Thursday, 5 February 2026

Avenida 24 de Julho: o «Aterro»

O Aterro da Boa Vista iniciou-se em 1855 e foi uma das maiores obras públicas portuguesas desse século. Consistiu na ligação do Cais do Sodré a Alcântara através da Av. 24 de Julho, conquistando, para isso, terrenos ao rio. A zona era uma enseada de atracação de embarcações delimitada por um caminho à beira-rio, onde é actualmente a Rua da Boavista.

Avenida 24 de Julho |c. 1900|
Carro de bois na zona do Aterro da Boa Vista — na zona da Ribeira Nova — carregando carvão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Situava-se o Aterro, que corresponde à actual Avenida 24 de Julho, perto do Ramalhete dos Maias de Eça de Queiros, Aterro porque era a parte aterrada do rio Tejo por volta de 1858. Foi aqui que Carlos da Maia salvou de um garrotilho a ilha de um brasileiro, ganhando «a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um homem da sua família».

Avenida 24 de Julho |c. 192-|
Greve dos carroceiro junto a Santos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 1 February 2026

Calçada da Bica Grande

Olha-me esse gracioso nicho, com forma de baldaquino vazio, em lavra Manuelina, no cunhal do prédio da esquina Oriental da Calçada (escadinhas) da Bica Grande. (Araújo: XIII, 1939)


Atestando as fartas quantidades de água existentes no sítio, foram surgindo na encosta do Bairro da Bica desde o final do século XVI diversos chafarizes públicos na confluência das ruas.
Poder-se-ia assim pensar que a razão do topónimo Calçada da Bica Grande para esta calçada de escadinhas do Bairro que sobe da Rua de São Paulo à Travessa do Cabral, derivasse da proximidade a uma fonte, sendo que tal sucede com um grande tanque setecentista que se encontra na Vila Pinheiro, local mais conhecido como Pátio do Broas.

Calçada da Bica Grande |entre 1908 e 1914|
Note-se, à dir .do prédio que vira para a da R. de S. Paulo, à altura das
bacias das sacadas do 1.º andar, um nicho com baldaquino , de delicada escultura do séc. XVI.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Todavia, sobre esta artéria central do bairro da Bica, o olisipógrafo Norberto Araújo argumenta que “Bica Grande” e Bica Pequena podem ter sido apenas denominações dadas com o sentido de “Calçada Grande” e “Calçada Pequena”, o que até se ajusta à largura e extensão das serventias.

Calçada da Bica Grande |191-|
Roque Gameiro (1864-1935)

Friday, 30 January 2026

Rua da Escola Politécnica, 51-55: «Casa das Tesouras»

De acordo com o olisipógrafo Matos Sequeira — reportando-se a uma noticia de um jornal daquela época — terá sido por volta de 1858 que foi construído o edifício dito «das onze portas» (risco do arquitecto Pezerat), dez das quais ficam no lado direito desta rua e uma na Rua do Monte Olivete.
Nele se instalou por volta de 1890, uma famosa alfaiataria de homens, de seu nome «Casa das Tesouras», de José Clemente e que forneceu Lisboa, até aos anos trinta do séc. XX, de capotes, sobretudos,  gabões e fatos de homem. Encerrou em 1935.
(Claus-Günter Frank, Lisboa: À descoberta da metrópole portuguesa, 2019)

Rua da Escola Politécnica, 51-55 |1922-05-03|
«Casa das Tesouras»: Moderníssimo prêt-à-porter do séc. XIX.
Nos baixos deste enorme prédio de dez vãos, fica(va) a Farmácia Albano e a Leitaria Camélia de Ouro. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Esta artéria –  refere Mestre Norberto de Araújo, a quem vamos sempre seguindo –  , rasgada como larga serventia entre as quintas do Noviciado da Companhia de Jesus e a de D. Rodrigo, fazia a ligação do sítio da Cotovia com o de Campolide, que começava — onde veio a ser o Rato. Antes do Terramoto a rua tinha duas designações para cada um dos seus troços: Rua Direita da Fábrica das Sedas até ao Palácio dos Soares (depois Imprensa Nacional), daí para diante até à actual Praça do Rio de Janeiro [desde 1948 corresponde à Praça do Príncipe Real] era Rua do Colégio dos Nobres, designação que sucedeu à de Rua Direita da Cotovia. Em Setembro de 1859 passou toda a artéria a ser Rua da Escola Politécnica. [Araújo: 1939]

A mágica da «Casa das Tesouras», publicidade

Sunday, 25 January 2026

Cais da Ribeira: cena de rua

Nos primeiros anos do séc. XX diversas empresas asseguravam o tráfego fluvial de Lisboa com a “Outra Banda”. A Parceria dos Vapores Lisbonenses, sedeada no “chalet” do Cais do Sodré, tinha duas carreiras diárias para Aldeia Galega (Montijo), onde se pagava 160 réis à ré e 120 réis à proa. Na “linha” de Cacilhas, durante a semana, os preços variavam de 60 réis à ré a 40 réis à proa, saindo os barcos com um intervalo de 40 minutos.
(in Guia do Viajante, Lisboa 1907)

Cais da Ribeira: recolher das redes de pesca |1912|
Em segundo plano destacam-se os famosos "Hotel Central" e "Hotel Bragança (ou Braganza)" mais atrás, ambos referidos por Eça de Queiroz nos seus romances e já aqui mencionados.
Joshua Benoliel
, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): As ovarinas (o 'o' etimológico perdeu-se na pronúncia) (peixeiras) formam com seus pais, maridos e irmãos a mais curiosa população desta cidade; população inteiramente à parte e com carácter e feição própria.

Cais da Ribeira: cena de rua |c. 1900|
A freguesia aguarda enquanto as varinas preparam o peixe para a venda. Antiga Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890; Cais do Sodré.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 23 January 2026

Esquina da Rua Augusta com a Rua da Conceição

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria de 1760 que «Assim se denominará a segunda das referidas seis traveças, e nella se acommodorão os Mercadores de logens de retroz», pelo que não é estranho que o arruamento também tenha sido vulgarmente conhecido como Rua dos Retroseiros ao longo do século XIX.

A 6 de Setembro de 1918, é autorizada a constituição do Banco Industrial Português, como sociedade anónima de responsabilidade limitada. A escritura de constituição de sociedade foi celebrada em 14 de Fevereiro de 1920, com um capital de 5.000 contos, elevado em Março de 1923 para o dobro. Em 5 de Novembro de 1925 abre falência.

Esquina da Rua Augusta com a Rua da Conceição |1930-01-12|
Banco Industrial Português
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto está erradamente identificado no arquivo

Sunday, 18 January 2026

Cena de rua na Praça da Estrela

A Basílica leva duzentos e vinte anos {em 1939]. A Estrela é quinhentista na designação. Pelo sítio amável deste bairro, hoje dilatado e formoso, passam ainda o capuz de um frade e a sombra do jumentinho que levava os cestos de azeitona dos olivais de S. Bento aos lagares da Horta Navia.

Cena de rua na Praça da Estrela |c. 1900|
Enquanto os quatro muares puxam uma carroça de transporte, o burrico vai comendo a aveia do seu embornal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Cena de rua na Praça da Estrela |c. 1900|
No lugar daquele urinol em ferro forjado irá surgir, em 1909, o quiosque do Jornal o Seculo.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A Basílica do Coração de Jesus, obra dos arquitectos da escola de Mafra, foi consagrada em 1789, já no Convento se haviam recolhido as freiras carmelitas de Santo Alberto. O Zimbório é o coroamento audacioso desta mole arquitectónica.
Na sua imponência alcandorada a Basílica é o frontal da mais alacre praça de Lisboa. [Araújo: 1943]

Friday, 16 January 2026

Clube de Futebol Benfica: Estádio Francisco Lázaro

O Clube Futebol Benfica é uma associação desportiva da cidade de Lisboa cuja origem remonta ao ano de 1895, com a designação Grupo Foot-ball Benfica.
A 23 de Março de 1933 — data assinalada como aniversário — dá-se a reorganização do Clube que, por força da Constituição da República Portuguesa então vigente, altera o seu nome para o actual Clube Futebol Benfica, através de um manifesto distribuído à população do Bairro de Benfica.

Clube de Futebol Benfica: Estádio Francisco Lázaro |1960|
Rua Olivério Serpa, 9; Igreja de Benfica (Nª Sª do Amparo)
João Goulart, in Lisboa de Antigamente
Clube de Futebol Benfica: Estádio Francisco Lázaro |1960|
Rua Olivério Serpa, 9
João Goulart, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 11 January 2026

Beco da Corvinha que foi «da Curvinha» e «da Corvina»

Corvinha (Beco da) — Começa, segundo o Roteiro da Cidade de Lisboa, de 1920, na Calçadinha da Figueira e finda no [antigo] Beco do Alegrete [hoje Calçadinha de São Miguel]. No Itinerário lisbonense, de 1804, na parte relativa aos Becos, lê-se: «Curvinha: he o primeiro à esquerda no fim da Calçadinha da Figueira, vindo da Rua de Castello Picão, e termina no Becco do Alegrete».
Vê-se, pois, que houve acerca do letreiro deste Beco inadvertência igual à de que foi objecto o Pátio do Curvo, segundo no artigo que a este diz respeito se explica: troca do "u" pelo "o".
Na 1.ª edição do Roteiro das Ruas de Lisboa, de Queirós Veloso (1864), já os dísticos Curvo e Curvinha aparecem desfigurados.

Beco da Corvinha |s.d. (post. 1933)|
Igreja de S. Miguel
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem sem data; local da foto não está identificado no arquivo.

Curvinha é o diminutivo feminino de Curvo, e este vocábulo foi elemento do apelido de uma familia distinta e numerosa: a dos Curvos Sem-medo ou Semmedo.
No Livro das Plantas encontra-se com a designação Corvina.
O beco surge também como “da Corvina” na Corografia Portuguesa do Padre António Carvalho da Costa. [Brito: 1935]

Beco da Corvinha |c. 1960|
Igreja de S. Miguel
Artur Pastors, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem sem data; local da foto não está identificado no abandalhado amL..

Web Analytics