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sexta-feira, 25 de abril de 2025

Da Revolução dos Cravos de 1974 à Constituição da República Portuguesa de 1976

O 25 de Abril de 1974, marco fundamental na história recente de Portugal, implantou o Estado de Direito, a Liberdade e a Democracia no país, que se passaria a reger-se pela Constituição da República publicada em 1976. A constituição é um conjunto de normas que regem um Estado (país) que pode ser ou não codificado como um documento escrito, que enumera e limita os poderes e funções de uma entidade política. 
Essas regras formam, ou seja, constituem o que a entidade política é. (...) A Constituição da República Portuguesa de 1976 é aquela que ainda hoje se mantém em vigência. Foi redigida pela Assembleia Constituinte eleita na sequência das primeiras eleições gerais livres no país, a 25 de Abril de 1975, no primeiro aniversário da Revolução dos Cravos. Entro em vigor no dia 25 de Abril de 1976. [Cunha: 20221

Rua Garrett esquina com a Rua Serpa Pinto |25 de Abril de 1974|
Revolução de 25 de Abril de 1974
Viatura Blindada de Reconhecimento Panhard EBR 75 17 Ton. 7,5cm 8X8 M/1959. Todas as 50 adquiridas por Portugal em 1959 vinham com a torre FL 10. Além da peça dispunha de 3 metralhadoras 7,5mm. Guarnição de 4 militares, motor a gasolina e autonomia entre os 650 e os 700 km. Blindagem entre 10 e 40mm (EBR- Engin Blindé de Reconnaissance). 
Simbologia relativa a antiga Região Militar Tomar, quando a viatura estava adstrita à Escola Prática Cavalaria em Santarém.
Gouveia, in Lisboa de Antigamente

05H00 - Apesar da a esta hora já vários responsáveis militares e governamentais estarem ao corrente do Movimento militar é Silva Pais (Director da PIDE/DGS) que telefona ao Presidente do Conselho Marcelo Caetano informando: “Senhor Presidente, a Revolução está na rua! O caso é muito grave. Os revoltosos ocuparam já as principais emissoras de rádio e a Televisão e tomaram o Quartel General da Região Militar de Lisboa. Caçadores 5 está com eles” Pouco depois em novo telefonema Silva Pais recomenda: “É indispensável que V.Exa. saia de casa com a maior urgência. Vá para o quartel do Carmo que a GNR está fixe”.
15H10 - Seguindo as instruções do Posto de Comando da Pontinha, as forças lideradas pelo Capitão Salgueiro Maia dirigem-se para o Quartel-General da Guarda Nacional Republicana, no Largo do Carmo, onde se encontram refugiados o ditador Marcelo Caetano e alguns dos seus ministros. As ruas que conduzem àquele Largo são bloqueadas por viaturas militares.

15H25 - Esgotado o tempo concedido para a rendição do Quartel do Carmo, o Cap. Salgueiro Maia dá ordem ao Ten. Santos Silva para com as metralhadoras da torre da sua Chaimite, abrir fogo sobre a parte superior da frontaria do quartel. São disparadas várias rajadas estoirando vidraças da frontaria do edifício. [a25abril]


Avenida da Liberdade |25 de Abril de 1976|
Da Revolução dos Cravos de 1974 à Constituição da República Portuguesa de 1976.
Chalber, in Lisboa de Antigamente

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
                          Sophia de Mello Andresen
                          in O Nome das Coisas, 1974

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Imagens reais do dia 25 de Abril de 1974

O capitão Salgueiro Maia desloca parte das suas tropas para o Quartel do Carmo onde está o chefe do governo, Marcelo Caetano, que acaba por se render no final do dia com apenas uma exigência: entregar as responsabilidades de governação ao General António Spínola, oficial que não pertencia ao MFA, para que «o poder não caía nas ruas». O Presidente do Conselho, que anos antes tinha sucedido a Salazar no poder, é transportado para a Madeira e daí enviado para o exílio no Brasil.
 

Revolução dos Cravos: 25 de Abril de 1974

Cravo: o símbolo da revolução

 

No próprio dia da revolução, uma pastelaria na Baixa preparava-se para comemorar mais um aniversário oferecendo flores a todos os clientes. A funcionária encarregada de comprá-las passou pelos militares e começou a distribuí-las — cravos vermelhos. Os soldados puseram-nos nos canos das espingardas.
Esta imagem feliz de uma arma que, ainda que dispare, só irá atirar flores, foi captada por fotógrafos e adoptada para cartaz largamente divulgado. O cravo tornou-se a imagem da revolução e o 25 de Abril ficou conhecido (pelo menos nos seus primeiros tempos) como a Revolução dos Cravos.

Praça Dom João da Câmara
25 de Abril de 1974
Fotógrafo não identificado, Jornal Diário de Notícias, in Lisboa de Antigamente

A Ditadura Militar instituída a 28 de Maio de 1926 deu origem, volvidos escassa meia dúzia de anos, ao Estado Novo idealizado e gerido por Salazar. Afastado este do poder, por doença incapacitante, a chefia do governo é entregue a Marcello Caetano, que, entre outros problemas por resolver, herda uma guerra colonial em três frentes, sem solução militar à vista nem vontade política de optar por uma solução política negociada. Cansados da guerra, os militares profissionais encetam movimentações de carácter corporativo que rapidamente se transformam em reivindicações políticas, acabando por encarar como única saída o derrube do regime pela força.
 
Rua Garrett
Seguindo as instruções do Posto de Comando da Pontinha, as forças lideradas pelo Capitão Salgueiro Maia dirigem-se para o Quartel-General da Guarda Nacional Republicana, no Largo do Carmo, onde se encontram refugiados Marcelo Caetano e alguns dos seus ministros.
25 de Abril de 1974
Fotógrafo não identificado, Jornal Diário de Notícias, in Lisboa de Antigamente

Será o Movimento das Forças Armadas (MFA) que irá desencadear uma revolta militar em grande escala, conseguindo derrubar o regime sem o emprego da força e sem causar vítimas. Depois de uma tentativa frustrada, protagonizada pelo Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, a 16 de Março de 1974, o processo revolucionário acelera. Na noite de 24 para 25 de Abril, duas estações de radiodifusão lançam para o ar duas canções que irão adquirir um simbolismo particular — E Depois do Adeus, interpretada por Paulo de Carvalho, que soa como uma despedida do governo marcelista, e Grândola Vila Morena, interpretada pelo poeta banido José Afonso, um conhecido opositor do regime, canção esta que transporta uma mensagem de conteúdo democrático ao evocar a vilazinha de Grândola — onde o povo é quem mais ordena — , desencadeando as operações militares, superiormente coordenadas pelo major Otelo Saraiva de Carvalho. Em perfeita coordenação, elementos envolvidos na conspiração tomam conta das respectivas unidades, formam colunas de voluntários, convergem para os grandes centros e ocupam todos os pontos estratégicos do país, colocando as forças fiéis ao governo em posição de desvantagem e na defensiva. Sem disparar um tiro, cobrem praticamente todo o país.

Rua Áurea
Populares observam o aparato militar na Rua do Ouro, selando o acesso à Praça do Município. Legenda de Adelino Gomes: A população não segue os conselhos dos militares e vem para a rua, curiosa e fascinada, enquanto na zona da Praça do Município instruendos do CSM da Escola Prática de Cavalaria, pertencentes ao 5.º pelotão de atiradores, esperam, de armas na mão, as forças leais do governo. (cerca das 09H).
25 de Abril de 1974
Alfredo Cunha, in Lisboa de Antigamente

Dois momentos de tensão apenas se registam naquela primeira fase, ambos em Lisboa, ambos protagonizados por um jovem capitão de Cavalaria, Salgueiro Maia — um encontro com um destacamento de blindados obediente ao Governo, que por pouco não redunda em acção de fogo, mas que se resolve quando as tropas envolvidas se colocam às ordens de Salgueiro Maia; outro, horas mais tarde, quando o mesmo oficial manda abrir fogo sobre a parede exterior do quartel da GNR no Carmo {veja um pequeno filme desta acção aqui], como forma de persuadir Marcello Caetano, lá refugiado, a render-se. O chefe do Governo acaba por se render ao General António de Spínola, com medo de que o poder "caísse na rua", e a tensão desce.
Só um incidente irá manchar os acontecimentos: agentes da PIDE/DGS, barricados na sua sede, abrem fogo sobre manifestantes, causando alguns mortos e feridos. Apesar da sua brutalidade, não passa de um acto de desespero, não sendo sequer um acto de defesa do regime. Tal como a Monarquia a 5 de Outubro de 1910 e a República a 28 de maio de 1926, um regime cai por não ter já quem o defenda e queira dar a vida por ele.

Rua António Maria Cardoso
Legenda de Adelino Gomes: Forças de cavalaria, de infantaria e da marinha ocupam as entradas da Rua António Maria Cardoso, onde se situa a sede da PIDE/DGS.
25 de Abril de 1974
Alfredo Cunha, in Lisboa de Antigamente
Revolução dos Cravos de 1974 A revolução de 25 de Abril de 1974
Soldados ocumpam o o piso superior do Elevador de Santa Justa.
25 de Abril de 1974
Claudino Costa Madeira, in Lisboa de Antigamente

Os revoltosos fizeram sair do Quartel do Carmo o primeiro-ministro, Marcello Caetano, Rui Patrício, César Moreira Baptista e outros membros do Governo num carro de combate (Chaimite, Bula), a fim de os poupar à exaltação da multidão. Pouco depois seriam transferidos para a ilha da Madeira, e daí, a 20 de Maio, para o Brasil, com o que a revolução criou um precedente de tolerância que iria servir, em fases posteriores, para permitir ultrapassar as dificuldades sem derramamento de sangue.
Algumas horas após a transmissão de poderes de Marcello Caetano para as mãos de Spínola, constitui-se um órgão governativo provisório, com representação de todos os ramos das Forças Armadas (a Junta de Salvação Nacional; os militares subalternos que acabavam de fazer triunfar a revolução do Movimento dos Capitães, em nome do respeito pelas hierarquias, entregavam o poder nas mãos de oficiais generais. (infopedia.pt)

Cronologia resumida:

22:55 [24 de Abril de 1974] - Os Emissores Associados de Lisboa faz a transmissão de “E depois do adeus”, de Paulo de Carvalho, dando ordem de partida para a saída dos quartéis.

00:20 - O programa "Limite" da Rádio Renascença transmite a canção “Grândola Vila Morena”, de José Afonso, segundo sinal do MFA, para que os militares dessem início às operações previstas.

03:00 - Início do cumprimento das missões militares, de acordo com o Plano Geral das Operações”.

04:20 - O Rádio Clube Português transmite o primeiro comunicado do MFA. O Aeroporto de Lisboa e o Aeródromo Base de Figo Maduro são ocupados pela coluna da EPI-Escola Prática Infantaria (Mafra).

Avenida Ribeira das Naus
Legenda de Adelino Gomes: Tenente-Coronel Ferrand de Almeida, o Capitão Salgueiro Maia e o seu adjunto, Tenente Assunção (na foto, primeiro, segundo e terceiro a contar da direita) (...) e o ex-Alferes Brito e Cunha (na foto, à civil) são protagonistas dos primeiros momentos de tensão, quando forças do RC-7 [Regimento de Cavalaria 7], fiéis ao governo, progrediram do Cais do Sodré em direcção aos blindados da EPC [Escola Prática de Cavalaria]". (cerca das 10h-10H30)
25 de Abril de 1974
Alfredo Cunha, in Lisboa de Antigamente

06:45 - O Posto de Comando toma conhecimento de que Marcello Caetano, Presidente do Conselho de Ministros, está no Quartel do Carmo.

Rua do Arsenal
Legenda de Adelino Gomes: "Panhards" e uma EBR da Escola Prática de Cavalaria barraram o caminho aos carros de combate M47 de Cavalaria 7,  força fiel ao governo sob comando do Brigadeiro Junqueira dos Reis. Salgueiro Maia em primeiro plano, correndo em direcção ao Terreiro do Paço. (cerca das 10H00).
25 de Abril de 1974
Alfredo Cunha, in Lisboa de Antigamente

08:30 - Uma força da PSP chega ao Terreiro do Paço, mas nem tenta entrar em confronto com as tropas de Salgueiro Maia.

Legenda de Adelino Gomes: O dispositivo ocupa o Terreiro do Paço ao fim da madrugada e surpreende-se com a presença dos navios da NATO que já deviam ter-se feito ao largo para participar no exercício «Dawn Patrol».[contratorpedeiro Huron, da marinha do Canadá]
  Praça do Comércio, 25 de Abril de 1974
Alfredo Cunha, in Lisboa de Antigamente

11:30 - Salgueiro Maia comanda as forças da EPC (Escola Prática de Cavalaria), que vão cercar o Quartel da GNR no Largo do Carmo, em Lisboa.

Carro de combate selando o acesso ao Largo do Carmo, a partir da Calçada do Sacramento
Os blindados sobem com dificuldade as ruas íngremes da baixa lisboeta, rumo ao Largo do Carmo.
Fotógrafo não identificado, Jornal Diário de Notícias, in Lisboa de Antigamente

11:45 - O MFA informa o país, através do RCP, que domina a situação de Norte a Sul.

12:30 - As forças de Salgueiro Maia cercam o Largo do Carmo e recebem ordens do Posto de Comando para abrir fogo sobre o Quartel da GNR, para obter a rendição de Marcello Caetano.

Legenda de Adelino Gomes: Aceite a rendição de Marcelo Caetano, os portões abrem-se e iniciam-se os preparativos para o transporte até à Pontinha do Chefe do Governo e respectivos ministros, que abandonam o local num blindado Chaimite de nome "Bula" (...). Um coro gigantesco de assobios e palavras de ordem antifascistas acompanham a saída da coluna com os prisioneiros. (cerca das 19H30).
Largo do Carmo, 25 de Abril de 1974
Alfredo Cunha, in Lisboa de Antigamente

15:10 - Por ordem do Posto de Comando, Salgueiro Maia pega num megafone e faz um ultimato à GNR para que se renda, ameaçando rebentar com os portões do Quartel do Carmo, dizendo: «Atenção Quartel do Carmo, atenção Quartel do Carmo. Damos 10 minutos para se renderem. Todas as pessoas que ocupam o quartel devem sair desarmadas e com as mãos no ar. Se não saírem destruiremos o edifício.».

Largo do Carmo: Salgueiro Maia pega num megafone e faz um ultimato à GNR
25 de Abril de 1974
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
18:00 - Spínola chega ao Largo do Carmo e, acompanhado por Salgueiro Maia, entra no Quartel para dialogar com Marcello Caetano.

18:30 - A Chaimite Bula entra no Quartel do Carmo para transportar Marcelo Caetano à Pontinha.

23:30 - É promulgado o Decreto-Lei n.º 171/74, da Junta de Salvação Nacional, que extingue a PIDE/DGS , a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a Mocidade Portuguesa Feminina e o Secretariado para a Juventude e insere novas disposições relativas às atribuições da Polícia Judiciária e da Guarda Fiscal. A PIDE/DGS era somente extinta em Portugal Continental, sendo reorganizada em Polícia de Informação Militar «nas províncias»

Rua do Carmo, concentração popular
25 de Abril de 1974
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

(...) É promulgada a Lei n.º 1, da Junta de Salvação Nacional, que destitui das suas funções o Presidente da República, o Presidente do Conselho e o Governo e dissolve a Assembleia Nacional e o Conselho de Estado e determina que todos os poderes atribuídos aos referidos órgãos passem a ser exercidos pela Junta de Salvação Nacional.

Rua do Carmo, concentração popular
25 de Abril de 1974
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
para o E.
com eterna gratidão

sábado, 23 de abril de 2016

A revolução de Sidónio Pais

A revolução de Sidónio Pais começa em 5 de Dezembro de 1917 quando as suas tropas acampam na Rotunda (hoje Pç. Marquês de Pombal) para derrubar o governo de Afonso Costa.
No período em que a participação de Portugal na I Guerra Mundial marcava a conjuntura política, económica e social do país, Sidónio Pais lidera a revolta militar triunfante, que se saldará na constituição de uma Junta Militar (a que preside), na dissolução do Parlamento, no derrube do governo de Afonso Costa e na destituição do Presidente da República Bernardino Machado. 
Faz a primeira proclamação ao País onde se propõe a criação de uma República Nova e suspende a Constituição de 1911, é eleito por sufrágio directo para a Presidência da República e cria um Senado profissional. O regime presidencialista de Sidónio Pais (1872—1918) não sobreviveria à sua morte.

Trincheiras na Rotunda [actual Praça Marquês de Pombal] construídas aquando da Revolução de Sidónio Pais a 5 de Dezembro de 1917
Parque Eduardo VII, antigo Vale de Pereiro, vendo-se ao fundo, a Cadeia Penitenciária de Lisboa na Rua Marquês de Fronteira.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Apesar de uma intensa actividade legislativa, a República Nova não possui um programa definido para contrapor ao regime anterior, nem quadros à altura para desempenhar a tarefa da governação. Num ano de ditadura dão-se três remodelações ministeriais, o que agrava a instabilidade governamental e introduz um princípio de caos na administração pública. A primeira, em Março de 1918, na sequência da demissão dos ministros unionistas, dá lugar ao segundo governo sidonista. A segunda, em Maio, empossa o terceiro governo de Sidónio. A terceira, em Outubro, dá posse ao quarto e último governo sidonista.

General Barnardiston, chefe da missão militar inglesa e sua esposa, percorrendo o acampamento revolucionário acompanhados por Sidónio Pais a 5 de Dezembro de 1917
Parque Eduardo VII, antigo Vale do Pereiro, vendo-se ao fundo, a Cadeia Penitenciária de Lisboa na Rua Marquês de Fronteira; Palácio Mendonça.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Durante o ano em que permaneceu no poder Sidónio Pais altera a Lei de Separação entre as Igrejas e o Estado, numa tentativa de apaziguamento das relações com a Igreja (23 de Fevereiro de 1918), estabelece o sufrágio universal (11 de Março de 1918) e consegue reatamento das relações com a Santa Sé, através do envio do Monsenhor Aloísio Mazella que assume as funções de Encarregado de Negócios da Santa Sé em Lisboa (25 de Julho de 1918).

Durante o ano em que permaneceu no poder Sidónio Pais altera a Lei de Separação entre as Igrejas e o Estado, numa tentativa de apaziguamento das relações com a Igreja (23 de Fevereiro de 1918), estabelece o sufrágio universal (11 de Março de 1918) e consegue reatamento das relações com a Santa Sé, através do envio do Monsenhor Aloísio Mazella que assume as funções de Encarregado de Negócios da Santa Sé em Lisboa (25 de Julho de 1918)
Revolução de Sidónio Pais
«Inumeras granadas se crusaram por cima da casaria tremula da cidade, entre o acampamento revolucionarios em Campolide comandados pelo major sr. Sidonio Paes [...] caindo algumas granadas no trajeto, destruindo, matando e fazendo estremecer toda a população;[...]  in Ilustração Portuguesa, 17 Dez. 1917.
 Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

No dia 5 de Dezembro de 1918, durante as comemorações do golpe perpetrado por si, em 1917, Sidónio sofre o primeiro atentado mas sai ileso.
Poucos dias depois, a 14 de Dezembro de 1918, um novo atentado seria fatal. Sidónio deslocara-se à Estação do Rossio para apanhar o comboio para o Porto. É então que José Júlio da Costa, ex-sargento do exército, dispara contra o Presidente. Acaba por falecer na Sala do Banco do Hospital de S. José, em Lisboa.
O seu funeral realiza-se no dia 21 de Dezembro de 1918, no meio de enormes manifestações de pesar. O seu corpo veio a ser posteriormente a ser trasladado para o Panteão Nacional.

Revolução de Sidónio Pais, in Ilustração Portuguesa, 17 Dez. 1917
(clicar para ampliar)

sábado, 26 de dezembro de 2015

Palácio dos Duques de Palmela, ao Rato

O Palácio Palmela, da  Rua da  Escola Politécnica, ou  do  Rato — como é  mais conhecido — apresenta um  semblante enobrecido pelos restauros do século XIX, coisa alguma mostrando do aspecto primitivo que  deve ter  tido no final do século XVIII. O Palácio teve aura aristocrática e mundana nos meados da  segunda metade do  século XIX, mormente desde que foi  restaurado em 1865, e  até  quase ao  final do  século passado. Pode consi­derar-se pelo seu  precioso recheio artístico — o de  maior relevo em  Lisboa — um verdadeiro museu. [ARAÚJO: 1952]

 
Edifício grandioso, de finais do século XVIII, foi projectado em 1792 pelo arqº Manuel Caetano de Sousa. Adquirido em 1823 pelo primeiro conde da Póvoa, Henrique Teixeira de Sampaio, que encarrega a arqº Luigi Chiari de efectuar uma campanha de obras. Dessa fase, resulta o actual aspecto da construção, bem como a capela e a escadaria nobre. Em 1837, por ocasião do casamento de D. Maria de Sousa, irmã do proprietário, com o filho do duque de Palmela, D. Domingos de Sousa Holstein, é despoletada uma nova campanha de obras, centrada na consolidação do andar superior.

Palácio dos Duques de Palmela [c. 1901]
Rua da Escola Politécnica, 126; ao fundo o Largo do Rato, vendo-se a Calçada Bento da Rocha Cabral
A  Fachada Principal é constituída por um  corpo único, com quatro pavimentos, revestidos de  cantaria o  andar térreo e  o primeiro andar, ou  sobreloja, e de  már­more rosa da Arrábida (1902) o  andar no­bre  e  o superior.
Fotógrafo não identificado, in AML

Nos  Jardins vêem-se também bustos e peças de  escultura ornamentais. O Pavilhão Escultórico no jardim (foto abaixo), concebido pelo escultor francês A. Calmels em 1902, assumiu um papel importante na ambiência artístico-criativa da excelente escultora que foi D. Maria de Sousa Holstein, 3ª duquesa de Palmela. 

Palácio dos Duques de Palmela, jardins [10 de Fevereiro de 1927]
Pavilhão Escultórico no jardim, atingido na sequência da Revolta de Fevereiro de 1927
Fotógrafo não identificado, in AML

A fachada principal, virada a Oeste, compõe-se de um corpo único, onde uma cornija saliente marca a passagem para o último piso. Rasgam-se ao longo desta fachada, janelas de secção rectangular, que ao nível do terceiro e quarto piso (ao centro) são percorridas por varandas com gradeamento em ferro forjado.

Palácio dos Duques de Palmela [10 de Fevereiro de 1927]
Paredes e as árvores caídas na sequência da Revolta de Fevereiro de 1927
Fotógrafo não identificado, in AML

O Palácio sofreu um violento incêndio, em 1981, que destruiu completamente a capela e provocou graves danos no edifício. Os trabalhos de recuperação conseguiram reconstruir o edifício, perdendo-se, no entanto, valiosas obras de arte e muitos dos trabalhos de marcenaria. O edifício e os jardins sofreram danos elevados durante a  Revolta de Fevereiro de 1927, devido ao impacto causado por granadas de artilharia (2ª e 3ª imagem).

Palácio dos Duques de Palmela [c. 1952]
O  portão principal, n.º 126 (reconstru­ção  do começo do actual século), em  altura que  atinge o  andar nobre, emoldurado de cantaria, sobrepujado de  arquivolta, rema­tada por pedra de  armas dos Sousas de Arronches (as  que usavam os  Sousas do Calhariz); ladeando o portão dois hermes monumentais, representando um  o  «Trabalho», outro a «Força moral» (Anatole Calmeis-1902).
Salvador de Almeida Fernandes, in AML

A ladear a porta principal encontramos duas esculturas alegóricas (1902), aludindo à Força Mental e ao Trabalho, da autoria de Anatole Calmels, (ainda não existentes em 1901, como comprova a 1ª imagem) sendo o remate da entrada coroado por um frontão curvo com as armas dos duques de Palmela dos Sousas de Arronches (as que usavam os Sousas do Calhariz). Actualmente encontra-se aqui instalada a Procuradoria Geral da República.

Palácio dos Duques de Palmela [c. 1945]
Rua da Escola Politécnica, ao fundo o Largo do Rato, vendo-se a Calçada Bento da Rocha Cabral
Os muros dos jardins (reconstrução de 1902), ladeando pelo Sul e Norte a frente do corpo do palácio, sobrepujado de ba­laustrada de cantaria (que substituiu a an­tecedente guarda da gradaria) e adornados de vasos também de cantaria (no muro do lado Sul situa-se uma porta, emoldurada de cantaria simples, que dá acesso aos jardins, e sobrepujada pelo brasão do armas).
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1952.
DGPC.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Convento das Inglesinhas (ou de Santa Brígida)

Nesta esquina da Rua do Quelhas existiu, de pé até que lhe foi dado outro destino, o Convento das religiosas inglesinhas de Santa Brígida erguido neste local entre 1651-1656, depois do incêndio do primitivo, que fora fundado por D. Izabel de Azevedo em 1594. 
O Convento de Santa Brígida — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , depois conhecido por «Convento do Quelhas», tinha a sua Igreja da Invocação de S. Salvador, de Sião. Quando da proclamação da República, a Casa conventual estava ocupada por jesuítas, que a haviam adquirido em 1864, sendo naquela altura alvo da sanha de exaltadas gentes, dada a fama que o «Quelhas» tinha adquirido nas camadas populares. 

Aquele Pinto Machado — recorda Norberto de Araújo — que tinha o seu palácio na Rua do Machadinho — diminutivo que nasceu do apelido do fidalgo — , foi quem fez rasgar, depois de 1758, uma serventia já desenhada desde 1680 — Caminho Novo — na quinta de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, por alcunha o Quelhas, quinta na qual o fidalgo tinha sua casa, que bem pode ter sido aquela onde assentou o palácio dos Pinto Machados. [...] Depois do terramoto é que começou a chamar-se-lhe Rua do Quelhas, o tal D. Francisco de Sousa que por aqui fora grande senhor. Por essa época começou o verdadeiro povoamento lento e seguro deste sítio, a justificar a urbanização do começo do século passado.

Rua do Quelhas, 6A [c. 1909]
Convento das Inglesinhas (ou de Santa Brígida)
Em virtude das más condições do edifício e principalmente da sua adaptação às novas funções pós-convento, entre 1866 e 1910 operou-se um alargado conjunto de alterações, que se prenderam essencialmente com o acrescento de mais um piso à igreja, a construção de uma torre, a ampliação de um piso no corpo dos antigos dormitórios e a construção de edifícios na cerca do convento.
Paulo Guedes, 
in Lisboa de Antigamente

O edifício do Colégio do Quelhas, era vulgarmente chamado Convento das Inglesinhas, por ter sido convento das Agostinhas de Santa Brígida (Irlandesas). Ficara desabitado desde 1834, ano em que as monjas o abandonaram, já que, embora súbditas de Inglaterra, temiam qualquer violência, em virtude do Decreto que extinguia em Portugal as Ordens Religiosas. [...] Em 1864 o Convento é adquirido pelos Jesuítas que aí mantém o Colégio de Jesus procedendo a várias ampliações, nomeadamente o acréscimo de um piso em toda a ala Nordeste, o alargamento da capela com uma ala exterior a Noroeste, sobre o actual jardim, e o acrescento no mesmo sentido do corpo destacado do refeitório.

Convento das Inglesinhas, claustro e torre sineira [s.d.]
Ruas do Quelhas e das Francesinhas
Em 1904 iniciam-se as obras da nova capela: começada a construir a 11 de Abril
de 1904 e concluída e inaugurada a 24 de Dezembro de 1907. 
Fotógrafo não identificado in Lisboa de Antigamente

O casarão enorme — prossegue o autor das Peregrinações — com suas altas paredes conventuais, da cor rosa característica do velho «Quelhas», recebeu, em 1932-1933, um profundo lenho, e bem merecido foi ele, no ângulo sul, onde se começou a erguer um edifício para laboratório do Instituto, obra que não prosseguiu pois foi aproveitada depois para se levantar a sede da Emissora Nacional.
Altaneira sobre os restos inexpressivos do Convento, e sobre a mancha clara e moderna do pequeno palácio da Emissora, lã está anda a Torre rectangular, de negro cimento, com sua varanda de eirado, e com outra, mais pequena, a um terço da altura.== 
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, Vol. VII, 1938)

Convento das Inglesinhas (ou de Santa Brígida) [c. 1910]
Rua do Quelhas (e Tv. do Pasteleiro) com a antiga Rua João das Regras antes
do Caminho Novo e actual Rua das Francesinhas
No decorrer de oitocentos, a Companhia de Jesus procedeu a profundas alterações
no espaço a si destinado, concretizadas sobretudo na ampliação de um piso do edifício da
igreja (no qual foi construído um enorme salão) e na construção de uma grande torre adossada
à cabeceira do templo (com c. de 25-30 metros de altura), a qual marco
 a paisagem urbana da zona até ter sido demolida no início do século XXI.
Fotógrafo não identificado in Lisboa de Antigamente
 
N.B. Com a chegada da República, o convento serviu para instalar o Museu da Revolução Republicana (altura em que os seus ocupantes são expulsos do edifícios e do país) e posteriormente a Emissora Nacional, o Instituto Superior de Comércio, e depois o ISCEF, actualmente Instituto Superior de Economia e Gestão. As obras de restauro foram financiadas através do Plano de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC) e de receitas próprias, custando no total cerca de oito milhões de euros.
O convento é hoje propriedade do ISEG, sendo o edifício mais antigo do complexo arquitectónico do instituto, com direito a referência em várias publicações nacionais e internacionais.

Convento das Inglesinhas (ou de Santa Brígida) [1910]
Rua do Quelhas, 6A
No dia 5, aquando da Implantação da República, o Quelhas tornou-se num dos principais focos de conflito, com milícias armadas disparando continuamente contra o edifício jesuíta:
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O Quelhas, um grande conjunto de edifícios agrupados à volta de uma igreja e cercados por um alto muro, apresentava um espectáculo extraordinário quando finalmente lá chegámos. Havia soldados de cavalaria e infantaria por todo o lado; havia metralhadoras; havia mesmo peças de artilharia. E toda esta força militar estava desencadeada, num tiroteio desenfreado, contra o colégio que, a julgar pelo silêncio reinante do outro lado do muro, estava completamente abandonado. Mas isso não importava. As bombas fustigavam a torre, as metralhadoras disparavam sem parar, balas das espingardas silvavam entre as árvores. Cheguei ao colégio quando estava a nascer o dia. O portão estava aberto e a multidão movia-se para todos os lados. O saque estava em curso, com grande frenesi.[...] »
António Novais, 
in Lisboa de Antigamente

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