Sunday, 15 September 2019

Cais das Colunas: o miradouro raso e rasteirinho da cidade.

Levantam voo as gaivotas à roda delas, e largam para o rio os bergantins reais e os botes catraios. Visão de séculos neste Cais das Colunas — dois blasões de pedra que nunca chega a ser morena. As colunas são um sinal de atenção, o mais lindo e recortado sinal na fronte de Lisboa ribeirinha. Fazem uma evocação da Veneza dos doges.


Em verdade estes dois pilares não levam duzentos anos, pois são invenção posterior ao Terramoto. E não são os primitivos. O Tejo divertiu-se sempre muito com as colunas, e arrebata-as várias vezes. Quando, em 1903, se preparava o desembarque de um rei inglês [Eduardo VII], que no cais havia de abicar na galeota dourada de trinta remeiros — houve que improvisar umas colunas de madeira, porque as de pedra tinham caído. Foi outro brinquedo: o rio levou as colunas no outro dia. . .

Cais das Colunas, Terreiro do Paço [1903]
Do lado esq. podem observar-se as colunas provisórias em madeira de forma quadrangular. Ampliando a foto vê-se na base dos pilares — manifestamente desalinhados —o  travessão que os unia e mantinha no lugar, supostamente..
 Fotógrafo não identificado, in AML

Este Cais das Colunas, que sucedeu ao Cais da Pedra — é o miradouro raso e rasteirinho da cidade. Um livro aberto de evocações. Viu sucessivamente as barcas, as fustas, as galeras, as caravelas, as naus; as galés e os galeões; as fragatas, as corvetas, os brigues e as escunas, depois os navios chapeados de ferro e aço, os transportes e os transatlânticos, os cruzadores e os couraçados. Guarda na retina as silhuetas da nau «S. Gabriel», que foi à Índia, do galeão «Santa Teresa», o mais imponente que cruzou os mares, da nau «D. Maria», do Marquês de Nisa, que esteve em Trafalgar, da corveta «Pero de Alenquer», e do «Adamastor».

Cais das Coluna sem colunas [c. 1900]
O Tejo divertiu-se sempre muito com as colunas, e arrebata-as várias vezes.
 José Artur Bárcia, in AML

Conheceu as velas de todo o mundo, os pavilhões de todos os povos, os alcaxas¹ de todos os marujos, e ouviu trons e salvas em todas as línguas. Da sua rampa de pedra rolada, ou da sua escadaria carcomida — viu cem gerações dizerem adeus a cem armadas que partiam. Pórtico escancarado do Terreiro do Paço, a sumir-se abaixo do nível, dir-se-á um adiantado do Arco Triunfal, o primeiro aviso de que a cidade começa.
¹  peças inconfundíveis do uniforme dos marinheiros

Cais das Colunas «Salazar» e «Carmona» [post. 1939]
As duas famosas colunas ainda têm os nomes que lhes foram dados em pleno Estado Novo, em homenagem às duas figuras mais importantes do país na altura: ««Salazar» e «Carmona».
 Garcia Nunes, in AML

De acordo com alguns autores, as colunas que pontuam a escadaria de pedra que desce até ao rio, poderão ser de inspiração maçónica e representar as duas colunas do Templo de Salomão (colunas Boaz ( B ) e Jaquim ( J ) ,ou Jerusalém e Belém, conforme as interpretações) simbolizando força e estabilidade, rigor e misericórdia, força e beleza, ciência e conhecimento, o Ocidente e o Oriente. O "estar entre colunas" maçonicamente significa estar em segredo entre irmãos
Mas o que talvez poucos saibam, é o que o lodo esconde. As duas famosas colunas ainda têm os nomes que lhes foram dados em pleno Estado Novo, em homenagem às duas figuras mais importantes do país na altura: ««Salazar» e «Carmona».

Cais das Colunas «Salazar» [post. 1939]
Inscrição no pilar esquerdo (Oriental):
«A SEGUNDA VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: CABO VERDE, MOÇAMBIQUE E ANGOLA. XVII DE JUNHO - XII DE SETEMBRO DE MCMXXXIX A VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS DO IMPÉRIO EM ÁFRICA ESTÁ NA MESMA DIRECTRIZ DAS NOSSAS PREOCUPAÇÕES E FINALIDADE, É MANIFESTAÇÃO DO MESMO ESPÍRITO QUE PÔS DE PÉ O ACTO COLONIAL»
SALAZAR
Luís Filipe de Aboim Pereira,, in AML

Acima dos nomes dessas duas importantes e polémicas personalidades da História de Portugal, estão citações que cada uma delas proferiu na sequência de duas viagens que Óscar Carmona, Presidente da República, fez às colónias.

Cais das Colunas «Carmona» [post. 1939]
Inscrição no pilar direito  (Ocidental):
«AQUI EMBARCOU O CHEFE DO ESTADO PARA A PRIMEIRA VIAGEM ÀS TERRAS 
ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE E ANGOLA. XI DE JULHO - 
XXX DE AGOSTO DE MCMXXXVIII COM A CERTEZA DE QUE FALA PELA MINHA VOZ 
PORTUGAL INTEIRO, PROCLAMO A UNIDADE INDESTRUTÍVEL E 
ETERNA DE PORTUGAL»
GENERAL CARMONA
Luís Filipe de Aboim Pereira,, in AML


Bibbliografia
ARAÚJO, Norberto de,  Legendas de Lisboa, pp. 38-39, 1943.
lusophia.wordpress.com.

Friday, 13 September 2019

Beco do Recolhimento

A vida bairrista do Castelo é pacífica — diz Norberto de Araújo — , e com pouca expressão; o seu pitoresco é quási nulo. Mas não o é de todo. Se teus olhos estiverem «bem inspirados para ver» anotarás passagens dignas de um lápis afeito a traços finos. já reparaste, com certeza, em dois tipos de construção: o das casotas côr de rosa, século XVIII ou princípios de oitocentos, e o do urbanismo dos meados do século passado.


Beco do Recolhimento [1958]
Armando Serôdio, in AML;

Este Beco do Recolhimento que vai do Beco do Forno do Castelo à Rua do Recolhimento tem esta denominação atribuída desde 1859, na artéria até aí designada por Beco do Jardim. O topónimo deriva da proximidade ao Recolhimento de N. S. da Encarnação, «que fôra fundado, noutro sítio de Lisboa, por D. João III», destinado a «meninas órfãs da nobreza», que foi destruído pelo Terramoto, depois reedificado, «sumíra-se, de todo, antes de 1837», de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo.
_________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 21-22, 1938.

Wednesday, 11 September 2019

Profissões de antanho: o padeiro

Manhã alta era outra a tarefa: saíam os padeiros carregando grandes cestos cheios de pão, tapados com panos brancos. Iam levar encomendas à freguesia da zona, por cujo trabalho, como hoje, cobravam uma percentagem sobre o preço fixo.

Estamos a lembrar-nos de quando, já teríamos idade para pedir uma fatia de pão com manteiga, paravam à porta da padaria na Rua da Atalaia, ao Bairro Alto, onde morávamos, as carroças que traziam grandes ramadas de pinheiro que os padeiros queimavam de noite no forno. As labaredas iluminavam o interior da padaria e a luz vermelha dançando nas paredes vinha reflectir-se nos vidros da montra. Ao mesmo tempo ouvia-se o estrondo da massa que os padeiros batiam nos amassadores e a conversa animada que o silêncio da madrugada avolumava. Muitas noites em que não dormíamos, vínhamos espreitar à janela, desejosos de saber como se fazia o pão.

Padeiros [1910]
Praça Dom Pedro IV (comummente Rossio)

Transportavam pão de quilo, meio quilo, pão de forma e pãezinhos de Viana
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Naquele tempo havia o pão de forma, como ainda há hoje; o pão de quilo, que custava noventa réis (dizia-se: quatro e meio, ou seja, um tostão menos dez réis) e o de meio quilo, pelo qual se pagava dois e cinco, ou seja, dois vinténs e mais cinco réis. Este pão era muito gostoso e seria semelhante ao actual pão caseiro. Além destes fabricavam-se pãezinhos de Viana, redondos, adocicados e vária bolaria inocente que a rapaziada adorava.

Padeiro [1910]Rua Castilho
Distribuição ao domicílio
Nota(s): o local da foto não está identificado no AML
Joshua Benoliel, in A.M.L.

As padarias eram independentes; tinham cada uma o seu proprietário e exibiam, como qualquer estabelecimento, um título: A Primavera, A Primorosa, A Nacional, ou o nome do dono. Em certa altura, talvez por 1910 a 1915, a Companhia Industrial de Portugal e Colónias, que desenvolvera todo o ramo de fabricação de farinhas, bolachas e massas alimentícias, alargou a sua actividade ao fabrico do pão, adquirindo quase todas as padarias de Lisboa e nelas instalando novo sistema de laboração, a electricidade, no qual a intervenção do homem foi praticamente substituída por grandes amassadores.

Padeiro [1939]
Costa do Castelo
Ao fundo observa-se o portal do Palácio dos Condes de Figueira
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Iniciava-se a era do papo-seco, a que o público, acostumado ao tipo de pão anterior, ao princípio resistiu. Mas o padeiro continuou a sua tarefa, agora mais aliviada na padaria. Foi então que o serviço de distribuição ao domicílio se alargou. Mas já não eram precisos os grandes cestos, porque, sendo menores os formatos do pão, se tornou menos pesada a empreitada e, assim, hoje é raro ver o padeiro à maneira antiga, como o desenho as imagens representam.

Padeiro [c. 190]
Rua da Senhora do Monte
Carregavam grandes cestos cheios de pão, tapados com panos brancos
Artur Bárcia, in A.M.L.

Bibliografia
DINIS, Calderon , Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974, p. 234, 1986.

Sunday, 8 September 2019

Lojas de antanho: Casa de modas A. Serra

Em 1916, a revista «Ilustração Portuguesa» noticiava deste modo, a abertura de mais uma «loja chic» na baixa lisboeta [foi respeitada a grafia da época]:
Lisboa vai-se tornando, incontestavelmente, uma cidade de estabelecimentos «chics», sumptuosos e elegantes. É n'eles que pelo dia adeante se reune o mundanismo. São casas que, tanto pela aparencia como pelo bom gosto na disposição do seu mostruário, fazem desviar a atenção do publico para si.
Sem favor, a  casa a  que nos referimos, é  a melhor no género e  a mais preferida pelas senhoras da nossa primeira sociedade. É ali que vão procurar as suas graciosas «toliettes» que teem um cunho de bom gosto e de distinção inegualaveis e que são um verdadeiro primor artístico. 

Casa de modas A. Serra [1916]
Rua de S. Nicolau, 121-127, Rua Nova do Almada, 54-58
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Quem dirige os seus importantes «ateliers» são duas das mais acreditadas modistas francezas diplomadas e um «coupeur». Toda a sua clientela, que de dia para dia, aumenta consideravelmente, é composta de damas de fino e apreciado gosto e quem realçam as suas «toilettes» sempre da mais requintada novidade.
Abalançar-nos-hemos até a dizer que nem mesmo em Paris ou Londres existem estabelecimentos no genero tão 1uxuosamenle montados e, se os há luxuosos, nem por sombras podem rivalisar com o de que vimos tratando. Por todas estas fotografias que ilustram este mesmo artigo, já os nossos leitores poderão avaliar o que representam á vista o  que são os seus salões de provas, de vendas, gabinetes, «ateliers», etc., etc..

Casa de modas A. Serra, salão de vendas [1916]
Rua de S. Nicolau, 121-127, Rua Nova do Almada, 54-58
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Eis, pois, Lisboa dotada de mais um estabelecimento «chic», único no género, cuja falta se sentir n'uma capital como Lisboa, felicitando nós o sr. Alfredo Balga e Serra por tão arrojada iniciativa.

Casa de modas A. Serra, um dos «ateliers» [1916]
Rua de S. Nicolau, 121-127, Rua Nova do Almada, 54-58
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Bibliografia
Ilustração Portugueza, n.º 532, 1 de Maio de 1916.

Friday, 6 September 2019

Rua Nova do Almada

Ora bem: aqui temos uma artéria vizinha do Chiado e que tem ainda tom. A Rua Nova do Almada, antiga, datava de 1665 — relembra-nos Norberto de Araújo — , e devia seu nome (como tive ocasião de te dizer) ao presidente do Senado Municipal Rui Fernandes de Almada; seguindo sensivelmente o mesmo traçado foi reurbanizada na segunda metade do século XVIII. Ao fundo dela correu o celebrado Canal da Flandres, no sopé do Monte de S. Francisco.

Rua Nova do Almada [ant. 1909]
Até aos anos 50, do século XX, também ali esteve a Igreja da Conceição Nova — cujo pórtico se pode ver à direita na foto — construída em 1698 e restaurada depois do Terramoto de 1755. O arquitecto da reconstrução foi Remígio Francisco de Abreu.
Paulo Guedes, in A.M.L.

Digna de referência, por suas tradições literárias, nos parece ser a Livraria Ferin, fundada em 1840, hoje pertencente à firma Tôrres & Comandita, casa no nosso tempo conhecida por «Viúva Ferin». A Pastelaria Ferrari, de grande nome lisboeta, foi fundada em 1846 por Matias Ferrari; eis um estabelecimento, ainda do tempo velho, e que mereceria uma croniqueta.

Demolição da igreja da Conceição Nova [195-]
Eixo Cç. de São Francisco-Rua da Conceição com a Rua Nova do Almada
 Firmino Marques da Costa, in A.M.L.

N.B. O topónimo homenageia Rui Fernandes de Almada, que sendo presidente do Senado Municipal, fez abrir em 1665 a rua Nova que tem o seu nome. Também desempenhou o cargo de provedor da Casa da Índia e por ser partidário de D. Afonso VI foi vítima de uma cilada do infante, depois D. Pedro II, deixando-o morto na rua.

Rua Nova do Almada [1918]
Rua Garrett; Armazéns do Chiado
Cortejo a caminho do Paço de Belém e das legações dos países aliados, para festejarem o final da Grande Guerra.
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. XIII, p. 30, 1939.

cm-lisboa.pt.

Wednesday, 4 September 2019

Rua Álvaro Coutinho

A celebração de figuras heróicas, a glorificação de figuras históricas, mártires da guerra, da monarquia e da religião caracterizou o período da Iª República. Uma das formas de o fazer consistiu na atribuição de topónimos.
Assim, a Rua Álvaro Coutinho, famoso cavaleiro conhecido por O Magriço, Século XV, foi atribuída à Rua de Nossa Senhora do Resgate. Martim Moniz, cujo nome está ligado á tomada de Lisboa aos Mouros ficou relembrado numa rua com a denominação de S. Vicente (À Guia).

Rua Álvaro Coutinho [196-]
[antiga de Nossa Senhora do Resgate]
Ao fundo, na Rua dos Anjos, a segunda sede do Lisboa Ginásio Clube
Fotógrafo: Estúdio Horácio Novais, in F.C.G.

Álvaro Gonçalves Coutinho, como parece era natural de Penedono e foi o chefe de Os Doze de Inglaterra, história de cavalaria de que fez eco Camões, em Os Lusíadas (I, 12;VI, 53-69). Com mais onze portugueses foi a Inglaterra vingar a afronta feita a outras tantas damas que se queixaram ao duque de Lencastre, tendo este proposto que os doze injuriados defrontassem outros tantos cavaleiros que ele conhecera em Portugal, de onde saíram vencedores os cavaleiros lusitanos.
De certo sabe-se que Álvaro Gonçalves Coutinho prestou assinalados serviços, em 1411, a João, duque de Borgonha e conde de Flandres. [cm-lisboa.pt]

Sunday, 1 September 2019

Lisboa Gymnasio Club (Lisboa Ginásio Clube)

Fundado em 4 de Novembro de 1918, o «Lisboa Ginásio Clube» depressa se transformou num alfobre de atletas.


A modesta cave da Rua Maria, 61, onde se instalara a primeira sede, depressa se mostrou acanhada demais. Dois anos depois, porém, já o «Lisboa Gymnasio Club» ocupava o edifício do antigo Teatro do Borralho (Travessa do Borralho, hoje Rua Francisco Lázaro, 4), para daí a mais algum tempo, num crescente de valorização, ser forçado a ampliar estas instalações, com o aluguer do edifício anexo que dá para a Rua dos Anjos.  O custo do imóvel e do seu recheio, condição exigida para a venda, montava a 130.000$ (c. 650€). Aprovada a operação de compra e face às compreensíveis dificuldades financeiras do Clube, foi contraído um empréstimo junto do Banco Português e Brasileiro no qual deu o seu aval Teófilo de Magalhães, à data Presidente da Assembleia Geral do Lisboa Ginásio Clube. A inauguração oficial da segunda sede teve lugar a 1 de Dezembro de 1923 com a presença do Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes.

Lisboa Ginásio Clube [1963]
Rua dos Anjos, 63
A segunda sede do «Lisboa Ginásio Clube», fundado em 1918. A primeira sede esteve instalada na Rua Maria, 61
Armando Serôdio, in AML

A iniciativa de se fundar, em Lisboa, o «Lisboa Gymnasio Club» partiu de João de Matos Corte-Real da Câmara Mouat e de José dos Santos Cadeiras.
Deve-se ao «Lisboa Gymnasio Club» a introdução entre nós da ginástica rítmica para senhoras; cabendo-lhe também importante parcela no desenvolvimento e propaganda da ginástica educativa feminina.
Dos contactos com os melhores ginastas mundiais, nunca o «Lisboa Gymnasio Club» saiu desprestigiado; e a comprová-lo estão dezenas de saraus realizados no Coliseu dos Recreios. Também em Florença, em Roterdão e Espanha, os atletas do «Lisboa Ginásio» alcançaram posições de relevo — prestigiando o nome de Portugal. Sempre admiravelmente orientado, orgulha-se ainda o clube da sua famosa «classe maravilha» que tanto deu que falar.
Cerca de 1.400 atletas, praticando, além da Ginástica Voleibol, Basquetebol, Atletismo, Badminton, Luta, Boxe, Pesos e Halteres, Tiro ao Arco, Esgrima e Jogo do Pau, mantém presentemente [1958] o «Lisboa Ginásio Clube» em constante actividade, constante actividade, não permitindo as suas instalações que este número possa ser aumentado. Todavia, atendendo à importante dívida que o Desporto Português contraiu para com esta grande colectividade, o «Lisboa Ginásio» espera ver as suas instalações valorizadas e aumentadas dentro de pouco tempo, com a edificação de uma nova sede erguida no mesmo local onde presentemente se encontra instalado.

Edifício de gaveto onde se veio a instalar o Lisboa Gymnasio Club [1907]
Tv. do Borrralho,  hoje Rua Francisco Lázaro,  com a Rua dos Anjos
A segunda sede do «Lisboa Ginásio Clube», fundado em 1918. A primeira sede esteve instalada na Rua Maria, 61
Machado & Souza, in AML

Bibliografia
Olisipo : boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1958.
lgc.pt.

Friday, 30 August 2019

Rua de Arroios

Era para os lados de Arroios, adiante do Largo de Santa Bárbara; lembrava-se vagamente que havia ali uma correnteza de casas velhas... Desejaria antes que fosse numa quinta, com arvoredos murmurosos e relvas fofas; passeariam as mãos enlaçadas, num silêncio poético; e depois o som da água que cai nas bacias de pedra daria um ritmo lânguido aos sonhos amorosos... Mas era num terceiro andar — quem sabe como seria dentro?

(QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio,  1878)


Rua de Arroios  [1961]
Perspectiva tirada junto ao nº 120 na direcção do Largo de Santa Bárbara
Arnaldo Madureira, in AML

Antiga Rua Direita de Arroios, antes troço da Rua Direita dos Anjos e Rua Direita de Arroios. A Calçada de Arroios tal como a Rua de Arroios perpetuam na memória de Lisboa a ligação ao antigo sítio de Arroios, que indica regato e indica um local de hortas verdejantes. [cm-lisboa.pt]

Rua de Arroios  [entre 1901 e 1908]
Perspectiva tirada junto ao nº 1oo na direcção do Largo de Arroios
Machado & Souza, in AML

— É verdade, onde ias tu a Arroios?

Luísa passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. Disse, bocejando ligeiramente:

— A Arroios?

— Sim. O Saavedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que te via passar todos os dias para lá, de trem e a pé.

(QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878)

Wednesday, 28 August 2019

Calçada (Nova da Bica) do Desterro

O topónimo antigo evoca o Convento do Desterro e uma velhinha bica que aqui corria, como descreve Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações»:
Deves notar nesta artéria a mistura urbanista das edificações: prédios modernos de há cinco e seis anos¹ brigando com casebres de há cento e cinquenta. [...] eis outra curiosidade, esta delicada: a Bica do Destêrro, que foi fio de água corrente. 

Calçada do Desterro [1951]  
Perspectiva tirada da Rua de São Lázaro; ao fundo a Bica do Desterro (esq.) e o Hospital do Desterro
Antiga Calçada Nova da Bica do Desterro
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Notam-se, ladeando a bica, que já não corre há anos, duas janelas ou frestas entaipadas, e com lindas colunas decorativas, de capitéis trabalhados [retirados para o Museu de Lisboa], vindas talvez de outro sítio, graça de arte que deve datar do século XVI. Sôbre êste conjunto ostenta-se uma grande caravela, em pedra, de alto relêvo, das maiores, que neste género, e para modéstia da bica, se topam em Lisboa.
Por cima de tudo — o muro florido de um quintal. A Bica do Desterro é anterior às primeiras edificações, ou delas coeva.

Calçada do Desterro [1951]  
Bica do Desterro
Antiga Calçada Nova da Bica do Desterro
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Bica do Desterro [1930]  
Calçada do Desterro
Eduardo Portugal, in A.M.L.














Pelo que deixa perceber a gravura acima. a Bica N.º 3 teria inicialmente duas bicas  e um tanque. Na foto à direita, datada de 1930, ainda se observam as colunas decorativas, de capitéis trabalhados (hoje no Museu de Lisboa) e o respectivo tanque.
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 67.68, 1938.

Sunday, 25 August 2019

Palácio Praia

O Palácio dos Marqueses da Praia, no Largo do Rato — entre a Rua das Amoreiras e a Calçada Bento da Rocha Cabral — , é uma edificação de 1784, ou de pouco antes. Ergueu-o, em primeira traça, Luís José de Brito, contador do Real Erário, e tesoureiro das contribuições para a superintendência das Obras das Aguas Livres, sobre chão rústico e casas que pertenceram à famosa fábrica da louça do Rato.

No começo de oitocentos era da viúva Brito, andou depois alugado, e foi mais tarde comprado pelo Barão de Quintela, do qual passou por herança ao Conde da Cunha e deste ao Marquês de Viana, que já o possuía em 1828, e cuja esposa era neta do Barão de Quintela.
Em 1876 o palácio foi vendido ao Visconde de Monforte, Luiz Coutinho de Albergaria Freire, dêste passou a sua sobrinha, D. Maria José, que casou com o Conde da Praia, depois Marquês, António Borges de Medeiros Dias da Câmara e Sousa; dêste transitou a seus filhos, 2.º Marquês da Praia e Monforte, D. Duarte, e Condessa de Cuba. Presentemente [em 1939] o Palácio do Rato pertence, em partes iguais, à Senhora Condessa de Cuba, que ocupa a parte sôbre a Calçada da Louça [hoje de Bento da Rocha Cabral], e ao 3.° Marquês, D. António, filho de D. Duarte, que detém a parte sôbre a Praça.

Palácio do Marquês da Praia e Monforte [1945]
Largo do Rato, 2; Calçada Bento da Rocha Cabral, 1
André Salgado, in AML

Foram famosas no meado do século passado [XIX] as festas no Palácio do Rato, do tempo dos Marqueses de Viana, constituindo deliciosos motivos de crónicas lisboetas, tais as dos Condes de Farrobo, de Penafiel, do Carvalhal, paradas de aristocracia, cheias de beleza e opulência, bom gôsto e aprumo; deram-se aqui deslumbrantes bailes de máscaras, a um dos quais pelo menos (1855) assistiram D. Pedro V, D. Fernando, e os infantes. 

Palácio do Marquês da Praia e Monforte [1950]
Largo do Rato, 2; Calçada Bento da Rocha Cabral, 1
Horácio Novais, in IL

A Capela da Casa é fundação do Marquês de Viana, 1839, sendo o risco do arquitecto da Casa do Infantado Joaquim de Sousa; o pequeno templo da Calçada da Louça, propriedade da Condessa de Cuba, é dedicado hoje a N. Senhora da Bonança. Possue esta Igreja duas capelas laterais além da principal.

N.B. Este belo edifício, cedido em 1975 e depois arrendado, foi mais tarde adquirido pelo Partido Socialista (31 de Dezembro de 1986) aos descendentes do 4.º Marquês da Praia e Monforte, e passou a integrar, desde então, o seu património.

Palácio do Marquês da Praia e Monforte [1910]
Largo do Rato, 2; Calçada Bento da Rocha Cabral, 1
[Bando precatório a favor das vítimas da revolução republicana]
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, Fasc. VIII, Lisboa, 1950.

Friday, 23 August 2019

Theatro Moderno

O «Teatro Moderno», ampla sala de espectáculos, sito na antiga Rua de Nossa Senhora do Resgate, hoje Rua Álvaro Coutinho, foi inaugurado a 12 de Dezembro de 1907. Também designado por «Teatro dos Anjos» — a que o público chamava da «preta» — , por ser a  proprietária uma senhora de cor, aluiu parcialmente em 1918 tendo sido logo demolido
Hoje é lá um prédio de rendimento.

Theatro Moderno [c. 1907]
Rua Álvaro Coutinho, 15, na direcção da Rua Francisco Lázaro

 Joshua Benoliel, in A.M.L.
Theatro Moderno, ruínas [1918]
Rua Álvaro Coutinho, 15; ao fundo vêem-se alguns prédios na Avenida Almirante Reis

José Artur Bárcia, in A.M.L.

N.B. Na Travessa do Borralho — actual Rua Francisco Lázaro, dístico de 1924 — houve outro, depois cinema, o Cine-Teatro Salão dos Anjos comummente Teatro do Borralho, onde hoje é  o Lisboa Ginásio Clube (1923). 
Francisco Lázaro foi o primeiro desportista a ficar consagrado na toponímia de Lisboa, pelo Edital municipal de 09.12.1924, com a legenda «Pedestrianista Falecido em Estocolmo em 1912».

Rua Francisco Lázaro [1964]
Local onde funcionou o  Cine-Teatro Salão dos Anjos ou Teatro do Borralho, vendo-se os candeeiros que iluminavam a entrada; ao fundo a Rua Álvaro Coutinho no cruzamento com a Rua dos Anjos

João Goulart, in A.M.L.

Bibliografia
Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", vol.13, 1950.

Wednesday, 21 August 2019

Teatro do Rato

No centro dêsse quarteirão sul [do Largo do Rato] referido — recorda Norberto de Araújo — chãos e casas que primitivamente foram da Real Fábrica de Sedasrasga-se um Arco, que leva a uns terrenos (antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari, o que julgo mais acertado) nos quais à esquerda está de pé a adega e casa de pasto conhecida pela designação de «Parreirinha», e ao fundo se construíram em 1907 uns barracões sólidos, que pertencem, como oficinas, à Sociedade Portuguesa. de Automóveis, com entrada pela Rua da Escola Politécnica; uns quintalórios denunciam ainda a antiga feição rústico-fabril do local.

Largo do Rato [195]
Ao centro vê-se o arco de acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari depois Teatro do Rato
Judah Benoliel, in AML

Aqui, precisamente no sítio dos barracões, assentou o Teatro do Rato, inaugurado em 27 de Março de 1880 e que ardeu em 1906, afinal também um grande barracão de zinco e tijolo, mas por cujo tablado passaram algumas notáveis figuras da cena portuguesa, entre as quais Adelina Abranches, felizmente ainda sobrevivente de uma geração de artistas eminentes.

Arco do Largo do Rato [1944]
Acesso à antiga Quinta do Ferreira, ou do Ferrari e ao Teatro do Rato
Eduardo Portugal, in AML
Comício republicano realizado no antigo recinto do Teatro do Rato [1907-05-01]
Largo do Rato
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 15, 1939.

Sunday, 18 August 2019

Rua Andrade

O Bairro Andrade — diz Norberto de Araújo — foi aqui a grande primeira nota de urbanismo, entre campos e lugares aprazíveis; fundou-o um proprietário de terrenos locais, o qual, concedida a autorização municipal, o rasgou em xadrês regular, pondo às ruas os nomes das senhoras de sua família; leva pouco mais que quarenta anos [finais séc. XIX].


A Rua Andrade foi atribuída por deliberação camarária de 10 de Novembro de 1892, confirmada pela presidência da Câmara em 30 de Janeiro de 1893, a qual atribuiu também na mesma área os seguintes topónimos: Rua Maria Andrade, Rua Maria, Rua Palmira e Rua Antónia Andrade, no arruamento que ligava o Caminho do Forno do Tijolo com a Rua Maria.

Rua Andrade [1960]
Esquina com a Av. Almirante Reis; em frente à 'Leitaria Bijou' - antiga Farmácia Bezelga; do lado esquerdo da foto ficava o antigo Cinema Lys.
Arnaldo Madureira, in A.M.L.

Das actas das sessões da Comissão Municipal no ano de 1892, pode ler-se o seguinte sobre o dia 10 de Novembro de 1892:
«De Manuel Gonçalves Pereira d'Andrade, proprietário do 'Bairro Andrade', cujas ruas estão na posse da Câmara, pedindo que n'ellas sejam conservados os nomes que indica.
Deferido, com a alteração de Rua Antónia Andrade em vez de Rua Maria Antónia».
Daqui se pode inferir que a Rua Andrade recolhe a sua denominação do proprietário do Bairro Andrade e as restantes ruas do bairro, também indicadas pelo proprietário serão provavelmente de familiares — quiçá mulheres e filhas — do proprietário do Bairro Andrade.

Rua Andrade junto à Rua Palmira [1960]
Vendedeira de quinquilharia
Arnaldo Madureira, in AML
Nota(s): o local da foto não está identificado no A.M.L.
Rua Andrade, 55 [1960]
Vendedor ambulante de fruta
Arnaldo Madureira, in AML.
Nota(s): o local da foto não está identificado no A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 15, 1938.
cm-lisboa.pt.

Friday, 16 August 2019

Calçada do Conde de Pombeiro

Tem esta designação por aqui se situar o Palácio dos Condes de Pombeiro. A Rainha D. Catarina de Bragança para erguer o seu Paço da Bemposta, comprou neste sítio e em Santa Bárbara vários terrenos, dos quais, por lhe sobrarem, cedeu vários pedaços a pessoas amigas, e um deles, no actual Largo do Conde de Pombeiro, à sua camarista D. Luísa Ponce de Leão, para que esta pudesse ir viver para perto de si. D. Luísa era casada com o 1.º Conde de Pombeiro e foi um seu neto, o 3º conde deste título que veio a edificar aí um palácio conhecido pela Bempostinha e que o Terramoto de 1755 arruinou. [cm-lisboa.pt]

Calçada do Conde de Pombeiro com a Rua dos Anjos [1907]
Machado & Souza, in A.M.
L.

Wednesday, 14 August 2019

Grande Hotel de Inglaterra

lnstalara-se o Grande Hotel de Inglaterra no vasto prédio a esquina da Rua do Jardim do Regedor para os Restauradores, com a sua sala de jantar de estilo D. João V, como o salão de visitas. Foi inaugurado em 15 de Abril de 1906, por ocasião do décimo quinto Congresso de Medicina, que se realizou na capital. Era proprietário do hotel o senhor Abel de Barros, também dono da Pension Hotel, da Rua da Glória, centro de hospedagem preferido pelos portugueses que regressavam do Brasil. No novo estabelecimento havia pessoal português, inglês, alemão e francês.

Grande Hotel de Inglaterra [1912]
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

Joshua Benoliel, in AML

No prédio do lado oposto [da Rua 1.º de Dezembro], esquina da Rua do Jardim do Regedor — recorda Norberto de Araújo — , existiu até 1936 o Hotel de Inglaterra, que teve categoria. A Companhia, proprietária do Avenida Palace, comprou então o prédio para construir um grande Hotel, mas, como surgissem dificuldades, desfez-se do imóvel, o qual foi em 1937 adquirido pela «Ribatejana», sociedade de comércio agrícola; do Hotel novo, ou da reabertura do Hotel de Inglaterra, mais se não falou.

N.B. O edifício onde se encontrava o Grande Hotel de Inglaterra foi demolido em 1952.

Grande Hotel de Inglaterra [1910]
Praça dos Restauradores e Rua Primeiro de Dezembro (antiga do Príncipe)

«Funeral do almirante Cândido dos Reis e do doutor Miguel Bombarda (1910-10-16)»
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
MARTINS, Rocha, Lisboa: História das suas Glórias e Catástrofes, 1947.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p.  15, 1939.

Sunday, 11 August 2019

Mercados do Poço dos Mouros e de Arroios

Construído em 1942 pela “Sociedade de Construções Amadeu Gaudêncio” e projectado pelo arquitecto Luiz Benavente, o Mercado de Arroios veio substituir o antigo Mercado do Poço dos Mouros considerado anti-higiénico — ou mesmo "infecto" —, no dizer de alguns.

Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 [1927-06-20]
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 [1939]
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Eduardo Portugal, in AML

Classificado inicialmente como mercado retalhista, mais tarde desempenhou as funções de mercado abastecedor de legumes, passando á categoria de mercado misto:
“Dispunha de 31 lojas destinadas a talhos, salsicharias, venda de frutas, lacticínios, etc., e de 300 lugares de venda. No subsolo foram instalados um matadouro de aves, tulhas, cantinas e frigoríficos, para carne, peixe, caça, aves, frutas, hortaliças. Aqui também existem lavabos e chuveiros para utilização dos vendedores, público e pessoal; arrecadação para produtos e vestuários dos vendedores, devidamente numerados e uma cantina.” (Leite, 2012)

Mercado de Arroios [post. 1942]
Rua Ângela Pinto
Eduardo Portugal, in AML

Dois anos e cerca de um milhão de euros depois, o Mercado de Arroios reabriu em 2017, apresentado à freguesia de cara lavada. Os postos de venda foram remodelados, o pavimento substituído e o interior pintado. Há uma nova rede de águas e melhorias na mobilidade (rampas e novos elevadores). O final desta requalificação acontece no ano em que se celebra o 75º aniversário da construção do mercado, classificado nos anos 80 como edifício com interesse cultural.

Mercado de Arroios [1941]
Rua Ângela Pinto
in Revista municipal Lisboa

Bibliografia
cm-lisboa.pt.
Revista municipal Lisboa, 1941.
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