Friday, 6 December 2019

Lojas de antanho: Jardim de Lisboa

Foi em fins de Dezembro  — noticiava, em 1911, a Ilustração Portuguesa — que o sr. J. Peixinho, bem conhecido e antigo florista da Rua do Carmo, [49], inaugurou o Jardim de Lisboa, na Rua Garrett, [66]-68, um esplendido estabelecimento de completa novidade e mais um atrativo da nossa capital.

Para ser mundano, para ser galante, para ser cavaqueador, para ser político, romântico, ou estróina — o Chiado tem as suas livrarias, as suas casas de novidades, as suas tabacarias,os seus cafés, as lojas de moda, os doceiros e os floristas. [Araújo, 1943]

Jardim de Lisboa de J. Peixinho & Filhos, Floristas [ant. 1911]
Rua do Carmo, 49
Joshua Benoliel, in A.M.L.

Em perfumes, sedas, veludos, rendas e flores, foi sempre o Chiado que deu mostras do melhor gosto e da mais fina escolha. Os produtos fabricados, com requintes de arte, e as substâncias da natureza, tratadas com todo o carinho, pelos mais sabedores, mereciam a primeira fila das tentações da mulher. Os perfumes da Bénard e do Robert (da Rua Nova da Trindade), tinham prestígio e chegavam longe. Distinguindo a floricultura artificial, saída das mãos de artistas, há que exaltar o português Constantino José Marques, que obteve em Paris o título de «Rei dos Floristas». As suas prodigiosas flores, tão finamente imitadas do natural, vinham de longe para decorar as principais montras do Chiado. Tornaram-se moda as «flores constantinas».

Jardim de Lisboa de J. Peixinho & Filhos, Floristas [post. 1911]
Rua Garrett, 66-68; à esq. nota-se a montra da Pastelaria Marques
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 252, 1987.

Wednesday, 4 December 2019

Profissões de antanho: o vendedor d'ostras

O pregão do homem das ostras é curto, sacudido, rijo como a concha do molusco. Vê-se que o vendedor d'ostras não pode perder tempo, por causa do que lhe gasta o abril-as:

 

— Quem quer ostras?

— Ostras, ostras!


Todas as tardes os homens das ostras as vinham vender, apregoando e cirandando por aí, quase sempre indivíduos de meia-idade para quem aquele fraco negócio ia dando para as necessidades da vida, então sem reforma. Normalmente eram homens que tinham sido do mar e junto deste, pela Margem Sul do Tejo, por Aldeia Galega (hoje Montijo) e proximidades, esgravatariam nos bancos de ostras os preciosos moluscos que vinham vender pelas ruas e aos restaurantes onde se cozinhavam bons pitéus.

Vendedores d'ostras [191-?]
Rua da Misericórdia, antiga de S. Roque
Alberto C. Lima, in A.M.L.

No estrangeiro, sobretudo em Inglaterra e França, as nossas ostras foram sempre muito apreciadas, e neste último pais até apresentadas nos restaurantes com o aliciante letreiro: huítres portugaises.
A avolumar a fama das ostras portuguesas dizia-se que um navio que as levava para França naufragara perto da foz do Loire, e os moluscos, libertados dos caixotes, ter-se-iam fixado nos bancos daquele rio, cerca de Nantes, onde agora as exploram em viveiros, mas sempre com o cartaz de huítres portugaises!
É de lamentar que a poluição das águas do Tejo tenha acabado com as nossas ostras, o que não só fez desaparecer os vendedores que, melodiosamente embora em baixo tom, as apregoavam, como acabou um excelente petisco popular.

— Quem quer ostras?

— Ostras, ostras!

 

Marchand d'huitres [c. 1914]
Lisbonne [Baixa/Chiado?]
Charles Chusseau-Flaviens, in G.E.H.

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, p. 290, 1986.

Sunday, 1 December 2019

Algés, praia dos pescadores

Se queres dar, leitor, o mais bello dos passeios permittidos ao habitante de Lisboa — sugere Ramalho Ortigão — , faze o que eu hontem fiz.
Levanta-te ás 5 horas da manhã, n'um domingo, veste-te à luz do candieiro, porque em Setembro ainda não é bem dia a essa hora, pega na tua bengala e no teu binoculo e vae à ponte dos vapores ao Caes do Sodré. Tomamos um bilhete de ida e volta no vapor de Cascaes por dez tostöes. Ainda é cédo, o vapor não parte senão ás 7 horas. 

Algés, praia dos pescadores [entre 1885 e 1893]
De Pedrouços até Cascaes seguem-se quasi ininterrompidamente as differentes estações dos banhos. vem primeiro Algés, com a sua ponte e os Seus dois palacios. [Ortigão, 1876]
Francesco Rocchini, in A.M.L.

Entramos no café Grego e fazemo-nos servir uma chavena de leite ou chá preto.
Os passageiros veem chegando em multidão ao caes. A ponte dos vapores enche-se de alegres e frescas toilettes de manhã. Lisboa madruga para fugir á calma e á semsaboria de um domingo de verão dentro da cidade. Enchem-se os vapores de Cacilhas e de Belem.
Embarcamos, accendemos um charuto, subimos à ponte do vapor. Magnifico espectaculo!
Diante de nés estende-seem toda a sua magestade, como um pequeno Mediterraneo, o bello Tejo, que scintilla Sob a bruma aquatica como um peito de aço coberto por um véu de gaze, batido pelo largo Sol. 
_________________
Bibliografia
Ortigão, Ramalho, As Praias de Portugal - Guia do banhista e do viajante, 1876.

Friday, 29 November 2019

Rua de São Domingos, 60

A Rua de São Domingos que nos dias de hoje é parte das freguesias da Lapa, Prazeres e Santos-O-Velho, foi fixada na memória da Lisboa setecentista já que a encontramos referida nas plantas executadas após a remodelação paroquial de 1770, com parte da artéria pertença da freguesia de Santos e parte da Lapa. [cm-lisboa.pt]

Rua de São Domingo [190-]
Esquina com a Rua das Praças [Centro Social Do Sagrado Coração De Jesus]
O eléctrico exibe a bandeira com destino ao «Largo das Duas Egrejas», denominação do Largo do Chiado até 1925.
Paulo Guedes, in AML

Wednesday, 27 November 2019

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26

Palacete urbano da 2ª metade do séc. XIX, riscado pelo arq.º Victor Vaz, representando uma arquitectura residencial ecléctica, integra-se na tipologia do palacete urbano que se generalizou na Lisboa das Avenidas Novas e dos bairros aristocráticos do final do séc. XIX e 1º quartel do séc. XX. Inicialmente utilizado para habitação, veio à posse do Estado para instalação de serviços no final do séc. XX. Apresenta planta composta em L, volumetricamente traduzida por dois paralelepípedos. O alçado principal surge delimitado por cunhais de cantaria e estruturado em dois níveis.O piso térreo é rasgado pelo portal e seis janelas de peito rectangulares,enquanto que o piso superior surge rasgado por seis óculos com emolduramento calcário, destacando-se, no corpo central, uma janela de sacada com balaustrada de cantaria. 

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26 [1957]
Judah Benoliel, in A.M.L.

O edifício é rematado por platibanda interrompida a eixo por frontão neo-barroco, ornamentado com volutas e enrolamentos. Uma escadaria de dois lanços rectos convergentes em patamar, com guardas de ferro fundido ritmadas por plintos de cantaria encimados por figuras, evidencia-se no alçado posterior do corpo principal. No interior destaca-se o tratamento decorativo em estuque nos tectos e sobreportas dos salões, assim como as pinturas. [cm-lisboa.pt]

Palacete da Rua de São Domingos à Lapa, 26 [post. 1933]
Alçado posterior e jardim.
Estúdio Mário Novais in F.C.G.

Sunday, 24 November 2019

Madragoa, o velho Mocambo do século XVIII

De que deriva o nome de Madragoa? — questiona Norberto de Araújo.

Tem sido isto um inocente problema e talvez continue a sê-lo, assediado por explicações mais ou menos fantasistas. O verosímil — e fiquemo-nos, Dilecto, nesta verdade — é que «Madragoa» é vocábulo de corruptela.


Havia aqui perto o Convento das freiras bernardas — já to disse atrás — que, primeiro, justificou o nome à actual Rua das Madres. Mas, paralela, pelo norte, corria a Rua das Madres, de Goa, pois assim se chamava no século XVI a artéria que corre superior, em 1802 oficialmente Rua da Madragoa, e em 1859, como hoje, Rua Vicente Borga. No extremo desta Rua, à esquina das Trinas, existia um hospício de senhoras da Índia, as tais «madres de Goa», e por corruptela fonética — Madragoa. E aí tens uma explicação.

Rua das Madres [1940]
Ao fundo corre a Travessa do Pasteleiro
Eduardo Portugal, in AML

Madragoa!
Nome ressonante e plebeu: pescadores, ovarinas, homens da estiva; mulheres de Estarreja e subúrbios, donas de trabalho na prancha do carvão e nas areias da lota, de peitos altos, saias de cinta dobrada nos corpos durazios a contrastar nas cinturinhas ágeis das raparigas da Murtosa; cordões de ouro, bailaricos de S. João, mareantes de olhar nostálgico, traficantes do peixe de olhar vivaço; tavernas onde se fala do mar e das fainas ribeirinhas.
Ao cabo, uma colónia aveirense trespassada à capital — e que se arreigou, no único bairro de Lisboa que não tem Lisboa por fundo dinástico.

❞Ó velha Madragoa,
Não tens um só painel
Um arco ou um brazão
Só tens ó Madragoa
Nos lábios doce mel
No peito um coração.

Rua Vicente Borga [1945]
Dístico de 1859 originado por corruptela de Vicente Borchers — filho de um negociante
alemão, um tal Conrado Bicker, natural de Hamburgo —, que morou na antiga Rua 

da Madragoa após ter casado com Maria Clara Sousa Peres, no séc. XVIII, e acabou 
por substituir o antigo topónimo.
Eduardo Portugal, in AML

Em todo êste pitoresco, desligado da história — um pouco de miséria, ao lado da mediania suficiente, que com pouco se contenta para ser rica,
A Madragoa normal é buliçosa, rumorejante, mas incaracterística ao primeiro contacto: há que adivinhá-la; há que surpreendê-la aos domingos à noite ou nas quadras populares festivas.
A sua «côr local» existe, mas oculta-se sob um esfuminho de trivialidade.
Rigorosamente a Madragoa é um reduzido xadrez irregular — recorda-nos Norberto de Araújo — que se condensa numa área que corresponde à décima parte do Bairro Alto e da Alfama, às dimensões da Mouraria popular.

Travessa do Pasteleiro à Esperança [1950]
Desconhece-se a origem do topónimo, mas sabe-se que é muito antiga, pois, vem já 

citado no Livro IV de Óbitos da Freguesia de Santos-o-Velho. Presume-se que derive 
do facto de ali ter vivido um conhecido pasteleiro.
Eduardo Portugal, in AML

No sentido oriente-poente é cortada pela Ruas do Machadinho, de Vicente Borga, das Madres, limitadas estas pela Esperança, avenida bairrista e independente da característica castiça, e de norte a sul pelas Travessas do Pasteleiro, das Inglesinhas (que morre na Rua das Madres), das Izabéis, (um trôço apenas)  e pela Calçada do Castelo Picão, a artéria empinada e representativa.

❞ Uma saudade do mar, tem
Seu monumento em Lisboa
Velho bairro popular
Sombrio e vulgar
Que é a Madragoa.
E reza a história que foi, lá
Numa noite de natal
Que veio a luz o primeiro
Herói marinheiro
Que honrou Portugal.

Rua da Esperança [c. 1900]
O nº 46 corresponderá à loja de alfaite que ali se vê à esquerda. Segue-se a Tv. do Pasteleiro e, ao fundo, a Avenida Dom Carlos I. Boa parte destes prédios ainda lá estão.
Fotógrafo não identificado, in AML

Como vais vendo, Dilecto, a Madragoa, o velho Mocambo do século XVIII, teve o seu ambiente religioso, como tôda a Lisboa afinal, mas sem grandeza, sem beleza, e de tal modo modesto — à parte o casarão das Bernardas- — que de todo se perdeu.
O que por aqui impressiona é o rapazio à sôlta, a multiplicidade de tavernas, a vida feita quási à soleira das portas.
Esta gente, êste sítio, devem ter e têm, a sua alegria, mas não transparece, não sorri. É um formigueiro de vidas, em cujo quadro falta o fundo ancestral, robusto, «água-forte» da Alfama.
____________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 22, 1938.

Friday, 22 November 2019

Rua dos Fanqueiros, 226-232

Em 5 de Novembro de 1760, foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste diploma D. José estabelece a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio. Esta rua denominava-se Rua Nova da Princesa e nela ficaram arruados os «Mercadores de Lançaria ou Fancaria, destinando-se os sobejos della se os houver, às lojas de quinquilharia».

 
 
 
 
Rua dos Fanqueiros, 226-232 [1932]
«Armazéns Azevedo», perspectiva tirada da Rua da Assunção
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
(clicar para ampliar)





Wednesday, 20 November 2019

Mosteiro de S. Bento (da Saúde ou dos Negros)

Da actual Estrêla  — recorda Norberto de Araújo — até ao fundo do que é S. Bento havia, em encosta, no século de quinhentos duas herdades ou grandes quintas contíguas: a de cima, propriedade de Luiz Henriques; a de baixo, de Antão Martines. 


Os frades benedictinos de Tibães já se tinham instalado em 1573 na quinta do Henriques, onde construíram um pequeno Convento, chamado mais tarde de Nossa Senhora da Estrêla ou da Estrelinha.
Como êste fôsse pequeno, os monges deitaram os olhos para as terras que desfrutavam só com os olhos, e suas não eram, as do Martines, e compraram-nas, por tal sinal por macuta e meia (1596). A essa quinta chamava o povo a Quinta (ou Casa) da Saúde, porque em 1569 e 1570, por ocasião de uma peste, aqui se instalara uma espécie de hospital de pestilentos.
É esta a razão por que ao grande Convento novo se chamou de S. Bento da Saúde¹

O antigo Mosteiro de S. Bento (da Saude ou dos Negros) já depois de convertido em Palácio das Cortes nos meados do século XIX [c. 1854]
Nota-se a Calçada das francesinhas (principio da actual Calçada da Estrela) entre as hortas dos frades (de S. Bento) e a das freiras (da Esperança), esta a sul. vê-se também o Mosteiro das Francesinhas à esquina do Caminho Novo ((hoje Rua de João das Regras).
Aguarela de Jan Lewicki,
in FBAUP

A origem do Palácio de S. Bento remonta a 1598, ano em que se iniciou a construção do convento beneditino na Quinta da Saúde. O arquitecto régio Baltasar Álvares foi o autor do projecto, continuado depois da sua morte por Frei Pedro Quaresma e por Frei João Turriano, e nunca concluído na totalidade dada a magnificência a que aspirava. Até 1833 o edifício pertenceu aos Frades Negros de Tibães e era conhecido por Convento de S. Bento da Saúde, sendo sua padroeira Nossa Senhora da Saúde cuja imagem existia no altar-mor da igreja conventual. 
O mosteiro foi submetido ao longo da sua história a constantes alterações arquitectónicas e acrescentos, na sequência de grandes incêndios e do terramoto de 1755, época em que ainda não tinham terminado as respectivas obras de acordo com o projecto inicial e nem estava concluída a capela–mor. Outras modificações resultaram de adaptações a novos gostos e novos estilos arquitectónicos e decorativos. 
O edifício do mosteiro, por ser demasiado vasto e em grande parte desocupado, teve a partir de então utilizações diversas tais como Arquivo da Torre do Tombo, a Patriarcal, hospedaria de bispos, “prisão”, Academia Militar, armazém dos despojos militares franceses e sepultura de muitos mortos, como o embaixador de Espanha. 

Perspectiva do Mosteiro de São Bento da Saúde (pormenor), cópia anónima do projecto de Baltasar Álvares [c. 1730-1750]
in FBAUP

No edifício restam, para além da matriz arquitectónica edificada no séc. XVII, o Refeitório dos Frades, com o pavimento original de mármore branco e negro e painéis de azulejos de c. 1770 com episódios da Vida de S. Bento, a igreja conventual com pavimento de mármore branco e rosa e actualmente Átrio do Palácio, o claustro ainda que reduzido e alterado na década de [19]30. A inacabada cripta do Marquês de Castel-Rodrigo situada sob a capela-mor da igreja sabe-se que ainda existe, embora permaneça por localizar.

N.B. Com o decreto real de D. Pedro IV, datado de Setembro de 1833, as duas Câmaras – Pares e Deputados – foram instaladas no edifício do Mosteiro de S. Bento que passou a designar-se Palácio das Cortes. O seu recheio foi nessa altura disperso e encontra-se actualmente em outras igrejas de Lisboa e em museus. Depois de um incêndio em 1895 ter destruído por completo o edifício, foi decidido reedificá-lo de raiz, com o objectivo de prosseguir a sua missão legislativa.

Palácio de S. Bento depois de convertido em Palácio das Cortes [1858]
Rua de S. Bento
Era um dos mais imponentes edifícios de Lisboa, apesar de nunca concluído, um mosteiro de grande prestígio a cujas cerimónias acorriam a corte e as grandes famílias da nobreza. A sua decadência tem início a partir do governo de Marquês de Pombal, e acentuada pelas Invasões Francesas e pelas Guerras Liberais culmina em 1834 ao serem extintas as ordens religiosas e as suas propriedades integradas nos bens do Estado.
Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 32-34, 1939.
SANTOS, Maria José Silva, O parlamento de Portugal, p. 75, 2002.
parlamento.pt.
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