Sunday, 5 July 2020

Sessão de patinagem na Garagem Auto-Palace

A patinagem é o género de sport que mais tem custado a aclimar entre nós — noticiava a Ilustracao Portugueza em 1908 — , tendo falhado sempre as tentativas que com esse fim teem sido feitas em varias occasiões. D'esta vez, porém, torna-se muito provavel que ella crie definitivos fóros de cidade em Lisboa. Pelo menos as sessões de patinagem, que se realisam desde ha algum tempo no Auto-Palace, enthusiastica concorrencia de amadores, que parece nas melhores disposições de manter-se.
A patinagem é sempre um sport dos mais elegantes, e é por isso com satisfação que o vemos em vesperas de conquistar um papel preponderante nos habitos da nossa sociedade mundana, que começa a reunir-se já no Auto-Palace em grande numero para o praticar.[...]

Sessão de patinagem na Garagem Auto-Palace [1908]
Rua Alexandre Herculano
Joshua Benoliel, in AML

Entre os cultores mais ferventes que a patinagem tem já contam-se, como mostram as nossas photographias, as sr." condessa de Jimenez y Molina e sua filha D. Angela, as sr." D. Maria Guell y Bourbon, D. Mercedes Macuriges, D. Marjorie Villiers e D. Guadalupe de Castro, e os srs. barão de Wredenburch, José de Sousa Alte, Eduardo Romero, Jorge Bleck, E. Maia Cardoso, Eduardo Ferreira, Castro Silva, Carlos Maria, etc.. [Ilustração Portuguesa, 1908, 9 de Março]

Sessão de patinagem na Garagem Auto-Palace [1908]
Rua Alexandre Herculano
Joshua Benoliel, in AML

N.B. Em Portugal a notícia mais remota de uso de Patins é-nos relatada por Paulo Soromenho, que nos meados do ano 1873, a D. Maria Pia apresentou os primeiros patins de rodas que se conheceram. Outros relatos dessa época dão-nos conta da existência de patins no Palácio de Mafra trazidos de Paris. Dizem que o quarto de D. Maria II ficava tão longe da biblioteca que a Rainha fazia o percurso de patins. Mais tarde, o Rei D. Carlos também se tornou adepto da modalidade.
Desde as suas origens a patinagem está directamente ligada aos elegantes e aristocráticos da sociedade Portuguesa, que se juntavam em ringues públicos para deslizar ao som de música.

A patinagem artística entrou em Portugal no século XIX e cativou logo a elite, que se juntava em ringues públicos para deslizar ao som de música [s.d.]
Fotografia anónima

Friday, 3 July 2020

Palácio dos Condes de Vimieiro

Este palacete, de discreta aparência, defronte da Biblioteca Nacional, quási ao comêço da Rua Ivens, n.° 10 [actual Largo da Academia Nacional de Belas Artes], onde está instalada desde 1914 a Companhia de Moçambique, é uma edificação do século passado [XIX], que se distingue pela sumptuosidade de algumas salas — uma adornada de ricos espelhos e duas de boas pinturas-e ainda pela magnífica vista panorâmica que da sua fachada nascente se desfruta, sôbre o rio e sôbre a Baixa e Castelo.

Palácio dos Condes de Vimieiro [193-]
Largo da Academia Nacional de Belas Artes, 10
Ferreira da Cunha, in AML

Foi aqui, até ao Terramoto, o palácio dos Condes de Vimieiro, em casas que no século XVI pertenciam ao fidalgo Martim Afonso de Sousa, senhor de Alcoentre, do conselho de D. João III, que foi governador da Índia, avoengo dos Vimieiros, os quais, pelo titulo Faro, constituíam um ramo da Casa de Bragança; nesse palácio habitava em 1578 o Cardeal Rei, D. Henrique, e em Junho de 1579 nele reuniram as Côrtes.
O prédio pertence ao Visconde de Coruche [em 1039].
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 22-23, 1939.

Sunday, 28 June 2020

Tragédia no Cais do Sodré

Uma das maiores tragédias vividas no Cais do Sodré: o abatimento da cobertura de betão da estação dos comboios, a 28 de Maio de 1963. Por entre os escombros. bombeiros e voluntários da Cruz Vermelha tentar ajudar as vitimas. Muitas delas receberam ali mesmo, dos padres entretanto chamados, a extrema-unção.


Os relógios pararam quando, a 28 de Maio de 1963, a cobertura da gare do Cais do Sodré desaba. Por isso, a hora do colapso é a primeira certeza sobre a tragédia: passavam sete minutos das quatro da tarde. Ao final do dia já é conhecido o número de vítimas. Entre homens, mulheres e crianças, contam-se 49 mortos e 61 feridos. São empregados de escritório, domésticas, enfermeiros, reformados, funcionários da companhia que explora a linha, a Sociedade Estoril, e muitos outros, todos apanhados de surpresa. A ajuda não tarda. Entre bombeiros, equipas médicas, militares, a Cruz Vermelha e civis, mais de 400 pessoas acorrem à estação. Cerca de um quarto são operários que trabalham na construção da ponte sobre o Tejo, enviados por ordem do ministro das Obras Públicas. Levam gruas, martelos pneumáticos, apoios decisivos na remoção dos escombros. Sacerdotes consolam os feridos e ministram a extrema-unção aos que não vão conseguir sobreviver.

Estação do Cais do Sodré, 28 de Maio de 1963
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Pela cidade multiplicam-se as teorias especulativas. Uns apontam a falha às fundações. Outros falam num comboio que chocara contra a plataforma. Os mais imaginativos apostam num atentado à bomba. A comissão de inquérito nomeada pelo ministro das Obras Públicas. Arantes de Oliveira começa a trabalhar nessa noite. Recolhe depoimentos e envia fragmentos da placa e das vigas para o Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Os jornais fazem as suas próprias inquirições. Trabalhadores da estação e passageiros frequentes contam ao Diário de Noticias que as fendas e os ruídos suspeitos eram frequentes. Por isso é que ninguém ligou quando se ouviu o som de vidro estilhaçado momentos antes da derrocada.
A 3 de Junho, a Policia Judiciária divulga os resultados preliminares da investigação. "O ruído ou som ouvido minutos antes da catástrofe, semelhante ao estampido de impacto de uma lâmpada eléctrica" — cita o Diário de Noticias — "terá resultado do movimento de fractura do sistema de cobertura." Dois inspectores da Sociedade Estoril ainda avançaram para vedar a zona na altura em que a pala desabou. Nenhum sobreviveu.

Estação do Cais do Sodré, 28 de Maio de 1963
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

No fim, a comissão de inquérito responsabiliza a construtora MANIL pelo acidente. Acusa a empresa de negligencia e incompetência. Falhara na construção das juntas previstas no projecto e na obra de ampliação da cobertura das gares. Como punição ficará sem os alvarás de empreiteiro de obras publicas. Quanto à Estação do Cais do Sodré, já está em pleno funcionamento. O serviço ferroviário recomeçará cinco dias apenas depois da tragédia.
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Bibliografia
Marina T. Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, 2000.
Joana Stichini Vilela e Nick Mrozowski, LX60: A Vida em Lisboa Nunca Mais Foi a Mesma, 2012.

Friday, 26 June 2020

Rotunda de Cabo Ruivo vulgo «do Batista Russo»

A “Francisco Batista Russo & Irmãos, SARL - Sociedade Comercial e Industrial de Automóveis” teve a sua origem na empresa “Francisco Batista Russo e Irmão”, fundada em 1926 por Francisco Batista Russo (pai) como importadora da marca de pneus inglesa ‘Avon’.
Antes de se dedicar ao ramo automóvel, Francisco Batista Russo, natural da Moita, esteve ligado à indústria da panificação e possuiu debulhadoras de descasque de trigo, negociou em melões e em cortiça.

Batista Russo & Irmão, SARL [1970]
Av. Infante D. Henrique com a Av. Marechal Gomes da Costa
Arnaldo Madureira, in AML

Em 1958 decide construir aquilo que se tornou um ícone na cidade de Lisboa: as oficinas da “Francisco Batista Russo & Irmão” na Rotunda de Cabo Ruivo, com projecto arquitectónico de Joaquim Ferreira. Finda a construção, quatro anos depois, a empresa passa a “Sociedade Comercial e Industrial Automóveis Francisco Batista Russo & Irmão” e é construída uma instalação fabril em Vendas Novas para montagem de camiões “MAN”, “Steyr” e Atkinson”. Mais tarde seriam aqui montados os BMW “1600” e “2002”, que chegaram a Portugal pela mão da Batista Russo.

Batista Russo & Irmão, SARL [1961]
Av. Infante D. Henrique com a Av. Marechal Gomes da Costa
Arnaldo Madureira, in AML

Sunday, 21 June 2020

Fábrica de Cerveja Germânia e depois Portugália

 — Isto é o que tu chamas o melhor restaurante de Lisboa? — perguntou Filipa, divertida, parando à porta da cervejaria Portugália, para onde Tomás a conduzira.
Ele encolheu os ombros, a rir-se.
 — Hum... talvez não seja o melhor restaurante de Lisboa, mas é, de certeza, um dos melhores que estão abertos a esta hora da noite.


A história da Portugália é indissociável da história da Cerveja em Portugal, e, para a contar, temos de recuar aos primeiros anos do século XX. Nessa altura, e sob o comando do Dr. Barral Filipe, a Fábrica de Cerveja Leão e a Companhia Portuguesa de Cervejas deram origem a uma sociedade denominada Fábrica de Cerveja Germania que nasceu com o propósito de produzir cerveja ao nível das melhores do mundo. Para isso, foi comprado, em 1912, um enorme terreno na Av. Almirante Reis, construída uma fábrica com 15.000 m2, importado o mais moderno equipamento e convidados os melhores técnicos estrangeiros como consultores.

Cervejaria Portugália [c. 1925]
Avenida Almirante Reis, esquina com a Rua Pascoal de Melo
Fotógrafo não identificado, in DN

Com a 1ª Guerra Mundial, onde Portugal alinhou pelos Aliados, o sentimento anti-germânico levou a uma inteligente medida de marketing e, em 1916, a fábrica passou a chamar-se Portugália, Lda. Em 1921, novos investimentos em técnicos e equipamentos foram feitos e o produto, sob a orientação do mestre cervejeiro alemão Richard Eisen, atingiu uma qualidade absolutamente revolucionária para o mercado e para a época. O nome foi mais uma vez modificado para Companhia Produtora de Malte e Cerveja Portugália, S.A. 

Fábrica de Cerveja Germânia e depois Portugália [1914]
Avenida Almirante Reis
Fachada principal, busto em cantaria representando a marca da fábrica, da autoria do escultor Simões de Almeida
in A Architectura Portugueza
Fábrica de Cerveja Germânia e depois Portugália [1914]
Avenida Almirante Reis,
fachada principiai        
n A Architectura Portugueza

O nascimento, em 10 de Junho de 1925, da Cervejaria anexa à Fábrica de Cerveja, tem uma razão peculiar: uma vez que a distribuição da cerveja produzida era feita em carroças e relativamente precária, era comum os clientes dirigirem-se à Fábrica para encherem os seus próprios barris. A ideia da abertura de um espaço para servir cerveja avulso enquanto os clientes aguardavam o enchimento, teve um êxito imediato. E assim nasceu uma nova forma de consumir Cerveja em Portugal. 

Fábrica de Cerveja Germânia e depois Portugália [1914]
Cavalariças viradas à Rua António Pedro. Edíficio com 3 pisos ligados por rampa, com capacidade para 80 cavalos
in A Architectura Portugueza
Fábrica de Cerveja Germânia e depois Portugália [1914]
Interior da fábrica. Ao fundo vê-se a Rua Pascoal de Melo
in A Architectura Portugueza
Fábrica de Cerveja Germânia e depois Portugália [1914]
Planta da fábrica, delimitada pela Av. Almirantes Reis, e pelas rua António Pedro e Pascoal de Melo. Em baixo à direita, espaço onde virá a ser construído o balcão da Cervejaria Portugália
in A Architectura Portugueza

 
Com ela vieram os mariscos e os famosos bifes, que rapidamente se tornaram o ex-líbris da casa. Nomes como Amália Rodrigues, Vasco Santana e Raul Solnado, por exemplo, eram presença assídua. O seu prestígio era tão grande que a sua esplanada foi escolhida em 1933 para a cena final do filme de Continelli Telmo “A Canção de Lisboa”. Nos anos 50, a fábrica e a cervejaria passaram por uma formidável reestruturação, a sala de refeições foi alargada, criou-se no primeiro andar uma sala de Bilhar e no terceiro piso um terraço onde funcionou, durante as noites de Verão, um cinema ao ar livre.

Cervejaria Portugália [c. 1960]
Avenida Almirante Reis, esquina com a Rua Pascoal de Melo
Estúdio Horácio Novaisv, in FCG

Bibliografia
REBELO, Tiago, És o Meu Segredo, 2005
cm-lisboa.pt  

Friday, 19 June 2020

Becos dos Contrabandistas

A única referência que encontramos num olisipógrafo sobre esta artéria é de Norberto de Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa:«(...) e a norte [da Praça da Armada] corre o pequeno Largo dos Contrabandistas, com suas casitas de um pitoresco côr de rosa do princípio de oitocentos, e superiormente, na Travessa do Sacramento, um renque de habitações uniformes que pertenceram à Casa Real.» 

Rua dos Contrabandistas [s.d.]
Amadeu Ferrari, in AML

Topónimo fixado na memória de Lisboa em data que se desconhece. No entanto, podemos afirmar com segurança que o topónimo é anterior a 18/05/1887 já que por Edital municipal dessa data foi atribuída a designação de Rua dos Contrabandistas à artéria que se inicia junto do n º 17 do Beco dos Contrabandistas e que era vulgarmente designada por Becos dos Contrabandistas (de acordo com a inf. nº 8125 da Rep. de Urb. e Expropriações de 27/11/57, a fls. 3 do processo nº 50786/1957). [cm-lisboa.pt]

Rua dos Contrabandistas [1966]
Augusto de Jesus Fernandes, in AML
Becos dos Contrabandistas [1966]
Augusto de Jesus Fernandes, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol.IX, pp.15, 1939.

Sunday, 14 June 2020

Mosteiro dos Jerónimos: desabou tudo com estampido idêntico ao do trovão subterrâneo

Parte do antigo mosteiro arruinado ameaçava desabar: havia anos que tinham resolvido reedificá-lo. Era um corredor comprido e estreito que nos tempos primitivos deveria ter servido de passeio reservado aos frades. A Casa Pia, que ocupa , como já disse, o antigo claustro, destinava as novas construções para aumento do seu pessoal (...) 
A direcção dos trabalhos foi conferida a um pintor cenógrafo do teatro de S. Carlos, o sr. Cinati, sem dúvida homem de talento, mas que, inexperiente no género de trabalhos que era chamado a superintender; traçou um plano fantástico e deficiente e imaginou levantar na base desse organismo decrépito uma enorme torre quadrada, pesada, maciça, ornamentada de decorações incorrectas e absolutamente deslocada [vd. 2ª foto] e alheia às prescrições.

Mosteiro dos Jerónimos, ruínas causadas pelo desmoronamento do torrre central [1878]
Praça do Império, antig
a de Dom Vasco da Gama, antes Largo dos Jerónimos
Fotógrafo não identificado, in AML

No dia 18 de Dezembro [de 1878], às 9 horas da manhã, desabou tudo com estampido idêntico ao do trovão subterrâneo, soterrando e matando nos escombros do desmoronamento nove ou dez operários. Se o sinistro tivesse ocorrido durante o grande desenvolvimento dos trabalhos, o número de vítimas ascenderia a cem ou cento e cinquenta. Acto contínuo propalou-se o boato de que ia proceder-se a um inquérito. A notícia fez sorrir maliciosamente os que sabiam avaliá-la e conheciam a índole do país. Se algum crédulo teve a ingenuidade de acreditar que desse inquérito resultaria a punição dos culpados, ou mesmo a simples demonstração pública da sua incompetência responderei certificando que não houve inquérito nem solução de espécie alguma.

Mosteiro dos Jerónimos, durante a construção do corpo central [1877]
Praça do Império, antig
a de Dom Vasco da Gama, antes Largo dos Jerónimos
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
RATATZZI, Maria (1833 - 1902), Portugal de Relance, 1879.

Friday, 12 June 2020

Travessa do Fala-Só

Desde meados do séc. XIX que aparecem registos do Beco do Fala-Só, conforme refere Gustavo Matos Sequeira, tendo alguns proprietários deste arruamento solicitado a sua classificação como Travessa, em resultado dos melhoramentos realizados na via, o que acabou por ser oficializado pelo Edital municipal 29-11-1877.
De acordo com Luís Pastor de Macedo, o topónimo “deve o seu nome, decerto, a algum morador que teria aquela alcunha". [cm-lisboa.pt]

Travessa do Fala-Só [1944]
Antigo Beco do Fala-só
Candeeiros de Lisboa (coluna com equipamento, aro, adaptada a electricidade)
Eduardo Portugal, in A.M.L.
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