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domingo, 21 de dezembro de 2025

Monumento ao Marquês de Pombal

Em 1910, poucos anos depois das comemorações das comemorações do Centenário da Índia, a Praça Marquês de Pombal estava edificada como hoje [em 1939].
Quedemo-nos uns momentos diante do monumento ao Marquês de Pombal. 


A ideia de se erguer um monumento ao estadista, reedificador de Lisboa, é antiga, mas só lhe foi dada expressão pública em 1882, ano em que o Parlamento autorizou o Estado a ceder o bronze necessário. Em Abril daquele ano — recorda o ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo — constituiu-se uma comissão encarregada de promover a subscrição nacional, presidida por Rodrigues Sampaio.
Os trabalhos não tiveram sequência, e só em 1905 se voltou a um plano prático, constituindo-se nova comissão, presidida pelo Conselheiro Veiga Beirão, havendo a subscrição pública sido iniciada a 6 de Maio. Contudo, ainda desta vez a iniciativa não foi coroada de êxito, talvez porque logo em 1906 começou a agitação política que dominava todos os pensamentos.
Proclamada a República, a ideia de dar realização séria à iniciativa de havia quarenta anos, ressurgiu. Em 1913 realizou-se o concurso para o monumento, sendo apresentados catorze projectos, e aprovados quatro; destes, acabou por ser preferido (5 de Abril de 1914) aquele que sob a legenda «Gloria Progressus - Delenda reactio» era assinado por Adães Bermudes, António Couto e Francisco Santos. A escolha, feita por um júri idóneo, ao qual presidia o professor e director da Escola de Belas Artes, José Luiz Monteiro, provocou enorme celeuma, havendo muitas personalidades de categoria artística e intelectual que preferiam o projecto do arquitecto José Marques da Silva e do escultor António Alves de Sousa (ambos artistas portuenses).
A primeira pedra para o Monumento foi colocada em 15 de Agosto de 1917, mas em 13 de Maio de 1926 a cerimónia repetiu-se, havendo discursado o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República, e D. Tomaz de Vilhena, descendente do «Grande Marquês» qualificativo tradicional da família — , e ao tempo deputado monárquico.

Monumento ao Marquês de Pombal
Fundações da estátua |1927|
Fotógrafo não identificado, in LdA

Monumento ao Marquês de Pombal
Obras de desaterro |1924|
Fotógrafo não identificado, in LdA




















As obras vinham-se arrastando, por falta de verba, desde 1914. Em Março de 1924 foi nomeada uma nova comissão, à qual presidia o Dr. Magalhães Lima, estando na vice-presidência o general Vieira da Rocha; o rendimento dos selos emitidos em Dezembro de 1924 não satisfez, mas as obras de 1925 para diante entraram na fase definitiva da sua actividade. Em 13 de Maio de 1930 o Presidente da República, general Oscar Carmona, visitou as obras, já em vulto neste local. A grande estátua foi completamente assente sobre o alto fuste em 2 de Dezembro de 1933.
Finalmente em 13 de Maio de 1934 foi inaugurado o monumento, sem a solenidade que parecia de supor; assistiram o Ministro das Obras Públicas, engenheiro Duarte Pacheco, o presidente da Câmara Municipal, tenente-coronel Linhares de Lima, o governador civil, tenente-coronel João Luiz de Moura, e o presidente da Comissão, general Vieira da Rocha.
Estas anotações cronológicas, apesar de deficientes, reputo-as necessárias, pois andavam dispersas. Dêmos volta ao monumento.
Vejamos primeiramente o pedestal. Essa figura de mulher, constituída por dois blocos de pedra que pesam 17.250 quilos, na frente do monumento, representa «Lisboa reedificada»; tem cinco metros de altura — não o dirias. Sob o plinto em que ela assenta, vemos a proa de uma nau simbolizando a libertação da marinha mercante. Em baixo, dos lados, representa-se o cataclismo que assolou Lisboa na terra e no mar; destacam-se as esculturas de Plutão e Poseidon, este simbolizado num cavalo-marinho.

Monumento ao Marquês de Pombal
Ao fundo nota.se o estaleiro de obra |1934|
Tomada da Braamcamp para a Av. Fontes.
Fotógrafo não identificado, in LdA
Monumento ao Marquês de Pombal
Cabeça da figura do Marquês |1934|
Ao fundo ve-se a R. Braamcamp.
Ferreira da Cunha, in LdA



























Analisemos agora os grupos escultóricos laterais do pedestal, em seu conjunto admiráveis, apesar de algum senão que lhes possas notar. No grupo da esquerda, lado nascente, simboliza-se a agricultura, com o trabalho da lavoura, através de uma junta de bois, e de figuras bem tratadas escultoricamente, e das quais sobressaem o homem que sustenta o arado e a mulher que transporta o cabaz com uvas. O grupo do lado oposto simboliza a indústria e a pesca: um cavalo arrasta as redes, e um operário sopra o vidro; eis um conjunto também de merecimento, não apenas pela disposição mas pelo lavor das várias figuras.
Os escultores, professor Simões de Almeida e Leopoldo Neves de Almeida, que já eram colaboradores do ilustre Francisco Santos, falecido em Abril de 1930, foram os realizadores destes trabalhos, como aliás de outros que valorizam o monumento.
Na face norte (posterior) do monumento construiu-se uma alegoria objectiva à reforma da Universidade de Coimbra [vd. imagem seguinte]. Destaca-se — nota — essa figura de Minerva, em bronze, sentada, adiante do pórtico da «Universitas Conimbricensis».


Monumento ao Marquês de Pombal, face norte (posterior) |1953|
Destaca com a presença, na fachada, de um edifício clássico que simboliza a Universidade de Coimbra, à frente do qual está uma estátua de Minerva, sentada, em bronze.
Em primeiro plano nota-se o Lago do Parque Eduardo VII.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

No fuste, de grande superfície, vêem-se nas suas quatro faces legendas que exaltam o estadista e reformador; na face principal lês, comigo: «Ao genial estadista Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal — a Pátria reconhecida — MCMXXXIV».
O capitel do obelisco ostenta quatro medalhões, enlaçados nos cunhais por quatro águias; no medalhão da frente enquadra-se  a efigie de Machado de Castro, no do poente as de D. Luiz da Cunha, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia, no posterior a de Ribeiro Sanches, e no do lado nascente as de Luiz Verney, Serra da Silva e Conde de Lipe. Foram estes os principais colaboradores de Pombal.
Finalmente, ao alto, está o grupo fulcro do monumento — que mede, de alto abaixo, 36 metros: o Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força. Este grupo, de grandes dimensões (basta dizer que tem a altura de cinco homens) é de realização primorosa, prejudicada contudo na visão perspectival à distância, quando tomada do Norte e do Poente.

Monumento ao Marquês de Pombal (em obra) |1934-04-05|
No topo do monumento, sobressaem quatro medalhões que retratam os principais colaboradores de Pombal, incluindo Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Machado de Castro.
Perspectiva tomada da Av. da Liberdade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Também este grupo principal foi concluído por Simões de Almeida; a cabeça da figura do Marquês [vd. imagem acima], ainda em formação no barro, com 1,80 de altura , de enorme peso, ruíra no atelier de Francisco Santos no próprio dia em que o artista morrera (29 de Abril de 1930).
Quatro grandes colunas de mármore nobre , cada uma com quatro candelabros de braço, em bronze, decoradas com florões e laços — bom trabalho de «atelier» e de fábrica , mas de gosto discutível — guarnecem o monumento.
E aí tens num dos degraus da escadaria do sopé: «Autores: Adães Bermudes, arquitecto; António Couto, arquitecto; Francisco Santos, estatuário; colaboradores, Leopoldo de Almeida, estatuário; Simões de Almeida, estatuário».

 

Inauguração do monumento ao marquês de Pombal |1934-05-13|
 O Marquês, de corpo inteiro, assenta o braço sobre o dorso de um leão, na simbólica da serenidade e da força.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E, Dilecto, com paz na consciência, e sem beliscadura de sectarismo, digamos adeus ao monumento a Pombal. Antes, porém, anota as legendas cronológicas da vida do Marquês, e que no empedrado à portuguesa ilustram as placas que compõem a Praça.

Monumento ao Marquês de Pombal |1938-10-06|
Na base, várias figuras alegóricas dão vida à cena, como uma figura feminina que simboliza Lisboa reconstruída e três grupos escultóricos que representam as reformas de Pombal na agricultura, indústria e ensino.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa», vol. XIV, pp. 44-48, 1939.
BRITO, Francisco Nogueira de, Roteiro ilustrado de Lisboa e arredores, 1935.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Rua Joaquim Bonifácio

«[...] a Rua Joaquim (Gregório) Bonifácio (vereador da Câmara a quem chamavam o “Bota-Abaixo” porque, para aformosear, não se lhe dava demolir) é de Julho de 1882, embora fosse aberta em 1878». [Araújo: II, 1938]

A Rua Joaquim Bonifácio que se estende pelas freguesias de S. Jorge de Arroios, Pena e Anjos, foi atribuída por deliberação camarária de 20/07/1882. Mais tarde, por edital de 23/03/1929, o troço da artéria compreendida entre a Rua de D. Estefânia e a Rua Gomes Freire, tomou o nome de Rua Joaquim Bonifácio, como prolongamento deste.

Ruas Joaquim Bonifácio (e do Conde de Redondo) |1958|
Obras da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, colocação de carris para o eléctrico. 
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Joaquim Gregório Bonifácio foi vereador da CML em 1834 e presidente da edilidade de 1834 a 1836, voltando como vereador em 1840, tendo a seu cargo o pelouro da Limpeza, Passeios, Mercado Novo e Praça da Figueira. Da obra deste homem diligente e prático na cidade de Lisboa durante estes anos, registe-se os melhoramentos na Praça da Figueira, a limpeza dos restos das ruínas do Terramoto, a conclusão dos arranjos do Rossio e do Terreiro do Paço em 1841.

Rua Joaquim Bonifácio |1958|
Obras da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, colocação de carris para o eléctrico. 
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 11 de agosto de 2024

A Rua que foi do Conselheiro Moraes Soares

Este arruamento nasceu em 1906 como Rua do Conselheiro Morais Soares, no troço da antiga Estr. de Circunvalação compreendido entre a rotunda (hoje, Praça do Chile) no término da Avenida da Dona Amélia (hoje, Avenida Almirante Reis) e a Parada do Cemitério Oriental (hoje Parada do Alto de São João), e foi já após a implantação da República, pelo Edital Municipal de 27/11/1916, que passou a Rua Morais Soares, já que o título de conselheiro recordava o regime monárquico, por ser atribuído pelo soberano, tradicionalmente aos magistrados do Supremo Tribunal e por vezes, a pessoas que tinham prestado serviços honrosos.

Rua Morais Soares |195-|
Cruzamento com as Ruas Francisco Sanches e Carlos Mardel; mais acima vê-se a Praça do Chile e a R. António Pereira Carrilho.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Rodrigo de Morais Soares (1811–1881), formou-se bacharel em Medicina pela Universidade de Coimbra. Foi professor e comissário de estudos. Desempenhou diversas funções na Administração Pública, como especialista em assuntos aduaneiros, agrícolas e financeiros. Foi chefe da repartição de Agricultura da Secretaria das Obras Públicas e mais tarde Director geral, tendo fundado a Quinta Regional de Sintra e o Instituto Agrícola. Fundou o jornal “Arquivo Rural” e publicou diversos textos sobre temas agrícolas e financeiros. Foi deputado, eleito em várias legislaturas. 
Na Academia das Ciências de Lisboa foi eleito sócio correspondente da classe de Ciências Morais, Políticas e Belas Letras a 2 de Novembro de 1865.

Rua Morais Soares |1960|
Esquina com a Rua Carlos Mardel.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Avenida Cinco de Outubro

Cinco de Outubro, data da implantação da República no ano de 1910, foi fixada pela edilidade lisboeta logo no seu primeiro Edital de toponímia, um mês após a implantação da República, em 5 de Novembro de 1910.
Até aí esta artéria designava-se Rua António Maria de Avelar, por deliberação camarária de 12 de Agosto de 1897, tendo passado a Avenida, por deliberação camarária de 4 de Dezembro de 1902, homenageando um engenheiro (1854–1912) e funcionário da Câmara de Lisboa desde 1879, ligado ao plano das Avenidas Novas já que substituiu por longos períodos o director-geral das Obras Municipais, Ressano Garcia. A proposta para ser alterada para Avenida Cinco de Outubro partiu do vereador Nunes Loureiro na reunião de câmara de 6 de Outubro de 1910 e foi aprovada por aclamação. [cm-lisboa]

Avenida Cinco de Outubro, 81 |1955-06-28|
Esquina com a Av. Miguel Bombarda. O prédio mais alto, ao fundo, com o número de policia 63, no gaveto com a Av. João Crisóstomo, ainda lá está. 
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): mais uma imagem erradamente catalogada no abandalhado aml como «Avenida Conde de Valbom»

domingo, 28 de abril de 2024

Rua Dom João V

Este arruamento foi rasgado no meado da década de 1940 [vd 2ª imagem] na anterior «Rua A à Rua das Amoreiras». O topónimo foi atribuído pela edilidade em 22 de Junho de 1948.
O Edital de 22 de Junho de 1948 veio confirmar a proposta da Comissão de Toponímia datada de 8 de Junho do mesmo ano, que atribuía os topónimos aos novos arruamentos à Rua das Amoreiras, homenagem que incidiu nas seguintes personalidades: Dom João V (Rua A), Custódio Vieira (Rua B), Dom Tomás de Melo Breyner (Rua C) e Cláudio Gorgel do Amaral (Rua D). 

Rua Dom João V |195-|
Perspectiva tomada a partir do terraço do reservatório da Mãe de Água das Amoreiras. 
Helena Corrêa 
Barros, in Lisboa de Antigamente

Dom João V (1689-1750) foi o vigésimo quarto rei de Portugal, e o seu reinado, 1707-1750 (ano da sua morte), foi um dos mais longos da História portuguesa. Nasceu a 22 de Outubro de 1689, e foi aclamado rei a 1 de Janeiro de 1707. Adquire o cognome de «Magnânimo» devido à promoção de obras grandiosas como o Convento de Mafra edificado para agradecer o nascimento do seu primeiro filho varão.
O monarca marcou Lisboa com a construção do imponente Aqueduto das Águas Livres. A ele se deveu também a construção do Convento das Necessidades e da Igreja de Santa Engrácia, transformada no século XX em Panteão Nacional.

Panorâmica tirada da Mãe de Água sobre a Quinta do Biaggi vendo-se a abertura da futura Rua Dom João V |1943-06]
Atalaia (ou mirante?) existente na Quinta do Biaggi.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Avenida dos Estados Unidos da América com a Rua Guilhermina Suggia (actualizado)

A 30 Janeiro de 1941 é apresentado o «Projecto da Avenida dos Estados Unidos da América do Norte», elaborado pelo Engenheiro Manuel Botelho da Costa para a Direcção de Serviços de Urbanização e Obras (DSUO) da CML. A avenida começaria a ser contruída no início da década de 1950.
Entre 1949 e 1952, são erguidos os primeiros edifícios de de 4 pavimentos na avenida e na Rua Guilhermina Suggia [vd. 2.ª imagem], segundo projecto da autoria dos arquitectos Joaquim Ferreira e Orlando Azevedo.
 
Avenida dos Estados Unidos da América [1951]
Esquina com a Rua Guilhermina Suggia; foto tirada da Avenida Almirante Gago Coutinho.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Cinco anos após o seu falecimento, Guilhermina Suggia, a primeira mulher a fazer carreira de violoncelista a solo, entrou na toponímia alfacinha pelo Edital de 20/10/1955, na anteriormente designada Rua 59 do sítio de Alvalade, por sugestão do Vice-Presidente da Câmara, Luís Pastor de Macedo.

Rua Guilhermina Suggia [c. 1952]
Antiga Rua 59 do sítio de Alvalade; perspectiva tirada da Av. dos Estados Unidos da América.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia (1885–1950) foi uma violoncelista que desde cedo fez uma carreira internacional absolutamente extraordinária que além de grande reconhecimento lhe granjeou discípulas como Thelma Reiss ou Raya Garbousova.

Rua Guilhermina Suggia (S→N) |c. 1952|
Antiga Rua 59 do sítio de Alvalade; perspectiva tirada da Av. dos Estados Unidos da América.
Eduardo Portugal,, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Quiosque da Rua da Palma

A Morte dos Quiosques
No vasto plano de remodelação citadina o camartelo municipal entendeu que devia demolir vestígios da antiga cidade. Procurou fazê-lo com bom senso. (...) Alguns, senão todos, de inestética memoria, lá foram ao garrote e deles existe hoje somente o sítio onde se ergueram, onde a concorrência heterogénea acampou durante muitos anos, gostando principalmente das suas libações.
(in O Notícias Ilustrado de 6 de Janeiro de 1929)

Quiosque da Rua da Palma [1929]
Ourivesaria Cunha; edifícios e arruamentos extintos aquando das demolições na Mouraria nas décadas de 1930-40.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sábado, 28 de maio de 2022

Abertura da Avenida Almirante Reis (Norte) (actualizado)

Do nosso tempo é a grande artéria de Almirante Reis — recorda Norberto de Araújo —, que sucedeu na designação, como tenho dito, à Avenida de D. Amélia: tem 40 anos incompletos [c. 1900]. É uma linha urbana de primeira categoria, sem história, que começou a rasgar-se timidamente no final do século passado [séc. XIX]. Obedeceu a um plano, e por esta circunstância oferece o esplendoroso aspecto citadino que se lhe nota.
Assim fosse sempre em Lisboa.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 73, 1938)

Abertura da Avenida Almirante Reis (N.), obras de requalificação [1938-12-26]
Edifícios junto a Rua Lucinda do Carmo, próximo da futura Praça do Areeiro, que se vê ao fundo.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Abertura da Avenida Almirante Reis (N.) [1940-09-16|
Retoques finais das obras para o prolongamento da avenida até ao "Arieiro" como se pode ler na "bandeira"- Era aqui, pela R. Lucinda do Carmo R. Alves Torgo, Areeiro, que os elétricos "faziam a agulha"  — como se vê pelo traçado dos carris — enquanto duraram as obras. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. O topónimo R. Lucinda do Carmo foi atribuído pela CML em 1932 à antiga "R. nº 10" Lucinda do Carmo 1861-1922, actriz, estreou-se aos 21 anos no Teatro do Ginásio.

Avenida Almirante Reis (N.) |1962|
Edifícios junto a Rua Lucinda do Carmo com a Praça do Areeiro, ao fundo.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Praça do Marquês de Pombal, obras do Metropolitano de Lisboa

Obras de remodelação da Praça aquando da construção do Metropolitano de Lisboa. Ao fundo, a Avenida Fontes Pereira de Melo ainda pontuada pelos antigos palacetes erguidos no dealbar do século XX — Ramires e Sabrosa, hoje demolidos; Rua Camilo Castelo Branco; á esq., a Av Sidónio Pais (1945) e o Parque Eduardo VII.

Panorâmica da Praça do Marquês de Pombal |c. 1959|
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O lançamento da primeira pedra do monumento ao Marquês de Pombal data de Maio de 1882, repetindo-se a 15 de Agosto de 1917 e a 13 de Maio de 1926. As obras arrastaram-se, por falta de verbas, e o monumento só seria inaugurado a 13 de Maio de 1934, numa cerimónia «sem a solenidade que parecia supor.» [Araújo: 1939]

Panorâmica da Praça do Marquês de Pombal |c. 1959|
Avenida Fontes Pereira de Melo em obra vendo.se na esq. baixa o Palacete Ramires
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Rua do Telhal

Era já sabido de nossos paes, que, em sendo terça-feira, á tarde, trepavam, conforme podiam, pela rua do Telhal acima, muitos e bons sucios, contentes de estarem neste mundo, todos de barriga cheia com a alegria a descançar em cima d'ella como um pachá no coxim. [Os Dois mundos, 1879]


Este é um topónimo cuja fixação na memória de Lisboa se desconhece embora já apareça referido nos registos paroquiais de 1755 da Freguesia de S. José bem como nas plantas paroquiais executadas em 1770 e depois, em 1857, no «Atlas da Carta Topográfica de Lisboa» de Filipe Folque.

 

Rua do Telhal [1907]
Cruzamento com a Rua de São José
Machado & Souza


Rua do Telhal [1907]
Junto ao nº. 31 e descendo no sentido da Rua das Pretas
Machado & Souza



Por documentos camarários de, respectivamente, 1874 e 1875, sabe-se que o arruamento foi alargado e macadamizado. [cm-lisboa.pt]

Rua do Telhal [1953]
Demolições e obras de pavimentação.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 4 de agosto de 2019

Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 (actualizado)

Edifício para habitação destinado a Emílio Leguori, construído por Augusto Carlos da Cunha, a partir de um projecto do arquitecto Ventura Terra (1902).
Este edifício foi desenhado de uma forma simétrica, nos seus aspectos relacionados com a métrica de vãos e desenho de varandas. Duas faixas de azulejo, no topo e ao nível do piso térreo, conferem-lhe horizontalidade em contraponto com a verticalidade dos vãos. A zona de esquina é marcada exteriormente por três varandas sobrepostas, unidas por um pano de marquise em dois níveis na continuidade e largura do vão principal constituído pela entrada e respectivo desenho em pedra.

Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [c. 1910]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; ao fundo vê-se o palacete «Casa da Cerâmica».
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Uma proposta de 1940, tendo em vista retirar os envidraçados das marquises por se encontrarem em mau estado, não foi aceite por parte da Câmara, apesar de um primeiro parecer estar de acordo com a supressão dos mesmos, já que "em nada afectaria a expressão arquitectónica do edifício em questão, que segundo se julga só lucrará com essa circunstância", refere o texto da proposta. 
A necessidade de realizar obras por parte de um novo proprietário, a partir de 1940, levou a que o mesmo se dirigisse à Câmara solicitando a sua anulação relativamente ao interior das habitações. Curiosamente, refere o proprietário que "as rendas são antiquíssimas e de reduzido valor, para habitações de dezoito amplíssimas divisões, todas elas habitadas por gente rica. (...) Presentemente encontro-me exausto de recursos por muito tempo assim permanecerei, por os encargos dos empréstimos que contraí me absorverem todas as economias que venha fazer. Não seria justo que, para beneficiar inquilinos ricos, satisfeitos com a sua habitação, fosse obrigado a fazer obras desnecessárias, gastando nelas dinheiro que não tenho, forçando-me a usar novamente o crédito,aumentando mais os encargos, já neste momento preocupante, pelo seu montante". 

Edifício sito na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1917]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa [vd. N.B.]; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso»; manifestação.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1946, foram substituídas as marquises de ferro, que se encontravam em ruína, para outras construídas em estrutura de betão [vd. última imagem]. Este projecto foi assinado pelo arquitecto Norte Júnior e pelo engenheiro Francisco Ventura Rego.
Em 1972, a Sojornal, proprietária do jornal Expresso, instala-se neste edifício, ocupando-o na totalidade. Em 1990, esta sociedade solicita uma remodelação do imóvel, com ampliação em altura, construção de 4 caves para estacionamento e conservação da fachada. O projecto foi reprovado pela Câmara Municipal em função dos planos urbanísticos em vigor para a zona e do estudo volumétrico do quarteirão, aprovado em 1980. Apesar do protesto do interessado, com base em pareceres jurídicos, a obra nunca se concretizou.

Rua Braamcamp vista da Praça do Marquês de Pombal [194-]
Prédio de Rendimento, construido em 1902, foi residência de Afonso Costa; em 1972 foi ocupado pelo jornal «Expresso».
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

N.B. Afonso Costa (1871-1937) foi Presidente do Conselho de Ministro, ministro, dirigente do Partido Republicano e do Partido Democrático.
Em Outubro de 1910, um levantamento popular conseguiu implantar a República, não tendo havido uma resposta determinada do Exército. Formou-se um Governo provisório chefiado por Teófilo Braga, tentando impor um regimento com apoios unicamente na população urbana num país rural. Afonso Costa ficou com a pasta da Justiça: fez uma revolução num ministério que primava pela discrição. Iniciou reformas claramente anti-clericais, que contribuíram para o aumento da impopularidade do novo regime junto da população e da ala conservadora do republicanismo. Mas o ministro da Justiça e dos Cultos não cedeu às pressões e continuou com a política de afirmação dos valores laicos da República e de separação do Estado das igrejas, instituindo também o registo civil obrigatório.  
 
Edifício na Rua Braamcamp, 3A-B esquina com a Rua Duque de Palmela, 35-37 [1961]
Observam-se as novas marquises em betão construidas em 1946. Em 1972 albergou o semanário «Expresso».
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
MANGORRINHA, Jorge, Arquitecturas de esquina em Lisboa, 2014.

domingo, 25 de novembro de 2018

Largo do Rato: antes e após as demolições na década de 1930

Rato foi e Rato é —  diz Norberto de Araújo; só os dísticos municipais e os letreiros dos eléctricos dizem Praça do Brasil, titulo pomposo com o qual a República portuguesa nascente em 1910 quis consagrar a República irmã mais velha de Além Atlântico.[...]


De um padroeiro [Luís Gomes de Sá e Meneses], do Convento das freiras da Santíssima Trindade [Convento das Trinas] se trespassou para a casa religiosa e para o sítio do seu eirado o nome de «Rato», que era um cognome, quási apelido pessoal.

Largo do Rato, do nascente para o poente [1929]
 Antiga Praça do Brasil, antes Largo do Rato, antes Rua do Rato, antes Rua Direita do Rato
Ao fundo, a Rua do Sol ao Rato e o antigo Teatro Joaquim de Almeida (1925-1930); em último plano fundo, à direita, vislumbra-se o telhado do Convento das Trinas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 Largo do Rato, do poente para o nascente [1929]
 Antiga Praça do Brasil, antes Largo do Rato, antes Rua do Rato, antes Rua Direita do Rato
Esquina com a Rua de S. Bento; ao fundo, a Rua do Salitre e, à esq., por detrás doa edifícios marcados para  demolição, vê-se o o Palácio do Marquês da Praia e Monforte (actual sede do P.S.).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Já antes do Terramoto o Largo do Rato crescia em póvoa, em tumulto de tendas ao ar livre, e algum casario; (...) Depois do cataclismo, o sítio converteu-se em acampamento de foragidos, de tal modo que, em 1759, se determinou dar ao eirado ou largo a forma urbanística que perdurou até 1937; abriram-se depois, em rectificação de caminhos entre quintas, a Rua da Fábrica da Louça [Calçada Bento da Rocha Cabral], a Praça das Amoreiras, e a Rua de S. Filipe Nery, esta mais tardia.

Largo do Rato [1937]
Antiga Praça do Brasil, antes Largo do Rato, antes Rua do Rato, antes Rua Direita do Rato
Do lado esq., o Palácio do Marquês da Praia e Monforte.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Largo do Rato [1937]
Antiga Praça do Brasil, antes Largo do Rato, antes Rua do Rato, antes Rua Direita do Rato
Do lado dir., o Palácio do Marquês da Praia e Monforte e o
Convento das Trinas
 Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto deo, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 11-12, 1939.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Avenida Fontes Pereira de Melo: obras do Metropolitano de Lisboa

O primeiro projecto de um sistema de caminhos-de-ferro subterrâneo para Lisboa data de 1888, é da autoria do engenheiro militar Henrique de Lima e Cunha. Publicado na revista Obras Públicas e Minas, previa a um traçado que ligasse Santa Apolónia a Algés, com passagem pelo Rossio, São Bento, Janelas Verdes e Alcântara. O custo do empreendimento estava orçado em 500$000 réis por metro corrente de túnel. A proposta não avançou. 
Mais tarde, nos anos 20 do século XX, dão entrada na Câmara Municipal de Lisboa dois projectos, respectivamente, de Lanoel d’Aussenac e Abel Coelho (1923) e de José Manteca Roger e Juan Luque Argenti (1924), que não tiveram seguimento.

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1955 e 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa; Palácio Sotto-Mayor
Judah Benoliel,in Lisboa de Antigamente

Somente a partir da 2ª Guerra Mundial com a retoma da economia e no seguimento das políticas de electrificação e aproveitamento dos fundos do Plano Marshall, surge com plena vitalidade a decisão de se construir um Metropolitano para Lisboa. A sociedade é constituída a 26 de Janeiro de 1948 e tinha como objectivo o estudo técnico e económico, em regime de exclusivo, de um sistema de transportes colectivos fundado no aproveitamento do subsolo da cidade. A concessão para a instalação e exploração do respectivo Serviço Público veio a ser outorgada em 1 de Julho de 1949.

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1955 e 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

 Em Setembro de 1954, o Eng.º Francisco de Mello e Castro é nomeado presidente do Metro (cargo que desempenhou até ao final de Agosto de 1972). E no dia 18 é aberto o concurso para adjudicação das obras, material circulante e instalações fixas. As propostas são abertas em Dezembro e conduzem a um encargo total de 196 mil contos. 

Avenida Fontes Pereira de Melo [entre 1955 e 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Os trabalhos de construção iniciaram-se em 7 de Agosto de 1955 e, quatro anos depois, em 29 de Dezembro de 1959, o novo sistema de transporte foi inaugurado. No dia seguinte, por volta das três horas da manhã, existiam filas intermináveis à porta das estações para utilizar o novo meio de transporte. A afluência foi tanta que algumas estações foram obrigadas, por motivos de segurança, a cancelar temporariamente a venda de bilhetes de forma a que os passageiros não invadissem o cais. Entre as principais atracções estavam as escadas rolantes da estação do Parque. 
A rede aberta ao público consistia numa linha em Y, com uma extensão de 6,5 quilómetros, percorridos por 24 comboios, e 11 estações, com dois troços distintos, Sete Rios (actualmente, Jardim Zoológico) – Rotunda (actualmente, Marquês de Pombal) e Entrecampos – Rotunda (Marquês de Pombal), confluindo num troço comum, Rotunda (Marquês de Pombal) – Restauradores.

Avenida Fontes Pereira de Melo [c. 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa; Praça do Duque de Saldanha
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A estação Rotunda (Marquês de Pombal) permitia a correspondência entre os dois primeiros troços. Foi um importante acontecimento para a cidade e constituiu um enorme êxito, tendo-se elevado a 15,3 milhões o número de passageiros transportados no primeiro ano de exploração. O Metropolitano de Lisboa era, ao tempo da sua inauguração, o 14.º da Europa e o 25.º no mundo. O pioneiro fora o Metropolitano de Londres, em 1863, a partir da ideia de Charles Pearson, o inventor deste meio de transporte.

Avenida Fontes Pereira de Melo [c. 1959]
Obras do Metropolitano de Lisboa; Palacete  Gabriel José Ramires; Rotunda  Praça Marquês de Pombal
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
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