Tuesday, 30 June 2015

Palácio Soares de Noronha, depois Imprensa Nacional

O palácio de D. Fernando Soares de Noronha, à Cotovia, na então Rua Direita da Fábrica das Sedas, quase defronte do Colégio dos Nobres [actual Escola Politécnica], mas com entrada pela Travessa do Pombal, actual Rua da Imprensa Nacional. O palácio foi comprado em 1816, pelo preço de 18 contos de réis. Em 1895, o velho edifício, considerado inadequado para as necessidades de um estabelecimento fabril em contínuo desenvolvimento, começou a ser demolido, para dar lugar ao actual. A obra, que decorreu por fases, ficou concluída em 1913.

Palácio Soares de Noronha, depois Imprensa Nacional [séc. XIX]
Travessa do Pombal, actual Rua da Imprensa Nacional, com a Rua Direita da Fábrica das Sedas, actual Rua da Escola Politécnica
O antigo palácio dos Soares de Noronha começou a ser demolido em 1895 e, no mesmo local, já estava levantado (desde 1913) o edifício da Imprensa Nacional

Nota(s): Reprodução fotográfica invertida e erradamente datada de 1919 no AML.

Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente


Criada por Alvará de 24 de Dezembro de 1768, a Impressão Régia, também chamada Régia Oficina Tipográfica, só a partir de 1833 passou a ser designada Imprensa Nacional.
Para dar início à sua laboração, foi adquirida a oficina tipográfica de Miguel Manescal da Costa e o palácio de D. Fernando Soares de Noronha.

À Impressão Régia foi, nos termos do Alvará de 1768, «unida a fabrica dos caractéres que até agora esteve a cargo da Junta do Commercio», fundada em 1732 por Jean de Villeneuve. Este francês viera para Portugal chamado por D. João V para ensinar a sua arte. Foi-lhe cometida a «continuação do ensino de aprendizes da mesma fabrica de letra, para que não faltem no reino os professores desta utilissima arte».(...)
Mais tarde, entre 1802 e 1815, teve este cargo o célebre gravador Francesco Bartolozzi, chamado a Lisboa pelo então presidente do Real Erário, D. Rodrigo de Sousa Coutinho. (in incm.pt)

Imprensa Nacional [post. 1913]
Rua da Escola Politécnica, 135-137; Rua do Noronha; Rua da Imprensa Nacional
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

Cinema Apolo 70

«O Drugstore Apolo 70 (o maior da Europa) foi ontem inaugurado»

in Diário Popular


Inaugurado em Maio de 1971, o Cinema Apolo 70 homenageava com o seu nome a primeira viagem do homem à Lua e estabelecia paralelismo com a data de início da sua construção. O Cinema Apolo 70 não pode ser dissociado do Centro Comercial com o mesmo nome onde estava integrado, e que, na época, causou um grande impacto na vida lisboeta; pelas suas 41 lojas, o inovador snack-bar e o bowling de 4 pistas. Projectada pelo arq. Augusto Silva com decoração de Paulo Guilherme, a sala dispunha de 300 lugares e estava equipada com aparelhagem Phillips de projecção para 35mm, ecrã normal e cinemascope
Este cinema, para além da envolvência era apreciado pela qualidade dos seus filmes, a que, não era alheio o coordenador de programação na altura, o conhecido realizador e escritor de teatro e cinema, Lauro António. O cinema inaugurou com «O Vale do Fugitivo», de Abraham Polonsky, o western que Lauro António escolhera para a estreia. O cinema fechou nos anos 90 sendo substituído por um restaurante mas o centro comercial mantém-se até aos nossos dias.

Cinema Apolo 70 [1977]
Avenida de Júlio Dinis, 10A
Vasques, in Lisboa de Antigamente

Monday, 29 June 2015

Beco do Marquês de Angeja

Sobre a origem deste Beco que se abre entre os nºs 26 e 28 da Rua de São João da Praça e sobre o seu topónimo refere Luís Pastor de Macedo:

Este beco ocupa um terço aproximadamente, do comprimento da antiga rua das Atafonas, rua que fazia a comunicação entre a praça do Marechal e a rua do Tem-te-lá [hoje prolongamento de S. João da Praça], […] e que já é citada no Livro de lançamento e serviço, etc., de 1565. (…) Mais tarde, já no século XVIII (1726) deu-se também à serventia a qualificação de beco. A razão por que depois do terremoto foi substituído o nome de rua das Atafonas pelo do Marquês de Angeja já a explicou Gomes de Brito: ‘Um pouco mais adiante na boca da rua das Atafonas, na mesma linha do Tem-te-lá, abria-se um pequeno beco, sem saída, aquém chamavam do Pardieiro, por haver aí, com efeito, uma barraca em ruína, que fechava o beco e servia de palheiro ao Marquês, cujo palácio ficava ao lado fronteiro, encostado à velha muralha mourisca. Levantada pelo novo alinhamento a propriedade da actual rua de S. João da Praça, desapareceu nela o beco do Pardieiro, mas a circunstância de ter ele pertencido ao Marquês fixou no beco antecedente o título desta casa’. A primeira vez que vemos apontar o beco do Marquês de Angeja é em 1802, tendo porém antes, e desde 1775, a qualificação de pátio – pátio do Exmº Marquês de Angeja.
(cm-lisboa.pt)

Beco do Marquês de Angeja [c. 1900]
Rua de São João da Praça; Cerca (Torre) Moura
Machado & Souza, in A.M.L.

Calçada de Carriche

Para a Calçada de Carriche não existem registos nem indicação de edital de atribuição do topónimo, em virtude de este ser antiquíssimo.
Assim, já durante a ocupação romana da península a passagem natural a Norte de Lisboa era efectuada através do Desfiladeiro de Carriche. Durante a ocupação muçulmana o topónimo sobreviveu, podendo ter tido a sua origem etimológica no árabe «qarix» (pedra miúda, cascalho) embora subsista a hipótese de ser bastante mais antigo e derivar do céltico «carr» (pedra). (cm-lisboa.pt)

Calçada de Carriche [1933]
Prova ciclista Lisboa-Bombarral e Volta
in Arquivo do Jornal 'O Século'

Calçada de Carriche [1934]
5.ª Volta Ciclista a Portugal
in Arquivo do Jornal O Século

Sunday, 28 June 2015

Avenidas 24 de Julho e Dom Carlos I

A Avenida Dom Carlos I foi inaugurada no dia 28 de Dezembro 1889, dia da aclamação do Rei do mesmo nome. Com o advento do regime republicano (1910), mudou-se-lhe o nome para Avenida das Cortes, e após a Primeira Guerra Mundial (1918) passou a designar-se Presidente Wilson, homenagem ao Presidente americano, cujo apoio foi decisivo para o desfecho da vitória dos Aliados.
Os prédios na imagem datam de 1870 a 1880. [cm-lisboa.pt]

Avenida 24 de Julho e Avenida Dom Carlos I [post. 1900]
À dir., tornejando para a Av. 24 Julho, a antiga Fábrica de Chocolate Iniguez
Joshua Benoliel, in A.M.L..

Quiosques da Praça Luis de Camões

Estava um dia de calor e Alípio, apenas avistou na porta o ventre enorme do desembargador, precipitou-se para lhe tirar o chapéu das mãos, perguntar-lhe pelas senhoras e oferecer-lhe um copo de orchata, bebida que o dr. Vaz Correia tinha na saleta de dentro nos meses de Verão. — Quer V. Ex.ª um copo de orchata?". E o desembargador: 
— Pois venha de lá a orchata. Vai de refresco.==
(in Eça de Queirós, O Conde de Abranhos)

O mais antigo quiosque da Praça Luís de Camões |1908|
Lisboa com «35º à sombra», segundo a crónica da Ilustração Portuguesa, N.º 129, 10 Agosto.

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A «orchata», era um dos mais populares refrescos lisboetas no séc XIX, apreciado por Eça de Queiroz, para acompanhar um «Bife a Marrare». É um refresco rico e cremoso, de gosto particular e requintado, feito à base de amêndoas e açúcar, dissolve-se em água, acrescenta-se gelo e... «Vai de refresco!»
 
Quiosques da Praça Luís de Camões |1908|
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 27 June 2015

Rua Áurea

 «Nela se acomodarão os Ourives do Ouro, alojando-se nas acomodações que dele sobejaram os Relojeiros e Volanteiros.»
(Diploma régio (D. José I) de 05/11/1760, que consagra as denominações da Baixa Pombalina)

Rua Áurea, cruzamento com a  Rua de São Julião, 1930
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
 

Friday, 26 June 2015

Avenida da República, 60-62, antiga Ressano Garcia

Esta moradia apalaçada edificada em 1909 (à esq. da foto) estava localizada junto à Praça do Campo Pequeno, correspondendo, talvez, ao actual nº 60-62 da Avenida da República (vd. mapa). Sofreu alterações cerca de 1916 e  foi demolida na década de 1960.


Após a proclamação da República, em 1910, a Câmara de Lisboa alterou a toponímia, substituindo os nomes das figuras públicas comprometidas com a monarquia e os topónimos de cariz religioso por outros evocativos dos ideais republicanos e esta Avenida da República é disso um exemplo claro, substituindo o topónimo do criador das Avenidas Novas em 1904 (Avenida Ressano Garcia) pela própria República.
Refira-se ainda que esta longa artéria ainda antes de ser Avenida Ressano Garcia pelo edital de 3 de Maio de 1897 foi a Avenida das Picoas ao Campo Grande por referência à Quinta das Picoas que existia no local.

Avenida da República [1916]
Preparativos para o embarque das tropas do C.P.E. que vão combater na Primeira Guerra Mundial.

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente 

Lisboeta de nascimento, ao serviço da Repartição Técnica da Câmara Municipal de Lisboa, Ressano Garcia desempenhou, a partir de 1874, um papel fundamental na transformação da fisionomia da Capital. Para além do Mercado da Ribeira Nova (24 de Julho) e da conclusão das obras nos Paços do Concelho, a figura do Engenheiro está intimamente associada à expansão sistemática da cidade para norte. Consignada no Plano Geral de Melhoramentos (Comissão de 1876-1881), traduziu-se no traçado de eixos viários, largos e rectilíneos – os modernos boulevards – a delimitar quarteirões ortogonais para loteamento, com rotundas, passeios, vegetação e mobiliário urbano, de que a Avenida da Liberdade, a Av. 24 de Julho (o Aterro) e a Avenida das Picoas ao Campo Grande (Av. República) e toda a planificação das ruas adjacentes, são os exemplos mais significativos.

Avenida da República, [ant. 1909]
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente 

Thursday, 25 June 2015

Praia das Maçãs: Hotel Restaurant Royal Belle-Vue

Hotel Restaurant Royal Belle-Vue


O projecto e iniciativa estiveram a cargo de Eugène Levy. Traçaram-se novas ruas, macadamizaram-se estradas, regulamentaram-se as construções, organizaram-se os espaços, e, segundo um projecto do arquitecto Ventura Terra, proveu-se à construção do Hotel Royal Belle Vue, construído por Francisco dos Santos. Esperava-se que o referido Hotel impulsionasse o turismo balnear, tendo-se apostado, por isso, na higiene, elegância e conforto. 
O Hotel Royal possuía água potável, directamente canalizada para o restaurante, e iluminação eléctrica em todos os quartos. Foi destruído por um incêndio em 1921.

 Hotel Restaurant Royal Belle-Vue [c. 1913]
Praia das Maçãs
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1913, foi cenário de um "complot" levado a cabo por revolucionários do «Movimento 27 d'Abril» para assassinar — «a tiro ou à bomba» — Afonso Costa, chefe do governo, que ali se encontrava a banhos. O golpe foi frustrado pela intervenção da polícia, tendo sido detidos dois homens, Miguel Gaião e Jaime Granja, sindicalistas.

Hotel Restaurant Royal Belle-Vue [c. 1913]
Joshua Benoliel,in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
Jornal O Século nº 9901, , p. 3, 10 Julho 1909.
Ilustração Portuguesa N.º 398, 6 Out. 1913.

Wednesday, 24 June 2015

Parque Mayer: — Vai um tirinho, freguês?!

Barraca de tiro ao alvo no Parque Mayer


Situado junto à Avenida da Liberdade, do lado ocidental, entre a Rua do Salitre e a Praça da Alegria, este recinto viveu o seu apogeu entre as décadas de 30 e de 70 do séc. XX. Começou por funcionar com divertimentos como barracas «dos tirinhos», carrinhos de choque, carrosséis de feira, “roleta diabólica”, atrações várias, como o circo do El Dorado, e combates de boxe e luta-livre.

Barraca de tiro ao alvo no Parque Mayer [c. 1940]
Ferreira da Cunha, in AML
 
Deste modo, o Parque Mayer rapidamente se tornou um recinto de convívio e de feira ao ar livre, onde não faltavam restaurantes, bares, cabarets, retiros e tascas, atraindo um público aficionado. Em 1932, por sugestão de Leitão de Barros, realizou-se aí o primeiro desfile de grupos representantes dos bairros lisboetas que, posteriormente, dará origem às Marchas Populares.

Barraca de tiro ao alvo no Parque Mayer [1930-05]
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Tuesday, 23 June 2015

O «lagarto» da Penha de França

Ermida da Penha de França


A tradição olisiponense teima em afirmar, em sua lenda, que foi neste lugar alto da Penha de França que Ulisses se deu de amores com a “deusa-serpente”, Ofiússa, que não era “serpente” mas rainha de uma sociedade mítica de mulheres guerreiras, religiosas e sibilas ou profetisas. A verdade é que nesta igreja de Nossa Senhora da Penha ainda se presta culto à serpente, talvez memória do primitivo culto romano ao deus Esculápio, entrando tardiamente o onomástico Penha de França em lembrança de um monge francês ter descoberto uma imagem da Virgem escondida aqui numa penha, durante o período árabe da ocupação da Península Ibérica.

Ermida da Penha de França [c. 1910]
Fachada principal, virada ao Largo da Penha de França (Cabeça de Alperche).
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Este templo é dos que mais testemunham em Lisboa a intervenção do sobrenatural, não lhe faltando uma “casa dos milagres” onde se expõe uma curiosa colecção de ex-votos. Sem dúvida que de todas as lendas a principal deste sítio é a do lagarto da Penha. Se uma versão diz que um cansado peregrino, dormindo na encosta do monte, prestes a ser atacado por um lagarto enorme, foi acordado pela Senhora, salvando-se milagrosamente dele, uma outra relata que ele foi acordado por um lagarto por intervenção de Nossa Senhora, livrando-se do ataque de uma cobra. Até 1739 conservou-se na igreja um grande lagarto embalsamado, substituído por um outro de madeira que desapareceu no terramoto. Como a segunda versão da lenda é que vingou, pode-se ainda ver sobre as portas da sacristia um lagarto (mais se parecendo a um crocodilo) e uma cobra de madeira. Repete-se novamente a Senhora da Penha e a lenda do lagarto no painel de azulejos na fachada posterior da igreja [vd. 3ª imagem]. Crê-se que a serpente simboliza a antiga religião “pagã” dos árabes, e o lagarto sendo o dragão dos lusos cristãos miraculosamente salvos daquela, graças a esta Virgem da Vitória.

O «lagarto» da Penha de França
Mausoléu de mármore descansando sobre leões. Contém os restos de Antonio de Cavide
e de sua mulher, D. Marianna Antonia de Castro, distintos benfeitores desta igreja.

Mas tanto o dragão como a serpente em paridade, aquele estará para a Sabedoria desvelada e o Sol expressivo da Energia Celeste que a Tradição Iniciática chama de Fohat, enquanto a serpente é a sinalética da Sabedoria ocultada e da Lua expressiva da Energia Terrestre chamada Kundalini pela mesma Tradição Iniciática. Sol e Lua ligados pelo Prana promanado do Coração da Mãe Divina, a Energia Vital que a tudo e a todos alenta, e nisto tudo se resumem as figuras das Armas Episcopais da Senhora da Penha, com a águia dupla sobre o Sol e a Lua tendo o Coração Sangrento ao centro, atravessado pela flecha martirial fazendo jorrar o Sangue Real de Cristo, mas também a de sua Santa Mãe Maria (Cordo Maris), a que está no cimo do Gólgota, no alto da Penha de França, Coração da Europa.
(in Vitor Manuel Adrião, Guia de Lisboa Insólita e Secreta. Editorial Jonglez, Versailles, Abril de 2010)

Ermida da Penha de França [1960]
Painel de azulejos com Nossa Senhora da Penha, o milagre do lagarto e do devoto adormecido.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Feira do sorriso e das flores

A Genoveva da Lima Mayer Ulrich se deveu a iniciativa da Venda da Flor a favor das vítimas da 1ª Grande Guerra (1914-1918). No dia 15 de Março de 1917 um grupo de senhoras envergando braçadeiras brancas juntou-se para vender flores artificiais aos cavalheiros, que as colocavam nas lapelas dos casacos, a troco de donativos para ajudar os feridos da 1ª Grande Guerra. «A cidade povoou-se de bandos alegres de mulheres, de perfumes, de galanteios, de risos, de frescura feminina», descrevia a 'Ilustração Portuguesa'.
As senhoras entraram nos cafés, nas lojas, nos bancos, no Parlamento e até na residência do Presidente da República. O balanço do peditório ascendeu a algumas dezenas de contos, a que se somou um abanão no ambiente da capital: «Pela primeira vez, Lisboa viu, nas suas ruas e nas suas praças, uma multidão elegante, delicada, aristocrática apear-se dos seus automóveis e das suas carruagens, descer dos seus salões – e, alegre, amável, misturar-se entre o povo». Esta iniciativa repetir-se-ia em Abril de 1918.
(in Ilustração Portuguesa, N.º 579, 26 Mar. 1917)

Rua Garrett [1917]
Venda da Flor, iniciativa da escritora Genoveva da Lima Mayer Ulrich a favor das vítimas da 1ª Grande Guerra.

Do lado esq. vê-se uma das montras da loja Paris em Lisboa e, do lado dir. observa-se no cunhal do prédio publicidade da Pastelaria Benard
Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal de Lisboa

Monday, 22 June 2015

Cine-Teatro Monumental

O Cine-Teatro Monumental foi projectado pelo arq.º Raúl Rodrigues Lima e inaugurado em 8 de Novembro de 1951, imediatamente resultando «num autêntico centro de atracções», oferecendo, para além dos mais modernos e famosos espectáculos da Capital, lugares de descanso e lazer apreciados pelo público: um café-restaurante e uma sala de chá. Se, de início, o Monumental era «considerado como um teatro fora de portas», o valor e a fama das estrelas que ali actuam – Laura Alves, João Villaret, Paulo Renato – iria fazer com que o público «esquecesse as distâncias e alargasse as fronteiras da cidade» (G. Oliveira, 1999). O edifício era marcado por gigantescas estátuas no seu exterior e o «o seu átrio de entrada comum ao teatro, como uma espécie de galeria urbana, era um lugar de encontro, quase de “estar”, naquela Rotunda fechada dos anos 50-60». (J. M. Fernandes 1989) 
Os lustres e mármores aglomeravam-se na decoração do interior da sala e das galerias. A sala de cinema era composta por 2170 lugares, distribuídos por plateia e dois balcões,  e a de teatroparalela à Avenida Praia da Vitória, era composta por 1182.
Para rentabilizar melhor o espaço da sala do teatro, o arquitecto introduziu três balcões que se prolongavam lateralmente até ao palco e ainda dois camarotes “avant-scène” ricamente decorados. A revista cinematográfica Imagem fala, em 1950, dum «dos mais arrojados empreendimentos [desses dias]».

Cine-Teatro Monumental [c. 1952]
Praça do Duque de Saldanha
O Monumental abriu as suas portas a 8 de Novembro de 1951, no teatro, com a opereta “As Três Valsas” (1951), com Laura Alves e João Villaret, e o filme “O Facho e a Flecha”, de Jacques Tourneur, com Burt Lancaster e Virginia Mayo nos papéis principais, inaugurava a sala de cinema. As estátuas exteriores, bem como as figuras que decoravam alguns pisos no interior, ficaram a cargo do escultor Euclides Vaz.
António Passaporte,
. in Lisboa de Antigamente
Cine-Teatro Monumental, Sala do teatro com 3 balcões e 2 camarotes [c. 1952]
Praça do Duque de Saldanha
O Teatro Monumental foi arrendado pelo empresário Vasco Morgado, marido de Laura Alves, com o intuito de ali apresentar espectáculos de teatro declamado, operetas, revistas e atracções musicais, incluindo mesmo artistas estrangeiros. Foi aqui que Laura Alves protagonizou os maiores êxitos da sua carreira teatral.
Horácio Novais,
. in Lisboa de Antigamente

Tendo em vista grandes produções teatrais e musicais, foi criado um palco enorme, sobre o qual ficava a tela em formato gigante e por onde passaram todos os grandes clássicos do cinema em «Cinemascope» entre as décadas de 50 e 80, como: «20 000 Léguas Submarinas», «West Side Story», «El Cid»», «My Fair Lady», «Ben-Hur», «2001- Odisseia no Espaço» e o incontornável «Star Wars - Guerra das Estrelas». Por aqui passaram também os grandes nomes portugueses do teatro e da música.

Cine-Teatro Monumental [post. 1951]
Praça do Duque de Saldanha
Revestido de pedra e ornamentado numa das suas esquinas com uma grande coluna encimada por uma esfera armilar (um símbolo caro ao Estado Novo) e estátuas em cada um dos lados da frontaria. A entrada principal do público, orientada para a Praça Duque de Saldanha, tinha sete portas em forma de arco com acesso directo ao átrio principal (onde se situavam as bilheteiras) e aos vestíbulos que antecediam as salas.
Postal
. in Lisboa de Antigamente
Cine-Teatro Monumental, Sala do cinema [c. 1952]
Praça do Duque de Saldanha
A sala de cinema, que impressionava com os seus 2170 lugares, abrigava dois grandes painéis – que ladeavam o gigantesco ecrã – da autoria da pintora Maria Keil.
Horácio Novais,
. in Lisboa de Antigamente

Em 25 de Fevereiro de 1971, abriu uma nova sala no último piso do edifício. Era o Satélite, uma sala mais pequena, com 208 lugares, que oferecia ao público mais exigente da capital um tipo de filme de autor, um pouco na linha do Estúdio do Império. Um projeto do arquiteto Rodrigues Lima, em parceria com os engenheiros Ângelo Ramalheira, Barroso Ramos e Bustorff Silva, que foi inaugurado com “Les choses de la vie”, de Claude Sautet, com Romy Schneider na protagonista.
Foi exemplo dos grandes cine-teatros de Lisboa, representando um dos marcos da arquitectura desta tipologia em Lisboa e em Portugal, e uma verdadeira atracção turística para muitos portugueses de todo o país, que ainda hoje lamentam a sua demolição em 1982.

Cine-Teatro Monumental, demolição [c. 1982]
Praça do Duque de Saldanha
A salvo ficaram as estátuas e a esfera armilar que se encontram ainda em locais públicos da cidade.
Carlos Lopes. in Lisboa de Antigamente

Bibliografia:
FRÉTIGNÉ, Hélène, Uma Praça Adiada: Estudo de Fluxos Pedonais na Praça do Duque de Saldanha, vol. I, pp. 27-28, 2005.
cinemaaoscopos.pt.
O velho Cine-Teatro Monumental - crónica de Lauro António, 2013.

Sunday, 21 June 2015

Rua de São Ciro, à Estrela

Este arruamento que se estende da Rua de Santana à Lapa à Rua de Buenos Aires surge já nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa após a remodelação paroquial de 1780, como arruamento divisório da freguesia do Senhor Jesus da Boa Morte da de Nossa Senhora da Lapa, bem como mais tarde, em 1857, nas plantas nº 40 e nº 41 do «Atlas da Carta Topográfica de Lisboa» de Filipe Folque.
O topónimo homenageia o mártir do cristianismo consagrado no dia 16 de Junho que no século IV morreu na Síria com apenas 5 anos.

Rua de São Ciro, à Estrela [1944]
Coluna com equipamento cisne, adaptada a electricidade.
Eduardo Portugal, n Lisboa de Antigamente

Avenida Duque de Ávila

Nesta zona, a que se convencionou chamar «Avenidas Novas», ainda se podem ver alguns belíssimos exemplares ao gosto Arte Nova e Art Déco, que ilustram o ecletismo estilístico dos anos 20-30 do século XX. É o caso desta frente de quarteirão, entre os nºs 18 a 32, (últimos edifícios à esq.) da autoria do arquitecto Norte Júnior

Avenida Duque de Ávila |1927|
Cruzamento com a Av. da República; ao fundo, a Avenida Defensores de Chaves
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Nas Avenidas Novas encontram-se obras dos arquitectos Pardal Monteiro, Norte Júnior, Álvaro Machado e Ventura Terra. Muitos são prémios Valmor, mas essa distinção nem sempre os tem poupado. e são cada vez menos, infelizmente.

Avenida Duque de Ávila |c. 196-|
Fotografia anónima in Lisboa de Antigamente

Saturday, 20 June 2015

Sítio da Mouraria: Rua Fernandes da Fonseca com a Calçada da Mouraria.

«Para vingança dos mouros — ficou-lhe o nome» conta-nos Norberto de Araújo acerca da Mouraria, e acrescenta: «Desapareceu há anos o aspecto sórdido de «má vida», que por aí abaixo se prolongava até à grande artéria da Rua da Mouraria, onde se desafogava de «fado reles» a ignominiosa «Rua Suja» do século passado. [...] A Mouraria de hoje, afinal, a das guitarras, das facadas, das rameiras, dos pianos de botequim - já não existe [...]
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 61, 68 e 71, 1938)

Rua Fernandes da Fonseca com a Calçada da Mouraria. [c. 194-]
Ao fundo vislumbra-se o Hospital de São José, antigo Convento e Colégio de Santo Antão-o-Novo. Os prédios à esq. deram lugar ao Centro Comercial Mouraria
Estúdio Horácio Novais, in FCG

Friday, 19 June 2015

Antigo Mercado de Alcântara

O antigo Mercado de Alcântara ficava paredes meias com a estação do Caminho de Ferro de Alcântara-Terra que tinha sido inaugurada em 1887. Abriu ao público em 1 de Janeiro de 1905, numa área de 900 metros quadrados, com estrutura de ferro e alvenaria, flanqueado de quatro torreões, segundo risco do arq.º José Alexandre Soares.

Mercado de Alcântara [1938]
Praça General Domingos de Oliveira, antigo Largo de Alcântara e sítio da antiga Ponte de Alcântara
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal de Lisboa
Mercado de Alcântara, interior [c. 190-]
Rua Prior do Crato e Praça General Domingos de Oliveira, antigo Largo de Alcântara
Artur Bárcia, in Arquivo Municipal de Lisboa

Aqui se manteve uma boa parte deste século XX, até que a necessidade dos acessos à ponte sobre o Rio Tejo veio contribuir para o seu desaparecimento cerca de 1950, altura em foi demolido. Hoje o espaço corresponde à actual Praça Gen. Domingos de Oliveira, vulgo rotunda de Alcântara.

Mercado de Alcântara [1940]
Perspectiva tirada da Rua de Alcantara sobre a Praça General Domingos de Oliveira, antigo Largo de Alcântara,  e Rua Prior do Crato (ao fundo)
A antiga Ponte de Alcântara tinha e direcção dos carris da linha dos carros eléctricos, e  o seu arco, normal aquela linha,  ficava por baixo da segunda carroça que se vê na foto.
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal de Lisboa
Mercado de Alcântara [c. 190-]
Praça General Domingos de Oliveira, antigo Largo de Alcântara
Artur Bárcia, in Arquivo Municipal de Lisboa

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, III vol. IX

Sinais luminosos no cruzamento da Avenida da Liberdade com a Rua das Pretas

Sinal luminoso de trânsito de duas cores operado manualmente por um sinaleiro


A palavra «semáforo» vem de «sem(a)», elemento grego que significa «sinal», e «phorus», também grego, que significa «que carrega», «que transporta», «que leva». Demorou mais de um milénio para surgir o semáforo como o conhecemos: um dispositivo para controle de tráfego. Foi nas esquinas movimentadas de Londres, em 1868, que se instituíram lanternas verdes e vermelhas para organizar o fluxo de carruagens e pedestres. A utilização dos mesmos sinais com luzes eléctricas, por sua vez, teve início em 1914 na cidade de Cleveland, Estados Unidos. As luzes eram controladas por guardas que se revezavam no local. Em 1917, foi acrescentada a luz amarela. 

Avenida da Liberdade, cruzamento com a Rua das Pretas [ant. 1928]
Sinais luminosos de trânsito controlados por sinaleiros.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

N.B. o arquivo avança a data de 1930 para esta imagem, mas como se pode constatar, o trânsito ainda se fazia pela esquerda, o que quer dizer que a foto terá que ser anterior a 1928, pois, só a partir desta data foi introduzida em Portugal a obrigatoriedade de circulação pela direita das faixas de rodagem.

Avenida da Liberdade, cruzamento com a Rua das Pretas [ant. 1928]
Sinais luminosos de trânsito controlados por sinaleiros.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 17 June 2015

Campo de Sant'Ana, antigo do Curral

"Campo de Sant'Ana! Aí está, como raros, um título toponímico de ressonância lisboeta, Ele foi, Dilecto e nunca fatigado companheiro, um «Rossio» campestre de Lisboa do século XVI, subúrbio de hortas e azinhagas do velho tempo de quatrocentos, aqui e ali soerguido em construções solarengas e conventuais dispersas.

Campo de Sant'Ana |post. 1908|
Campo dos Mártires da Pátria (desde 1879)
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

«Campo do Curral» lhe chamavam do seu comêco. porque afastado, mais pelo isolamento do que pela distância, do Rossio verdadeiro de Valverde (o Rossio de hoje) — aqui, ou melhor: ali onde é o Largo do Mastro, onde se faziam as matanças de gado para o abastecimento da cidade quinhentista, que tinha o seu empório na Rua Nova, e se disseminavam por dezenas de conventos, centenas de palácios, milhares de casas a surgirem todos os dias para além, cada vez mais para além, dos muros da cerca de D. Fernando."
(Norberto de Araújo, in Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 35, 1938)
Campo de Sant'Ana |1940|
Campo dos Mártires da Pátria (desde 1879)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 16 June 2015

Palácio da Flor da Murta

Localizado entre a Rua de São Bento e a Rua do Poço dos Negros, no cunhal do palácio, é ainda visível o Brasão das armas dos Pereira Faria, Senhores de Aconchel, cuja descendente, D.Guiomar de Faria casou com D. Jorge de Meneses da Casa da Flor da Murta, tomando o palácio este nome.
A origem deste palácio tem por base uma casa nobre quinhentista, progressivamente reedificada ao longo dos séculos XVII e XVIII, facto que lhe imprimiu a sua feição actual, barroca. Apesar de pouco afectado pelo terramoto de 1755, o edifício acabou por cair em ruína.

Palácio da Flor da Murta [1908]
Rua de São Bento  com a Rua do Poço dos Negros

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

O palácio ficou sobretudo célebre no século XVIII, pois nele viveu em 1731, a bela D. Luísa Clara de Portugal da casa dos Castelo Melhor, aia da Rainha D. Maria Ana de Áustria e amante do Rei D. João V, tendo ficado conhecida para a história como a Flor da Murta.

Palácio da Flor da Murta |1911|
Fachada sobre a Rua do Poço dos Negros

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Já no século XX foi desafectada a capela, da invocação de Nossa Senhora de Monserrate, da qual resta o portal encimado por frontão triangular e cruz, na fachada lateral e, mais tarde, foram também removidos alguns painéis de azulejos. (cm-lisboa.pt)
Actualmente, mantém-se apenas a fachada do palácio porque o mesmo foi alvo de recuperação e transformado num condomínio para habitação. [DGPC]

Palácio da Flor da Murta |1908|
Capela com portal encimado por frontão triangular e cruz.
 Rua de São Bento esquina com a Rua Fresca
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Monday, 15 June 2015

Ourivesaria Araújo

Fundada por João Carlos Araújo, a pequena ourivesaria distingue-se na Baixa lisboeta pela fachada de ferro trabalhado, num estilo a denunciar as suas origens que remontam a 1878.
No interior, que se mantém praticamente inalterado desde a fundação, destaque para o tecto, com uma tela a óleo com moldura pintada a fresco, de Domingos Costa, proeminente pintor do final do século XIX e início do século XX – autor de pinturas que ainda hoje se podem observar nos Palácio Foz e Palácio Vale Flor.

Rua Àurea, 261 [Início séc. XX]
Fotógrafo não identificado, in DN

Sunday, 14 June 2015

Avenida Fontes Pereira de Melo com a Rua Tomás Ribeiro

Arruamento de 1900 que homenageia o chefe do partido Regenerador, António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887), que presidiu ao Conselho de Ministros na década de 1876 e 1886, período que ficou conhecido como Fontismo.
Esta artéria que faz a ligação da Praça Marquês de Pombal à Praça Duque de Saldanha integra o Plano das Avenidas Novas, do eng.º Ressano Garcia, aprovado em 1888 na Câmara Municipal de Lisboa. Este projecto seguia as ideias urbanísticas do séc. XIX, aplicando os princípios higienistas de combate à insalubridade das densas vilas da industrialização, definindo um traço regular formado por quarteirões uniformes, numa sequência de eixos estruturantes articulados por rotundas.

Avenida Fontes Pereira de Melo com a Rua Tomás Ribeiro,  1960
À direita, o muro do antigo Mercado 31 de Janeiro, antigo Matadouro Municipal.

Filipe Romeiras, in Lisboa de Antigamente
 
Neste plano, a Avenida Fontes Pereira de Melo constituía o elemento de ligação do conjunto das ruas adjacentes ao Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) com o núcleo Picoas - Campo Grande. (cm-lisboa.pt)

Avenida Fontes Pereira de Melo com a Rua Tomás Ribeiro,  1961
Em 29 de Dezembro de 1959 é inaugurado novo sistema de transporte — o Metropolitano.
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Thursday, 11 June 2015

O coupé na Avenida Fontes Pereira de Melo

Palácio Sabrosa e Palacete Gabriel José Ramires

«Era um coupé pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha côr de castanha. O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavallos.»
—Eça de Queiroz, O Mistério da Estrada de Cintra, 1870
O seu nome provem do verbo francês couper (cortar). Viatura com quatro rodas, coberta, em que o passageiro ia virado para a frente do veículo, atrás do condutor, na frente do veículo. Normalmente existia um vidro, a separar o passageiro e o condutor, como protecção para a sujidade levantada pelos cavalos. Era uma viatura particular mas também utilizada como carruagem de praça.

Avenida Fontes Pereira de Melo [Início séc. XX]
Perspectiva tirada da Praça Marques de Pombal vendo-se à esq. o Parque Eduardo VII e, à dir.,  o Palacete Sabrosa e o Palacete Gabriel José Ramires.

Paulo Guedes, in Arquivo Municipal de Lisboa









Wednesday, 10 June 2015

Luiz de Camões, o poeta maior

De acordo com Norberto de Araújo «não se pode garantir, em ciência de academia, que «nesta casa morreu Camões», mas pode manter-se, sem perigo de ofender a razão, que «é tradição Camões ter vivido e morrido nesta casa». Atentemos na sua explicação:
«Para melhor entendimento do que vou dizer-te podemos ler a lápide comemorativa: «Nesta casa, segundo tradição documental, faleceu a 10 de Junho de 1580 Luiz de Camões». O actual proprietário, Manuel José Correia  mandou pôr esta lápide em 1867». O prédio já não tem a configuração pitoresca de há 70 anos, mas não mudou sensilvelmente.
Ora o problema é êste dilecto companheiro alfacinha: Camões viveu e morreu aqui? Qual é a «tradição documental» a que a legenda comemorativa se refere?
Não se comporta nesta «Peregrinação» o debate inocente desta questão, que já fez verter alguma tinta.  Indiscutivel é que o poeta habitou e morreu aqui a dois passsos, ou no sítio onde está o prédio e onde assentou a Ermida do S. J. da Salvação, encostado ao da lápide, ou ali à entrada,  em reentrância, na fronteira Calçada Nova do Colégio, o que tudo situava junto à Porta de Sant'Ana do lado de fora.
Ora quanto a mim, Dilecto, não se trata de saber «onde era o prédio», precisamente, matemàticamente, arqueològicamente, porque estes prédios actuais não assentam, de seguro, sôbre fundamentos de quaisquer outros; trata-se, sim, de saber «onde era o sítio». E o sítio é «aqui» (versão do Visconde de Jerumenha ante a biografia manuscrita de Padre Francisco de Santo Agostinho), ou é «ali», a vinte metros (interpretação extensiva do que «constava a Manuel de Faria e Sousa, que nasceu dez anos depois da morte de Camões).
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 29)
Arco de Sant'Ana e casa onde viveu e morreu Luís de Camões em 1580, desenho conjectural de Júlio Castilho 
[Calçada de Sant'Ana]

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