Friday, 20 July 2018

Chafariz do Largo do Rio Seco

Construído em 1821, conjuntamente com o Chafariz da Junqueira e em ambos se gastaram 40.527$236 réis. Tinha junto um bom tanque de lavadeiras com quarenta palmos em quadrado e dois palmos e meio de alto. A sua nascente era numa pedreira próxima. Esta nascente secava sempre no mês de Junho até às primeiras chuvas. Depois rebentava de novo, mas a sua água trazia muito lixo, palha e estrume durante dois ou três dias e depois ficava muito limpa e cristalina até o mês de Junho seguinte.

Chafariz do Rio Seco [1939]
Largo do Rio Seco
Eduardo Portugal, in A.M.L.

O topónimo Rio Seco deriva de o local ter sido em tempos um rio, como se pode ler neste artigo publicado em 1945 no boletim do Grupo «Amigos de Lisboa»: [...] Vamos encontrar para além do Juncal [Junqueira] uma ponte sob a qual deslizava lentamente  um ribeiro e que desaguava no Tejo. Essa ponte ligava o sitio de Belém com o de Alcântara ou antes Santo Amaro. O rio, com o andar do tempo, secou, daí o nome ao sitio de Rio Sêco
Este rio, que hoje está desde certo ponto transformado num simples cano abobadado, vem da Serra do Monsanto, atravessa a Calçada da Boa-Hora, segue depois entre os muros das quintas do Almargem e de Diogo de Mendonça Côrte Real (modernamente denominada das Águias ou da Condessa da Junqueira), atravessa, por baixo a rua da Junqueira e a Cordoaria, e vai, por fim, desaguar no Tejo.==

Largo do Rio Seco [1939]
Perspectiva tomada da Rua Aliança Operária
Ao fundo à esq., o Palácio da Ajuda; ao centro, a torre torre sineira da Capela de Nossa Senhora da Ajuda/Torre do Galo
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Bibliografia
ANDRADE, José Sérgio Velloso de, Memoria sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa, 1851.
Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», 1945.

Wednesday, 18 July 2018

Café Martinho

Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve [nome que se dava ao gelo em rama, sorvete]; mas D. Felicidade receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se sobre as mesas jornais enxovalhados; e algum raro indivíduo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de morango.

Eça de Queiroz (1845-1900) O Primo Basílio, 1878.


De mais marcante no local, — recorda-nos Norberto de Araújo — e com saborosas tradições políticas e literárias, ai temos o Café Martinho, fundado por Martinho Bartholomeu Rodrigues em 1846, transformado já no actual século [XX], e que foi objecto de uma consagração evocativa na noite de 26 de Dezembro de 1936 pelo grupo «Amigos de Lisboa».

A fama do Café Martinho excedeu todas as expectativas anteriores à sua celebrada inauguração. Mas o certo é que contava já, à partida, com um fundador célebre na praça de Lisboa: Martinho Bartolomeu Rodrigues, proprietário — pelo menos desde 1829 — do Café da Arcada e contratador oficial da neve que se vendia na cidade. Presumir-se-ia que os gelados do Martinho viriam a ser — como de facto foram — cobiçados por Lisboa inteira.
Marina Tavares Dias, Os cafés de Lisboa, [1999.]

Café Martinho, a fachada inicial tal como Eça de Queiroz a conheceu [1909]
Quer você vir tomar o seu chá ao Martinho? — É a melhor torrada de Lisboa. [Eça de Queiroz, A Relíquia]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

 Joshua Benoliel, in A.M.L.

O Largo [antigo de Camões hoje Praça D. João da Câmara] que separa a Estação do Rossio do teatro ex-D. Maria, ex-Nacional, hoje Garrett, deveria chamar-se, se houvesse justiça nos nomes das ruas e praças, Largo dos Cafés. Tem nas suas margens os dois maiores cafés de Lisboa, o Suisso e o Martinho. Defronte tem outro pequeno: o da Gare, que, coitado, já está todo amachucado. Também quem se lembra de pôr um prédio daquele tamanho em cima dum café tão pequenino!

André Brun (1881-1926), A Baixa às 4 da tarde. [1910]


Café Martinho, a entrada de ferro e vidro, após o restauro [ca. 1910]
Ainda me lembro que há dois anos o café Martinho foi respeitosamente de chapéu na mão pedir ao senado lisbonense licença para colocar algumas cadeiras e umas modestas mesas em face das suas portas, no grande largo deserto que lhe fica defronte.
O senado rejeitou o pedido, vendo nas ambições do café Martinho um perigo para o trânsito público.[Guilherme de Azevedo, Crónicas de Paris: 1880-1882]

Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões
Alberto Carlos Lima, in A.M.L.
Café Martinho, a entrada de ferro e vidro, após o restauro [1909]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões
Joshua Benoliel, in A.M.L.
Café Martinho, após o restauro [1909]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões
No Martinho, já silencioso, o gás ia adormecendo entre os espelhos baços; e havia apenas numa mesa do fundo um moço triste, com a cabeça enterrada entre os punhos, diante de um capilé. [Eça de Queiroz, A Relíquia]
 Joshua Benoliel, in A.M.L.

Foi o café mais importante de Lisboa e, como tal, aparece referido por vários autores ao longo da sua existência, como se pode constatar em alguns excertos que aqui publicamos. Nele se reuniram gerações de intelectuais. O Café Martinho era famoso pelas suas deliciosas confecções culinárias, pelas torradinhas de Meleças, pelo chá verde com limão e pela neve, a par das desinteligências políticas e literárias que nele ocorreram. Foi palco logo no ano seguinte da peleja entre o batalhão Académico e os Batalhões do Algarve e da Carta, vendo esvoaçar pelo ar copos, chávenas, garrafas, pratos, açucareiros, bandejas, espelhos, tampos de mármore e bancos, desacato este que só findou com a intervenção da cavalaria municipal. Tal ocorrência justificou-se pelo facto de o filho do proprietário pertencer à quarta companhia do Batalhão Académico. Augusto Zeferino Rodrigues cursou direito.

Café Martinho, a sala de café e galeria da sobreloja onde ficava o restaurante [1909]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

 Joshua Benoliel, in A.M.L.

 

Foi no café Martinho — unico, n'essa epocha, que as senhoras atravessavam até à sala interior, para tomarem neve n'uma estufa!
Bulhão Pato (1829-1912), Memórias II [c. 1854]


Sucedeu a seu pai como proprietário do Café Martinho da Arcada e do Café Martinho do antigo Largo Camões. Este café tinha uma ampla sala com arcarias, cujas colunas eram revestidas com espelhos de Veneza. As mesas eram rectangulares com tampo em mármore branco. Os bancos do lado da parede eram de espaldar presos à parede. Ao fundo desta sala existia uma estreita e reservada sala de senhoras, onde as damas se deliciavam a saborear a famosa neve, ou seja, os sorvetes da época.
Personagens ilustres frequentavam este café. Alexandre Herculano ia lá sempre às quintas-feiras à tarde. Eça de Queiroz, Almeida Garrett, Bulhão Pato, o actor Tasso, o livreiro Zeferino Albuquerque, Pedro Lopes de Mendonça, Zacarias de Aça, Júlio de Castilho, Camilo Castelo Branco, Júlio César Machado, José Estêvão, Mendes Leal, Guerra Junqueiro entre tantos outros também figuram no leque da clientela assídua deste café. Célebres se tornaram também alguns dos seus criados, é o caso do Fagundo e do galego Valentim este último retratado inclusivamente em O António Maria, de Rafael Bordalo Pinheiro, graças ao seu enorme nariz.

Café Martinho, salão de restaurante na galeria da sobreloja [1909]
Ao fundo, um quarteto com piano de cauda animava almoços e jantares
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

 Joshua Benoliel, in A.M.L.

Em 1909, o café foi remodelado. A antiga fachada foi substituída por uma entrada de ferro e vidro [vd. 2ª e 3ª fotos]. O interior do café decorado com arte-nova. A decoração e pinturas eram do artista João Vaz e as esculturas de Josef Füller. Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa aí se encontravam para rever as provas tipográficas dos livros do último e da própria revista Orpheu.
Entre 1950 e 1953, o Café Martinho foi transformado em cervejaria, pertencendo à data à Companhia de Cervejas Estrela. A sua clientela passou a ser a geração académica dos anos 50 e 60, e o seu petisco o bife especial. Em Maio de 1968 o café encerrou portas e em Outubro desse ano reabriu como dependência bancária do Banco do Alentejo. È actualmente uma dependência do Banco Português de Investimento.

Café Martinho [ant. 1968]
Praça D. João da Câmara. antigo Largo Camões

Estúdio Horácio Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

Na «sentença de partilhas» dos bens de Martinho Bartholomeu Rodrigues (falecido a 22 de Abril de 1881) — refere Marina T. Dias — figura uma dívida de 1.214 réis, contraída pela Casa Real em vários fornecimentos de neve. A relação dos bens do antigo neveiro prossegue, depois, ao longo de oito páginas, indicando valores tão díspares como acções e obrigações, jóias  e peças de ouro, propriedades urbanas e terrenos agrícolas. [...] Um pormenor, contudo, atesta o verdadeiro luxo praticado no serviço dos dois cafés: o valor dos talheres e outros utensílios de prata (que serviam às mesas) que vem mencionado na relação dos bens. 422..618 réis valiam as pratas do Martinho da Arcada e ainda mais — 467.684 — as do Martinho do antigo Largo Camões [uma verdadeira fortuna para aquela época].

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Bibliografia
QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 84, 1939.
DIAS, Marina Tavares, Os cafés de Lisboa, 1999.
AMIGOS DE LISBOA, Evocação do Café Martinho, 1936.
SUCENA, Eduardo, «Cafés» in SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo, 1994.

Sunday, 15 July 2018

Rua dos Remédios à Lapa

Topónimo atribuído por Edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 para denominar a até aí designada Rua dos Remédios, conforme refere o olisipógrafo Pastor de Macedo:
Aparece em 1759 sob o nome de Rua de Nossa Senhora dos Remédios, nome que depois se simplificou para Rua dos Remédios. Este foi substituído pelo de Rua dos Remédios da Lapa (e não à Lapa) por edital do Governo Civil de 1 de Setembro de 1859. Conforme diz G. de B. [Gomes de Brito] o nome desta artéria foi dado "em homenagem a Nossa Senhora dos Remédios, padroeira do convento de carmelitas descalços, fundado em 1582 na rua larga que vai de Santos para Alcântara" (actual Rua das Janelas Verdes).
(MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. IV)

Rua dos Remédios à Lapa [c. 1900]
Ao fundo, a Rua Garcia de Orta
Machado & Souza, in A.M.L.

Rua dos Remédios à Lapa [c. 1900]
Serralharia Jacob Lopes da Silva; ao fundo, a Rua Garcia de Orta
Machado & Souza, in A.M.L.

Friday, 13 July 2018

Edifício na Avenida Almirante Reis, 1

Construído segundo projecto do arq.º Joaquim Francisco Tojal, este edifício de gaveto e planta longitudinal, data de 1905. É um dos exemplares de arquitectura urbana ecléctica da Av. Almirante Reis [antiga de Dona Amélia], com características muito marcadas do início do séc. XX, nomeadamente ao nível dos elementos empregues, como o ferro forjado e o azulejo, que revelam um gosto Arte Nova.

Edifício na Avenida Almirante Reis (ao centro) [1944]
Avenida Almirante Reis, 1-1I; Rua Nova do Desterro, 2-2A
Eduardo Portugal, in AML

Classificado como Imóvel de Interesse Público, desenvolve-se em 4 pisos com mansarda, rematados por cornija saliente e platibanda interrompida por trapeiras, rasgadas por janelas com varanda corrida,encimadas por cornija,sendo esta,coroada por uma espécie de frontão curvo. É de salientar o notável conjunto azulejar policromático, que decora a zona superior e de coroamento, representando elementos florais de linhas finas e ondulantes, que transmitem uma noção de movimento. [cm-lisboa.pt]

Edifício na Avenida Almirante Reis (ao centro, a seguir ao chafariz) [1958]
Avenida Almirante Reis, 1-1I; Rua Nova do Desterro, 2-2A
Chafariz do Intendente
Judah Benoliel,, in AML

Wednesday, 11 July 2018

Teatro de S. Carlos

Ora aqui temos, Dilecto, um edifício ligado, de certo modo a tôda a história política e social de Lisboa do século passado e princípios do actual: o Teatro de S. Carlos. 

Presentemente — Setembro de 1939 — beneficiando de obras de reedificação, mais que de restauro, de que bem carecia, êste teatro do Estado não tem ainda destino artistico no seu horizonte. Encerrado há uma dezena de anos- tem perdurado em Lisboa como um museu de recordações com alguma boa arte a ilulstrá-lo.


O Teatro de S. Carlos — prossegue Norberto de Araújo — foi construído [para substituir a Real Casa da Opera (Real Opera do Tejo sita na Ribeira das Naus)] entre 8 de Dezembro de 1792 e 30 de Junho de 1793, dia da inauguração, com a ópera de Cimarosa «La Balerina Arnanter. O risco do Teatro, tomado do de S. Carlos de Nápoles, é do arquitecto José da Costa e Silva [...]
Ao invés do que vulgarmente se supõe, o Teatro não foi de iniciativa nem de fundação do Estado, mas de um grupo de capitalistas, entre os quais Anselmo José da Cruz Sobral, Jacinto Fernandes Bandeira, João Pereira Caldas e o famoso Joaquim Pedro Quintela, depois Barão de Quintela, que cedeu o terreno, com a condição de ficar com um grande camarote privativo para si e para seus descendentes, camarote que D. Fernando comprou em hasta pública em 1880 por vinte e um contos da época, e que mais tarde passou à Condessa d'Edla.
Só em Agôsto de 1854 o Estado adquiriu o Teatro, que se integrou no Património Nacional.

Teatro de S. Carlos [1928]
Rua Serpa Pinto, 9; Largo de S. Carlos, antigo do Directório
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

De D. Mariz I a D. Manuel II e Teatro de S. Carlos foi e teatro da Côrte, grandes solenidades oficiais, dos dramas e das farsas políticas, das exaltações glorificadoras e dos protestos colectivos. Algumas dezenas de emprêsas, de nomes ilustres ou de arrivistas de qualificação social, passaram por S. Carlos, desde Francisco Lodi, o primeiro de todos, passando pelo Conde de Farrobo (1838-40) até José Paccini, no comêço dêste século, e Mimon Anahory, já no actual [XX].
Ficaram célebres os «partidos» das cantoras e bailarinas — cujas narrativas enchem crónicas saborosas de Lisboa oitocentista, através de dinastias de boémios e de fidalgos, de amadores entendidos e de apaixonados das «primas-donas».
Cento e quarenta anos de Lisboa foram cento e quarenta anos de S. Carlos — hoje [1939] sonâmbulo.
Uma nota te quero dar: de comêço, a iluminação era a velas de cera e sebo e a azeite, só entrando o gás em 1850, e a electricidade em 1881.
A-pesar-do primitivismo da iluminação, foram «feéricas» algumas das grandes festas em S. Carlos, nos tempos de D. João VI, de Junot, de D. Maria II. O Teatro foi inaugurado com artistas masculinos cantores, representando os papéis de mulheres, os «supranistas» «castrati» para que a voz não engrossasse de volume... Só em 1799 pisaram o tablado da Ópera de Lisboa «primas-donas» autênticas, como Mariana Albani e Luíza Gerbini. Lisboa não perdeu pela demora, porque depois as cantoras e bailarinas de S. Carlos endoideceram meia cidade. Quem sabia disto bem era Pinto de Carvalho, o «Tinop», falecido em 1937.  

 Theatro de São Carlos, gravura da autoria de Legrand [entre 1839 e 1847]
Incluído no programa inaugural esteve também um elogio cantado, composto por António Leal Moreira, no âmbito das celebrações da gravidez da princesa Carlota Joaquina, a quem foi dedicado o teatro

S. Carlos é um grande e um lindo Teatro, ocupando uma enorme área, num edifício cheio de pavimentos, galerias, salas, casas, dependências — verdadeiro labirinto. Embora nos últimos trinta anos muito perdesse em fausto e sumptuária ainda era de ver-se, ao tempo em. que começaram as obras.
O teto do magnifico Salão de Entrada é de Cirilo Wolkmar Machado, sendo o chão de mármore branco e azul.
O Salão Nobre, ou «Salão das Oratórias», era igualmente formoso, mas muito perdeu do seu primitivo aspecto.
A Sala de Espectáculos, em forma elíptica, de vivos de ouro e de semblante nobre, tem vinte e um metros de comprimento e dezasseis de alto, ostentando cinco ordens de camarotes, entre êles as famosas «torrinhas›; a bôca de cena mede catorze metros. O teto, restaurado, é de Manuel da Costa, c a magnífica «tribuna real», que ocupa três alturas e larguras de camarotes, foi interiormente pintado por G. Appiani.

E eis quanto posso sintetizar dêste Teatro de S. Carlos, cuja fachada, que não tem a importância da do Teatro Nacional, ostenta na sobreporta central do terraço a lápide latina, ligando os nomes de Carlota Joaquina e do Príncipe Regente ao de Pina Manique — que tornou possível o milagre de se erguer um edifício desta ordem em seis meses —, e marcando a data MDCCXCIII (1793).
 
Classificado como imóvel de interesse público em 1928 (8 de Setembro de 1928) e Monumento Nacional em 1996 (6 de Março de 1996).

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 14-15, 1939.

Sunday, 8 July 2018

Largo do Barão de Quintela

Chegamos ao Largo Barão de Quintela — diz Norberto de Araújo — , no qual se eleva o belo Palácio que foi dos Quintelas-Farrobos, que fêz parte da história política e social de Lisboa da primeira metade do século passado.  


Êste Largo do Barão de Quintela foi mandado terraplanar e construir por Joaquim Pedro Quintela em 1788, que para tal comprou uns casebres aqui existentes, entre as Ruas das Flores e do Conde.
É discreto êste Largo, com o seu relvado e as suas palmeiras decorativas, ao centro da qual se ergue a estátua a Eça de Queiroz, devida à iniciativa de alguns homens de letras.

Largo do Barão de Quintela  [c. 1965]
Monumento a Eça de Queiroz; Rua das Flores
Armando Serôdio, in AML

Joaquim Pedro Quintela (1748-1817), Barão de Quintelapróspero negociante e abastado proprietárioera um dos lisboetas que no século XIX promovia concertos privados em sua casa reunindo profissionais e amadores e, como o Conde de Burnay e o Conde Farrobo (2º Barão de Quintela e também chamado Joaquim Pedro Quintela) era um dos que detinham o monopólio da indústria dos tabacos.
Em 29 de Novembro de 1807 quando a Família Real parte para o Brasil, Junot instalou-se no Palácio do Barão de Quintela, erguido desde 1782.

Largo do Barão de Quintela  [195-]
Palácio que foi dos Quintelas-Farrobos
Horácio Novais, in AML

Largo do Barão de Quintela, 1  [1933]
Edifício que albergou, em tempos, o consultórios de Egas Moniz e
onde está instalada a Associação a Associação Humanitária
de Bombeiros Voluntários de Lisboa

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
 
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 49-50, 1939.
cm-lisboa.pt.

Friday, 6 July 2018

Rua Alexandre Herculano (Palacete da Condessa de Edla)

Sobre esta zona da cidade relembra-nos o olisipógrafo Norberto de Araújo que «Aqui, no comêço de Conde Redondo e Santa Marta, do lado poente, existiu, no fundo de um jardim, o Palacete da Condessa de Edla [(vd. 2.ª foto], a espôsa morganática de D. Fernando, marido de Maria II; foi tudo demolido para dar lugar (1938) ao prolongamento da Rua Alexandre Herculano, que ai tens, já terraplanada, inaugurada em 25 de Outubro dêste ano de 1939».

Rua Alexandre Herculano [1940]
Observa-se  à dir. a Rua Camilo Castelo Branco e, à esq., a Rua Rodrigues Sampaio; em último plano a Avenida da Liberdade
Eduardo Portugal, in AML

N.B.: Alexandre Herculano de Carvalho Araújo (1810-1877) nasceu no Pátio do Gil, na Rua de São Bento. Foi poeta, romancista, historiador e ensaísta. Juntamente com Almeida Garrett, é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal. Foi o renovador do estudo da História de Portugal.

Rua Alexandre Herculano [1938]
Palacete da Condessa de Edla
Eduardo Portugal, in AML
Palacetee (terrenos, a azul) da Condessa d'Edla (demolido em 1938)
Legenda:
Vermelho (cheio): Rua Alexandre Herculano; Vermelho (tracejado) Prolongamento da Rua Alexandre Herculano (1939); Amarelo: Rua de Santa Marta; Verde: Rua do Conde Redondo
Levantamento topográfico de 1910, autor: Pinto, Júlio António Vieira da Silva [pormenor], in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 88-89, 1939.

Wednesday, 4 July 2018

Ermida de Nossa Senhora do Rosário (ou da Verónica)

No seu relatório paroquial de 1759 diz o prior da freguesia de Santa Engrácia, Luís da Costa Barbuda, acerca desta ermida: «A ermida de N. S. do Rosário, sita na Vila Galega, fundação de alguns devotos, com um terço». De acordo com Norberto de Araújo, a Rua da Verónica, «que segue à Graça», deve o seu nome à existência desta ermida.


Ermida construída no século XVIII (1748) em substituição de um nicho ali existente. Um papel colado num dos poucos livros da irmandade dessa capela diz que naquele local houvera primitivamente um nicho chamado da Verónica; que mais tarde uns devotos, autorizados pelo Prior do Mosteiro de S. Vicente, construiram ali aquela ermida, e a ela se acolheram constituindo a irmandade de N. S.. do Rosário, tendo-lhes o dito Prior imposto a obrigação de taparem a porta com pedra e cal no caso de um dia de lá saírem.

Ermida de Nossa Senhora do Rosário [1902]
Rua da Verónica, 31; Travessa do Rosário de Santa Clara
Machado & Souza, in AML

Em 1914, em virtude da lei da separação do Estado das igrejas, foi mandado arrolar o pouco que lá dentro havia, e leiloado depois, sendo a sua capela secularizada. O que restava da irmandade e a imagem da Senhora passou a recolher-se à Igreja da Graça; em 1934, a primeira Assembleia de Deus de Lisboa alugou o edifício abandonado convertendo-o em espaço de culto; em 1943 o interior é utilizado como fábrica de malas.



Ermida de Nossa Senhora do Rosário, N. [c. 1900]
Rua da Verónica, 31
Artur Bárcia, in AML


Ermida de Nossa Senhora do Rosário, S. [1942]
Rua da Verónica, 31
Eduardo Portugal, in AML




Bibliografia
Revista municipal Lisboa, 1943.
monumentos.pt.
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