sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Beco dos Lóios que foi «dos Cabras»

Cabras (beco das) primeiro á esquerda na rua do Salvador, indo do largo de Santo André e finda na rua de Santa Marinha, freguezia de Santo André 2 a 28 e 1 a 19. [Velloso: 1869]

Com respeito a cabras — diz Matos Sequeira (\940) — está claro que esta simpática Lisboa não se podia ufanar de as não ter tido e de não as ter ainda salpicando aqui e ali a sua toponímia. Ora veja-se: o nosso beco dos Lóios, a Santa Marinha, já foi «das» Cabras mas impropriamente, por que devia ser «dos» Cabras, da família deste apelido [...]

Beco dos Lóios (S→N) |1945|
Encimando a imagem corre a 
Rua de Santa Marinha.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo afirma que «A sua categoria primitiva foi a de travessa – "ua q vay junto á travessa dos Cabras" – e a primeira vez que nos aparece nos registos paroquiais de S. Tomé é em 1705. Ainda não sabemos que Cabras – apelido ou alcunha – deram o nome à serventia». Ou seja, o primitivo topónimo resultava do nome de gente conhecida localmente. Mas já em 1812 o Padre Carvalho Costa, na sua Corografia Portuguesa, menciona este arruamento como Beco das Cabras, tal como está na planta de 1858 de Filipe Folque e assim ficou até lhe ser mudado o nome para Lóios, aproveitando uma relativa proximidade ao Largo dos Lóios.
(MACEDO, Luis Pastor de - Lisboa de lés-a-lés: Subsídios, 1940-1943)

Beco dos Lóios (S→N) |1966-04|
Vista tomada da Rua do Salvador.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

domingo, 27 de setembro de 2026

Palacete Alves Machado

O Palacete Alves Machado constitui um exemplar típico dos finais do Romantismo, e um dos raros casos em que o programa decorativo original, datado de finais do século XIX, nos chegou intacto, tal como aconteceu com o conjunto da propriedade, que inclui o edifício neoclássico e um talhão ajardinado.


O lote onde foi edificado o Palacete Alves Machado fazia parte dos terrenos que pertenceram aos frades cartuxos desde a primeira década do séc. XVII — que aqui haviam erguido o seu Hospício do Monte Olivete — até à sua venda em hasta pública em 1834, após a extinção das ordens religiosas. Edificado em 1876, por iniciativa de João Alberto Lopes, foi logo vendido em 1879 a António José Alves Machado, que por morte a deixou ao seu irmão, Manuel Joaquim Alves Machado, então já distinguido com o título de conde. Ambos eram representantes da nova burguesia endinheirada, ligada aos negócios, que fizeram nome e fortuna no Brasil. Em 1899 a propriedade foi vendida ao Conselheiro Joaquim José Cerqueira, também emigrante regressado do Brasil, que a habitou até 1929, data em que arrendou o palacete ao Instituto de Estatística, inicialmente, e ao Colégio Feminino Francês, posteriormente. Em 1973, o imóvel foi adquirido pelo Estado, que, por sua vez, o vendeu, em 1989, à Fundação Oriente. Por fim, em Dezembro de 2015, a propriedade foi vendida a um grupo hoteleiro. O palacete, neoclássico, traduz um exemplar típico dos finais do Romantismo e um dos raros casos cujo programa decorativo original, datado de finais de Novecentos, chegou intacto até aos nossos dias. A propriedade, murada, incluía a casa e um talhão ajardinado. O edifício, erguido a curta distância do muro exterior, apresenta planta quadrangular, que define quatro fachadas idênticas, estruturadas por um pano central de três pisos, ladeado por panos de dois pisos, apenas. Cada piso surge rasgado por janelas de sacada com guardas ornamentais. Nas esquinas do piso superior, sobre os panos laterais, evidenciam-se quatro varandas de planta rectangular com balaústres, actualmente transformadas em marquises envidraçadas. 

Palacete Alves Machado |s.d. ant. 1950|
Rua do Salitre, 62-64
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

A entrada é efectuada pela fachada principal, voltada à Rua do Salitre, através de duplo lanço de escadas, que se localiza no mesmo eixo de um portão aberto no muro exterior, flanqueado por dois óculos elipsoidais. O átrio, zona de comunicação ao interior, possibilita o acesso a escadaria de madeira em dois lanços simétricos semicirculares com guarda em ferro forjado, iluminada por clarabóia, constituindo o coração da casa. 
A orgânica funcional do imóvel é característica da época, adaptada ao que à data se considerava uma moderna habitação burguesa, com salas comunicantes, salões nobres dispostos ao longo da fachada e áreas de serviço no piso térreo. 

Palacete Alves Machado |s.d. ant. 1950|
Rua do Salitre, 62-64
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

No interior, o programa de pinturas decorativas foi executado pelo mais operoso dos pintores decoradores do séc. XIX, José Maria Pereira Júnior, mais conhecido por Pereira Cão (1841-1921), merecendo destaque: os medalhões em estuque e as pinturas em trompe-l'oeil de tecto, sob a clarabóia; as pinturas claramente românticas, traduzidas num conjunto de representações naturalistas, a óleo sobre tela, de fauna, flora e vistas idealizadas de Portugal, distribuídas ao longo dos patamares; as pinturas que abordam temas naturalísticos de cuidada execução e colorido, onde pontuam aves de jardim exóticas, que aludem à estadia no Brasil de alguns dos proprietários do imóvel; e, por fim, as pinturas murais fazendo alusão ao mundo greco-romano da Antiguidade Clássica, ao estilo francês Luís XVI e ao mo-árabe, que decoram as salas voltadas para a escadaria.
O Palacete Alves Machado, incluindo o jardim e o património integrado, encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público. [patrimonio.pt]

Palacete Alves Machado |s.d. ant. 1950|
Rua do Salitre, 62-64
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Rua de Arroios — antiga Rua Direita de Arroios

A Rua de Arroios, tal como a Calçada de Arroios, perpetuam na memória de Lisboa a ligação ao antigo sítio de Arroios, que significa regato e local de hortas verdejantes — com “arvoredos murmurosos e relvas fofas”, refere Eça de Queiroz n’O Primo Basílio, em 1878.


Vês este prédio moderno na esquina da Rua Francisco Foreiro (também nova) e da Rua de Arroios onde tem os n.ºˢ 46 a 48, e que é hoje uma serração de madeiras?  — interpela-nos o ilustre Norberto de Araújo. Pois foi, até 1916(?), a famosa Fábrica de Cervejas «Leão», que refrescou não apenas nossos pais, mas também nossos avós. Tinha então um pátio grande, que ainda hoje se desenha, alterado na fisionomia; eram casas e terrenos dos Condes de S. Miguel.⁼⁼
[ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 79-81, 1938]

Rua de Arroios |194-|
Antiga Rua Direita de Arroios, antes troço da Rua Direita dos Anjos e Rua Direita de Arroios
À dir., em primeiro plano na esquita com a Rua Francisco Foreiro, vê-se um prédio no sítio onde foi a Fábrica de Cerveja Leão, que anteriormente tinha sido o palácio do Conde de São Miguel, à esquerda, em segundo plano, a fábrica de Lanifícios de Arroios, onde foi o palácio dos Condes de Mesquitela.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

domingo, 20 de setembro de 2026

Da velha Estr. que foi de Sacavém — pelas Ruas Alves Torgo e Agostinho Lourenço — até ao Apeadeiro do Areeiro

A velha Estr. de Sacavém tinha o seu começo no cunhal da primitiva Igreja de S Jorge de Arroios, do lado da sacristia onde se lia o respectivo letreiro municipal, posteriormente substituído pelo de Rua Alves Torgo, e estendia-se pela Portela até Sacavém, num percurso de cerca de quatro quilómetros.
Depois de, em 1956, ter perdido este troço para a Rua Agostinho Lourenço, a Rua Alves Torgo, que agora deságua no Areeiro, voltou a ser encurtada quando o troço compreendido entre a Rua António Pereira Carrilho e a Alameda Dom Afonso Henriques, passou a denominar-se Rua Quirino da Fonseca.

Com a legenda «Devotado Apóstolo da Instrução Popular» passou José Maria Alves Torgo a integrar a toponímia de Lisboa por deliberação camarária de 2 de Novembro de 1925 e edital de 5 de Novembro de 1925, no que até aí era um troço da Estr. de Sacavém, a partir da esquina da Igreja de Arroios até ao limite da freguesia do mesmo nome.

Rua Alves Torgo |c. 1940|
Troço entre a actual Av. Afonso Costa (dist. 1976) e a antiga Av. do Aeroporto hoje Almirante Gago Coutinho. As casas contiguas do lado esq. ainda por lá estão. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Rua Alves Torgo |1938-12-03|
Para esta serventia foram provisoriamente desviados, na década de 1938-40,  os carros eléctricos enquanto decorriam as obras de requalificação da Av. Alm. Reis (N.) e da Praça do Areeiro.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Agostinho Vicente Lourenço nasceu em 1822 na Índia e faleceu em Lisboa no ano de 1893. Químico e Professor universitário, Agostinho Lourenço, formou-se na Escola Médica de Nova Goa, onde leccionou. A ele se devem os estudos das águas minerais do Distrito de Lisboa, Chaves, Vizela, Vidago, a cujos trabalhos, apresentados na Exposição Universal de Paris, foi concedida a medalha de Ouro.
Para Portugal veio em 1862 passando a integrar o corpo docente da Escola Politécnica de Lisboa.

Rua Agostinho Lourenço |1951-08|
Ao fundo, depois da passagem de nível junto ao antigo apeadeiro do Areeiro (onde hoje existe uma ponte pedonal), rasgava-se a Rua Guilhermina Suggia em terrenos da Quinta do Perna de Pau onde se situava o afamado retiro do mesmo nome.
Era o troço da Rua Alves Torgo entre a Avenida do Aeroporto (actual Avenida Almirante Gago Coutinho) e a Linha do Caminho de Ferro de Cintura (Areeiro) [vd. imagem abaixo]. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Rua Agostinho Lourenço |1960|
 Passagem de nível do Apeadeiro do Areeiro junto à Av.  São João de Deus [vd. imagem seguinte]. 
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

O sitio de Arroios — onde nascia a velhinha Estr. de Sacavém — tira o seu nome da série de ribeiros que outrora ali serpenteavam alimentando hortas, prados, quintas e terrenos cultiváveis de vasta extensão.
Apesar disso, outra versão existente, diz que tal designação provém de «arroyos», uma planta medicinal, cuja descrição se encontra no livro intitulado «Luz da medicina».
Afirma Vilhena Barbosa que este sítio, no século XVI - época em que nele foi erigido o célebre Cruzeiro - era um arrabalde de Lisboa e tirava o seu nome, segundo se presume, de umas ervas que ali cresciam, em abundância, então chamadas «arroyos».
Embora não se tivesse chegado a uma conclusão definitiva, tais opiniões não são de excluir.

Aspeto do Apeadeiro do Areeiro (dir.) visto da Avenida Almirante Gago Coutinho |1963-07|
Extinta passagem de nível no eixo Rua Guilhermina Suggia-Rua Agostinho Lourenço (Avenidas Frei Miguel Contreiras (dir.) e São João de Deus).
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia

Revista Municipal, nº 85 de 1960.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, 1938.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Rua Aviador Plácido de Abreu com Rua Prof. Sousa da Câmara, às Amoreiras

O topónimo Rua Aviador Plácido de Abreu foi atribuído pela CML, através de Edital datado de 21/12/1960, ao arruamento com a denominação provisória de Rua Projectada à Rua das Amoreiras ou Rua “B” à Rua das Amoreiras; este troço da velhinha Rua das Amoreiras corresponde, desde 1971, à Rua Prof. Sousa da Câmara [vd. 2ª imagem] que se pode ver ao fundo.

Nota(s): Plácido António da Cunha Abreu (1903-1934), aviador acrobata despenhando-se contra o solo por ocasião da Taça Mundial de Acrobacia Aérea que decorria em Vincennes, França.
Alferes e observador na aviação portuguesa desde 1925, Plácido de Abreu tirou a carta de piloto aviador em 1930 e começou a praticar acrobacia distinguindo-se pelo seu arrojo. No Grande Certame Internacional de Cleveland, em 1932, ficou classificado entre os três primeiros acrobatas não americanos.  [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Rua Aviador Plácido de Abreu |1967|
Ao fundo corre a velhinha R. das Amoreiras, desde 1971 denominada R. Prof. Sousa da Câmara.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Rua das Amoreiras actual R. Prof. Sousa da Câmara |1967|
Perspectiva tomada das Ruas do Arco do Carvalhão e de Campolide (Cruz das Almas) do troço da antiga Rua das Amoreiras, antes desta ser separada em dois troços distintos pela Av. Eng. Duarte Pacheco em 1948. 
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): António Pereira de Sousa da Câmara (1901-1971) foi Professor Catedrático do Instituto Superior de Agronomia, escola em que se tinha formado como Engenheiro Agrónomo e Engenheiro Silvicultor. Leccionou as cadeiras de Agricultura Geral e de Máquinas Agrícolas. Leccionou ainda a cadeira de Trematologia que, de algum modo era a área científica precursora da Genética no final do século XIX e início do século XX. No seu trabalho de investigação foi pioneiro no estudo e investigação da Genética em Portugal, tendo estagiado, após a conclusão do seu curso nas Universidades de Edimburgo (1932-1933) e Cambridge (1933). Mais tarde estagiou também na Alemanha no Kaiser Wilhelm Institut für Biologie (1936) e na Universidade de Missouri nos Estados Unidos da América (1948). Fundou as revistas de Agronomia Lusitana e Genética e escreveu ABC da Genética (1942) e No Caminho – Guiando Uma Empresa Científica, 1943, além de numerosos trabalhos científicos. [bibliotecacosmos]

domingo, 13 de setembro de 2026

Companhia dos Telefones: Estação Norte de Lisboa

A 10 de Março de 1876 Alexander Graham Bell conseguiu inventar um aparelho exótico e estranho, mas já susceptível de receber ou transmitir a voz humana.
Cinco anos depois da sua invenção o Telefone chega a Lisboa que o recebe num ambiente solene de maravilha.

1915 marca uma etapa decisiva na vida telefónica da cidade. Retardada um pouco pelas incertezas da guerra europeia, inaugura-se finalmente a Estação Norte. É um edifício esplêndido da Rua Andrade Corvo, construído especialmente para esse fim e com capacidade logo de início para 10.000 assinantes. Como trinta e três anos antes a inauguração da nova Estação vai ter solenidade e brilho. Comparece o governo de que era presidente o falecido político Afonso Costa, o Embaixador de Inglaterra, associações económicas, etc.

Companhia dos Telefones (APT): Estação Norte de Lisboa |1922|
Rua Andrade Corvo
Em 1887, a Anglo-Portuguese Telephone, empresa constituída por capitais britânicos, adquiriu à Edison Gower Bell os direitos de exploração das telecomunicações por 50.000 libras. No dia 14 de Setembro daquele ano, foi celebrado um contrato entre a APT e o Estado português.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O edifício novo fez sucesso. As suas linhas sóbrias e amplas são am grito audaz de modernismo no mau gosto característico da época. Ocupa uma área de 440 m² e ali estão ainda instalados Oficinas e Montadores, Fiscalização, Transportes, Consultório, Depósito de Linhas, Cabos e Ferramenta, além das grandes salas de experiências e de comutações, estas últimas ocupadas hoje [1937], em plena época do automático, pelos selectores e outros aparelhos adequados.

Os anos passam...
Finda a guerra, e o período anormal que ela motivou, a Companhia de novo retoma o seu desenvolvimento constante. As cabines públicas que em 1910 eram em Lisboa-54 — sobem em alguns anos para 120. O telefone é cada vez mais necessário.

Companhia dos Telefones (APT): Estação Norte de Lisboa |1922|
A sala de comunicações da Estação Telefónica do Norte na 
Rua Andrade Corvo.
 Em 13 de Janeiro de 1882, or concurso, a Edison Gower Bell Telephone Company of Europe, Ltd recebeu a concessão para explorar as redes de Lisboa e Porto.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

As constantes exigências do público que cada vez mais se familiariza com o telefone, obriga a A. P. T. a lançar as vistas para um edifício novo que sirva agora a área central da cidade. Por isso, em 1920, adquire os edifícios da antigo Salão da Trindade sito na R. Nova da Trindade, 7, sendo a 1.ª pedra para a nova Estação lança-se em 20 de Dezembro de 1923 e inaugurado em 30 de Março de 1925.

Companhia dos Telefones |1961|
Rua Andrade Corvo
Em 1968, após quatro renovações de licença, o Estado português optou por não a prolongar. Foi então fundada a empresa pública Telefones de Lisboa e Porto (TLP), que herdou o património da APT.
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
The Anglo Portuguese Telephone, C.º Ltd.. Lisboa 1937

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Avenida de António José de Almeida: Jardim Gomes de Amorim

O Jardim Gomes de Amorim acompanha toda a lateral de um quarteirão da Avenida em frente à Imprensa Nacional Casa da Moeda.
Cerca de quinze dias após o falecimento de António José de Almeida (1866-1929) decidiu a edilidade, pelo edital de 12/11/1929 que a a Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) se denominasse Avenida Dr. António José de Almeida. Mas em 1933, pelo edital de 18 de Julho passou a Avenida António José de Almeida a ser no prolongamento da Avenida Miguel Bombarda, entre a Avenida dos Defensores de Chaves e a Avenida de Manuel da Maia, onde ainda hoje a encontramos, sendo ao mesmo tempo Guerra Junqueiro colocado no arruamento que antes levava o nome do antigo Presidente da República. Acresce que conforme um parecer da Comissão de Toponímia na sua reunião de 13/04/1951, homologado pelo Vice-presidente da edilidade, foi acrescentada a partícula «de», sendo desde então Avenida de António José de Almeida. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Avenida de António José de Almeida: Jardim Gomes de Amorim |1943-05-05|
Perspectiva tomada da Rua Dona Filipa de Vilhena na direcção da Av. Defensores de Chaves (e Av. Miguel Bombarda).
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Francisco Gomes de Amorim nasceu em Avelomar a 13 de Agosto de 1827 e faleceu em Lisboa a 4 de Novembro de 1891. Escreveu muitas peças entre outras «Odio de Raças», «Ghigi», «0 Cedro Vermelho», etc. Publicou dois volumes de versos, «Cantos Matutinos» e «Ephemerus». Autor das «Memorias Biographicas de Garrett». Deixou vários romances e muitos outros escritos, em prosa e em verso, inéditos uns, outros já publicados.

Avenida de António José de Almeida: Jardim Gomes de Amorim |195-|
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 6 de setembro de 2026

Avenida da República, 54: Casa Isidoro Sampaio de Oliveira

Prêmio Valmor de 1930 - Menção Honrosa 

Menção Honrosa do Prêmio Valmor para o Edifício de habitação na Avenida da República, 54, com projecto de Porfírio Pardal Monteiro (1879-1957) para Isidoro Sampaio de Oliveira. Edifício de características modernistas, foi demolido em 1962, dando lugar a um edifício de escritórios.

Avenida da República, 54 (52) |c. 1960|
Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1930
A moradia da esquerda [vd. 2ª imagem], construída em 1930, é da autoria do arqº Porfírio Pardal Monteiro e pertenceu a Isidoro Sampaio de Oliveira.
Artur João Goulart, in Lisboa de Antigamente

Moradia em estilo modernista, evidente nas linhas simples e na decoração sóbria das obras do arq. Pardal Monteiro, aparece aqui no volume único e paralelepipédico, cuja aparência de “caixa” é acentuada pela ocultação do telhado de quatro águas, com pouca inclinação, escondido atrás de uma larga cornija de perfil retilíneo.
Todavia, esta linearidade é interrompida por uma varanda de canto, embora ainda inserida na estrutura cúbica. A fachada principal, revestida a cantaria, revela o nível económico do cliente e o estatuto de residência da alta burguesia que o bairro acabaria por consolidar ao longo do tempo. Merecem especial destaque também as janelas triplas, recurso usado noutras obras do arquitecto, com realce para as sque se observam s no piso nobre.

Avenida da República, 54, fachada principal |c. 1950|
Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1930
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Entre os elementos de carácter mais ornamental, genericamente associáveis à linguagem Art Déco, mas já não estritamente académicos, sobressaem os relevos escultóricos presentes em algumas cantarias, mísulas e floreiras, bem como os elegantes gradeamentos de janelas e sacadas, adornados com motivos florais que complementam com delicadeza a decoração geometrizante dos painéis e frisos de mosaicos brilhantes, dourados e multicolores, dispostos a intervalos regulares. A estes detalhes somam-se pilastras, colunas e cornijas de recorte clássico, aplicadas de forma simétrica ou reforçando a linearidade horizontal e vertical do conjunto. [patrimonio.pt]

Avenida da República, 54 (56) |c. 1940|
Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1930
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Praça Duque de Saldanha vista da Av. Fontes Pereira Melo

Entretanto, o par aproximou-se da Praça Duque de Saldanha. Lá em baixo, no seu pedestal, a estátua do duque elevava o braço numa pose eterna e elegante. À volta dele, os carros buzinavam e aceleravam. A Praça Duque de Saldanha é um lugar simultaneamente moderno e antigo onde palacetes e edifícios de outros tempos convivem lado a lado com prédios modernos e espelhados.==
(ESTER, Sofia, Adozinda - V de Volta, 2015)

Praça Duque de Saldanha |c. 1950|
Perspectiva tomada da Av. Fontes Pereira Melo
Antiga Praça Mouzinho de Albuquerque (1897), antes Rotunda das Picoas (até 1902); o Monumento ao Duque de Saldanha foi inaugurado em 1909.
Amadeu Ferrari, in Lisboa de Antigamente

domingo, 30 de agosto de 2026

Beco da Cardosa

Cardoza (beco da) primeiro á esquerda na rua de S. Miguel, indo do largo de S. Miguel e finda na rua do Castello Picão, freguezia de S. Miguel 2 a 36 e 1 a 49. [Velloso: 1869]

Cardosa (Beco da) Vide História Genealógica, tomo XI, pág. 388, onde se fala numa tal Cardosa, Irmã de Justa Rodrigues Pereira, a célebre concubina do bispo D. Fr. João Manuel, filho Ilegítimo d'el- rei D. Duarte e casada com Gonçalo Cardoso "o Velho", de Lamego. [Brito: 1935]
Reza assim o texto do autor — o Pe. António Caetano de Sousa — referido atrás pelo olisipógrafo Gomes de Brito:
«Era Irmãa de Maria Rodrigues Pereira, muIher nobre, de quem D. Antonio de Lima, diz fer huma Dona, de bons parentes, a qual fe efcreve fer fegunda mulher de Gongalo Cardofo, o Senhor do Morgado da Taipa, Vedor da Fazenda do Infante D. Fernando, & qual alguns Nobiliários: deraõ
oappellido de Pereira , e outros o de Cardofa [...]»
Seria esta Cardosa, já conhecido no século XVIII, que viu o nome dela aplicado ao beco? Quem souber que responda.

Beco da Cardosa, 9 |c. 1900|
Nada mais curioso do que este enfiamento da Cardosa.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Este Beco da Cardosa — recorda o ilustre Norberto de Araújo — é cheio de outros becos, nele integrados, e de reentrâncias. Nada mais curioso do que este enfiamento da Cardosa, a lembrar certos pormenores de águas-fortes medievais. Abre por escadinhas, e logo ao cimo delas se nos depara um singular panorama de telhados, empenas amarelas, azuis, rosa, canteiros floridos, janelinhas, sobrelanços que nenhum artista era capaz de conceber: cenografia do acaso urbanista de quinhentos vestido de setecentismo; enfrenta a rua, nascendo do plano inferior, além da cortina gradeada, um. típico prédio de ressalto único, sobre a esquina, e que é um exemplar representativo das casas alfamistas da transição.

Beco da Cardosa, 33-35 |c. 1900|
Ao centro — embebido na parede — observa-se o oratório referido por Norberto de Araújo.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

 

Nas escadas topam-se logo à esquerda três espécimes de certo interesse, e ao cabo, à direita entra-ae num recanto, cheio de originalidade, e no qual, se a bizarria bairrista não se ufana de galas, sobram os motivos decorativos, em quatro casas, que não são famosas de gracilidade e numa das quais, n.ꟹ 33-35, existe um nicho ou oratório do Cristo Senhor do Bomfim, embebido na parede, e sobre o qual dança ao vento uma lâmpada de azeite - testemunho de devoção antiga a N. Senhora da Alfama. Mais três prédios pequenos nos chamam a atenção até chegarmos de novo a S. Miguel. Na esquina nascente do Beco e da Rua outro exemplar de edificação típica se nos mostra, para que os olhos não repousem.==

 

Beco da Cardosa, 41 |1960|
A esq. observa-se o Pátio da Parreirinha.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Beco da Cardosa, 45 |1961|
Arco da Cardosa.
Armando Serôdio, in Lisboa de
Antigamente























Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 59, 1939.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Panorâmica sobre os terrenos ao sul da Avenida das Forças Armadas

Em 1º plano vê-se parte da Av. Cinco de Outubro e da antiga Azinhaga das Torrinha (Quinta das Freiras) hoje Av. Álvaro Pais — onde hoje se ergue o Edifício Marconi; à dir. a Av. das Forças Armadas, em cima no último plano vê-se a Escola no Bairro de Santos, o Hospital de Sta. Maria e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa [vd 2ª imagem] e vista parcial do Mercado do Rego.

Panorâmica sobre os terrenos ao sul da Avenida das Forças Armadas |c. 1955|
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. A 30 de Dezembro de 1974, a Câmara Municipal de Lisboa numa perspectiva clara de mudança toponímica, eliminando indícios referentes ao regime Salazarista, passou a denominar a Avenida 28 de Maio, Avenida das Forças Armadas. A homenagem é efectuada ao M.F.A. (Movimento das Forças Armadas) contribuiu para o êxito do 25 de Abril de 1974.

O antigo edifício do Castelinho da Quinta da Torrinha (1892) onde se instalou, em 1920, a Escola Superior de Farmácia é composto por uma casa de estilo eclético com coberturas em terraço, que culmina num corpo torreado no topo, adornada com elementos de inspiração militar, como ameias, guaritas, rusticidade dos socos e a imponência dos pilares que decoram os cunhais. A fachada principal exibe detalhes de inspiração Arte Nova, como os azulejos que a coroam.

Avenida das Forças Armadas, Edifício do Castelinho da Quinta da Torrinha |1953|
Remodelação da antiga Av. 28 de Maio; Hosp. de Santa Maria e edifício da Fac. Farmácia da Universidade de Lisboa — Avenida Professor Gama Pinto.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 23 de agosto de 2026

Rua Frei Francisco Foreiro

Topónimo atribuído pela C.M.L., em 1909, ao arruamento onde assentava a velhinha Tv. do Forno do Tijolo. Ao fundo nota-se, a não menos antiga, Rua de Arroios e as fachadas de tardoz dos prédios na Rua Passos Manuel. À dir. — onde se vêem os tradicionais tapumes — abre-se a Rua António Pedro e, à esq., nota-se a embocadura do Regueirão dos Anjos e mais tarde (1984), paralela a este, a nova Rua Francisco Ribeiro (rasgada aquando da construção do Edifício Filial do Banco Portugal no local onde se siruava a antiga Fábrica Portugal).. (Ribeirinho, 1984).

Rua Frei Francisco Foreiro |1926-03-31|
Perspectiva tomada do lado da Av. Alm. Reis na direcção da Rua de Arroios
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Local, na rua Francisco Foreiro (no bairro de Inglaterra), onde apareceu morta a actriz Maria Alves»
 
N.B. Frei Francisco Leite de Faria, dissertou sobre «As obras impressas de Frei Francisco Foreiro (1522-1581), afirmando que o Dominicano Frei Francisco Foreiro se salientou extraordinariamente na última fase do Concílio de Trento, em 1562 e 1563. Publicou então em Veneza a «nova e velha versão do Profeta Isaías» com o respectivo comentário, livro que teve oito edições, todas impressas no estrangeiro. Acabado o Concílio, Francisco Foreiro ficou na Itália para preparar quatro obras, que mandadas publicar por esse Concílio, tiveram enorme influência na prática doutrinal e litúrgica da Igreja católica. Foram essas obras o Índice dos Livros Proibidos, o Catecismo para os Párocos ou Catecismo de S. Pio V, o Breviário Romano e Missal Romano, obras que impressas por vez primeira, respectivamente, em 1564, 1566, 1568 e 1570, tiveram depois centenas de edições. Esse Missal vigorou durante quatro séculos até 1970. Muito se falou e escreveu então da Missa Tridentina ou de S. Pio V, que a tinha promulgado para a Igreja Católica, mas não se lembrou, nem mesmo em Portugal, que ela foi principalmente obra de Frei Francisco Foreiro, falecido há quatro séculos, em 1581, e natural de Lisboa, que há poucos anos lhe dedicou uma rua na freguesia de Arroios perto da Avenida Almirante Reis. [APH: 1981]

Avenida Almirante Reis |c. 1930|
Vista para sudoeste observando-se a embocadura da Rua Frei Francisco Foreiro,1 (dir.).
Jorge Marçal da Silva, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Campos de Futebol de Antanho: antigo Estádio do Sporting Clube de Portugal

O primeiro campo do Sporting Clube de Portugal foi inaugurado em 8 de Maio de 1906, no nº 73 da Alameda do Lumiar (atualmente Alameda das Linhas Torres), num local conhecido como Sítio ou Quinta das Mouras. Os terrenos foram doados pelo Visconde de Alvalade, atendendo ao desejo do neto, José Alvalade, de fundar um novo clube após a cisão do Campo Grande Football Club. A doação incluiu também um edifício na mesma Alameda, que serviu como a primeira sede do S.C.P..
No ano seguinte, a 4 de julho de 1907, ocorreu uma remodelação que melhorou bastante as condições desportivas: além de um segundo campo de futebol, passou a contar também com uma pista de atletismo.

Antigo Estádio do Sporting Clube de Portugal |c. 1917|
Designado Estádio do Lumiar ou Stadium de Lisboa.
Em segundo plano, ao centro, a «Villa Sousa» sita na Alameda das Linhas de Torres, 22. Campo Grande.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Antigo Estádio do Sporting Clube de Portugal |c. 1917|
Exercícios de ginástica no antigo estádio do Sporting Clube de Portugal.
Ao fundo, na zona N. do Campo Grande e da dir. para a esq,, veem-se as traseiras do o Restaurante do Campo Grande e do Palácio Valência-Vimioso. A esq. obervam-se alguns dos edifícios na 
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O Sporting Clube de Portugal. deixou o Sítio das Mouras e, em 1917, mudou-se para o número 412 do Campo Grande, data em que foi inaugurado. com a designação de Stadium de Lisboa, também conhecido como Estádio do Lumiar. [sporting.pt]

Panorâmica sobre o Campo Grande e Lumiar |c. 1947|
Antigos campos do SLB — [1940-70] Campo Grande, em baixo — e do SCP — Stadium de Lisboa ou do Lumiar [1914] em obras — depois primitivo Estádio José de Alvalade [1947].
No topo N. do Campo Grande destaca-se o Palácio Valência-Vimioso que torneja para a Alameda das Linhas de Torres (dir.) e o Restaurante do Campo Grande. Na esq. baixa nota.se o Palácio Pimenta (Museu de Lisboa). 
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 16 de agosto de 2026

Cinema Restelo (actualizado)

Edificou-se um cinema na Avenida da Torre de Belém, que se inaugurou a 26 de Fevereiro de 1954, com o intuito de substituir o velho Cinema Belém-Jardim, Na altura, a imprensa elogiou a iniciativa, sublinhou a «sobriedade do edifício», o seu «fácil acesso» e o seu perfeito enquadramento no local e chamou a atenção para os seus amplos foyers e para o mural que acompanhava a escada de acesso ao balcão,

Tempos depois, a sala era, porém, identificada por um outro elemento da sua decoração, o enorme e surpreendente «candeeiro de vidrinhos» que, suspenso do tecto, iluminava o recinto reflectindo a luz em variados desenhos e cores, cujos efeitos pareciam entreter os espectadores nos intervalos.

Avenida da Torre de Belém |1961|
Do lado dir. nota-se o Cinema Restelo com a Torre de Belém ao fundo.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

A construção do Cinema do Restelo baseou-se em alguns pressupostos que, ao mesmo tempo, o aproximam e o afastam das salas dos novos bairros. A sua localização na Avenida da Torre de Belém, entre a zona de Pedrouços e o Bairro Residencial da Encosta da Ajuda, exigia que se tomasse como ponto de partida as determinações que o plano de Faria da Costa impunha para o local, e foi isso precisamente que se fez. Carlos Ramos e Carlos Manuel Ramos, os dois arquitectos que assinam o projecto, interpretam de forma dinâmica as intenções nele expostas e avançam com o traçado simples e moderno de um cinema com que o bairro possa contar. O edifício enquadrava-se no plano previsto, respeitava os alinhamentos das artérias e afirmava-se na determinação de dotar a zona com uma sala que se adequasse às suas necessidades. Essa preocupação reflectia-se, aliás, na concepção do recinto, particularmente no traçado da sua vasta plateia, com 844 lugares, que estava dividida em dois sectores através de um ligeiro desnível, e no desenho do pequeno balcão, que deveria acolher 416 espectadores [vd ultima imagem]. Mas esta distribuição do espaço, que se pensou poder traduzir a composição da população do bairro, e a ela se fazer corresponder, não resultou como se imaginara. 
Podemos dizer que apesar do projecto do cinema ter tido em conta o local e algumas indicações que o plano de Faria da Costa (1938) estabelecia, o seu traçado fizera-se à margem das expectativas da população ou pelo menos não as atendera. Diga-se, em abono da verdade, que tal aspecto raramente era tomado em consideração, uma vez que poucos estudos se faziam com vista à elaboração dos projectos.

Cinema Restelo |1954|
Avenida da Torre de Belém
Em cartaz, o filme «O Capote» estreado em Portugal em 1953, no original «Il Cappotto».
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Cinema Restelo |post. 1957|
Avenida da Torre de Belém com a R. Dom Cristóvão da Gama 
Em cartaz, o filme «O Adeus às Armas» estreado em Portugal em 1957, no original «A Farewell to Arms».
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

A ideia que se tinha sobre os costumes dos habitantes do bairro, as esperanças que se depositavam na nova realidade que se lhes oferecia e o idealismo que atravessava a própria análise que se produzia eram outros tantos traços que o definiam, A sua base pragmática fez prevalecer a convicção de que o cinema deveria «corresponder a uma necessidade do novo aglomerado urbano», justificando-se que todas as classes sociais que o habitavam ou habitariam estivessem contempladas no seu traçado. Daí que se tivessem concebido três diferentes categorias de lugares na sala, que correspondiam proporcionalmente aos três estratos da população do bairro, e que se tivesse contraposto a pequena dimensão do balcão à amplitude da plateia, que tinha quase o dobro da lotação do balcão e que se distribuía por dois sectores de diferente estatuto. De facto, partiu-se do princípio que o sector maior e mais barato da plateia, isto é, o espaço que correspondia à Geral, deveria acolher o estrato da população mais numeroso da zona e que o seu público seria recrutado na classe operária, marítimos e militares que já habitavam o
local e que eram frequentadores assíduos do Cinema Belém-Jardim;... também se julgou que o outro sector da plateia seria ocupado pela classe média que já existia, e que tudo indicava que se haveria de engrossar com a chegada de uma nova população que, não sendo propriamente abastada, teria poder suficiente para frequentar esses lugares; e, consequentemente, também se pensou que a zona do balcão se destinaria à classe que habitava as luxuosas moradias do bairro. [...]

Cinema Restelo |1954|
Avenida da Torre de Belém
A plateia — com quase o dobro da lotação do balcão — dispunham um total de 1260 lugares.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na verdade, a composição da população do novo bairro e as suas aspirações não eram de molde a dar razão a essa distribuição da lotação do cinema. Pensou-se, por algum tempo, que fossem quais fossem as classes sociais, o seu nível económico e as suas expectativas de vida, frequentariam com mais ou menos convicção o recinto que se projectara. No caso da classe com menos recursos, o postulado inicial verificou-se e a sua frequência adquiriu realmente expressão. O cinema foi de facto por ela apropriado e em breve entrou nos seus hábitos. Mas com os outros sectores da população não se verificou o que se esperava. Como o próprio arq. Carlos Ramos depois constatou, num requerimento dirigido ao município que tinha em vista a introdução de alterações na sala, «dos três públicos que distintamente existem naquela zona pode dizer-se que, praticamente, só um frequenta o actual cinema: o público que frequenta a geral», E isso era precisamente o reconhecimento de que o pressuposto em que o projecto assentara tinha realmente falhado.==
Nota(s): Fechou portas em 1989, sendo substituído por um edifício comercial modernista.
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Bibliografia
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2012  
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