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domingo, 16 de agosto de 2026

Cinema Restelo (actualizado)

Edificou-se um cinema na Avenida da Torre de Belém, que se inaugurou a 26 de Fevereiro de 1954, com o intuito de substituir o velho Cinema Belém-Jardim, Na altura, a imprensa elogiou a iniciativa, sublinhou a «sobriedade do edifício», o seu «fácil acesso» e o seu perfeito enquadramento no local e chamou a atenção para os seus amplos foyers e para o mural que acompanhava a escada de acesso ao balcão,

Tempos depois, a sala era, porém, identificada por um outro elemento da sua decoração, o enorme e surpreendente «candeeiro de vidrinhos» que, suspenso do tecto, iluminava o recinto reflectindo a luz em variados desenhos e cores, cujos efeitos pareciam entreter os espectadores nos intervalos.

Avenida da Torre de Belém |1961|
Do lado dir. nota-se o Cinema Restelo com a Torre de Belém ao fundo.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

A construção do Cinema do Restelo baseou-se em alguns pressupostos que, ao mesmo tempo, o aproximam e o afastam das salas dos novos bairros. A sua localização na Avenida da Torre de Belém, entre a zona de Pedrouços e o Bairro Residencial da Encosta da Ajuda, exigia que se tomasse como ponto de partida as determinações que o plano de Faria da Costa impunha para o local, e foi isso precisamente que se fez. Carlos Ramos e Carlos Manuel Ramos, os dois arquitectos que assinam o projecto, interpretam de forma dinâmica as intenções nele expostas e avançam com o traçado simples e moderno de um cinema com que o bairro possa contar. O edifício enquadrava-se no plano previsto, respeitava os alinhamentos das artérias e afirmava-se na determinação de dotar a zona com uma sala que se adequasse às suas necessidades. Essa preocupação reflectia-se, aliás, na concepção do recinto, particularmente no traçado da sua vasta plateia, com 844 lugares, que estava dividida em dois sectores através de um ligeiro desnível, e no desenho do pequeno balcão, que deveria acolher 416 espectadores [vd ultima imagem]. Mas esta distribuição do espaço, que se pensou poder traduzir a composição da população do bairro, e a ela se fazer corresponder, não resultou como se imaginara. 
Podemos dizer que apesar do projecto do cinema ter tido em conta o local e algumas indicações que o plano de Faria da Costa (1938) estabelecia, o seu traçado fizera-se à margem das expectativas da população ou pelo menos não as atendera. Diga-se, em abono da verdade, que tal aspecto raramente era tomado em consideração, uma vez que poucos estudos se faziam com vista à elaboração dos projectos.

Cinema Restelo |1954|
Avenida da Torre de Belém
Em cartaz, o filme «O Capote» estreado em Portugal em 1953, no original «Il Cappotto».
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Cinema Restelo |post. 1957|
Avenida da Torre de Belém com a R. Dom Cristóvão da Gama 
Em cartaz, o filme «O Adeus às Armas» estreado em Portugal em 1957, no original «A Farewell to Arms».
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

A ideia que se tinha sobre os costumes dos habitantes do bairro, as esperanças que se depositavam na nova realidade que se lhes oferecia e o idealismo que atravessava a própria análise que se produzia eram outros tantos traços que o definiam, A sua base pragmática fez prevalecer a convicção de que o cinema deveria «corresponder a uma necessidade do novo aglomerado urbano», justificando-se que todas as classes sociais que o habitavam ou habitariam estivessem contempladas no seu traçado. Daí que se tivessem concebido três diferentes categorias de lugares na sala, que correspondiam proporcionalmente aos três estratos da população do bairro, e que se tivesse contraposto a pequena dimensão do balcão à amplitude da plateia, que tinha quase o dobro da lotação do balcão e que se distribuía por dois sectores de diferente estatuto. De facto, partiu-se do princípio que o sector maior e mais barato da plateia, isto é, o espaço que correspondia à Geral, deveria acolher o estrato da população mais numeroso da zona e que o seu público seria recrutado na classe operária, marítimos e militares que já habitavam o
local e que eram frequentadores assíduos do Cinema Belém-Jardim;... também se julgou que o outro sector da plateia seria ocupado pela classe média que já existia, e que tudo indicava que se haveria de engrossar com a chegada de uma nova população que, não sendo propriamente abastada, teria poder suficiente para frequentar esses lugares; e, consequentemente, também se pensou que a zona do balcão se destinaria à classe que habitava as luxuosas moradias do bairro. [...]

Cinema Restelo |1954|
Avenida da Torre de Belém
A plateia — com quase o dobro da lotação do balcão — dispunham um total de 1260 lugares.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na verdade, a composição da população do novo bairro e as suas aspirações não eram de molde a dar razão a essa distribuição da lotação do cinema. Pensou-se, por algum tempo, que fossem quais fossem as classes sociais, o seu nível económico e as suas expectativas de vida, frequentariam com mais ou menos convicção o recinto que se projectara. No caso da classe com menos recursos, o postulado inicial verificou-se e a sua frequência adquiriu realmente expressão. O cinema foi de facto por ela apropriado e em breve entrou nos seus hábitos. Mas com os outros sectores da população não se verificou o que se esperava. Como o próprio arq. Carlos Ramos depois constatou, num requerimento dirigido ao município que tinha em vista a introdução de alterações na sala, «dos três públicos que distintamente existem naquela zona pode dizer-se que, praticamente, só um frequenta o actual cinema: o público que frequenta a geral», E isso era precisamente o reconhecimento de que o pressuposto em que o projecto assentara tinha realmente falhado.==
Nota(s): Fechou portas em 1989, sendo substituído por um edifício comercial modernista.
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Bibliografia
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2012  

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Praça de Alvalade

A Praça de Alvalade foi criada aquando da construção do Bairro de Alvalade, tendo inicialmente adoptado a designação de Largo Frei Luís de Sousa. Contudo, quando foi erigida no seu centro a estátua de Santo António, da autoria do escultor António Duarte, em 1972, evitaram-se as confusões, dando-lhe então a actual designação e alterando a designação do Largo de Alvalade para Largo Frei Luís de Sousa.

Praça de Alvalade |c. 1950|
Construção da Praça de Alvalade, surgindo á dir. a Av da Igreja e, para N., a Av. de Roma com parte do Hosp. Julio de Matos, ao fundo, na Av. do Brasil. A transversal à esq. é a Rua Violante do Céu.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. O Monumento a Santo António foi erguido na rotunda do cruzamento das Avenidas de Roma e da Igreja, no bairro de Alvalade, representa a consagração oficial e pública do português ainda em nossos dias mais conhecido no mundo, mercê da sua eloquência e sabedoria. A estátua de bronze de 5,50 m de altura é da autoria do escultor António Duarte, que optou por retratar o Santo na postura de pregador, em vez da tradicional imagem com o Menino Jesus ao colo. A base, composta por quatro blocos de mármore, é da autoria do arquitecto Antero Ferreira.
Inaugurado em 4 de Outubro de 1972, o monumento tem 12 m de altura total e pesa 78 toneladas.

Praça de Alvalade
Em 1971 passou a denominar-se Praça de Alvalade e, integrando. 
desde 1972, o Monumento a Santo António.
Juan Rodriguez, in Lisboa de Antigamente

domingo, 19 de abril de 2026

O Sítio de Alcântara

Dizer Alcântara na toponímia lisboeta é, só por si, compor um quadro de movimento e de febril agitação bairrista — recorda Norberto de Araújo, o grande enamorado de Lisboa. Alcântara foi um lugar, um sítio; é um bairro, uma zona com individualidade e consciência. Tudo gira em Alcântara: fábricas, oficinas, linhas, ruas — vidas.
O que em Alfama é estático é, em Alcântara dinâmico. Este bairro tem azougue.
O seu pitoresco é de cosmograma. Não existe neste rincão da Cidade nada de contemplativo. Apenas nas Necessidades, com seu jardim, com seu obelisco, com o seu palácio e na sua tapada — mora o repouso. Persiste ali um pedaço de beleza e gracilidade de miradouro. É a mancha aristocrática e requintada do bairro. 

Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Antigo Largo de Alcântara 
À dir. destaca-se o prédio setecentista — pombalino e altaneiro — referido mais à frente por Norberto Araújo,   
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Remodelação da Rotunda de Alcântara, devido à construção do acesso à ponte sobre o Rio Tejo; à dir. observa-se o antigo Eden Cinema. 
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. Do tempo velho ficaram e falam deliciosas legendas: Baluarte, Trabuqueta, o Arco, as Fontainhas, a Triste-Feia; a Horta Navia — saudade de Alcântara quinhentista, o Fiúza — reminiscência de Alcântara palaciana, o Sacramento — evocação de Alcântara conventual.
Foram-se os marinheiros rude golpe no coração do bairro! — ; ficou a Praça da Armada com seu Neptuno de tridente no Chafariz. O risonho vale de Alcântara vai-se sumindo, mas nas lombas do Alvito e da Cruz das Oliveiras demora-se a expressão popular campesina que ficou do rústico antigo.
O prédio setecentista cor-de-rosa da quina poente-sul do Largo — pombalino e altaneiro — é com a sua famosa adega do «Sete-e-Sete» — o padrão bairrista de Alcântara [vd. 1.º imagem à dir.]: cinco gerações o contemplaram — sequiosas.
Pequeno mundo alfacinha, vizinho do Calvário, da Pampulha, da Avenida da India — desentranha-se em vida. É o pregão cantante do trabalho. Contido entre a Serra e Tejo, possui a índole atávica de um poeta, a alma rude, nostálgica de um mareante.==

Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Vista tomada da R. da Quinta do Jacinto — onde brincam os ganapos. Ao fundo nota-se o pináculo da torre sineira do Palácio das Necessidades.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Rua de Alcântara (esq-) e acesso à ponte sobre o Rio Tejo.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

N.B. A edilidade lisboeta, através  edital de 18/08/1966, presta homenagem ao General Domingos de Oliveira atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]
Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira (1873–1957) foi presidente do Conselho de Ministros em 1920, ministro interino da Justiça, membro vitalício do Conselho de Estado (1949) e oficial-general do Exército. A sua carreira reúne inúmeros louvores e condecorações, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis e a da Ordem Militar da Torre e Espada.

Fotografia aérea da zona industrial de Alcântara |1950-04|
Caminho de ferro; Palácio das Necessidades; Estação de Alcântara-Terra e Mercado de Alcântara; Vale de Alcântara...
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 142-143, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.

domingo, 21 de setembro de 2025

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos

Não tem o bairro da Mouraria — de tão ressonante nome — o fundo sólido lisboeta do de Alfama. Não é, porém, menos característico, embora o seu pitoresco se concentre apenas em três ou quatro artérias buliçosas. Começou a povoar-se logo depois da tomada de Lisboa em 1147, quando D. Afonso Henriques para aqui atirou os mouros «forros», que ocuparam as encostas das Olarias e dos Lagares, as abas do Castelo, pelo lado N., descendo até ao vale, que é a Praça do Martim Moniz de hoje.
 
Ora, aproximando-nos do cabo da jornada, entremos no Largo Silva e Albuquerque [hoje Praça do Martim Moniz] Ponde avulta a face poente do casarão Alegrete — condenado à demolição, e muito bem. Ali, na parte que abre para a Rua da Palma — recorda o ilustre Norberto de Araújo — existiu até há dois anos [c. 1936] uma estreita serventia rasgada pela demolição já iniciada neste sítio, em obediência ao plano urbanista municipal.

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |c. 1900|
Aguadeiro junto ao Palácio do Marquês de Alegrete.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com signıficação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equívoca.
O dístico foi substituído, em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, em memória de José Maria da Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.

 

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |1938-10-12|
Palácio do Marquês de Alegrete, portal sul-poente.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Palácio dos Marqueses de Alegrete foi construído pelos condes de Vilar-Maior, no século XVII, sobre um lanço da muralha (da cerca de D. Fernando) e sobre a porta da Mouraria. Depois, elevado o conde de Vilar-Maior ao título de Marquez de Alegrete, se ficou chamando á porta da Mouraria — Arco do Marquez de Alegrete, nome que ainda conserva, e dando-se também o de «Rua do Arco do Marquez de Alegrete, à que d'esta porta vae ao Largo do Poço do Borratem».
(in Portugal antigo e moderno, 1873)

Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo |1946|
Palácio do Marquês de Alegrete (demolições)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol XV, pp. 221, 1936.
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Travessa dos Inglesinhos com a Rua da Atalaia

Esta artéria do Bairro Alto que liga Rua da Atalaia à Rua dos Caetanos tem o seu topónimo – Travessa dos Inglesinhos – devido à existência no local do Colégio de São Paulo e São Pedro, conhecido como Convento dos Inglesinhos, que entre 1632 e 1644 foi erguido em terras doadas por D. Pedro Coutinho.
Após o Ultimatum inglês de 1890, a população alfacinha passou a apelidar esta artéria como “Travessa dos Ladrões”; o mesmo com a Rua da Estrela ou a devido a presença do Cemitério dos Ingleses. [Machado: 1998]

Travessa dos Inglesinhos com a Rua da Atalaia |1923|
Sede da Associação de Classe das Empregadas Domésticas de Hotéis e Casas Particulares de Lisboa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): A Travessa do Enviado de Inglaterra, a Santa Marta, foi apelidada pelos populares como a “Travessa do Diabo que o Carregue”, por existir neste local um palacete onde habitou o Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário, Lorde Robert Stephen Fitzgerald (1765-1833), entre 1802 e 1806.
 
Travessa dos Inglesinhos |1902|
Quarteirao entre as Ruas Luz Soriano e da Rosa tendp ao fundo a Rua da Atalaia.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


domingo, 13 de julho de 2025

Estr. de «Bemfica» que foi Estrada Real

Bemfica (estrada de) principia em sete Rios, indo de S. Sebastião da Pedreira e finda em Santo Antonio da Convalescença, freguezia de Bemfica. [Velloso: 1869]

Este topónimo está ligado à proximidade do Convento de São Domingos de Benfica. Esta localidade, onde viveu e morreu Frei Luís de Sousa (Manuel de Sousa Coutinho, este o seu nome antes de abraçar o sacerdócio), é descrita na sua História de S. Domingos cap. III do livro segundo. Leiamos isto do insigne clássico: «A huma piquena legua da cidade, pola estrada que corre para Cintra, (...) fica como escondido, e furtado a communicação da gente hum pequeno valle, que sendo naturalmente aprazível, por frescura de fontes e arvoredo, mereceo, ao que se póde crer, o nome que tem de Bemfica. (...) Na ladeira do monte maior, está situado o Convento, e d'ella se estende com sua cerca até hir beber no Rio».
Foi no Convento de São Domingos de Benfica que Frei Luís de Sousa professou como frade dominicano, em 1614. Este convento foi reconstruído no século XVII, parcialmente destruído pelo Terramoto de 1755 e extinto em 1834.

Estr. de «Bemfica» |1938|
Junto à Tv. S. Domingos de Benfica
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Estr. de «Bemfica» |1938|
Próximo do Calhariz
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente





























Bemfica, era sítio que, segundo Ramalho Ortigão: «Em nenhum outro lugar de Portugal, se exceptuarmos Sintra, se encontrarão reunidas em tão pequeno circuito, tão lindas, tão históricas, tão anedóticas, tão saudosas quintas. 
A antiga e amável povoação de Benfica, ainda que tão decaída hoje da alta importância que teve outrora no conceito, caprichoso e inconstante, da alta sociedade da capital, é ainda assim, no seu tanto, o recantinho suburbano de Lisboa que mais aproximada ideia nos sugere do que é para Roma o prestígio de Tivoli e de Frascati.» [Arte portuguesa, II, 1943]

Estr. de «Bemfica», 675 | 1961|
Boa parte do edificado já se encontra demolido.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Estr. de «Bemfica», 542 |1971|
Próximo da Av. do Uruguai
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

“O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu masso de cigarro á porta dependurado de uma guita: e a menor arvore, qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe da collina verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle não via o campo!” (Queiroz, Eça de, ln Os Maias, 1888)

Estr. de «Bemfica» |c. 1950|
Junto ao Calhariz no local onde os eléctricos faziam a inversão de marcha; antiga Estr. Real nº 82 (1889); alguns dos edifícios à direita ainda lá encontram.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Estr. de «Bemfica» |1961|
Esquina com a Avenida Grão-Vasco.
Augusto de Jesus Fernandes in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Rua Saraiva de Carvalho

No último quartel do século XIX, as Ruas de Santa Isabel e de S. Miguel da Boa Morte, no bairro de  Campo de Ourique, passaram a constituir um arruamento único com a denominação de Rua Saraiva de Carvalho, através da publicação do Edital de Municipal de 16/11/1885, em homenagem ao jurisconsulto Saraiva de Carvalho.

Antiga de «Santa lzabel»
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

N.B. Augusto Saraiva de Carvalho (1839-1882). Advogado. Parlamentar. Reformista. Ramalho Ortigão chama-lhe pimpolho ilustre e rebento florescente da janeirinha. Em 1864 é um dos fundadores, no Pátio do Salema, do Clube dos Lunáticos com José Elias Garcia e Latino Coelho.

Ministro da justiça do governo de Ávila, desde 29 de Outubro de 1870 a 30 de Janeiro de 1871. Sai então do governo, juntamente com Alves Martins, quando os deputados reformistas liderados por Latino Coelho, lançam um ataque ao governo. Com efeito, Saraiva de Carvalho levou ao rei, sem passar por Ávila, a nomeação do bispo do Algarve, D. Inácio do Nascimento Morais Cardoso, considerado liberal, capelão de D. Pedro V, em vez da do arcebispo de Goa, D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa, apoiado por Ávila, acusado de congreganismo romano e ultramontanismo.
Ministro das obras públicas, comércio e indústria do governo de Braamcamp (de 1 de Junho de 1879 a 25 de Março de 1881). [Maltez]

Antiga de «Santa lzabel»
Direcção Praça São João Bosco (Cemitério dos Prazeres).
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

domingo, 10 de novembro de 2024

Mercado de Levante no Bairro Social do Arco do Cego

De acordo com Norberto de Araújo «O Bairro Social de Arco do Cego principiou a construir-se em 1919, e — com suspensões e administração precária — só depois de 1928 levou uma sacudidela na sua letargia. Pode fixar-se a sua inauguração em 1934 1935-03-10. Dispõe de 481 moradias e é cortado por vinte ruas, das quais o mais importante no eixo, de nascente (Praça do México, hoje de Londres) a poente (Rua do Arco do Cego, que será a Rua D. Filipa de Vilhena) a Rua Dr. Magalhães Lima. A frente do Bairro está ajardinada em duas placas. 
No coração deste Bairro se construiu o novo Liceu D. Filipa de Lencastre. [Araújo: 1939]

Mercado de Levante no Bairro Social do Arco do Cego |1960|
Rua Costa Goodolfim 
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

O lançamento da primeira pedra do Bairro Social do Arco do Cego realizou-se com a presença do Presidente da Republica e devidamente noticiada pela imprensa da época:
"Foi uma festa deveras importante a cerimónia do primeiro pau de bandeira no bairro social do Arco do Cego, construído onde antigamente era a Quinta das Côrtes, vasto trato de terreno que breve será habitado, pois que se trabalha por erguer nada menos de 3000 habitações (...) Como se vê olhando o plano do bairro ele tem tudo o que uma pequena vila é, não lhe faltando sequer a Casa do Povo, com a sua biblioteca, o club e o teatro. As construções alinham-se elegantemente e só há a temer que os burguezes se façam operários para disfrutarem as vantagens de ali morarem porque é da velha sabedoria que quem não mora não vive e quem vive mal é porque habita bem."
(lllustração portugueza, 7 Junho de 1920)

Fotografia aérea do Bairro Social do Arco do Cego |195-|
Em cima à esq. observa-se o Liceu D. Filipa de Lencastre e, na dir. baixa, nota-se a antiga 
Fábrica de Cerâmica Lusitânia na Rua do Arco do Cego.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

O Bairro Social do Arco do Cego foi encomendado na I República pelo Ministério do Trabalho. A fase de projecto contou com o risco de arquitectos como Adães Bermudes, Frederico Caetano de Carvalho e Edmundo Tavares. Inicialmente vocacionado para bairro operário, a sua construção passa para a gestão da Câmara Municipal, a partir de 1927, sendo transformado num bairro habitacional para a pequena burguesia de serviços e principalmente para funcionários camarários.

Panorâmica sobre o Bairro Social do Arco do Cego |c. 1935|
Rua Xavier Cordeiro; Avenida Magalhães Lima; Rua Brito Aranha; Rua Brás Pacheco; 
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

É constituído pela edificação contínua de blocos quadrangulares de 2 e 3 pisos, assim como de bandas geminadas de habitações unifamiliares de 2 pisos. No início da década de 30 do séc. XX, aí foi construído o primeiro equipamento escolar modelar modernista da capital. O projecto inicial, da autoria do arq. Jorge Segurado, datado de 1932, previa a construção de uma grande escola primária, no entanto, em 1938, o Plano do Estado Novo para edificar 13 liceus ordenou que fosse elaborado um projecto de adaptação da escola primária a liceu, com o objectivo de aí ser instalado o Liceu D. Filipa de Lencastre, cuja obra viria a estar concluída em 1940. De planta simétrica, o jogo de volumes do edifício alia o racionalismo do programa ao eclectismo do bairro que o envolve. [cm-lisboa]

domingo, 20 de outubro de 2024

Bairro Santos, ao Rego

Para além da linha férrea e a poente — recorda Norberto de Araújo — , se edificou em 1930 o novo «Bairro da Bélgica», e a nascente um outro novo «Bairro Santos», tudo incluído na recentíssima urbanização de Lisboa.[...]
Chegamos assim ao velho Largo do Rego, que a urbanização trivializou, junto do qual correu a pitoresca Rua das Cangalhas de que há meses restavam quatro paredes. Já agora enfiemos pela antiga Estrada do Rego, depois Rua de Sousa Holstein, modernamente Rua da Beneficência.
(ARAÚJO, Norberto de,  Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 59, 1939)

Bairro Santos, ao Rego |1963-03-30|
Rua Cardeal Mercier (1926) com a Rua Portugal Durão
Seria por aqui perto o antigo Largo do Rego, antes do alinhamento deste e da abertura dos novos arruamentos e consequente urbanização. Inauguração do Mercado de levante. 
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Casal da Viúva Teles à Rua Maria Pia

O Casal da Viúva Teles (Casal Ventoso), já demolido, situava-se a ocidente da Rua Maria Pia, junto ao chafariz da Meia-Laranja.
 
Casal da Viúva Teles à Rua Maria Pia (ao fundo) |1968|
João Hermes Goulart, in Lisboa de Antigamente

Foi pelo Edital de 07/11/1901 que parte da Estr. de Circunvalação, do lado sul da antiga ponte de Alcântara e até ao cruzamento com a Rua do Arco do Carvalhão, se passou a denominar Rua Maria Pia, mas segundo Norberto Araújo, já desde o final do séc. XIX que o povo a denominava assim.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Rua Luz Soriano com a Travessa dos Fiéis de Deus: Palácio Ficalho

Palácio setecentista(?), casa nobre dos Condes de Ficalho, um edifício enorme, de largas janelas, pintado de cor-de-rosa, estendendo-se ao longo de três grandes blocos entre as ruas Luz Soriano, 47-53, dos Caetanos, 19-20, e Travessa dos Fiéis de Deus, 92-106. 
Rezam as crónicas que no solarengo palácio dos Melos de Serpa, "aos Caetanos", a condessa de Ficalho reunia a fina flor da elegância em certos dias da semana (segundas-feiras). Beneficiou de restauros no decorrer dos séculos XVIII e XIX.

Rua Luz Soriano com a Travessa dos Fiéis de Deus |ant. 1900|
Palácio Ficalho (esq.)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): data e local da foto não estão identificados no abandalhado arquivo da cml.

Biografia arquitectónica do Palácio Ficalho: fundação num momento posterior a 1603; reconstrução na sequência de um projecto de 1882; separação do módulo da Rua Luz Soriano c. 1940; intimação camarária à realização de obras em 1968 desencadeada pela Polícia Municipal; projecto (não completamente concretizado nas partes exteriores) de profundas alterações, visando a “divisão do prédio [de 1600 m2] em várias habitações independentes, funcionais e de dimensões razoáveis (…)” (Arquitecto Manuel de Mello, 1980).
É, actualmente — do pouco que conserva da sua coerência arquitectónica de outrora — , composto por apartamentos de luxo.

Rua Luz Soriano |1968|
Palácio Ficalho
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

domingo, 17 de março de 2024

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria

Na Baixa da Mouraria, onde o passado e o presente se entrelaçam, encontramos o Martim Moniz, encravado entre o Borratém, a Rua da Mouraria, o começo da Rua da Palma, a encosta que leva ao Hospital de S. José, o início da Rua de S. Lázaro e as traseiras de S. Domingos. Com as demolições na Baixa da Mouraria, parte da Rua da Palma foi derrubada e, com ela, o velho Teatro Apolo, antes chamado do Príncipe Real (D. Carlos), apenas pouparia o bairro da Mouraria e a Ermida de Nossa Senhora da Saúde.

A ocupação humana deste lugar remonta a 8 mil anos atrás como povoado neolítico da encosta de Sant ' Ana, situado na margem do Regueirão dos Anjos, no vale da Mouraria. Porém, somente a partir da Idade Média a fixação humana neste local se tornou mais significativa. No século XIV a área correspondente à praça actual era atravessada pela Cerca Fernandina (1373-1375), estrutura muralhada que delimitava a cidade e da qual ainda hoje restam vestígios na zona, como a Torre do Jogo da Péla.

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria |c. 1949|
Actual Praça de Martim Moniz
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG)

A intenção de unir o núcleo histórico à cidade em expansão, e as medidas higienistas e embelezadoras do regime político de então, determinaram as demolições empreendidas nas décadas de 40 e 50 do século XX. Desaparecia uma dezena de ruas, becos e pátios e com eles uma parte significativa da memória da cidade.

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria |c. 1949|
Actual Praça de Martim Moniz
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG)

domingo, 21 de janeiro de 2024

Palacete Contreiras

Mandado construir em 1889 pelo oficial da Marinha e meteorologista meteorologista do Observatório da Tapada da Ajuda José Augusto Alves do Rio, o Palacete Contreiras manteve-se como residência particular até meados dos anos 70 do século passado, altura em que a Embaixada Britânica o adquiriu para acolher o British Council (Palacete do Menino de Ouro).
Palacete de planta compacta, com cobertura em telhado a 4 águas e clarabóia, de 4 frentes, (hoje) 3 delas articuladas com eixos viários, definindo parte de quarteirão. Em posição fronteira ao Palacete do Menino de Ouro.
Alguns tectos dos compartimentos do andar nobre apresentam-se decorados com pintura mural, um deles com uma cena figurativa representando dois «putti» (meninos) e com a assinatura S. Ordonez.
Em 1952, o palácio encontra-se na posse de Rita Barros e Sá Contreiras; c. 1976/77 é vendido pelos descendentes de José Augusto Alves do Rio à Embaixada Britânica, que aí instala outros serviços do British Council (antes no próximo Palacete do Menino de Ouro).

Nota(s): Imóvel ou conjunto com valor tipológico incluído na Zona Especial de Protecção do Bairro Alto. {monumentos.pt]
Entretanto foi recuperado e convertido em edifício Residencial Contreiras Palace, composto por  apartamentos de luxo.

Palacete Contreiras |c. 1900|
Rua de São Marçal, 174;Travessa de São Francisco de Borja; Rua Cecílio de Sousa, 61-65; Travessa da Procissão
A 1ª transversal é a parte final da antiga Travessa de São Francisco de Borja que ligava à Rua Cecílio de Sousa (antiga Rua da Procissão). Este troço foi vedado mais tarde e o troço restante entre a Rua Monte Olivete e a Rua de São Marçal tomou a designação de Rua Luís Fernandes. A transversal mais abaixo é a Travessa da Procissão.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

N.B. Após o terramoto de 1755 e do incêndio que se lhe seguiu Lisboa viu proliferar nas fachadas das casas, um pouco por toda a cidade, os registos de azulejos com São Marçal, advogado contra incêndios e patrono dos bombeiros, pode-se formular a hipótese de que o topónimo seja como que um registo no mesmo sentido.

Rua de São Marçal |c. 1900|
Travessa de São Francisco de Borja; Rua Cecílio de Sousa, 61-65; Travessa da Procissão
A 1ª transversal é a Tv. Monte do Carmo  seguida pela extinta Rua Cecílio de Sousa
(esq.) com o Palacete Contreiras e Rua Luís Fernandes à dir. defronte do Palacete
Palacete do Menino de Ouro (British Council).
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

domingo, 7 de maio de 2023

Jardim de Campo de Ourique (da Parada ou Teófilo Braga): biblioteca municipal ao ar livre

O Jardim de Campo de Ourique, no encontro da Rua de Infantaria 16 com as de 4 de Infantaria e Tomás da Anunciação, é recente, posterior alguns anos ao começo da urbanização. Ali tens, no centro do  Jardim, — recorda o autor das Peregrinações —  uma escultura, em pedra, que representa a figura popular da Maria da Fonte [vd. 3ª imagem]; é obra de Costa Mota, tio, e foi inaugurada em 1920. O jardinzito é simpático — única mancha de vegetação em todo o Campo de Ourique, velho e novo.

Jardim de Campo de Ourique (da Parada ou Teófilo Braga) |1959|
Biblioteca municipal ao ar livre e sequóia —  árvore classificada.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

As bibliotecas ao ar livre sem chaves ou cadeados com livros constantemente disponíveis à comunidade, eram, para a população que vivia e trabalhava na cidade, um recurso fundamental para a criação de hábitos de leitura, para o desenvolvimento harmonioso de crianças e jovens, para a aquisição de competências de leitura e utilização de informação indispensáveis ao exercício da cidadania e para um conhecimento mais amplo da nossa e de outras culturas.

Jardim de Campo de Ourique, fotógrafo “à la minute” |1948|
Por ter sido o antigo terreiro da parada do quartel, começou por se chamar Jardim da Parada, mas todos o conhecem simplesmente como o Jardim de Campo de Ourique, já que não há outro. Tem parque infantil, belas árvores — uma sequóia e um cipreste-dos-pântanos — inúmeros pombos incrivelmente mansos e dois lagos e uma fonte-cascata.
Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Teófilo Braga (1843-1924). Fundador do Partido Republicano, foi nomeado presidente da República por via constitucional em 1915. É conhecido pela grande variedade de actividades e pela riqueza prolífica da sua obra, que constitui uma abordagem pioneira na História da Literatura portuguesa. Em consequência da morte da mulher e de todos os filhos, retira-se para uma vida solitária, após o fim da presidência.

Jardim de Campo de Ourique, monumento a Maria da Fonte |1920|
Em Setembro de 1920, Teófilo Braga preside à inauguração da estátua de Maria da Fonte, da autoria de Costa Mota, (tio). A heroína popular que deu o nome ao jardim, representa «uma mulher como as mais», gadanha ao ombro, braço erguido de revolta, expressão exaltada, «pistola à cinta» — toda em pedra , que é uma maneira de não fazer mal a ninguém e de se aproximar da eternidade.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 74, 1939.
ADRAGÃO, José Victor, PINTO, Natália & RASQUILHO, Rui, Lisboa. 1985.
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