Sunday, 20 June 2021

Banco de Lisboa e Açores

O Banco de Lisboa & Açores, que temos à vista, é na sua fachada o mais imponente edifício moderno da Baixa; não é obra trivial — risco de Ventura Terra — , com suas quatro colunas, nas quais, acima de placas de mármore , assentam cabeças de leão; três largas varandas, muito decorativas, sobre pianhas em concha regular, enobrecem a frontaria.

Banco de Lisboa & Açores [12 de Maio de 1911]
Rua Áurea, 82-92
Ornamentações por ocasião do IV Congresso Internacional de Turismo de Lisboa
Joshua Benoliel, in AML

O Banco Lisboa & Açores foi fundado em 1875, e transferiu-se para este local, deixando a sua sede na Rua do Comércio (passada ao Banco de Portugal) em 1907; o edifício novo fora concluído em 1906.

O vastíssimo hall, circular é precedido de um pequeno vestíbulo com pinturas e pormenores de arte; toda a construção, na parte aberta ao público, é nobre de materiais.

Banco de Lisboa e Açores [1928]
Rua Áurea, 82-92 (N→S)
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. No período de 1968-1969, além da sede, em Lisboa, e de filiais no Funchal, Ponta Delgada e no Porto, o banco possuía 14 dependências e 29 agências espalhadas pelo País.
Entretanto, na sequência da tendência crescente de concentração de capitais e de fusão de instituições, constituindo organismos mais sólidos e credíveis, também o Banco Lisboa & Açores negociou a sua integração com o recém-criado Banco Totta-Aliança. A Portaria de 14 de Novembro de 1969 autorizou a fusão dos dois bancos, ficando a nova instituição com a denominação de Banco Totta & Açores, entidade que iniciou funções a 01 de Janeiro de 1970.

Banco de Lisboa e Açores [1928]
Fachada sobre a Rua dos Sapateiros, 21
Fotógrafo não identificado, in AML
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 55, 1939.

Friday, 18 June 2021

Profissões de Antanho: venda ambulante de bolos e pinhões

Nos quatro cantos da praça, as quatro bandas militares emendavam as marchas festivas; os pregões dos tendeiros e dos vendedores ambulantes pareciam animados do mesmo furor de emulação: 
— Piiinhão quente! Está quentinho o pinhão!

Venda ambulante de bolos e pinhões [Início séc. XX]
Cais das Colunas, Praça do Comércio, antigo Terreiro do Paço
Fotógrafo não identificado, in AML
Nota(s): o local da foto não está identificado no arquivo

Sunday, 13 June 2021

Travessa do Oleiro

«Tv. do Oleiro he a segunda á esquerda na Rua do Poço dos Negros, vindo da Esperança, e termina na Rua dos Poyaes de S. Bento.»
(Itinerario lisbonense, 1804)

Segundo o olisipógrafo Matos Sequeira esta artéria «chamou-se primitivamente (segundo quartel do século XVII) Travessa do Benedicto abaixo do Poço Novo, e ainda em 1641 era assim conhecida. Depois passou a denominar-se do Oleiro, depois outra vez do Benedicto (1671), de João Latino (em 1760) e novamente, até hoje, do Oleiro.
O Benedicto que deu o nome a esta serventia, era um João Benedicto, que largos anos ali teve a sua oficina de oleiro. Esquecido o nome, ficou o mister a substituí-lo na designação local. As olarias abundavam nestas paragens, aproveitando naturalmente o barro dos terrenos da calçada do Combro e imediações.

Travessa do Oleiro |1960|
A primeira transversal é a Rua do do Poço dos Negros; ao fundo vislumbra-se o Beco do Carrasco
Arnaldo Madureira, in AML

Nos Elementos para a Historia do Município (tomo IX, pág 238), vejo uma postura da Câmara, do ano de 1610, proibindo aos oleiros a extracção do barro dos terrenos da herdade da Calçada do Congro [hoje "do Combro"], sob pena de prisão e multa, a fim de evitar desmoronamentos naquele local. Nos registos paroquiais e róis de confessados da freguesia de Santa Catarina, que percorri atentamente, encontrei, numerosos oleiros dados como moradores deste ponto, desde os fins do século XVI.»
(MATOS SEQUEIRA, Gustavo de, Depois do terremoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Vol. 2, pp. 47-48, 1916)

Thursday, 10 June 2021

Mosteiro dos Jerónimos: Túmulo de Luiz de Camões

No túmulo de Luiz de Camões, assim está escrito: "Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos poetas de seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu."

 
Em 1880, as ossadas de Vasco da Gama e do poeta Luiz de Camões foram trasladadas para o Mosteiro dos Jerónimos. Os seus túmulos, da autoria do escultor Costa Mota tio, encontram-se no sob-coro da igreja. Vasco da Gama (do lado norte) e Luís de Camões (do lado sul) foram os dois representantes máximos da epopeia lusíada, que mereceram a honra de repousar ao lado de reis. Luiz de Camões, filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá Macedo, nasceu em 1524(?), tendo feito os seus estudos em Coimbra.
 
Túmulo de Luiz de Camões [ant. 1946]
Mosteiro dos Jerónimos
Fotografia anónima

Em Ceuta, onde combateu os Mouros, perde um dos olhos. De regresso a Lisboa, é preso, em 1552, devido a uma rixa com um funcionário da Corte. Em 1553 é perdoado pelo rei e parte para a Índia, onde tomou parte em várias expedições militares. Segundo alguns autores compôs nesta altura o primeiro canto de Os Lusíadas. Em Macau exerceu o cargo de provedor-mor de defuntos e ausentes. Em 1569 regressa a Lisboa, publicando a obra Os Lusíadas três anos mais tarde. Morre em 10 de Junho de 1580, doente e na miséria.

Túmulo de Luiz de Camões [ant. 1946]
Mosteiro dos Jerónimos
Inscrição no túmulo: « PARA SERVIR-VOS, BRAÇO ÀS ARMAS FEITO;
PARA CANTAR-VOS, MENTE ÀS MUSAS DADA.
*LUSÍADAS * CANTO X * ESTANCIA CLV »
Garcia Nunes, in AML

Sunday, 6 June 2021

Rua Tomás da Anunciação, 153

O pintor Tomás da Anunciação, que se destacou sobretudo pela pintura paisagista e de animais, está desde o ano seguinte à sua morte perpetuado numa rua de Campo de Ourique, até aí denominada Rua nº 3 dos terrenos da antiga parada de Campo de Ourique.

Tomás José da Anunciação (1818–1879) nasceu na Ajuda e, iniciou a sua carreira como desenhador de estampas no Museu de História Natural do Palácio da Ajuda para, a partir dos 19 anos, frequentar a Real Academia de Belas-Artes de Lisboa, instalada no Convento de S. Francisco, onde a partir de 1852 se tornou professor da nova cadeira de Pintura de Paisagem, Animais e Produtos Naturais. Em 1857, com o seu quadro Vista de Penha de França, assumiu as funções de professor catedrático e, a partir de 1878, tornou-se Director da Academia. Distinguiu-se como pintor paisagista e animalista, sendo de realçar na sua obra de mais de 500 quadros, alguns títulos como O sendeiro (1856), Vitelo (1873), Perdidos do Rebanho, Ovelhas e Borregos e Rebanho Passando Um Riacho. Refira-se ainda que foram seus alunos José Malhoa e Silva Porto, bem como que deu aulas de pintura à Rainha D. Maria Pia. [cm-lisboa.pt]

Rua Tomás da Anunciação, 153 [191-]
Junto à Rua de Campo de Ourique
Joshua Benoliel, in AML
Nota(s): o local da foto não está identificado no AML

Friday, 4 June 2021

Revista das ambulâncias Praça da Estrela

Estamos já em pleno coração da Estrela — diz Norberto de Araújo.
Eu não te disse, Dilecto, que esta era uma das mais belas Praças de Lisboa? O monumental, o paisagista, o urbano, conjugam-se neste Largo da Estrela (chamado até 1889 do Coração de Jesus), e desta harmonia, que talvez não houvesse sido estudada, resultou um admirável logradouro citadino-alegre, movimentado, limpo, lisboeta puro.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, 1939)

Revista das ambulâncias militares [entre 1897 e 1899]
Praça da Estrela
Francesco Rocchini, in AML

Sunday, 30 May 2021

Palácio dos Guiões

Neste sítio principia a Rua de Filipe Néri, aberta no final de setecentos, na quinta de «D. Elena», e que pertenceu depois (1755) aos oratorianos; o nome deriva, é claro, da existência da Casa religiosa citada. Já agora contempla, na Rua de S. Filipe Néri, descendo, do esquerdo, o famoso Palácio dos Guiões, éste que aí vês com certo ar decorativo solarengo.


O Palácio dos Guiões — sua denominação de sempre — sito na Rua de S. Filipe Néri, é uma edificação do terceiro quartel do século XVIII, erguida em terrenos da quinta de D. Helena (D. Helena Maria de Melo), a qual no ano do Terramoto, mas antes dele, passada à posse dos padres da Congregação do Oratório dos padres de S. Filipe Néri.
Levantou o palácio o desembargador Romão José da Rosa Guião e Abreu, familiar do Santo Oficio, que logo a seguir ao sismo grande aforou, uma boa porção de terreno da citada quinta aos padres da Congregação. O edifício estava de pé em 1767, mas é de crer que o seu fundador já nele residisse antes do palácio acabado. O desembargador morreu, no final do século e o palácio passou a quatro filhos, todos desembargadores, e a uma filha, que ali residiam em 1820. 

Palácio dos Guiões, frontaria armoreada [c. 1950]
Rua de São Filipe Néri, 80
O antigo Palácio dos  Guiões, que  teve certa grandeza, divide-se por três  andares noutras tantas alas, não  passando, em  rigor, de um grande casarão burguês, com muitas dezenas de  dependências.
Horácio Novais, in IL

A fazenda dos Guiões desmantelou-se, e em 1888 já o palácio, que o desembargador Romão fundara setenta anos antes, ia à praça, com os protestos do seu administrador de então, o primogénito António José, que conseguiu demorar a execução da penhora até 1842. Parece que a propriedade passou mais tarde a um Manuel Lecoingt, que no edifício tinha instalado um «Colégio Luso-Britdnico» desde cerca de 1858; não teve o palácio melhor sorte, pois em 1888 ia novamente à praça por execução contra o dito Lecoingt, arrematando-o o Conde da Praia e Monforte, depois 1.º Marques, proprietário do Palácio Praia, no Largo do Rato, e que na velha casa dos Guiões algum tempo teria residido.
Por morte de D. António Praia, em 1908, o palácio ficou para sua filha, D. Francisca Maria Coutinho Borges de Medeiros da Gamara e Sousa, que veio a ser Condessa de Cuba, por seu casamento com D. Alexandre de Lencastre, e falecida em Janeiro de 1945. O palácio foi então legado à Ordem Terceira de Jesus, à qual hoje pertence.

Palácio dos Guiões, frontaria armoreada [séc. XIX]
Rua de São Filipe Néri, 80
O Muro, de defesa do jardim, na parte inferior da rua.
Horácio Novais, in A.M.L.

O velho Palácio dos Guiões — amplamente restaurado, sem grandeza, em 1910 — foi habitado, além dos seus proprietários, por famílias afins, e depois de 1880 serviu de aquartelamento ao regi­mento de caçadores 6, até nele se instalar o antigo «Colégio Luso-Britânico».
 
Palácio dos Guiões, fachada lateral Sul e trecho dos  jardins [séc. XIX]
Rua de São Filipe Néri, 80
O  terraço, do lado Sul, que abre da Sala de Jantar — mais destacada — no andar nobre, caindo sobre os jardins e guarnecido de muretes.
Fotógrafo não identificado, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1950.

Friday, 28 May 2021

Jardim-Escola João de Deus

Aí tens, Dilecto, defronte do Liceu [Pedro Nunes], e erguidos em terrenos que a este pertenceram até 1912, os dois interessantes edifícios do Jardim-Escola João de Deus e Museu anexo, ambos do risco de Raúl Lino.


Em 1876, João de Deus (1830-96) dera à estampa a sua famosa Cartilha Maternal, onde se introduzia um método de ensinar a ler assaz revolucionário. Reagindo contra a tradição do aprender de cor, João de Deus procurava basear-se antes na decomposição da palavra nos seus elementos componentes. Apesar dos seus muitos inimigos, este novo sistema, analítico e intuitivo, mereceu os aplausos da maioria dos educadores progressistas e tornou-se uma espécie de bandeira para os propagandistas culturais republicanos. O filho de João de Deus, João de Deus Ramos (1878-1953), continuou a luta iniciada por seu pai em prol de uma reforma pedagógica infantil. Foi ele fundador em Portugal das escolas experimentais infantis, os jardins-escolas, onde se aplicavam princípios modernos de pedagogia, assentes no conceito de desenvolvimento integral da criança, no esforço de desenvolver a sua capacidade criativa e a sua maturidade emocional.

Jardim-Escola João de Deus [1916]
Avenida Álvares Cabral
inauguração do Jardim-Escola e Museu João de Deus realizou-se no dia 11 de Abril de 1917.
Joshua Benoliel, in AML

O número de jardins-escolas, porém, nunca se multiplicou, por falta de verbas para os construir. Em regra, os governos republicanos davam o apoio mais entusiástico a iniciativas como esta, mas não davam dinheiro. Nestes termos, bem difícil se tornava o caminho para a frente: o primeiro jardim-escola inaugurou-se em 1911, em Coimbra dirigido por António Joyce, o segundo e o terceiro abriram as suas portas em 1914; mas em 1927, só cinco jardins-escolas existiam ao todo em Portugal. 
A inauguração do Jardim-Escola e Museu João de Deus realizou-se no dia 11 de Abril de 1917.

Jardim-Escola João de Deus [1916]
Avenida Álvares Cabral
inauguração do Jardim-Escola e Museu João de Deus realizou-se no dia 11 de Abril de 1917.
Joshua Benoliel, in AML


Nota(s): A história dos Jardins-Escola João de Deus tem origem na constituição da Associação de Escola Móveis pelo Método de João de Deus, fundada a 18 de Maio de 1882, por iniciativa de Casimiro Freire, secundado por algumas personalidades destacadas do seu tempo como Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros.

Jardim-Escola João de Deus [1956]
Avenida Álvares Cabral; Monumento a Pedro Álvares Cabral (1467/8-1520), inaugurada em 1941.
António Passaporte, in AML

Bibliografia
Marques, A.H. De Oliveira, História de Portugal, 1982.
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