Showing posts with label Palácio. Show all posts
Showing posts with label Palácio. Show all posts

Sunday, 5 July 2026

Palácio Figueira (ou de Santo André)

O Palácio Figueira, a Santo André, de sólidos cunhais nas prumadas extremas das suas faces, mas que não atingem toda a altura do edifício, assinala-se pela sua primitiva fachada principal orientada a Sul, e pelo robusto portal que a domina, caracterizadamente seiscentista, constituindo no exterior um curioso monumento de fisionomia lisboeta.

Palácio Figueira, a Santo André, situado entre o alto da calçada desta denominação e o começo da Calçada da Graça, é uma construção pesada, acentuadamente seiscentista (c. 1563), na qual avulta o portal nobre da fachada principal.

Palácio dos Condes da Figueira, portal nobre seiscentista |193-|
Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André e, ao fundo, o trecho final da Costa do Castelo. Neste local existiu, até 1913, o Arco de Santo André. 
Portal nobre da época da fundação, em cantaria e tipologia semelhantes às das fortalezas seiscentistas. Pedra de armas da família Mendoça, que parece não ser a primitiva, franchada, com legenda, dividida por dois ângulos do brasão, AVE MARIA. (Araújo: 1949)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O seu núcleo fundamental remonta aos fins do século xv, e foi erigido por um fidalgo, João de Memdoça, cognominado «Cação», a quem D. João II, cerca de 1490, deu licença para que construísse casa junto à muralha da cerca e postigo de Santo André. A casa solarenga fora já reedificada, quasi desde os fundamentos, no meado do s4culo XVII, apenas com um andar, e em 1676, quando do casamento da senhora Mendoça com o 2.ª Montebelo, o palácio foi acrescido de um andar nobre, recebendo ainda ampliações e beneficias. É este o actual Palácio de Santo André, que pouco dano sofreu pelo Terramoto [...]
Em 1822, D. Maria Amália Machado de Mondoça casa-se com o 1º Conde da Figueira, D. José de Castelo Branco Correia e Cunha de Vasconcelos e Sousa. Assim, o Palácio dos Mendoças entra na Casa Figueira.

Palácio dos Condes da Figueira |194-|
Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André com a Calçada da Graça
Fachada Poente, no começo da Calçada da Graça, com dois corpos distintos, sendo, o de baixo, com quatro janelas de sacada, correspondente ao edifício primitivo, e o que lhe fica contíguo, mais alto e avançado, e de uma feição diferente do palácio seiscentista, enobrecido por portal nobre, da fundação do edifício e actual acesso ao palácio) de tipo setecentista.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Em 1913 foi demolido o pitoresco Arco de Santo André, da Cerca de D. Fernando, contiguo ao palácio, e que, superiormente, punha este em ligação com as casas da entrada da Costa do Castelo.==

Nota(s): O desaparecido Elevador da Graça, semelhante ao da Estrela-Camões, percorria o trajecto Largo da Graça, Largo e Calçada de Santo André (contornando o Palácio Figueira), Calçada dos Cavaleiros, Rua da Mouraria, Carreirinha do Socorro e Rua Nova da Palma, surgindo a maior dificuldade na transposição do velho Arco de Santo André.

Calçada da Graça |c. 191-|
Palácio Figueira, portal setecentista.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Calçada da Graça — onde se encontra a Fachada Poente com seu portal setecentista deve o nome do antigo Convento de N. S. da Graça, começado a construir em 1271 no local conhecido por Almofala, que era um pequeno arrabalde mourisco extramuros quando as tropas de D. Afonso Henriques aí acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no bairro da Graça lisboeta repetida na Rua, Largo e demais topónimos que invocam aquele convento.
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 12-14, 1938.
idem, Inventario de Lisboa, Fasc. VI, 1949.

Sunday, 22 March 2026

Rua das Picoas com a Av. da Praia da Vitória

 A Rua das Picoas, embora só tinha sido oficializada por deliberação camarária de 12 de Julho de 1906, era anterior à urbanização que o local sofreu no final do século XIX, como Estr. das Picoas. Diz-se que entre os proprietários da quinta se contaram duas senhoras de apelido Picão, a quem o povo chamou «as Picôas», e assim foi baptizado o sítio.

Picôas (estrada das) fica á direita no largo da Cruz do Taboado, indo para a porta do novo Matadouro e finda na barreira, que precede a rua das Cangalhas, freguezia de S. Sebastião da Pedreira 2 a 20 e 1 a 15. [Velloso: 1869]

Rua das Picoas com a Av. da Praia da Vitória |1943-01|
Este antigo troço da Rua das Picoas (velhinha Estr. das Picoas) que desapareceu depois da construção do Cine-Teatro Monumental (e prolongamento da Av. Praia da Vitória) e após demolição do Palácio Camarido que se vê à direita.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Praia da Vitória no cruzamento com a Rua das Picoas |1943-01|
Ao fundo, em fase de demolição, observa-se o Palácio Camarido e a Avenida 5 de Outubro.
Roiz, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida, invertida no abandalhado amL.

O nome desta avenida surgiu em 1906 como Avenida «da» Praia da Vitória mas, em 1951, a partícula «da» foi retirada, após parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 13 de Abril aprovado pelo Vice-Presidente da Câmara no dia 16. Inicialmente, estendia-se da Rua de Dona Estefânia à Praça Duque de Saldanha, sendo que, a partir de 1945, passou a prolongar-se até à Avenida 5 de Outubro.

Rua das Picoas vista tomada da com a Av. Fontes Pereira de Melo |1938|
Este antigo troço da Rua das Picoas (velhinha Estr. das Picôas) desapareceu depois da construção do Cine-Teatro Monumental (vd. fotografia aérea abaixo); à dir. nota-se o muro do extinto Palácio Camarido.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem corrigida, invertida no abandalhado amL.
Fotografia aérea da zona da Praça Duque de Saldanha e Picoas |1934|
Pinheiro Corrêa, in Lisboa de Antigamente
Legenda (clicar para ampliar):
Edifícios/Monumentos:
1Palácio Camarido (demolido c. 1945)  2Praça Duque de Saldanha  3Mercado 31 de Janeiro que foi Matadouro Municipal   4Maternidade Doutor Alfredo da Costa  6Hotel Aviz (Palacete Silva Graça, demolido em 1962)
Arruamentos:
Vermelho —Antiga Estr. das Picoas (o troço tracejado foi extinto);  Verde — Rua Engenheiro Vieira da Silva;  Azul — Avenida Fontes Pereira de Melo;  Laranja — Avenida 5 de Outubro;  Roxo —Av. Duque de Ávila

Sunday, 21 September 2025

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos

Não tem o bairro da Mouraria — de tão ressonante nome — o fundo sólido lisboeta do de Alfama. Não é, porém, menos característico, embora o seu pitoresco se concentre apenas em três ou quatro artérias buliçosas. Começou a povoar-se logo depois da tomada de Lisboa em 1147, quando D. Afonso Henriques para aqui atirou os mouros «forros», que ocuparam as encostas das Olarias e dos Lagares, as abas do Castelo, pelo lado N., descendo até ao vale, que é a Praça do Martim Moniz de hoje.
 
Ora, aproximando-nos do cabo da jornada, entremos no Largo Silva e Albuquerque [hoje Praça do Martim Moniz] Ponde avulta a face poente do casarão Alegrete — condenado à demolição, e muito bem. Ali, na parte que abre para a Rua da Palma — recorda o ilustre Norberto de Araújo — existiu até há dois anos [c. 1936] uma estreita serventia rasgada pela demolição já iniciada neste sítio, em obediência ao plano urbanista municipal.

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |c. 1900|
Aguadeiro junto ao Palácio do Marquês de Alegrete.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com signıficação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equívoca.
O dístico foi substituído, em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, em memória de José Maria da Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.

 

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |1938-10-12|
Palácio do Marquês de Alegrete, portal sul-poente.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Palácio dos Marqueses de Alegrete foi construído pelos condes de Vilar-Maior, no século XVII, sobre um lanço da muralha (da cerca de D. Fernando) e sobre a porta da Mouraria. Depois, elevado o conde de Vilar-Maior ao título de Marquez de Alegrete, se ficou chamando á porta da Mouraria — Arco do Marquez de Alegrete, nome que ainda conserva, e dando-se também o de «Rua do Arco do Marquez de Alegrete, à que d'esta porta vae ao Largo do Poço do Borratem».
(in Portugal antigo e moderno, 1873)

Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo |1946|
Palácio do Marquês de Alegrete (demolições)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol XV, pp. 221, 1936.
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938.

Friday, 27 June 2025

Palácio de São Bento: Estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães

Inaugurada em 1878 no então designado Largo das Cortes — até à construção da escadaria monumental na década de 1930 — esteve posteriormente implantada no Vestíbulo do Palácio de São Bento, tendo sido reinaugurada, em 15 de Outubro de 1984, no jardim da Praça de São Bento. A estátua de corpo inteiro e cadeira fundidas em bronze e modeladas, em 1870, por Vítor Bastos, assentam sobre uma base de pedra.
  
Estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães |Início séc. XX|
Palácio de São Bento, antigo Largo das Cortes
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

N.B. José Estêvão Coelho de Magalhães (1809-1862), destacou-se pela sua contínua luta a favor da liberdade, denominador comum que moveu tanto a sua carreira como a sua vida. Foi soldado, jornalista, professor da Escola Politécnica, advogado, político, parlamentar e grande orador, tendo ficado célebres os seus empolgantes discursos parlamentares, em particular as suas discussões com Almeida Garrett. Em sua homenagem, a Câmara Municipal de Lisboa consagrou-lhe uma rua com o nome de José Estêvão, pelo qual ele era mais conhecido.

Palácio de São Bento, galilé escadaria monumental |1938-11-08|
Rua de S. Bento
A fachada principal, remodelada durante a primeira metade do século XX, projecto do arqº Ventura Terra.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 9 May 2025

Largo do Calhariz

Calhariz (largo do) fica entre as ruas do Loreto, Chagas, Atalaya, Roza, Cruz de Pau, e calçadas da bica de Duarte Bello e Combro, freguezias da Encarnação 26 a 34, Santa Catharina A a 21, Mercês 22 a 25. 
Está n'este largo o palacio do Duque de Palmella [Palácio Calhariz-Palmela], que se torna digno de ser visto pelas bellas pinturas que contêem as salas. [Velloso: 1869]

Largo do Calhariz |1924-04|
Rua da Bica de Duarte Belo; Palácio Valada-Azambuja.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Greve dos padeiros em Abril de 1924. Uma 'bicha' numa padaria 'Aliança»
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo.

O Largo do Calhariz — diz Júlio de Castilho — toma o nome do antigo senhor do palácio [dos Sousas Calharizes], que era o primogénito destes Sousas, senhor da quinta célebre do Calhariz, perto de Azeitão. Chamavam-lhe a ele o Calhariz, como hoje se diria o Palmela, o Loulé, o Fronteira. Logo, vemos que essa denominação lisbonense da rua, ou largo, não passa além dos primeiros anos do século XVII. [Castilho: 1937]

Largo do Calhariz |1922-08-13|
Rua Luz SorianoPalácio Calhariz-PalmelaRua da Atalaia.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Um aspecto da Greve Geral em Lisboa»
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo.

Sunday, 4 May 2025

Largo Rodrigues de Freitas: Vão lá dizer às gentes que isto aqui não é «Santo André»!


Chegara então ao Largo Rodrigues de Freitas, encruzilhada de uma meia dúzia de pequenas ruas, oásis verdejante, com algumas casas bem antigas, mas, infelizmente, bastante degradadas. Estará então a dois passos da igreja do Menino Deus.¹


Foi neste Largo de Rodrigues de Freitas que nos despedimos no cabo da última jornada — recorda o ilustre Norberto de Araújo. Aqui nos voltamos a encontrar — no coração do velho Santo André, santo da toponímia popular, cujo nome encheu o sítio, e por muitos anos perdurará. Vão lá dizer às gentes que isto aqui não é «Santo André»!

Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André |1948-05|
Confluência da Rua de São Tomé, Calçada da Graça e Travessa do Açougue
 Costa do Castelo (esq.) e Calçada de Santo André; à dir., o Palácio dos Condes de Figueira.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A designação deriva da circunstância de neste local de que nos vamos aproximando — a Travessa do Açougue, que conduz em pequena rampa à Calçada da Graça — ter existido a Igreja Paroquial daquela invocação.²

Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André |c. 1960|
Confluência da Travessa do Açougue (esq.) e Ruas do Salvador e de São Tomé.
Mário Pinto,, in Lisboa de Antigamente

No dia 31 de Maio de 1835, acabaram definitivamente as freguesias de Santa Marinha e de Santo André [...] Os letreiros dos carros eléctricos arvoravam durante muito tempo, o chamadouro do lugar que foi de grandeza e decaiu. Ficouporém, a Calçada de Santo André que vai até ao Terreirinho. O largo é que passou a ser de Rodrigues de Freitas, em 1915, sem que cousa alguma explique a homenagem local ao ilustre professor e notável democrata.
Nem sequer a existência de um centro republicano, com o seu nome, naquele âmbito justifica a distinção do município.³

Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André |1967|
Jardim e Travessa do Açougue.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ADRAGÃO, José Victor; PINTO (Natália); RASQUILHO, Rui, Lisboa, p. 74, 1985.
² ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 12, 1938.
³ MARTINS, Rocha, Lisboa de ontem e de hoje : as colinas da cidade, p.1045.

Sunday, 29 December 2024

Avenida Fontes com a Rua Camilo

Como estes dois últimos nomes são enormes! Mas parece que em certa época presidiu à denominação das ruas esse critério dos nomes grandes: Avenida de Fontes Pereira de Melo, Rua de Camilo Castelo Branco, etc. Pois não poderia dizer-se Avenida de Fontes e Rua de Camilo? Ou teme alguém que se confundem os nomes do estadista e do escritor com o de qualquer merceeiro?! [A.P. 1914]

A Avenida Fontes Pereira de Melo integra-se no projecto de crescimento da Cidade para Norte, aprovado em 1888, plano intitulado: "Avenida das Picoas ao Campo Grande" da autoria do Engenheiro Ressano Garcia. As terraplanagens iniciam-se cerca de 1897. 

Avenida Fontes Pereira de Melo com a Rua Camilo Castelo Branco |ant. 1940|
Palacete Sabrosa; Praça Marquês de Pombal
Kurt Pinto in Lisboa de Antigamente

O Palacete Sabrosa impressionava pela área da sua implantação distribuída por um quarteirão inteiro: Rotunda do Marquês, Avenida Fontes Pereira de Melo, Rua Camilo Castelo Branco e Avenida Duque de Loulé. Perfilava-se a residência no gaveto do Marquês com a Fontes Pereira de Melo com duas fachadas extensas, mas a principal projectava-se nesta avenida ou, como se dizia na altura, gozava de vista para o Parque. Foi demolido por volta de 1940. [Monterroso: 2002]

 

Rua Camilo Castelo Branco no sentido Avenida Fontes Pereira de Melo |195-|
Perspectiva tomada da Av. Duque de Loulé onde existe, desde 1950, o Monumento a Camilo Castelo Branco [vd. imagem abaixo].
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O topónimo «Rua Camilo Castelo Branco» presta tributo ao insigne Romancista (1825-1890) e foi atribuído por deliberação camarária de 24 Julho de 1890 — logo no mês seguinte ao seu falecimento — , ao arruamento que ligava a Rua Alexandre Herculano à então Rua Fontes (a partir de 1902, Avenida Fontes Pereira de Melo).

Camilo Castelo Branco (1825-1890) foi um dos maiores escritores portugueses do século XIX. "Amor de Perdição" foi sua novela mais importante. Suas novelas passionais fazem do escritor o representante típico do Ultra Romantismo em Portugal. Foi um dos primeiros escritores portugueses a viver exclusivamente do que escrevia. Recebeu o título de Visconde concedido pelo rei de Portugal, D. Luís I. [+ info]

Monumento a Camilo Castelo Branco |196-|
Perspectiva tomada da Av. Duque de Loulé com a Rua Camilo Castelo Branco (esq.) onde existe desde 25 de Outubro de 1950 a estátua do escritor — obra do escultor António Duarte.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 17 November 2024

Rua e Arco do Salvador

Ora, Dilecto, considera quanto é pitoresco o enfiamento da Rua e Arco do Salvador, numa perspectiva graciosa, sem contudo se revestir de arcaico. 
Parece que houve aqui dois arcos-passadiços — recorda Norberto de Araújo —, em vez de um apenas, aquele que subsiste, anterior, aliás, ao que desapareceu.

Rua e Arco do Salvador em 1952 e c. 1900, respectivamente
Antigo Convento do Santíssimo Rei Salvador e, à dir., o Palácio dos Condes dos Arcos
Fotografias por A. Passaporte e  A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

À direita, subindo, após o Arco [vd. imagem abaixo], ergue-se a parede lateral do antigo Convento [do Salvador], hoje ocupado nesta área pelo Patronato da Infância e pelo Centro Dr. Alexandre Braga Centro Cultural Dr. Magalhães Lima; à esquerda temos esse muro, do qual pendem arbustos, que o engrinaldam de poesia: é o do muro da Cerca do Convento, presentemente recreio das crianças alunas do referido Centro Dr. Alexandre Braga.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 78, 1939)

Rua e Arco do Salvador em 1900 e 1952, respectivamente
Perspectiva tomada do Largo do Salvador
À esq. nota-se o Palácio dos Condes dos Arcos e, à dir. a torre sineira do extinto Mosteiro do  Salvador.
Fotografias por Machado & Souza e A. Passaporte, in Lisboa de Antigamente

N.B. A origem do culto a São Salvador neste local recua à época da Reconquista Cristã, período em que terá sido fundada a ermida de São Salvador da Mata. Com a fixação da população e o crescimento do povoado em redor, tornou-se sede de paróquia de Padroado Real, estatuto que recua, pelo menos, a 1229. A fama de milagres atribuídos às imagens votivas ali expostas ocasionou a construção de um pequeno recolhimento destinado aos peregrinos que aí afluíam. Este recolhimento caracterizava-se por um conjunto de casas térreas, construídas junto à ermida ou capela, que foram, depois, ocupadas por mulheres devotas recolhidas em clausura perpétua, chegando a reunir vinte devotas. Eram, à época, conhecidas por Emparedadas ou Beatas.
(BAPTISTA, 1618, pp. 4-4v e 9-14; CACEGAS e SOUSA ,II, 1767, pp. 6-9; História dos Mosteiros..., II, 1972, pp. 260-64; SILVA, I, 1968a, p. 186).

Friday, 21 June 2024

Rua Luz Soriano com a Travessa dos Fiéis de Deus: Palácio Ficalho

Palácio setecentista(?), casa nobre dos Condes de Ficalho, um edifício enorme, de largas janelas, pintado de cor-de-rosa, estendendo-se ao longo de três grandes blocos entre as ruas Luz Soriano, 47-53, dos Caetanos, 19-20, e Travessa dos Fiéis de Deus, 92-106. 
Rezam as crónicas que no solarengo palácio dos Melos de Serpa, "aos Caetanos", a condessa de Ficalho reunia a fina flor da elegância em certos dias da semana (segundas-feiras). Beneficiou de restauros no decorrer dos séculos XVIII e XIX.

Rua Luz Soriano com a Travessa dos Fiéis de Deus |ant. 1900|
Palácio Ficalho (esq.)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): data e local da foto não estão identificados no abandalhado arquivo da cml.

Biografia arquitectónica do Palácio Ficalho: fundação num momento posterior a 1603; reconstrução na sequência de um projecto de 1882; separação do módulo da Rua Luz Soriano c. 1940; intimação camarária à realização de obras em 1968 desencadeada pela Polícia Municipal; projecto (não completamente concretizado nas partes exteriores) de profundas alterações, visando a “divisão do prédio [de 1600 m2] em várias habitações independentes, funcionais e de dimensões razoáveis (…)” (Arquitecto Manuel de Mello, 1980).
É, actualmente — do pouco que conserva da sua coerência arquitectónica de outrora — , composto por apartamentos de luxo.

Rua Luz Soriano |1968|
Palácio Ficalho
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Friday, 2 February 2024

Praça da República: venda ambulante de queijadas e travesseiros de Sintra

A chamada Praça da República, designação que o povo de Sintra nunca aceitou como boa, persistindo em chamar-lhe o Largo da Vila que actualmente se acha reintegrado no seu primitivo nome de Praça da Rainha D. Amélia.
Chegando ao Largo da Rainha D. Amélia, onde se aglomera o comércio em todos os ramos da sua actividade, depara-se-nos finalmente o velho Paço de Sintra, monumento notabilíssimo sob qualquer aspecto — arquitectónico ou histórico.

Praça da República antigo Largo Rainha D. Amélia |1924-08-10|
Vendedor ambulante queijadas e travesseiros de Sintra; 
Palácio Nacional de Sintra
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Como já tivemos ocasião de notar, é este palácio um conjunto irregular de construções diversas no seu tipo que tira dessa mesma irregularidade o principal motivo da sua estranha harmonia e também talvez o seu maior encanto Do corpo central, correspondente aos primitivos paços joaninos, olham sobre o eirado cinco elegantes janelas geminadas estilo mourisco — a do centro com arcos peraltados e denticulados sobre impostas cortadas nas faces, com capitéis mouriscos e fustes elegantemente torcidos que evocam troncos enlaçados de árvores despidas de folhas, e as outras quatro com fustes lisos e encurtados por parapeitos.

Largo Rainha D. Amélia |c. 190-|
Vendedor ambulante queijadas e travesseiros de Sintra; 
Entrada do Palácio Real
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Oh! nobres paços da riosnha Cintra
Não sobre a roca erguida mas pousados,
Na planicie tranquilla, que memorias,
Não estaes recordando saudosas,
Dos bons tempos de Lysia!
(in Roteiro Lirico de Sintra, de Oliva Guerra, 1967)

 

Largo Rainha D. Amélia, recanto |c. 1910|
Vendedor ambulante queijadas de Sintra

Artur Bensabat Benarus, in Lisboa de Antigamente

Friday, 13 October 2023

Palacete do Visconde Sanches de Baena

O magnífico palacete do Visconde Sanches de Baena situava-se na Estrada de Benfica, 609-613 e fazia gaveto com a Travessa do Rio onde existia uma outra entrada pelo nº 1. O histórico edifício foi demolido nos meados dos anos 70 do século XX.

Augusto Romano Sanches de Baena e Farinha de Almeida Portugal Silva e Sousa (Vairão, Vila do Conde, (1822—1909), 1.º visconde de Sanches de Baena, médico, historiador, genealogista e especialista em heráldica, autor de várias obras de referência no campo da heráldica e da genealogia.

Palacete do Visconde Sanches de Baena |1960|
Estrada de Benfica, 609 a 613; Travessa do Rio
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 24 September 2023

Palácios dos Marqueses de Gouveia

Ora se os Portalegre e Gouveia foram sepultados na igreja do Convento de Santo Elói, é natural perguntar-se: onde seria, em Lisboa, o seu palácio?
O palácio já não existe, mas os vestígios e as referências são numerosos e com bastante interesse. 

Comecemos pela obra de Norberto de Araújo — Peregrinações em Lisboa:
Este outro prédio [vd. 1ª imagem], que antecede o que vai fazer esquina ao Arco de Jesus — recorda o ilustre olisipógrafo — , foi o famoso Palácio, à Ribeira, dos Duques de Aveiro. Não vale a pena perdermo-nos em genealogias. Duas palavras só.

Pertenceu este Palácio aos Marqueses de Gouveia, Condes de Portalegre, que foram também Condes de Santa Cruz e de Sandomil (século XVII) e depois ao Duque de Aveiro (Mascarenhas), o último dos quais, D. José, supliciado em Belém, era filho do 3.° Conde de Gouveia. Pela extinção da Casa de Aveiro é que este Palácio entrou, por herança, na Casa Lavradio (Mascarenhas, por linha feminina, pois o 1.º Marquês e Conde do Lavradio casara com uma filha do 3.º Marquês de Gouveia). 

O Terramoto desfigurou inteiramente o Palácio e o sítio. Na porta n.º 17 do prédio [por trás do camião na imagem abaixo], no Campo das Cebolas, se abrem as Escadinhas do Pátio do Lavradio, que conduzem ao Largo do Marquês do Lavradio a S. João da Praça, aonde iremos dentro de poucos minutos.
O palácio Lavradio desintegrou-se desta família no século passado, e era uma ruína transitou a novos proprietários.

Campo das Cebolas, 17 |1939|
Local dos Palácios dos Marqueses de Gouveia
No n.º 17 do prédio [por trás do camião] abrem-se as Escadinhas do Pátio do Lavradio; Rua da Alfândega
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Cá estamos Largo do Marquês do Lavradio. Aqui, como te disse, assentava a frente do Palácio dos Duques de Aveiro, depois dos Lavradios. O Terramoto destruiu tudo quási inteiramente. Este aspecto do sítio é do século passado [XIX]. ==

Diz Pastor de Macedo («Lisboa de lés-a-lés», IV, 47) falando deste Largo:
— Fora antes do Terremoto de 1755 o pátio do palácio dos Marqueses de Gouveia, Condes de Portalegre e de Santa Cruz, palácio, que ali, desde a Ribeira até à Rua de S. João da Praça se erguia há muitíssimo tempo. A primeira vez que o vimos citado é em 1654 [...] para depois passar a ser «ao Pátio do Marquês...» para depois passar a ser o Pátio do Conde de Santa Cruz, pelo menos desde 1702 a 1740 e o Pátio do Marquês de Gouveia ou do Marquês Mordomo-mor que era o mesmo titular tratado pelo seu cargo, desde 1744 até ao Terremoto. Desde então até à quarta década do século seguinte foi simplesmente, duma maneira geral, Pátio do Marquês e fugitivamente, desde 1789 a 1792, Pátio do Duque em lembrança do último Marquês de Gouveia ter sido o último Duque de Aveiro.
Passando de pois o palácio, por herança, para a casa dos Marqueses do Lavradio, o pátio passou a ser designado, em 1844, por Pátio do Marquês do Lavradio, até que por edital de 7 de Agosto de 1911 teve a categoria de Largo, ... »

Largo do Marquês do Lavradio |1901|
Local dos Palácios dos Marqueses de Gouveia
Arco e Escadinhas do Pátio do Marquês do Lavradio com ligação ao n.º 17 do Campo das Cebolas. Note-se as duas iniciais "CM" sobre o arco da entrada.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente
Escadinhas do Pátio do Marquês do Lavradio |c. 1945|
Local dos Palácios dos Marqueses de Gouveia
Pelo n.º 17 se passa da Ribeira Velha para o Largo do Marquês do Lavradio onde foi o pátio do palácio. Note-se os corrimãos de ferro, e o candeeiro de braço. Antes existiam aqui uma casas e barracas, aproveitadas das ruínas do velho Palácio dos Portalegres, Gouveias, Aveiros, Lavradios — sequência de herdeiros em conjunção de títulos.
Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

As Escadinhas são do século XVIII, anteriores ao Terramoto; oferecem uma certa curiosidade, nos seus dois aconchegados lanços guarnecidos de corrimãos de ferro, e com seu candeeiro de braço, no centro da serventia, a apontar um desenho, entre aguarela e água forte. Pertencem à Câmara Municipal, e sobre o arco da entrada lá estão as três iniciais: C. M. L.¹
¹ [em 1901 só se vial duas iniciais "CM" como confirma a imagem acima]

Segundo as informações de Júlio de Castilho, foi a vereação de 1867 quem mandou terraplanar e limpar o sítio, fazendo o largo e também a passagem para quem vinha das Cruzes da Sé e de S. João da Praça para o Campo das Cebolas, na Ribeira Velha.
O portal que tem o n.º 13 pertenceu ao palácio dos Marqueses de Gouveia e talvez seja o que foi mandado fazer pelo 3.º Marquês daquele título, D. Martinho Mascarenhas, 6.° Conde de Sandomil, ao qual alude Tomás Pinto Brandão nuns versos do Pinto Renascido («A Ribeira de Lisboa»):
Como todo Portugal
o vosso portal fui ver,
eu, senhor meu, lá fui ter,
porque o não tinha por tal.
Graças ao louvor tal qual,
que lhe dei com pouco alinho!
porque isso me abriu caminho
a tirar-vos de cortez,
o chapéu como a «Marquês»
e a capa como a «Martinho».
Faleceu o Marquês D. Maninho em Março de 1723; a ser pois, como é possível, o portal que ainda lá está de pé o que ele edificou, deve atribuir-se-lhe como data o primeiro ou segundo decénio do século XVIII. A verdade, porém, sabe-a o portal. ==

Palácios dos Marqueses de Gouveia |1901|
Largo do Marquês do Lavradio, 13; Travessa dos Machados
Portal nobre, brasonado, de D. Martinho de Mascarenhas Marquês de Gouveia,
falecido em 1723 que escapou ao Terramoto de 1755. Corpo central mais alto no
qual se rasga uma varanda, conjunto de certa graça arquitectónica, do tipo setecentista,
mas ainda do espírito final de seiscentos.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
CASTILHO, Júlio de, A Ribeira de Lisboa, 1893.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 25-39, 1939.

Sunday, 10 September 2023

O Cine-Pátria no Palácio Lafões

Cinema inaugurado em 1917 no piso térreo do Palácio Lafões como «Animatógrafo do Beato», tendo mais tarde mudado o nome para «Cine-Pátria», que se manteve em actividade, com interrupções, até à década de 1980 e, no auge da sua popularidade, chegou a ter 447 lugares.

Cine-Pátria, baixos do Palácio Lafões |1967-02|
Rua do Grilo, 46
João Goulart, in Lisboa de Antigamente
Cine-Pátria, baixos do Palácio Lafões |1974?|
Rua do Grilo, 46
Autor desconhecido (Lauro António?), in Lisboa de Antigamente

A edificação do Palácio dos duques de Lafões, sito na Calçada do Duque de Lafões, 1-5, e Rua do Grilo, 34-54, ao Beato, iniciou-se cerca de 1777 por encomenda do D. João Carlos de Bragança,  2-º duque de Lafões — aquele a quem se deve a criação da Academia das Ciências

Era uma figura bem interessante este 2.° Duque de Lafões, com prosápia de nobreza e sangue real, mas culto, sábio mesmo, valente, decidida, militar combatente nas guerras entre a Áustria e a Prússia. Percorreu todas as côrtes da Europa, num grande desdém pelo desdém que lhe votava Pombal, viajou pela Asia e África, só voltando à pátria quando D. Maria I subiu ao trono, e recebendo então o título de 2.º Duque, que lhe era devida.
Foi estadista e homem público, e aos 82 anos era ainda general-marechal comandante do exército português.

 

Palácio Lafões (ou do Grilo), fachadas S. e E. |1974|
Rua do Grilo, 46
E.K., in Lisboa de Antigamente
Palácio Lafões (ou do Grilo) |195-|
Rua do Grilo, 46
Um aspecto do pátio vendo-se as frontarias Poente (primitiva) e Sul (Séc. XIX).
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

O Palácio Lafões, com uma bela quinta anexa, ocupa uma área, relativamente grande, limitada a Sul pela Rua do Grilo, a Nascente pela Calçada do Duque de Lafões, a Norte pelo jardim, e a Poente pelas instalações da antiga Manutenção Militar, que foram antigo jardim e hortas. Apresenta em planta um aspecto aparentemente confuso, mas o corpo primitivo, sobre a antiga estrada, a Poente, é nitidamente regular.
O interior do Palácio Lafões distingue-se pelo seu carácter do final do século XVIII na parte primitiva, a Poente, cujas salas diferem em muito das da parte Norte, já do século XIX na ala sobre os jardins grandes e antiga mata.
Na primeira metade do século passado, quando o rio chegava quase à base Sul do Palácio, existiu ali um cais chamado dos «Duques».

Palácio Lafões (ou do Grilo) |195-|
Rua do Grilo
Fachada Norte sobre os antigos jardins que corresponde às salas principais.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2012
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1950.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, pp. 69-69, 1939.
Web Analytics