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Sunday, 8 March 2026

Chafariz de Dentro que foi Fonte dos Cavalos

O Chafariz de Dentro ou Fonte dos Cavalos — assim cognominado por causa dos cavalos de bronze, que os Castelhanos levaram quando cercaram Lisboa deixando lá dois buracos no lugar das equestres bicas de onde a água jorrava — é uma nascente mui antiga, e a data mais remota a que lhe encontramos referência é do ano 1285. Também o denominavam Fonte ou Chafariz de Alfama (1384 e 1650). [Silva: 1998]

Parece, porém — conta Camilo no seu romance satírico A Queda de um Anjo — , que ele [Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda] andava aporfiado em afogar o seu recto juízo nas águas de Lisboa. Lera o deputado que também o chafariz dos cavalos da rua Nova tinha prodigiosas virtudes em cura de moléstias de olhos. Procurou a rua Nova [d'El-Rei], que o terramoto de 1755 soterrara; procurou o chafariz, que, segundo ele, devia estar na rua dos Capelistas ou Algibebes sucessoras daquela rua.

 

Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |1929|
Largo do Chafariz de DentroIgreja de Santo Estêvão.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 

Ninguém lhe dava conta do chafariz dos cavalos; e alguns lojistas interrogados supuseram que o provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquela aplicação.
O erudito respondia aos chacoteadores:
—  Pois saibam que se perdeu um mirífico chafariz! Rezam os meus livros que as salubérrimas águas desta fonte perdida tinham a propriedade oculta de engordar as carruagens que bebiam dela; e acrescenta Marinho de Azevedo, textualíssimas palavras: e quando ela faz tão conhecidos efeitos nos animais, os fizera nos corpos humanos, se a beberam na sua fonte.

Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |1931|
Largo do Chafariz de Dentro

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Um bacharel, que ouvira as lástimas de Calisto, disse a um vizinho a meia-voz:
— Este homem parece que tem uma carruagem magra no corpo!
Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados. Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio até ele achar o chafariz dos cavalos.==
(CASTELO BRANCO, Camila A Queda de um Anjo, 1866)


Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |c. 1930|
Largo do Chafariz de Dentro
Horácio Novais., in Lisboa de Antigamente

Sunday, 16 November 2025

Profissões de antanho: o cauteleiro

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

É profissão que jamais acabará. É vê-los por aí, sobretudo pela Baixa, oferecendo a fortuna a toda a gente. No nosso tempo, a cautela, cremos que a vigésima parte do bilhete inteiro, vendia-se por três vinténs!
E não havia barbeiro que, pelo Natal ou Páscoa, não tivesse colado no espelho, em frente do freguês, o bilhete da sorte, para que bem o observasse e comprasse enquanto lhe escanhoava os queixos.
O grande actor Estêvão Amarante, criador admirável de tantos tipos populares de Lisboa, também fez o cauteleiro num quadro de revista, cantando um fado que ficou, como todas as suas criações, na alma do povo, imitando um cauteleiro que era muito conhecido pelo pregão harmonioso e nostálgico com que oferecia a Sorte Grande!

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |entre 1908 e 1914|
Largo de Dom João da Câmara, antigo «de Camões».
Ao fundo observa o afamado Café Suisso.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Nesse tempo, e hoje também, os cauteleiros apregoam por Lisboa e por todo o País, mas sem a cantoria de então.
A dada altura apareceu pelas ruas da Baixa, sem apregoar, um cauteleiro fardado, que oferecia o jogo quase sempre pelos estabelecimentos. Exibia boné agaloado a ouro, sobrecasaca preta com botões amarelos, galões dourados na gola e pasta debaixo do braço, cautelosamente segura por corrente. Era um indivíduo gordo, à volta dos quarenta anos e que, no seu jeito amável, aconselhava, como quem conversa, a jogar na lotaria. Hoje os cauteleiros usam boné de pala e a profissão, aparentemente, deve ser rendosa. Haja em vista o desafogo de certas casas de lotaria! 

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |1922-3-8|
Calçada do Duque com a Rua da Condessa.
Legenda no arquivo: «O coxo das cautelas na Escadinhas do Duque»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? Questiona-se o Desassossegado Bernardo Soares. O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros, [e das Escadinhas do Duque, porque não?]. Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu — a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim — sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.
(Fernando Pessoa / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 1931)

Profissões de antanho: o cauteleiro |início séc. XX|
Aguadeiro e cauteleiro junto ao fontanário do Largo Trindade Coelho, antigo de S. Roque. 
Ao centro vê-se a Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 
Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
(DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 276, 1986).

Sunday, 1 September 2024

Antigo Largo de Alcântara: Ruas Prior do Crato e Maria Pia

Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno — recorda o ilustre Norberto de Araújo. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. 
(ARAÚJO, Norberto de, «Legendas de Lisboa», p. 143, 1943)

Originalmente, o topónimo foi aprovado como Rua Prior do Crato (Dom António) e passou a ter a grafia actual após uma decisão da reunião de Câmara de 14/12/1943. Também apesar de não constar na placa toponímica, foi o topónimo aprovado com a legenda «O Glorioso vencido da Ponte de Alcântara em 25 de Agosto de 1580»-

Antigo Largo de Alcântara: Ruas Prior do Crato e Maria Pia |1966|
Cruzamento das Ruas Prior do Crato e Maria Pia
A velha ribeira pode ter sido encanada. A vetusta ponte pode ter desaparecido, mas eis que logo outra surge, lá ao fundo, no horizonte.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Foi pelo Edital de 07/11/1901 que parte da Estr. de Circunvalação, do lado sul da antiga ponte de Alcântara e até ao cruzamento com a Rua do Arco do Carvalhão, se passou a denominar Rua Maria Pia, mas segundo Norberto Araújo, já desde o final do séc. XIX que o povo a chamava assim.

Antigo Largo de Alcântara: Ruas Prior do Crato e Maria Pia |1949|
Largo de Alcântara [sítio da ponte de Alcântara], cruzamento das ruas Maria Pia e Rua Prior do Crato.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 31 March 2024

Café Palladium: quiosque-esplanada

Os novos cafés da Avenida da Liberdade começam a impor presença importante a partir de 1920 — recorda Marina T. Dias. O Café Palladium, projectado por Raul Tojal, ocupou em 1932, o piso térreo de um dos mais interessantes exemplos arquitectónicos do primeiro número da Avenida (edifício de Norte Júnior construído em 1909), antigas instalações da clínica de Henrique Basto. Foi louvado como expoente máximo de modernidade, levando proprietários de casas congéneres (como o Nicola e o Chave d' Ouro) a encomendar projectos de alteração do interior dos seus estabelecimentos ao mesmo arquitecto.
Mário Dionísio refere o Palladium como centro de tertúlia desde final dos anos 30. Seria, ao longo das décadas seguintes, local muito procurado por estudantes e intelectuais da oposição, surrealistas incluídos. [...] 
 
Café Palladium |196-|
Avenida da Liberdade
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Alguns elementos da decoração interior (incluindo baixos-relevos e pormenores do varandim) foram aproveitados pelo centro comercial que lhe sucedeu.
Apesar de ter beneficiado de grandes obras em 1972, encerrou poucos anos mais tarde, dando lugar a um centro comercial. [Dias: 1999]

Café Palladium: quiosque-esplanada |1935-07-28|
Avenida da Liberdade
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No ano de 1933, o arq.° Cassiano Branco projecta um quiosque-esplanada para o Café Palladium, inaugurado no ano anterior, localizado a cimo do Restauradores, onde se inicia a avenida da Liberdade. Este equipamento, infelizmente já demolido, desenvolvia-se em torno de um pilar redondo, envolvido por uma estrutura de ferro e vidro e era composto por dois pisos. Aproxima-se esteticamente à cultura internacional, integrando-se no desejo de Cassiano Branco de transformar Lisboa, e particularmente esta artéria, para a qual projectou a esmagadora maioria dos seus trabalhos, numa grande metrópole moderna, plena de edifícios modernos, salas de espectáculos, cafés e outros espaços de ócio, luz e movimento, à imagem das principais cidades europeias. [Mártires Batista: 2015]

Quiosque-esplanada para o Café Palladium |1933|
Avenida da Liberdade

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 1 October 2023

Quiosque e Taça do Largo do Intendente Pina Manique

Resta-me dizer-te que este Largo do Intendente, há um século {c. 1840], estava longe da urbanização actual, apesar desta se ter quedado no que era, ao tempo em que por aqui passavam os americanos» das mulas e as caravanas, a caminho de Arroios e Campo Pequeno.
Deste Largo e da Rua dos Anjos (novamente assim chamada, depois de ter sido Rua do Registo Civil) — recorda o ilustre Norberto de Araújo —  saem, à direita, as Travessas da Cruz, do Maldonado, do Forno e da Bica - todas anteriores ao Terramoto — e que levam à antiga Bombarda e ao Caminho do Forno do Tijolo.⁼⁼

Quiosque do Largo do Intendente Pina Manique |Início do séc. XX|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

As causas reais que levaram à demolição de muitos dos Quiosques que existiram em Lisboa são praticamente desconhecidas. Ou porque o seu estado de degradação a isso obrigasse sem que, no entanto, "merecessem" restauração, ou porque a modificação do traçado das ruas e avenidas e os melhoramentos dos passeios o tornasse imprescindível, o certo é que eles lá foram desaparecendo. E foram 45.

Estrutura
Secção octogonal com janelas em toda a volta encimadas por motivos árabes. Cúpula metálica em forma de balão com oito gomos. Sem protecção.

Particularidades
Local de bastante concorrência.

Taça do Intendente  |1944|
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», , vol. VIII, p. 15, 1938
CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os quiosques de Lisboa, 1987

Friday, 30 June 2023

Quiosque do Largo da Boa Hora

Os Quiosques que embelezavam Lisboa a partir da segunda metade do século XIX tiveram a sua época áurea por volta de 1900
A revolução artística iniciada em Inglaterra, alastrara já a França e a outros países. Tentava-se a criação de novos ambientes, bem como a integração da arte na vida doméstica e comercial: a Arte Nova.  As nossas figuras responsáveis pelo património municipal para isso foram sensibilizadas, embora nessa época fossem poucos os que apreciavam a beleza da forma, o evoluir da estética, o desenvolvimento artístico.
Os Quiosques situavam-se, quase todos, nos mais importantes pontos de cruzamento da cidade: os largos e as praças, os jardins e as alamedas, locais onde o Lisboeta passava e se juntava às horas de ponta, aos domingos e feriados, à boa maneira parisiense.

Quiosque do Largo da Boa Hora |1908|
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

Estrutura 
Secção rectangular. Estrutura toda de madeira. Completamente aberto para o exterior, com prateleiras onde estavam as garrafas e os copos. Balcão circundante de mármore, acima do qual e saindo do Quiosque, se vêem as torneiras das bebidas. Cúpula rectangular com bordos trabalhados, de madeira.

Particularidades
Bastante concorrido.
Particular.
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Bibliografia
CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os quiosques de Lisboa,  p. 41, 1987.
 

Friday, 10 June 2022

Quiosque da Rua da Palma

A Morte dos Quiosques
No vasto plano de remodelação citadina o camartelo municipal entendeu que devia demolir vestígios da antiga cidade. Procurou fazê-lo com bom senso. (...) Alguns, senão todos, de inestética memoria, lá foram ao garrote e deles existe hoje somente o sítio onde se ergueram, onde a concorrência heterogénea acampou durante muitos anos, gostando principalmente das suas libações.
(in O Notícias Ilustrado de 6 de Janeiro de 1929)

Quiosque da Rua da Palma [1929]
Ourivesaria Cunha; edifícios e arruamentos extintos aquando das demolições na Mouraria nas décadas de 1930-40.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 23 April 2021

Quiosque do Século à Praça da Estrela

As causas reais que levaram à demolição de muitos dos Quiosques que existiram em Lisboa são praticamente desconhecidas. Ou porque o seu estado de degradação a isso obrigasse sem que, no entanto, "merecessem" restauração, ou porque a modificação do traçado das ruas e avenidas e os melhoramentos dos passeios o tornasse imprescindível, o certo é que eles lá foram desaparecendo. E foram 45.
Aqui, fica, pois, a sua relação, acrescentando-se entre parêntesis o número de Quiosques que existiram no local, se acaso foi superior a um.

Quiosque do Século à Praça da Estrela |1909|
Foi inaugurado em 1909. No local foi erguido um outro na década de 1960.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

Estrutura 
Secção hexagonal. Balcão de pedra todo à volta. Corpo de madeira com janelas para todos os lados. Cúpula hexagonal aos gomos com os bordos trabalhados, de ferro. Cada gomo apresentava uma estrela desenhada (pelo menos o do Largo da Estrela). Os gomos eram fechados por um tronco de prisma hexagonal, contendo em cada face uma letra da palavra «século».

Particularidades
Era propriedade de O Século, o primeiro jornal português a criar sucursais em quiosques, para venda de jornais com «placards» noticiosos das últimas nacionais e do estrangeiro.
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Bibliografia
CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os quiosques de Lisboa,  p. 41, 1987.

Sunday, 7 March 2021

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa»

Pode São Bento ter-se convertido no símbolo da Política; o Terreiro do Paço no símbolo da Burocracia; a Rua dos Capelistas no símbolo da Finança; o Chiado alcançou o privilégio de os superar a todos, porque se converteu no símbolo do Bom-Tom. Passando a pontificar na Literatura e na moda, consequentemente os homens de letras passaram a escrever para o Chiado, os janotas a apurar-se para o Chiado, as Senhoras a vestir-se para o Chiado. Mais do que uma rua, ainda que das mais afortunadas de Lisboa, o Chiado tornou-se uma verdadeira instituição nacional  quase que um autêntico Estado dentro do Estado, com o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia, a sua Catedral. Eça de Queiroz não hesitou mesmo em afirmar: «o que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, mundanos decide no Chiado que Portugal seja — é o que Portugal é.»¹


Quem está neste Largo do Chiado — relembra Mário Costa — , pode dar um saltinho até à Praça de Luís de Camões, e é justo que se atreva a essa pressuposta acrobacia, para trazer à lembrança os traços pitorescos que o progresso apagou, a começar na eliminação dos típicos quiosques com venda de refrescos, onde se bebia o melhor capilé de Lisboa. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ajudavam a compor o singelo friso, os esfuziantes vendedores das popularíssimas castanhas assadas no forno — quentes e boas, dé réis vinte! — ; o pictural homem do realejo, acompanhado do urso amestrado, que dançava ao som do toque de pandeireta; a sugestiva tela que conglobava as incomparáveis cenas interpretadas pelos inimitáveis pantomineiros de praça pública  empoleirados em pequena tripeça, fazendo uso do mais cómico palavreado, uma arenga às massas ingénuas — às vezes também desfrutadoras – propagandeando milagrosos produtos, tudo maravilhoso, elixires da longa vida, para fazer crescer o cabelo e extrair calos sem dor, os únicos para tirar as nódoas do fato.

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 Foi-se toda essa colorida pintura, muito século XIX, quadros que enterneciam, pela ingenuidade do desenho. Também certo dia se arrancaram os utilíssimos bancos de duas tábuas, que foram o consolo de velhos reformados; e, em nome da civilização, se demoliu outro estilo de quiosque, todo de ferro e em forma cilíndrica, disfarçado por grande biombo, com entrada só para homens. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [1912]
Ao fundo notam-se os antigos bancos de duas tábuas e o desaparecido urinol
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 90-102, 1987.

Sunday, 17 January 2021

Quiosque das Loterias

O «Quiosque das Loterias», em frente à rua do Amparo tabaco e fósforos nacionais por preços acessíveis a todas as bolsas. Amanhã Anda À Roda.

Quiosque das Loterias [1908]
Praça Dom Pedro IV
Quiosque de venda de lotarias situado no ângulo E. do Rossio; ao fundo, o
«Internacional Design Hotel» na esquina das Ruas Augusta e Betesga.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Friday, 8 May 2020

Quiosque da Ribeira das Naus

Quiosque da Ribeira das Naus — situado entre o Corpo Santo e Cais do Sodré — junto aos antigos edifícios do Arsenal da Marinha demolidos na década 1950 para rectificação e prolongamento da Avenida até ao Terreiro do Paço (Praça do Comércio); ao fundo, parcialmente visível, o abrigo de ferro do tempo das carruagens e dos dos cavalos que as puxavam.

Quiosque da Ribeira da Naus [190-]
Avenida da Ribeira da Naus
Eduardo Trindade, in Lisboa de Antigamente

Friday, 2 August 2019

Quiosque do Arco do Cego

Se quisermos compreender facilmente o seu nascimento, teremos de analisar primeiro a proveniência do termo quiosque. Originado do francês kiosque, derivou por sua vez do turco kiouchk, que quer significar "nádegas", talvez pela posição que as pessoas adquirem em redor dele. É provavelmente por isso que, em gíria, quando pretendemos que alguém se afaste de nós, ainda ouvimos dizer: "chega-me para lá esse quiosque!”.

Estrutura
Base de alvenaria, quadrangular. Balcão alto com janelas corridas, encimadas em semicírculo de vidro opaco. Cúpula aos gomos quadrangulares, com bordo trabalhado.
 
Particularidades
Particular. Muito concorrido. Parece ter sido demolido em 1974 ou 1975.

Quiosque do Arco do Cego [1940]
Avenida Duque de Ávila
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Estação do Arco do Cego da Carris, funcionou como recolha de eléctricos da empresa. Mais tarde, albergou um terminal de autocarros de longo-curso e serve agora como parque de estacionamento. Junto a este edifício encontra-se o Jardim do Arco do Cego.

Quiosque do Arco do Cego [1960]
Avenida Duque de Ávila
Artur João Goulart, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia 

CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os quiosques de Lisboa, 1987.

Friday, 3 May 2019

Jardim 5 de Outubro vulgo Jardim da Burra

Estamos já em pleno coração da Estrêla — diz Norberto de Araújo.

Eu não te disse, Dilecto, que esta era uma das mais belas Praças de Lisboa? O monumental, o paisagista, o urbano, conjugam-se neste Largo da Estrêla (chamado até 1889 do Coração de Jesus), e desta harmonia, que talvez não houvesse sido estudada, resultou um admirável logradouro citadino-alegre, movimentado, limpo, lisboeta puro.

 

Jardim 5 de Outubro vulgo Jardim da Burra [entre 1926 e 1936]
Praça da Estrela; Basílica da Estrela; quiosque da Estrela
António Passaporte, in Lisboa de Antigamene

Pequeno jardim verdejante desenvolvido lateralmente em relação à Basílica da Estrela. Este jardim exibe um conjunto escultórico , em bronze, executado com grande realismo, em 1918, por Costa Mota (tio), designado por "Lavrador" ou "Sagrada Família", uma vez que representa um casal de camponeses característicos da época, um lavrador de enxada ao ombro e uma camponesa com um menino nos braços, sentada numa burra que transporta cestos.

Jardim 5 de Outubro vulgo Jardim da Burra [1955]
Praça da Estrela
Conjunto escultórico designado por "Lavrador" ou "Sagrada Família"
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 45, 1939.
cm-lisboa.pt.

Wednesday, 27 February 2019

Sítio de São Roque: Palácio Niza

Estamos no cérebro do Bairro Alto — diz Norberto de Araújo. Temos andado à roda do Bairro, sem penetrarmos no seu íntimo: em verdade só tenho querido evitar atropelos, em matéria de si tão entroncada de assuntos, tão xadrezada de motivos ornamentais da sua história.

Neste Largo de S. Roque-que desde 8 de Outubro de 1913 se passou a chamar «de Trindade Coelho» — é lugar de discorrermos — sem perdermos dez minutos — acerca [...] do edifício moderno, anexo da Misericórdia, com face para o Largo, e que se continua nos três primeiros lanços da Calçada do Duque.


Foi D. Francisco da Gama, 2." Conde da Vidigueira, quem aqui fez erguer o desaparecido Palácio Niza, em 1543, sobre chãos que a Câmara Municipal lhe aforou. O palácio era mais avançado do que hoje é.
A Casa solarenga foi dos descendentes de Vasco da Gama até 1631, ano em que, assoberbados de dividas, a venderam a Gaspar Freire, fidalgo da Casa Real. Mas logo quatro anos depois D. Vasco Luiz da Gama, 5.º Conde da Vidigueira, 1.º Marquês de Niza, voltou a adquirir o Palácio, que recebeu obras e beneficiações em 1672, para o que aquele fidalgo, que foi diplomata e Secretário de Estado de D. Pedro II, enquanto Regente — e não era opulento — precisou de vender umas casas que tinha na Rua Nova (dos Mercadores).
Em 1689 os Nizas não habitavam o seu Palácio de S. Roque, e nele residia o Embaixador de Franga Robert. Le Roux. Quando do Terramoto, o Palácio era a habitação faustosa do 1.º Patriarca de Lisboa. D. Tomaz de Almeida (que nele morreu); a permanência do famoso Prelado de Lisboa foi grande no Solar Niza, de S. Roque, e ao pátio chamava o povo «o Pátio do Patriarca».
O Terramoto .arruinou o edifício, e os fidalgos Gamas não estiveram dispostos — como aliás quási todos os propriet6rios de palácios em Lisboa — à reedificação, muito dispendiosa, sobretudo pela falta de braços.
Em 1814, num antigo palheiro da Casa, começou a funcionar um curioso «Teatro Pitoresco», no qual se representou, por amadores, o «Catão» de Almeida Garrett, e se deu o primeiro baile de máscaras público da capital. 

Sítio de São Roque: Palácio Niza [c. 1895]
Largo Trindade Coelho (Jurisconsulto e Escritor, 1861-1908); antes Largo de São Roque
À esq. a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, fundada em 1498 e. ao centro, antiga Companhia de Carruagens Lisbonenses; ao centro vê-se Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 
Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O edifício, cada vez mais arruinado, ameaçava desmoronar-se; entrou a ser pardieiro, como tantos. Em 1835 a Câmara Municipal intimou a Marquesa, D. Eugénia da Gama, à demolição urgente. Mas a nobre dama vendeu, por comodidade, tudo quanto possuía neste sitio a Francisco Caldas Aulette, dicionarista, contador da Relação, pessoa culta e de bom gosto; a transferência de propriedade fez-se a 17 de Maio de 1837. Recompôs-se então o Palácio na parte de seu fundo, encostando à Calçada do Duque, com entrada no pequeno Largo defronte da Rua da Condessa. Em 1863, Ant6nio Florêncio dos Santos adquiriu a Aulette, para a sua Escola Académica, de bom nome alfacinha, a parte do edifício sobre o Largo da Rua da Condessa, e a extinta Companhia de Carruagens [Lisbonenses] comprou o edifício, com seu pátio sobre S. Roque.
Quando em Lisboa os trens entraram em desuso, a Companhia meteu em S. Roque — onde alardearam coches principescos e episcopais — os automóveis de «remise». Foram de há vinte anos [c. 1918]. No primeiro andar do prédio, com frente para o Largo, instalou-se em 1917 um jornal, de nomeada em Lisboa pelo seu feitio literário e noticioso, «A Manhã», de que foi principal fundador e animador o distinto jornalista Luiz Derouet, embora a direcção estivesse a cargo de Mayer Garção; êste jornal acabou em 1922. Por essa época liquidou também a Companhia de Carruagens, e o prédio foi adquirido por Deniz M. de Almeida que tomou o activo e passivo da Companhia. Foi êste capitalista quem em 1926 vendeu à Misericórdia de Lisboa o que restava, desfigurado em absoluto, do antigo Palácio Niza.
E logo em 1927 a Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro adquiriu o edifício da Escola Académica, transferida para o Monte Agudo, à Penha de França, onde ainda se mantém.
As obras de adaptação aos serviços da Misericórdia sabre fundamentos antigos, e aproveitando as paredes do Largo e da Calçada, foram dirigidas pelo construtor Touzé, sob o risco do arquitecto Tertuliano Marques.

Sítio de São Roque: Palácio Niza [1920]
Largo Trindade Coelho (Jurisconsulto e Escritor, 1861-1908); antes Largo de São Roque
Legenda foto arquivo: «Lotaria do Natal no largo de São Roque, actualmente Largo Trindade Coelho»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

E sabre o Palácio Niza — de que tanto havia a dizer da época em que foi residência prelatícia, e do tempo em que foi sede de um dos mais interessantes jornais que tem havido em Portugal — nem mais palavra.
No muro que divide, actualmente, o edifício da Misericórdia daquela sede de escritórios da C. P. — no qual corria um lanço da muralha de D. Fernando, cuja relíquia está de pé-ainda existe uma lápide, que não se vê da rua, e que diz: «Êste lanço do muro que El-Rei D. Fernando acabou em 1413 foi conservado e reparado por Francisco José Caldas Aulete em 1840». 1413 — é a era, e que corresponde ao ano de 1375. Ainda há semanas vi a lápide, que chegou, a andar perdida durante obras no edifício

N.B. Da Misericórdia de Lisboa, falaremos numa próxima peregrinação.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 81-87, 1938.

Wednesday, 31 January 2018

Quiosque da Praça do Príncipe Real

Os quiosques que embelezam Lisboa a partir da segunda metade do século XIX tiveram a sua época áurea por volta de 1900. No Rossio, no Cais do Sodré, no Largo da Misericórdia, Príncipe Real, Alcântara, por esta Lisboa encontrávamos sempre um quiosque para nos vender uma caixa de fósforos ou tomar um jeropiga. 


Situavam-se em locais escolhidos, mais ou menos com a mesma fábrica arquitectónica. Tivera a iniciativa de implantar os ‹‹Kioscos››, nome com que foi requerida à Câmara Municipal, nesses tempos recuados de 1867, D. Tomás de Mello, espírito generoso, de ideias avançadas, boémio e literário, homem de teatro e até comerciante, justificando a sua proposta com o embelezamento das praças e ruas da cidade, ao mesmo tempo que seriam pequenos estabelecimentos de franca utilidade pública, como aliás já existiam nas grandes cidades da estranja! Foi aprovado o projecto dos ‹‹Kioscos››, designação depois aportuguesada, uma vez que se tornaria mais fácil para o vulgo, retirando-lhe, portanto, a sua origem oriental, lojas para a venda de tabaco e fósforos, água fresca e capilés, café e bagaço, jornais e revistas, determinando a Câmara que se estudasse o modelo e os locais onde deveriam fixar-se. 

Quiosque da Praça do Príncipe Real, nascente  [1908]
Antiga Praça do Rio de Janeiro, topónimo de 1859
Joshua Benoliel, iin Lisboa de Antigamente

As causas reais que levaram à demolição de muitos dos Quiosques que existiram em Lisboa são praticamente desconhecidas. Ou porque o seu estado de degradação a isso obrigasse sem que, no entanto, "merecessem" restauração, ou porque a modificação do traçado das ruas e avenidas e os melhoramentos dos passeios o tornasse imprescindível, o certo é que eles lá foram desaparecendo. E foram 45. O Quiosque da Praça do Príncipe Real, canto nascente, apresentava as seguintes características:

Estrutura
Base de madeira. Secção octogonal. Balcão de pedra suportado por pernas trabalhadas em madeira. Corpo alto com janelas a toda a volta. Cúpula metálica em forma de pirâmide com oito gomos, suportada por mísulas em madeira.

Particularidades
Particular. Muito frequentado. Apresentava uma taça em pedra para os utentes deitarem os restos das bebidas.

N.B.  Este quiosque (nascente) já aparece referenciado no Levantamento topográfico de Francisco Goullard em 1890 (vd. planta). No mesmo local foi levantado um outro que pode ser visto aqui.

Planta referente à praça do Príncipe Real [1890]
Inclui o estado da antiga Praça do Rio de Janeiro, em Novembro de 1890, e o quiosque em apreço assinalado a vermelho. 
Levantamento de Francisco Goullard, iin Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo, 1986.
CAEIRO, Baltasar de Matos, Quiosques de Lisboa, 1951.

Sunday, 5 March 2017

Quiosque do Jardim de S. Pedro de Alcântara

Se quisermos compreender facilmente o seu nascimento, teremos de analisar primeiro a proveniência do termo quiosque. Originado do francês kiosque, derivou por sua vez do turco kiouchk, que quer significar "nádegas", talvez pela posição que as pessoas adquirem em redor dele. É provalvelmente por isso que, em gíria, quando pretendemos que alguém se afaste de nós, ainda ouvimos dizer: "chega-me para lá esse quiosque!”.

As causas reais que levaram à demolição de muitos dos Quiosques que existiram em Lisboa são praticamente desconhecidas. Ou porque o seu estado de degradação a isso obrigasse sem que, no entanto, "merecessem" restauração, ou porque a modificação do traçado das ruas e avenidas e os melhoramentos dos passeios o tornasse imprescindível, o certo é que eles lá foram desaparecendo. E foram 45.
 
Quiosque do Jardim de S. Pedro de Alcântara [1908]
Terá sido inaugurado em 1908 e demolido por volta de 1939; situava-se em frente ao Convento de S. Pedro de Alcântara.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Estrutura 
Base de alvenaria, de secção hexagonal. Balcão de pedra, com corpo de madeira e com janelas de todos os lados. Cúpula hexagonal aos gomos, com toldo muito largo suportado por ferros, para esplanada, de bordos muito trabalhados e mísulas de ferro artisticamente decoradas.
 
Particularidades 
Particular. Muito concorrido. Por cima de uma das janelas pode ler-se: «Pavillon Royal».
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Bibliografia
CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os quiosques de Lisboa, , p. 41, 1987.

Wednesday, 6 April 2016

Largo de Alcântara, ruas Maria Pia, Prior do Crato João de Oliveira Miguens

Originalmente, o topónimo foi aprovado como Rua Prior do Crato (Dom António) e passou a ter a grafia actual após uma decisão da reunião de Câmara de 14/12/1943. Também apesar de não constar na placa toponímica, foi o topónimo aprovado com a legenda O Glorioso vencido da Ponte de Alcântara em 25 de Agosto de 1580.

Rua João de Oliveira Miguens, Largo de Alcântara, linha de cintura; ruas Maria Pia e Prior do Crato [1914]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Após a implantação da República, a Câmara Municipal, perpetuou na memória de Lisboa o nome de João de Oliveira Miguens, comerciante de Alcântara que pertenceu ao directório do Partido Republicano Português e que em 1902, por ocasião do Convénio, organizou uma tentativa de levantamento armado em Alcântara. [cm-lisboa.pt]

Largo de Alcântara [sítio da ponte de Alcântara], cruzamento das Ruas Maria Pia e Prior do Crato [1966]
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 5 March 2016

Rua do Poço dos Negros

Já agora enfiemos pelas Gaivotas até à Rua do Poço dos Negros. 
Esta artéria deve o seu nome, na melhor das hipóteses — recorda Norberto de Araújo — , à circunstância de por aqui ter existido um poço ou vala onde se enterravam os cadáveres dos escravos; também se admite a hipótese de ser a designação uma projecção toponímica de qualquer poço, da horta dos "frades negros", que eram os de S. Bento.⁼⁼
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 83, 1939)

Rua do Poço dos Negros no Largo do Poço Novo, junto ao actual 
Largo do Dr. António de Sousa de Macedo [1908]

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Por deliberação municipal de 12/08/1937 passou o Largo do Poço Novo a designar-se por Largo do Dr. António de Sousa de Macedo (1606–1682), assim homenageando o secretário de D. Afonso VI que viveu no Palácio da sua família existente neste Largo lisboeta. (cm-lisboa.pt)

Era de família nobre entroncada nos Braganças. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Depois da Restauração, foi secretário de estado na embaixada que D. João IV enviou à corte de Carlos I de Inglaterra e embaixador na Holanda. Foi desterrado para a ilha Terceira após a abdicação de Afonso VI (1669). Foi director de um dos primeiros jornais portugueses, Mercúrio Português, publicado mensalmente em Lisboa (1663-1666). Escreveu obras em português, castelhano e latim.

Rua do Poço dos Negros junto à Travessa do Poiais [1908]
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Obras: Flores de España, Excelências de Portugal (Lisboa, 1631); Ulissipo (poema heróico, 1640); Lusitania Liberata ab injusto Castellanorum dominio (Londres, 1645); Hermonia Política dos Documentos Divinos com as Conveniências de Estado (Haia, 1651); Eva e Ave (Lisboa, 1676).

Canto ao varão que por fatal governo
da Grécia à Lusitânia peregrino
fundou ilustre muro e nome eterno;
onde o mar torna o Tejo cristalino
muito obrou e sofreu; em vão o Inferno
se quis opor contra o poder Divino,
que o guardou para autor, naquela idade,
de muitos reinos numa só cidade.

(Ulissipo, CANTO I, 1640)

O seu túmulo encontra-se na Igreja de Jesus, na freguesia das Mercês, na capela do Senhor Jesus da Misericórdia, que ele próprio instituiu. 

Friday, 18 December 2015

Largo Trindade Coelho, antigo de São Roque

No ano de 1509 grassava em Lisboa uma grande peste, e o rei D. Manuel I mandou erguer junto ao cemitério, que se situava perto do Convento da Trindade, uma ermida a que chamou de São Roque para albergar uma relíquia do santo vinda de Veneza. Por essa altura um proprietário local, de nome Bartolomeu de Andrade, iniciou a construção de um conjunto de casas nas cercanias, a que se chamou Vila Nova de Andrade, ao Alto. Em 1553 os jesuítas tomaram conta de ermida e em 1555 iniciaram a construção de um majestoso templo, a actual Igreja de S. Roque.
E foi assim que a Vila Nova de Andrade, do Alto, que crescia junto ao convento, passou a ser conhecida por Bairro Alto de São Roque, e depois por Bairro Alto. Desta associação nasceu o topónimo Largo de São Roque, que passou a Largo Trindade Coelho por edital de 1913.

Largo Trindade Coelho, antigo de São Roque |entre 1908 e 1914|
Ao fundo, a Calçada do Duque e a Rua Nova de Trindade
Inscrição no original: «Marchand de dindon», que é como quem diz, vendedor de perus.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
(*) O local não se encontra identificado pelo fotógrafo

N.B. José Francisco de Trindade Coelho, destacado jurisconsulto, escritor e jornalista, nasceu em Mogadouro a 18 de Junho de 1861 e faleceu em Lisboa a 19 de Agosto de 1908.
Cursou Direito em Coimbra, cidade onde começou a escrever nos jornais sob o pseudónimo de Belistírio. Aí exerceu advocacia e fundou duas publicações: «Porta Férrea» e «Panorama Contemporâneo», [cm-lisboa.pt]

Largo Trindade Coelho, antigo de São Roque |c. 1948|
Ao fundo, a Calçada do Duque e a Rua Nova de Trindade
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

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