A apresentar mensagens correspondentes à consulta Rua Castilho ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta Rua Castilho ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Profissões de antanho: o leiteiro

Ordenhavam-nas diante de nós, nas vacarias. E algumas vezes, até, ao ar livre das ruas, pois nesses tempos a cidade e o campo ainda se confundiam na igual doçura de trabalho espreguiçado (...) Mal ouviu a minha encomenda, o homem agachou-se e, de cócoras, pôs-se a afagar as tetas do animal como se tocasse um instrumento luminoso, donde os dedos, com a leveza de gás, extraíam uma melodia branca, a acompanhar não sei que flauta de sonho pastoril. 
(FERREIRA, José Gomes (1900-1985),  O Irreal Quotidiano, Um instrumento maravilhoso atravessa a cidade)
Rua Castilho [1909]
(...) Mal ouviu a minha encomenda, o homem agachou-se...

 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Rua Castilho [1909]
... e, de cócoras, pôs-se a afagar as tetas do animal como se tocasse um instrumento luminoso...

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Rua Castilho [1909]
Ao fundo, o antigo Quartel do Vale de Pereiro (Quartel de Caçadores 2) na actual Rua Braamcamp.
 ... donde os dedos, com a leveza de gás, extraíam uma melodia branca, a acompanhar não sei que flauta de sonho pastoril.(...)
 Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Nota(s): O local onde o fotógrafo Joshua Benoliel captou estas magníficas imagens não se encontra identificado no arquivo. Todavia, tendo como referência outras duas fotos catalogadas como prédios para demolir sitos na Rua Castilho, constata-se que os edifícios em ambas coincidem com os das fotografias (1ª e 2ª) de Benoliel. Comparando, então, a moldura da porta e das janelas do 1º prédio na 1ª foto com a desta imagem, e a varanda do prédio ao centro na 2ª foto, com esta outra, facilmente se  comprova tratar-se do mesmo local: Rua Castilho. 
Como a qualidade da digitalização das fotos para comparação é de péssima qualidade, torna difícil a leitura dos números de polícia, inviabilizando, assim, apontar com maior exactidão o troço da rua onde se erguiam estes edifícios. De qualquer modo, e levando em consideração outros registos fotográficos deste arruamento, arriscaria para local desta bucólica cena de rua, um dos quarteirões entre as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre. Contudo, devo confessar, que aqueles prédios ao fundo na última imagem, não me calham, não sei por quê, mas não me calham... Por via disso, se algum  leitor tiver outras sugestões,  saiba que serão muito bem-vindas.

ADENDA: Já depois de publicado este artigo deparei-me com estas imagens da demolição do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Quartel de Caçadores 2). Como se pode comprovar pela planta do projecto de abertura da Rua Castilho (que reproduzo abaixo), o «prédio que não me calhava» — e que se vê ao fundo na 3ª foto — é, nem mais nem menos, o referido Quartel do Vale de Pereiro, que se situava entre as futuras Ruas Braancamp e  Joaquim António de Aguiar. Donde se conclui que esta cena de rua se desenrola junto ao cruzamento da actual Rua Castilho com a Rua Braamcamp, no troço entre esta e a Rua Alexandre Herculano. Mistério resolvido!

Projecto de abertura da Rua Castilho, 1915
Legenda: a Vermelho, a Rua Castilho; a Verde, o antigo Quartel do Vale do Pereiro; a Azul, o local da cena de rua captada pelo fotógrafo.
Silva, Alberto Pedro da, in Lisboa de Antigamente

domingo, 19 de novembro de 2017

Hotel Ritz

A construção do hotel Ritz, projectado pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, teve início em 1952 e  foi inaugurado em 1959. Para a distinção do Ritz, ainda hoje uma referência no quadro da hotelaria nacional, muito contribuíram consagrados artistas, entre os quais Almada Negreiros, Sarah Afonso, Barata Feyo ou Carlos Botelho. Por indicação do regime de então, ansioso por ter na capital uma unidade de luxo com todos os requisitos da hotelaria moderna, foi constituída, especialmente para este efeito, uma Sociedade de Investimentos Imobiliários (Sodim), da qual fazia parte, entre outros, o banqueiro Ricardo Espírito Santo. Refira-se que em 1959 — quer modernos quer conservadores — não gostaram do que viram, tendo sido muito criticadas as opções artísticas adoptadas para o hotel. Consta, até, que o próprio Salazar — que só visitou o Ritz uma única vez, numa pré-inauguração exclusiva —, não apreciou nada do que lhe foi dado ver no hotel, tendo permanecido em silêncio durante a visita acabando por sair pela porta de serviço das cozinhas, não tendo mais lá sido visto, nem sequer para inaugurarão oficial, à qual, aliás, se recusou a comparecer.
A publicidade ao Ritz dava-o como «O Grande Hotel de Lisboa». Estava equipado com trezentos quartos, todos com sala de banho privativa revestida de mármore, e anunciava-se ambiente climatizado e ventilação garantida por aparelhagem silenciosa. Um must daquele tempo.

Hotel Ritz [1959]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
Obras do metropolitano, vendo-se à esquerda a estátua do Marquês de Pombal e, em baixo, os terrenos do antigo Palácio Sabrosa; ao fundo vê-se o hotel Ritz
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Situado no topo de uma colina no coração de Lisboa, a quinze minutos do aeroporto e a dez minutos da baixa e zona histórica de Lisboa, o hotel reflecte o encanto e história de Portugal na sua arquitectura e interiores espaçosos. Trata-se de uma construção de grande monumentalidade, acentuada pela sua dimensão, pela sua perfeita geometria e pelo revestimento integral das fachadas a mármore. Oferece 284 amplos quartos, com luxuosos quartos de banho em mármore, varandas debruçadas sobre o Parque Eduardo VII, com vistas fabulosas sobre a cidade. O (agora) Four Seasons Ritz Hotel detém mais de 600 obras de arte, desde tapetes e carpetes artesanais, pinturas e esculturas que ornamentam os halls de mármore do hotel. Os seus hóspedes têm ao seu dispor o centro de negócios, 'fitness centre' muito bem equipado, spa e a piscina interior. Do restaurante 'Varanda'' desfruta-se de excelente vista para o Parque Eduardo VII e para os terraços do hotel e oferece o melhor da cozinha portuguesa e internacional. O 'Ritz Bar'' com decoração onde predominam as cores vermelho e preto, tem música ao vivo em piano.

Hotel Ritz [1959]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
António Passaporte, 
in Lisboa de Antigamente
Hotel Ritz vista tomada do Parque Eduardo VII [c. 1960]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
António Passaporte (Loty), 
in Lisboa de Antigamente

O interior, luxuosamente desenhado, acolhe mobiliário fabricado expressamente nas oficinas da Fundação Ricardo Espírito Santo, assim como obras de arte moderna dos mais consagrados artistas da época, como Almada Negreiros, Querubim Lapa, Martins Correia, Lagoa Henriques, Sara Afonso e Carlos Botelho contribuíram para a decoração com valiosas obras. Carlos Calvet e Lino António criaram motivos para tapeçarias, produzidas na fábrica de Portalegre.
O Hotel, incluindo o seu património integrado, encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público.

Hotel Ritz [c. 1959]
Neste sala estão presentes tres tapeçarias "Centauros" do mestre Almada Negreiros inspiradas na mitologia grega
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
Amadeu Ferrari, 
in Lisboa de Antigamente
Hotel Ritz, restaurante 'Varanda'' [c. 1959]
Rua Castilho, Rua Rodrigo da Fonseca; Rua Joaquim António de Aguiar; Rua Marquês de Subserra
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Também digna de admiração é a principal escadaria de acesso ao Salão Nobre com um mural lacado de Pedro Leitão e madrepérola de Arnaldo Louro de Almeida e, ao descer, chega-se junto da coluna do mestre ceramista Querubim Lapa, um verdadeiro totem artístico.

Hotel Ritz
Coluna do mestre ceramista Querubim Lapa e mural lacado de Pedro Leitão e madrepérola por António Louro de Almeida.
 
N.B. Caso esteja interessado e disponha de 30 minutos, aconselhamos ao prezado leitor  uma visita guiada, pela mão da RTP, a este edifício icónico da cidade de Lisboa. Vale bem a pena, acreditem.
__________________________
Bibliografia
BRASÃO, Inês, Hotel, os Bastidores, 2017.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Quinta e Pátio do(s) Geraldes

Da Rua de Artilharia Um, pela a Travessa da Fábrica dos Pentes à Rua Castilho


«Vamos descer a Rua de Artilharia Um, dístico aposto em Agosto de 1911, e que sucedeu ao da velha Rua de Entremuros, esta por sua vez, e desde 1768, modificação designativa da antiga Estrada. Com efeito, esta comprida artéria de Campolide velho descia ao Rato entre muros de quintas; havia, porém, uma quinta chamada de Entremuros, e que teria dado o nome à serventia rústica de setecentos. Esta Rua, antiga, de Entremuros foi designada, simultaneamente quási, na voz do povo e nos escritos dos cartórios, por Rua dos Ciprestes, Rua dos Quentais e Rua dos Geraldes, isto pelos fundamentos de assimilação de que mais adente falarei. [...]

Quinta e Pátio do(s) Geraldes [c. 1900]
 Rua de Artilharia 1, Rua Castilho e Rua Rodrigo da Fonseca
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Pátio do(s) Geraldes [1888]
Rua de Artilharia 1, Rua Castilho e Rua Rodrigo da Fonseca
Exposição Pecuária Nacional em 1888 no Valle de Pereiro (depois Parque Eduardo VII).
Augusto Bobone, in BNP

 
Aqui defronte da Travessa da Fábrica dos Pentes existiu no século passado [séc. XIX] a Quinta e Pátio dos Geraldes, com tanto renome no sítio, e desaparecido há meia dúzia de anos [c. 1933] para urbanização do local. O Palácio, com suas chaminés cónicas (das quais ainda há os vestígios da base (Maio de 1939) no quarteirão por edificar entre as Ruas Castilho e Rodrigo da Fonseca), com sua frontaria armoriada, sua capela de belo pórtico e seu agradável conjunto solarengo, teve história alfacinha, fidalga e política, que aqui não tem lugar.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 94 e 97, 1939)

Quinta e Pátio do(s) Geraldes [1915]
 Legenda: Em cima, a Rua de Artilharia 1; a vermelho a Rua Castilho; a laranja a Rua Rodrigo da Fonseca; a azul Rua Joaquim Augusto de Aguiar (por terminar)
Projecto das ruas Castilho, Rodrigo da Fonseca, Artilharia Um, Joaquim António de Aguiar e Parque Eduardo VII.
in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 4 de março de 2022

Ruas Alexandre Herculano e Castilho

O topónimo Rua Alexandre Herculano foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Deliberação Camarária de 06/05/1882, à “perpendicular à Avenida da Liberdade, em direcção ao Largo do Rato”. Pela mesma deliberação foram atribuídas na mesma área a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Praça do Marquês de Pombal e a Rua Mouzinho da Silveira.

Rua Alexandre Herculano [Início séc. XX]
Éh! galinhas!  Mérca frangos! Galinhas! Quem nas quér i com ôvo?
O prédio de dois pisos (já demolido) — e que fazia esquina com a Rua Castilho foi residência de João Franco Castelo Branco, último Presidente do Conselheiro do Rei D. Carlos I, entre 1906 e 1908: o edifício contiguo, que torneja para a Rua Mouzinho da Silveira, ainda existe.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

O topónimo Rua Castilho foi atribuído pela edilidade em 1882, homenageia António Feliciano de Castilho, um dos grandes escritores da primeira época do romantismo em Portugal, em conjunto com Garrett e Herculano. Notabilizou-se especialmente pela riqueza e expressão artística da linguagem. Castilho nasceu em Lisboa a 28/01/1800 e morreu em Lisboa a 18/06/1875.

Rua Castilho [ant. 1907]
Venda ambulante de toalhas
Cruzamento com a Rua Alexandre Herculano; ao fundo, o antigo Quartel do Vale de Pereiro (Quartel de Caçadores 2) na actual Rua Braamcamp.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

Nota(s): Infelizmente as duas últimas imagens são de baixa qualidade/resolução, graças ao paupérrimo trabalho de digitalização efectuado pelo Arquivo Municipal de Lisboa (amL).

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Rua Castilho esquina com a Rua Braamcamp: Edifício Castil

O topónimo Rua Castilho foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, através de Deliberação Camarária de 06/05/1882.
 
António Feliciano de Castilho, foi um dos grandes escritores da primeira época do romantismo em Portugal, em conjunto com Garrett e Herculano. Notabilizou-se especialmente pela riqueza e expressão artística da linguagem. Castilho nasceu em Lisboa a 28/01/1800 e morreu em Lisboa a 18/06/1875.
 
Rua Castilho esquina com a Rua Braamcamp |1964|
Prédio demolido por volta de 1970. No mesmo local ergue-se, desde 1972, o Edifício Castil. 
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

O Edifício Castil, projectado no início dos anos 70, do séc. XX, (1970-1972), com risco do atelier de Conceição Silva, no qual também participou o arq. Tomás Taveira, surge como o primeiro grande centro comercial de Lisboa, afirmando-se pelo carácter pioneiro da sua concepção arquitectónica, ao estabelecer o diálogo entre o uso do vidro, que cobre a fachada do edifício, com linhas de acentuada verticalidade estrutural. Entre 1973 e 1988 albergou o cinema Castil. 
Este imóvel encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público.

Edifício Castil |1976|
Rua Castilho, 39-39B; Rua Braamcamp, 42-46
Álvaro Campeão, in Lisboa de Antigamente

domingo, 7 de setembro de 2025

Edifício da Ford Lusitana

A sede da “Ford Lusitana, SARL”, fundada em 11 de Janeiro de 1932, situava-se na Rua Castilho em Lisboa, e foi projectada pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro em 1930. Foi demolido em 1974.

O edifício-sede da Ford Lusitana, situava-se no gaveto da Rua Castilho com a Rua Marquês de Subserra, no quarteirão seguinte aquele onde mais tarde o autor viria a projectar o Hotel Ritz.
Para além de escritórios, oficinas e venda de peças o edifício que se destinava a «expor e vender Automóveis, camiões e tractores, também exibia e vendia aviões».
O edifício adopta uma arquitectura de grande horizontalidade ao longo das duas ruas, sendo essa característica acentuada no 1º andar coberto por um terraço.

Edifício da Ford Lusitana, filial da Ford Motor Company U.S.A. |1937|
Rua Castilho, 149 com a Rua Marquês de Subserra, 2
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No gaveto, fazendo charneira entre os volumes ao longo das ruas surge um grande corpo cilíndrico de vidro, luminoso onde a marca se destaca dia e noite [vd. última imagem].Este volume redondo, para além de uma forte componente publicitária que, com êxito imprimiu ao edifício, marca a entrada principal para clientes no edifício. Na altura da sua construção o edifício tinha grande exposição, sendo visível desde a Praça Marquês de Pombal, dominando o lago então existente no atualmente denominado Parque Eduardo VII.

Edifício da Ford Lusitana |c. 1940|
O Parque Eduardo VII foi ajardinado em 1929; a esq., sobe a Rua Joaquim António de Aguiar.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Vista aérea sobre o Parque Eduardo VII |c. 1950|
Ao centro observa-se o edifício-sede da Ford Lusitana e, à esq. deste, os terrenos do futuro Hotel Ritz (1959). Atrás nota-se o Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Concebido para ter grande presença na noite de Lisboa, apresentava rasgados vãos ao nível do R/C onde os modelos da marca se podiam facilmente observar por quem passava nas zonas circundantes.
Neste projecto o arquitecto escolhe as peças e desenha mesmo algum mobiliário, o que permite a concepção da obra como um todo.
(PACHECO, Ana Assis - Ob. cit., 1998)

Edifício da Ford Lusitana |c. 1940|
Gaveto da Rua Castilho, 149 com a Rua Marquês de Subserra, 2
Fachada com corpo cilíndrico de vidro, luminoso onde a marca se destaca dia e noite-
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957) foi um dos mais importantes arquitectos da primeira metade do Século XX em Portugal e principal responsável pela viragem modernista da arquitectura portuguesa. O legado do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro conta com obras como as Gares Marítimas de Alcântara (1943) e da Rocha do Conde de Óbidos (1948), a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (Prémio Valmor 1938), o edifício do Diário de Notícias (anos 1930, premiado em 1940), entre muitas outras.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Rua Castilho, 64-66

O primeiro Prémio Valmor atribuído nesta década, em 1930, projecto do arquitecto Raul Lino da Silva (1879-1974) para Sacadura Cabral, que não viria a ocupá-la, tendo sido vendida nesse mesmo ano a Manuel Duarte. 

Rua Castilho, 64-66  |c. 1930|
Prémio Valmor de 1930A charmosa Rua Castilho, na placidez dos anos 40, o passeio central arborizado, as suas elegantes moradias com vista sobre o casario, destacando-se a estátua do Marquês de Pombal.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Esta moradia reflectia as preocupações do arquitecto com a temática da «casa portuguesa», sobre a qual se debruçou durante vários anos, traduzidos nas formas arquitectónicas portuguesas tradicionais, com jardim circundante e o uso de elementos característicos como o alpendre, os beirais, as cantarias e o azulejo.
 
Rua Castilho, 64-66, traseiras |c. 1930|
Prémio Valmor de 1930
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Demolida em 1982, as cantarias, colunas e portões foram posteriormente utilizados na construção do «Pátio Alfacinha». Actualmente o espaço é ocupado por um parque de estacionamento. (cm-lisboa.pt)
 
Rua Castilho, 64-66, pátio |c. 1930|
Prémio Valmor de 1930
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

domingo, 12 de maio de 2024

Rua Marechal Saldanha com a Rua do Almada

A Rua do Marechal Saldanha é um topónimo atribuído por edital de 31 de Dezembro de 1885 à antiga Rua da Cruz de Pao, e que assim se chamava por haver, dizem, no Alto de S.ta Catarina uma grande cruz de madeira, que servia de guia aos` navegantes até fora da barra.

Nesta artéria é homenageado o ilustre militar Duque de Saldanha (1790-1876), de seu nome João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun que era neto materno do Marquês de Pombal. Notabilizou-se na luta contra as invasões francesas e nas guerras liberais tendo em 1833, sido nomeado por D. Pedro chefe do Estado-maior do Exército. Também se revelou como político tendo sido chefe de governo em 1835, 1846-47, 1851 e 1870.
Mais tarde, por deliberação camarária de 21 de Agosto de 1902, foi também homenageado com a Praça do Duque de Saldanha.

Rua Marechal Saldanha com a Rua do Almada |post. 1948|
Antiga da Cruz de Pau e Largo da Cruz de Pau
À dir. nota-se parte da fachada lateral do Palácio Valada-Azambuja na direcção da Calçada do Combro. 
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

Almada (Rua e Travessa do) — Há duas vias públicas desta denominação; uma no 3.º Bairro, freguesia de Santa Catarina [hoje Misericórdia]; outra no 2.º Bairro, freguesias de S. Julião, Conceição e Mártires [hoje Santa Maria Maior].
Quanto à origem do topónimo "Almada" as opiniões dos estudiosos dividem-se. Mestre Castilho refere que a Rua do Almada, ao Calhariz, comemora o nome do valente guerreiro, Álvaro Vaz d'Almada (Conde de Avranches), amigo dedicado e companheiro nas lides bélicas, do infante D. Pedro, duque de Coimbra, filho de el-rei D. João I, e mortos ambos cobardemente na batalha d'Alfarrobeira, próximo de Coimbra, em 20 de Maio de 1449. Os olisipógrafos Norberto de Araújo e Gomes de Brito refutam a opinião de Castilho e alegam que é Fernão Rodrigues de Almada que dá o seu apelido á rua e que foi senhor por estes sítios quinhentistas, ascendente dos Almadas-Carvalhais, provedores da Casa da Índia, que tiveram Palácio à Boa Vista  Conde-Barão).  
Como quere que seja — remata Gomes de Brito — no Arquivo da Câmara há prova de que em 1565 já esta rua se denominava «de Almada». Escolha o estimado leitor a que mais fundo lhe calhar.

Rua do Almada com a Rua Marechal Saldanha |c. 1900|
Antiga da Cruz de Pau e Largo da Cruz de Pau
Como quer que seja — remata Gomes de Brito — no Arquivo da Câmara há prova
de que  em 1565 já esta rua se denominava «de Almada». 
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 69, 1939.
BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935.
CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga, 1885.

domingo, 8 de abril de 2018

Edifício Heron Castilho

Projectado em 1921 pelo arq. Norte Júnior, este edifício de gaveto e planta em L, com uma feição marcadamente ecléctica, associa elementos decorativos tardios ao gosto Arte Nova, patentes nas mísulas talhadas de carácter antropomórfico (figurando cabeças femininas), que suportam as varandas de grandes dimensões da fachada principal, a uma linguagem classicizante, patente nas balaustradas e no monumental arco de volta perfeita, que remata o corpo do gaveto, assim como nas pilastras, que marcam o ritmo e definem a espacialidade exterior do imóvel. Os planos das fachadas surgem rasgados por fenestrações, isoladas ou agrupadas pelos emolduramentos de cantaria e reboco, cuja verticalidade e grande dimensão acentuam a sua monumentalidade e volumetria. 

Edifício Heron Castilho [c. 1930]
Rua Braamcamp, 40-40D; Rua Castilho, 42-42B
F.S. Cordeiro, in Lisboa de Antigamente

Após um processo crescente de abandono e obsolescência, que culminou na sua quase total demolição, este edifício foi objecto de um projecto de reconstrução a partir de 1985, segundo o risco dos arquitectos Henrique Tavares Chicó, João Pedro Conceição Silva e Francisco Manuel Conceição Silva. Reabriu, em 1992, como centro de serviços terciários, conservando apenas os muros exteriores do primitivo imóvel, sendo que as características técnicas e formais de todo o edifício, incluindo dos 4 pisos novos, nada têm a ver com a construção inicial. Fenómeno bem visível nos alçados completamente envidraçados dos últimos pisos, com terraço de cobertura, que foram erguidos acima do remate da fachada, num plano ligeiramente recuado. [cm-lisboa.pt]

Edifício Heron Castilho [1960]
Rua Braamcamp, 40-40D; Rua Castilho, 42-42B
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Rua Vicente Borga, à Madragoa

Dístico de 1859 originado por corruptela de Vicente Borchers — filho de um negociante alemão, um tal Conrado Bicker, natural de Hamburgo — , que morou na antiga Rua da Madragoa após ter casado com Maria Clara Sousa Peres, no séc. XVIII, e acabou por substituir o antigo topónimo.

O autêntico nome que substituiu o de Madragoa é, reverendo leitor, o de Vicente Borchers — refere o olisipógrafo Luiz Pastor Macedo. Vicente Borchers e não Vicente Borga.
Nem mais, nem menos.
Declaramo-lo peremptoriamente e por nossa honra, como se fossemos em pessoa o próprio Borchers que há um século, já passante — Deus saberá com que desgosto —  ouve pronunciar mal o seu apelido e há um ror de lustros o vê mal grafado nas esquinas da sua rua. Vicente Borchers e não Vicente Borga é que é, e vamos já, já ver porquê.

Rua Vicente Borga |1936|
Perspectiva tomada da Cç. Castelo Picão para a Travessa do Pasteleiro
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Vicente Bernardo Borchers Maldonado, nasceu em 15 de Setembro de 1739 numa casa da Rua Direita dos Anjos; casou, morando então na freguesia de S. Paulo, em 28 de Setembro de 1776, com D. Maria Clara de Sousa Peres, e foi depois aquele morador da velha Rua da Madragoa que originou a substituição do seu vocativo. Não temos .a menor dúvida a esse respeito. Foi deste Vicente Borchers, uma das pessoas mais importantes que por aqueles tempos moraram na rua, que nasceu nos soalheiros do sítio o Vicente Borga que a: pouco e pouco foi destronando, até se fixar oficialmente na artéria, a decrépita denominação de Madragoa.

Rua Vicente Borga |1945|
(Na direcção Rua das Trinas)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Júlio de Castilho, algum tempo antes do dia 1 de Julho de 1893, explicou a razão por que, segundo lhe parecia, a uma das ruas do antigo bairro do Mocambo dera o povo o nome de Madragoa. E foram estas as palavras de que se serviu para a sua explicação:

O Mosteiro das Bernardas, com a invocação de Nossa Senhora da Nazaré, foi fundado em 1652. Pela sua parte oriental, na Rua das Madres, que vai da Calçada do Castelo Picão para a Travessa do Pasteleiro, ficava o antigo recolhimento de Santa Isabel da Hungria, fundado em dias da Raínha D. Catarina: por uma Isabel de Jesus, falecida em 1612, isto segundo o Agiológio Lusitano de Jorge Cardoso. título da Rua das Madres é abreviatura do outro que a rua teve, Rua das Madres Bernardas, para se diferençar da outra travessa superior, e paralela, que se chamou das Madres de Goa, por causa de um hospício ou recolhimento de senhoras da India, que existia na casa que ficou fazendo esquina para a íngreme Rua das Trinas, desde que alargaram esta última. Pois o nome de Rua das Madres de Goa corrompeu-se em Rua da Madragoa, de imunda e torpe memória; e tão torpe, que obrigou o letreiro a mudar-se no de Rua de Vicente Borga, sujeito que não conheço. 

A marcha infantil da Rua Vicente Borga |1935-06-09|
(Junto ao jornal o Seculo)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Porém — temos de declará-lo —  nem foram as madres de Goa que deram origem à denominação da rua, nem ela foi pelo vulgo baptizada com o extravagante nome de Mandrágora. As vezes sucedem coisas —   acrescenta Pastor de Macedo —  , até aos Mestres, especialmente quando a documentação anda arredia ou escasseia, e surge portanto aliciante e convidativo o campo das hipóteses.
A quinhentista denominação da rua (data pelo menos do ano 1579) provém, reverendo leitor, duma Mandragoa, mulher dum Mandragão. Não tenhamos dúvida alguma a esse respeito. Mandragão,
apelido duma família que viveu na Ilha da Madeira, deu em Mandragoa quando na cola de nome de dona ou  de moça, talqualmente sucedeu com os apelios de Leitão, Falcão, Varejão e outros, que, consoante o melhor jeito, se transformavam ou não em Leitoa, Falcoa e Varejoa. E que a rua primitivamente teve em vez de Madragoa o vocativo de Mandragoa também não se nos oferece dúvida alguma, pois que assim a topamos nos documentos antigos e assim a encontramos ainda nas obras impressas na primeira metade do século XVIII.=

N.B. Nesta artéria, no nº 33, nasceu no dia 26 de Julho de 1820, Maria Severa Onofriana, filha de Ana Gertrudes Severa (conhecida como a Barbuda) e de Severo Manuel de Sousa. Por isso, no dia em que se celebrava o 193º aniversário do nascimento da fadista, a Câmara lisboeta e a Junta de Freguesia de Santos-O-Velho colocaram uma placa evocativa no prédio do evento com os seguintes dizeres: 
Neste local
onde sua mãe tinha uma taberna
segundo a tradição nasceu/
em 26 de Julho de 1820
a mítica fadista
Maria Severa Onofriana
______________________________________________________________________________________________
Bibliografia
A Madragoa e o Vicente Borga, artigo de Luís Pastor de Macedo, em Olisipo, VII, 26, pp, 81-84, 144, 1944.
Grande Enciclopédia Portuguesa E Brasileira, p. 213.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Rua Augusta com a Rua da Betesga — ou como “meter o Rossio na Betesga”

O prédio que faz gaveto para o velhinho rocio e fica entre as ruas Augusta e da Betesga ocupado pela «Camisaria Confiança», e pelo Hotel Internacional, não pertence ao Rossio, mas sim às ruas Augusta e da Betesga. No antigo edifício havia há cento e cinquenta anos (c. 1880) uma tabacaria que ficou celebre por ser o poiso certo de João de Deus e de alguns dos melhores espíritos d'essa época. [Castilho: 1935]

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |1922-08-20|
Confluência da Praça de D. Pedro IV com as Ruas da Betesga e Augusta).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A «Camisaria Confiança», sucursal da Fábrica Confiança, foi fundada em 1883, com sede na Rua de Santa Catarina, Porto. Actualmente é um hotel de charme, o Internacional Design Hotel, antes «Hotel Internacional» que sucedeu a um antigo «Hotel Camões», do qual aproveitou a belíssima fachada. Este edifício foi projectado pelo arq. J. C. P. Ferreira da Costa em 1909.

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |1932-03-28|
Na confluência da Praça de D. Pedro IV, vulgo Rossio, com as Ruas da Betesga e Augusta (da Figura do Rei), um sinaleiro tenta orientar o trânsito numa manhã de segunda-feira soalheira, alegre, barulhenta e de gente sempre agitada. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto está erradamente identificado no arquivo: «Na rua da Prata, os automóveis voltando para a rua da Conceição»

N.B. No que à «Betesga (rua)» diz respeito», sem se saber ao certo quando este topónimo se fixou na memória de Lisboa, a sua origem está ligada à configuração do arruamento, pois Betesga, palavra de origem obscura, designa uma rua muito estreita, uma ruela ou viela. Por isso surgiu a expressão popular “Meter o Rossio na Rua da Betesga” – aludindo ao contraste entre a amplitude da Praça de D. Padro IV, vulgo do Rossio, e a estreiteza da Rua da Betesga.

Rua Augusta com a Rua da Betesga: cena de rua |c. 1951|
 O ângulo E. do Rossio dá passagem para a R. da Betesga, antigamente muito estreita (de onde o prolóquio meter o Rossio na Betesga), mas alargada e regularizada após 1755, e a qual, limitando ao S. a Praça da Figueira, vai ter, pelo lado E., ao Poço de Borratém.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

sábado, 26 de novembro de 2016

Palácios do Calhariz: Palácio Calhariz-Palmela e Palácio Sobral

O Largo do Calhariz é um troço da seiscentista Estra da Horta Navia, também denominada Estrada de Santos e este topónimo deriva da existência no local da residência dos Morgados do Calhariz, conforme relata Norberto Araújo:

Encontramo-nos na artéria conhecida em tôda a Lisboa pelo «Calhariz», rua e sítio dêste título, e que tem origem no Palácio dos «Sousas Calharizes», como diz o vulgo e como se encontra em livros antigos. É este edifício, à direita, com um pequeno jardim adjacente, e que ocupa todo o quarteirão confinado entre as Ruas do Calhariz, da Atalaia, Travessa das Mercês e Rua da Rosa.
Oferece, como vês, um certo ar nobre, de transição do estilo solarengo velho para o tipo palaciano do século XVIII. É elegante o portão ladeado por duas colunas dóricas, cujo entablamento suporta a varanda de balaústres, única sacada do primeiro andar. As sete janelas de sacada de cornija saliente do andar nobre, que é o segundo, dão ao prédio uma harmonia e distinção invulgares aos edifícios desta construção. O pequeno jardim é gracioso e foi construído depois de edificado o palácio, ocupando o lugar de uma serventia que daqui saía, e que erra o prolongamento da Rua da Trombeta, que ainda se continua nas traseiras até a Fiéis de Deus, serventia vendida pela Câmara de Lisboa a D. Pedro de Sousa Holstein. por um conto de réis...

Palácio Calhariz-Palmela [ant. 1900]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz; Rua da Rosa (ao fundo à dir.)
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

O palácio foi mandado erigir em 1703 pelo Morgado do Calhariz, D. Francisco de Sousa (1631- 1711). O edifício, além de moradia ducal — relembra Norberto de Araújo (1938) — tem sido de tudo um pouco: aqui esteve a Academia Real de Fortificações que precedeu a Escola do Exército e Escola Militar, em 1796 e em 1811, a Câmara Eclesiástica até 1830, a Contadoria Geral das Tropas, o Ministério dos Estrangeiros (em 1882), a Liga Naval até há poucos anos [o autor escreve em 1938], etc., ocupando quaisquer destas instituições parte do edifício, ou, por vezes, talvez todo.
Festas deslumbrantes viu o Palácio desenrolar-se nos salões, cujo recheio de arte era precioso.

Palácio Calhariz-Palmela [1929]
Rua da Atalaia (dir.); Largo do Calhariz; Rua da Rosa (ao fundo à dir.)
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Sofreu restauros e ampliações em 1843-44 dirigidas pelos artistas italianos Rambois e Cinatti,  e uma anexação ao Palácio Sobral em 1956, destruindo as obras oitocentistas (jardim e pavilhão), prolongando o corpo principal do edifício até à Rua da Atalaia, depois de em 1947 os Morgados do Calhariz, entretanto criados Duques de Palmela, o terem vendido à Caixa Geral de Depósitos para lhe servir de sede. Em 1969 está em curso a obra do passadiço sobre arco (sobre a Rua da Rosa) de ligação entre os dois palácios.
Sofreu obras de recuperação em 1997 com projecto dos arqs. Dante Macedo, Conceição Macedo e José Afonso, para albergar a Companhia de Seguros Fidelidade, o que lhe valeu a atribuição do Prémio Eugénio dos Santos referente a esse ano.

Palácio Calhariz-Palmela onde está a Caixa Geral de Depósitos,  e, ao fundo, o Palácio Sobral [1966]
Largo do Calhariz; Rua da Atalaia; Travessa das Mercês; Rua da Rosa; Rua Luz Soriano
Armando Serôdio, 
in Lisboa de Antigamente

Acerca da história do primitivo Palácio Sobral [vd. 4ª imagem] diz Norberto de Araújo: «Reconstruído modernamente — fora levantado entre 1770 e 1780, por Joaquim Inácio da Cruz Sobral, de quem descenderam os Condes de Sobral, que, para erguer o palácio, comprou o velho prédio aqui existente, pertencente a Lázaro Leitão Aranha, rico e erudito Principal da Sé, que nele fez reunir a famosa Arcádia em 1764.»
Outro ilustre olisipógrafo — mestre Júlio Castilho — apresenta uma descrição pormenorizada do antigo palácio do século XVIII na sua Lisboa Antiga (1903):
Formava o palácio um vasto paralelogramo, com a frente principal de 130 palmos (uns 29 metros e tanto) sobre a Rua Direita, ou Largo do Calhariz, a oposta sobre a Travessa das Mercês, a ocidental sobre a Rua do Carvalho [hoje Luz Soriano], e a oriental sobre a [Rua] da Rosa.

Palácio Calhariz-Palmela [post. 1901]
 Largo do Calhariz; Rua da Atalaia (ao fundo à dir.); nota para os elegantes mirantes.
Alberto Carlos Lima, 
in Lisboa de Antigamente

A fachada sobre o Calhariz era dividida em três corpos, sendo os laterais separados do central por pilastras correspondentes ás dos cunhais, e terminando ambos em feitio de torres sobrepujadas de mirantes elegantíssimos.
No corpo central dois grandes portões de entrada ornamentados, e por cima duas filas de sacadas, sendo mais nobres e altas as do andar superior.
Na aresta dos dois cunhais viam-se as Armas, que eram: escudo cortado; o 1.° de azul, cinco estreitas de seis pontas, de oiro, postas em cruz; o 2.º de prata ondado de azul; bordadura de vermelho, com as palavras Nomen honorque meis em letras de oiro. Elmo; timbre: cão de prata com coleira de vermelho, e chave de oiro na boca.
Os portões abriam para duas vastas lojas em forma de corredores, que ambas desembocavam no grande pátio, onde as carruagens davam volta, entrando por um portão e saindo pelo outro.
Ao fundo desse pátio, no interior da parte do edifício que deitava para as Mercês, ficava a entrada monumental de quatro degraus conduzindo aos vinte e dois da escadaria, bifurcada para a direita e para a esquerda em dois outros lanços, que levavam ao andar nobre, onde eram as salas.

Gravura do Palácio Sobral, no Calhariz [séc. XVIII]
in Lisboa Antiga (1903)

Em 1887, o Palácio Sobral é adquirido «por 50 contos e pico» pelo Estado para instalação da Caixa Geral de Depósitos, e de imediato, se iniciam obras de recuperação e remodelação. Em 1969, depois de uma reconstrução total, procede-se à uniformização das fachadas e efectua-se a ligação por arco dos dois palácios — Calhariz-Palmela e Sobral — hoje Edifício da Caixa Geral de Depósitos, CGD, do Calhariz.
____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26, 1938.
 Lisboa antiga, Júlio de Castilho, 1903, vol. III, p. 26.
 cm-lisboa.pt/toponimia; monumentos.pt.
Web Analytics