Sunday, 15 February 2026

A S. Miguel de Alfama

Largo de S. Miguel de Alfama ao centro, recamada de talha de ouro, na sumptuária sacra de seiscentos, esplende a paroquial, templo bairrista cuja primeira fábrica remontava ao século XIII. S. Miguel de Alfama!

Sobem por aí acima até à Adiça e a Santa Helena, em escadarias contorcidas de presépio bíblico, o Beco das Curvinhas (ou da Corvinha), as Calçadas da Figueira e de S. Miguel. Não seria possível a um pintor conceber cousa assim, se ele quisesse criar originalidade de cenário e construir planos de inverosímil lógica urbanística. É arrojo, na Alfama, destacar, dentro do pitoresco, uma gracilidade de outra gracilidade.

Largo e Calçadinha de S. Miguel |c. 1910|
Fachada lateral da Igreja de S. Miguel.
José A .Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Eis um alfobre de fantasias que ficaram dos meandros mouriscos. Mas este sitiozinho modelo do génio truculento do acaso é um padrão.
O Largo esmalta-se de casitas excêntricas, como outras não há, tão de sua índole seiscentista, salientes do fundo da fatalidade dos tempos.

Rua do Castelo Picão (N-S) junto ao Beco do Garcês |c. 1910|
O Castelo Picão é uma artéria, relativamente longa - emula da Regueira — que desenhando uma curva, quási em ângulo recto, nos traz do Salvador a S. Miguel». [Araújo: 1939]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL
Rua do Castelo Picão |1953|
Alfama teve durante os anos de 1950/60, o Concurso de janelas floridas, incluído nas Festas da Cidade.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

De largo ressalto, janelas minúsculas, beirais engrinaldados de ervas, nascidas do sol e da chuva, cor-de-rosa, maneirinhas — as casas de S. Miguel são cousas de copiar, moldar com dedos de ternura, e colocar como espécimes sobre as mesas de artistas inspirados na humildade. Uma delas, a da esquina do Largo sobre sobre a Rua, semelha uma torre, imposta sobre uma base estreita, que mal pode com ela. Em todas mora a alegria, que nem sequer carece do condimento da resignação. A cantar o «passarinho trigueiro» as mulheres de Alfama, maliciosas e inocentes, redimem o bairro da sua melancolia atávica. E são às dezenas, pela redondeza, os exemplares desta construção, imaginada por oleiros de presépio.

Cai a noite em Alfama: Largo e Beco de S. Miguel visto das Escadinhas do mesmo nome |1961|
«Alfama é, com certeza, uma cousa única nas cidades com consciência do que se devem.
A sua beleza é muito subjectiva. Ali não há possibilidade de se fazer um Museu aberto. O
que se lhe exige é limpeza» [Araújo: 1939]
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Muros tisnados sobre os quais caem arbustos. Traseiras, absurdas de branco, que moram no Castelo Picão. Mil janelinhas de roupa estendida, os píncaros da Regueira, o perfil esbelto de uma chaminé, um gato espreguiçado num banho de sol.
Um pregão, uma cantiga vinda de um tugúrio. O voo de uma pomba!
A S. Miguel de Alfama ... 
(ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 60-61, 1943)

Calçadinha de S. Miguel |c. 1940|
R. do Castelo Picão
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Calçadinha de S. Miguel |c. 1913|
(Colecção Afonso Lopes Vieira)
Roque Gameiro (1864-1935)







                                         






Friday, 13 February 2026

Avenida das Forças Armadas, 2 com Campo Grande, 1

Edifício de re rendimento de gosto Arte Nova na na então Avenida dos Estados Unidos da América [hoje Av. Forças Armadas, 2], com o Campo Grande.
Era a antiga Avenida Joaquim Larcher, antes Rua nº 6, antes Av. 28 de Maio, no troço a poente da Praça Mouzinho de Albuquerque, hoje Campo Grande, antes Campo 28 de Maio.

Avenida das Forças Armadas, 2 com Campo Grande, 1 |c. 1930|
Edifício do inciso do séc. XX no gaveto com a Avenida das Forças Armadas (antiga 28 de Maio denominação atribuída por edital de 23/12/1948, antes troço/prolongamento da Avenida dos Estados Unidos da América a poente da Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda de Entrecampos). Demolido.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O 1º Edital de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa após o 25 de Abril, o Edital nº 161/74 de 30 de Dezembro de 1974, instituiu a Avenida das Forças Armadas em homenagem ao Movimento dos Capitães, ao MFA que despoletou o 25 de Abril de 1974.
[1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Campo Grande, 1 com a Av. das Forças Armadas, 2 |196-|
Edifício do inicio do séc. XX (já demolido) no gaveto com a Avenida das Forças Armadas (antiga 28 de Maio)
denominação atribuída por edital de 23/12/1948,
antes troço/prolongamento da Avenida dos Estados
Unidos da América a poente da Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda de Entrecampos).
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 8 February 2026

Rua Augusta com a Rua da Betesga — ou como “meter o Rossio na Betesga”

O prédio que faz gaveto para o velhinho rocio e fica entre as ruas Augusta e da Betesga ocupado pela «Camisaria Confiança», e pelo Hotel Internacional, não pertence ao Rossio, mas sim às ruas Augusta e da Betesga. No antigo edifício havia há cento e cinquenta anos (c. 1880) uma tabacaria que ficou celebre por ser o poiso certo de João de Deus e de alguns dos melhores espíritos d'essa época. [Castilho: 1935]

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |1922-08-20|
Confluência da Praça de D. Pedro IV com as Ruas da Betesga e Augusta).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A «Camisaria Confiança», sucursal da Fábrica Confiança, foi fundada em 1883, com sede na Rua de Santa Catarina, Porto. Actualmente é um hotel de charme, o Internacional Design Hotel, antes «Hotel Internacional» que sucedeu a um antigo «Hotel Camões», do qual aproveitou a belíssima fachada. Este edifício foi projectado pelo arq. J. C. P. Ferreira da Costa em 1909.

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |1932-03-28|
Na confluência da Praça de D. Pedro IV, vulgo Rossio, com as Ruas da Betesga e Augusta (da Figura do Rei), um sinaleiro tenta orientar o trânsito numa manhã de segunda-feira soalheira, alegre, barulhenta e de gente sempre agitada. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto está erradamente identificado no arquivo: «Na rua da Prata, os automóveis voltando para a rua da Conceição»

N.B. No que à «Betesga (rua)» diz respeito», sem se saber ao certo quando este topónimo se fixou na memória de Lisboa, a sua origem está ligada à configuração do arruamento, pois Betesga, palavra de origem obscura, designa uma rua muito estreita, uma ruela ou viela. Por isso surgiu a expressão popular “Meter o Rossio na Rua da Betesga” – aludindo ao contraste entre a amplitude da Praça de D. Padro IV, vulgo do Rossio, e a estreiteza da Rua da Betesga.

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |c. 1951|
 O ângulo E. do Rossio dá passagem para a R. da Betesga, antigamente muito estreita (de onde o prolóquio meter o Rossio na Betesga), mas alargada e regularizada após 1755, e a qual, limitando ao S. a Praça da Figueira, vai ter, pelo lado E., ao Poço de Borratém.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Thursday, 5 February 2026

Avenida 24 de Julho: o «Aterro»

O Aterro da Boa Vista iniciou-se em 1855 e foi uma das maiores obras públicas portuguesas desse século. Consistiu na ligação do Cais do Sodré a Alcântara através da Av. 24 de Julho, conquistando, para isso, terrenos ao rio. A zona era uma enseada de atracação de embarcações delimitada por um caminho à beira-rio, onde é actualmente a Rua da Boavista.

Avenida 24 de Julho |c. 1900|
Carro de bois na zona do Aterro da Boa Vista — na zona da Ribeira Nova — carregando carvão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Situava-se o Aterro, que corresponde à actual Avenida 24 de Julho, perto do Ramalhete dos Maias de Eça de Queiros, Aterro porque era a parte aterrada do rio Tejo por volta de 1858. Foi aqui que Carlos da Maia salvou de um garrotilho a ilha de um brasileiro, ganhando «a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um homem da sua família».

Avenida 24 de Julho |c. 192-|
Greve dos carroceiro junto a Santos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 1 February 2026

Calçada da Bica Grande

Olha-me esse gracioso nicho, com forma de baldaquino vazio, em lavra Manuelina, no cunhal do prédio da esquina Oriental da Calçada (escadinhas) da Bica Grande. (Araújo: XIII, 1939)


Atestando as fartas quantidades de água existentes no sítio, foram surgindo na encosta do Bairro da Bica desde o final do século XVI diversos chafarizes públicos na confluência das ruas.
Poder-se-ia assim pensar que a razão do topónimo Calçada da Bica Grande para esta calçada de escadinhas do Bairro que sobe da Rua de São Paulo à Travessa do Cabral, derivasse da proximidade a uma fonte, sendo que tal sucede com um grande tanque setecentista que se encontra na Vila Pinheiro, local mais conhecido como Pátio do Broas.

Calçada da Bica Grande |entre 1908 e 1914|
Note-se, à dir .do prédio que vira para a da R. de S. Paulo, à altura das
bacias das sacadas do 1.º andar, um nicho com baldaquino , de delicada escultura do séc. XVI.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Todavia, sobre esta artéria central do bairro da Bica, o olisipógrafo Norberto Araújo argumenta que “Bica Grande” e Bica Pequena podem ter sido apenas denominações dadas com o sentido de “Calçada Grande” e “Calçada Pequena”, o que até se ajusta à largura e extensão das serventias.

Calçada da Bica Grande |191-|
Roque Gameiro (1864-1935)

Friday, 30 January 2026

Rua da Escola Politécnica, 51-55: «Casa das Tesouras»

De acordo com o olisipógrafo Matos Sequeira — reportando-se a uma noticia de um jornal daquela época — terá sido por volta de 1858 que foi construído o edifício dito «das onze portas» (risco do arquitecto Pezerat), dez das quais ficam no lado direito desta rua e uma na Rua do Monte Olivete.
Nele se instalou por volta de 1890, uma famosa alfaiataria de homens, de seu nome «Casa das Tesouras», de José Clemente e que forneceu Lisboa, até aos anos trinta do séc. XX, de capotes, sobretudos,  gabões e fatos de homem. Encerrou em 1935.
(Claus-Günter Frank, Lisboa: À descoberta da metrópole portuguesa, 2019)

Rua da Escola Politécnica, 51-55 |1922-05-03|
«Casa das Tesouras»: Moderníssimo prêt-à-porter do séc. XIX.
Nos baixos deste enorme prédio de dez vãos, fica(va) a Farmácia Albano e a Leitaria Camélia de Ouro. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Esta artéria –  refere Mestre Norberto de Araújo, a quem vamos sempre seguindo –  , rasgada como larga serventia entre as quintas do Noviciado da Companhia de Jesus e a de D. Rodrigo, fazia a ligação do sítio da Cotovia com o de Campolide, que começava — onde veio a ser o Rato. Antes do Terramoto a rua tinha duas designações para cada um dos seus troços: Rua Direita da Fábrica das Sedas até ao Palácio dos Soares (depois Imprensa Nacional), daí para diante até à actual Praça do Rio de Janeiro [desde 1948 corresponde à Praça do Príncipe Real] era Rua do Colégio dos Nobres, designação que sucedeu à de Rua Direita da Cotovia. Em Setembro de 1859 passou toda a artéria a ser Rua da Escola Politécnica. [Araújo: 1939]

A mágica da «Casa das Tesouras», publicidade

Sunday, 25 January 2026

Cais da Ribeira: cena de rua

Nos primeiros anos do séc. XX diversas empresas asseguravam o tráfego fluvial de Lisboa com a “Outra Banda”. A Parceria dos Vapores Lisbonenses, sedeada no “chalet” do Cais do Sodré, tinha duas carreiras diárias para Aldeia Galega (Montijo), onde se pagava 160 réis à ré e 120 réis à proa. Na “linha” de Cacilhas, durante a semana, os preços variavam de 60 réis à ré a 40 réis à proa, saindo os barcos com um intervalo de 40 minutos.
(in Guia do Viajante, Lisboa 1907)

Cais da Ribeira: recolher das redes de pesca |1912|
Em segundo plano destacam-se os famosos "Hotel Central" e "Hotel Bragança (ou Braganza)" mais atrás, ambos referidos por Eça de Queiroz nos seus romances e já aqui mencionados.
Joshua Benoliel
, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): As ovarinas (o 'o' etimológico perdeu-se na pronúncia) (peixeiras) formam com seus pais, maridos e irmãos a mais curiosa população desta cidade; população inteiramente à parte e com carácter e feição própria.

Cais da Ribeira: cena de rua |c. 1900|
A freguesia aguarda enquanto as varinas preparam o peixe para a venda. Antiga Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890; Cais do Sodré.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

Friday, 23 January 2026

Esquina da Rua Augusta com a Rua da Conceição

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria de 1760 que «Assim se denominará a segunda das referidas seis traveças, e nella se acommodorão os Mercadores de logens de retroz», pelo que não é estranho que o arruamento também tenha sido vulgarmente conhecido como Rua dos Retroseiros ao longo do século XIX.

A 6 de Setembro de 1918, é autorizada a constituição do Banco Industrial Português, como sociedade anónima de responsabilidade limitada. A escritura de constituição de sociedade foi celebrada em 14 de Fevereiro de 1920, com um capital de 5.000 contos, elevado em Março de 1923 para o dobro. Em 5 de Novembro de 1925 abre falência.

Esquina da Rua Augusta com a Rua da Conceição |1930-01-12|
Banco Industrial Português
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto está erradamente identificado no arquivo

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