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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Avenida Fontes Pereira de Melo

Esta artéria, que homenageia António Maria Fontes (1818-1887), estava integrada no Plano das Avenidas Novas, do Eng.º Ressano Garcia, aprovado em 1888 pela Câmara Municipal de Lisboa, seguia as ideias urbanísticas do séc. XIX, aplicando os princípios higienistas de combate à insalubridade das densas vilas da industrialização, definindo um traço regular formado por quarteirões uniformes, numa sequência de eixos estruturantes articulados por rotundas. 

Avenida Fontes Pereira de Melo |1969|
O Mercado 31 de Janeiro no sítio das Picoas data de 1924. Neste local funcionou até meado da década de 1950 o Matadouro Municipal de Lisboa depois edifício-sede da Portugal Telecom — «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades».
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Neste plano, a Avenida Fontes Pereira de Melo constituía o elemento de ligação do conjunto das ruas adjacentes ao Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) com o núcleo Picoas – Campo Grande.

Avenida Fontes Pereira de Melo |1959|
Antiga Rua Fontes, junto a Av. António Augusto de Aguiar (esq.); obras do metropolitano.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Mercado de Arroios

Fui um dia visitar o mercado de Arroios, gostei da sua arquitectura, tipo de panela com a tampa em cima a fazer de telhado, a praça cheia de tudo, hortaliça, fruta de toda a qualidade, peixe fresquinho tapado de gelo, encontrei lá uma sardinha de olhos azuis que andava a passear, perguntei-lhe se havia assim sardinhas tão boas todos os dias no mercado de Arroios, respondeu-me que em em Portugal não falta nunca a boa sardinha. [Covas: 2007]

Erguido no centro de um populoso bairro lisboeta — vulgo Bairro dos Actores —, o mercado de Arroios (1942) assentou numa concepção estrutural inovadora. Com uma planta central, com um pátio central aberto, a construção articula-se em torno de uma série de grandes vigas dispostas em círculo que se estendem por três pisos. De cada lado desta estrutura matricial está suspensa uma laje que cobre o primeiro andar, onde as lojas se abrem para a rua exterior e para o pátio interior, respectivamente. Este sistema de corpos escalonados permite uma abertura de aberturas em vários níveis que convergem para alcançar uma iluminação natural cheia de força e diversificada, bem como uma espacialidade claramente inovadora para a época. [Ana Tostões]

Mercado de Arroios (construção) |1939|
Rua Ângela Pinto; ao fundo as Ruas Lucinda Simões e Carvalho Araújo.
DN, in Lisboa de Antigamente

O projecto urbanístico aprovado em sessão de Câmara de 7 de Abril de 1928 determinou o futuro da zona contida entre a Praça do Chile e a Alameda Dom Afonso Henriques, tendo a Rua Ângela Pinto (1869-1925) sido o topónimo dado à «Circular, em volta do mercado». Com a publicação do Edital de 12 de Março de 1932, ficou perpetuada a memória de uma das maiores actrizes do teatro português na toponímia da cidade de Lisboa.

Panoramica sobre o Mercado de Arroios e envolvente |1942|
Rua Ângela Pinto; Rua Carlos Mardel.
Projecto do arquitecto Luís Benavente, datado de 1938-40.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 10 de novembro de 2024

Mercado de Levante no Bairro Social do Arco do Cego

De acordo com Norberto de Araújo «O Bairro Social de Arco do Cego principiou a construir-se em 1919, e — com suspensões e administração precária — só depois de 1928 levou uma sacudidela na sua letargia. Pode fixar-se a sua inauguração em 1934 1935-03-10. Dispõe de 481 moradias e é cortado por vinte ruas, das quais o mais importante no eixo, de nascente (Praça do México, hoje de Londres) a poente (Rua do Arco do Cego, que será a Rua D. Filipa de Vilhena) a Rua Dr. Magalhães Lima. A frente do Bairro está ajardinada em duas placas. 
No coração deste Bairro se construiu o novo Liceu D. Filipa de Lencastre. [Araújo: 1939]

Mercado de Levante no Bairro Social do Arco do Cego |1960|
Rua Costa Goodolfim 
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

O lançamento da primeira pedra do Bairro Social do Arco do Cego realizou-se com a presença do Presidente da Republica e devidamente noticiada pela imprensa da época:
"Foi uma festa deveras importante a cerimónia do primeiro pau de bandeira no bairro social do Arco do Cego, construído onde antigamente era a Quinta das Côrtes, vasto trato de terreno que breve será habitado, pois que se trabalha por erguer nada menos de 3000 habitações (...) Como se vê olhando o plano do bairro ele tem tudo o que uma pequena vila é, não lhe faltando sequer a Casa do Povo, com a sua biblioteca, o club e o teatro. As construções alinham-se elegantemente e só há a temer que os burguezes se façam operários para disfrutarem as vantagens de ali morarem porque é da velha sabedoria que quem não mora não vive e quem vive mal é porque habita bem."
(lllustração portugueza, 7 Junho de 1920)

Fotografia aérea do Bairro Social do Arco do Cego |195-|
Em cima à esq. observa-se o Liceu D. Filipa de Lencastre e, na dir. baixa, nota-se a antiga 
Fábrica de Cerâmica Lusitânia na Rua do Arco do Cego.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

O Bairro Social do Arco do Cego foi encomendado na I República pelo Ministério do Trabalho. A fase de projecto contou com o risco de arquitectos como Adães Bermudes, Frederico Caetano de Carvalho e Edmundo Tavares. Inicialmente vocacionado para bairro operário, a sua construção passa para a gestão da Câmara Municipal, a partir de 1927, sendo transformado num bairro habitacional para a pequena burguesia de serviços e principalmente para funcionários camarários.

Panorâmica sobre o Bairro Social do Arco do Cego |c. 1935|
Rua Xavier Cordeiro; Avenida Magalhães Lima; Rua Brito Aranha; Rua Brás Pacheco; 
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

É constituído pela edificação contínua de blocos quadrangulares de 2 e 3 pisos, assim como de bandas geminadas de habitações unifamiliares de 2 pisos. No início da década de 30 do séc. XX, aí foi construído o primeiro equipamento escolar modelar modernista da capital. O projecto inicial, da autoria do arq. Jorge Segurado, datado de 1932, previa a construção de uma grande escola primária, no entanto, em 1938, o Plano do Estado Novo para edificar 13 liceus ordenou que fosse elaborado um projecto de adaptação da escola primária a liceu, com o objectivo de aí ser instalado o Liceu D. Filipa de Lencastre, cuja obra viria a estar concluída em 1940. De planta simétrica, o jogo de volumes do edifício alia o racionalismo do programa ao eclectismo do bairro que o envolve. [cm-lisboa]

domingo, 20 de outubro de 2024

Bairro Santos, ao Rego

Para além da linha férrea e a poente — recorda Norberto de Araújo — , se edificou em 1930 o novo «Bairro da Bélgica», e a nascente um outro novo «Bairro Santos», tudo incluído na recentíssima urbanização de Lisboa.[...]
Chegamos assim ao velho Largo do Rego, que a urbanização trivializou, junto do qual correu a pitoresca Rua das Cangalhas de que há meses restavam quatro paredes. Já agora enfiemos pela antiga Estrada do Rego, depois Rua de Sousa Holstein, modernamente Rua da Beneficência.
(ARAÚJO, Norberto de,  Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 59, 1939)

Bairro Santos, ao Rego |1963-03-30|
Rua Cardeal Mercier (1926) com a Rua Portugal Durão
Seria por aqui perto o antigo Largo do Rego, antes do alinhamento deste e da abertura dos novos arruamentos e consequente urbanização. Inauguração do Mercado de levante. 
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

domingo, 3 de março de 2024

Profissões de Antanho: vendedores de melancias

 — Quem a quer da  várzea, melancia á faca!

Era assim o pregão saloio, que os saloios sempre ganharam a vida com a barriga de Lisboa — recorda Calderon Dinis. Escarafunchando a terra magnífica que Deus lhes deu, sabiamente a têm aproveitado tirando partido de tudo o que ela lhes dá. Sempre assim foi e noutros tempos eram eles mesmo que, de rua em rua, apregoavam e vendiam as suas couves e alfaces, como as favas e as ervilhas.
Com a saborosa melancia vermelha e fresca que era uma beleza, os saloios corriam meia Lisboa com as suas carroças, a malta a comprar e eles mesmo a parti-las em grossas talhadas, refrescando-se os lisboetas nas tardes quentes, que aquilo foi sempre fruto de Verão.
Estamos a lembrar-nos que, no largo de Cacilhas, onde hoje é parque e estação de autocarros, se fazia o grande mercado da melancia, amontoadas em pirâmides, tal era a quantidade do magnífico fruto!

Vendedeira de melancias no cais da Ribeira Nova |1912|
As saborosas e frescas talhadas.
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Vem das várzeas nos grandes catraios — lê-se na Illustração portugueza, 1910 —, nos barcos d'agua à riba e nos cais, da Ribeira Velha a Belém, é ver os homens atirando-as com metódica precisão, dos botes para terra como grandes bolas num torneio. Raramente uma cai para gaudio, regalo e refresco da garotada que d'olho alerta espera sempre ganhar alguma coisa nos espectáculos que presenceia.
Neste tempo a melancia, nascida nas Várzeas de Alcochete e Ribatejo além, bem regada e linda na sua cama de folhas largas é manjar de todas as mesas; cai na cidade como um chuveiro de balas: expõe-se nas portas dos estabelecimentos frutas onde os ricos vão e aparece aos montões nos mercados. As portas das vendas e dos pequenos Jugares lá estão duas ou três; nas mercearias mostram-se com a designação do preço por quilo como se em vez daquela casca verdenegra, que tanas promessas de frescura contem, tivessem os exteriores vermelhos de queijos flamengos.
Mas onde ela tem todo o seu carácter, onde aparece como o anuncio de um grande consolo é na cidade, para os que a não deixam; anunciada no pregão cantarolado:

 — Quem a quer da várzea, melancia á faca!

Profissões de Antanho: descarga melancias no cais da Ribeira Nova |1912|
Uma melancia a voar do barco para o cais.
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O pregão atroa Lisboa por este tempo de calor ardente e as mulheres com as suas gigas a cabeça, tostadas pela soalheira, vão vendendo a mais fresca das frutas, a melancia de coração rubro, que é um alarme e é uma delicia.

 — Quem a quer da várzea, melancia á faca!
___________________________________________
Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.
Illustração portugueza, 1910.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Avenida Vinte e Quatro de Julho: velhas inundações, novíssimo Mercado

O novo Mercado da Avenida 24 de Julho ou Mercado da Ribeira Nova, como também ficou conhecido, foi projectado pelo engº Ressano Garcia. Tinha 10 mil metros quadrados de área coberta e foi inaugurado em 1 de Janeiro de 1882. Em 1893 foi parcialmente destruído por um incêndio e acabou por ser demolido em 1926.
A reconstrução, ficou a cargo do arqº João Piloto e ficou concluída em 1930, com a instalação da cúpula com um lanternim.
Os lisboetas ficaram tão espantados ao verem uma cúpula num mercado decorado com frescos com motivos hortícolas pintados pelo italiano Gabriel Constanti que lhe chamavam a «Mesquita do Nabo».

Avenida Vinte e Quatro de Julho |1929-12-05|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
|Praça Dom Luís I; Mercado da Ribeira
.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Vinte e Quatro de Julho |1932-12-09|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Mercado da Ribeira em fase final de construç
ão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na sessão da C.M.L. de 10/02/1862 foi apresentada uma proposta no sentido de que no Aterro da Boavista no terreno confinante, pelo norte com a Casa da Moeda, pelo sul com o Tejo, pelo nascente com o Forte de São Paulo e pelo poente com a Rua 24 de Julho, se formasse uma Praça e que a mesma tivesse a denominação de Praça Dom Luís I. O topónimo Praça de Dom Luís I foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa após Deliberação Camarária de 10/02/1862.
A Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, na sua reunião de 19/01/1950, propôs alterar os nomes da Praça Dom Luís I e da Rua Dom Luís I, para Praça e Rua Marquês de Sá da Bandeira, em virtude de existir na praça um monumento ao ilustre fidalgo. Esta alteração nunca se efectivou e o marquês foi homenageado na toponímia, mas nas freguesias de Nossa Senhora de Fátima e São Sebastião da Pedreira.

Avenida Vinte e Quatro de Julho |1932-09-21|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Vinte e Quatro de Julho |1929-12-05|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Rua Engenheiro Vieira da Silva que foi Estr. das Picoas

Augusto Vieira da Silva (1869-1951). Historiador e engenheiro, concluiu o curso de Engenharia na Escola do Exército em 1893. Foi sócio efectivo da Associação dos Arqueólogos Portugueses, membro da Academia de História, sócio honorário e primeiro presidente do grupo Amigos de Lisboa. Foi nomeado para a Comissão de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa em 1943. 

Rua Engenheiro Vieira da Silva |1965|
Olisipógrafo 1869-1951
Antigo troço da Rua das Picoas (antes Estr. das Picoas), compreendido entre a Praça José Fontana e a Avenida Fontes Pereira de Melo; Cine-Teatro Monumental.
Armando Maia Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Alguns dos seus textos foram editados sob o título Dispersos. Encontra-se colaboração da sua autoria nas revistas Feira da Ladra (1929-1943), Revista de Arqueologia (1932-1938), Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga (1939-1943) e na Revista Municipal (1939-1973) publicada pela Câmara Municipal de Lisboa.

Rua Engenheiro Vieira da Silva |1960|
Olisipógrafo 1869-1951
Antigo troço da Rua das Picoas (antes Estr. das Picoas), compreendido entre a Praça José Fontana. Perspectiva tomada da Avenida Fontes Pereira de Melo; Antigo Mercado 31 de Janeiro (dir.) e Matadouro Municipal.
Filipe Morgado Romeiras, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Rua da Fábrica da Pólvora: mercado

Este troço da Rua da Fábrica da Pólvora foi integrado na Av. de Ceuta (1971); no alto observam-se alguns prédios na Rua da Cruz, a Alcântara. A Fábrica de Pólvora que no local funcionou depois de 1690 – e sobre a qual mandou D. João V construir outra maior – originou a fixação no local da Rua da Fábrica da Pólvora, que hoje une a Rua da Cruz a Alcântara à Av. de Ceuta.

Rua da Fábrica da Pólvora |c. 1960|
Mercado de Alcântara (provisório)
Vasco Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

De acordo coma Norberto de Araújo «Deste pequeno largo à esquerda da Estação, isto é, para ocidente da linha férrea, saem as Ruas do Alvito, da Cruz de Alcântara e da Fábrica da Pólvora, que se perdem nos contrafortes da Serra de Monsanto, todas com carácter pobre-popular que aflorou do rústico velho.»

Rua da Fábrica da Pólvora |c. 1960|
Mercado de Alcântara (provisório)
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

domingo, 27 de agosto de 2023

Largo do Marquês Nisa

Este Largo entre a Rua de Xabregas e a Rua Gualdim Pais foi atribuído por Edital de 13/01/1939 na via pública que era já conhecida por Largo do Marquês de Nisa (já assim aparece no «Atlas da Carta Topográfica de Lisboa» de Filipe Folque de 1858) ou Largo da Marquesa de Nisa.
A origem do topónimo advém da existência no local do Palácio do Marquês de Niza, desde o reinado de D. João IV. Na segunda metade do século XIX, este palácio de Xabregas, mudou da posse do último Marquês, D. Domingos Gama, para um particular a quem o vendeu em 1862. 

Largo do Marquês Nisa |1939-07|
Mercado de levante de Xabregas e 
Palácio Niza
Eduardo 
Portugal, in Lisboa de Antigamente

No ano de 1867, o Estado adquiriu o Palácio, aqui instalando o Asilo D. Maria Pia e no mesmo ano procedeu a obras sumárias de reparação e adaptação e depois, após um incêndio, foi novamente reedificado a que se seguiram, em 1871, novas obras de restauro, sob a orientação do arquitecto João Maria Nepomuceno.

Largo do Marquês Nisa |1939-07|
Palácio Niza; Mercado de levante de Xabregas
Eduardo 
Portugal, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 3 de março de 2023

Mercado da Praça da Figueira

Nascida do plano de reconstrução da cidade, em 1883 foi aprovado o projecto do mercado da Praça da Figueira, substituindo o antigo ao ar livre e que se tornou um importante centro de abastecimento e diversão. Demolido em 1949, apesar dos protestos, o espaço ficou apenas centrado pela estátua equestre de D. João I. Da autoria de Leopoldo de Almeida, sobre pedestal de Jorge Segurado, foi aqui colocada nos anos setenta. [Cabello: 1998]

O Mercado da Praça da Figueira ocupa a área que pertenceu ao Hospital Real de Todos-os-Santos, ardido em 1750, e de todo desaparecido em 1755.
O primitivo mercado da Praça da Figueira era municipal, e datava do próprio mês do Terramoto; era — claro — ao ar livre. Pelo decorrer do tempo o Mercado, objecto de posturas camarárias, foi tomando um aspecto menos rudimentar, mas sempre carecendo de organização e de instalações; só em 1849 o recinto da Praça foi fechado com grades de ferro e oito portas. 

Mercado da Praça da Figueira  |c. 1890|
Rua da Betesga hoje 
Pç. da Figueira
Léon & Lévy, in Lisboa de Antigamente

Em 1875 foram presentes projectos à Câmara para construção de um mercado em forma, acabando, por, após várias demandas, ser aceites a proposta e o plano de Joaquim Lúcio de Araújo e de Manuel Ferreira de Lima, que transferiram a concessão para uma Companhia dos Mercados; a velha praça foi demolida em 1883, e em 16 de Maio de 1885 inaugurou-se este Mercado, que vês, do risco de Manuel Maria Ricardo Correia.
A concessão era por cinquenta anos, e assim , em 1935 a Câmara, por efeito de uma cláusula, tomou conta da Praça da Figueira — que então voltou a ser municipal — ; eram então principais accionistas os irmãos D. António de Melo Magalhães e o Conde de Santar, D. Pedro de Melo.  [Araújo, XII, 1939]

Mercado da Praça da Figueira  |c. 1949|
Antigo troço da Rua da Betesga hoje Pç. da Figueira
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

domingo, 6 de novembro de 2022

Mercados do Bairro de Alvalade: Ruas Luís Augusto Palmeirim e José Duro e o novo Mercado de Alvalade Norte (actualizado)

Mercados que funcionam ao ar livre, sendo o sombreamento conseguido à custa de chapéus-de-sol. As bancas são montadas e desmontadas todos os dias (daí advém a designação de mercado de levante).
Luís Augusto Xavier Palmeirim (1825-1893) que trabalhou no Ministério das Obras Públicas e a partir de 1878 foi director do Conservatório de Lisboa, pertenceu à nova geração romântica do «Trovador» como poeta ultra-romântico. As suas principais obras são «Poesias» (1851), «O Sapateiro de Escada» (1856), «Como se Sobe ao Poder» (1856), «A Domadora de Feras» (1857), «Portugal e os seus Detractores» (1877), «Poesia Popular nos Campos» (1878), «Galeria de Figuras Portuguesas» (1879), «Os Excêntricos do Meu Tempo» (1891).
 
Rua Luís Augusto Palmeirim |1949|
Antiga Rua 12 do Sítio de Alvalade (até 1950)
Mercado de levante; ao fundo a Rua José Duro onde se situa o Mercado de Alvalade-Norte [vd. 2.ª imagem].
J. C. Alvarez, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): para não variar, o local da foto está, erradamente, identificado no abandalhado amL como «Mercado de levante de Alvalade Sul, inaugurado no bairro de Alvalade, Rua Antero de Figueiredo)

Com a legenda «Poeta/1875-1899», esta artéria homenageia José António Duro (1875-1899) que publicou o folhetim de versos «Flores» (1896) e o volume de poemas «Fel» (1898), o qual vale como documento humano de um jovem minado desde a adolescência pela tuberculose que vitimou o autor ainda enquanto aluno da Escola Politécnica. 

Rua José Duro |c. 1950|
Antiga Rua 12 do Sítio de Alvalade (até 1950)
Ao fundo, à dir., nota-se o antigo Mercado de Alvalade Norte.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
 
    "O presidente da Câmara inaugurou hoje o mercado de Alvalade"
O populoso bairro de Alvalade, dispõe desde hoje de um magnífico mercado coberto, melhoramento que há muito se fazia sentir e que vem beneficiar os moradores locais, como prova a sua comparência ao acto inaugural em número de alguns milhares. Pelas 10 horas, chegou ao local o sr. general França Borges [Presidente da CML (1959-1970] acompanhado do nosso prezado colega de. «O Século» [...] [in Diário de Notícias, 1 de Agosto de 1964]

Mercado de Alvalade Norte |1967|
Frente virada à Rua José Duro 
João Geraldes, in Lisboa de Antigamente

Em 31 de Julho de 1964, após a inauguração oficial com expressiva participação dos moradores, a população de Alvalade passou a dispor de um mercado coberto: o Mercado de Alvalade Norte, localizado na Avenida Rio de Janeiro e Rua José Duro. Projectado como um “mercado modelar” pelo arquitecto Costa Belém, possui cerca de 3000 m², 219 postos de venda (hortícolas, frutas, carnes, peixes, ovos e flores), balcões frigoríficos e cantina, mantendo-se até hoje como referência de qualidade no comércio de víveres. Funcionava, à época, nas manhãs de segunda a sábado, sendo que, actualmente, abre de segunda a sexta-feira, das 07h30 às 14h00.
[SABER ALVALADE. Roteiro de um bairro]

Mercado de Alvalade Norte |1967|
Frente sobre a Avenida Rio de Janeiro
João Geraldes, in Lisboa de Antigamente

domingo, 17 de abril de 2022

Mercado da Praça da Figueira, talhos e salsicharias em Sábado de Aleluia

Acabou-se o magro!


Era assim que a revista Ilustração Portuguesa de 8 de Abril de 1907 titulava um artigo sobre o fim da época pascal. Depois da abstinência do período da Quaresma — quadragesima dies (quadragésimo dia) — , quarenta dias de sacrifícios e sem comer carne às Sextas, no Sábado de Aleluia assistia-se a uma correria desenfreada e esfomeada aos talhos e salsicharias, tudo por um suculento naco de carne.

Praça da Figueira [8 de Abril de 1907]
Mercado da Praça da Figueira, talhos e salsicharias em Sábado de Aleluia.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Avenida Fontes Pereira de Melo: obras do Metropolitano de Lisboa

O primeiro projecto de um sistema de caminhos-de-ferro subterrâneo para Lisboa data de 1888, é da autoria do engenheiro militar Henrique de Lima e Cunha. Publicado na revista Obras Públicas e Minas, previa a um traçado que ligasse Santa Apolónia a Algés, com passagem pelo Rossio, São Bento, Janelas Verdes e Alcântara. O custo do empreendimento estava orçado em 500$000 réis por metro corrente de túnel. A proposta não avançou.

Avenida Fontes Pereira de Melo |entre 1955 5 1959|
Obras do Metropolitano de Lisboa; Mercado 31 de Janeiro; prédio do Anjo ao Saldanha 
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova

O Mercado da Ribeira Nova há vinte anos [por  volta de 1919] — lembra Norberto de Araújo — era, quási exclusivamente, de peixe, e o das hortaliças e frutas arrumou-se até 1927 nuns barracões, entre a linha do caminho de ferro, à qual se encostava por lado de terra, e a Avenida 24 de Julho. 

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Esse Mercado de frutas e verdes junto à linha férrea fora originado por uma greve de hortaliceiras na Praça da Figueira; as rebeldes foram-se instalar no Cais de Santarém onde estiveram dois anos, até que, despejadas dali, se instalaram (1905) no sítio — hoje [1939] ajardinado — onde fizeram o seu negócio (quem se lembrava já da greve?) até 1927. Entretanto juntaram-se-lhe as hortaliceiras da Ribeira Nova.

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Lê-se no Novo guia do viajante em Lisboa de Francisco Bordalo publicado nos idos 1853:  Ribeira Nova - Mercado de peixe , mas onde se encontram também fructas e hortaliças. Está situado em uma boa praça junto ao caes de Sodré; tem logares cobertos como a Praça da Figueira. Na frente do mercado, junto ao rio, está a casa fiscal da administração do pescado.==

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [1919]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 57, 1939.
BORDALO, Francisco Maria, Novo guia do viajante em Lisboa e seus arredores, 1853.

domingo, 11 de agosto de 2019

Mercados do Poço dos Mouros e de Arroios

Construído em 1942 pela “Sociedade de Construções Amadeu Gaudêncio” e projectado pelo arquitecto Luiz Benavente, o Mercado de Arroios veio substituir o antigo Mercado do Poço dos Mouros considerado anti-higiénico — ou mesmo "infecto" —, no dizer de alguns.

Classificado inicialmente como mercado retalhista, mais tarde desempenhou as funções de mercado abastecedor de legumes, passando á categoria de mercado misto:
“Dispunha de 31 lojas destinadas a talhos, salsicharias, venda de frutas, lacticínios, etc., e de 300 lugares de venda. No subsolo foram instalados um matadouro de aves, tulhas, cantinas e frigoríficos, para carne, peixe, caça, aves, frutas, hortaliças. Aqui também existem lavabos e chuveiros para utilização dos vendedores, público e pessoal; arrecadação para produtos e vestuários dos vendedores, devidamente numerados e uma cantina.” [Leite: 2012]

Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 |1927-06-20|
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Mercado do Poço dos Mouros, inaugurado em 1927 |1939|
Rua Morais Soares com a Rua Carvalho Araújo (antiga Azinhaga do Areeiro)

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Mercado de Arroios situa-se entre as ruas Carlos Mardel e Ângela Pinto. Com projecto do arquitecto Luís Benavente, datado de 1942, destinou-se a servir um dos bairros então em maior expansão demográfica da capital: o que ligava a cidade da viragem para o século XX (em torno de Arroios) com as novas áreas em redor da Fonte Luminosa e do Bairro dos Actores. Implanta-se na principal praça deste último bairro, dominando funcionalmente este segmento urbanístico a ponto de determinar a equipamentos comerciais nas ruas adjacentes. A partir da década de 1980, e à semelhança de muitos outros mercados tradicionais, entrou em decadência progressiva, ameaçado pelas grandes superfícies comerciais e pela redução drástica de produção local em torno de Lisboa, facilitada pelo avanço dos subúrbios e pela conversão profissional de largas faixas da população. Permanece, todavia, como um dos mercados de referência da zona oriental.


Mercado de Arroios |194-|
Rua Ângela Pinto
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O edifício segue uma planta centralizada, cujos lados são organizados uniformemente em alçados de quatro pisos, progressivamente mais pequenos à medida que se aproxima a cobertura. O registo térreo é formado por grandes arcadas de lintel recto, cobertas por superfícies de vidro que formam montras de estabelecimentos comerciais do interior. Quatro delas (abertas segundo os pontos cardeais) são as entradas principais, encimadas axialmente por brasões municipais. Os panos do segundo piso são rasgados por conjuntos de cinco janelões, solução que se repete nos dois últimos pisos, embora recorrendo a vãos mais pequenos.
O interior possui dois pisos, fazendo-se a ligação através de escadarias na quadra central. Aqui, no piso inferior, dispunham-se originalmente as floristas, enquanto as vendedoras de verduras e de frutas ocupavam a grande galeria circular junto às portas. O andar superior era reservado ao comércio de peixe. ~
[ALMEIDA, Álvaro Duarte de, Portugal património: Lisboa, 2007]

Mercado de Arroios |1942|
Rua Ângela Pinto
in Revista municipal Lisboa

Depois de dois anos de obras de requalificação e cerca de um milhão de euros depois, o Mercado de Arroios reabriu em 2017 apresentado à freguesia de cara lavada. Os postos de venda foram remodelados, o pavimento substituído e o interior pintado. Há uma nova rede de águas e melhorias na mobilidade (rampas e novos elevadores). O final desta requalificação acontece no ano em que se celebra o 75º aniversário da construção do mercado, classificado nos anos 80 como edifício com interesse cultural.
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Bibliografia
cm-lisboa.pt.
Revista municipal Lisboa, 1941.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Mercado de Santa Clara

A festa de inauguração deste mercado foi explêndida. N’esse dia todo o edifício esteve embandeirado, subindo aos ares milhares de foguetes e tocando duas philarmónicas, uma dentro do recinto e outra da parte externa, para que se armou um vistoso corêto. Immenso concurso de gente ali affluiu e a multidão era enorme.¹

O Mercado do Campo de Santa Clara — recorda-nos Norberto de Araújo — , que ali se vê ao centro da Praça — a parte sul do Campo de Santa Clara — , data de 1877, e foi construído por uma Companhia de Mercados e de Edificações Urbanas, que o explorou até 1927, ano em que, após o meio século do contrato com a Câmara, e segundo clausula fundamental, foi municipalizado.²
Mercado de Santa Clara, entrada Sul [1927]
Campo de Santa Clara
A inauguração do Mercado foi feita, com pompa e circunstância, no dia 7 de Outubro de 1877, sob a melodia de uma orquestra que tocava num coreto instalado no local, propositadamente para o dia da inauguração. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Desenhado e construído com base em novas técnicas e materiais, nomeadamente o tijolo industrial, o ferro e o vidro, o Mercado de Santa Clara fez parte da fase de introdução da arquitectura do ferro em Portugal, a qual à semelhança da restante Europa, utilizou o conceito sobretudo na construção de estações de caminho-de-ferro, mercados, pontes, armazéns, estufas e outros edifícios públicos. Situado numa área de 1250 m2, o edifício foi construído sobre um plano inclinado, o qual se revelou estruturalmente favorável à sua funcionalidade. A proposta de construção do Mercado de Santa Clara em Lisboa foi apresentada à Câmara Municipal pelos senhores Conde de Penamacor e António Paes de Sande e Castro a qual mereceu um parecer favorável por parte de então vereador camarário, José Gregório da Rosa e Araújo, preconizador do desenvolvimento e modernização da cidade de Lisboa. 

Mercado de Santa Clara [1961]
Campo de Santa Clara; entradas Sul e Norte, respectivamente.
Artur João Goulart, in Lisboa de Antigamente

Na década de 80 sob o desígnio de inovar, rentabilizar e tornar o mercado mais funcional, foi solicitado, ao arquitecto Alberto Sousa Oliveira, um projecto de reparação e remodelação tendo em vista a solução dos seus mais graves problemas. Desse projecto resultou a instalação de um Restaurante panorâmico na sobre-loja do mercado, foram instaladas novas bancas e remodeladas diversas lojas, para além de diversas alterações funcionais. Porém, tudo isto não bastou para salvar o Mercado de Santa Clara que deixou de funcionar como mercado de venda de produtos frescos e passou a funcionar como pólo de dinamização cultural da cidade, acolhendo eventos de índole diversa.

Mercado de Santa Clara [1927]
Campo de Santa Clara; ao fundo observa-se a entrada sul
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Hoje em dia, para além do restaurante panorâmico, lojas de antiguidades e de produtos alternativos, o Mercado de Santa Clara acolhe o Centro de Artes Culinárias, o qual foi inaugurado no dia 28 de Junho de 2011, em resultado de um protocolo entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação “As Idades dos Sabores”.³

Mercado de Santa Clara [1936]
Campo de Santa Clara; entrada Norte
Eduardo Portugal,in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ In Mercado de Santa Clara, C.M.L., Lisboa, p. 7, 1995.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 73, 1938.
³ SEROL, Maria Elisabete Gromicho, O Campo de Santa Clara, em Lisboa Cidade, História e Memórias | Um Roteiro Cultural, pp. 84-127, 2012.
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