Mostrar mensagens com a etiqueta profissões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta profissões. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de setembro de 2026

Companhia dos Telefones: Estação Norte de Lisboa

A 10 de Março de 1876 Alexander Graham Bell conseguiu inventar um aparelho exótico e estranho, mas já susceptível de receber ou transmitir a voz humana.
Cinco anos depois da sua invenção o Telefone chega a Lisboa que o recebe num ambiente solene de maravilha.

1915 marca uma etapa decisiva na vida telefónica da cidade. Retardada um pouco pelas incertezas da guerra europeia, inaugura-se finalmente a Estação Norte. É um edifício esplêndido da Rua Andrade Corvo, construído especialmente para esse fim e com capacidade logo de início para 10.000 assinantes. Como trinta e três anos antes a inauguração da nova Estação vai ter solenidade e brilho. Comparece o governo de que era presidente o falecido político Afonso Costa, o Embaixador de Inglaterra, associações económicas, etc.

Companhia dos Telefones (APT): Estação Norte de Lisboa |1922|
Rua Andrade Corvo
Em 1887, a Anglo-Portuguese Telephone, empresa constituída por capitais britânicos, adquiriu à Edison Gower Bell os direitos de exploração das telecomunicações por 50.000 libras. No dia 14 de Setembro daquele ano, foi celebrado um contrato entre a APT e o Estado português.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O edifício novo fez sucesso. As suas linhas sóbrias e amplas são am grito audaz de modernismo no mau gosto característico da época. Ocupa uma área de 440 m² e ali estão ainda instalados Oficinas e Montadores, Fiscalização, Transportes, Consultório, Depósito de Linhas, Cabos e Ferramenta, além das grandes salas de experiências e de comutações, estas últimas ocupadas hoje [1937], em plena época do automático, pelos selectores e outros aparelhos adequados.

Os anos passam...
Finda a guerra, e o período anormal que ela motivou, a Companhia de novo retoma o seu desenvolvimento constante. As cabines públicas que em 1910 eram em Lisboa-54 — sobem em alguns anos para 120. O telefone é cada vez mais necessário.

Companhia dos Telefones (APT): Estação Norte de Lisboa |1922|
A sala de comunicações da Estação Telefónica do Norte na 
Rua Andrade Corvo.
 Em 13 de Janeiro de 1882, or concurso, a Edison Gower Bell Telephone Company of Europe, Ltd recebeu a concessão para explorar as redes de Lisboa e Porto.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

As constantes exigências do público que cada vez mais se familiariza com o telefone, obriga a A. P. T. a lançar as vistas para um edifício novo que sirva agora a área central da cidade. Por isso, em 1920, adquire os edifícios da antigo Salão da Trindade sito na R. Nova da Trindade, 7, sendo a 1.ª pedra para a nova Estação lança-se em 20 de Dezembro de 1923 e inaugurado em 30 de Março de 1925.

Companhia dos Telefones |1961|
Rua Andrade Corvo
Em 1968, após quatro renovações de licença, o Estado português optou por não a prolongar. Foi então fundada a empresa pública Telefones de Lisboa e Porto (TLP), que herdou o património da APT.
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
The Anglo Portuguese Telephone, C.º Ltd.. Lisboa 1937

domingo, 5 de julho de 2026

Palácio Figueira (ou de Santo André)

O Palácio Figueira, a Santo André, de sólidos cunhais nas prumadas extremas das suas faces, mas que não atingem toda a altura do edifício, assinala-se pela sua primitiva fachada principal orientada a Sul, e pelo robusto portal que a domina, caracterizadamente seiscentista, constituindo no exterior um curioso monumento de fisionomia lisboeta.

O Palácio Figueira, a Santo André, situado entre o alto da calçada desta denominação e o começo da Calçada da Graça, é uma construção pesada, acentuadamente seiscentista (c. 1563), na qual avulta o portal nobre da fachada principal.

Palácio dos Condes da Figueira, portal nobre seiscentista |193-|
Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André e, ao fundo, o trecho final da Costa do Castelo. Neste local existiu, até 1913, o Arco de Santo André. 
Portal nobre da época da fundação, em cantaria e tipologia semelhantes às das fortalezas seiscentistas. Pedra de armas da família Mendoça, que parece não ser a primitiva, franchada, com legenda, dividida por dois ângulos do brasão, AVE MARIA. (Araújo: 1949)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O seu núcleo fundamental remonta aos fins do século xv, e foi erigido por um fidalgo, João de Memdoça, cognominado «Cação», a quem D. João II, cerca de 1490, deu licença para que construísse casa junto à muralha da cerca e postigo de Santo André. A casa solarenga fora já reedificada, quasi desde os fundamentos, no meado do s4culo XVII, apenas com um andar, e em 1676, quando do casamento da senhora Mendoça com o 2.ª Montebelo, o palácio foi acrescido de um andar nobre, recebendo ainda ampliações e beneficias. É este o actual Palácio de Santo André, que pouco dano sofreu pelo Terramoto [...]
Em 1822, D. Maria Amália Machado de Mondoça casa-se com o 1º Conde da Figueira, D. José de Castelo Branco Correia e Cunha de Vasconcelos e Sousa. Assim, o Palácio dos Mendoças entra na Casa Figueira.

Palácio dos Condes da Figueira |194-|
Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André com a Calçada da Graça
A Fachada Poente, no começo da Calçada da Graça, com dois corpos distintos, sendo, o de baixo, com quatro janelas de sacada, correspondente ao edifício primitivo, e o que lhe fica contíguo, mais alto e avançado, e de uma feição diferente do palácio seiscentista, enobrecido por portal nobre, da fundação do edifício e actual acesso ao palácio) de tipo setecentista.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Em 1913 foi demolido o pitoresco Arco de Santo André, da Cerca de D. Fernando, contiguo ao palácio, e que, superiormente, punha este em ligação com as casas da entrada da Costa do Castelo.==

Nota(s): O desaparecido Elevador da Graça, semelhante ao da Estrela-Camões, percorria o trajecto Largo da Graça, Largo e Calçada de Santo André (contornando o Palácio Figueira), Calçada dos Cavaleiros, Rua da Mouraria, Carreirinha do Socorro e Rua Nova da Palma, surgindo a maior dificuldade na transposição do velho Arco de Santo André.

Calçada da Graça |c. 191-|
Palácio Figueira, portal setecentista.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

A Calçada da Graça — onde se encontra a Fachada Poente com seu portal setecentista — deve o nome do antigo Convento de N. S. da Graça, começado a construir em 1271 no local conhecido por Almofala, que era um pequeno arrabalde mourisco extramuros quando as tropas de D. Afonso Henriques aí acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no bairro da Graça lisboeta repetida na Rua, Largo e demais topónimos que invocam aquele convento.
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 12-14, 1938.
idem, Inventario de Lisboa, Fasc. VI, 1949.

domingo, 31 de maio de 2026

Beco dos Fróis (ou do Froes)

Froes (beco do) fica à esquerda da egreja do Menino de Deus e finda no largo de Santo André, freguezia de Santo André 2 a 10 e 1 a 27. [Velloso: 1869]

Este beco, ao Menino de Deus, parece ter ficado gravado na memória de Lisboa desde tempos antigos, sobretudo porque ainda abriga casas quinhentistas. O topónimo já constava na freguesia de Santo André nas descrições paroquiais anteriores ao Terramoto, e a explicação mais provável para a sua origem é que venha de uma família Fróis que tenha vivido por ali. [Machado: 1998]

Beco dos Fróis |1968-10|
Vista tomada do Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André.
João Goulart, in Lisboa de Antigamente

[...] o Beco do Froes, em cotovelo, recanto humilde, do tipo pitoresco inocente, que guarda flores a espreitar das gelosias. [Araújo:1943]

 

Beco dos Fróis (ou do Froes), dístico toponímico |1968-10|
João Goulart, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem de baixa qualidade com os cumprimentos do abandalhado amL - pago
com o dinheiro dos contribuintes. A imagem pode ser observada aqui em todo o seu
incompetente e ignominioso esplendor (agora acrescida do ilegal borrão camarário).

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Vendedeira ambulante de bolos

Chegada com seu burrico às ruas da Baixa Pombalina, a vendedora de bolos começa a preparar o equipamento necessário para montar o estaminé para a venda.

A Baixa de Lisboa, também chamada Baixa Pombalina ou Lisboa Pombalina por ter sido edificada por ordem do Marquês de Pombal, na sequência do terramoto de 1755, cobrindo uma área de cerca de 255 ha. Situa-se entre o Terreiro do Paço, junto ao rio Tejo, Rossio e a Praça da Figueira, e longitudinalmente entre o Cais do Sodré, o Chiado e o Carmo, de um lado, e a Sé e a colina do Castelo de São Jorge, do outro.

Vendedeira ambulante de bolos |1922-02-22|
Rua Augusta esquina com a Rua de Sao Nicolau. As portadas em ferro que se vêem ao fundo pertenciam ao antigo edifício do Banco Português do Atlântico, entretanto demolido.
Nota(s): local da foto não está identificado no arquivo.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 8 de março de 2026

Chafariz de Dentro que foi Fonte dos Cavalos

O Chafariz de Dentro ou Fonte dos Cavalos — assim cognominado por causa dos cavalos de bronze, que os Castelhanos levaram quando cercaram Lisboa deixando lá dois buracos no lugar das equestres bicas de onde a água jorrava — é uma nascente mui antiga, e a data mais remota a que lhe encontramos referência é do ano 1285. Também o denominavam Fonte ou Chafariz de Alfama (1384 e 1650). [Silva: 1998]

Parece, porém — conta Camilo no seu romance satírico A Queda de um Anjo — , que ele [Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda] andava aporfiado em afogar o seu recto juízo nas águas de Lisboa. Lera o deputado que também o chafariz dos cavalos da rua Nova tinha prodigiosas virtudes em cura de moléstias de olhos. Procurou a rua Nova [d'El-Rei], que o terramoto de 1755 soterrara; procurou o chafariz, que, segundo ele, devia estar na rua dos Capelistas ou Algibebes sucessoras daquela rua.

 

Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |1929|
Largo do Chafariz de Dentro; Igreja de Santo Estêvão.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 

Ninguém lhe dava conta do chafariz dos cavalos; e alguns lojistas interrogados supuseram que o provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquela aplicação.
O erudito respondia aos chacoteadores:
—  Pois saibam que se perdeu um mirífico chafariz! Rezam os meus livros que as salubérrimas águas desta fonte perdida tinham a propriedade oculta de engordar as carruagens que bebiam dela; e acrescenta Marinho de Azevedo, textualíssimas palavras: e quando ela faz tão conhecidos efeitos nos animais, os fizera nos corpos humanos, se a beberam na sua fonte.

Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |1931|
Largo do Chafariz de Dentro

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Um bacharel, que ouvira as lástimas de Calisto, disse a um vizinho a meia-voz:
— Este homem parece que tem uma carruagem magra no corpo!
Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados. Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio até ele achar o chafariz dos cavalos.==
(CASTELO BRANCO, Camila A Queda de um Anjo, 1866)


Chafariz de Dentro ou dos Cavalos |c. 1930|
Largo do Chafariz de Dentro
Horácio Novais., in Lisboa de Antigamente

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Avenida 24 de Julho: o «Aterro»

O Aterro da Boa Vista iniciou-se em 1855 e foi uma das maiores obras públicas portuguesas desse século. Consistiu na ligação do Cais do Sodré a Alcântara através da Av. 24 de Julho, conquistando, para isso, terrenos ao rio. A zona era uma enseada de atracação de embarcações delimitada por um caminho à beira-rio, onde é actualmente a Rua da Boavista.

Avenida 24 de Julho |c. 1900|
Carro de bois na zona do Aterro da Boa Vista — na zona da Ribeira Nova — carregando carvão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Situava-se o Aterro, que corresponde à actual Avenida 24 de Julho, perto do Ramalhete dos Maias de Eça de Queiros, Aterro porque era a parte aterrada do rio Tejo por volta de 1858. Foi aqui que Carlos da Maia salvou de um garrotilho a ilha de um brasileiro, ganhando «a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um homem da sua família».

Avenida 24 de Julho |c. 192-|
Greve dos carroceiro junto a Santos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Calçada da Bica Grande

Olha-me esse gracioso nicho, com forma de baldaquino vazio, em lavra Manuelina, no cunhal do prédio da esquina Oriental da Calçada (escadinhas) da Bica Grande. (Araújo: XIII, 1939)


Atestando as fartas quantidades de água existentes no sítio, foram surgindo na encosta do Bairro da Bica desde o final do século XVI diversos chafarizes públicos na confluência das ruas.
Poder-se-ia assim pensar que a razão do topónimo Calçada da Bica Grande para esta calçada de escadinhas do Bairro que sobe da Rua de São Paulo à Travessa do Cabral, derivasse da proximidade a uma fonte, sendo que tal sucede com um grande tanque setecentista que se encontra na Vila Pinheiro, local mais conhecido como Pátio do Broas.

Calçada da Bica Grande |entre 1908 e 1914|
Note-se, à dir .do prédio que vira para a da R. de S. Paulo, à altura das
bacias das sacadas do 1.º andar, um nicho com baldaquino , de delicada escultura do séc. XVI.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Todavia, sobre esta artéria central do bairro da Bica, o olisipógrafo Norberto Araújo argumenta que “Bica Grande” e “Bica Pequena” podem ter sido apenas denominações dadas com o sentido de “Calçada Grande” e “Calçada Pequena”, o que até se ajusta à largura e extensão das serventias.

Calçada da Bica Grande |191-|
Roque Gameiro (1864-1935)

domingo, 25 de janeiro de 2026

Cais da Ribeira: cena de rua

Nos primeiros anos do séc. XX diversas empresas asseguravam o tráfego fluvial de Lisboa com a “Outra Banda”. A Parceria dos Vapores Lisbonenses, sedeada no “chalet” do Cais do Sodré, tinha duas carreiras diárias para Aldeia Galega (Montijo), onde se pagava 160 réis à ré e 120 réis à proa. Na “linha” de Cacilhas, durante a semana, os preços variavam de 60 réis à ré a 40 réis à proa, saindo os barcos com um intervalo de 40 minutos.
(in Guia do Viajante, Lisboa 1907)

Cais da Ribeira: recolher das redes de pesca |1912|
Em segundo plano destacam-se os famosos "Hotel Central" e "Hotel Bragança (ou Braganza)" mais atrás, ambos referidos por Eça de Queiroz nos seus romances e já aqui mencionados.
Joshua Benoliel
, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): As ovarinas (o 'o' etimológico perdeu-se na pronúncia) (peixeiras) formam com seus pais, maridos e irmãos a mais curiosa população desta cidade; população inteiramente à parte e com carácter e feição própria.

Cais da Ribeira: cena de rua |c. 1900|
A freguesia aguarda enquanto as varinas preparam o peixe para a venda. Antiga Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890; Cais do Sodré.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 16 de novembro de 2025

Profissões de antanho: o cauteleiro

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

É profissão que jamais acabará. É vê-los por aí, sobretudo pela Baixa, oferecendo a fortuna a toda a gente. No nosso tempo, a cautela, cremos que a vigésima parte do bilhete inteiro, vendia-se por três vinténs!
E não havia barbeiro que, pelo Natal ou Páscoa, não tivesse colado no espelho, em frente do freguês, o bilhete da sorte, para que bem o observasse e comprasse enquanto lhe escanhoava os queixos.
O grande actor Estêvão Amarante, criador admirável de tantos tipos populares de Lisboa, também fez o cauteleiro num quadro de revista, cantando um fado que ficou, como todas as suas criações, na alma do povo, imitando um cauteleiro que era muito conhecido pelo pregão harmonioso e nostálgico com que oferecia a Sorte Grande!

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |entre 1908 e 1914|
Largo de Dom João da Câmara, antigo «de Camões».
Ao fundo observa o afamado Café Suisso.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Nesse tempo, e hoje também, os cauteleiros apregoam por Lisboa e por todo o País, mas sem a cantoria de então.
A dada altura apareceu pelas ruas da Baixa, sem apregoar, um cauteleiro fardado, que oferecia o jogo quase sempre pelos estabelecimentos. Exibia boné agaloado a ouro, sobrecasaca preta com botões amarelos, galões dourados na gola e pasta debaixo do braço, cautelosamente segura por corrente. Era um indivíduo gordo, à volta dos quarenta anos e que, no seu jeito amável, aconselhava, como quem conversa, a jogar na lotaria. Hoje os cauteleiros usam boné de pala e a profissão, aparentemente, deve ser rendosa. Haja em vista o desafogo de certas casas de lotaria! 

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |1922-3-8|
Calçada do Duque com a Rua da Condessa.
Legenda no arquivo: «O coxo das cautelas na Escadinhas do Duque»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? Questiona-se o Desassossegado Bernardo Soares. O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros, [e das Escadinhas do Duque, porque não?]. Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu — a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim — sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.
(Fernando Pessoa / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 1931)

Profissões de antanho: o cauteleiro |início séc. XX|
Aguadeiro e cauteleiro junto ao fontanário do Largo Trindade Coelho, antigo de S. Roque. 
Ao centro vê-se a Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 
Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
(DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 276, 1986).

domingo, 5 de outubro de 2025

Alfândega de Lisboa, fachada sul

Este edifício, pouco atraente na sua simplicidade, merece, contudo, a nossa atenção e um ou dois reparos de ordem histórica. Por um lado, trata-se do antigo celeiro onde se armazenava o trigo (e por isso veio a dar o nome à rua que o ladeia); por outro lado, um olhar cuidadoso à fachada sul faz-nos reparar em elementos relacionados com o facto de se encontrar mesmo à beira do rio, com cais próprio e acesso directo. Como outros edifícios de Lisboa, contava com um espaço aberto no interior o que lhe dá uma estrutura arquitectónica sui generis.
(ADRAGÃO, José Victor & PINTO, Natália & RASQUILHO, Rui, Lisboa, 1985)

Alfândega de Lisboa, fachada sul |195-|
Av. Infante D. Henrique, 36
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Fachada Sul do antigo e imponente edifício público pombalino da Alfândega de Lisboa. Situado na margem do Tejo foi construído entre 1765-68 para Celeiro Público. Possuía à época um cais privado, já desaparecido.

Vista aérea de Alfama |1953-02|
Em baixo observa-se o edifício da Alfândega de Lisboa na Av. Infante D. Henrique.
Manoel P. Carneiro, in Lisboa de Antigamente

domingo, 21 de setembro de 2025

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos

Não tem o bairro da Mouraria — de tão ressonante nome — o fundo sólido lisboeta do de Alfama. Não é, porém, menos característico, embora o seu pitoresco se concentre apenas em três ou quatro artérias buliçosas. Começou a povoar-se logo depois da tomada de Lisboa em 1147, quando D. Afonso Henriques para aqui atirou os mouros «forros», que ocuparam as encostas das Olarias e dos Lagares, as abas do Castelo, pelo lado N., descendo até ao vale, que é a Praça do Martim Moniz de hoje.
 
Ora, aproximando-nos do cabo da jornada, entremos no Largo Silva e Albuquerque [hoje Praça do Martim Moniz] Ponde avulta a face poente do casarão Alegrete — condenado à demolição, e muito bem. Ali, na parte que abre para a Rua da Palma — recorda o ilustre Norberto de Araújo — existiu até há dois anos [c. 1936] uma estreita serventia rasgada pela demolição já iniciada neste sítio, em obediência ao plano urbanista municipal.

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |c. 1900|
Aguadeiro junto ao Palácio do Marquês de Alegrete.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com signıficação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equívoca.
O dístico foi substituído, em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, em memória de José Maria da Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.

 

Largo Silva e Albuquerque que foi Rua dos Canos |1938-10-12|
Palácio do Marquês de Alegrete, portal sul-poente.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O Palácio dos Marqueses de Alegrete foi construído pelos condes de Vilar-Maior, no século XVII, sobre um lanço da muralha (da cerca de D. Fernando) e sobre a porta da Mouraria. Depois, elevado o conde de Vilar-Maior ao título de Marquez de Alegrete, se ficou chamando á porta da Mouraria — Arco do Marquez de Alegrete, nome que ainda conserva, e dando-se também o de «Rua do Arco do Marquez de Alegrete, à que d'esta porta vae ao Largo do Poço do Borratem».
(in Portugal antigo e moderno, 1873)

Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo |1946|
Palácio do Marquês de Alegrete (demolições)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol XV, pp. 221, 1936.
ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Avenida da Liberdade: posto avisador de incêndios

A acção do B.S.B. dependia em grande parte da actuação rápida no inicio dos fogos; para isso mantinha, em 1940, um serviço de comunicações próprio, constituído por 153 avisadores de incêndio na via pública, e 200 telefones em edifícios do Estado e do Município (139), casas de espectáculos (44) armazéns è estabelecimentos (17). [RML: 1940]

Avenida da Liberdade: posto avisador de incêndios |1927-11-13|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 31 de agosto de 2025

Profissões de antanho: o ardina

— Olh'ó Notícias, o Diá... Notícias!
— Olh'ó Século, saiu agora!
A profissão de vendedor de jornais — o ardina — começou a bem dizer, com a publicação do Diário de Notícias, a partir de 1 de Janeiro de 1865, uma vez que, anteriormente, não havia jornais diários à venda pelas ruas de Lisboa, pois apenas era permitida a venda de papéis noticiosos, realizada por cegos, conhecidos pelos «cegos—papelistas» que constituíam uma Irmandade, criada pelo Marquês de Pombal, como protecção aos invisuais, para que não andassem mendigando pelas ruas de Lisboa.
Daí que, ao surgirem os ardinas apregoando o Diário de Notícias, logo se levantasse certa resistência, tanto por parte dos invisuais como duma mendicidade lucrativa que enxameava Lisboa e via sem razão nos rapazes dos jornais certa concorrência.

Profissões de antanho: o ardina |1913|
Praça do Comércio vulgo Terreiro do Paço.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A verdade é que apenas trinta rapazes iniciaram a venda do Diário de Notícias, embora, três meses passados, mais de cem se ocupassem da venda do jornal, donde auferiam diariamente entre 200 a 400 réis! E de tal forma o negócio se foi valorizando que, a dada altura, um deles, que havia adquirido posse de local de venda, o passou temporariamente a outro por cem mil réis, e para o readquirir teve de lhe pagar o dobro!
Em 1887 já os vendedores de jornais tinham associação de classe, para socorro mútuo e instrução, o que lhes deve ter proporcionado boas vantagens, uma vez que se tratava de rapazes tirados à vadiagem das ruas, rapidamente adquirindo personalidade e confiança no trato do negócio, a tal ponto que chegaram a levantar os jornais a crédito, quando em dificuldades. E assim muitos foram vencendo na vida, sendo mais tarde comerciantes e industriais.

Profissões de antanho: o ardina |1926-03-01|
Grupo de vendedores de 'O Século' à porta deste jornal na antiga Rua Formosa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Provindo, quase todos, da classe ovarina, que há muito assentara arraiais nos bairros da Madragoa e da Esperança, o ardina era esperto e trabalhador na profissão que lhe dava liberdade para galgar Lisboa de lés a lés, na ânsia de levar o jornal ao fim da cidade, contanto que chegasse primeiro que todos! Garoto da rua, mal liberto das saias da mãe — a varina — , o ardina, com a venda dos jornais, levaria para casa uma ajuda valiosa aos parcos rendimentos da família. [Dinís: 1986]

Monumento a Eduardo Coelho |post. 1904|
Ao centro destaca-se a imagem de um garoto a apregoar jornais, o popular «ardina». Quiosque do  Jardim Miradouro de São Pedro de Alcântara. 

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 24 de agosto de 2025

Trapeiros: da Avenida 24 de Julho à Alameda D. Afonso Henriques

No geral os trapeiros são indivíduos sem história, marginais à maneira antiga, embora suas vidas pudessem fornecer material para romancear. Vivendo com a indiferença de todos, farrapos humanos nostalgicamente envolvidos em farrapos, acomodam-se em qualquer vão de escada, esquecidos do mundo. 

Trapeiros na Avenida 24 de Julho |1921-1925|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda da foto no arquivo: "Estado em que se encontra Lisboa. Lixo"

Incapazes de reagir contra o destino que lhes fora adverso, o trapeiro é um indivíduo imune contra a doença e o vício da cidade, uma vez que revolvendo-lhe o lixo continua satisfeito por lá encontrar os argumentos do seu próprio destino. Repousa tranquilamente em qualquer banco de jardim, pedindo apenas que o deixem em paz, porque a sua liberdade vale mais do que todas as obrigações da lei.
(DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 270, 1986).

Aldeia dos Trapeiros, nas proximidades da Alameda D. Afonso Henriques |1945-03-29|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Esquina da Praça da Estrela com a Rua da Estrela

A origem do topónimo radica nos frades beneditinos que dedicaram a sua igreja a N ª Srª da Estrela, ou da Estrelinha. Os frades chegaram a Lisboa no séc. XVI e fundaram o seu 1º convento – concluído em 1571 – onde hoje é a praça e o Jardim da Estrela. Quando passaram para o maior, abaixo, de São Bento da Saúde, o da Estrelinha ficou para ensino dos noviços. O terramoto destruiu parte. Em 1818 parte já era secretaria dos Hospitais Militares. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, alargou o exército a ocupação pelo que em 1837 era Hospital Militar.

Esquina da Praça da Estrela com a Rua da Estrela |1960|
Vendedora ambulante de doces
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Esquina da Rua da Estrela com a Praça da Estrela |1960|
Vendedor ambulante de quinquilharia
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 4 de maio de 2025

Largo Rodrigues de Freitas: Vão lá dizer às gentes que isto aqui não é «Santo André»!


Chegara então ao Largo Rodrigues de Freitas, encruzilhada de uma meia dúzia de pequenas ruas, oásis verdejante, com algumas casas bem antigas, mas, infelizmente, bastante degradadas. Estará então a dois passos da igreja do Menino Deus.¹


Foi neste Largo de Rodrigues de Freitas que nos despedimos no cabo da última jornada — recorda o ilustre Norberto de Araújo. Aqui nos voltamos a encontrar — no coração do velho Santo André, santo da toponímia popular, cujo nome encheu o sítio, e por muitos anos perdurará. Vão lá dizer às gentes que isto aqui não é «Santo André»!

Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André |1948-05|
Confluência da Rua de São Tomé, Calçada da Graça e Travessa do Açougue
 Costa do Castelo (esq.) e Calçada de Santo André; à dir., o Palácio dos Condes de Figueira.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A designação deriva da circunstância de neste local de que nos vamos aproximando — a Travessa do Açougue, que conduz em pequena rampa à Calçada da Graça — ter existido a Igreja Paroquial daquela invocação.²

Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André |c. 1960|
Confluência da Travessa do Açougue (esq.) e Ruas do Salvador e de São Tomé.
Mário Pinto,, in Lisboa de Antigamente

No dia 31 de Maio de 1835, acabaram definitivamente as freguesias de Santa Marinha e de Santo André [...] Os letreiros dos carros eléctricos arvoravam durante muito tempo, o chamadouro do lugar que foi de grandeza e decaiu. Ficou, porém, a Calçada de Santo André que vai até ao Terreirinho. O largo é que passou a ser de Rodrigues de Freitas, em 1915, sem que cousa alguma explique a homenagem local ao ilustre professor e notável democrata.
Nem sequer a existência de um centro republicano, com o seu nome, naquele âmbito justifica a distinção do município.³

Largo Rodrigues de Freitas antigo de Santo André |1967|
Jardim e Travessa do Açougue.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ADRAGÃO, José Victor; PINTO (Natália); RASQUILHO, Rui, Lisboa, p. 74, 1985.
² ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 12, 1938.
³ MARTINS, Rocha, Lisboa de ontem e de hoje : as colinas da cidade, p.1045.
Web Analytics