Sunday, 2 August 2026

Palacete Pessanha

A Junqueira, com seu passado distante, sua génese, sua realidade urbanista — recorda o olisipógrafo Norberto de Araújo — constitui os termos deste sexto passo de jornada. Antiga zona de ocupação de cariz aristocrático caracterizada pela existência de um número significativo de casas nobres de características eminentemente barrocas.


O palacete que se segue, n.º 112, foi construído depois do Terramoto por D. João da Silva Pessanha — recorda o ilustre Norberto de Araújo, a quem vamos sempre seguindo — conservando-se nesta ilustre família durante muitos anos; pertenceu à Condessa de Porto Brandão, ao Marquês de Valada, à família Bregaro até chegar, há relativamente pouco tempo, ao actual possuidor, Dr. António Soares Franco.
[ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 53, 1939]

Palacete Pessanha (E→O) |início séc. XX|
Rua da Junqueira, 112-114
Fachada principal com portal de inspiração barroca.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Palacete urbano, exemplar de arquitectura residencial, eclética, do final do séc. XVIII, apresenta planta retangular simples, desenvolvida em torno de um pequeno pátio central, com acesso por vestíbulo parcialmente aberto, com túnel de ligação ao pátio posterior, tendo capela adossada à fachada posterior (demolida). Estruturado em dois pisos, o edifício surge rematado por platibanda balaustrada. A fachada principal evidencia tratamento simétrico, sendo cortada a eixo por um portal de inspiração barroca, encimado por sacada corrida de perfil contracurvo, para onde abrem três janelas, a central em arco de volta perfeita e as laterais de verga recta, mas com altos frisos, sobrepujadas por cornijas. Contrastando com este esquema temos o classicismo do remate, em frontão triangular, cujo tímpano surge profusamente decorado com elementos fitomórficos e rosetão central, assim como da disposição regular das janelas rectilíneas, do tipo varandim.

Palacete Pessanha |início séc. XX|
Rua da Junqueira, 112-114
Pátio posterior e, nele: fonte em cantaria de granito. e a esq. nota-se a capela adossada à fachada posterior (demolida).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No séc. XX, o prolongamento do edifício para Oeste, através da criação de uma segunda ala, não o alterou do ponto de vista formal ou visual. O interior evidencia uma linguagem neo-barroca presente na decoração de uma imponente escadaria de dois lanços e nos painéis de azulejos que decoram o vestíbulo.
Uma interessante fonte, em cantaria de granito, decora o pátio posterior, que integrava o primitivo jardim, de cariz tardo-barroco. [patrimonio.pt]

Palacete Pessanha |1965|
Portal encimado por sacada corrida de perfil contracurvo remate em frontão triangular.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Friday, 31 July 2026

Panorâmica de Lisboa tomada do Miradouro da Senhora do Monte

Ao chegar ao topo, encontrei o Miradouro da Senhora do Monte, o primeiro dos tantos que cá se me ofertaram aos olhares. Confesso-te que nunca esquecerei daquela santa de branco, numa cúpula tomada de flores, defronte à igreja que paira sobre a cidade. Soube que essa santa é a protetora das grávidas [...]
Do Miradouro da Senhora do Monte, vi o emaranhado de vielas onde se desenha a Mouraria, e ouvi ecoar de uma das casas o Fado manhoso, numa voz feminina, que me invadiu o pensamento. Ali constatei o que antes me havia sido dito por ti, talvez inspirada numa antiga canção: Lisboa é cidade-mulher, das cantoras do Fado às colinas e regatos do Tejo: tudo guarnecido de formas femininas. Após tantos anos de incredulidade, orei: Ó, Senhora do Monte, olhai as mulheres dessas freguesias, olhai também por Maria da Penha.
[NOVAIS, Klaus Escritos Degredados, 2014]


Panorâmica de Lisboa, tomada do Miradouro da Senhora do Monte [entre 1908 e 1929]
(clicar para ampliar)
Destacam-se na imagem: em baixo ao centro, a cúpula do extinto Real Coliseu de Lisboa (1896-1929) (A) na Rua da Palma; à direita deste, o Hospital do Desterro (B); um pouco acima a Escola Municipal nº 1 (C)  — a mais antiga de Lisboa; logo acima, ao centro, a Faculdade De Ciências Médicas (D) da Universidade Nova de Lisboa no Campo dos Mártires da Pátria; mais acima para poente, a Rua do Instituto Bacteriológico (e o edifício Câmara Pestana) (E) e, no fim desta, vislumbra-se torre sineira da Igreja da Pena (F) na Calçada de Sant'Ana; em último plano, na extrema esquerda, as torres da Basilica da Estrele, (G) e, em ultimíssimo plano adivinha-se o Palácio Nacional da Ajuda (H).
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 26 July 2026

Rua de Campolide, 437-441

Vejamos agora esta antiga Rua de Campolide na companhia de Mestre Norberto de Araújo.
Campolide — que significa? Qual a origem do vocábulo?
Nós não temos tempo, nem plano, para nos embrenharmos nestas complicadas dissertações etimológicas. A versão de que a palavra corresponde à abreviação de Campo-da-lide (século XIV, tempo do Cerco a Lisboa pelos castelhanos) está posta de parte. Alguns séculos antes a designação existia; já o Rei D. Afonso II (1211) possuía «duas vineas in Campolide».

Rua de Campolide, 437-441 |c. 1936|
Fila de automóveis defronte da garagem C. Santos; ao fundo vê-se o viaduto da Linha de Cintura (Sete Rios) na direcção da actual Av. Columbano Bordalo Pinheiro. A representação da Mercedes-Benz para Portugal foi atribuída em 1936 à firma C. Santos, começando por incluir veículos automóveis e passando, posteriormente, a englobar todos os veículos produzidos por esta marca alemã. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Parece mais acertado ficarmos na ignorância da origem da palavra — acrescenta o mesmo autor — que corresponderia já no ciclo da tomada de Lisboa ao que o cruzado Osberno chamava, pela sónica, Compolet, e que seria Campolit." ==
[ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 77, 1939]

Rua de Campolide, 437-441 |1961|
Viaduto ferroviário de Sete Rios. A dir vê-se o edifício C. Santos (fund. 1912). Todos estes prédios estão demolidos.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Fotografia aérea da zona Sete Rios |1977|
Em primeiro plano, na dir. baixa, observa-se o viaduto da Linha de Cintura sobre a Rua de Campolide e, nela, o edificado (demolido) que se pode ver nas imagens acima, e as instalações da firma C- Santos. À esq-, nota-se o Jardim Zoológico; em cima, ao centro, o então Hotel Penta defronte do Hospital Santa Maria e da Cidade Universitária; mais à esq, a Universidade Católica e o antigo Estádio de Alvalade e, à dir., o Hospital Santa Maria. 
Fernando Gonçalves, in Lisboa de Antigamente

Friday, 24 July 2026

Rua Quirino da Fonseca que foi Estr. de Sacavém com a Tv. das Freiras a Arroios

A partir de uma sugestão do vereador Ivo Cruz para se homenagear o comandante Henrique Quirino da Fonseca, foi a Rua Quirino da Fonseca atribuída por Edital de 26/06/1956 ao troço da Rua Alves Torgo, compreendido entre a Rua António Pereira Carrilho e a Alameda Dom Afonso Henriques.
A Tv. das Freiras ganhou o topónimo pela proximidade à antiga Azinhaga das Freiras, que antes já fora a Azinhaga do Leão, e hoje o espaço dessa Azinhaga é o das Ruas Alves Torgo e Quirino da Fonseca.
As freiras que originaram este topónimo eram as do Convento de Nossa Senhora da Conceição da Luz de Arroios
[1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Rua Quirino da Fonseca |c. 1940|
Troço da antiga Estr. de Sacavém; em 1956, troço da Rua Alves Torgo, compreendido entre a Rua António Pereira Carrilho e a Alameda Dom Afonso Henriques; ao fundo, o antigo Convento de Arroios.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Henrique Quirino da Fonseca (1863–1939) foi um Oficial da Marinha Portuguesa, sendo referência marcante na área Militar e Cultural.
Oo ano de 1888 ingressa na Escola Naval como Aspirante de 2ª Classe. Tendo embarcado em diversos navios: a corveta “Vasco da Gama”, o transporte “Índia”, a fragata “D. Fernando”, a corveta “Bartolomeu Dias”, a canhoneira “Liberal” e a “Limpôpo” - enceta a carreira militar na Divisão Naval do Atlântico Sul. Em 1897 é-lhe atribuído o seu primeiro comando, o da canhoneira “Cacongo” (comandante interino). Não obstante, é no cenário da Grande Guerra que vem a desempenhar um papel de destaque, nomeadamente, nas Operações de Guerra do Rio Rovuma (191), como Oficial Imediato do cruzador "Adamastor", e como 2º Comandante do Batalhão de Marinha Expedicionário a Moçambique. Em 1924, é-lhe ainda atribuído o comando do cruzador "República". 
Em paralelo com a carreira militar, dedica-se também a questões políticas, mais concretamente, às da Câmara Municipal de Lisboa, desempenhando funções como Vogal da Comissão Administrativa do Município e como Vereador e Vogal do Pelouro de Engenharia da mesma instituição.
Durante a sua vida dedicou-se à investigação náutica, à literatura naval de ficção e a narrativas históricas, sendo de destacar as seguintes obras:  Obra Colonial de Afonso de Albuquerque» (1910), «A Arquitectura Naval no Tempo de Fernão de Magalhães» (1920), «Os Navios dos Descobrimentos e Conquistas» (1931), «A Caravela Portuguesa e a Originalidade Técnica das Navegações Henriquinas» (1934) ou «Contribuição Portuguesa para os Conhecimentos Geográficos» (1936). 
É, desde 2013, Patrono do Curso da Escola Naval.
[arquivohistorico.marinha.pt]

Rua Quirino da Fonseca com a Tv. das Freiras a Arroios |1923|
Troço da antiga Estr. de Sacavém; (Igreja) Convento de Arroios (depois hosp.)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 19 July 2026

Campos de Futebol de Antanho: Campo da Feiteira

A primeira grande surpresa de Afonso, ao chegar ao campo [da Feiteira] e ao ver as equipas no aquecimento, foi a de que nada parecia ter mudado. O Sport Lisboa e Benfica alinhava com o antigo equipamento do Grupo Sport Lisboa, camisolas vermelhas e calções brancos, e o próprio emblema da águia se mantinha ao peito, acrescentando-se-lhe agora uma roda de bicicleta, o símbolo do Bemfica[SANTOS, 2004]

Campo da Feiteira |c. 1909|
Inaugurado em 1907, tinha capacidade para 8 mil espectadores, e o campo media 120 metros por 79.
Quinta da Feiteira junto à Estr. de Benfica, e nela: Chalet Ribeiro, Villa Ana (1890) e igr. de Benfica.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O major Faria Leal, antigo dirigente do Sport Benfica (fund. 1906), revelaria mais tarde: «O futebol tomou logo de princípio enorme incremento e adquiriu-se, por arrendamento, na Quinta da Feiteira”, de que era proprietário o brasileiro comendador César José de Figueiredo, um campo. Este campo, hoje ocupado pelo grande bairro fronteiro à igreja de Benfica, e que foi arrendado por uma ridicularia, fora um extenso faval sulcado de regos, que foi convenientemente trabalhado à enxada pelos próprios sócios, para que pudesse ser adaptado ao jogo. O facto de sermos o primeiro clube que possuía campo próprio atraiu à nossa convivência os jogadores de outros clubes, principalmente os do Sport Lisboa (fund. 1904) que como todos eles, se treinavam e jogavam nos areais de Alcântara e Belém, ou no Largo da Luz. Desta convivência resultou, mais tarde, a união Sport Lisboa e Benfica (1908), que subsistiu até hoje.» [Dias: 2000]

Campo da Feiteira |entre 1907 e 1910|
O terreno na Quinta da Feiteira foi oficialmente adquirido pelo clube em 26 de Maio de 1907, e o campo foi inaugurado em 14 de Julho do mesmo ano.
Quinta da Feiteira junto à Estr. de Benfica vendo-se o Chalet Ribeiro e a Villa Ana
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Foi no seio de um grupo de antigos alunos da Real Casa Pia que surgiu a ideia de fundar um clube, o Grupo Sport Lisboa. Em 1904,  realizou-se uma reunião histórica nas instalações da Farmácia Franco, sita na velhinha Rua Direita de Belém.  Nela estiveram presentes dezoito elementos, entre eles, Cosme Damião, que contava apenas dezoito anos e era jogador da equipa, assumindo mais tarde o posto de capitão do grupo e um jogador importantíssimo, vindo a ser, no entanto, como dirigente que mais se destacou, mesmo nunca chegando a presidente. [C.F. Casa: 2013]

Campo da Feiteira |1910-01-23|
Equipa do Sport Lisboa e Benfica, no campo da Feiteira. Cosme Damião é o capitão da equipa (com a bola). Jogo entre o Sport Lisboa e Benfica e o Clube de Carcavelos arbitrado por Eduardo Pinto Basto.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Friday, 17 July 2026

Avenida 5 de Outubro, 207-215

Prémio Valmor de 1929


No ano de 1929 o Prémio Valmor foi para uma moradia uni-familiar pertencente a Félix Ribeiro Lopes e cujo projectista foi Pardal Monteiro. Esta moradia situa-se na Av. 5 de Outubro, 207-215, utilizava uma linguagem de formas Art Déco e foi considerado “um belo exemplar da arquitectura moderna, impondo-se pelo equilíbrio das suas proporções, pela harmonia da sua decoração”[patrimonio.pt]

Avenida 5 de Outubro, 207-215 |1964-12|
Prémio Valmor de 1929
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 12 July 2026

Rua Cidade de Manchester

Há em Lisboa o bairro dos Açores, o das Colónias [vd. ultimq imagem dir.], e, passeando dentro da cidade por longes terras da estranja, o de Inglaterra com as ruas de Manchester, Liverpool, Cardiff, etc., recantos da Suíça, na Avenida de Berna, evocações da América na Praça do Chile, na Rua de Buenos Aires, na Praça do Brasil [actual Largo do Rato] e na do Rio de Janeiro [actual Principe Real]. [Ocidente: 1939]


O topónimo Cidade de Manchester foi atribuído juntamente com os topónimos Cidade de Liverpool, Cidade de Cardiff, Poeta Milton e Newton, por edital de 29 de Agosto de 1916. Na sessão de 17 do mesmo mês, a câmara havia inicialmente homenageado Lord Byron, substituído no edital por Isaac Newton. Este conjunto de arruamentos ficou conhecido como Bairro de Inglaterra. Eram arruamentos particulares que formavam o Bairro de Braz Simões, denominado em homenagem ao seu proprietário, José Braz Simões de Sousa, um grande comerciante de Lisboa, que o entregou à C.M.L. por escritura em 13 de Outubro de 1913.

Rua Cidade de Manchester |1966-03|
Antiga Rua Isabel Leal do Bairro de Inglaterra ou de Braz Simões. 
O Bairro de Inglaterra foi construído depois do Bairro Andrade e antes do Bairro das Colónias, e abrange as abrange as encostas da Penha.
Escadinhas na esquina com a Rua Cidade de Cardiff, observando-se em cima a Rua da Penha de França.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Curiosamente, à semelhança do que aconteceu no Bairro Andrade, Braz Simões deu aos arruamentos nomes de familiares ou amigos. Assim, a Rua Cidade de Manchester chamava-se anteriormente Rua Isabel Leal, a Rua Cidade de Liverpool era a Rua José de Sousa, a Rua Cidade de Cardiff [vd. 1ª imagem] correspondia à Rua Maria Gouveia, a Rua Lord Byron (mais tarde Rua Newton) era a Rua Aurora e, por fim, a Rua Poeta Milton era a Rua Margarida.
[1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Rua Cidade de Manchester, 9 |1964|
Notam-se as Ruas Ilha do Príncipe e Poeta Mílton dir.
Augusto Fernandes, in Lisboa de Antigamente
Rua Cidade de Manchester [c. 1945]
Vista tomada da R. da Ilha do Príncipe
Fernando M. Pozal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 10 July 2026

Lisboa: do Tejo a Monsanto

Ó macio Tejo ancestral e mudo


Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
«Lisbon Revisited (1923)»Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

Lisboa: do Tejo a Monsanto |1967|
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Lisboa de Antigamente

Lisboa: do Tejo a Monsanto |c. 1920|
Antes de ser erigida Estação Sul e Sueste; Terreiro do PaçoArsenal de Marinha
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
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