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Wednesday, 17 October 2018

Cine Esperança

No antigo Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré (ou das Bernardas), na Rua da Esperança, abre em Junho de 1924 o Cine Esperança. Num bairro bastante populoso onde a comunidade não se mostrava particularmente interessada na “fotografia animada”, o empresário Santos Malafaia resolveu ainda assim arriscar a abertura do negócio que acabou por fechar em 1950. Hoje em dia no mesmo espaço está instalado o auditório do Museu da Marioneta.

Cine Esperança [1968]
Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré
Rua da Esperança, 146
Também chamado Abadia de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo; Mosteiro das Bernardas; Convento das Bernardas;
Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré de Lisboa
Armando Serôdio, in A.M.L.

Esta Rua da Esperança — relembra-nos o ilustre Norberto Araújo — , com carácter bairrista, despido de pitoresco, mas expressivo - e que deve seu nome ao nobre Convento da Esperança de que falarei abaixo - foi reconstruída depois do Terramoto; dela saem, pelo lado Norte, agora à nossa esquerda, a Calçada do Castelo Picão, a Travessa das Izabéis, e a Travessa do Pasteleiro, bizarras e populares, que vão dar ao coração da Madragoa, e pelo lado Sul a já citada Travessa dos Barbadinhos.

Cine Esperança [1969]
Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré
Rua da Esperança, 146
Também chamado Abadia de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo; Mosteiro das Bernardas; Convento das Bernardas;
Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré de Lisboa
João Goulart, in A.M.L.

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 22, 1938.

Sunday, 14 October 2018

Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré (ou das Bernardas)

Erigido na parte mais alta da Rua da Esperança, à direita de quem sobe, este convento foi primitivamente das religiosas recoletas de S. Bernardo, vulgo Bernardas.


Começou como recolhimento de mulheres penitentes, passando a convento em 1654.
A religião de S. Bernardo é tão antiga como a nacionalidade, embora até 1653 não houvesse descrição de nenhum convento de religiosas Bernardas Descalças.
Era, ness altura, Frei Vivaldo de Vasconcelos (Abade do convento de Nossa Senhora do Desterro), o único da Ordem de S. Bernardo que existia em Lisboa. E sabendo ele que havia um recolhimento de devotas que queriam servir a Deus, pensou em fundar um convento de monjas cistercienses, pelo que pediu licença a D. João lV, não o conseguindo.

Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré
Rua da Esperança, 146
Também chamado Abadia de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo; Mosteiro das Bernardas; Convento das Bernardas; Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré de Lisboa
Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755, pormenor, in Museu de Lisboa

Voltando à carga por intermédio de D. Luísa de Gusmão, conseguiu finalmente a licença. E aconteceu que, sentindo El-Rei formigueiros intensos num braço que muito o incomodavam havia dias, aquando da assinatura da licença achou-se de repente curado, o que interpretou que tivesse sido pelo ddespacho concedido, dando muitas Graças pela hora em que acedeu na rubrica.
Foi eleita Abadessa D. Antónia Moniz, com o nome de Soror Antónia do Espírito Santo, durante 12 anos.
Seguiu-se D. Francisca de Vasconcelos (Soror Francisca das Chagas) e depois D. Maria de Almeida (Maria do Sacramento). 

Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré [1968]
Rua da Esperança, 146
Também chamado Abadia de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo; 
Mosteiro das Bernardas; Convento das Bernardas; 
Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré de Lisboa
Armando Maia Serôdio, in A.M.L.

Fechou-se a clausura em 1655, sendo a invocação da igreja e do convento em honra de Nossa Senhora da Nazaré.
Não teve desde o início padroeiro, nem rendas que suprissem as dedespesas necessárias, sendo preciso os dotes das religiosas para continuar as obras do convento.
Em 1706, era habitado por 55 monjas.
Tinha o cenóbio 6 dormitórios azulejados até grande altura e as celas eram todas azulejadas à volta, coisa que na época não acontecia na maioria dos outros conventos da cidade.
Ficou completamente destruído com o terramoto de 1755, indo as freiras abarracarem-se na cerca do convento da Esperança.
Seria mais tarde reedificado e transformado em casas de habitação para famílias pobres.

Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré
Rua da Esperança, 146
Também chamado Abadia de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo; Mosteiro das Bernardas; Convento das Bernardas; Mosteiro de Nossa Senhora da Nazaré de Lisboa
Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755, pormenor, in Museu de Lisboa

N.B. Tendo tido diferentes donos particulares durante quase século e meio, na sua igreja se instalou um cinema (1924) e uma oficina (década de 1950), tendo a restante área conventual sido maioritariamente ocupada por ocupação educacional (séc. XIX) e habitacional (desde o início do séc. XX). Depois de décadas a padecer de problemas de salubridade, sobrelotação e conservação, a Câmara Municipal de Lisboa adquire o imóvel em 1998, onde é instalado o Museu da Marioneta, mantendo-se simultaneamente a função habitacional.
_____________
Bibliografia
CAEIRO, Baltazar José Mexia de Matos,, Os conventos de Lisboa, 1951.

Sunday, 23 September 2018

Theatro Phantastico (Teatro Fantástico)

Espreitamos na Rua do Jardim do Regedor, o sítio onde foi o Teatro Fantástico, com um átrio feito de estalagmites e estalactites, de pasta colorida, por onde passaram alguns artistas que estão hoje na primeira fila.¹


Um dos mais antigos animatógrafos de Lisboa e do país foi o popular Teatro Fantástico. Inaugurado em 1909, fez sensação devido à sua decoração cuidada e bastante arrojada para a época. O interior da sala tinha uma atmosfera diferente devido essencialmente à decoração do tecto que ostentava estalactites feitas de pasta de papel. Em conjunto com uma iluminação bem conseguida a realçar essa particularidade, o espectador quase que se podia sentir como estando dentro de uma gruta.

Theatro Phantastico [1912]
Rua do Jardim do Regedor, 4-8
Perspectiva tomada da Rua das Portas de Santo Antão
Em caraz, a revista Hoje Anda à Roda estreada em 1912
Joshua Benoliel, in  A.M.L

Em 1915 muda de donos e também de nome, passando a designar-se «Paradis». Um ano depois volta a mudar de empresa exploradora e desta vez passa a chamar-se «Salão Rubi». Em 1917 terminam as exibições cinematográficas e o local passa a ser utilizado como teatro recuperando o nome Fantástico. As constantes mudanças de administração devidas a má gestão provocam uma instabilidade que acabaria por ditar o seu encerramento definitivo em 1918.² 

Theatro Phantastico [1912]
Rua do Jardim do Regedor, 4-8
Cena da revista Hoje Anda à Roda estreada em 1912
Alberto Carlos Lima, in  A.M.L

Bibliografia
¹ SEQUEIRA, Matos, Velhos teatros de Lisboa desaparecidos, 1952.
² RIBEIRO, M. Felix, Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa, 1896-1939, 1978.

Sunday, 19 August 2018

Cinema Palatino

Em 1931, a revista «Cinéfilo» — suplemento semanal do jornal «O Século» — dedicava um artigo a uma nova sala de cinema da capital: o «Palatino». Rezava assim:

Inaugurou-se em Lisboa um novo cinema de bairro. o Palatino, sito no gaveto da Rua Filinto Elísio [fachada principal, entrada] com a Rua Gil Vicente, a Santo Amaro.
Foi construido, desde os alicerces, segundo um projecto do[s[ arquitecto[s] [Raul Lino e] sr. Perfeito de Magalhães. As decorações, admiráveis de simplicidade e de bom gôsto, atestam a fina sensibilidade de Raul Lino. Nenhum pormenor foi descurado, para que a nova sala não deixasse de agradar aos seus freqüentadores. Ponderaram-se todas as condições de confôrto e visibilidade, não sendo esquecidas as condições acústicas, que devem plenamente satisfazer todas as exigências. Os projectores são da marca Kalee e os reprodutores de som Klang-Film-Tobis, o que equivale a dizer, em face de provas já prestadas, que se trata de excelente material toto-acústico.
Os moradores do populoso bairro de Santo Amaro devem felicitar-se pelo grande melhoramento. visto que, por preços módicos, podem assistir à apresentação de belos filmes sonoros.

Cinema Palatino [post. 1931]
Filinto Elísio [fachada principal, entrada] com a Rua Gil Vicente
Fotografia anónima

Ao acto inaugural da nova sala — prossegue o articulista — , que comporta cerca de novecentos lugares [notável para um mero cinema de bairro], assistiram empresários, convidados, representantes de imprensa e de algumas firmas distribuidoras de filmes. um dos intervalos, serviu-se um fino ‹copo de água». Nële usou da palavra o sr. T. Guimarães. delegado da Paramount. a firma que distribuiu o programa de abertura do Palatino. e cujo brinde constituiu um louvor para a bela iniciativa levada a cabo pela nova emprêsa exibidora, que também foi vivamente felicitada.==
O Cinema Palatino fechou portas em 1968.

Cinema Palatino, matiné [1935-12-26]
Rua Filinto Elísio
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

N.B. Esta artéria — até 1938 denominada Rua nº 2 do Bairro Rolão — , homenageia o poeta arcádico Francisco Manuel do Nascimento (1734–1819), um sacerdote que usava o pseudónimo de Filinto Elísio, o qual lhe fora dado pela marquesa de Alorna quando lhe ensinou latim e a quem dera primeiro o nome árcade de Alcípe. Fez traduções e compôs odes, epístolas, epigramas e sátiras abrangendo as suas Obras Completas num total de 11 volumes. Refugiou-se em França a partir de 1778 para fugir da Inquisição.

Cartaz do Cinema Paladino [1941]
in Museu do Fado


Bibliografia
CINÉFILO, Vol. 4, Edições 124-149 p.25, 1931.
cm-lisboa.pt.

Sunday, 29 July 2018

Cinema Éden

O novo Éden, enfim, foi inaugurado, com solenidade invulgar, em 1 de Abril de 1937; representou-se a peça «Bocage», na qual o protagonista foi interpretado por Estêvão Amarante. 

O Éden novo não resistiu à crise do teatro em Portugal, e pouco tempo depois de inaugurado começou a explorar cinema. [Araújo: 1939]


Classificado como Imóvel de Interesse Público, tem projecto inicial do arq. Cassiano Branco, terminado pelo arq. Carlos Dias. Esta construção típica do início dos anos 30 do séc. XX — veio substituir o primeiro Éden Teatro — foi considerada uma das mais importantes obras da arquitectura modernista em Portugal. Inaugurado em 1937, constitui-se como um animado pólo de diversão, com a sua grande sala de espectáculos, bares e espaços comerciais no piso térreo. De planta rectangular, evidencia uma acentuada horizontalidade e cobertura em terraço. 

Cinema Éden  [c. 1943]
Praça dos Restauradores, 17-24
Em cartaz, o filme «Fátima, Terra de Fé» do realizador Jorge Brum do Canto que chegou às salas de cinema em 2 Junho de 1943
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..

O exterior destaca-se pelo original jogo de formas e volumes da fachada, desenvolvida simetricamente em relação a um corpo central, evidenciando-se a utilização do vidro e do ferro nas janelas e os painéis do friso superior, com baixos-relevos evocativos das artes representadas no interior da sala de espectáculos, que foi o Éden.

Cinema Éden  [1935]
Praça dos Restauradores, 17-24
Publicidade nos tapumes do cinema Éden em construção
Fotografia anónima, in A.M.L.
Cinema Éden  [1936]
Praça dos Restauradores, 17-24
Publicidade nos tapumes do cinema Éden em construção
Fotografia anónima, in Arquivo do Jornal O Século
Cinema Éden  [1937]
Praça dos Restauradores, 17-24
A fachada do Éden (Teatro) no dia da inauguração com a peça «Bocage»
Alexandre Cunha, in A.M.L.

O interior merece destaque pelo jogo dinâmico dos seus acessos, favorecendo uma animada circulação, através de escadarias suspensas que se cruzam, assim como pelos vários pormenores decorativos. Desactivado como sala de espectáculos em 1989, o edifício foi objecto de profundas obras de remodelação e reconversão, em 1995, segundo projecto dos arqs. Frederico Valssassina e George Pancreach, passando a acolher uma unidade hoteleira nos pisos superiores. [cm-lisboa.pt]

Cinema Éden  [c. 1937]
Praça dos Restauradores, 17-24
Plateia, Balcão

 Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..
Cinema Éden  [c. 1937]
Praça dos Restauradores, 17-24
Escadaria, entrada

 Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..

Friday, 18 May 2018

Cinema Cinearte

Do lado Norte, sôbre o Jardim [de Santos], — recorda-nos Norberto Araújo nas suas Peregrinações — para além da Rua Vasco da Gama [hoje Largo de Santos], debruçam-se ao alto as trazeiras dos prédios da Rua Marquês de Abrantes, e, no alinhamento, alguns armazéns e casas antigas; os terreiros pertenceram à Casa de Abrantes, a qual, ao afora-las a particulares, punha como condição que os prédios não pudessem ter mais de 15 metros de altura, a-fim-de não prejudicar a vista panorâmica que do Palácio se desfrutava sôbre o rio.


Cinema Cinearte [1939-40]
 Largo de Santos
Inaugurado em 14 de Março de 1940 com o filme de Farnk Capra "You Can't Take It with You" de 1938 ("Não o Levarás Contigo")
Estúdio Novais, in F.C.G.

A condição prescreveu: ali tens agora (Setembro de 1939) a erguer-se um grande «Cine Arte» [sob risco do arquitecto Raul Lima Rodrigues (1909-1979)], edifício que neste local, pelo contraste da vizinhança urbana, e a despeito da boa aparência que o distinguirá, vai ficar pesado, na desproporção.

Fábrica de carpintaria de José Lino [1901]
Largo de Santos
Local posteriormente ocupado pelo Cinema Cinearte
Machado & Souza, in AML

Eram aqui as fábricas de carpintaria mecânica e os armazéns de madeira trabalhada, de José Lino, que houve às mãos os chãos, como disse, da Casa Abrantes. Em 1919 os industriais que sucederam a José Lino (que foi pai do arquitecto Raúl Lino e do industrial José Lino) passaram o domínio directo dêstes chãos a Orey Antunes & C.", que, por sua vez, em Fevereiro de 1926 o transferiram para Orey, Limitada. É esta firma a proprietária do terreno onde a Sociedade Administrativa de Cinemas (de que são principais cotistas Horácio. Pimentel e João Francisco da Silva, êste ligado à Casa Orey) está a erguer o «Cine Arte». 

Cinema Cinearte [1940]
Largo de Santos
Vista parcial nocturna da fachada
Arquitecto Raúl Rodrigues Lima

Estúdio Novais, in Biblioteca
de Arte da F.C.G..
Cinema Cinearte, sala [1940]
Estúdio Novais, in F.C.G.
Cinema Cinearte [1940]
Máquinas Cinematográficas 

Triumphator
Estúdio Novais, in F.C.G.



Classificado como Imóvel de Interesse Público, traduz um volume compacto, coberto por terraço, contrastante com a traça urbana envolvente, assemelhando-se a um edifício industrial de linhas modernistas. O cinema encerrou as portas em 1981. Nove anos passados, em 1990, já na posse da Câmara Municipal de Lisboa, o espaço foi cedido à companhia de teatro "A Barraca", que aí continua a funcionar.



Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 88-89, 1939.

Sunday, 18 March 2018

Palácio Regaleira, a S. Domingos

No quarteirão entre as eEscadinhas da Barroca e a Calçada do Garcia, ali tens o prédio, n.º 14 a 15 com sete portas, que foi o Palácio Regaleira, propriedade no meado do século passado [séc. XIX] de D. Ermelinda Monteiro [Allen] d'Almeida, baronesa e viscondessa da Regaleira, título que passou e se mantém nos Morais Palmeiro; êste prédio pertenceu a Francisco de Sousa Cruz, em 1915? passou por compra a Artur Aires, e hoje [1939] é da Companhia dos Tabacos.

Existiu aqui um clube de jôgo e de prazer, imprôpriamente chamado "Clube Regaleira".¹


O registo mais antigo que se encontra sobre este edifício remonta a 28 de Outubro de 1814, no qual a localização do palácio é descrita no Registo de Descrições Prediais. A localização privilegiada do Palácio Regaleira numa zona nobre, central e movimentada da cidade, próximo do Rossio e no mesmo Largo da Igreja de São Domingos fez com que este mantivesse a sua centralidade relativamente ao espaço e vida urbana ao longo dos tempos.
Os dados precisos sobre a autoria e data de construção do edifício são desconhecidos. Vários autores sugerem tratar-se de uma edificação do século XVIII, provavelmente anterior ao terramoto de 1755. Segundo José-Augusto França, em gravuras anteriores a essa data, surge representado no mesmo local um edifício que apresenta grandes semelhanças com o actual: um prédio de três pisos, com a fachada principal virada a sul, de arquitectura sóbria e disposição simétrica de portas e janelas, que ocupam de forma regular grande parte da frontaria. É provável que o edifício tenha entrado na posse da família Allen em período anterior ao de D. Ermelinda Allen Monteiro d’Almeida, a primeira viscondessa da Regaleira, que teria herdado o Palácio dos seus pais e empreendido os trabalhos de remodelação entre 1835 e 1842, conferindo ao edifício a sua traça actual.

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
Mário Novais, in Biblioteca de Arte F.C.G.

A vida social de grande ostentação e as festas sumptuosas dadas nesta época pela baronesa e viscondessa da Regaleira no seu palácio lisboeta são-nos descritas por Fialho de Almeida:
«A primeira foi em 4 de Março de 1842, e Paulina de Flaugergues aponta-a como uma das mais belas e animadas da estação. Estiveram cerca de mil convidados, e era notável a porção de mulheres bonitas que se encontrava nos salões. A ornamentação da casa em pouco ou nada fora alterada a mais do que costumava ser nos dias ordinários. O palácio de madame Monteiro d’Almeida era um verdadeiro museu de coisas de arte e de elegância, e arcava em gosto e riqueza com a residência dos Palmelas, dos Fronteiras, dos Atalaias, e dos viscondes de Porto Covo […] No pátio da casa, em que tocavam três bandas de regimento, fora improvisado um jardim com laranjeiras, pritchardias e camélias, sob uma tenda de seda, às riscas multicolores, esticada e, lanças e albardas, que aprumavam de roda, mais de catorze ou quinze estátuas de guerreiros.»²

Em 1901 — após ter saído em definitivo (1898) da posse da família Allen — está instalado no Palácio Regaleira o Teatro Eléctrico Mágico. A partir do ano seguinte, funciona nesse edifício o Liceu de São Domingos, um desdobramento do Liceu do Carmo. Segundo o olisipógrafo Appio Sottomayor, terá aí funcionado, pouco tempo antes da implantação da República, a sala de cinema Rossio Palace, na qual se realizam, para alguns espectadores escolhidos e pagantes, sessões especiais com filmes pornográficos que têm lugar pela noite fora49. Já João Paulo Freire refere nas suas memórias «uma exposição-museu de figuras de cera, com uma secção reservada a doenças venéreas» que teria estado no Palácio Regaleira em 1918, aproximadamente.³

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
No início do séc. XX esteve aqui instalada sala de cinema Rossio Palace
Mário Novais, in Biblioteca de Arte F.C.G.

No mesmo edifício funciona ainda um estabelecimento comercial denominado Vaccaria de S. Domingos e um hotel. A 24 de Março de 1919 o prédio foi vendido à firma Arthur Adriano Ayres, Lda. Este dado, retirado dos Registos Prediais, contradiz a data de transição da propriedade do imóvel que nos é dada por Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa como se pode ler logo no inicio desta publicação: «em 1915? passou por compra a Artur Aires».

Palácio Regaleira [1910]
Na esquina do Largo de S. Domingos com as Escadinhas da Barroca, observa-se a Vaccaria S. Domingos
António Novais, in AML

























No que respeita ao Regaleira Club — também mencionado por Norberto de Araújo como Clube Regaleira — há notícia do seu funcionamento entre 1920 e 1922. Contudo, este poderá ter aqui funcionado antes da data indicada. Entre Fevereiro e Maio de 1917 estaria, a julgar pelo nome, aí já instalado o Club Palácio da Regaleira, que pagava ao Governo Civil de Lisboa a devida licença para prolongar, todas as noites, as suas diversões para além da meia-noite. Não foi no entanto possível apurar se este seria ou não o mesmo estabelecimento conhecido por Regaleira Club em 1920. O seu encerramento em 1923 parece ser consensual.
Com a sua instalação no Palácio Regaleira e a adopção do nome deste para sua própria denominação, este clube nocturno procurou claramente beneficiar do estatuto alcançado e difundido na época da baronesa e viscondessa da Regaleira, aproveitando do edifício a aura que ainda prevalecia de festas sumptuosas e luxuosas.

«A monumental escada» e «A majestosa sala do “Regaleira Club”»
Efeitos da Guerra», ABC, 7 de Julho de 1921 [fotografias de Serra Ribeiro]

O palácio é vendido à Companhia de Tabacos de Portugal, que compra o imóvel pelo montante de 1.303.000$00 em escritura de 14 de Novembro de 1923.
Os inquilinos multiplicam-se e sucedem-se: um Armazém de Roupas Nogueira Viegas Lda.; a Fotografia Electro Rápida, de Brito Gago Justel; um estabelecimento de instrumentos musicais, de Larcher Castelo Branco, um estabelecimento comercial de artigos de malha, de José Esteves de Almeida; a Empresa Portuguesa de Instalações Eléctricas, Lda.; um estabelecimento de comércio de fruta e um outro de peixe, de Maria Fernandes de Almeida; o Bazar Universal, de Orlando Silva. Por estes anos está também instalada no Palácio Regaleira a Casa das Beiras, instituição de carácter regional que organiza festas e récitas.
No final da década o edifício encontra-se em adiantado estado de degradação: «O palácio estava em mísero estado. Parecia um chavascal. Soalho esburacado, paredes sujas, portas escangalhadas, um pavor.»
Em 1933 a Companhia dos Tabacos arrenda à Ordem dos Advogados o 1.º andar do edifício, que inicia obras de recuperação no palácio. A nova sede da Ordem dos Advogados só é inaugurada em cerimónia solene a 24 de Maio de 1939. Finalmente, a 26 de Janeiro de 1960, a Companhia dos Tabacos de Portugal vende o Palácio Regaleira à Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados e Solicitadores pelo preço avultado de 11.000.000$00.
Tudo leva a crer que a traça arquitectónica exterior do edifício se tenha mantido igual desde meados do século XIX, altura em que se realizaram os amplos trabalhos de remodelação. Já o interior do Palácio terá conhecido múltiplas e significativas intervenções, em resultado dos numerosos inquilinos e das diversas actividades que ali tiveram lugar.
_________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 81, 1939.
² Fialho de Almeida, Vida Errante, pp. 334-335, 1925.
³ João Paulo Freire, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, J.P. Freire, 1931-1939, p. 10-11.
Cecília Santos Vaz, Clubes nocturnos modernos em Lisboa: sociabilidade, diversão e transgressão (1917-1927), Palácio Regaleira, pp. 76-81, 2008.

Sunday, 10 December 2017

Cinemas de Antanho: Salão Central

O Salão Central (cinema) data de 8 de Abril de 1908, e sucedeu a uma casa alemã de artigos de electricidade. [Araújo:1939]


Em 1908 — onde fora a capela do Palácio Foz, dedicada a de Nª Sª da Pureza — é inaugurado o Salão Central: «O mais luxuoso e deslumbrante salão de animatógrapho de todo o país», sendo sócio-gerente Raul Lopes Freire, filho de um reputado comerciante lisboeta. Tinha a configuração de um pequeno teatro, com trabalhos cenográficos de Eduardo Reis. Dispunha de projector e exibia filmes da Pathé, fornecidos pela Empresa Portuguesa Cinematográfica e de um conjunto musical que acompanhava os filmes — na época do mudo —, através de uma partitura original, ou improvisada na altura, mas que preenchia igualmente os intervalos com música ao gosto da assistência.

Salão Central [1911]
Praça dos Restauradores, 31; Elevador da Glória
 Joshua Benoliel, in AML







 
Encerrado em 1926, reabriu portas em 1928 com a designação «Cinema Central» depois de realizadas obras e de uma completa remodelação.

Salão Central [1909]
Praça dos Restauradores, 31; Palácio Foz, legação dos Estados Unidos da América; Elevador da Glória
 Joshua Benoliel, in AML



Wednesday, 22 November 2017

Cine-Bélgica

O Cine-Bélgica, servindo o bairro do mesmo nome e toda a zona do Rego, abriu as portas a 25 de Julho de 1928, no número 175 da Rua da Beneficência. Com uma lotação estimada de 500 lugares entre plateia e balão, fora projectado pelo construtor civil Domingos Pinto e construído no local de um antigo barracão de arrumações. Conhecido por Bélgica-Cinema a partir de 1931, viria a ser adaptado ao cinema sonoro em 1933, através da instalação de uma aparelhagem R.C.A. Photophone¹. Durou várias décadas, conhecendo um verdadeiro segundo apogeu a partir de 1968, como Cinema Universitário, com programação criteriosa, digna de um cineclube. 

Cine-Bélgica, Bélgica-Cinema[1961]
Rua da Beneficência, 175
Arnaldo Madureira, in Arquivo Municipal Lisboa

Nos anos 70 foi ainda Cinema Universal, explorado pela distribuidora Animatógrafo, sob a direcção do produtor e realizador António da Cunha Telles, antes de encerrar para obras de vulto que o transformariam em novo ponto de encontro dos lisboetas mais jovens: o Rock Rendez-Vous. Foi nas célebres noites do Rendez-Vous que, ao longo da primeira metade dos anos 80, se estrearam várias futuras celebridades do rock português e algumas das melhores bandas de rock anglo-saxónicas. 
Encerrou as portas em 27 de Julho de 1990. 

Cine-Bélgica, Bélgica-Cinema[1968]
Rua da Beneficência, 175
João Goulart, in Arquivo Municipal Lisboa

¹ N.B. O Bélgica-Cinema inaugurou os espectáculos sonoros com o sistema de som R.C.A. Photophone com a exibição do filme A Loucura de Monte Carlo (Le capitain Craddock, no original), musical produzido em França no ano de 1931. 
____________
Bibliografia
DIAS, Marina Tavares  em Lisboa Desaparecida,vol. VII.

Friday, 27 October 2017

Cinema Tivoli

Pois — enfim! — retomemos a linha da Avenida.
Fazendo esquina para a Rua de Manuel de Jesus Coelho ergue-se o Tivoli, um dos melhores cinemas de Lisboa, inaugurado em 1924. (Arquitecto Raúl Lino, construtor F. Touzet).  
Antes do Tivoli ser construído funcionou na parte do edifício, hoje [1939] ocupado pelo Salão do Cinema, um «Teatro Novo», tentativa de renovação modernista da literatura teatral, e cujo êxito foi nulo — uma aventura da escola nova. ¹

Cinema Tivoli  [1928]
Avenida da Liberdade, 182-188; Rua Manuel de Jesus Coelho, 5-13
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do jornal O Século

A inauguração — em 30 Novembro de 1924 — foi marcada pelo «super-film» de opereta «As Violetas Imperiais» com a famosa Rachel Meller — e, em 1927, um inquérito d'«O Século›» recolhia a opinião quase unânime dos leitores a favor da nova e luxuosa sala.Quando o Cinema Tivoli, situado a meio da Avenida da Liberdade, foi inaugurado, a comunidade cinematográfica lisboeta temeu o pior. Como poderia vingar um cinema de estreia tão grande e tão moderno, mas situado tão longe do centro da cidade e da vizinhança das outras salas de estreia, concentradas desde os anos 10 entre a Baixa e o Chiado? Os receios de inviabilidade económica eram tão grandes que as três distribuidoras então existentes resolveram durante algum tempo partilhar entre si os custos do aluguer de filmes ao Tivoli porque estavam certas do fracasso de uma sala situada tão longe do centro.

Cinema Tivoli  [1935]
Em cartaz, As pupilas do Sr. Reitor
in Arquivo do jornal O Século

(clicar para ampliar)
Mas passados alguns meses de excelente programação feita pelo próprio arquitecto do edifício, Raul Lino, o Tivoli destronava todos os outros cinemas e era consagrado pela crítica e pelo público como a sala mais cómoda e mais elegante de Lisboa e aquela onde passavam os melhores filmes europeus e americanos (ali estrearam «Os Nibelungos» de Fritz Lang, «O Último dos Homens» e «Aurora de Murnau», «A Sinfonia de uma Capital» de Ruttmann, «Nanook«de Flaherty, «A Quimera do Ouro» de Chaplin e muitos outros filmes de Wiene, Stiller, Sjöstrom, Dreyer, Lubitsch, de Mille, Feyder, L’Herbier, Epstein e von Stroheim).

No início dos anos 30, porém, os cinemas suscitaram o interesse de alguns arquitectos e alguns edifícios surgiram então como mais um terreno de experimentação modernista com fachadas cegas de betão e elementos decorativos «art-déco» em ferro e vidro, como o cinema Capitólio, obra fundadora do efémero modernismo arquitectónico português.

Pessoal do Cinema Tivoli [1933]
in Arquivo do jornal O Século
(clicar para ampliar)
Em Lisboa, o primeiro grande exemplo deste novo tipo de edifícios foi justamente o Tivoli, traçado por um reputado arquitecto e cujas dimensões, lotação e planta em gaveto à Avenida da Liberdade, lhe deram uma relevância urbanística até ali inédita naquele tipo de equipamento e percepcionada como tal, já à época, pelo menos na imprensa especializada. ²

«Planeada a sua construção em moldes genuinamente americanos e ingleses, o Tivoli, não sendo luxuoso, porque tais luxos são sempre supérfluos, abunda em fórmulas práticas. Conforto e decência. A sala é ampla, como amplos são os lugares, os corredores e escadarias. Para encurtar palavras diremos que nenhuma capital do mundo desdenharia de ter um cinema como o Tivoli, conquanto os haja de maiores dimensões, mas não mais confortáveis nem mais atraentes, pela sua impressionante sobriedade. Está-se bem no Tivoli, e estamos certos que todos concordam com a nossa opinião». ³

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Bibliografia
¹  ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 38-39, 1939.
² RIBEIRO, M. Félix , Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa, 1896-1939, pp.141-146-.
³ «Tivoli», s.a., Porto Cinematográfico, ano VI, n.º 5, Dezembro de 1924, p.27.

Wednesday, 23 August 2017

Cinema de Alvalade

Projectado pelos arquitectos Lima Franco e Filipe de Figueiredo em 1945, foi inaugurado no dia 8 de Dezembro de 1953 com o filme brasileiro de Lima Barreto, «O Cangaceiro», sessão a que esteve presente o embaixador do Brasil em Portugal.
O Cinema de Alvalade, com capacidade para 1262 espectadores, distribuídos por uma plateia e dois balcões, foi durante décadas um dos símbolos do bairro de Alvalade. Desde que foi encerrado, em 1985 foi arrendado pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) até ao ano 2000. Depois de três anos votado ao abandono, foi iniciada a sua demolição em 2003. No seu lugar viria a ser erguido um edifício (Hollywood Residence) de oito pisos destinado a habitação, escritórios e uma zona de lazer onde existem 4 mini-salas de cinema.

Cinema de Alvalade [c. 1953]
Avenida de Roma

Salvador de Almeida Fernandes. in AML

Friday, 11 August 2017

Cinema Belém-Jardim

O Cinema Belém-Jardim foi inaugurado em 1925 e teve após a demolição do Belém Cinema, um dos primeiros animatógrafos permanentes da zona localizado na desaparecida Rua Paulo da Gama. Durante a II Grande Guerra viu a sua actividade cultural interrompida para funcionar como depósito de cereais com destino à Suíça. Reabriu como cinema no pós-guerra acabando por encerrar definitivamente na década de 1960

Cinema Belém-Jardim [1953]
Rua Bartolomeu Dias, 25-27 (ao centro e à direita do poste de catenária)
Belém Cinema, também designado por Belém-Jardim (situado primeiro na Rua Paulo da Gama e. depois, na Rua Bartolomeu Dias)
Eduardo Portugal, in Arquivo Municipal Lisboa

Nesta artéria funcionavam a «Fábrica de Borracha e Calçado Repenicado & Bengala» (1º edifício na foto, nºs 21 e 23 e 29 a 33). O cinema ocupava os nºs 25 e 27.
Estes edifícios foram demolidos em 1989/90 por ocasião das obras para a construção do Centro Cultural de Belém.

Cinema Belém-Jardim [1938]
Rua Bartolomeu Dias, 25-27
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Friday, 14 April 2017

Teatro República, ex—Dona Amélia e futuro São Luiz

O Teatro S. Luiz tem mais história. Foi edificado em 1893 por iniciativa de Guilherme da Silveira, em terrenos cedidos pela Casa de Bragança. Era então o Teatro de D. Amélia. O risco do Teatro de D. Amélia foi de Luiz Ernesto Reynaud, com decorações de Manini e Rossi.


Fundado por Guilherme da Silveira, Celestino da Silva, António Ramos e Visconde de São Luíz de Braga, inaugurou-se em 22 de Maio de 1894 — com a presença do Rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia —, o Teatro D.Amélia. Foi apresentada a opereta de Offenbach «A Filha do Tambor-Mor», com uma sala completamente cheia. Posteriormente as maiores figuras da cena mundial, como Sarah Bernhardt Eleanora Duse, pisaram o seu palco e, com maior frequência, os inesquecíveis João e Augusto Rosa, Eduardo Brasão, Ângela Pinto e tantos outros. 

Teatro República, ex—D. Amélia e futuro São Luiz [entre 1903 e 1908]
Rua António Maria Cardoso, antiga do Tesouro Velho (até 1890); 
do lado direito, o (novo) Chafariz do Loreto
Fotógrafo não identificado, in GEH

Em 1911 o teatro alterou o seu nome para «República» e, três anos mais tarde, de 13 para 14 de Setembro de 1914, ardia totalmente. Apenas foi poupada parte do «Jard«im de Inverno», onde António Ramos e o Visconde de São Luís de Braga (então únicos interessados no teatro) haviam organizado uma brilhante tertúlia literária e teatral. Contudo, graças ao entusiasmo e dedicação dos seus proprietários, o grande edifício foi reconstruído e reabriu as suas portas em 16 de Janeiro de 1916 com a peça «Os Postiços», de Eduardo Schwalbach, interpretada por Augusto Rosa, Chaby, Eduardo Brasão, Ângela Pinto e Lucinda Simões.

Jardim de Inverno do Teatro São Luiz [1928]
Rua António Maria Cardoso, antiga do Tesouro Velho (até 1890); 
Fotógrafo não identificadoin Arquivo do Jornal O Século

Companhia teatral à porta do Teatro Dona Amélia,
actual Teatro Municipal de São Luis [ca. 1910]

Rua António Maria Cardoso

Joshua Benoliel, in AML
 Até à morte do Visconde de São Luiz de Braga, a actividade teatral foi predominante e intensa, dando lugar, depois, à opereta, sob a direcção de Armando de Vasconcelos. 
Em 7 de Abril de 1928, nova e profunda alteração sofreu o mais elegante dos teatros de Lisboa, para permitir a introdução nas suas salas do espectáculo mais em voga, da novidade desse tempo: o cinema. Depois de algumas remodelações na decoração e estruturas e no nome (passou nessa data a chamar-se «São Luiz», em homenagem ao Visconde de São Luís de Braga) estreou-se o filme «Metropolis», de Fritz Lang, dos mais caros produzidos na época: cerca de 40 mil contos.


Chegada ao Teatro de São Luiz [s.d.]
Rua António Maria Cardoso
Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.
A partir de 1934 assumiu a direcção do «São Luiz» João Ortigão Ramos, que iniciou uma nova actividade a que associou o seu cinema — a da produção de filmes, que viria a dar origem à Tobis Portuguesa. Todavia, o teatro regressou à acolhedora sala do Chiado, quer através dos festivais de Teatro Francês, quer pela apresentação de peças como «Um Eléctrico Chamado Desejo», de Tennessee Williams, pela Companhia do Teatro Nacional, ou «António, o Marinheiro», de Bernardo Santareno, com Eunice Muñoz, ou ainda com o desconhecido «Teatro Nô», trazido pela Fundação Gulbenkian. 



Simultâneamente, eram organizados concertos com grandes orquestras e solistas nacionais e estrangeiros.
Adquirido pelo Município de Lisboa, em 6 de Maio de 1971, o «São Luiz» passou a ser o primeiro teatro Municipal de Lisboa, satisfazendo os anseios expressos de numerosas camadas da sua população. 

Teatro Municipal de São Luís, sala de espectáculo [ca. 1955]
Rua António Maria Cardoso

Armando Serôdio, in Arquivo Municipal de Lisboa

No tempo do Visconde de S. Luiz de Braga o «foyer» dêste Teatro — recorda Norberto de Araújo — constituía uma tertúlia de artistas e escritores, o «cercle» literário de Lisboa; a tradição intelectual perdeu-se, ou sumiu-se. É, porém, ainda hoje [1939] um Salão de elite — tornado «Cinema S. Luiz». Sim; aqui, em referência à arte nobre do teatro, pode dizer-se: «tout passe...».

Foyer do antigo teatro Dona Amélia, depois, teatro Municipal de São Luís [ca. 1910]
Jantar de homenagem a Leal da Câmara
Rua António Maria Cardoso

Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal de Lisboa

Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 13[1939])
(Revista municipal Lisboa, pp. 61-62, 1971)

Thursday, 5 January 2017

Max Cine: o Piolho do Alto do Pina

O Max-Cine, a elegante sala da Rua Barão de Sabrosa, ao Alto do Pina — noticiava a revista  Cinéfilo em 1931 —, que recentemente inaugurou os seus espectáculos sonoros com vivo e justificado êxito, resolveu, num gesto de simpatia e apreço que muito, nos desvanece, dedicar a todos os leitores e compradores do Cinéfilo as noites das quartas-feiras, concedendo-lhes o importante desconto de cinquenta por cento em todos os lugares.
Nessas noites, os nossos sempre fieis e estimados leitores, que Sê apresentarem na bilheteira, com o cupão que noutro lugar publicamos, beneficiarão do o referido desconto em todos os espectáculos que se realizarem nas mencionadas quartas-feiras. (...)

Rua Barão Sabrosa; Rua Dr. Oliveira Ramos [1927]
Em exibição "A Fera Amansada", filme de Sam Taylor 
com Mary Pickford, Douglas Fairbanks
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

A 14 de Setembro de 1929, o bairro do Alto do Pina vê nascer o Max Cine na Rua Barão de Sabrosa. Projectada pelos engenheiros Jacinto Bettencourt e Deolindo Vieira, era uma sala sóbria mas acolhedora com capacidade para 700 pessoas. Era essencialmente um cinema de reprise que a 1 de Maio de 1968 é adquirido pela Paróquia de São Evangelista passando assim a servir a população de uma forma distinta.

Rua Barão Sabrosa; Rua Dr. Oliveira Ramos [1962]
Arnaldo Madureira. in AML

Bibliografia
(Cinéfilo, Vol. 4, 1931, p. 338)
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