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Sunday, 21 October 2018

Rua de São João da Praça: Hospício de S. Rafael

E aí tens a razão da invocação de S. Pedro, aqui por êste bairro da Alfama: Porta, depois Arco de S. Pedro, Tôrre de S. Pedro, e Rua de S. Pedro, seguindo aí já à direita, e que por agora deixamos. Tinha a Igreja a porta voltada ao poente.


Aí os temos neste apontamento, na porta n.° 2, à entrada da Adiça; oferece certo interêsse com um arco desenhado, e um corpo central encravado na parede da construção do século passado, e sôbre o qual existe uma varanda, adeantada de uma porta guamecida de cantaria. Era isto, assim tal qual, a porta da velha S. Pedro? Não era nem o podia ser, digo eu discordando do que anda escrito por alguns bons autores. A mesquinhez do que aí está não podia corresponder a um portal de templo.

Rua de São João da Praça [ c. 1903]
 Confluência com a Rua da Adiça, 2
Machado & Souza, in AML

Sucedeu que, depois de desaparecer S. Pedro, se ergueu aqui, 1780, talvez aproveitando materiais, um Hospício, intitulado de N. Senhora da Conceição ou dos Sufragadores das Almas do Purgatório, religiosos da ordem fundada em Gusmão, e que tinham por patrono o arcanjo S. Rafael; o hospício possuía a sua Igreja, cuja porta principal estava voltada ao Sul. O Hospício foi extinto em 1834, e pouco depois construiu-se o prédio que aqui temos à vista, e no qual se pouparam uns pormenores da casa religiosa, que são afinal estes, que eram da face lateral.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 49, 1939)



Rua de São João da Praça   [c. 1950]

Confluência com a Rua da Adiça, 2 (ao fundo); Tv. do Chafariz de El-Rei

Eduardo Portugal, in AML


Sunday, 7 October 2018

Quartel de Marinheiros

Ora aí tens o quartel dos Marinheiros, de tanto renome bairrista — recorda-nos Norberto de Araújo.
O Corpo de Marinheiros foi criado cm Agosto de 1854, começando poucos anos depois a erguer-se éste edifício, só concluído em 1865. Os terreiros para o seu Quartel não pertenciam ao Estado — segundo creio —, e teriam sido cedidos a titulo de doação perpétua, não podendo ter outro destino que não fõsse o de servir a aquartelamento da Armada. É, como se vê, urna coustrução trivial com dois andares, com corpos laterais que envolvem a parada norte, e um outro corpdcentral — em cujcs baixos foi a prisão dos marinheíros até o ano passado — , e que entesta a parada sul, debruçada sôbre o alto muro corrido da Avenida 24 de Julho e Rua do Tenente Valadim, que liga aquela avenida à Pampulha.
Quartel de Marinheiros (ao centro) [1932]
Praça da Armada, antiga Rua do Arco a Alcântara (1888)
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

No terreno da parada do actual Quartel se erguia no século XVII, sôbre chão que pertencera ao Conde de Cantanhede, o Baluarte de Alcântara, começado a construir em 1650, e que obedecia a um plano de novas fortificações da cidade, que compreendia 32 dêsses fortins, e que não prosseguiu na execução. O Terramoto destruiu quási por completo êste Baluarte, que ocupava uma larga área sôbre o rio e sob Alcântara.
O Corpo dos Marinheiros foi afastado dêste edifício em 1918, e nunca mais para aqui voltou. No antigo quartel estão hoje [1939] instalados o Tribunal de Marinha, o Arquivo do Ministério da Marinha, a Secção de Reformados, a Assistência aos Tuberculosos da Armada, e a Banda da Marinha.

Quartel de Marinheiros (ao centro) [c. 1940]
Panorâmica sobre a Avenida 24 de Julho, ao fundo vê-se o Palácio das Necessidades
Eduardo Portugal, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 15, 1939.

Wednesday, 26 September 2018

Rua do Loureiro

Ora espreita, à direita —  diz Norberto de Araújo — , essa Rua do Loureiro, que desce em escadinhas, e, atravessando Guilherme Braga, se continua pelo Beco do Loureiro que vai morrer na Rua da Regueira; eis um enfiamento bizarro e sugestivo. Já agora tomemos por ela, e vejamos, ali no recanto, a fachada de um prédio, n.° 7, na qual se ostenta um escudo radiante ornamentado, sem definição, e que sei apenas que é original, único dêste tipo em tôda a Alfama.

Rua do Loureiro [1899]
Ao centro vê-se a fachada do prédio com o n.º 7 que ostenta o escudo 
(florão) referido pelo olisipógrafo Norberto de Araújo; perspectiva tirada da 
Rua das Escolas Gerais
Machado & Souza, in AML

Este arruamento, que vai da Rua Guilherme Braga à Rua das Escolas Gerais, já aparece referido nas descrições paroquiais anteriores ao Terramoto de 1755, na freguesia do Salvador. Após a remodelação paroquial de 1780 surge sucessivamente nas freguesias de S. Miguel, de Santo Estêvão e de novo, na do Salvador.

Rua do Loureiro [190.]
Ao centro vê-se a fachada do prédio com o n.º 7 que ostenta o escudo 
(florão) referido pelo olisipógrafo Norberto de Araújo; perspectiva tirada da 
Rua das Escolas Gerais
Leitão Bárcia, in AML
________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 82, 1939.
cm-lisbpa.pt

Wednesday, 19 September 2018

Rua da Senhora da Glória

Ora aqui temos uma curiosa artéria do sítio — diz Norberto de Araújo: a Rua de Nossa Senhora da Glória, cujo enfiamento é curiosíssimo, com a silhueta de S. Vicente ao fundo. Esta rua é do princípio do século passado [séc. XIX], mas a sua urbanização tem sido lenta. E vamos descendo.


Rua da Senhora da Glória N↔S  [1907]
Junto ao prédio (esq.) com o nº 140, vista da Rua dos Sapadores
 Machado & Souza, in AML

Das várias quintas aforadas, no nosso lado esquerdo, norte, se foram erguendo prédios, alguns há poucos anos, e outros há poucos meses, como êste — repara —  cujo chão se integrava na Quinta do Amaral, na esquina das Travessas e Rua da Senhora da Glória, imponente, moderníssimo de forma, desafogado, verde-ervilha, do tipo dos 'decks' de navio [vd. 3ª foto]: data de 1938 e é propriedade de Luiz Ribeiro que o comprou ao construtor António da Silva.

Rua da Senhora da Glória, junto à Rua das Beatas antiga da Conceição  [1907]
Ao fundo à direita vê-se o prédio «verde-ervilha» na esquina com a Travessa da Senhora da Glória, referido por mestre Araújo; do lado esquerdo —onde se vê uma árvore debruçada sobre a rua —ergue-se a Ermida de Nossa Senhora da Glória
 Machado & Souza, in AML

Rua da Senhora da Glória esquina com a Travessa da Senhora da Glória [1907]
Prédio «verde-ervilha»referido por mestre Araújo«cujo chão se integrava na Quinta do Amaral»
 Machado & Souza, in AML

E aí tens, Dilecto, o contraste, a tal luta entre duas civilizações urbanistas: êsses prèdiozitos côr de rosa, metidos entre quintalórios, na Rua do Cardal, amachucados ante a grandeza do prédio verde-ervilha que estamos ainda a ver.
Estamos agora defronte da Ermida de Nossa Senhora da Glória.

Rua da Senhora da Glória N↔S  [1907]
Junto ao prédio (dir.) com o nº 101, destacando-se, mais abaixo, o telhado 
da Ermida de Nossa Senhora da Glória
De joelhos, com a bengala ou a muleta no chão, vê-se um homem de mãos erguidas 
para o céu, perante o olhar curioso da vendedeira ambulante. 
Promessa ou devoção à Senhora da Glória?
 Machado & Souza, in AML

N.B. A Rua da Senhora da Glória foi fixada na memória da cidade em data que se desconhece mas seguramente, pelo menos data do século XIX já que nos registos de numeração predial, consta um mandado datado de 19 de Julho de 1893, onde este arruamento está designado por Rua de Nossa Senhora da Glória, à Graça.[cm-lisboa..pt]

Bibliografia
Norberto de Araújo, «Peregrinações em Lisboa», vol. VIII, p. 26, 1939.

Wednesday, 12 September 2018

Chiado: antigo Convento do Espírito Santo da Pedreira

Na confluência das Ruas do Carmo e Nova do Almada — diz Norberto de Araújo — e em prolongamento para qualquer dos lados  — , com a entrada principal no tôpo do fundo da Rua Garrett, levanta-se o edifício dos Grandes Armazéns do Chiado [1894], que dominam o local.

Alçado do Convento e Igreja do Espírito Santo na calçada do Carmo, topo da rua direita das portas de Santa Catarina (hoje Rua Garrett), e Rua Nova de Almada, da travessa de Santa Justa, até à travessa (hoje Rua) de S. Nicolau

Assentava aqui, antes do Terramoto, o amplo Convento do Espírito Santo da Pedreira, dos frades da Congregação do Oratório de S. Felipe Nery, fundado no final do século XIII, e reedificado entre 1514 e 1516. O Terramoto destruiu o Convento e Igreja, que foram reedificados, sem a antiga grandeza. Em 1835, depois da extinção das Ordens, os religiosos, que foram tolerados por algum tempo, acabaram por ser expulsos da sua casa. O edifício foi então comprado por Manuel José de Oliveira, 1.° Barão de Barcelinhos (1841), individuo que, pela sua fortuna, granjeara o apodo de «Manuel dos Contos»; pelo segundo casamento da viúva o prédio e o título passaram para Manuel Correia da Silva Araújo, e, morrendo êste, novamente a viúva casou com o Dr. Carlos Ramiro Coutinho, que foi 3.º Barão de Barcelinhos e 3.º Conde de Ouguella. (A Baronesa, de apelido Soares de Oliveira, ainda sobreviveu ao terceiro marido). O título de visconde de Barcelinhos continuou-se do primogénito do Barão, e depois perdeu-se.

Convento do Espírito Santo da Pedreira
Legenda da gravura: Perspectiva conjectural do território da Pedreira nos finais do século XIII. Vê-se no primeiro plano, ao centro, o Convento do Espírito Santo da Pedreira (mais tarde, Palácio dos Barcelinhos / Grandes Armazéns do Chiado); em frente, em direcção ao Poente, a estrada de Santos (a Rua Garrett de hoje); à esquerda o Convento de São Francisco e os Mártires; mais ao longe o paço que foi dos Condes de Ourém; à direita o Estudo Geral (liceu); ao fundo, à esquerda o Convento da Trindade
Desenho: Alberto de Sousa, 1880-1961, pintor, in AML

No local existiu desde 1279, uma antiga Casa chamada de Espírito Santo da Pedreira, irmandade de nobres e mercadores ricos de origem judaica, que promoviam a associação e a entreajuda financeira. O culto do Espírito Santo vem da rainha Isabel, mulher de D. Dinis, no primeiro templo da Pedreira. Pedreira, porque no local se encontrava a grande rocha que caía sobre o vale a que hoje se chama Baixa, e por onde o rio não entrava. A casa, o hospital da irmandade e o respectivo espaço conventual situavam-se na confluência da que é hoje a Rua Garrett com a Rua Nova do Almada, e sofreram durante o século XVII várias obras de reconstrução. 

Grandes Armazéns do Chiado [1910]
Rua do Carmo, Rua Nova do Almada (perspectiva tirada da Rua Garrett)
Antigo  Palácio Barcelinhos e antes  Convento do Espírito Santo da Pedreira
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 89, 1939.
VALDEMAR, António, Chiado O Peso da Memória, p. 104 , 1989.

COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 22-1130, 1987.

Wednesday, 22 August 2018

Calçada da Pampulha

[...] eis-nos no sitio da Pampulha — para o qual a Lapa é uma criança — e que remonta ao século XVI. (...) A Calçada da Pampulha — diz Norberto Araújohoje é a continuação da Rua do Presidente Arriaga, nome que depois de 1917 foi dado à Rua de S. Francisco Paula. Em verdade, oficializada, a Pampulha não tem mais que duzentos metros, mas a designação extravasa, possue ressonância bairrista além do limite municipal do dístico.
«Pampulha» porquê? Não o sei eu, nem os mestres que têm. até agora, escrito àcêrca das origens dos nomes das ruas de Lisboa. Julgo, porém, que problema não é insolúvel, e creio até que estará para breve o desvendar dêste mistério toponimico.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 55-56, 1938)

Calçada da Pampulha [ant. 1939]
Cruzamento com a Rua Tenente Valadim; anterior à construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo, em 1949 (vd. 2ª foto)
Eduardo Portugal, in AML

Em relação à etimologia da palavra «Pampulha», José Pedro Machado no seu Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa (1984) avançou a hipótese de a origem estar em «pão da Apúlia» (pan no português arcaico), indicando o local onde era recebido o trigo vindo da Apúlia italiana.
Gomes de Brito refere que «Pampulha» já surge num Assento da Vereação de 1636: «Nas travessas que há do Corpo Santo até á Pampulha». Em 1786, na Relação Universal figura este arruamento ora como Rua Fresca da Pampulha, ora como Rua Direita da Pampulha. E como Calçada da Pampulha aparece primeiro no Itinerário lisbonense de 1818 e no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1857. No entanto, num documento de 1875 ainda é referida a denominação genérica da zona, numa planta da Praia da Pampulha.

Calçada da Pampulha [c. 1949]
Construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo no cruzamento com a Rua Tenente Valadim
Judah Benoliel, in AML
 
Refira-se ainda que a Fábrica de Bolachas da Pampulha, a primeira fábrica de bolachas em Portugal, fundada por Eduardo Costa na década de 1870, referenciava a sua localização entre a Pampulha e a Rua 24 de Julho (hoje Avenida 24 de Julho). [cm-lisboa.pt]

Publicidade da Fábrica de Bolachas da Pampulha em 1907

Friday, 13 July 2018

Edifício na Avenida Almirante Reis, 1

Construído segundo projecto do arq.º Joaquim Francisco Tojal, este edifício de gaveto e planta longitudinal, data de 1905. É um dos exemplares de arquitectura urbana ecléctica da Av. Almirante Reis [antiga de Dona Amélia], com características muito marcadas do início do séc. XX, nomeadamente ao nível dos elementos empregues, como o ferro forjado e o azulejo, que revelam um gosto Arte Nova.

Edifício na Avenida Almirante Reis (ao centro) [1944]
Avenida Almirante Reis, 1-1I; Rua Nova do Desterro, 2-2A
Eduardo Portugal, in AML

Classificado como Imóvel de Interesse Público, desenvolve-se em 4 pisos com mansarda, rematados por cornija saliente e platibanda interrompida por trapeiras, rasgadas por janelas com varanda corrida,encimadas por cornija,sendo esta,coroada por uma espécie de frontão curvo. É de salientar o notável conjunto azulejar policromático, que decora a zona superior e de coroamento, representando elementos florais de linhas finas e ondulantes, que transmitem uma noção de movimento. [cm-lisboa.pt]

Edifício na Avenida Almirante Reis (ao centro, a seguir ao chafariz) [1958]
Avenida Almirante Reis, 1-1I; Rua Nova do Desterro, 2-2A
Chafariz do Intendente
Judah Benoliel,, in AML

Friday, 29 June 2018

Café Palladium dos Restauradores

O Café Palladium, projectado por Raul Tojal, ocupou em 1932 o piso térreo de um dos mais interessantes exemplos arquitectónicos da Avenida liberdade (edifício do arq.º Norte Júnior, 1909). Foi louvado como expoente máximo de modernidade, levando proprietários de casas congéneres — como o Nicola ou o Chave d'Ouro — a encomendar projectos de alteração do interior dos seus estabelecimentos ao mesmo arquitecto.

Edifício projectado por Norte Júnior [1918]
Avenida da Liberdade, 1 com a Calçada da Glória; em 1932 instalou-se
aqui o Café Palladium 

Legenda da imagem no arquivo: [Parada militar em honra dos militares vitoriosos da Primeira Guerra Mundial]
Joshua Benoliel, in AML

Durante várias décadas seria um dos poisos preferidos de estudantes e intelectuais da oposição ao regime salazarista. Alguns elementos da decoração interior — incluindo baixos-relevos e pormenores do varandim  — foram aproveitados pelo centro comercial que lhe sucedeu.¹

Edifício projectado por Norte Júnior [c. 1912]
Avenida da Liberdade, 1 com a Calçada da Glória; em 1932 instalou-se
aqui o Café Palladium
Fotografia anónima

Na esquina da Calçada [da Glória] — diz Norberto de Araújo—, já na Avenida, existe desde 17 de Novembro de 1932 o Café «Palladium», fundado por Tavares & Ferreira, ainda seus proprietários. Era aqui, anteriormente, o «Stand Dodge», que sucedeu ao «Faustino» Foi arquitecto dêste Café Raúl Tojal. Presentemente [1939] estão-se fazendo escavações para prolongamento do «Palladium» no terreno em que assenta o prédio contíguo, construido pelo Dr. Henrique Bastos há uma dezena de anos, na esquina da Calçada e Rua da Glória.²

Café Palladium [post. 1932]
Avenida da Liberdade,
1
 Estúdio Mário Novais, in FCG

Bibliografia
¹ DIAS, Marina Tavarea, Os Cafés de Lisboa. p. 128, 1999.
²
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV p. 23, 1939.

Wednesday, 27 June 2018

Praça Marquês de Pombal, 2: Clube Militar Naval

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitue o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. [Araújo: 1939]


O Clube Militar Naval esteve instalado no nº. 2 da Praça Marquês de Pombal cerca de cinquenta anos. O palacete foi adquirido em 1935 ao conde de Castelo Mendo, que por sua vez aqui passara a residir em 1929. Naquela data o proprietário passou a ser o Crédito Predial Português, que o arrendou à Marinha. Em 1989 foi demolido após uma violenta polémica entremeada com um pedido de classificação ao Instituto Português do Património Cultural. O clube veio a ser transfe-rido, aproveitando alguns elementos decorativos, para a Avenida Defensores de Chaves, nº. 3.

Praça Marquês de Pombal, 2: Clube Militar Naval [190-]
Fachada sobre as Ruas Braamcamp e Duque de Palmela
Paulo Guedes, in AML

O palacete terá sido o primeiro prédio a ser construído, na recém-criada Praça Marquês de Pombal, logo em 1893. Já que a construção do que vem a ser o Palacete Sabrosa se projectava na Fontes Pereira de Mello, em 1886 abre-se oficialmente a avenida e o desfile de casamento de D. Carlos (1857-1945) efectua-se também aqui. O Dr. António de Lencastre (1857-1945) era o médico dos príncipes e a escolha do lugar para vir a construir a sua residência não deve estar desligada desta ocorrência, onde a expansão da cidade se desenha e a oportunidade de novos espaços necessariamente surge.

Enquadramento do Clube Militar Naval na Praça Marquês de Pombal, 2 [1934]
Esquina com a Rua Braamcamp
Pinheiro Correia, in AML

O edifício exteriormente ecoava um equilíbrio francês na linha do gosto Luís XVI, em combinação com pormenores vernaculares como sejam as pequenas aletas do óculo sobrepujante da entrada principal, obviamente tributária da arquitectura chã. No interior, pelas fotografias publicadas no suplemento do Diário de Notícias, 2 de Junho de 1985, por certo produto de enriquecimentos artísticos posteriores vemos alguns ornatos manuelinos muito carregados e uns vitrais de tema mitológico encomendados em 1894 na Suíça, Zurique, a Adolf Kreuzer.
 
Praça Marquês de Pombal, 2: Clube Militar Naval [1937]
Desfile da Mocidade Portuguesa durante as comemorações do 28 de Maio de 1926
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia 
MONTERROSO, José de, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível, 2002.

Friday, 8 June 2018

Rua de Alcântara: «Sociedade Promotora de Educação Popular»

Associação educativa fundada em Lisboa a 30 de Setembro de 1904, por influência maçónica. Estava sedeada, na Rua de Alcântara, nº 6, 2º. A Sociedade tinha como objectivo promover a assistência e a formação de crianças e adultos. Para tal criou cursos diurnos e nocturnos.

Rua de Alcântara  [c. 1910]
Prédios demolidos para abertura da Praça Gen. Domingos de Oliveira na década de 1960
«Sociedade Promotora de Educação Popular»
Joshua Benoliel, in AML

Wednesday, 2 May 2018

Instituto Rainha Dona Amélia (Assistência Nacional aos Tuberculosos)

A Assistência Nacional aos Tuberculosos  — recorda-nos o ilustre olisipógrafo  Norberto de Araújo — que principiou por ser uma Associação de Beneficência — e prestimosa ela foi sempre, hoje extraordinàriamente [1939]desenvolvida — foi fundação da Rainha D. Amélia de Orleans e Bragança. Data de Junho de 1899 e foi enorme o mevimento de adesões que provocou. Hospitais, Sanatórios, Dispensários, espalhados por todo o país, são os frutos dessa obra.


Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1908]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Alberto Carlos Lima,  in AML

O primeiro Dispensário de Lisboa foi na Rua do Alecrim, inaugurado em Maio de 1901. Este edifício foi inaugurado em 1906. O dispensário contíguo data de 1931. 
Uma das personalidades mais devotadas a esta causa, o braço direito da Rainha, foi o Dr. António de Lencastre, cujo nome convém fixar. 
O edifício da Assistência, do risco do arquitecto Rosendo Carvalheira, tem, como vês, neste sítio movimentado, de vizinhança e semblante marítimo, uma certa altanaria.

Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1907]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Artur Bárcia, in AML
Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1906]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Chaves Cruz, in AML
Instituto Rainha Dona Amélia [1960]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 Rua dos Remolares
Fernando de Jesus Matias, in AML

N.B. A Rainha Dona Amélia cedo se interessou pelo combate ao terrível flagelo da Tuberculose – o mal do século – promovendo em 1893 a criação do primeiro dispensário em Alcântara, destinado a crianças, que foi dirigido pelo Prof. Augusto da Silva Carvalho.
Seguiu-se, em 3 de Julho de 1899, a criação da Assistência Nacional aos Tuberculosos, que muito ficou a dever à iniciativa e persistência da Rainha Dona Amélia. Entre as obras que patrocinou contam-se, ainda, a fundação do Instituto de Socorros a Náufragos e o Instituto Pasteur em Portugal, em 1892, e do Museu Nacional dos Coches, em 1905.

Instituto Rainha Dona Amélia [c. 1908]
Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos
 A Rainha Dona Amélia e o infante Dom Afonso à entrada do edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos
 Avenida 24 de Julho
Alberto Carlos Lima,  in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 56, 1939.

Sunday, 15 April 2018

Bairro Azul

Começou por escolher o bairro onde mais gostaria de morar. Pensou em vários, e às suas preferências nunca era alheia a recordação dos tempos, ainda tão próximos, em que fora criada de servir. Gostaria, por exemplo, de ir pôr casa no Bairro Azul, só para «fazer ver» [...]¹


Estando embora em presença de uma Arquitectura civil, o Bairro Azul — Ruas Fialho de Almeida, Ramalho Ortigão e Avenida Ressano Garcia — constitui um conjunto arquitectónico que se reveste de uma homogeneidade ímpar, datado da década de 30 do Século XX com prédios dotados de esquerdo-direito ao gosto Art Deco e burguês, destinado a servir uma classe média que culminaria a sua ascensão no período salazarista, e que se procurava rodear de algum luxo e dignidade.

Rua Marquês de Fronteira [1967]
Edifícios do Bairro Azul; esta designação devia-se à aparente  «mancha azul» formada pela cor das persianas, das portas e das caixilharias
Artur Bastos, in AML

O ângulo estranho do plano do bairro resultava do desenho de Cristino da Silva para uma vasta urbanização inicial que, cerca de 1930, deveria ter sido o remate do prolongamento da Avenida da Liberdade. Devia apresentar-se com arruamentos em simetria, nos dois lados do Parque Eduardo VII. Contudo, o bairro ficou isolado, pois o restante projecto não se realizou, repetindo-se a vocação lisboeta para os tecidos incompletos e para a justaposição de bairros de origens diversas, característicos do início do Séc. XX. Trata-se, ainda assim, de um projecto e de uma ideia subjacente de Cidade.

Panorâmica sobre o Bairro Azul [194-]Av. António Augusto de Aguiar (dir.)
Edifícios do Bairro Azul; esta designação devia-se à aparente  ‘mancha azul’ formada pela cor das persianas, das portas e das caixilharias
Amadeu Ferrari, in AML

Apresenta-se com uma hierarquia estabelecida e está dotado de aparatosos pórticos de entrada no Bairro. O seu isolamento apenas lhe veio confirmar a sua integridade e a sua autenticidade, patente no grande enriquecimento formal de fachadas e átrios de entrada, ganhando simplicidade formal ou opulência consoante a categoria social dos espaços o ditava. Baixos-relevos em estuque ou cimento, painéis policromados de mosaico cerâmico, ornatos salientes, pilastras e frisos, balaustradas, frontões e alpendres são motivos que aparecem com abundância neste vocabulário decorativo, de leitura complexa.

Avenida Ressano Garcia [1935]
Ressano Garcia (1847–1911) que enquanto engenheiro da CML foi responsável pela expansão de Lisboa para norte, a partir do eixo da Avenida da Liberdade com o projecto das Avenidas Novas integrou a toponímia de Lisboa ainda em vida, no ano de 1897, na artéria que hoje conhecemos como Avenida da República e, depois, no ano de 1929, regressou para uma Avenida no Bairro Azul.
Eduardo Portugal, in AML

Tratando-se de um conjunto particularmente notável quanto à sua Arquitectura e aos motivos decorativos nela integrados, faz sentido classificar o conjunto com estas características estilísticas, pois manteve uma relação de sentido com os seus moradores, uma relação de autenticidade e integridade, o que se veio a verificar até à actualidade. É de realçar a autenticidade que o conjunto manteve ao longo dos tempos, pois é o conjunto, patente nas suas íntimas relações estilísticas que se mantiveram intactas e podem ser observadas.²

Bairro Azul [194-]
Perspectiva tomada da Rua Marquês de Fronteira vendo-se Avenida Ressano Garcia, ao centro, e a Av. António Augusto de Aguiar à direita
Amadeu Ferrari, in AML

Bibliografia
¹ ANÍBAL Nazaré, Maria, uma Sua Criada. capa e ilust. Stuart. Lisboa, 1958.
² Carlos Cabaço e João Reis, lisboapatrimoniocultural.pt

Sunday, 8 April 2018

Edifício Heron Castilho

Projectado em 1921 pelo arq. Norte Júnior, este edifício de gaveto e planta em L, com uma feição marcadamente ecléctica, associa elementos decorativos tardios ao gosto Arte Nova, patentes nas mísulas talhadas de carácter antropomórfico (figurando cabeças femininas), que suportam as varandas de grandes dimensões da fachada principal, a uma linguagem classicizante, patente nas balaustradas e no monumental arco de volta perfeita, que remata o corpo do gaveto, assim como nas pilastras, que marcam o ritmo e definem a espacialidade exterior do imóvel. Os planos das fachadas surgem rasgados por fenestrações, isoladas ou agrupadas pelos emolduramentos de cantaria e reboco, cuja verticalidade e grande dimensão acentuam a sua monumentalidade e volumetria. 

Edifício Heron Castilho [c. 1930]
Rua Braamcamp, 40-40D; Rua Castilho, 42-42B
F.S. Cordeiro, in Fundação Portuguesa das Comunicações

Após um processo crescente de abandono e obsolescência, que culminou na sua quase total demolição, este edifício foi objecto de um projecto de reconstrução a partir de 1985, segundo o risco dos arquitectos Henrique Tavares Chicó, João Pedro Conceição Silva e Francisco Manuel Conceição Silva. Reabriu, em 1992, como centro de serviços terciários, conservando apenas os muros exteriores do primitivo imóvel, sendo que as características técnicas e formais de todo o edifício, incluindo dos 4 pisos novos, nada têm a ver com a construção inicial. Fenómeno bem visível nos alçados completamente envidraçados dos últimos pisos, com terraço de cobertura, que foram erguidos acima do remate da fachada, num plano ligeiramente recuado. [cm-lisboa.pt]

Edifício Heron Castilho [1960]
Rua Braamcamp, 40-40D; Rua Castilho, 42-42B
Arnaldo Madureira, in AML

Wednesday, 14 March 2018

Praça Marquês de Pombal, 15-18

Estamos na Praça Marquês de Pombal, vulgarmente denominada «Rotunda», que constitue o eixo de irradiação de avenidas e grandes artérias, projectadas já em 1882, mas cuja execução muito se fêz demorar. [Araújo: 1939]


O palacete [demolido c. 1965] que torneja a Avenida Duque de Loulé (à esq.) inscrevia-se organicamente no desenho da praça e projectava com apreciável monumentalidade o seu corpo cilíndrico através de uma varanda corrida que o acompanhava no piso nobre. Em marcação vertical a cúpula com aberturas amansardadas transmitia uma dinâmica de volume. Poderá denotar dispositivos de linguagem compositiva do arq.º Adães Bermudes (1864-1947). 

Praça Marquês de Pombal, 15-18 [190-]
Quarteirão entre as Avenidas Duque de Loulé e da Liberdade

Paulo Guedes, in AML

 O prédio (ao centro) situado entre o «Palacete Seixas» e o palacete de esquina com a Duque de Loulé era conhecido como prédio da «Federação Portuguesa de Futebol», já que aqui se encontrava sedeada esta instituição a partir de 1954. No seu rés-do-chão direito estava instalado o estúdio fotográfico San Payo que durante décadas foi escolhido para retratos pessoais de grandes figuras. Em 1974 dá-se início ao seu processo de demolição.

Enquadramento dos edifícios na Praça Marquês de Pombal, 15-18 [1934]
Esquina com a Rua Joaquim António de Aguiar
Pinheiro Correia, in AML

Em 1900, estava em adiantada fase de edificação o que vem a ser denominado o «Palacete Seixas» situado num talhão de grande área de terreno na extremidade direita da avenida, a contornar a Praça Marquês de Pombal e com acesso na retaguarda pela Rua Rodrigues de Sampaio. O projecto, de que se desconhece o autor, teve como primeiro responsável Alberto Pedro da Silva e, posteriormente, Guilherme Francisco Baracho. O mirante que lhe rematava a clarabóia central na sua configuração de minarete islâmico é dissonante à estrutura arquitectónica, mas a sua estilização de coreto em miniatura, assentava com aceitável leveza e registo poético no remate geométrico da cobertura. É desde 1997 propriedade do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e alberga o «Instituto Camões». Integra a Zona da Avenida da Liberdade que se encontra Em Vias de Classificação.

Bibliografia
TEIXEIRA, José de Monterroso, Rotunda do Marquês:«a cidade em si não cabia já» ou a monumentalidade (im)possível, 2002.

Sunday, 4 March 2018

Largo de São Sebastião da Pedreira

A razão do dístico Largo do Provedor dos Armazéns — recorda-nos  Norberto de Araújo — estava em que no seu tôpo — hoje [em 1939] Palácio dos herdeiros de José Maria Eugénio de Almeida {Palácio Vilalva] — se erguia o palácio de Fernando de Larre Garcez Lôbo Palha e Almeida, Provedor dos Armazéns, cargo que desde 1708 andava na sua família; o cargo foi extinto em 1793 na pessoa do próprio Fernando Larre.

Largo de São Sebastião da Pedreira [1968]
Topónimo que advém do padroeiro do local, S. Sebastião; denominado Largo do Provedor dos Armazéns, no século XVIII; à esq., o conjunto de edifícios de gaveto, construido após 1800
Armando Serôdio, in AML

Existem ainda por aqui — prossegue o olisipógrafo — edificações do comêço do século passado [XIX], de humilde semblante, em contraste com as edificações de há vinte anos; olha essas casas sôbre desnível, além da cortina de ferro, contíguas à Igreja.¹

Classificado como Imóvel de Interesse Municipal, este conjunto de edifícios, construido após 1800, de planta quadrangular formando gaveto [do lado esq. na 1ª foto], foi concebido inicialmente para habitação operária. Desenvolvendo-se em 3 pisos rematados por cornija, apresenta fachadas rasgadas por entradas no piso térreo e janelas de sacada no 1º e 2º pisos com moldura simples, em cantaria, e, ainda, ao nível do 1º piso, varandas de planta rectangular com gradeamento em ferro forjado. Conjunto de traça oitocentista caracterizado por uma certa simplicidade e austeridade devido à ausência de elementos decorativos na fachada.²

Largo de São Sebastião da Pedreira [1965]
Topónimo que advém do padroeiro do local, S. Sebastião; denominado Largo do Provedor dos Armazéns, no século XVIII; à dir., o conjunto de edifícios, construido após 1800; ao fundo vê-se o Palácio Vilalva
Armando Serôdio, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 53, 1939.
cm-lisboa.pt.

Sunday, 25 February 2018

Associação do Registo Civil e Administração do Jornal «O Livre Pensamento»

Porventura a mais emblemática instituição para-maçónica activa no advento da República, a Associação do Registo Civil foi fundada pela Maçonaria, em 5 de Agosto de 1895. A sua designação inicial foi alterada e, em 1911, o complemento que é aposto evidencia os seus propósitos: Associação Propagadora da Lei do Registo Civil. Estava sedeada na Travessa dos Remolares, 30, 1º, com uma dependência e Administração do Jornal «O Livre Pensamento»  no Largo do Intendente Pina Manique, 45, 1º.

 
Entre os seus milhares de associados contam-se Manuel dos Reis Buíça e Alfredo Luís da Costa, a quem a História consignaria o epíteto de regicidas. Apesar de este acontecimento ter sido relatado na imprensa coeva como uma tragédia, é certo que muitas mulheres, à época, lutando pela implantação da República, se manifestaram claramente a favor do assassinato do Rei e príncipe portugueses, mostrando-se solidárias com as viúvas e filhos dos revolucionários, associando-se às iniciativas da «Associação do Registo Civil». Maria Veleda, em «A Vanguarda», num texto editado a 9 de Fevereiro de 1908, dirigido «Às Mulheres Portuguesas», interpela com veemência:
Por quem andam V. Ex.asde luto, minhas senhoras? É pelo seu rei? Pelo homem que, se ainda vivesse, teria lançado na consternação, no desespero, trezentas famílias dos presos políticos, ameaçados com a deportação, em paragens longínquas, varados pelos raios brasadores de um sol que assassina, expostos a toda a sorte de maus tratos e de ignomínias e para quem a morte constituiria a única libertação?
 
Associação do Registo Civil e Redacção e Administração do Jornal «O Livre Pensamento» [1911]
Largo do Intendente [Pina Manique :1955], 45
A importância desta Associação reflectiu-se na toponímia da época, sendo que o troço da Rua dos Anjos (
s nºs 1 a 47 e 2 a 38) foi primeiramente chamado  do «Registo Civil» (1920), passando novamente a Rua dos Anjos (1937)
Joshua Benoliel, in AML
 
Em rigor, a militância feminina evidenciou-se nesta associação como plataforma de luta comum, pois pugnava pela Lei do Divórcio (aprovada logo em 1910), tendo a dessacralização da vida quotidiana nos seus principais actos — registos de nascimento, casamento e óbito — assumido primordial importância. A laicidade do Estado foi o estandarte deste movimento social que saudou vivamente a Lei da Separação da Igreja e do Estado (22 de Abril de 1911). De tal modo este dia se tornara emblemático que as escolas da Associação passaram a desfrutar de uma semana de férias de modo a celebrá-lo condignamente.

Associação do Registo Civil [c. 1911]
Travessa dos Remolares, 30
Associação do Registo Civil; Redacção e Administração do Jornal «O Livre Pensamento»
Joshua Benoliel, in AML
 
Tal facto terá por certo concorrido para que algumas associadas se declarassem apenas  livres-pensadoras e não tivessem querido aderir, para além desta, a qualquer organização de  índole partidária.  Aderiram  a  esta  associação  mulheres  como  Deolinda  Lopes  Vieira  [Quartin]  e  Sofia  Quintino, para só lembrar duas.  Esta  colectividade  desenvolveu  uma  intensa  actividade  cívica,  criou  várias  escolas  e  organizou quatro congressos nacionais e um internacional. Foi encerrada e extinta, em  1938, pelo regime ditatorial (1926-1974). No dia 5 de Abril de 1907, o baluarte republicano  «O Mundo»  anuncia que se encontrava a  decorrer a subscrição para a compra de uma carreta  funerária e respectiva bandeira para as  exéquias fúnebres destinada:
Aos liberais e livres-pensadores 
Chamamos a atenção dos liberais e livres-pensadores para a subscrição  pública que esta colectividade está fazendo para a construção de uma  carreta funerária especial, que se distingue das outras  carretas que servem  para funerais católicos, e também para a confecção de  uma bandeira para  arvorar na sede da associação e para cobrir os ataúdes civis.  As  listas  para  esta  subscrição  encontravam-se  expostas   em  vários  estabelecimentos comerciais.
Manifestação anticlerical promovida pela Associação do Registo Civil de apoio ao ministro da Justiça, António Maceira [1912-01-14]
Praça do Comércio
Joshua Benoliel, in AML

 
Pela sua actividade cívica, cultural e benéfica foi considerada benemérita de instrução em 1925 e de utilidade pública em 1926. Em 1938 esta Associação foi administrativamente encerrada e extinta pelas autoridades.
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Bibliografia
unl.pt/Associação do Registo Civil, texto IL e MG, 2010.
Rede de Bibliotecas de Lisboa.
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