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Sunday, 26 February 2017

Carnaval de Lisboa

Se não participava nos bailes de máscaras, assaltos e no Corso da Avenida, espectáculo reservado à burguesia que toda se enfeitava para descer a Avenida da Liberdade e subir o Chiado, em vistosos carros alegóricos, qual deles o mais imaginativo, ao povo pertenciam, inteiramente, os folguedos carnavalescos mais tradicionais, como as Paródias, as Cégadas, a Dança da Bica, a Dança da Luta, todos de forte pendor histórico.


Avenida da Liberdade, Lado ocidental entre a Calçada da Glória e a Tv. da Glória [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida da Liberdade, junto à Rua Alexandre Herculano [1906]
Ao fundo o edifício (já demolido) da Associação Industrial Portuguesa

Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Avenida da Liberdade, junto à Rua do Salitre [Inicio séc. XX]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida da Liberdade [Inicio séc. XX]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Para as Paródias de Carnaval constituíam-se em grupos de cerca de trinta ou quarenta pessoas, cada uma encarnando determinada figura, obedecendo todos ao toque do apito dum director-ensaiador que os vinha preparando, desde havia dois ou três meses atrás.
Entre os tipos de mascarados que acompanhavam estes cortejos abundavam os «Homens de Capote e Lenço» e os «Galegos» em fralda de camisa. A figura mais popular era, porém, a do «Chéché», de cabeleira de estopa, com grandes lorgnons, trazendo, espetado na bengala, um grande chifre, empunhava um facalhão de madeira e papel prateado com o qual ia ameaçando: «Arreda que te espeto».

Praça Dom João da Câmara; Largo do Regedor [1907]
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Rua da Escola Politécnica [c. 1910]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Largo do Regedor [1907] 
Dança da Luta
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Estes cortejos acabavam sempre por parar no Rato, em frente ao Palácio do Marquês da Praia, que não dispensava esta atenção popular. As Cégadas, com possíveis raízes nos autos medievais, eram farsas burlescas, representadas em plena rua, cujo assunto inspirava-se em cenas de vida quotidiana. Para estas representações, os figurantes envergavam indumentária e caracterização apropriada às personagens que pretendiam encarnar. Entre as paródias carnavalescas mais populares contavam-se a Dança da Escada e a Dança da Bica ou Dança da Luta, nas quais eram executados vários números acrobáticos, mostrando os participantes a sua destreza no salto, nos jogos de força, ou como equilibristas.

Largo do Chiado [c. 190-]
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Praça Dom Pedro IV, o «chéché» ou «xéxé» a principal figura do carnaval lisboeta [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Praça Do Comércio [c. 190-]
Alberto Carlos Lima,in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
O Povo de Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, p. V, 1979.

Monday, 8 February 2016

Carnaval de Lisboa: o «Chéché»

«Accorda a gente ouvindo, na rua, as castanholas dos rapazes. De vez em quando passa ao longe, muito festiva, uma philarmonica de artistas. É o Carnaval, não ha que vêr. Estamos em pleno domingo gordo. E aqui mesmo, debaixo da janella, um garroche veio tocar buzina furiosamente. Parece um epigramma a nossa preguiça cheia de indiferença. A pe! a pé! até os gainachas nos fazem surriada. Já se sabe na visinhança que gostamos de levantar-nos tarde; portanto a visinhança aproveita a occasião para nos mandar uma bisca n'uma buzina. Que horas marca o relogio? Onze. Com efeito! a buzina teve razão. A pé! a pé! Abrimos a janella. Oh! santo Deus! que mal encarado dia! eu pesadão, ruas lamacentas. Adivinha-se frio lá fóra. Pois, senhores, os que gostam de divertir-se no carnaval vão ficar verdadeiramente codilhados com este domingo gordo. Pobres rapazes! Elles ainda querem iludir-se annunciando a festa com as suas castanholas, espantar O mau tempo com a buzina.»
 (PIMENTEL Alberto, Vida De Lisboa,  1900, pp. 115-116)

Avenida da Liberdade Avenida Dom Carlos I com a Rua do Poço dos Negros [séc. XIX]
O
«Chéché» ou «xéxé, figura típica do carnaval lisboeta

Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

O «Chéché» era a principal figura das Paródias de Carnaval até cerca de 1910, chamavam-lhe peralta, salsa, pisa-flores. Era a caricatura da Lisboa miguelista, da cabeleira de estopa, com grandes lorgnons, trazendo, espetado na bengala, um grande chifre, empunhava um facalhão de madeira e papel prateado com o qual ia ameaçando: «Arreda.que te espeto» O «Chéché›» envergava uma casaca às cores, sapato de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um imenso chapéu bicorne com uma inscrição normalmente obscena, como se pode constatar por esta imagem [1ª foto].

Rua Vicente Borga [séc. XIX]
O
«Chéché», figura típica do carnaval lisboeta

Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente
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