Largo de S. Miguel de Alfama ao centro, recamada de talha de ouro, na sumptuária sacra de seiscentos, esplende a paroquial, templo bairrista cuja primeira fábrica remontava ao século XIII. S. Miguel de Alfama!
Sobem por aí acima até à Adiça e a Santa Helena, em escadarias contorcidas de presépio bíblico, o Beco das Curvinhas (ou da Corvinha), as Calçadas da Figueira e de S. Miguel. Não seria possível a um pintor conceber cousa assim, se ele quisesse criar originalidade de cenário e construir planos de inverosímil lógica urbanística. É arrojo, na Alfama, destacar, dentro do pitoresco, uma gracilidade de outra gracilidade.
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| Largo e Calçadinha de S. Miguel |c. 1910| Fachada lateral da Igreja de S. Miguel. José A .Bárcia, in Lisboa de Antigamente |
Eis um alfobre de fantasias que ficaram dos meandros mouriscos. Mas este sitiozinho modelo do génio truculento do acaso é um padrão.O Largo esmalta-se de casitas excêntricas, como outras não há, tão de sua índole seiscentista, salientes do fundo da fatalidade dos tempos.
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Rua do Castelo Picão (N-S) junto ao Beco do Garcês |c. 1910| O Castelo Picão é uma artéria, relativamente longa - emula da Regueira — que desenhando uma curva, quási em ângulo recto, nos traz do Salvador a S. Miguel». [Araújo: 1939] Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL |
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| Rua do Castelo Picão |1953| Alfama teve durante os anos de 1950/60, o Concurso de janelas floridas, incluído nas Festas da Cidade. Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente |
De largo ressalto, janelas minúsculas, beirais engrinaldados de ervas, nascidas do sol e da chuva, cor-de-rosa, maneirinhas — as casas de S. Miguel são cousas de copiar, moldar com dedos de ternura, e colocar como espécimes sobre as mesas de artistas inspirados na humildade. Uma delas, a da esquina do Largo sobre sobre a Rua, semelha uma torre, imposta sobre uma base estreita, que mal pode com ela. Em todas mora a alegria, que nem sequer carece do condimento da resignação. A cantar o «passarinho trigueiro» as mulheres de Alfama, maliciosas e inocentes, redimem o bairro da sua melancolia atávica. E são às dezenas, pela redondeza, os exemplares desta construção, imaginada por oleiros de presépio.
Muros tisnados sobre os quais caem arbustos. Traseiras, absurdas de branco, que moram no Castelo Picão. Mil janelinhas de roupa estendida, os píncaros da Regueira, o perfil esbelto de uma chaminé, um gato espreguiçado num banho de sol.Um pregão, uma cantiga vinda de um tugúrio. O voo de uma pomba!A S. Miguel de Alfama ...(ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 60-61, 1943)
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| Calçadinha de S. Miguel |c. 1940| Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente |
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| Calçadinha de S. Miguel |c. 1913| (Colecção Afonso Lopes Vieira) Roque Gameiro (1864-1935) |







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