Edificou-se um cinema na Avenida da Torre de Belém, que se inaugurou a 26 de Fevereiro de 1954, com o intuito de substituir o velho Cinema Belém-Jardim, Na altura, a imprensa elogiou a iniciativa, sublinhou a «sobriedade do edifício», o seu «fácil acesso» e o seu perfeito enquadramento no local e chamou a atenção para os seus amplos foyers e para o mural que acompanhava a escada de acesso ao balcão,
Tempos depois, a sala era, porém, identificada por um outro elemento da sua decoração, o enorme e surpreendente «candeeiro de vidrinhos» que, suspenso do tecto, iluminava o recinto reflectindo a luz em variados desenhos e cores, cujos efeitos pareciam entreter os espectadores nos intervalos.
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Avenida da Torre de Belém |1961| Do lado dir. nota-se o Cinema Restelo com a Torre de Belém ao fundo. Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente |
A construção do Cinema do Restelo baseou-se em alguns pressupostos que, ao mesmo tempo, o aproximam e o afastam das salas dos novos bairros. A sua localização na Avenida da Torre de Belém, entre a zona de Pedrouços e o Bairro Residencial da Encosta da Ajuda, exigia que se tomasse como ponto de partida as determinações que o plano de Faria da Costa impunha para o local, e foi isso precisamente que se fez. Carlos Ramos e Carlos Manuel Ramos, os dois arquitectos que assinam o projecto, interpretam de forma dinâmica as intenções nele expostas e avançam com o traçado simples e moderno de um cinema com que o bairro possa contar. O edifício enquadrava-se no plano previsto, respeitava os alinhamentos das artérias e afirmava-se na determinação de dotar a zona com uma sala que se adequasse às suas necessidades. Essa preocupação reflectia-se, aliás, na concepção do recinto, particularmente no traçado da sua vasta plateia, com 844 lugares, que estava dividida em dois sectores através de um ligeiro desnível, e no desenho do pequeno balcão, que deveria acolher 416 espectadores [vd ultima imagem]. Mas esta distribuição do espaço, que se pensou poder traduzir a composição da população do bairro, e a ela se fazer corresponder, não resultou como se imaginara.Podemos dizer que apesar do projecto do cinema ter tido em conta o local e algumas indicações que o plano de Faria da Costa (1938) estabelecia, o seu traçado fizera-se à margem das expectativas da população ou pelo menos não as atendera. Diga-se, em abono da verdade, que tal aspecto raramente era tomado em consideração, uma vez que poucos estudos se faziam com vista à elaboração dos projectos.
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Cinema Restelo |1954| Avenida da Torre de Belém Em cartaz, o filme «O Capote» estreado em Portugal em 1953, no original «Il Cappotto». Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente |
A ideia que se tinha sobre os costumes dos habitantes do bairro, as esperanças que se depositavam na nova realidade que se lhes oferecia e o idealismo que atravessava a própria análise que se produzia eram outros tantos traços que o definiam, A sua base pragmática fez prevalecer a convicção de que o cinema deveria «corresponder a uma necessidade do novo aglomerado urbano», justificando-se que todas as classes sociais que o habitavam ou habitariam estivessem contempladas no seu traçado. Daí que se tivessem concebido três diferentes categorias de lugares na sala, que correspondiam proporcionalmente aos três estratos da população do bairro, e que se tivesse contraposto a pequena dimensão do balcão à amplitude da plateia, que tinha quase o dobro da lotação do balcão e que se distribuía por dois sectores de diferente estatuto. De facto, partiu-se do princípio que o sector maior e mais barato da plateia, isto é, o espaço que correspondia à Geral, deveria acolher o estrato da população mais numeroso da zona e que o seu público seria recrutado na classe operária, marítimos e militares que já habitavam olocal e que eram frequentadores assíduos do Cinema Belém-Jardim;... também se julgou que o outro sector da plateia seria ocupado pela classe média que já existia, e que tudo indicava que se haveria de engrossar com a chegada de uma nova população que, não sendo propriamente abastada, teria poder suficiente para frequentar esses lugares; e, consequentemente, também se pensou que a zona do balcão se destinaria à classe que habitava as luxuosas moradias do bairro. [...]
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Cinema Restelo |1954| Avenida da Torre de Belém A plateia — com quase o dobro da lotação do balcão — dispunham um total de 1260 lugares. Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente |
Na verdade, a composição da população do novo bairro e as suas aspirações não eram de molde a dar razão a essa distribuição da lotação do cinema. Pensou-se, por algum tempo, que fossem quais fossem as classes sociais, o seu nível económico e as suas expectativas de vida, frequentariam com mais ou menos convicção o recinto que se projectara. No caso da classe com menos recursos, o postulado inicial verificou-se e a sua frequência adquiriu realmente expressão. O cinema foi de facto por ela apropriado e em breve entrou nos seus hábitos. Mas com os outros sectores da população não se verificou o que se esperava. Como o próprio arq. Carlos Ramos depois constatou, num requerimento dirigido ao município que tinha em vista a introdução de alterações na sala, «dos três públicos que distintamente existem naquela zona pode dizer-se que, praticamente, só um frequenta o actual cinema: o público que frequenta a geral», E isso era precisamente o reconhecimento de que o pressuposto em que o projecto assentara tinha realmente falhado.==
Nota(s): Fechou portas em 1989, sendo substituído por um edifício comercial modernista.
_________________________________Bibliografia
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2012
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