Friday, 31 March 2017

O Francfort Hotel e o Restaurante Irmãos Unidos

Às casas de comida que enumerei podia acrescentar os hotéis e pensões — não tenham medo que não vou fazer a sua lista — onde se janta bem e por bom preço. Ricos tempos em que, no Francfort, do Rossio, se jantava por seis tostões, com muitos pratos, vinho, doce, fruta e café.


De acordo com Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações «O Francfort Hotel, n.° 113, e que datava de 1894 ou 1895, pertenceu aos irmãos Artur e João Silva, que possuíam também o Hotel Francfort da Rua de Santa Justa; separaram-se na exploração hoteleira, ficando o primeiro com êste hotel do do Rossio e o segundo com o de Santa Justa.»

Praça D. Pedro IV [post. 1922]
Francfort Hotel, 113 e o Restaurante Irmãos Unidos, 112; no piso térreo, no gaveto para a Rua da Betesga, a Sapataria A Portugal fundada em Outubro de 1922: Pç. da Figueira.
Estúdio Mário Novais, in in Biblioteca de Arte da F.C.G.

Ao lado da entrada do Hotel Francfort, com o número de polícia 112 ficava o «Restaurante «Irmãos Unidos» — relembra o mesmo autor — «remodelado de aspecto internamente no comêço dêste ano de 1939 — é um dos mais antigos estabelecimentos do Rossio: data de Agosto de 1832. Os «irmãos unidos», fundadores não foram dois irmãos, mas dois amigos íntimos confiantes na amizade.
A Casa passou mais tarde à posse de um beto dos fundadores, António Venâncio Guisado, que morreu em 1932 com 82 anos, e estava aqui passava de meio século.
 Em 1926, o Restaurante, cuja entrada pelo Rossio se fazia até essa data por um estreito corredor, foi ampliado pela aquisição do espaço que antes era o da Barbearia Melo, desaparecendo então o velho corredor. 
O ano passado [em 1938], pela saída da sociedade de um dos dois filhos do velho Venâncio — o Dr. Alfredo Guisado — o Restaurante ficou apenas pertença de António Guisado. Deixaram de estar os dois irmãos — unidos... 
(Em 1860 os proprietários do Restaurante possuíam também um Hotel dos Dois Irmãos Unidos, que ficava onde está o Francfort, e antecedeu êste).» 
O Restaurante Irmãos Unidos encerrou em 1970.

Praça D. Pedro IV [195.]
Francfort Hotel; Rua da Betesga; Castelo de São Jorge
António Castelo Branco, in AML

Fernando Pessoa reunia-se neste café com Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, António Ferro, Armando Côrtes-Rodrigues, Luiz de Montalvor, José Pacheco e Alfredo Guizado, a cuja família pertencia o restaurante. Nele esteve exposto, a partir de 1956, o célebre quadro de Almada Negreiros (pintado em 1954), representando Fernando Pessoa à mesa de um café. Em Janeiro de 1970 este quadro foi adquirido em leilão, por Jorge de Brito, por um valor elevadíssimo para a época, e doado em Julho do mesmo ano à Câmara Municipal de Lisboa. Encontra-se actualmente exposto na Biblioteca da Casa Fernando Pessoa.

Praça da Figueira [1950]
Francfort Hotel, frente virada à Praça da Figueira
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
(FERNANDES, Eduardo, (Esculápio) 1870-1945)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 77)

Wednesday, 29 March 2017

Panorâmica do Largo do Corpo Santo e do Cais do Sodré

Deste Largo do Corpo Santo fala-nos Norberto de Araújo nas suas Peregrinações: «A origem deste nome está no culto de São Telmo, padroeiro dos pescadores, ao qual os devotos chamavam "Corpo Santo"; a imagem venerava-se numa ermidinha quinhentista de Nossa Senhora da Graça que ficava no princípio da Travessa do Cotovelo, já na proximidade do Largo actual, do lado norte. O nome de Corpo Santo passou ao sítio, ao Arco, ao Largo, e ao Convento dos dominicanos.» [ARAÚJO:1939]


Panorâmica do Largo do Corpo Santo, do Cais do Sodré e do Aterro [post. 1895]
O 3º prédio a seguir ao Largo na direcção da Praça do Duque de Terceira (Cais do Sodré) é o do Hotel Central
Fotógrafo não identificado, in Arquivo Municipal Lisboa

Conta Alfredo Mesquita que Trindade Coelho (1861-1908) «Farto de duas horas aborrecidas de intriga na Arcada, e de vêr os fatos de algibebe, entalando os pretendentes da província que por ali enxameiam, bocejando e lendo os cartazes, á espera do "Sr. Ministro"» mete pela Rua do Arsenal em direcção ao Cais do Sodré, passa o Largo do Corpo Santo «onde, sob um alpendrico de ferro, a Sociedade Protectora dos Animaes metteu ao abrigo do tempo os cavallos e os trens da viação, e entro afinal no Caes do Sodré, passando logo de entrada, em frente da filleira pitoresca das carroças de aluguer, cujas alimarias, cavalicagem de todo o feitio, atreladas, tasquinham á minha esquerda a palha dos ceirões, relinchando, ora um ora outro, ás vezes uns poucos, a alguma egua mais luzidia que passa, trotando, sob um calção de pampilho.»
 (MESQUITA, Alfredo, Lisboa, 1903)

Vista sobre o Largo do Corpo Santo [c. 189-]
À esquerda,  o Arsenal da Marinha
Fotógrafo: não identificado, in Arquivo Municipal Lisboa

Ficou célebre, na crónica lisboeta, o Hotel Central ao Cais do Sodré (edificio que se pode ver parcialmente na 1ª foto). Eça de Queiroz aí se hospedou e aí «hospedou» algumas das suas personagens. É o caso de Carlos da Maia, que assomando a uma janela do referido hotel num «dia d'inverno suave e luminosos», se depara com esta vista «sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, n'uma paz elysea, com nuvenzinhas muito altas, paradas, tocadas de cor de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam afogando n'um vapor aveludado, do tom de violeta; a água jazia liza e luzidia como uma bela chapa d'aço novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados ingleses, dormiam, com as mastreações imóveis, como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce...»
(QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888)

Largo do Corpo Santo [1935/36 ou 1942/43]
À esquerda, junto ao Arsenal da Marinha, o abrigo para animais e carruagens da Sociedade Protectora dos Animais
As datas prováveis para a imagem foram estabelecidas levando em conta os cartazes para a reeleição do General Carmona, afixados na parede do lado direito do edifício que faz esquina com a Rua Bernardino Costa
Estúdio Horácio Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

Sunday, 26 March 2017

Real Fábrica das Sedas

Neste ângulo recto que fazem as Ruas da Escola e do Rato, e de todo ainda não desfigurado, existiu a célebre Real Fábrica das Sedas, cujas oficinas, secções, anexos e armazéns em parte aqui se situavam, em ligação pelo interior rústico com a Rua — que se rasga defronte de S. Mamede — ainda hoje chamada da Fábrica das Sedas.


A Real Fábrica das Sedas — relembra-nos Norberto de Araújofoi criada, com organização própria oficial, pelo Marquês de Pombal em 1757, sucedendo à Fábrica fundada, em tempos de D. João V, por Ricardo Godin, um industrial francês que primeiramente instalara o seu estabelecimento fabril na Fonte Santa, de onde transitou para o fundo da Rua de S. Bento e finalmente para o Rato; não foi feliz no empreendimento e já em 1750 o Estado deitara mão à sua fábrica. 
A Real Fábrica conheceu períodos de prosperidade, durante a administração pombalina sendo grande a sua influência na sumptuária portuguesa da época, fornecendo paços, palácios, conventos e igrejas, clientes que crivaram, por vezes, a Fábrica de dividas. 
Morto Pombal, a Fábrica decaiu, arrastando-se contudo até 1855, ano em que D. Maria II mandou vender tudo, edifícios, oficinas, teares, existência; uma parte foi ainda explorada por um industrial particular, e mais tarde multiplicaram-se mesmo os pequenos industriais da seda, nas Amoreiras, mas sem sinal de desafogo, havendo dessas fabriquetas ainda vestígios como veremos noutro passo.

Real Fábrica das Sedas [entre 1901 e 1908]
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua direita da Fábrica das Sedas

Machado & Souza, in AML

Antes da criação de Real Fábrica estes terrenos por aqui, entre o Rato e a Rua da Imprensa Nacional (então Travessa do Pombal) até S. Bento faziam parte da Quinta do Morgado dos Soares [de Noronha] à Cotoviaa quinta de D. Rodrigo da primeira metade do século XVIIIe de que adeante te falarei.
Fez-se então a fábrica com suas dependências, vendidas no século passado como já te disse. Tudo foi depois parar às mãos de um Francisco Ferrari, de quem transitou para três filhas, duas das quais, que houveram a parte de um sobrinho, filho da outra irmã, casaram uma com o Visconde Silva Carvalho, outra com Guilherme Shindler; foi desta senhora que os imóveis da antiga Real Fábrica passaram para sua filha D. Lívia Ferrari Shindler de Castelo Branco, e desta para sua filha D. Maria Livia Shindler Castelo Branco viúva do estadista João Franco, actual [em 1939] proprietária de todas estas edificações, correspondentes à desaparecida Fábrica, quer as com frente para a Rua da Escola quer as com frente para o Rato.

Real Fábrica das Sedas [entre 1901 e 1908]
Rua da Escola Politécnica, antiga Rua direita da Fábrica das Sedas
Corpo central mais destacado e rematado por frontão triangular,
em cujo tímpano sobressai a pedra de armas de D. José I

Machado & Souza, in AML

Classificada como Imóvel de Interesse Público, esta é uma das mais importantes manufacturas de fundação joanina, constituindo um marco na história industrial portuguesa dos séculos XVIII e XIX. Com proposta apresentada pelo tecelão francês Robert Godin em 1727, a sua construção foi autorizada pela Resolução Real de 13 de Fevereiro de 1734. Construído no Rato, segundo o risco do arq. Carlos Mardel, o edifício ficou concluído em 1741.

Instalações dos trabalhadores da Real Fábrica das Sedas [1910]
Antiga
Rua da Fábrica das Sedas, desde 1968.Rua Maestro Pedro de Freitas Branco
Joshua Benoliel, in AML

Ocupando todo o quarteirão, a Fábrica desenvolve-se longitudinalmente com planta em L. De volumetria paralelepipédica uniforme, a sua fachada principal é composta por dois torreões avançados nos extremos ligados por duas alas recuadas a um corpo central mais destacado e rematado por frontão triangular, em cujo tímpano sobressai a pedra de armas de D. José I [vd. 2ª foto]. Estruturada em dois pisos, os panos murários surgem compartimentados em cinco corpos por pilastras e cunhais de cantaria, ritmados pelo rasgamento de 14 janelas em cada um dos registos. Tendo passado por vários proprietários desde o segundo quartel do séc. XIX, a fábrica sofreu um incêndio de grandes proporções, em Agosto de 1897, que destruiu o edifício quase na sua totalidade. Objecto de reconstrução posterior, sem qualquer afinidade com o uso para que fora criado, manteve a traça exterior, mas foi adaptado a novas funcionalidades no interior.

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 17-18)

(cm-lisboa.pt)

Friday, 24 March 2017

Chafariz de Alcântara ou do Largo dos Tanques

Junto do Mercado [de Alcântara], no exterior, no ângulo da Rua da Fábrica da Pólvora [actual Av. de  Ceuta] — afirma Norberto de Araújo — aí tens êsse chafariz da Câmara Municipal, erguido no tempo em que a freguesia de Alcântara dependia do Bairro de Belém, e que apresenta a curiosidade do seu brasão armoreado, e em cujo escudo se vêem a Torre de Belém e o busto de Vasco de Gama [vd. 2ª foto].

Chafariz de Alcântara [s.d. - prov. séc. XIX]
Rua da Fábrica da Pólvora, vulgo Largo dos Tanques; Estação de Alcânta-Terra
Fotógrafo não identificado, in AML
Obs.: esta imagem encontra-se invertida no arquivo

Segundo consta no Arquivo Municipal de Lisboa, este chafariz terá sido transferido das Necessidades em 1846 e demolido em 1953.  Refira-se, ainda, que a este troço da Rua da Fábrica da Pólvora hoje ocupado pela Av. de Ceuta, era denominado pelo vulgo como Largo dos Tanques, nome pelo qual era conhecido o referido chafariz.

Chafariz de Alcântara [ant. 1953]
Rua da Fábrica da Pólvora, vulgo Largo dos Tanques
No escudo são visíveis a Torre de Belém e o busto de Vasco de Gama
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 25-26)
(Arquivo Municipal de Lisboa)

Wednesday, 22 March 2017

Rua da Palma, 167-169

«Armazém Cninez» de J. J. da Cunha, casa fundada em 1887


Esta Rua, desafogada — relembra-nos Norberto de Araújo — hoje constituindo uma única artéria, das trazeiras de S. Domingos ao Intendente, divide-se em dois troços. O primeiro chega só à Guia [Martim Moniz] e é muito antigo, havendo sido nos séculos velhos arruamento dos comerciantes alemães que cultivavam religiosamente a lenda da palma que florira na sepultura do cavaleiro cruzado Henrique, sacrificado na Tomada de Lisboa, em 1147; foi rua sempre estreita, muito mais do que hoje é, bastante mercantil, caracterizada pelos negócios de ourives e prateiros. 

Rua da Palma, 167-169  [c. 1910] 
«Armazém Cninez», casa fundada em 1887 [demolido]
Joshua Benoliel, in AML

Rua da Palma, 167-169  [c. 1910] 
«Armazém Cninez», casa fundada em 1887 [demolido]
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. IV, pp. 24-25)

Sunday, 19 March 2017

Monumento a Dom Pedro IV

E lá está em cima, a 18 metros 27,5 metros de altura, no bronze «eterno», D. Pedro IV, em general, cobertos os ombros pelo «régio manto», cabeça coroada de louros.

Inaugurou-se em 13 de Abril de 1870, dia em que se comemorava o 44.° aniversário da outorga da Carta Constitucional. Ao Rossio foi dado o nome de Praça de D. Pedro, que não entrou em uso, pois sempre se adoptou a primeira designação.


Ergueram-se três pavilhões [3ª foto], destinados a família real, ao corpo diplomático, ministério e representação nacional e camarária e para a Corte. Eram todos forrados de pano azul e branco. Em plano levantado em anfiteatro colocaram-se algumas cadeiras. Flutuavam bandeiras. As tropas, comandadas pelo visconde de S. Tiago e brigadeiros Talaia e Rego, formavam nas ruas; a artilharia estava do lado do Amparo para o Rossio. As bandas regimentais tocaram o hino de D. Pedro IV. Cidadãos condecorados com a medalha da Liberdade ocupavam um recinto reservado. Os veteranos, que ostentavam a mesma honraria, formavam com as suas unidades. O soldado António José da Silva, que o imperador abraçara pouco antes do seu passamento, também ali estava e Saldanha quase que era aclamado. Era o herói a quem se devera, em grande parte, o triunfo da Causa Liberal.

Monumento a Dom Pedro IV [1869.70]
Construção do Monumento a Dom Pedro IV; Praça Dom Pedro IV (Rossio)
Francesco Rocchini, in BnF

Pelas quatro da tarde, a família real tomou lugar no pavilhão. D. Luís vestia o uniforme de Caçadores 5 e a rainha D. Maria Pia, de azul claro e rendas brancas. O rei D. Fernando e o infante D. Augusto aguardavam-nos com a nobreza. O marquês Sá da Bandeira apresentou a el-rei os vogais da Comissão, o escultor Robert e o canteiro Germano Sales, que tratara da parte arquitectónica. O rei dirigiu-se para o monumento com seu pai e irmão, ministros, dignitários, e pôs-se a descoberto a obra que assinalava a glória do «Rei Soldado». Subiram girãndolas de foguetes, salvaram as fortalezas e navios de guerra. As bandas marciais tocaram o hino da Carta e assinou-se o auto, sendo oferecida ao rei a medalha comemorativa da cerimónia. Firmaram o documento alguns companheiros do imperador e outras pessoas pelos deveres do seu cargo. Depois do rei, da família real e do ministério, os nomes históricos da Causa Liberal dispersavam-se no documento, mas eram como luzes, aqui e ali, entre os quase anónimos. Brilhavam os nomes de Saldanha, Joaquim António de Aguiar, conde de Campanha, marqueses da Bemposta e Subserra, de Sá da Bandeira, da Fronteira e Ficalho e conde de Mafra, D. António José de Melo. Fontes Pereira de Melo figurava ao lado do marquês de Resende, o camarista e amigo de D. Pedro IV. Mais abaixo irmanava outro camarista, o visconde de Almeida. O povo aclamava muitos daqueles homens a quem devia a Liberdade. A noite iluminara-se o Rossio e as fachadas de todas as casas, ao que diziam os jornais. (...)

Construção do Monumento a Dom Pedro IV [1869.70]
; Perspectiva tirada da Calçada do Carmo para a Praça Dom Pedro IV (Rossio)
Francesco Rocchini, in BnF

O primeiro projecto de um monumento no Rossio — em louvor da Constituição — data de 1820 — refere o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações —, havendo sido lançada a pedra fundamental em 15 de Setembro de 1821; não prosseguiu. O segundo, que ainda deu um famoso «Galheteiro» — que algum tempo ocupou lugar — teve a primeira pedra em 8 de Julho de 1852, não andou por deante, e foi demolido em. 1864. Finalmente em 29 de Abril de 1867, a esforços de uma comissão de que fizeram parte o Duque de Palmela, os Marqueses de Sá da Bandeira e de Sousa Holstein, o Conde de Farrcbo, os Viscondes de Benagazil e de Menezes, lançou-se a primeira pedra para o monumento que aqui vês, inaugurado três anos depois, a 29 de Abril de 1870, com extraordinária solenidade.

Inauguração do Monumento a Dom Pedro IV [1870]
A peça concebida para o antigo «Rocio» determina, à data, uma nova denominação toponímica, doravante Praça Dom Pedro IV
Francesco Rocchini, in AML

O monumento, nada famoso, concepção dos franceses Elias Robert, escultor, e Jean Davioud, arquitecto, que venceram o concurso aberto, e no qual foram apresentados 87 projectos vindos de todos os pontos da Europa! A construção é de Germano José Sales.
O pedestal é de mármore de Montes Claros, e a coluna coríntia, canelada, foi arrancada de Pero Pinheiro; a base é de granito dos arredores do Pôrto. Essas figuras nos ângulos da base do pedestal representam a Justiça, a Prudência, a Fortaleza; quatro figuras, em baixo relévo, adornam a parte superior do fuste. O segundo envasamento é ornamentado com os escudos de dezasseis cidades do país.»

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 67-68)
(MARTINS, Rocha, Lisboa – História das Suas Glórias e Catástrofes, pp. 852-854, 1948)

Friday, 17 March 2017

Avenida Álvares Cabral

«Considerando que foi por esta Camara deliberado construir o mais rapidamente possível a Avenida que vae ligar directamente o Largo do Rato com o da Estrella e que essa Avenida terá a denominação de Pedro Alvares Cabral; Considerando que com essa construcção o Largo do Rato será transformado n'uma das mais  bellas praças de Lisboa.»


Apesar desta decisão da vereação camarária, tomada em 1910, a abertura da actual Avenida Álvares Cabral só se viria a concretizar por volta de 1930. Até esta data, o acesso à Estrela — para aqueles que vinham do Largo do Rato — fazia-se pela Rua de Dom Dinis e pela Travessa das Terras de Santana e Rua de Santa Isabel, desembocando na alameda fronteira ao Liceu Pedro Nunes e à Escola João de Deus.

Avenida Álvares Cabral [1939]
Ao fundo, o Liceu Pedro Nunes (1906) e a Praça da Estrela; à direita, a Rua de Santa Isabel

Eduardo Portugal, in AML

Desviemo-nos agora — sugere Norberto de Araújo —, pela Travessa de Santa Quitéria, cortada há uma dezena de anos [c. 1929/30] no seu troço central para abertura da Avenida Álvares Cabral, até esta nova e desafogada artéria, rasgada em terrenos adquiridos pelo Estado (para o Liceu [Pedro Nunes]) em 1906 e depois em parte cedidos à Câmara Municipal.

Avenida Álvares Cabral [195-]
Junto ao Jarim Cinema

Eduardo Portugal, in AML

Avenida Álvares Cabral [195-]
À direita, a Travessa de Santa Quitéria; ao fundo, o Largo Rato

Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
(TORRES, João Romano, A Revolução Portuguesa, 1911)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p, 65 [1939])
 

Wednesday, 15 March 2017

Palácio Marim Olhão

O Palácio Olhão, foi solar nobre dos Condes de Castro Marim e dos Marqueses de Olhão (século XVIII). Em 1799 ali se instalou o Correio Geral, voltando depois aos antigos donos já neste século. Ocupa todo um quarteirão entre a Travessa das Mercês e a Rua do Século.
É uma grande construção à escala não nacional, dos fins do século XVIII e simultaneamente sintetiza uma influência italiana e uma influência francesa. Qualquer das três fachadas existentes, Calçada do Combro, Rua do Século, e a que dá para um jardim na Travessa das Mercês, incompleta hoje e parcialmente destruída, testemunham um sentido arquitectónico invulgar.


   Vejamos agora, Dilecto, o último dos edifícios palacianos que ficam na nossa passagem pelo Calhariz: e êste grande casarão à direita, já no comêço da Calçada do Combro, o mais miserável de todos, mas também o mais fiel do bairro.

Palácio Marim Olhão ou do Correio Velho [1919]
Calçada do Combro, 38; Rua de O Século, 2-2E; Travessa das Mercês, 19-31
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

    Este decrépito Palácio, hoje [1938] pouco mais do que um pardieiro imundo, é ainda rico de documentação arquitectónica.
    Solar nobre dos Condes de Castro Marim e dos Marqueses de Olhão — um dos quais foi monteiro-mór da Côrte — aqui se instalou o Correio Geral, quando êstes serviços públicos passaram para o Estado, vindos do sítio da Boa Morte para onde haviam transitado (1799) do tradicional edifício do «Correio Velho» às Pedras Negras.
    Foi depois proprietário da casa, já no comêço do século actual, D. José da Cunha, descendente dos primeiros titulares.
    Aqui estiveram instaladas uma Conservatória do Registo Civil, no comêço da República, e, depois, a Confederação Geral do Trabalho, o jornal «A Batalha», as «Juventudes Monárquicas» e, em velhos tempos, com entrada pela Travessa das Mercês, a famosa «Revolução de Setembro», do grande jornalista Rodrigues Sampaio, àlém de outros jornais, em épocas mais recentes. (Este jornal, com várias indoles e direcções, e em diferentes locais, existiu de 22 de Junho de 1840 a 23 de Março de 1892; cinqüenta e um anos de vida jornalística não é vulgar, e por isso apomos aqui esta nota).
   O casarão palaciano é hoje [1938] moradia de famílias pobres, e aqui tem sua sede um sindicato da Companhia Carris.

Palácio Marim Olhão ou do Correio Velho [1919]
Calçada do Combro, 38; Rua de O Século, 2-2E; Travessa das Mercês, 19-31
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..

Sigamos a sugestão de Norberto de Araújo e «entremos uns momentos»:  
   O grande átrio é nobre, de um nobre arruinado como depois de um abalo de terra. Adivinham-se as arcadas entaipadas mas bem desenhadas na volta inteira. E contempla êste arco do portal de entrada [3ª foto], largo, vistoso, assente sôbre duas belas colunas de maneira italiana. (...)
   As duas fachadas, em ângulo do edifício, que olham para êste pátio interior, e correspondentes aos corpos da Rua do Século e da Calçada do Combro [2ª foto]são nobilíssimas, como as da frente principal; nelas se rasgam janelas e varandas, de soberbos pormenores de arquitectura. Mas tudo isto parece seguro por arames, e faz pena ver. (...)
   Eu já te disse, Dilecto: acabam assim os palácios, ao mesmo tempo que, pela fôrça do destino e pela natural evolução das sociedades, se extinguem os títulos de nobreza, que não a fidalguia, pois esta, a-pesar-da dissolução de costumes, ainda logra manter-se em muitas famílias e em indivíduos, já pelo aprumo, já pelo carácter.

Palácio Marim Olhão ou do Correio Velho, átrio da escadaria [c. 1952]
Calçada do Combro, 38; Rua de O Século, 2-2E; Travessa das Mercês, 19-31
Salvador de Almeida Fernandes, in AML

Bibliografia
(Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, vol. V, p. 63)
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 27-28)

Sunday, 12 March 2017

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete

O Palácio do 1º Marquês de Alegrete, que o mandou construir em 1694, e ali existiu até 1946 junto à porta de São Vicente da Mouraria. Arruinado pelo terramoto de 1755, deixou de ser habitado pelos seus proprietários e foi alugado a modestos inquilinos que ali fizeram estabelecimentos comerciais e industriais.
Tinha o palácio três frentes, duas para locais já desaparecidos: o Largo Silva e Albuquerque e a Rua Martim Moniz, e a terceira para a Rua da Mouraria. Em 1946 foi demolido para dar lugar à actual Praça Martim Moniz.


O velho Palácio do Alegrete que teve certa aura na Lisboa de setecentosrelembra o olisipógrafo Norberto de Araújo —, é hoje [1938] uma ruína, pouco mais que um pardieiro, condenado à demolição, mas onde estão instalados ainda estabelecimentos de vária natureza e casas de habitação.

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete  [ant. 1946] 
Rua da Mouraria e Rua Martim Moniz (à dir.); ao  fundo a Calçada do Jogo da Pela
Estúdio Mário Novais, in AML

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete  [1907] 
Rua da Mouraria
Machado & Souza, in AML

Tem a forma de um rectângulo contido entre a Rua da Mouraria [1ª foto] (junto ao Arco, onde avulta ainda o portal brazonado dos Sylvas, entrada hoje [1938] de uma serralharia), a Rua Martim Moniz (onde existe um portal do antigo tipo arquitectónico), a Rua da Palma, agora em muro raso (desde que em 1935 foi demolido o prédio da Ourivesaria Cunha, que se encostava a êste tôpo do palácio) e o Largo de Silva e Albuquerque [3ª foto], antiga Rua dos Canos (onde na fachada se rasgam dois portais também do tipo dos antecedentes). 
O Arco, sôbre o qual assentam dois andares, cada um com sua janela, pertence ao prédio da Rua do Arco do Marquez do Alegrete, que se lhe encosta, e que é propriedade também da família dos Condes de Tarouca [Teles da Sylva].

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete  [1946] 
Largo Silva e Albuquerque
Eduardo Portugal, in AML

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete  [194.] 
Rua Martim Moniz (à esq,); Praça Martim Moniz (antes das demolições)
Filmarte, in AML

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 78, 1938)

Friday, 10 March 2017

As Galerias Romanas da Rua da Prata

Em plena Baixa lisboeta há uma cidade invisível, quase secreta, mesmo por baixo dos nossos pés, que remonta à época romana e da qual pouca ou nenhuma noção temos. Esta Cidade dentro da cidade é um património arquitectónico que resistiu ao passar dos milénios, e por essa razão, é protegido.


Esta estrutura romana, descoberta no subsolo da Baixa de Lisboa, em 1771, na sequência do Terramoto de 1755 e posterior reconstrução da cidade, tem sido objecto, ao longo do tempo, de múltiplas interpretações quanto à sua função original. Actualmente, teses quase unânimes avançam a possibilidade destas galerias romanas terem sido um criptopórtico, solução arquitectónica que criava, em zona de declive e pouca estabilidade geológica, uma plataforma horizontal de suporte à construção de edifícios de grande dimensão, normalmente públicos, como é o caso do Forum da cidade, que teria sido suportado por este criptopórtico.

Rua da Prata [c. 1910]
O quarteirão na Rua da Prata, entre as Ruas de S. Julião e da Conceição que fica acima das galerias romanas
Joshua Benoliel, in AML

A descoberta de uma inscrição consacratória a Esculápio, Deus da Medicina, em nome de dois sacerdotes do culto imperial e no do Município de Olisipo, gravada numa das faces de um bloco paralelepipédico de calcário e datada do séc. I a.C., actualmente no Museu Nacional de Arqueologia, poderá ser uma confirmação do carácter público deste edifício. No início do séc. XX, estas galerias ficaram conhecidas como as Conservas de Água da Rua da Prata¿ por serem utilizadas pela população como cisterna.

Rua da Prata [1909]
Bomba a vapor dos Bombeiros Municipais esgotando a água das galerias romanas
Joshua Benoliel, in AML

As suas características construtivas, tipologia e materiais associados remetem-nos para uma construção datada entre o séc. I a.C. e o séc. I d.C., contemporânea de outros edifícios públicos da cidade romana de Olisipo. Abertas ao público com regularidade a partir da década de 80 do séc. XX, são visitáveis, hoje em dia, apenas uma vez por ano, devido à acumulação de água no interior das galerias. A bombagem dessa água com maior frequência, para além de constituir um processo moroso, poderia colocar em risco a conservação do edifício assente sobre esta estrutura romana, assim como a daqueles que lhes estão anexos. O acesso ao interior é feito através de um alçapão localizado na Rua da Conceição. Este monumento integra a classificação do Conjunto Baixa Pombalina (Imóvel de Interesse Público) e, mais recentemente, do Conjunto Lisboa Pombalina (Em Vias de Classificação para Monumento Nacional). [cm-lisboa.pt]

Rua da Prata [1909]
O fotógrafo Joshua Benoliel (autor das imagens acima) falando com o chefe dos bombeiros Carvalho à volta das galerias romanas
in AML

Wednesday, 8 March 2017

Profissões de antanho: o azeiteiro

Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine!

Azêite dôôc´i bom vináágre!


Grande parte dos produtos de consumo normal continuavam nas mãos dos vendedores ambulantes que os iam apregoando pelas ruas ou ofereciam-nos de porta em porta. Constituíam os vendilhões, com os seus trajes próprios, os seus pregões, e até a variedade dos seus produtos, uma das notas mais castiças e mais vivas do folclore lisboeta. Eram numerosos, cruzando as ruas em todas as direcções, parando nas praças, de giga à cabeça ou trazendo um burro pela arreata, sucedendo-se uns aos outros durante o dia, em cumprimento dos horários mais favoráveis à venda dos produtos de cada um, ou reaparecendo com as estações do ano.

Mouraria [Início séc. XX]
Vendedor ambulante de azeite
Fotógrafo não identificado, in AML

Rua da Imprensa Nacional [entre 1903-1908]
(Antiga Travessa do Pombal; ao fundo o Instituto Politécnico)
Vendedor ambulante de azeite

Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House

Obs: o local não se encontra identificado pelo fotógrafo

O Azeiteiro que também vendia vinagre e petroline, com o fato cheio de manchas de óleo, transportava as grandes almotolias de folha, às duas e três, suspensas dos braços, e outras às costas. Se tinha carroça, podia trazer um maior número de unidades. Era um tipo geralmente pacato, sério no seu negócio que reclamava com um pregão banal:
Aazêêite dôôôce! Óh-pritróliine!
Azêite dôôc´i bom vináágre!

Rua da Prata com a Rua de Santa Justa [entre 1903-1908] 
Vendedor ambulante de azeite
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House

Obs: o local não se encontra identificado pelo fotógrafo

Campo de Santa Clara [Início séc. XX]
Vendedor ambulante de azeite na Feira da Ladra
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
(O povo de Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, CML, 1978)

Sunday, 5 March 2017

Quiosque do Jardim de S. Pedro de Alcântara

Se quisermos compreender facilmente o seu nascimento, teremos de analisar primeiro a proveniência do termo quiosque. Originado do francês kiosque, derivou por sua vez do turco kiouchk, que quer significar "nádegas", talvez pela posição que as pessoas adquirem em redor dele. É provalvelmente por isso que, em gíria, quando pretendemos que alguém se afaste de nós, ainda ouvimos dizer: "chega-me para lá esse quiosque!”.

As causas reais que levaram à demolição de muitos dos Quiosques que existiram em Lisboa são praticamente desconhecidas. Ou porque o seu estado de degradação a isso obrigasse sem que, no entanto, "merecessem" restauração, ou porque a modificação do traçado das ruas e avenidas e os melhoramentos dos passeios o tornasse imprescindível, o certo é que eles lá foram desaparecendo. E foram 45.

Quiosque do Jardim de S. Pedro de Alcântara [1908]
[Situava-se em frente ao Convento de S. Pedro de Alcântara]
Joshua Benoliel, in AML

Estrutura - Base de alvenaria, de secção hexagonal. Balcão de pedra, com corpo de madeira e com janelas de todos os lados. Cúpula hexagonal aos gomos, com toldo muito largo suportado por ferros, para esplanada, de bordos muito trabalhados e mísulas de ferro artisticamente decoradas.
Particularidades - Particular. Muito concorrido. Por cima de uma das janelas pode ler-se: «Pavillon Royal».

Bibliografia
(CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os quiosques de Lisboa, , p. 41, 1987)

Saturday, 4 March 2017

Convento dos Arrábidos ou de S. Pedro de Alcântara

Nestes limites e extremos do Bairro Alto, raros documentos citadinos oferecem um interêsse tão simpático como êste Recolhimento das Órfãs, dependente da Misericórdia de Lisboa, aqui na curva e esquina da Rua Luíza Todi, antiga Travessa da Estrêla; é mesmo uma das mais antigas instituições de assistência moral e educativa da velha Santa Casa.
O pequeno edifício, aliás gracioso, foi o do antigo Convento de S. Pedro de Alcântara, que deu nome ao local. Aí estás a ver a Casa, com seu portal agradável, com seu painel de azulejo, logo na frente do patim, à vista da Rua, e que representa S. Francisco, com sua escadaria que se desdobra, com seu adro simples e a galilé pequenina, que abre de três arcadas singelas e decorativas.


Convento de São Pedro de Alcântara  [1966]
Rua de São Pedro de Alcântara, 85 (Igreja); Rua da Rosa, S/N (Convento de São Pedro de Alcântara);
Travessa de São Pedro, 2-8; Rua Luísa Todi, 1-11
Armando Serôdioin Arquivo Municipal Lisboa

Erigido no Largo de S. Pedro de Alcântara, no local onde foi o Palácio dos Condes de Avintes, e nos outros tempos, uma nobre morada de casas de Marcos Tinoco (Secretário da Mesa da Consciência e Ordens), este convento foi fundado pelo 1.° Marquês de Marialva, D. António Luís de Meneses, em 1680, para os religiosos Arrábidos, em cumprimento de um voto feito na Batalha de Montes Claros
O edifício tinha inicialmente uma pequena igreja, e a cerca abrangia todo o quarteirão entre a Rua da Rosa, a Travessa do Sacramento e a Rua do Príncipe Real. 
Os frades Arrábidos tomaram posse do terreno e das casas em 1672, mas apenas em 1680 seria lançada a primeira pedra na igreja, mudando-se os religiosos para lá só em 1685. Eram pouco mais de 40 frades.
Vivia esta Ordem em austeridade na Serra da Arrábida, conforme as regras iniciadas por Frei Martinho e Frei Pedro de Alcântara.
Em 1707, possuía a Congregação, na chamada Província de Portugal, cerca de 22 conventos, dos quais 20 pertenciam ao Bispado de Lisboa.
Com o terramoto de 1755 ficou bastante deteriorado. A igreja caiu inesperadamente, esmagando muitos seculares e especialmente algumas mulheres que assistiam ao culto do dia. 
Foi posteriormente restaurada. 
A Casa do Capítulo (da autoria de Manuel da Maia), o refeitório e os dormitórios (restaurados em tempos de D. João V), resistiram ao sismo.
Na igreja jaz o grande General da Restauração, que foi ao mesmo tempo fundador do convento, e no adro o Arcebispo de Évora, D. Veríssimo de Lencastre. 
O 2.° Marquês de Marialva, D. Pedro António de Meneses, viria a promover o aumento da igreja com a reconstrução da capela-mor. 

Convento de São Pedro de Alcântara  [entre 1901 e 1910]
Rua de São Pedro de Alcântara, 85 (Igreja); Rua da Rosa, S/N (Convento de São Pedro de Alcântara);
Travessa de São Pedro, 2-8; Rua Luísa Todi, 1-11
Autor desconhecidoin Arquivo Municipal Lisboa

De referir no seu interior: 
A escadaria com painéis de azulejos Setecentistas; 
A entrada sob uma galilé de 3 arcos
A célebre Capela dos Lencastres, com tectos de Pierre Bordes [tecto pintado em trompe l’oeile] telas atribuídas a Pedro Alexandrino [A Pregação de São João Baptista], Wolkmar Machado e Quillard [A Coroação da Virgem]. 
A igreja foi restaurada em 1878, já depois da extinção das Ordens Religiosas.
Serviu depois para recolhimento de raparigas desamparadas, com o nome de Asilo da Apresentação de Maria (Assistência Social), estando actualmente dependente da Misericórdia de Lisboa [por decreto de D. Pedro, Duque de Bragança, ex-imperador do Brasil, a 31 de Dezembro de 1833].

Convento de São Pedro de Alcântara, fachada lateral  [séc. XIX]
Rua de São Pedro de Alcântara, 85 (Igreja); Rua da Rosa, S/N (Convento de São Pedro de Alcântara);
Travessa de São Pedro, 2-8; Rua Luísa Todi, 1-11
Autor desconhecidoin Arquivo Municipal Lisboa

Em 1943 passou a ser administrado, em acordo de cooperação, pelas Irmãs da Província Portuguesa da Congregação da Apresentação de Maria. Actualmente designa-se por Instituto de S. Pedro de Alcântara. Este imóvel insere-se no tecido consolidado do Bairro Alto, classificado Conjunto de Interesse Público.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 73, 1938
CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa, p. 145, 1954

Thursday, 2 March 2017

Igreja de S. Cristóvão

Estamos deante de S. Cristóvão, no Largo pequeno que tem a Sul, defronte do templo as Escadinhas que levam à Rua da Madalena. Encosta-te à cortina: observa-me essas minúsculas casitas, do principio do século passado, acumuladas, em capricho de intersecção, graciosas na suas escadas exteriores, e melancólicas no seu ar de condenadas perante um urbanismo racional. 

Não reparaste que apenas pelo enunciado — S. Cristóvão tem uma ressonância bairrista? Ora vejamos o templo, que do seu comêço esteve isolado, e só mais tarde foi rodeado de casas e, por conseqüência, de betesgas,naquele amontoado indisciplinado que caracterizava os focos de população crescente nos séculos da primeira dinastia.

 

Igreja de São Cristóvão, fachhada principal [c. 1900]
Largo de São Cristóvão
Machado & Souza, in AML

A igreja primitiva remonta talvez a finais do século XII, denominada então Igreja de Santa Maria de Alcamim. Há notícia que durante o reinado de D. Manuel I a igreja sofreu um incêndio que a deixou totalmente destruída. Em 1610 é restaurada e em 1671-72 dá-se a conclusão das obras. No século XVIII, resistiu globalmente ao Terramoto de 1755, mantendo-se a fachada maneirista da igreja característica do século XVII. 

Igreja de São Cristóvão, fachada lateral [c. 1900]
Calçada Marquês Tancos
Machado & Souza, in AML

O tecto da nave tem pintura ornamental exuberante, apresentando 15 quadrelas desenvolvendo-se em torno do painel central, composto por figuração de anjos ao redor de uma custódia barroca. Possui 44 telas de Bento Coelho da Silveira, de finais do século XVII. Sabe-se que «contam a história de S. Cristóvão, falam de S. Francisco, de Santo António, dos jesuítas S. Francisco Xavier e Santo Inácio de Loyola, falam sobre o Céu», mas estão quase ilegíveis, aliás, tudo está em risco devido à infiltração de água pelo telhado.

Igreja de São Cristóvão, traseiras [c. 1900]
Rua da Achada
Machado & Souza, in AML
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 52, 1938.
cm-lisboa.pt.
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