustro
Alberto Carlos Lima, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 60-61, 1943.
ALMEIDA, Fernando de - Monumentos e edifícios notáveis do Distrito de Lisboa, Volume 5, Segundo Tomo, 1975.
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