Sunday, 19 April 2026

O Sítio de Alcântara

Dizer Alcântara na toponímia lisboeta é, só por si, compor um quadro de movimento e de febril agitação bairrista — recorda Norberto de Araújo, o grande enamorado de Lisboa. Alcântara foi um lugar, um sítio; é um bairro, uma zona com individualidade e consciência. Tudo gira em Alcântara: fábricas, oficinas, linhas, ruas — vidas.
O que em Alfama é estático é, em Alcântara dinâmico. Este bairro tem azougue.
O seu pitoresco é de cosmograma. Não existe neste rincão da Cidade nada de contemplativo. Apenas nas Necessidades, com seu jardim, com seu obelisco, com o seu palácio e na sua tapada — mora o repouso. Persiste ali um pedaço de beleza e gracilidade de miradouro. É a mancha aristocrática e requintada do bairro. 

Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Antigo Largo de Alcântara 
Á dir. destaca-se o prédio setecentista — pombalino e altaneiro — referido mais à frente por Norberto Araújo,   
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Remodelação da Rotunda de Alcântara, devido à construção do acesso à ponte sobre o Rio Tejo; à dir. observa-se o antigo Eden Cinema
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. Do tempo velho ficaram e falam deliciosas legendas: Baluarte, Trabuqueta, o Arco, as Fontainhas, a Triste-Feia; a Horta Navia — saudade de Alcântara quinhentista, o Fiúza — reminiscência de Alcântara palaciana, o Sacramento — evocação de Alcântara conventual.
Foram-se os marinheiros rude golpe no coração do bairro! — ; ficou a Praça da Armada com seu Neptuno de tridente no Chafariz. O risonho vale de Alcântara vai-se sumindo, mas nas lombas do Alvito e da Cruz das Oliveiras demora-se a expressão popular campesina que ficou do rústico antigo.
O prédio setecentista cor-de-rosa da quina poente-sul do Largo — pombalino e altaneiro — é com a sua famosa adega do «Sete-e-Sete» — o padrão bairrista de Alcântara [vd. 1.º imagem à dir.]: cinco gerações o contemplaram — sequiosas.
Pequeno mundo alfacinha, vizinho do Calvário, da Pampulha, da Avenida da India — desentranha-se em vida. É o pregão cantante do trabalho. Contido entre a Serra e Tejo, possui a índole atávica de um poeta, a alma rude, nostálgica de um mareante.==

Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Vista tomada da R. da Quinta do Jacinto — onde brincan os ganapos. Ao fundo nota-se o pináculo da torre sineira do Palácio das Necessidades
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Rua de Alcântara (esq-) e acesso à ponte sobre o Rio Tejo-
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

N.B. A edilidade lisboeta, através  edital de 18/08/1966, presta homenagem ao General Domingos de Oliveira atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]
Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira (1873–1957) foi presidente do Conselho de Ministros em 1920, ministro interino da Justiça, membro vitalício do Conselho de Estado (1949) e oficial-general do Exército. A sua carreira reúne inúmeros louvores e condecorações, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis e a da Ordem Militar da Torre e Espada.

Fotografia aérea da zona industrial de Alcântara |1950-04|
Caminho de ferro; Palácio das Necessidades; Estação de Alcântara-Terra e Mercado de Alcântara; Vale de Alcântara...
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 142-143, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.

Friday, 17 April 2026

Vendedeira ambulante de bolos

Chegada com seu burrico às ruas da Baixa Pombalina, a vendedora de bolos começa a preparar o equipamento necessário para montar o estaminé para a venda.

A Baixa de Lisboa, também chamada Baixa Pombalina ou Lisboa Pombalina por ter sido edificada por ordem do Marquês de Pombal, na sequência do terramoto de 1755, cobrindo uma área de cerca de 255 ha. Situa-se entre o Terreiro do Paço, junto ao rio Tejo, Rossio e a Praça da Figueira, e longitudinalmente entre o Cais do Sodré, o Chiado e o Carmo, de um lado, e a Sé e a colina do Castelo de São Jorge, do outro.

Vendedeira ambulante de bolos 1922-02-22|
Baixa. Pombalina
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 12 April 2026

Divertimentos no Parque Mayer

Parque Mayer foi inaugurado em 15/6/1922, substituindo e incorporando a função lúdica da Feira de Agosto (criada em 1908, na Rotunda), uma das últimas "feiras típicas" da capital, com petiscos, comércio e diversões. Inicialmente, apresentou-se em instalações precárias de madeira (“barracas”), mas situava-se numa zona mais central e frequentada. Com o tempo, transformar-se-ia num moderno e popular recinto de diversões ao ar livre, pretendendo emular o que se fazia em Paris (Luna-Park, Magic-City), Madrid (Retiro), Barcelona (Grande Parque), Sevilha, etc. (...). Mais tarde, esta componente seria ampliada e aperfeiçoada pela Feira Popular de Lisboa (1943).

— Não deixem de ver a célebre Cadeira Eléctrica: Uma grande atracção internacional!..

Divertimentos no Parque Mayer |1943-05-02|
Começou por funcionar com  atracções várias, como a "Cadeira Eléctrica", o circo do El Dorado, e combates de boxe e luta-livre.”,
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Situado junto à Avenida da Liberdade, do lado ocidental — num espaço que pertenceu aos jardins e espaços adjacentes do Palácio Mayer — entre a Rua do Salitre e a Praça da Alegria, este recinto viveu o seu apogeu entre as décadas de 30 e de 70 do séc. XX.
Sobre o novel Avenida Parque, ou feira do Parque Mayer como também era designado, lia-se no Diário de Notícias: “Quando ontem entrámos na feira, lembraram-nos imediatamente alguns detalhes pitorescos das antigas feiras do Campo Grande e das Amoreiras, dos nossos melhores bons tempos. E lembrou-nos isso no meio daquele ruído moderno e caprichoso, num recinto onde as barracas têm todas, pelo menos, limpeza, algumas bom-gosto e muitas, se não a totalidade, um ar de sedução irresistível.” (15/6/1922)
 
Divertimentos no Parque Mayer |1943-05-02|
 Os cavalinhos ou carrossel.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Divertimentos no Parque Mayer |194-|
Tômbola dos cigarros, onde o objectivo era atirar argolas para que caíssem sobre os maços de cigarros expostos. À esq., ao fundo, ficava o chamado Estádio Mayer[Dias; 2007]
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Entre as diversões que passaram no Parque Mayer, destacam-se as "barracas dos tirinhos", os bailes (de fim-de-semana, ou de carnaval), os circos Royal, El Dorado e Luftman, as "barracas” do "Porto de Lisboa" (miniatura animada da Ribeira) ou de "fenómenos” como a "mulher transparente” e a "mulher-sereia" e as pulgas amestradas, o labirinto e a roleta diabólica, a laranjinha, a "Cadeira Eléctrica", as “variedades”, o jogo do quino, o jogo clandestino (para os mais aventureiros), os carrosséis e os fantoches, o Pavilhão Infantil, os "carrinhos de choque", a patinagem, os combates de boxe (Belarmino engraxava sapatos na Rua do Salitre), a luta greco-romana e a luta livre. 
[Expressões Artísticas Urbanas.Ferro,Lígia, ‎Raposo,Otávio, ‎Sá Gonçalves,Renata de, 2017]

Divertimentos no Parque Mayer |1943-05-02|
 Engenho de experimentar forças.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 10 April 2026

Rua de São Lázaro, 100: Maternidade Magalhães Coutinho

Data, pois, de há sete anos — escreve Norberto de Araújo em 1938 e a quem vamos sempre seguindo — a instituição «Maternidade Magalhães Coutinho», a primeira organizada, em linhas científicas, em Portugal.

O Dr. Magalhães Coutinho (1815-1895) foi uma figura notável da medicina portuguesa, professor de obstetrícia, Director da Escola Médica, Director Geral da Instrução Pública, médico da Real Câmara, Biblotecário-mor do reino, amigo intimo do Rei D. Luiz e de Alexandre Herculano, homem de ciência, de espírito e de carácter. Morreu em 1895, com ostenta anos, pobríssimo e esquecido, e repousou no cemitério da Ajuda. As suas cinzas levou-as o vento; a sua memória está aqui: «Maternidade Magalhães Coutinho». [Araújo: 1938]

Maternidade Magalhães Coutinho |1931|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 5 April 2026

Rua (de Nossa Senhora) do Patrocínio, à Boa Morte

Patrocínio de Nossa Senhora do (Rua do) No testamento de Felix Antonio Castrioto feito em 15 de Julho de 1796 diz-se que o desembargador do Juiz dos Órfãos da Repartição do Meio, Domingos Monteiro de Albuquerque e Amaral, morava nesta rua, freguesia de Santa Isabel
No Almanach deste ano vem a simples indicação: Á Boa Morte». 
Já se anunciava assim na Gazeta de Lisboa, de 26 de Setembro de 1806:
 «Quem quizer comprar, ou tomar de venda, huma morada de casas, sitas na rua do Patrocinio, á Boa Morte, nas quaes estivera ha annos o Tribunal da Mesa da Consciencia , e posteriormente o Correio, falle com a dona das mesmas casas, nellas assistente...» 
Patrocinio: he a que passa pelo lado da Porta Travessa da Igreja da Boa Morte, e termina na Rua de S. Miguel, a Santa Isabel, elucida o Itinerário lisbonense, de 1804. [Brito: 1935]

Rua (de Nossa Senhora) do Patrocínio, à Boa Morte |1906-03|
À esq. nota-se a frontaria da Igreja de N. S. das Dores [vd. imagem abaixo] e à dir., tornejando a Rua de Santo António à Estrela, o edifício da Assistência Infantil da Freguesia Santa Isabel e, ao fundo, nota-se parte da Casa de Santa Zita da Estrela que foi da família Perestrelo e fora antes solar dos Aires de Ornelas.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Esta Rua do Patrocínio, à Boa Morte, — recorda o ilustre Norberto de Araújo, a quem vamos sempre seguindo — foi urbanizada na transição do século XVIII para o século XIX, mas data de antes do Terramoto, embora as casas dessa época tenham desaparecido. [...]
Ora, Dilecto, hemos agora de ver uma outra instituição de beneficência instalada na citada casa particular, que fora antes o Hospício da Boa Morte [antigo Convento da Boa Morte]. Intitula-se Associação da Assistência Infantil de Santa Isabel, internato de meninas, e tem entrada pela Rua do Patrocínio, n.º 3 [último prédio à dir. na 1ª imagem]; é dirigido pelas mesmas religiosas franciscanas missionárias de Maria, autorizadas a regressar a esta sua casa em Junho de 1937 [...]

Igreja de Nossa Senhora das Dores (ou Ermida do Patrocínio) |1934 e 1948|
Rua do Patrocínio, 8 (actualmente Igreja Católica de Língua Alemã de Lisboa)
in Lisboa de Antigamente

Já agora te aponto, nesta Rua do Patrocínio outra Igreja, a de Nossa Senhora das Dores, coeva da construção da Basílica da Estrela, fundada — diz-se que com materiais que do monumento de D. Maria I sobejaram — pelo Padre António Luiz de Carvalho, em honra das Sete Dores de Maria Santíssima. [Araújo: 1939]

Rua do Patrocínio, à Boa Morte, 94 |1906-10|
Palacete na esquina com a Travessa do Jardim, à Estrela, 28.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Friday, 3 April 2026

Inauguração do Metropolitano de Lisboa

Inauguração do Metropolitano de Lisboa em 1959, versão a cores, Tobis Portuguesa, com Artur Agostinho, realizador Arthur Duarte (duração aprox.13 min)

O primeiro projecto de um sistema de caminhos-de-ferro subterrâneo para Lisboa data de 1888, é da autoria do engenheiro militar Henrique de Lima e Cunha. Publicado na revista “Obras Públicas e Minas”, previa já um sistema completo de linhas, formando uma rede. Mais tarde, nos anos 20 do século XX, dão entrada na Câmara Municipal de Lisboa dois projectos, respectivamente, de Lanoel d’Aussenac e Abel Coelho (1923) e de José Manteca Roger e Juan Luque Argenti (1924), que não tiveram seguimento.
Somente a partir da 2ª Guerra Mundial com a retoma da economia e no seguimento das políticas de electrificação e aproveitamento dos fundos do Plano Marshall, surge com plena vitalidade a decisão de se construir um metropolitano para Lisboa.

Os trabalhos de construção iniciaram-se em 7 de Agosto de 1955 e, quatro anos depois, em 29 de Dezembro de 1959, o novo sistema de transporte foi inaugurado. A rede aberta ao público consistia numa linha em Y constituída por dois troços distintos, Sete Rios (actualmente, Jardim Zoológico) – Rotunda (actualmente, Marquês de Pombal) e Entre Campos – Rotunda (Marquês de Pombal), confluindo num troço comum, Rotunda (Marquês de Pombal) – Restauradores.

Sunday, 29 March 2026

A Kermesse de Paris no Avenida Palace Hotel

No Largo D. João da Câmara — antigo de Camões — cujo nome se refere, não ao poeta dos Lusíadas, mas ao dr .Caetano José da Silva Souto Maior, o Camões, corregedor do bairro do Rossio no reinado de D. João V (séc.. XVIII), destacam-se a Estação do Rossio (1890) e o o Avenida Palace Hotel (1892), elegante construção em estilo francês, ambas do risco do arquitecto José Luiz Monteiro e com uma «passagem» entre eles.

A Kermesse de Paris, considerada durante muitos anos a melhor e mais cara loja de brinquedos de Lisboa, foi fundada nos finais do século XIX por Thomaz J. Sá Dias. A loja sita na então Rua do Principie — depois 1º de Dezembro (1911) — estabeleceu-se no piso térreo do recém-inaugurado edifício do Hotel Avenida Palace.

Hotel Avenida Palace |c. 194-|
Praça D. João da Câmara, Estação do Rossio e Rua 1.º de Dezembro
Inaugurado em 1892 com o nome de Grande Hotel Internacional, só no ano seguinte se passou a chamar Avenida Palace Hotel.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Algumas lojas imprescindíveis da minha infância, todas de brinquedos, eram a Biaggio Flora, na Rua Áurea, a Panchito na Av. Guerra Junqueiro, o Bazar do Parque, Arcadas do Estoril, o Pinóquio, nos Restauradores, que, no Natal, tinha um Pai Natal à porta com um cavalinho de peluche que se podia montar e tirar fotografias, e a Kermesse de Paris, que ficava na base do edifício do Hotel Avenida Palace, entre os Restauradores e o Teatro Nacional D. Maria II, com uma selecção incrível de marionetas. [Memória de uma Epifania e outras histórias, Maria João Vaz, 2023]

 

Kermesse de Paris |1912|
Praça D. João da Câmara
A loja de brinquedos funcionava nas arcadas do piso térreo do Avenida Palace Hotel.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

N.B. Por Edital municipal de 7 de agosto de 1911 a Rua do Príncipe e Largo da Rua do Príncipe passaram a denominar-se Rua Primeiro Dezembro, a data da Restauração em 1640.
Quanto ao Largo D. João da Câmara, até 1924, era o Largo de Camões, já assim denominado em 1858 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque.

Hotel Avenida Palace |1961|
Grupo de turistas junto à entrada S. do Hotel Avenida Palace e à Kermesse de Paris.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Friday, 27 March 2026

Travessa das Freiras a Arroios

Em 1910, esta Travessa das Freiras a Arroios — era ainda parte da Azinhaga das Freiras — e foi aqui, junto a uma antiga capela, que foi encontrado o corpo do Almirante Cândido dos Reis, recorda o olisipógrafo Norberto de Araújo nas suas Peregrinações.

Travessa das Freiras a Arroios e Largo do Leão |1959|
As freiras que deram origem a este topónimo eram do Convento de Arroios da invocação de Nossa Senhora da Conceição da Luz.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

N.B. Esta Travessa recebeu o seu nome em 1916 devido à proximidade da antiga Azinhaga das Freiras — como refere Mestre Araújo — , que anteriormente se chamava Azinhaga do Leão e cujo espaço corresponde hoje às Ruas Alves Torgo e Quirino da Fonseca (antiga Estr. de Sacavém). Já o Largo do Leão é um topónimo lisboeta de origem desconhecida, sabendo-se apenas que, após o terramoto de 1 de Novembro de 1755, já figurava nas descrições paroquiais da então chamada “freguezia de S. Jorge”[Machado: 1998]

Largo do Leão, 9 |1931-04-21|
O edifício que se observa ao lado dir. na 1ª imagem albergou a antiga Escola Municipal nº 14 e foi a sede da Câmara Municipal do extinto concelho dos Olivais.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

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