Sunday, 22 May 2022

Palácio do Manteigueiro

Também conhecido como Palácio Condeixa, foi edificado em finais do séc. XVIII (1787). Deve-se ao arquitecto pombalino Manuel Caetano de Sousa o seu plano de construção [Eduardo de Noronha atribui a obra ao arquitecto Altronochi, Milionário. Artista, p.184]. Com uma arquitectura setecentista imponente, o palácio passou de residência a sede da Assembleia Lisbonense (1836) e, actualmente, é ocupado pelo Ministério da Economia.
Leia a agitada história deste celebrado palácio que vale bem a pena.


O Palácio do Manteigueiro, na Rua da Horta Seca à esquina da Rua da Emenda (que foi Travessa do Mel), foi edificado por volta de 1787 por uma curiosa personagem que Lisboa em peso conheceu, um certo Domingos Mendes Dias, transmontano, enriquecido no Brasil com géneros de mercearia, que transitara de aguadeiro a merceeiro, volvido depois em grande negociante de manteigas: daí a alcunha. Este homem — que se não fora a riqueza acumulada não passaria dum ignorado e humilde cidadão, chegou a fidalgo da Casa Real — era de uma sordidez tão engenhosa que fazia servir o jantar dentro de uma gaveta para a fechar rapidamente se alguém aparecesse, levantou, todavia, um palácio maravilhoso com incrível prodigalidade. Foi a sua criação. Morreu deixando toda a fortuna a António Pereira Coutinho, da velha família dos Pereiras Coutinhos, morgado de Vilar de Perdizes, a favor de quem, e querendo mostrar-se de origem fidalga, fizera testamento, com a condição de este se deixar tratar por primo — e o palácio veio a pertencer a João Fletcher, inglês de tanta preponderância na sociedade portuguesa do seu tempo, talvez a partir de 1826, época em que o palácio se transformou num grande centro de reuniões, principalmente da colónia inglesa. Mais tarde, em 1860, passou aos Condes de Condeixa [vd. imagem abaixo]No segundo ano da República habitou neste palácio o Presidente Manuel de Arriaga.

Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91; possui outro meio de comunicação na Rua das Chagas, onde um portão de ferro, com o n.º 18, abre para um extenso corredor, que liga com o jardim, nas traseiras do edifício, e que servia à criadagem e dava passagem às carruagens.
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Palácio do Manteigueiro [1970]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
 As actuais pedras de armas que coroam a janela de tribuna da entrada do palácio, são da família Condeixa.
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Domingos Mendes Dias era considerado um dos maiores capitalistas do seu tempo e deixou uma fortuna que, na data do falecimento, foi avaliada em seis e meio milhões de cruzados, correspondentes a dois mil e seiscentos contos de réis. Apesar disso, até ao fim da sua vida, revelou-se um espírito tacanho, peculiar à sovinice de que deu bastas provas. Vivia com uma preta de avançada idade, que lhe preparava os alimentos, tudo do que havia de mais barato.
Devido ao seu feitio miserável, este estranho milionário chegou a ser preso pela ronda, por se tornar suspeito, uma noite em que transportava às costas a fruta verde que apanhara do chão, numa das suas quintas dos arredores. 
Contava-se que, nas longas noites de Inverno, o seu prazer favorito consistia em «formar cartuchos de cem peças de oiro». Jamais soube tirar do dinheiro o bom partido que ele pode dar, esse ricaço asqueroso, que faleceu nos princípios do século XIX (2), em consequência de um ataque de ladrões, à punhalada, pois que, mesmo nessa emergência, achando os gastos exagerados, implorou do médico que o tratava, que fosse mais comedido nos remédios... Da poupança surgiu a gangrena, que o levou como a qualquer pobre de Cristo.

Palácio do Manteigueiro, fachada principal na fase primitiva [c. 1900]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Primitivamente de um só andar, águas-furtadas e dois pisos térreos, de janelas gradeadas,
que o declive do terreno permitiu edificar, correspondendo a loja e sobreloja, do lado
da Rua da Emenda, tem hoje três pavimentos superiores.
Fotógrafo não identificado

Contrastando com a sua manifesta avareza, o milionário-«manteigueiro» vivia num ambiente de riqueza. Os interiores do palácio eram de um «luxo asiático», expressão de que se serviu Tinop. As quatro salas (branca, vermelha, verde e amarela), com os tectos pintados por Pedro Alexandrino (1730-1810) e ricas portas de madeira do Brasil, estavam forradas de damasco, recheadas de colgaduras e de «Opulenta mobília». Os espelhos eram de boas chapas de cristal e tanto as molduras como os tremós estavam dourados com «peças d'ouro derretidas». O salão de baile, como a sala de jantar, corriam ao longo da fachada virada à Rua da Horta Seca.

Palácio do Manteigueiro, escada nobre [2020]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Fotógrafo Hélder Carita, Tiago Molarinho, in A Casa Senhorial

A Assembleia Lisbonense — também chamada Assembleia da Horta Seca, considerada durante os catorze anos da sua vigência, o melhor centro da plutocracia e da alta política, que constituíam a nata dos partidários da «Carta» — instalou-se em 1836, no Palácio do Manteigueiro; quando para lá foi, mutilou-o de cima a baixo. Mandou arrancar os tectos de excelente madeira de teca, todas as portas e ombreiras de magnifica madeira do Brasil. e vendeu tudo a ferros-velhos: o estuque igualitário destruiu, de vez, a preciosa concepção do velho Altronochi, arquitecto que ali pusera o melhor da sua arte. Ficou um casarão incaracterístico, de gosto duvidoso, mobilado á feição de Poisignon, com todas as chinesices então muito em moda no boulevard dos Italianos.
Por aqui passou, todavia, o que em Lisboa posava e orientava.

Palácio do Manteigueiro, capela [1966]
Rua da Horta Seca, 13-19; Rua da Emenda, 87-91
Desmontado e guardado no Patriarcado de Lisboa, o oratório do palácio constituía  uma das peças mais elaboradas de todo o programa interior.
Horácio Novais, in AML

No 1.º andar, merece especial referência a linda capela, com rica obra de talha e elegante cúpula, de um só altar, figurando no retábulo a imagem de Nossa Senhora. Não sabemos se é contemporânea das fundações do palácio, ou se teria sido mandada construir pelo visconde de Condeixa. No ano de 1913 instalou-se aqui a sede da Vacuum Oil Company acabando por comprar o edifício em 1920. É esta empresa que realiza as grandes obras do edifício acrescentando um andar nobre ao edifício. Se a morfologia do palácio é assim radicalmente alterada, as escadarias nobres foram preservadas protegendo-se uma estrutura arquitectónica de inequívoco valor estético. Nestas obras é igualmente desarmado o oratório da casa e guardado no Patriarcado de Lisboa.
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Bibliografia
ALMEIDA, Mário de. LISBOA do Romantismo, 1917.
COSTA, Mário, O Palácio do Manteigueiro, in Olisipo, Abril de 1958.
acasasenhorial.org.

Friday, 20 May 2022

Largo do Chiado: vendedora ambulante de fitas-métricas

O vocábulo Chiado — segundo Mário Costa, no seu Chiado Pitoresco e Elegante, 1965 — de efeito sonoro e quase mágico, designa como adjectivo aquele que se revela astuto, ladino, malicioso. No dicionário de Caldas Aulete, chiado, o mesmo que chiada ou chiadeira, quer dizer o ruído provocado pelo acto de chiar, som agudo e desagradável. Há uma hipótese segundo a qual o nome Chiado adviria do ruído carruagens que, séculos atrás, subiam a calçada (ladeira) do Chiado. Alberto Pimentel e Matos Sequeira, olisipógrafos ambos, estudaram a origem do nome Chiado.
Enquanto o primeiro concluiu que ele derivou da existência e modos de proceder de duas figuras excêntricas, alcunhadas de Chiado (Gaspar Dias, o vinhateiro, e António Ribeiro, o poeta chocarreiro), o segundo pesquisador afirmou convictamente que a transmissão de tal nome derivou da popularidade de que gozou o taberneiro na vida que fez em pleno Chiado, no século XVI, vida pública que o levou a tomar larga familiaridade com o chistoso vate, ex-frade franciscano, que em religião usou o nome de fr. António do Espírito Santo.

Largo do Chiado |1960|
Vendedora ambulante de fitas-métricas
Dístico de 1925; antigo Largo das Duas Igrejas ou Praça Do Loreto e antes lugar da Porta (ou Portas) de Santa Catarina, construída na cerca de D. Fernando, entre 1373 e 1375; Igreja da Encarnação.
Arnaldo Madureira, in AML

Sunday, 15 May 2022

O Sítio de Santo André

Foi neste Largo de Rodrigues de Freitas que nos despedimos no cabo da última jornada — recorda o ilustre Norberto de Araújo. Aqui nos voltamos a encontrar — no coração do velho Santo André, santo da toponímia popular, cujo nome encheu o sítio, e por muitos anos perdurará. Vão lá dizer as gentes que isto aqui não é «Santo André»!
A designação deriva da circunstância de neste local de que nos vamos aproximando — a Travessa do Açougue , que conduz em pequena rampa à Calçada da Graça — ter existido a Igreja Paroquial daquela invocação.

Sítio de Santo André [c. 1939]
Largo Rodrigues de Freitas antes das demolições. Perspectiva tirada do Largo do Menino Deus sobre a Travessa do Açougue, S. Vicente e Graça; na esq. alta nota-se a mansarda da Vila Sousa.
Eduardo Portugal, in AML

O primitivo templo datava de 1286, ou mesmo de mais longe, e dele fez doação D. Diniz a Aires Martins e a sua mulher Maria Esteves, sendo pouco depois constituído em sede de freguesia eclesiástica. Com o decorrer do tempo quantos sacrifícios de obras não deveria ter recebido o desaparecido templozinho, que possuía apenas uma nave e cinco capelas! Mas durou de pé até ao Terramoto, e chegava para a freguesia.
Muito ofendido em 1755, aquando do sismo, e depois reedificado, ai por 1835, ameaçava ruina de tal sorte que sofreu a pena irremissível da demolição. Entre as cinco capelas que oferecia à devoção, uma era falada: a de Nossa Senhora da Vida. Que generoso nome! A imagem desta linda capela e a do orago foram transferidas para a Igreja da Graça. Uns preciosos azulejos policromos que a capela ostentava conservam-se na Biblioteca Nacional. A paróquia eclesiástica, à qual antes de 1835 se reunira a de Santa Marinha, passou para a da Graça.==

Sítio de Santo André [1953-06]
Largo Rodrigues de Freitas depois das demolições, encruzilhada de uma meia dúzia de pequenas ruas, oásis verdejante, com algumas casas bem antigas mas, infelizmente, bastante degradadas. Perspectiva tirada do Largo do Menino Deus sobre a Travessa do Açougue; Palácio Figueira.
Eduardo Portugal, in AML

N-B. A CML através do seu edital de 14/10/1915 prestou homenagem a Rodrigues de Freitas (1840-1896), nome ligado ao jornalismo e à propaganda republicana. Economista, político e pedagogo, desempenhou um papel relevante no alastrar do movimento republicano, tendo sido um dos primeiros republicanos portugueses a ser eleito para a Câmara dos Deputados em 1870. Esteve implicado na revolução fracassada do 31 de Janeiro de 1891. Aderiu ao denominado socialismo catedrático publicando várias obras dentro desta ideologia. 
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 12-13, 1938.
cm-lisboa.pt.

Friday, 13 May 2022

Palacete na Estr. de Benfica, 382-384A

Este palacete rústico é testemunho de uma casa de campo de meados de Oitocentos, das que, juntamente com quintas, foram edificadas durante o séc. XIX ao longo das vias que levavam às localidades do termo de Lisboa.


Implantado às portas da cidade, é composto por dois corpos longitudinais que enquadram uma entrada monumental e um pequeno espaço verde dianteiro. Uma pequena rampa lateral conduz a um portão, com dupla porta de ferro, limitado lateralmente por dois pilares de almofadados, de secção quadrangular, sobrepujados por jarrões sobre plataforma, que dá acesso a um pátio definido pela planta em forma de L, resultante da junção dos dois corpos do edifício. O alçado do corpo principal, virado à Estr. de Benfica, desenvolve-se em três pisos, definidos lateralmente por pilastras-cunhais, e organiza-se em dois panos murários assimétricos separados por pilastras.

Palacete na Estr. de Benfica, 382-384A |1968|
Armando Serôdioin AML

O pano menor, rasgado por vão único em cada andar, apresenta no piso térreo porta de arco abatido e nos restantes pequenas varandas com guardas de ferro. O pano mais extenso, rasgado por três vãos em cada registo, repete idêntica tipologia, diferenciada apenas no piso térreo pela sua porta de menores dimensões e duas janelas de arco abatido protegidas por gradeamento. No topo, o edifício surge rematado, em toda a sua extensão, por balaustrada de cantaria, segmentada em quatro secções. A fachada lateral, coroada por balaustrada e com idêntica organização simétrica, é rasgada por três janelas em cada piso, molduradas e de arco de volta perfeita. O segundo corpo do edifício, mais recuado em relação ao corpo principal, segue a mesma tipologia, embora seja rasgado por vão único no alçado lateral, por ser mais estreito. Estruturado em dois pisos, para acompanhar o desnível do terreno, o acesso ao interior é feito através de ampla escadaria. 
No exterior, o conjunto é rodeado por um pequeno jardim murado, pontuado pela construção de alguns anexos nas traseiras. [cm-lisboa.pt]

Sunday, 8 May 2022

Cinema Cinebolso

O Cinebolso, inaugurado a 8 de Março de 1975, com o filme A Salamandra de Alain Tanner, era o resultado de uma abordagem que tentava conjugar a programação com os requisitos de conforto que se começavam a exigir neste tipo de espaços. Trata-se.com efeito de adaptações mais ou menos conseguidas que se estendem a toda a cidade e que estão na origem do aparecimento de outras salas como o Cinema Star inaugurado em 1977,com risco de Ramos Chaves. [...]
O Cinebolso anunciava-se com «filmes à hora de almoço», sem lugares marcados e com sessões ao domingo para crianças.
 
Cinema Cinebolso [1977]
Rua Actor Taborda, 27
Vasques, in AML

Em 1976, começa a exibir filmes «para adultos» com a estreia do filme "Kermesse Erótica" e com cinco sessões diárias formavam-se longas filas para adquirir bilhetes  — rezam as crónicas da época.
Em 1983, passa a chamar-se Quinteto, com a estreia do filme "Blade Runner" de Ridley Scotta, altura em que começou a ser explorado por Pedro Bandeira Freire, mentor do Cinema Quarteto e seu dinamizador desde a sua inauguração em 1975. Mas a vida atribulada desta sala não acaba aqui. Depois de voltar a mudar de proprietário, altera o nome para o efémero "N’Gola” já que, passados meses, volta a fechar portas. Reabrirá, em 1986, retomando a exibição de filmes para adultos — em regime de sessões continuas — e assim se manteve até 2019, altura em que encerrou para férias, e nunca mais voltou a vida.


Bibliografia
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2012
Publicações online

Friday, 6 May 2022

Convento das Salésias

A fundação do Mosteiro da Visitação de Santa Maria (ou das Salésias) nasceu da intenção do Padre oratoriano Theodoro de Almeida que, no decorrer do seu exílio em França, foi confessor extraordinário do Convento da Visitação de Annecy. Regressado a Portugal em 1778 empreendeu diligências para a fundação do primeiro mosteiro de visitandinas no país, o que ocorre, por decreto régio, em Janeiro de 1782. Instala-se na zona do "Altinho", próximo da Rua da Junqueira, em terrenos comprados ao morgado do conde da Ega e cedidos pela rainha D. Maria I, sendo inicialmente ocupado por cinco religiosas vindas de referido mosteiro francês. As obras de conversão das casas e da ermida pré-existentes iniciaram-se em Junho de 1783, simultaneamente à construção de uma nova igreja adossada ao edifício do convento, aberta ao culto apenas em 1846. Em 1887, exactamente uma década antes da sua extinção, mosteiro, igreja e cerca foram cedidos à Associação de Beneficência São Francisco de Salles. .

Convento das Salésias  [c. 1930]
Mosteiro e igreja da Visitação de Santa Maria; depois Colégio Nuno Álvares
Rua Alexandre Sá Pinto, 26
Ferreira da Cunha, in AML

O Colégio e Mosteiro veio a ser extinto em 23 de Junho de 1897 vindo a Fazenda Nacional a tomar a sua posse em 1897. Em 1905 o edifício foi ocupado pelo Refúgio e Casas de Trabalho (pertencente à Provedoria Central da Assistência de Lisboa), que em 1926 é renomeado Asilo Dom Nuno Álvares Pereira (actual Centro de Educação e Desenvolvimento de D. Nuno Álvares Pereira, da Casa Pia, mantendo-se desde então no local). A cerca mantém-se intacta e em alguns locais murada, tendo nela sido instalado o Estádio das Salésias (construído em 1928 e demolido em 1956) e a Escola Industrial Marquês de Pombal (1963).

Convento das Salésias  [1915]
Mosteiro e igreja da Visitação de Santa Maria; Refúgio e Casas de Trabalho
Rua Alexandre Sá Pinto, 26
Joshua Benoliel, in AML

No interior destacam-se: a decoração marmoreada; o coro-alto; e as pinturas de tecto, a têmpera, em trompe-l'oeil, imitando relevos em estuque.
Actualmente, encontra-se sob a gestão da Casa Pia de Lisboa. [mais info: patrimoniocultural.cm-lisboa.pt]

Convento das Salésias  [1915]
Mosteiro e igreja da Visitação de Santa Maria; Refúgio e Casas de Trabalho
Rua Alexandre Sá Pinto, 26
O programa decorativo de maior interesse encontra-se nas abóbadas da nave central e transversal da cúpula, pintadas a têmpera, em trompe l'oeil imitando curiosos relevos em estuque de festonadas de meados do séc. XIX
Joshua Benoliel, in AML

Sunday, 1 May 2022

Campo Grande: «Casa Camelo»

Para NO. estende-se então o maior parque da Cidade, o Campo 28 de Maio ou Campo Grande. Chamado antigamente Campo de Alvalade, é logradouro público da cidade desde o séc. XVI. O parque foi começado a plantar nos tempos de D. Maria I. Tem 1.300 m. de comprimento por 200 de largura.

Casa Camelo sito Campo Grande, 394-396  |1941|
«Casa Camelo», demolida nos idos de 1960/70 para a abertura da Avenida Gen. Norton de Matos.
Eduardo Portugal, in AML

Tendo sofrido, durante muitos anos, toda a espécie de vicissitudes, ao ponto de apresentar, em alguns locais, um aspecto pouco brilhante, esta grande zona foi restaurada (1946) segundo projecto do arquitecto Keil do Amaral, que, com o precioso auxílio dos serviços camarários de jardinagem, corrigiu arruamentos, abriu novas pracetas e construiu airosas edificações utilitárias entre o frondoso arvoredo também reconstituído, conseguindo que o novo Campo Grande recuperasse um aspecto de grande beleza pois as suas espécies vegetais são preciosas, devendo salientar-se as palmeiras gigantes ao N. do parque.
(in Grande enciclopédia portuguesa e brasileira, 1936)

Campo Grande |1907|
Zona N. do Campo Grande com a Alameda Linhas de Torres junto ao Palácio Valença-Vimioso; ao fundo a «Casa Camelo», demolida nos idos de 1960/70 para a abertura da Avenida Gen. Norton de Matos (2ª Circular); 1.º raide hípico promovido pela 'Ilustração Portuguesa", automóvel de 'O Século' em que segue o sr. Hogan Teves, delegado da 'Ilustração Portuguesa'.
Joshua Benoliel, in AML
Nota(s): local não identificado no AML

Só na década de quarenta do século XX, por edital de 23/12/1948, (...) voltou a denominar-se como Campo Grande, designação que se manteve até à actualidade.[cm-lisboa.pt]

Campo Grande  |190-|
Passeando entre as  palmeiras gigantes.
Paulo Guedes, in AML

Friday, 29 April 2022

Profissões de antanho: o moço de fretes

O moço de fretes ou moço de esquina, como também era conhecido, foi uma instituição de Lisboa. Normalmente eram homens oriundos da Galiza, embora entre eles se contassem muitos elementos das nossas Beiras.


Um moço de fretes abeira-se de mim, ergue a pala do boné:
- É preciso alguma coisa, senhor engenheiro ? 
Dou-lhe as malas, digo-lhe que há ainda um caixote de livros a desembarcar. 
- Então é dar-me a senhazinha, senhor engenheiro.
[Ferreira: 1960]

Moço de fretes |entre 1908 e 1914|
Praça do Comércio, antigo Terreiro do Paço
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House

Arranjo as malas, e digo na casa onde estou que chamem um moço de fretes para mas levar á estação. Ignoro ainda que na América não existe o moço de fretes. O que há é a agência de fretes. Telefona-se para a agência, e diz-se: «Venha buscar uma mala, ou duas malas, ou a mobília toda da casa, á rua tal, número tantos... Se não há telefone, dependura-se á janela um letreiro dizendo: «Há frete». 
[Mesquita; 1916]

Moço de fretes |1923|
Praça D. João da Camara junto à Estação do Rossio
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Sunday, 24 April 2022

Palácio Almada (ou da Independência)

A celebridade do Palácio adveio da circunstância de o seu proprietário e morador, em 1640, ser D. Antão Vaz de Almada, um dos conjurados a favor da Restauração. É tradição mantida, e sustentada, que foi nestas nobres casas, em certo pavilhão que durante muito tempo foi respeitado e hoje ainda identificado nos seus vestígios, que os conspiradores reuniam, e que foi daqui que saíram para o Terreiro do Paço. 
O facto histórico de este Palácio haver sido o «quartel general» exclusivo da conjura, está hoje muito abalado, mas parece incontroverso, com apoio na verosimilhança, que nele se realizaram conciliábulos, sendo o principal em 12 de Outubro.


O Palácio dos Condes de Almada, no Largo de S. Domingos, é um dos mais representativos espécimes seiscentistas da área urbana de Lisboa, ainda que de linhas simples, e com tradições que justificam a classificação de «monumento nacional»

Palácio Almada (ou da Independência) [1939]
Largo de S. Domingos
A Frontaria Principal, voltada a Sul, precedida de um terreiro guarnecido de cortina de gradeamento, e nela o portal seiscentista emoldurado, sobreposto de varanda de balaústres a guarnecer a janela central, das onze de sacada do andar nobre que a fachada apresenta, engrinaldada de renques e sobrepujada de brasão (armas dos Almadas e Avranches, abertas e floretadas, com duas águias na contrabanda).
Eduardo Portugal, in AML
Palácio Almada (ou da Independência) [1939]
Largo de S. Domingos
No Palácio dos Condes de Almada, apenas com o andar nobre acima do andar inferior, há a considerar, designadamente, a frontaria principal. No canto superior direito notam-se as chaminés oitavadas — torreões — que davam tiragem às cozinhas.
Eduardo Portugal, in AML

Os Almadas remontam pelo menos ao século XIV; nesta família entrou o condado de Avranches, na Normandia, com honras e título concedidos pelo Rei Henrique VI de Inglaterra ao famoso e lealíssimo D. Álvaro Vaz de Almada, que sucumbiu com o Infante D. Pedro cm Alfarrobeira (12 de Maio de 1449). Não tem fundamento a versão de que no final do século XIV ou princípios do século XV havia no «Rossio de Valverde» um solar dos Almadas. (Uns Paços de Valverde», da família Almada, leriam existido, mas perto do Mosteiro de Alcobaça).
O fulcro da história do palácio é a conspiração de 1640. Não é apenas tradição, mas facto comprovado, que os conjurados se reuniram «também» na casa de D. Antão Vaz de Almada (num pavilhão dos jardins, que não nas salas), embora não fosse ali, por precaução, o centro conspiratório, sendo positivo, porém, que no palácio se realizou a última e decisiva reunião na madrugada do l.º de Dezembro.

Palácio Almada (ou da Independência) [1939]
Largo de S. Domingos
A fachada lateral com sete janelas de sacada, sobre a Rua das Portas de Santo Antão (antiga de Eugénio dos Santos), apoiada numa baixa e sólida arcaria (1940) de sete arcos de volta redonda. 
Eduardo Portugal, in AML

Quanto aos dois chamados «torreões históricos» (e que não passam de chaminés de cozinha), muito decorativos. situados na ala Nascente sobre as Escadinhas da Barroca, eles remontam, pelo menos, ao terceiro quartel do século XVI, pois já aparecem na planta «Olissippo quae mmc Lisboa...», de Georgio Braunio, de 1572.

Palácio Almada (ou da Independência) [c. 1946]
Largo de S. Domingos
As Duas Chaminés do palácio (século XVI), que davam tiragem às cozinhas
(até 1940 habitação de famílias pobres com entrada pelas Escadinhas da Barroca, n.º 1,
hoje dependências nuas e limpas, com acesso por um dos corredores da Sociedade
Histórica); nelas, e desiguais, há a considerar os remates ameados dos cones oitavados,
e, acima deles, um coroamento canudado, circundado de cimalha decorativa.
Horácio Novais, in AML

No palácio, no qual durante vários períodos da sua história não residiram os Almadas (em principio de Julho de 1883 abandonaram-no definitivamente como moradia de família), instalou-se o Depósito Público em 1756, o Senado Municipal em fins de 1757 ou princípios de 1758 (até 1766), e o Tribunal da Relação em 1758, este hóspede durante bastantes anos, chegando mesmo o actual Largo de S. Domingos a ser denominado «Largo da Relação» (1775). No final da primeira década do século que decorre [XX] ocupava o edifício o Quartel General da l.ª Divisão. que ali estava já desde,
pelo menos, 1896, e pouco depois de 1911 o palácio começou a ser distribuído por inquilinato comercial, da mesma maneira que, na segunda metade do século passado [XIX], e mesmo antes, recebera vários inquilinos particulares. A Comissão Central 1.º de Dezembro, fundada em 1861, logo nesse ano ali se instalou. Nos baixos do palácio, na Rua Eugénio dos Santos [hoje das Portas de Santo Antão], existiu, de 1924 até 1938, um «Café Comercial» [vd. 3ª imagem].

Palácio Almada (ou da Independência) [ant. 1944]
Largo de S. Domingos
O Pátio Nobre, antecedido de uma passagem sob três arcos de volta abatida, sucessivamente desenvolvidos no sentido da largura.
Fotografia Alvão, in AML
Palácio Almada [c. 1900]
Largo de S. Domingos
Antigos jardins com tanque e panos de azulejos - um deles descrito abaixo.
José Leitão Bárcia, in AML
Palácio Almada (ou da Independência), jardim [1960]
Largo de S. Domingos
Recanto Histórico, no qual se reuniram pela última vez os conjurados de 1640, guarnecido pela frente por duas pequenas colunas e grade de ferro, tendo ao fundo um lindo tanque de jardim; e nele três painéis de azulejos, representando cenas da Restauração, que sumariamente se descreve o do centro: A cena do assalto ao Paço da Ribeira; D. Miguei de Almeida solta de uma janela do palácio real o grito (legenda em fita) «Liberdade, Liberdade, Viva El-Rei D. João IV »; em baixo numa legenda lê-se: «Redempsão de Portugal, A Fidelidade e o Amor triunfão».
Armando Serôdio, in AML

O edifício, já património nacional (comprado por 2.800 contos), foi entregue à Sociedade Histórica em cerimónia pública, que se efectuou na Praça do Comércio em 24 de Novembro de 1940, e nessa mesma tarde aquela Sociedade Histórica e o Comissariado da Mocidade Portuguesa — aos quais o palácio se destinou — receberam no Salão Nobre as chaves das salas. Oficialmente a posse realizou-se no dia 1 de Dezembro daquele ano dos Centenários.==

Palácio Almada [190-]
Fundado em 1467, por D. Fernando de Almada, a sua traça medieval primitiva foi conhecendo ampliações em 1509, alterações nos séculos XVII e XVIII e restauros em 1940. 
Paulo Guedes, in AML

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 82, 1939.
idem, Inventário de Lisboa: Monumentos histórico, 1946.

Friday, 22 April 2022

Cinema da Feira Popular e Teatro Vasco Santana

A história do primeiro Cinema Municipal inicia-se em 1951, ano em que foi inaugurado na antiga Feira Popular de Lisboa que se localizava no Parque da Palhavã junto à Praça de Espanha.
Esta feira foi inaugurada em 1943 e seria transferida para a zona de Entrecampos em 1961, (vindo ocupar os terrenos onde anteriormente se localizava o Mercado Geral de Gados edificado em 1888), o que levou a que o edifício do cinema fosse demolido.

Cinema da Feira Popular [1961]
Avenida da República
Artur Goulart, in A.M.L.

Em 1972, o cinema converteu-se no Teatro Vasco Santana e por lá passaram alguns dos nomes mais importantes do teatro e televisão nacional. Com as obras de ampliação e modernização que sofreu posteriormente, foram criados novos espaços que fizeram nascer o Auditório Ana Bola.
Após o encerramento da Feira Popular em 2003, o Teatro foi perdendo público acabando por fechar portas em 2006.

Teatro Vasco Santana, na Feira Popular [1972-09]
Avenida da República
Vasco Gouveia de Figueiredoin A.M.L.

Sunday, 17 April 2022

Mercado da Praça da Figueira, talhos e salsicharias em Sábado de Aleluia

Acabou-se o magro!


Era assim que a revista Ilustração Portuguesa de 8 de Abril de 1907 titulava um artigo sobre o fim da época pascal. Depois da abstinência do período da Quaresma — quadragesima dies (quadragésimo dia) — , quarenta dias de sacrifícios e sem comer carne às Sextas, no Sábado de Aleluia assistia-se a uma correria desenfreada e esfomeada aos talhos e salsicharias, tudo por um suculento naco de carne.

Praça da Figueira [8 de Abril de 1907]
Mercado da Praça da Figueira, talhos e salsicharias em Sábado de Aleluia.
Joshua Benoliel, in AML

Friday, 15 April 2022

Semana Santa em Lisboa

Na quarta-feira de Cinzas, os católicos, arrependidos por tantos disparates que teriam cometido durante o Entrudo, iam penitenciar-se às igrejas e saíam à rua, refeitos, com cinza na testa, aplicada pelos sacerdotes. Os agnósticos, ou os mais esquecidos das obrigações, partiam para «fora de portas» a deglutir famosas ementas que faziam parte das cozinhas das casas de pasto dos arredores e onde, naturalmente, havia vinho afamado.

Semana Santa em Lisboa [1907]
Igreja de Nossa Senhora do Loreto no Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in AML
Semana Santa, à saída da Igreja do Loreto [1907]
Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in AML

As tipóias carreavam, por estradas hoje desaparecidas debaixo dos arranha-céus, toda uma malta de pândegos que ia afundar em bebedeiras os restos histriónicos dos dias do Carnaval. No António das Caldeiradas, em Belém; no Ferro-de-Engomar e nas Pedralvas, por Benfica, no Perna-de-Pau, ao Areeiro, o Caliça, o Quebra-Bilhas e outros que não nos ocorre, fazia-se o rescaldo da paródia! Acabaria a estúrdia noite alta com fados cantados por gargantas privilegiadas.
Depois do Carnaval, a Quaresma. São cinco semanas de encontro com Deus. Depois a Semana Santa!
Para a canalha miúda eram mais uns dias de férias. Depois da licença, as amêndoas e o folar cheio de ovos. Mas a Semana Santa era algo de solene. Podia-se não ser crente, que família católica impunha já na quarta-feira de Endoenças a gravata preta. Não se discutia. Havia sermões nas igrejas e vasta audiência aos pregadores de maior fama. — Que belo sermão ouvimos hoje! — Os padres, Governo, Farinha e Fernandes de Castro, entre outros, atraíam um público de qualidade. la-se de igreja em igreja para os ouvir!

Semana Santa, à saída da Igreja da Encarnação [1912]
Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in AML
Semana Santa, à saída da Igreja da Encarnação [ 22-4-1922]
Largo do Chiado
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
Senhoras durante a Semana Santa [1912]
Rua António Maria Cardoso; ao fundo, o Largo do Chiado
Pela Páscoa, na altura da Semana Santa, era tradição o luto carregado, as pessoas vestiam-se de escuro e com discrição.
Joshua Benoliel, in AML

Quinta-feira Santa era o dia de maior respeito, havia silêncio nas ruas, apesar da multidão que, de luto, visitava as sete igrejas da obrigação. O ar cheirava a rosmaninho que atapetava as entradas dos templos, onde mulheres vendiam raminhos com alfazema e alecrim. Nas pastelarias, cheias de gente, os caixeiros não tinham mãos a medir para aviar as guloseimas.
Naquele tempo, o sábado de Aleluia era uma festa! Desapareciam dos altares os reposteiros roxos, reboavam os sinos no entusiasmo da vida nova! Colaborando no festival de Deus, bandos de pombos eram libertos nas naves das igrejas.
Depois do Concílio foram alteradas algumas normas, mas o Domingo de Páscoa continua a ser a alvorada cheia de luz que a todos enternece e enche de alegria. É o grande dia litúrgico; desapareceram os lutos, desejam-se reciprocamente as Boas-Festas!



Venda do rosmaninho em Quinta-feira Maior 
[22-4-1922]
 [18-04-1935]

Largo do Chiado
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século





Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

Sunday, 10 April 2022

Rua da Torre da Pólvora

[1804Torre da Pólvora: é a ultima à direita, descendo pela Calçada da Pampulha, vindo da Igreja de S. Francisco de Paula, e vai terminar aos Armazéns da Pólvora
[1864Torre da Pólvora (largo da)  fica na fim da rua da Torre da Pólvora, indo da calçada da Pampulha e finda na travessa do chafariz das Terras, freguesia de Santos. Está n'este largo o presidio denominado da Cova da Moura, actualmente serve de quartel para infantaria.
[1924] Fronteira à R. do Tenente Valadim, a rua da Torre da Pólvora, que vai dar à Cova da Moira, ao fundo da qual fica o quartel onde se acha instalado o 1.º grupo de companhias de administração militar. 

A designação de Torre da Pólvora nesta serventia — recorda Norberto de Araújo — nasce da circunstância de, no fundo da rua, ter sido construída, de 1670 a 1696, uma torre, depósito ou paiol de pólvora defendida por seu guarda fogo, num recinto relativamente largo.

Rua da Torre da Pólvora [1939]
Desaparecida para dar lugar à Avenida Infante Santo
Eduardo Portugal, in AML

O casarão foi depois presídio (1843), já há muito o depósito de pólvora havia desaparecido do local. Mais tarde, nas casas anexas reconstruídas e ampliadas, instalou-se o regimento de Infantaria n.° 7; ainda depois, em 1899, vários serviços de Administração Militar, e em 1928 uma Companhia de Trem Hipomóvel. É este o bairrista quartel da Cova da Moura. [...]

Panorâmica sobre o Quartel da Cova da Moura [c. 1947]
Demolido para dar lugar à Avenida Infante Santo
Eduardo Portugal, in AML

A abertura da Avenida Infante Santo vai implicar a sua destruição em finais da década de 1949. Conforme o Edital de 13 de Maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo.

Panorâmica sobre a Avenida Infante Santo [c. 1959]
A abertura da Avenida Infante Santo vai implicar a destruição da Rua da Torre da Pólvora.
Mário Novais, in FCG

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 56, 1938.
COSTA, António José Pereira da - A Fábrica e a Torre da Pólvora, 2017.
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