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quarta-feira, 21 de março de 2018

Coreto do Alto do Poço (Coreto de Carnide)

No Alto do Poço, aproveitando a própria configuração topográfica, a Rua Direita alarga-se para dar lugar a um espaço irregular alongado, espécie de terreno marginal ou lateral, onde inicialmente se realizou um pequeno mercado de produtos hortícolas e, em 1929, se construiu o coreto (cantaria, hexagonal, cobertura em ferro), dando-lhe uma fisionomia mais urbana.


A partir de fontes arquivísticas e bibliográficas, sabe-se que o topónimo Carnide já era utilizado nos finais do século XII, correspondendo, nessa altura, a uma área de herdades agrícolas, propriedade de particulares abastados e de casas religiosas de Lisboa. Uma verdadeira aldeia só terá surgido em meados do século XIII e há referências que indicam que, nos inícios do século XIV, a povoação de Carnide já tinha uma igreja dedicada a São Lourenço com o seu cemitério, uma fonte, «covas», um «rocio» e, especificamente no lugar conhecido por «Alto do Poço» (vulgo Largo do Coreto), uma Ermida dedicada ao Espírito Santo, outro cemitério, uma leprosaria (que viria a ser desactivada em meados no século XVI com a construção de um hospital na Luz) e (claro) um poço. Para o século XV há notícias de que Carnide se transformara em local de descanso da família real e de outros elementos da Corte (o que indicia a existência de casas nobres).

Coreto do Alto do Poço |1929|
Rua Neves Costa vulgo Largo do Coreto de Carnide
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Trabalhos arqueológicos que decorrem no Largo do Coreto de Carnide, desde os inícios de Março de 2012, no âmbito do Projecto de Requalificação do Largo do Coreto e Ruas Adjacentes, já permitiram recuperar muitos elementos da história dessa zona. Até ao momento já foram detectados:
- um poço em pedra (perto do local do coreto) aparentemente construído em época medieval com cerca de 12 metros de profundidade (estimada), cheio de água (em ano de seca!), talvez aquele que justificava o topónimo «Alto do Poço».

Coreto do Alto do Poço |1961|
Rua Neves Costa vulgo Largo do Coreto de Carnide
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
jf-carnide.pt.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Antigo coreto da Avenida da Liberdade

D. Felicidade quis então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o Conselheiro; por ele, para lhe parecer bem, fizera o sacrifício de se apertar!
Acácio não vinha, os gases começavam a afrontá-la; e o despeito daquela ausência aumentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, o corpo mole, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, numa névoa empoeirada. 

Mas a música, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruído de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquilo reanimou-a.
Era pot-pourri da ópera — e não havia música de que gostasse mais. (Queiroz, 1878)


No projecto da Avenida da Liberdade (após demolição do Passeio Público) estavam contemplados novos equipamentos para o jardim, incluindo um novo coreto, criado por José Luís Monteiro e cuja construção foi iniciada no lado oriental da Avenida, no talhão situado entre a Rua dos Condes e o Largo da Anunciada, mas uma petição de Dezembro de 1885, de vários moradores da zona pediu a suspensão da sua construção naquele local, o que foi aceite em Comissão Executiva, a 13 de Fevereiro de 1886, que decidiu suspender os trabalhos, remover os materiais e guardá-los até ser designado novo local para o coreto. Apesar de não haver coreto na Avenida, existem referências de bandas tocarem entre a Praça dos Restauradores e a Rua das Pretas.
Mais tarde, possivelmente no lugar onde actuavam as bandas foi construído um (primeiro) coreto fixo de materiais pouco duráveis a pedido da Sociedade Promotora das Creches para a realização de uma quermesse em Setembro de 1886, coreto esse que a pedido dos moradores, foi mantido nesse local até 1894, ano de inauguração do coreto fixo (segundo).
A necessidade de um novo coreto na Avenida da Liberdade, devido ao estado de degradação do coreto provisório e o pedido dos moradores lisboetas tendo em vista a necessidade de manter a música neste local, fez com que a 19 de Maio de 1892 fosse retomado o projecto de coreto de José Luís Monteiro, mas agora noutro local, para a parte mais alta da Avenida, no talhão em frente à Rua Rosa Araújo.
O coreto fixo, inaugurado a 15 de Agosto de 1894, foi aí mantido até 1935, quando foi desmanchado para ser novamente reconstruido noutro local, o Jardim da Estrela, onde se mantêm até aos dias de hoje. A decisão de mudar este coreto de local deveu-se ao aumento da quantidade de tráfego, comércio e escritórios na Avenida da Liberdade, factores pouco convidativos para o ambiente musical e para atrair pessoas até ao coreto.

Avenida da Liberdade, coreto [c. 1894]
Este coreto situava-se defronte ao nº 232 no lado nascente da avenida, no quarteirão entre as ruas Barata Salgueiro e Alexandre Herculano. Foi transferido em 1935-36 para o Jardim da Estrela.
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente

Inaugurado em 15 de Agosto de 1894, tocando, à noite, das oito às dez horas a banda de Infantaria 2, e sendo todo iluminado a luz eléctrica. Porém, não deu o melhor resultado porque se apagou muitas vezes, o que fez com que a música desse algumas fifias, por estar às escuras.
É um coreto em mármore e ferro, do risco de José Luís Monteiro, com sugestões indianas no desenho dos arcos e na cobertura. O interior desta apresenta um invulgar trabalho decorativo em madeira com liras, folhagem e monograma camarário. É o único coreto com duas escadas de acesso, em ferradura, que pela simetria da planta lhe conferem um maior equilíbrio no desenho.

Avenida da Liberdade, coreto [c. 1900]
Coreto da autoria de José Luís Monteiro, foi transferido em 1935 para o Jardim da Estrela.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Na edição de 1831, do Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, a palavra coreto surge com o significado de «pequeno coro feito para alguma função». Enquanto em 1890 surge uma outra versão, emendada e acrescentada, que define o coreto da seguinte forma:
«Corèto», s. m. Côro pequeno. Especie de palanque, vistosamente ornamentado, destinado à música, e que se arma geralmente por occasião de festa publica, em arraiaes, etc..»

Antigo coreto da Avenida da Liberdade [1960-06-11]
Coreto da autoria de José Luís Monteiro, foi transferido para este Jardim da Estrela em 1935. 
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.

NUNES, Joana, O coreto na cidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes (FBA), Dissertações de Mestrado, 2012.
RELVAS, Eunice; BRAGA, Pedro Bebiano, Coretos em Lisboa: 1790-1990, p. 129, 1991.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Palácio dos Condes de Redondo (Bairro Camões)

O antigo palácio dos Condes de Redondo. na Rua de Santa Marta — uma sombra do que foi, a viver apenas do seu exterior repousado — é uma fundação que não deve recuar mais que ao terceiro quartel do século XVII.

 
Fê-lo erguer ou reedificar, um dos Condes de Redondo, talvez D. Duarte de Castelo Branco. 7.º do título, vedor da Casa de D. João IV, ou seu irmão e sucessor, 8.º Conde., D. Francisco de Castelo Branco, falecido em 1686 sem descendência nem ascendência masculinas, vagando então para a Coroa a Casa e o Condado de Redondo. É esta a razão por que se viu a Rainha D. Catarina, viúva de Carlos II de Inglaterra, residir neste palácio, «cedido por seu irmão D. Pedro II», quando regressou ao Reino, e antes de a mesma senhora ir habitar o seu Paço da Bemposta. D. Pedro II, em 1693, fez mercê dos bens e título de Redondo a D. Manuel Coutinho, 9.º Conde, filho segundo do Marquês de Marialva, e quarto neto de D. Vasco Coutinho, Conde de Borba, e l.º Conde de Redondo. Este 9.º Conde morreu sem sucessão e a varonia passou para os Sousas, sendo 10.º Conde D. Fernão de Sousa Coutinho; o 18.º Conde D. Tomé Xavier de Sousa Coutinho de Castelo Branco e Meneses foi feito, em 1811, 1.º Marqu4s de Borba.

Palácio dos Condes de Redondo [1930]
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
A Fachada, em extensão, constituída por sete corpos contíguos,  divididos  por  pilastras, com duas ordens de vinte e duas janelas, sendo as do andar nobre de sacada, com varões seiscentistas, e coroadas de cornija.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
O Palácio sofreu pouco pelo Terramoto, dada a sua sólida construção, dando então albergue a muita gente; foi, contudo, objecto de restauros levados a efeito pelo 12.º Conde, D. Fernando.
A grande quinta dos Redondos e Borbas, que se estendia a Nascente do palácio, e era uma das maiores de Lisboa, foi retalhada em 1878. depois de haver sido comprada por uma empresa urbanizadora do bairro Camões, cujo principal influente foi o Conde de Burnay, era então senhor da Casa, D. Fernando Luís de Sousa Coutinho, 8.º Marquês de Borba, mas continuando o palácio na família Sousa Coutinho. Pertence hoje [em 1949] este antigo palácio — dado a inquilinato — à Condessa de Arnoso, ocupando-o. além de famílias humildes, a Assistência Infantil e a Cantina Escolar da freguesia do Coração de Jesus, duas escolas primarias, uma agência funerária e vários estabelecimentos comerciais.

Palácio dos Condes de Redondo [193-]
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
O Portal, sobrepujado  de tímpano emoldurado de cantaria, que dá acesso, sobre
um  pequeno  passadiço, ao pátio interior.

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

De planta rectangular composta por quatro alas em torno de um pátio também rectangular, apresenta volumetria paralelepipédica. A extensa fachada principal, desenvolvida em dois pisos, é constituída por sete corpos contíguos delimitados por pilastras toscanas, encontrando-se rasgada a um ritmo regular por duas ordens de 22 janelas, sendo as do andar nobre de sacada com guardas de ferro forjado e encimadas por cornija. O portal, emoldurado a cantaria e coroado por um friso com tríglifos, sobrepujado por frontão triangular interrompido no vértice, dá acesso ao pátio interior, no centro do qual existe uma cisterna seiscentista com guarda de cantaria. 

Palácio dos Condes de Redondo, jardins [9 de Junho de 1880]
O Bairro Camões foi inaugurado em 9 de Junho de 1880, (compreendia as Freguesias do Coração de Jesus e de São Jorge de Arroios) por ocasião do 3º centenário da morte de Luís de Camões. Para a ocasião foi armado um coreto pavilhão nos jardins do Palácio dos Condes do Redondo.
Rua de Santa Marta, 56 a 56-E
José A. Bárcia,
in Lisboa de Antigamente
 
No interior merecem destaque a escadaria desenvolvida a partir do átrio situado ao fundo do pátio, assim como algumas salas com tectos apainelados e estuques pintados. Está ocupado actualmente pela Universidade Autónoma de Lisboa, que aí funciona desde os anos 80 do séc. XX.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1949.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Coreto armado na Rotunda por ocasião da visita de Afonso XII

Os festejos tinham como tema o arraial campestre, criado para mostrar um pouco das tradições rurais portuguesas. Ao longo da Avenida foram montados 8 coretos em madeira com cobertura em palha. Na Rotunda (actual Praça do Marquês de Pombal), foi instalado um coreto elaborado por Rafael Bordalo Pinheiro — que não só orientou a construção como pintou os painéis — e que motivou de alguma controvérsia.

Coreto armado na Rotunda por ocasião da visita de Afonso XII |1903|
Rotunda (actual Praça do Marquês de Pombal) 
José Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

«Foi riscado por Rafael Bordalo Pinheiro, sugerindo a sua base uma enorme pandeireta coberta por um chapéu de sol (forrado interiormente de verde) decorado com uma rede de pompons vermelhos e amarelos, flores, festões e encimado por um globo electrificado onde assentava uma estatueta. Na pandeireta, entre os respectivos pratos metálicos, Rafael Bordalo Pinheiro desenhou pares de dançarinos populares, aproveitando para parodiar costumes portugueses e espanhóis. Assim, como habitualmente vinha a fazer noutras decorações suas, reinventou a forma deste efémero móvel urbano e caricaturando-o procurou suscitar o riso.»
(BRAGA, Pedro Bebiano, Cat. 156: Coreto na visita de Afonso XIII, Rotunda, Lisboa. In Arte Efémera. Catálogo de Exposição do Museu Calouste Gulbenkian,)

Coreto armado na Rotunda por ocasião da visita de Afonso XII |1903|
Rotunda (actual Praça do Marquês de Pombal) 
José Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

A  escolha  do  formato  do  coreto  seguiu  a  temática  do  arraial  minhoto,  que  preencheu  a  Avenida  da Liberdade  com  enfeites  de  «estrellas,  pandeiretas  e  cestos  de  variadas  cores,  também  em  papel  de seda, além d’outros balões simples, collocados nos frisos apropriados para esse efeito, em número de200 para cada.»
(RELVAS, Eunice; BRAGA, Pedro Bebiano, Coretos em Lisboa: 1790-1990, p. 74)

Coreto armado na Rotunda por ocasião da visita de Afonso XII |1903|
Rotunda (actual Praça do Marquês de Pombal) 
José Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

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