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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Rua Nova do Desterro

O topónimo evoca o Convento do Desterro — ocupa a quarteirão entre a Rua Nova do Desterro, onde tem a fachada principal, e a Rua Antero de Quental — que os monges de S. Bernardo transformaram em casa principal da Ordem numas obras que duraram de 1591 a 1640.  Em meados do século XIX passou a funcionar no convento o Hospital do Desterro.

Rua Nova do Desterro [1900]
À esquerda, o Hospital do Desterro e, ao fundo, a Rua da Palma; em cima o miradouro da Senhora do Monte.
Belisário Pimenta, in Lisboa de Antigamente

Desactivado progressivamente desde 2006, o Hospital do Desterro foi vendido à Estamo, empresa pública que gere o património imobiliário do Estado, por 9,24 milhões de euros. A Câmara Municipal de Lisboa,  e a Mainside (empresa promotora da Lx Factory, em Alcântara) assinaram em Maio de 2013 um protocolo «tendo em vista a reabilitação e reutilização do Hospital do Desterro, que passará a ser um «território experimental aberto ao mundo».

Rua do Desterro [1912]
Ao fundo, a entrada do antigo Hospital do Desterro
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Calçada (Nova da Bica) do Desterro

O topónimo antigo evoca o Convento do Desterro e uma velhinha bica que aqui corria, como descreve Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações»:
Deves notar nesta artéria a mistura urbanista das edificações: prédios modernos de há cinco e seis anos¹ brigando com casebres de há cento e cinquenta. [...] eis outra curiosidade, esta delicada: a Bica do Destêrro, que foi fio de água corrente. 

Calçada do Desterro [1951]  
Perspectiva tirada da Rua de São Lázaro; ao fundo a Bica do Desterro (esq.) e o Hospital do Desterro.
Antiga Calçada Nova da Bica do Desterro
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Notam-se, ladeando a bica, que já não corre há anos, duas janelas ou frestas entaipadas, e com lindas colunas decorativas, de capitéis trabalhados [retirados para o Museu de Lisboa], vindas talvez de outro sítio, graça de arte que deve datar do século XVI. Sôbre êste conjunto ostenta-se uma grande caravela, em pedra, de alto relêvo, das maiores, que neste género, e para modéstia da bica, se topam em Lisboa.
Por cima de tudo — o muro florido de um quintal. A Bica do Desterro é anterior às primeiras edificações, ou delas coeva.

Calçada do Desterro [1951]  
Bica do Desterro
Antiga Calçada Nova da Bica do Desterro
Eduardo Portugal,
in Lisboa de Antigamente

Bica do Desterro [1930]  
Calçada do Desterro
Eduardo Portugal, in LdA














Pelo que deixa perceber a gravura acima. a Bica N.º 3 teria inicialmente duas bicas  e um tanque. Na foto à direita, datada de 1930, ainda se observam as colunas decorativas, de capitéis trabalhados (hoje no Museu de Lisboa) e o respectivo tanque.
____________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 67.68, 1938.

domingo, 14 de abril de 2019

De Avenida dos Anjos e Avenida Dona Amélia, a Avenida Almirante Reis

O Barão Haussman o "artista demolidor" (1809-1891) em Paris, o paisagista Humphrey Repton (1752-1818) em conjunto com o arquitecto John Nash (1752-1835) em Londres ou o urbanista Ildefonso Cerdá (1815-1876) em Barcelona, com os seus planos de carácter regulador higienista e de circulação viária, influenciaram arquitectos e projectistas por toda a Europa e América do Norte (Frampton, 1992).

Avenida Almirante Reis |c. 1911|
À dir., no n-º 2-2K, o edifico prémio Valmor de 1908; à esq. vê-se o Hospital do Desterro.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Assim, em 1903, foi aberta a Avenida dos Anjos e a Avenida Dona Amélia, que viria a ser mais tarde designada por Avenida Almirante Reis. Foram destruídos vários quarteirões nesta área permitindo por outro lado, a construção de novos e mais modernos edifícios o longo da recente e ampla avenida (Unidade Projecto Mouraria, 2009).

Avenida Almirante Reis |c. 1911|
Fotografia original colorida por Fátima Rocha
Joshua Benoliel

Quem no dealbar do século XX, viajasse pela Rua da Palma para norte, na procura da moderna e ampla Avenida Dona Amélia (hoje Almirante Reis), acabava por deparar-se com um beco sem saída. Ali, por alturas do Intendente, onde finda a Rua da Palma e onde deveria começar a tão falada avenida, o passeante acabava por dar com o nariz na parede, literalmente. Mais exactamente, acabava por dar de caras com os muros do hospital do Desterro. Para retomar a avenida era preciso fazer um desvio à direita pelo Largo do Intendente Pina Manique — seguindo a linha do eléctrico — contornar o quarteirão, virar à esquerda na actual Travessa Cidadão João Gonçalves de volta à Almirante Reis. Para melhor compreensão deste inusitado trajecto consulte a carta topográfica (anotada) daquela zona em 1911.

Levantamento da Planta de Lisboa (fragmento |1911|
Legenda (clicar para ampliar):
Azul - Av. Almirante Reis Localização da carroça da foto
Vermelho - Desvio pelo Largo do Intendente
Verde - Hospital do Desterro
 Júlio António Vieira da Silva Pinto, in Lisboa de Antigamente

Avenida Almirante Reis, 2 |post. 1911|
Neste postal pode ver-se a Av. Almirante Reis já rectificada após a demolição parcial do Hospital do Desterro.
Postal ilustrado em fototipia, edição de Faustino Martins
in Lisboa e Fernando

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Praça de touros do Campo de Sant'Ana

No sítio onde assenta a Escola [Médica, actual Faculdade de Ciências Médicas] existiu a Praça de Touros do Campo de Sant'Ana, de tradições na vida alfacinha, com a sua aura fidalga e popular a um tempo. Foi aquela Praça inaugurada em 3 de Julho de 1831 — recorda-nos Norberto de Araújo — tempos do Senhor D. Miguel, que assistiu à «festa», sendo corridos dezasseis touros das manadas reais; à noite, com motivo no acontecimento tauromáquico, houve «luminárias» e «fogo de vistas». A Praça do Campo de Sant'Ana era pequena e quase toda de madeira, sem o tipo clássico dos redondéis hispano-árabes, uma arena muito para «brinco de touros», mas que fez as delícias dos nossos avós.

Vista da cidade tirada do Largo de Nª. Sª. do Monte para o lado do hospital do Desterro e Campo de Sant'Ana [ant. 1888/1891]
A Praça de touros do Campo de Sant'Ana é o edifício mais escuro e arredondado que se pode ver em cima à esquerda; em baixo, à direita, o Hospital do Desterro na Rua Nova do Desterro; ao fundo, correndo entre muros, a Avenida Dona Amélia (1903) e antes Avenida dos Anjos (1895), ainda antes Avenida no prolongamento da Rua da Palma até à Estrada da Circunvalação, e desde 1910, Avenida Almirante Reis.
Estúdio Novais, in Lisboa de Antigamente


Além de corridas de touros, realizaram-se nesta Praça espectáculos de circo e ascensões aeronáuticas — lê-se num Guia do Viajante publicado em 1863. Esta distracção popular, com quanto não abone a civilização dos amadores do divertimento, não produz ordinariamente aspecto repugnante de mortes, e dilacerações de membros, porque as armas dos touros são previamente impossibilitadas de poder furar, e não é permitida a matança dos touros, nem o suplicio das garrochas de fogo [ferro farpado], como noutro tempo. Há geralmente, grande concorrência ao espectáculo.
Preços: — Trincheiras à sombra 500 réis, ao sol 240 réis. — Camarotes de 1.ª ordem de 3$000 a 6$000 réis, — Camarotes de 2.ª ordem de 1$800 a 3$600 réis. Estes preços variam conforme as empresas.
(SULLEMAN, François , Novissimo guia do viajante em Lisboa e seus suburbios, 1863)
 

Vista parcial de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  [c. 1870]
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Destacam-se na imagem a Praça de touros do Campo de Sant'Ana, o Hospital de S. José e a Igreja da Pena na Cç. de Sant'Ana.
Francesco Rocchini (1822-1895), in Lisboa de Antigamente


Até 1915 uma «maquette» desta Praça encontrava-se no Club Tauromáquico, ao Chiado; foi por essa época destruída num assalto político àquele Club, e dela resta, apenas, a memória numa fotografia feita um pouco antes pelo Sr. J. A. Barcia. A Praça do Campo de Sant'Ana, que sucedera á do Salitre, esta inaugurada em 4 de Junho de 1790, foi demolida em 1891¹, para dar lugar à do Campo Pequeno, inaugurada em 18 de Agosto de 1892.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p 33, 1938)

A Maquette da Praça de Touros do Campo de Sant'Ana encontrava-se no Club Tauromáquico, ao Chiado [ant. 1915]
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

¹ Outros autores referem o ano de 1888 como data de demolição, na sequência de uma vistoria que interditou o edifício por questões de segurança relacionadas com a má conservação do mesmo.

Praça de touros do Campo de Sant'Ana, com os touros ao centro da mesma [ant. 1888/1891]
Espólio Cassiano Branco, in Lisboa de Antigamente

terça-feira, 25 de abril de 2017

Lisboa Vista do Cimo dos Montes

Do Castelo, da Graça, do Alto de Santa Catarina, vista do cimo dos montes, das colinas, dos miradouros, Lisboa «enfia os olhos pelo Oceano». «Poucas vezes no mundo verá o viajante, como em Lisboa, tanta magnificencia de espectaculos naturaes, e tamanha variedade de scenario!», diz-nos o olisipógrafo Júlio de Castilho, para quem Lisboa «apresenta panoramas estonteadores, pela grandeza das linhas, e pelo variegado das minucias».


É de Francesco Rocchini (1822-1895)  esta  «vista tomada do Castelo de S. Jorge» que Norberto de Araújo descreve: «O encanto de Lisboa não se procura: encontra-se. Não reside num único sítio: dir-se-ia móvel, deambulatório. Vadio — passeando por onde lhe apetece. 
Aconselha-se o romeiro a que o não rebusque. Será a melhor maneira de dar com ele. 
Os mil motivos de interesse, de sedução, de êxtase — espraiam-se, perdem-se, ocultam-se e mostram-se pelas colinas e pelas planícies ribeirinhas. 
Num parque fecundado pelo sol, poetizado pelo luar, nascido espontâneo, enobrecido pelas idades — não é possível encontrar dispostos para nossos olhos os loureiros que coroam heróis e as rosas que engrinaldam vestais. Nem os rouxinóis têm moita certa. 
As colinas de Lisboa há que trepá-las para bem as conhecer. 
Os vinte miradouros suspensos de pérgolas e de torres, dão-nos o panorama objectivo, familiar: apontam-se as coisas, sabe-se-lhes a idade e a história. As colinas — não. Rugadas de congostas [*], quelhas, linhas de desfiladeiros, planos indecisos, são subjectivas. O seu encantamento é de sonho. 

Panorâmica de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  |c. 1870|
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Francesco Rocchini (1822-1895), in Lisboa de Antigamente
 Legenda (clicar para ampliar):


Edifícios/Monumentos:
1—Igreja do Socorro (demolida c. 1940)  2—Palácio Folgosa (Propriedade Geraz de Lima)  3—Convento (Hospital) do Desterro  4—Hospital de S. José  5—Primitiva Igreja dos Anjos (demolida em 1908)  6—Campo de Sant'Ana  7—Convento de Santo António dos Capuchos  8—Palácio Mitelo  9—Palácio da Bemposta (Academia Militar) Paço da Rainha  10—Observatório Astronómico do Paço da Bemposta  11—Hospital de D. Estefânia  12—Palácio Pombeiro  13—Chafariz do Intendente  14—Hospital Miguel Bombarda (Antigo Rilhafoles)  15—Escola Superior de Medicina Veterinária (Antigo Instituto de Agronomia e Veterinária (Actual edifício da Policia Judiciária)
Arruamentos:
A—Rua de S. Lázaro  B—Rua da Palma  C—Rua do Benformoso  D—Largo (Sítio) do Intendente  E—Largo de Santa Bárbara  F—Arroios  G—Antigo Largo do Matadouro hoje Escola Municipal n.º 1 e, logo acima deste, o Largo do Mastro e o Beco (hoje Rua) do Saco

A penha do Castelo, abarcada desde o Largo do Caldas — é uma fantasmagoria. Do Rossio — uma maravilha. De Santana — um deslumbramento. 
Vista deste lado — a colina é um santuário; adivinha-se a torrinha sineira de uma ermida. Contemplada deste outro sítio — é uma muralha. Tomada do lado do mar — é um museu; alveja o perfil manuelino de uma janela. 
Em todas as colinas, subindo, acavalgando-se, amparando-se, tocando-se nos beirais, as casas, os tugúrios, os palácios, os monumentos, os aglomerados indistintos, cinzentos ou violetas, conforme lhes dá a luz — são cenários do presépio lisboeta. 
As Colinas de Lisboaeis o panorama sagrado de uma cidade Olimpo, que enfia os olhos pelo Oceano. Os longes mandam na alma. Nas cidades e nos homensas distâncias ganham em saudade o que perdem em nitidez. Castelo, Graça, Penha, Estrela, S. Francisco, ascensão ideal... » 1

Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 28-29, 1943.

* Nota(s): O Dicionário Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam cangosta, mas remetem para congosta, portanto, o termo preferível. Trata-se de «caminho estreito e comprido, mais ou menos declivoso» (in Dicionário da Porto Editora) e «estrada estreita, rústica, entre muros ou sebes, na região periférica de uma povoação, aldeia, vila etc.; azinhaga» (in Houaiss). A palavra vem do latim hispânico 'congusta (via)', por 'coangusta (via)', «caminho estreito», de 'coangustare', «apertar».

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Rua José António Serrano que foi Cç. do Colégio

Colégio (Calçada Nova do) — Esta categoria foi acompanhada do sufixo «Nova», para diferençar a via pública a que está aplicada a denominação correspondente, de outra que a teve igual, e hoje é denominada «José António Serrano» , com a categoria de Rua.
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935)

Rua José António Serrano |1951|
Antiga Calçada do Colégio
Do lado esquerdo, o antigo Largo (e rua) do Socorro demolidos para urbanização
e rectificação da Rua da Palma e posterior abertura da Praça Martim Moniz na década de 1950.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Com a legenda «Doutor Tratadista, Osteólogo, 1851–1901» foi o nome de José António Serrano fixado na que era a Calçada do Colégio, por deliberação camarária de 6 de Dezembro de 1906.
José António Serrano (1851-1904), foi Lente da Escola Médica e o primeiro cirurgião português que obteve a cura de um tumor sólido do ovário (por meio de laparatomia, em 1889) e a realizar uma histerectomia abdominal. Defendera tese em 22.12.1875 e três anos depois foi nomeado preparador e conservador do Museu de Anatomia da Escola sendo também cirurgião do Banco do Hospital de São José e, a partir de 1895, director de enfermaria do Hospital do Desterro bem como, em 1901, director da Repartição de Estatística do Hospital de São José. Foi lente substituto em 1880 de Anatomia Descritiva e lente proprietário em 1889, para além de ter regido na Escola de Belas Artes a cadeira de Anatomia Artística e Higiene de Edifícios. As suas obras essenciais foram «Manual Sinóptico de Anatomia Descritiva» e «Tratado de Osteologia Humana». [cm-lisboa.pt]

Rua José António Serrano |ant. 1949|
[Antes das demolições do Martim Moniz]
Antiga Calçada do Colégio [dos Jesuítas de Santo Antão-o-Novo, hoje Hosp. S. José, cerca;
Miradouro de Nossa Senhora do Monte.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

domingo, 23 de abril de 2023

Cerâmica Viúva Lamego

Eis-nos diante da Fábrica de Cerâmica «Viúva Lamego».
É, pode dizer-se, o último abencerragem das Olarias deste sítio, e cujo dístico sobrevive, a nascente, no bairro tão lisboeta deste nome, e aonde iremos — na companhia de Norberto de Araújo.

Em 1849 era proprietário de terrenos neste local António da Costa Lamego, homem de trabalho, que pensou, arrastado pelas tradições e ambiente bairrista, em fundar em parte deles uma olaria; esses terrenos dilatavam-se até à cerca do Hospital [do Desterro], pois não existia rua alguma onde hoje corre a Avenida Almirante Reis. Os operários vieram, evidentemente, das fabriquetas da Bombarda, das Olarias, e de Agostinho Carvalho, sítio de oleiros ainda em relativa actividade.

Largo do Intendente Pina Manique |c. 1911|
Ao fundo, nos n.ºˢ 24-26, nota-se a fachada da Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego. Este edifício possui uma fachada com azulejos polícromos da autoria de Luís Ferreira — o Ferreira das Tabuletas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A fábrica prosperou; Costa Lamego adquiriu mais chãos, fez prédios, e revestiu, em 1865, a fachada do Largo do Intendente com os azulejos que hoje lá se vêem. Foi quando entrou decididamente na factura da cerâmica artística, ao gosto das olarias ocidentais. 
Por morte do proprietário, a Fábrica passou à Viúva. tomando então o nome comercial de «Viúva Lamego».
Por partilha , entre três filhos e uma filha, após a morte da Viúva, a Fábrica coube a um filho, também António da Costa Lamego, que depois a vendeu a seu cunhado, João Garcia Jerpe, casado com uma filha do fundador, e deste a herdou, em 1895, o actual [em 1938] proprietário João Agostinho da Costa Garcia. Quando se construiu a Avenida, que cortou os terrenos da Fábrica, esta perdeu em superfície o que ganhou em volume, pois elevou-se o prédio e melhoraram-se-lhe as instalações.

Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego |séc. XIX|
Largo do Intendente Pina Manique, 24-26
Observe-se a louça espalhada no passeio fronteiro ao edifício de estilo romântico, estruturado em 2 registos, com 2 janelas cada, que no segundo piso surgem a ladear uma varanda, rematado por empena, rasgada por um óculo rodeado de grinaldas e pequenas figuras que seguram uma inscrição com a data da construção.
Garcia Nunes,  in Lisboa de Antigamente
Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego  |c. 1901 e 1908|
Largo do Intendente Pina Manique, 24-26
Trata-se de uma das obras-primas do azulejo "naif" oitocentista, incluindo as figuras alegóricas ao "Comércio" e à "Indústria", que surgem a ladear a entrada. Actualmente existe apenas a exposição e venda de azulejos, enquanto que a parte fabril, onde são produzidos azulejos de grande qualidade, quer industriais quer artísticos, se mudou para outro local.
Machado & Souza,  in Lisboa de Antigamente

A Fábrica Viúva Lamego — muito considerada — pertence ao grupo das poucas representativas da «arte» popular, que da louça vermelha passou à faiança, e desta à indústria artística, por força da evolução do gosto e dos processos. Muitas das suas obras, de reconstituição sobretudo, andam hoje por palácios públicos e particulares.

Edifício da Cerâmica Viúva Lamego |1970|
A fachada orientada para a Avenida Almirante Reis, 6, possui um elemento decorativo dominante, um vistoso revestimento azulejar que abrange a totalidade da fachada. 
João Goulart, in Lisboa de Antigamente

No Largo do Intendente, onde hoje se encontra o depósito da Fábrica Lamego — remata o autor das Peregrinações — , elevava-se até há vinte e tal anos [até 1917] o Chafariz [vd. imagem abaixo], depois e transferido para a Rua (Nova) da Palma.

Largo do Intendente Pina Manique e Rua dos Anjos |1915|
Chafariz do Intendente, ao lado, a fábrica Viúva Lamego
Em 1917, por motivos de reorganização de trânsito, este chafariz foi transferido  para o actual local na esquina da Rua do Desterro em frente à Rua da Palma.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 14-15, 1938.
SANTANA, Francisco Gingeira, Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, Vol. 5, 1975.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Panorâmica de Lisboa tomada do Miradouro da Senhora do Monte

Ao chegar ao topo, encontrei o Miradouro da Senhora do Monte, o primeiro dos tantos que cá se me ofertaram aos olhares. Confesso-te que nunca esquecerei daquela santa de branco, numa cúpula tomada de flores, defronte à igreja que paira sobre a cidade. Soube que essa santa é a protetora das grávidas [...]
Do Miradouro da Senhora do Monte, vi o emaranhado de vielas onde se desenha a Mouraria, e ouvi ecoar de uma das casas o Fado manhoso, numa voz feminina, que me invadiu o pensamento. Ali constatei o que antes me havia sido dito por ti, talvez inspirada numa antiga canção: Lisboa é cidade-mulher, das cantoras do Fado às colinas e regatos do Tejo: tudo guarnecido de formas femininas. Após tantos anos de incredulidade, orei: Ó, Senhora do Monte, olhai as mulheres dessas freguesias, olhai também por Maria da Penha.
[NOVAIS, Klaus Escritos Degredados, 2014]


Panorâmica de Lisboa, tomada do Miradouro da Senhora do Monte [entre 1908 e 1929]
(clicar para ampliar)
Destacam-se na imagem: em baixo ao centro, a cúpula do extinto Real Coliseu de Lisboa (1896-1929) (A) na Rua da Palma; à direita deste, o Hospital do Desterro (B); um pouco acima a Escola Municipal nº 1 (C)  — a mais antiga de Lisboa; logo acima, ao centro, a Faculdade De Ciências Médicas (D) da Universidade Nova de Lisboa no Campo dos Mártires da Pátria; mais acima para poente, a Rua do Instituto Bacteriológico (e o edifício Câmara Pestana) (E) e, no fim desta, vislumbra-se torre sineira da Igreja da Pena (F) na Calçada de Sant'Ana; em último plano, na extrema esquerda, as torres da Basilica da Estrele, (G) e, em ultimíssimo plano adivinha-se o Palácio Nacional da Ajuda (H).
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra

Conhecidos por "Pelotiqueiros", defendiam o "apostolado de extermínio contra o callo, contra a queda de cabelo, a nevralgia, a perfídia surda da cárie. [...]
Na Praça de Camões e no Rossio encontramo-los à escolha, scientíficos ou práticos, e os especialistas dentro dos dois campos nunca deixam de espalhar a semente do seu saber á mingua do terreno que a receba e lh'a restitua em fructos compensadores. Teem publico numeroso, attento, e a confiança invejável que redunda em moeda corrente. 
 
Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [1906] 
Largo do Chiado
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [1910]
Praça Luís de Camões
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [1910]
Praça Luís de Camões
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Há sempre quem acredite e compre estes produtos milagrosos, alguns pelotiqueiros anunciavam vender água recolhida do Jordão perfumada com essências. O preço era módico e prometiam o reembolso devido, caso o produto não provocasse os efeitos desejados.»
(in Illustração Portuguesa - nº 224, pp. 713-717, 6 de Junho de 1910)

Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [190-]
Praça Dom Pedro IV, atrás o Hotel Continental
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra [190-]
Praça Dom Pedro IV, atrás o Teatro D. Maria
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Estes «pelotiqueiros», como então se lhes chamava, apareciam sobretudo nas feiras e praças públicas, mas também os havia estabelecidos, como as «chinesas» milagreiras, cuja expulsão, em 1911, provocou graves motins e mortos. 
(in Retrato de Lisboa popular, 1900, António Barreto, Maria Filomena Mónica, 1983)

Profissões de Antanho: o pelotiqueiro, vulgo vendedor de banha da cobra  [1906]
Rua da Palma; Hospital do Desterro. Em 1917 foi transferido para este exacto local o Chafariz do Intendente,
J. Leitão Bárcia, in Lisboa de Antigamente
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