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domingo, 30 de junho de 2024

Rua do Terreiro do Trigo, 6-26

As nascentes de água quente de Alfama (termo árabe Alhama, que significa fonte quente) do Grupo das Alcaçarias encontram-se alinhadas na zona entre o largo do Chafariz de El-Rei e o Largo do Chafariz de Dentro, ao longo da Rua do Terreiro do Trigo e deram origem a um conjunto de ocorrências que foram exploradas, ainda no século XIX, como “balneários públicos” ou "banhos" durante algumas décadas.
Os registos históricos e hidrogeológicos destas nascentes, grande parte das quais com temperatura acima de 20ªC, que tiveram condições para, no final do século XIX serem qualificadas de “águas minero-medicinais” pela então Inspecção de Águas, põem a descoberto um aspecto da vida da cidade de Lisboa, hoje praticamente desconhecido. 

Rua do Terreiro do Trigo, 6-26 (Cerca Fernandina) |c. 1949|
Os banhos do Robles
As nascentes encontram-se situadas extramuros relativamente à “Cerca Moura” de Lisboa, pelo que Alfama era um local que só com o desaparecimento da muralha moura anexou uma parte da cidade, até à Sé. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Rua do Terreiro do Trigo, 6-26 (Cerca Fernandina) |1961|
Os banhos do Robles
Armando Serôdio,
, in Lisboa de Antigamente

 

De acordo com Acciaiuoli (1944), o primeiro estabelecimento termal que se fundou na zona de Alfama, com água das Alcaçarias, foi o do Duque do Cadaval, em 1716; em 1725, havia dois estabelecimentos, o do Duque e outro particular; em 1810, havia o do Duque, os Banhos de D. Clara e os Banhos do Doutor.
Registam-se também na literatura os Banhos do Mosteiro de Alcobaça, intramuros em relação à Cerca Fernandina, num edifício que simultaneamente dá para o Largo do Chafariz de Dentro e para a Rua do Terreiro do Trigo e localizados na Rua do Terreiro do Trigo, nºs 14 a 18. Em 1945 ainda se aproveitava a água desta nascente, extraída com uma bomba.

Pontos de água na Rua do Terreiro do Trigo e a sua localização em relação à “Cerca Moura” e à Cerca Fernandina, a partir de Vieira da Silva (1987).

Bibliografia
SILVA, Augusto Vieira da - A cerca fernandina de Lisboa, 1987.
Elsa Cristina Ramalho 1 e Maria Carla Lourenço, As águas de Alfama, 2005.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Sítio do Vale de Pereiro

Em cima — refere Norberto de Araújo — corria o Vale Pereiro, do qual existe, em reminiscência, uma parcela da Rua com aquele dístico, e que leva do Salitre a Alexandre Herculano.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 38, 1939)

A primitiva Rua  do abarracamento de Vale de Pereiro (1859) que hoje liga as Ruas Alexandre Herculano e do Salitre, passava a S. do Parque do Parque Eduardo VII (onde hoje se encontra a Praça Marquês de Pombal), e findava no Largo de Andaluz/São Sebastião da Pedreira (vd. mapa abaixo). 

Rua do Vale de Pereiro |c. 1903|
Demolição do muro do antigo Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2); o troço que se vê na imagem corresponde actualmente à Rua Braamcamp (1887) rasgada na viragem do séc. XX; ao fundo, à direita, a «Casa Ventura Terra, Prémio Valmor de 1903» sita na Rua Alexandre Herculano, 57.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nesta rua que foi "do abarracamento" de Vale do Pereiro — diz o olisipógrafo Matos Sequeira — , em frente do quartel, ficava em 1819 a afamada Casa de Pasto do Freixo, uma das hortas mais concorridas pela boémia popular desse tempo e, é de crer, pela tropa que transbordava do quartel.

Carta topográfica de 1888 [fragmento]
Legenda:
A vermelho a Rua do Vale de Pereiro
A amarelo a Rua Braamcamp
A verde a Rua Alexandre Herculano
A azul Quartel do Vale de Pereiro (Caçadores 2)
in Lisboa de Antigamente

domingo, 13 de março de 2022

Panorâmica do sítio de Arroios

Eis uma fotografia deveras interessante e com mais de cem anos. Se o leitor observar atentamente, verá no canto inferior esquerdo, um troço da antiga «Avenida Dona Amélia»¹, actual Almirante Reis (já arborizada), que termina abruptamente no muro que circunda o «Convento e Igreja (Hospital) de Nossa Senhora da Conceição de Arroios»²; o seu prolongamento — paralelo ao casario da velha Estr. de Sacavém (actual Rua Quirino da Fonseca) — irá conduzir, anos mais tarde, à «Praça do Areeiro». Identificada pela letra "C" observa-se a antiga «Capela da Azinhaga das Freiras».
No local junto ao muro do hospital de Arroios nascerá a rotunda da «Praça do Chile»³, para a direita temos a «Rua Moraes Soares»⁴ e para a nossa esquerda o começo da «Rua António Pereira Carrilho»⁵ (troço da antiga Estrada da Circunvalação) na direcção do «Largo do Leão»⁶ — os edifícios assinalados com as letras "A" e "B" ainda existem.

Panorâmica do sítio de Arroios [c. 1919]
Terrenos da Avenida Almirante Reis, vendo-se ao fundo, os torreões da praça de Touros do Campo Pequeno.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Em último plano, podem ver-se os quatro torreões da «Praça de Touros do Campo Pequeno»⁷; à direita deste vêm-se as chaminés da antiga «Fábrica de Cerâmica Lusitânia»⁸ situada defronte do Palácio Távora Galveias na velhinha Estr. do Arco do Cego, localização actual do edifício-sede da Caixa Geral Depósitos e onde ainda se pode ver uma chaminé de um dos seus fornos.

Levantamento topográfico do sítio de Arroios, 1909
Legenda (clicar na imagem para ampliar):
¹ Avenida Dona Amélia actual Almirante Reis; ² Convento e Igreja (Hospital) de Nossa Senhora da Conceição de Arroios; ³ Praça do Chile; ⁴ Rua Moraes Soares; ⁵ Rua António Pereira Carrilho; ⁶ Largo do Leão; ⁷ Estr. de Sacavém.
"A" e "B" edifícios que ainda existem; "C" Capela da Azinhaga das Freiras.
Planta de Lisboa [fragmento]: Vieira da Silva Pinto, 1909, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Chafariz da Calçada da Glória que foi de S. Pedro d'Alcântara

O chafariz de S. Pedro d'Alcantara era de cantaria, tinha cinco bicas de excellente agua, que começou a correr em 8 de setembro de 1754. O chafariz estava junto do deposito [Mãe de Água], mesmo defronte do convento, hoje collegio de orphâs da Misericordia, intitulado de S. Pedro d’Alcantara, e ultimamente a camara municipal transferiu-o para o começo da calçada da Gloria. [O recreio: 1890]

Chafariz da Calçada da Glória, aguadeiros [entre. 1903-1908]
Calçada da Glória
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): O local não se encontra identificado pelo fotógrafo.
Chafariz da Calçada da Glória [1947]
Calçada da Glória
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

José Sérgio Velloso d’Andrade, na sua «Memoria sobre chafarizes, bicas, fontes e poços públicos de Lisboa, Belém, e muitos logares do termo», de 1851, conta que existia no terreiro superior da Alameda de S. Pedro de Alcântara um chafariz N.º 3 com 6 5 bicas, que tinha 5 Companhias de Aguadeiros, 5 capatazes, 165 aguadeiros e dois ligeiros. Referia-se, certamente, ao chafariz que se encontra, actualmente, um tanto ou quanto desfigurado, ao cimo da Calçada da Glória, local da paragem do Elevador da Glória. Terá sido inaugurado a 8 de Setembro de 1754. Em 1873, foi passado para o começo da Rua das Taipas e, por volta de 1880, arrumou-se onde está hoje.

Chafariz de S. Pedro d'Alcântara (ou N.º 3) [1821]
Transferido para a Calçada da Glória por volta de 1880.

Desenho  Luiz Gonzaga Pereira

Quem começou a aformosear e a aterrar o terreno da alameda de S. Pedro de Alcântara, em 18430-40, foi uma companhia da guarda real da policia, que se estabelecera em quartel no Palácio do Marquês de Santa Iria, hoje prédio n.ˢ 83 da Rua de S. Pedro de Alcântara, que ficava mesmo defronte da alameda. A calçada da Glória e a Rua das Taipas eram sítios de pouca passagem, e formavam uma ribanceira.

Localização do Chafariz de S. Pedro d'Alcântara [1856]
Legenda:
Vermelho: 
Chafariz de S. Pedro de Alcântara 
Azul: Mãe de Água
Verde: 
Localização actual na  Calçada da Glória
Levantamento [fragmento] topográfico de Filipe Folque,
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
RODRIGUES, Guilherme, O recreio: publicação semanal litteraria e charadistica, 1890.
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.

domingo, 12 de setembro de 2021

Hospital Real de Todos-os-Santos

O Rossio era uma praça, irregular, mas já muito espaçosa. o Hospital de Todos-os-Santos com a sua esplendida fachada; os arcos do Rossio, onde se acomodavam as mais luxuosas lojas, que vendiam as fazendas da moda, tornavam aquela praça a mais importante da capital.


Neste Rossio — diz Norberto de Araújo —  do lado nascente, à nossa direita, erguia-se até pouco antes do Terramoto o imponente Hospital de Todos-os-Santos, fundação de D. João II, e cuja primeira pedra foi lançada a 15 de Maio de 1492. Os terrenos eram dependentes dos frades de S. Domingos.
Possuía um formoso pórtico gótico , de dupla entrada , para o qual se subia por uma escadaria de vinte e um degraus, e de um lado e do outro, ao nível do chão, corriam magníficas arcadas, em maior extensão do lado norte, e em cujo número não acertam os eruditos nem velhas estampas, mas que andaria por trinta.

Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
 — Hospital de Todos-os-Santos;  B — Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C — Convento da Graça; D — Castelo de S. Jorge; E — Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Água-tinta, desenho à pena a nanquim de Zuzarte, século XVIII (1787)
Rossio antes do terramoto de 1755
Legenda: A
 — Hospital de Todos-os-Santos;  B — Igreja de São Domingos e à esq. a Ermida da S.ª da Escada [hoje demolida];  C — Convento da Graça; D — Castelo de S. Jorge; E — Chafariz de Neptuno. À dir. observa-se um cortejo fúnebre e um poste de forca com um homem preso pelos braços.
Pintura a óleo sobre gravura de Zuzarte, autor desconhecido (1787)

Estas arcarias do Hospital de El-Rei — como de começo se chamou – e que davam abrigo a muitas dezenas de tendas e bazares — constituíam um dos encantos panorâmicos do Rossio. A Igreja continuava-se do prolongamento do pórtico, isto é: na direcção poente-nascente.
Junto deste Hospital — que foi uma das mais nobres instituições de Lisboa de todos os tempos, servindo os pobres — funcionava a «Roda dos Engeitados», do lado da Rua da Betesga.
O Hospital de Todos-os-Santos dependia da Santa Casa da Misericórdia. Sofreu um incêndio em 27 de Outubro de 1601, facilmente reparável em seus estragos, outro, horroroso, em 10 de Agosto de 1750, que o reduziu a cinzas, fazendo muitas vítimas, salvando-se, porém, 730 doentes e centenas de crianças que foram recolhidas pelas janelas e portas contíguas a S. Domingos.

Hospital Real de Todos-os-Santos no séc. XVIII
Igreja do Hospital Real de Todos-os-Santos, portal manuelino, admirado por toda a Europa, não só pelo seu trabalho de escultura, mas também pela sua imponência.
Gravura da autoria de Jaime Martins Barata, Museu de Lisboa

O Hospital tinha a sua frente obliquamente recuada em relação ao alinhamento oriental do Rossio que temos à vista, de modo que só pelas alturas onde hoje estão os Armazéns e a Loja do Povo [Praça de D. Pedro IV, 87-92] a linha antiga coincidia com a actual [vd. planta topográfica]. No interior da Retrosaria «Botões de Ouro», n. 86 [hoje sapataria], situada entre aqueles dois estabelecimentos existem ainda abóbadas e um lanço de arcaria de volta perfeita — resto vivo das arcadas do Rossio — , e até Julho de 1933 estava à vista um capitel de coluna, singelamente ornamentado, um meio metro acima do nível actual da Praça, único, venerando vestígio que foi entaipado por ocasião de umas obras de limpeza. Tenho tentado conseguir que ele seja, de novo, posto à vista; acredito na boa vontade dos donos do estabelecimento.


Sítio do Hospital de Todos-os-Santos, convento de S. Domingos e Poço do Borratém antes do terremoto de 1755 (a preto), e na actualidade (1937) (a vermelho) 
Planta topographica exacta do Sitio que comprehende a Ilha em que estava edificado o Hospital Real de Todos os Santos. Desenhos de J. de Castilho

Bibliografia
MESQUITA, Alfredo, Lisboa, 1903.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 22-26, 1938.
CASTILHO, Júlio de,  Lisboa antiga, vol. IV,  1885, 

domingo, 18 de abril de 2021

Rua da Glória e Palácio dos Condes de Lumiares

Foi nesta zona, contida entre as artérias de designação «Glória», com frente à Avenida de hoje, que se elevou até há meio século o Palácio dos Condes de Lumiares.


O lindo nome de «Glória», vizinho do de «Alegria», a ocidente da Avenida da «Liberdade» — trilogia invocativa que, quisesse Deus, fosse o símbolo desta cidade que tantas vezes a si próprio se nega, através dos seus homens bons — ; o nome de Glória, digo, adveio ao sítio de uma Ermida que existiu na esquina da Rua e Travessa da Glória, instituída em 1574 por Fernão Pais.

Rua da Glória, Sul  [c. 1900]
À esq. notam-se as traseiras do Palácio dos Condes de Lumiares e, ao fundo, a Calçada da Glória.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Junto à Ermida havia umas casas e terrenos, que pelo andar dos tempos, e pelo cruzamento de famílias, passaram dos descendentes de Fernão Pais, numa parte senão no todo, e sucessivamente, à Condessa de Ayres, Condes da Castanheira, Comendadores de Fronteira e, finalmente, Condes de Lumiares.
Depois da Terramoto os Lumiares tinham aqui seu palácio, com frente ao Passeio Público, guarnecido de jardim, até à Calçada da Glória, prolongando-se pelas traseiras à Rua da Glória. Nele se incluía a Capela. Em 1865 o Palácio ardeu, mas foi reconstruido. No último quartel do século passado [XIX] os Lumiares desfizeram-se das propriedades e chãos, e ergueram-se então os prédios sólidos que por aí vemos.

 
 
Rua da Glória, N. [c. 1900]
Junto à Rua de Santo António da Glória e, ao fundo, a Praça da Alegria
Machado & Souza, in LdA
 
 
 
 
Rua da Glória [c. 1900]
Junto à Travessa da Glória
Machado & Souza, in LdA



A Capela foi demolida; há uns quinze anos [c. 1924], numas obras levadas a efeito num estabelecimento da Travessa, encontraram-se dela vestígios. 
Enfim, Dilecto, da «Glória» ficou o nome em quatro artérias. Não se perdeu tudo.

Localização do Palácio dos Condes de Lumiares [1857]
Delimitado pelas artérias de designação «Glória» — rua, travessa e Calçada — e pela Rua Ocidental do Passeio Público, actual Avenida da Liberdade.
Excerto de Carta topográfica de Filipe Folque, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 26, 1939.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Chafariz da Infância

Nesta antiga Rua da Infância — hoje da Voz do Operário — , tornejando a Travessa de São Vicente, ficava situado o Chafariz da Infância — de data de construção e autor desconhecidos. Terá sido demolido cerca de 1912 para dar lugar à actual sede da «Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário». 

A Rua da Infância — recorda o ilustre Norberto de Araújo — tem um troço moderno, que parte exactamente de onde está o edifício da Sociedade de Beneficência «Voz do Operário», e vai até à Graça; daí para baixo havia já a Travessa das Bruxas, antigamente muito estreita, à qual já aludi atrás, e que se continuava, subindo a poente, como hoje, pela actual Travessa de S. Vicente, até defronte do Convento dos Agostinhos, ou seja o dos frades da Graça.

Chafariz da Infância [centre 1903-1908]
 Actual da Voz do Operário, tornejando a Travessa de São Vicente
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Já agora outra informação te dou. Esta Travessa de S. Vicente, hoje, como vês, já com prédios modernistas (1937), e relativamente larga, era a estreita Travessa das Bruxas que ia dar ao Largo de S. Vicente, antes de se abrir a Rua da Infância. Na esquina do edifício da «Voz do Operário» desta Travessa existiu, no século XVII, uma porta vulgar de quinta, chamada de «Heliche», na citada propriedade dos Abelhas, assim conhecida porque nas casas da Quinta morou, em 1667, um Marquês, espanhol, de título Elche , nome corrompido em Elice ou Heliche.

Chafariz da Rua da Infância [c. 1900]
Actual da Voz do Operário, tornejando a Travessa de São Vicente, antiga das Bruxas
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Localização da Tv. de S. Vicente e do chafariz na antiga Rua da Infância em 1890

Bibliografia
ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 50-58, 1938.

domingo, 29 de março de 2020

Palacete Andrade Bastos

Palacete construído em finais do século XIX para residência de Dª Guilhermina de Andrade Bastos, a par de um outro edificado para o irmão, o Dr. Júlio de Andrade, com base num projecto (1891) do arquitecto italiano Sebastião Locati.


Inserido na malha da cidade, no interior dum lote murado, o edifício é circundado pelo jardim a toda a volta. Está localizado dentro do lote, na zona central. A entrada faz-se pela rua Júlio de Andrade, n.º 3. Pertence à freguesia de São José e está implantado numa zona plana em relação à rua. O terreno com o jardim até à fachada é plano e após o palacete entra em declive descendente, de Este para Oeste na zona posterior.

Palacete Andrade Bastos |post. 1891|
Fachada posterior voltada a Oeste sobre o Jardim do Torel; observa-se o
jardim em socalcos e planos inclinados, com três pisos separados por frisos e quatro panos.
Postal ilustrado não circulado, edição de Martins & Silva, in Lisboa de Antigamente

O actual palacete apresenta inúmeras alterações ao projecto inicial, mas a documentação das plantas originais permite uma reconstituição conjectural. Assim, o piso superior terá sido destinado a uma zona de quartos e incorporou inicialmente um terraço voltado a Poente. No piso intermédio (térreo a Nascente e piso 1 a Poente) situa-se a entrada principal pelo lado da rua. Este corresponde a uma zona de recepção, com um vestíbulo de distribuição para o andar superior ou inferior, pelas escadas de aparato ou de serviço, estas situadas junto à copa, a Sudoeste. Junto à fachada poente situam-se as salas de recepção. O piso -1, com acesso directo ao jardim pela fachada poente, corresponde a uma zona privada da família. Na zona nascente do mesmo piso (semienterrado), situam-se os acessos originais aos pisos superiores, de aparato e de serviços. No projecto original verifica-se a cozinha em comunicação com a copa no piso superior e uma sala de criados a nascente.

Palacete Andrade Bastos |1968|
Fachada principal, entrada pela Rua Júlio de Andrade,3
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Desde Julho de 1988 está instalada no palacete a sede social de A Xuventude de Galicia – Centro Galego de Lisboa.

Desenho da implantação do Palacete Andrade Bastos em 1891
Assinalados a vermelho estão o palacete (B) e a Rua Júlio Andrade

Bibliografia
acasasenhorial.org

domingo, 8 de março de 2020

Nicho (Quinta) da Imagem, ao Caracol da Penha

Há (em1889) na esquina sul desta travessa (do Caracol da Penha) para a rua de Arroios — diz Júlio de Castilho  — uma  pequena casa, de mesquinha aparência, em cujo cunhal se vê um nicho, hoje tapado, mas que antigamente tinha por habitante não sei que santo ou santa, com o indispensável pingente da sua lanterninha. [...] Chamava-se por causa dele, ao sítio, o Nicho da Imagem.¹

Rua Marques da Silva  |c. 1900|
Cruzamento com a e Avenida Almirante Reis
O nome deriva da existência no local do Convento da Encarnação.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em 1891,  quando a C.M.L. procedeu ao alargamento da Travessa do Caracol da Penha, a então denominada Quinta da Imagem era propriedade do comerciante João Marques da Silva.
Perguntemos agora: Marques da Silva porquê? quem foi aquele senhor? que fez ele?
Era ao tempo um comerciante que morava na rua dos Anjos e que era proprietário da célebre Quinta da Imagem, ali ao Caracol da Penha, ao virar para a rua de Arroios, quinta da qual o sr. João Marques da Silva, — era este o seu nome — ofereceu uma fatia à Câmara para alargamento da travessa do Caracol! E lá vimos que foi nessa sessão que o vogal da Comissão Administrativa do Município, sr. Costa Lima, propôs, e foi aprovado, para que a travessa passasse a ter o nome do proprietário local que contemplou a cidade com aquela nesga de terreno da sua quinta.²

Levantamento da Planta de Lisboa: 1911, Pinto, Júlio António Vieira da Silva.[Fragmento]  
Legenda:
Vermelho - Chalet (Quinta da Imagem) de João Marques da Silva
  Laranja - Rua Marques da Silva [Travessa do Caracol da Penha]
Verde - Av. Almirante Reis [projectada Avenida dos Anjos]
Azul - Rua de Arroios

Bibliografia
¹ CASTILHO, Júlio de, Lisboa Antiga, vol. I, IX, pp. 165-172, 1937.
² MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés a Lés, vol. IV, pp. 52-54, 1968.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Rua dos Capelistas que foi d'El-Rei

Aos comerciantes que tinham as suas lojas no Pátio da Capela Real (depois elevada a Igreja Patriarcal de D. João V), pátio com suas arcadas e galerias [vd. Planta de Lisboa anterior ao Terramoto], chamava-lhe o povo os capelistas, e às suas lojas capellas.
As «capelas» e tendas, ou tendas da Capela — explica Norberto de Araújo — onde se «acha tudo o que de mais precioso é no mundo», foram depois do Terramoto armadas nas lojas dos prédios edificados na Rua do Comércio, e daí o chamar-se a essa artéria «Rua dos Capelistas», da mesma forma que os pequenos estabelecimentos «que vendem tudo» por êsses bairros de Lisboa, são conhecidos ainda por «capelistas», casas de «artigos de capela». Fenómenos da evolução dos vocábulos.

Rua do Comércio vulgo dos Capelistas [c. 1890]
Praça do Município e Paços do Concelho que ocupa o espaço que era o do Pátio da Capela Real
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Após o terramoto e a restauração da Baixa, estabeleceram-se os mesmos comerciantes na rua mais próxima do Terreiro do Paço, então designada Rua Nova de El-Rei, mas o povo chamava-lhe Rua dos Capelistas, até que, em 1910, passou a chamar-se Rua do Comércio.
Pela primeira regulamentação toponímica, o decreto régio de 05/11/1760 que consagra as denominações da Baixa Pombalina, foi atribuído o topónimo Rua Nova de El Rei. Depois, por deliberação camarária de 18/05/1889 e edital de 08/06/1889 passou a denominar-se Rua de El Rei. A última denominação desta artéria e que se mantém até aos nossos dias, Rua do Comércio, foi fixada pelo primeiro edital da vereação republicana na edilidade lisboeta, com data de 5 de Novembro de 1910, ou seja, um mês após a implantação da República em Portugal, e nesse edital se procurou substituir os topónimos

Planta de Lisboa anterior ao Terramoto
A vermelho a Capela Real e o respectivo Pátio; a verde a  Rua dos Capelistas (clicar para ampliar)
«Por baixo d'estas arcadas ou galerias, em toda a circumferencia, ha muitas tendas e lojas onde se acha tudo que mais precioso ha no mundo, ouro, diamantes e outras pedras preciosas». [Serrão, 1993]
in Lisboa de Antigamente



Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 13-14, 1939.

SENOS, Nuno, O Paço da Ribeira: 1501 - 1581, 2002.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Convento de S. João de Deus

As traseiras desta Casa conventual de poucas tradições lisboetas — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , são mais bonitas do que a frontaria, pelas sobreposições de acaso, panorama do claustro combinado com a arquitectura geral, um pouco confusa, e com pormenores decorativos que de todo não se perdem à distância. O Convento debruçava-se sobre o rio.¹


Convento de S. João de Deus [c. 1939]
Rua Presidente Arriaga, 9-13. Panorâmica tirada da Avenida 24 de Julho.
O Terramoto pouco dano fez ao Convento, que foi extinto em 1834. A Igreja conservou-se durante alguns anos, mas foi sacrificada às exigências de edifício publico. [Araújo: 1938]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Situado na Rua das Janelas Verdes [hoje Presidente Arriaga] ao lado do palácio que foi do Conde de Óbidos, e mesmo em frente ao vistoso convento de S. Francisco de Paula, encontra-se o que foi a antiga casa dos religiosos Hospitaleiros de S. João de Deus, Ordem instituída entre nós em 1617. 
Primitivamente, foi nesse local que se edificou, em 1581, o primeiro convento da Congregação de S. Filipe de Néri, dos Carmelitas Descalços, que naquele tempo era um sítio afastado da cidade, com boas vistas para o rio.

Convento de S. João de Deus
O claustro, que se vê do rio, é rasgado na frente, tendo, pois, três lados apenas, o do fundo com onze arcarias de volta perfeita e os outros com seis em cada. [Araújo: 1938]
Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755, pormenor, in Museu de Lisboa

O casario em que se edificou o convento pertencera a Francisco de Távora e a sua mulher, D. Mécia Ribeiro, que por volta de 1604 o venderam ao Dr. António Mascarenhas (Deão da Capela Real, doutor em Teologia e deputado da Mesa da Consciência e Ordens), que resolveu instituir um convento dessa invocação, com hospital acoplado.
Deu-se, pois, a sua fundação em 1629, contendo amplas instalações, grande claustro voltado para o rio e bonitas guarnições azulejadas.
Por morte de Deão fundador em 1637, viria a ser concluído posteriormente pelos religiosos.
Uma vez extintas as Ordens Religiosas em 1834, nele estiveram instalados primeiramente o Quartel da Brigada Real da Marinha, extinta com a revolução de Belém, em 1835. Depois, o Tribunal da Corte. Seguiu-se o Quartel de Infantaria n.° 2, culminando nos nossos dias, e a partir de 1919, com a Guarda Nacional Republicana, servindo o antigo claustro de parada do quartel.²

Convento de S. João de Deus, Enquadramento urbano [1857]
Rua Presidente Arriaga, 9-13 antiga Rua Direita de São Francisco de Paula
Legenda:  a Vermelho o claustro; a
Verde a delimitação do convento e cerca extintos em 1834. Carta topográfica de Filipe Folque, 1857, in Lisboa de Antigamente
(clicar para ampliar)

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 59-60, 1938.
² CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa,  p. 120, 1989.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Palácio Sabugosa

O Palácio Sabugosa [antes S. Lourenço] situa-se na Rua Primeiro de Maio (antiga Rua de S. Joaquim, ao Calvário), n.ºˢ 120-124. A sua aparência é vulgar, notando-se a fachada forrada de azulejos, do tipo do século XVII. Os S. Lourenços (César de Menezes, descendentes de Vasco Fernandes César) possuiram uma vasta área de chãos neste sítio terminal do Calvário; foi em 'terrenos seus que se rasgou a Rua Luiz de Camões, essa grande artéria do fim do século — avenida de Santo Amaro.

 
No interior do Palácio Sabugosa as reminiscências seiscentistas estão representadas por alguns panos de azulejo, em regra deslocados do sítio primitivo, por alguns tectos de masseira no andar superior, e por outros pequenos pormenores, que os restauros quase encobriram.


Palácio Sabugosa |c. 1950|
Rua Primeiro de Maio, 112-124
Antiga de São Joaquim, ao Calvário, antes Rua direita do Calvário
Frontaria (séc. XVIII) e fachada lateral do Palácio Sabugosa, em Santo Amaro,  vendo-se a porta que conduzia à «Quinta Cesárea»; anota-se: o Andar  nobre, com seis janelas, de sacada, com  grades de varões, e  coroada de cornija.
Horácio Novais,in Lisboa de Antigamente
Palácio Sabugosa |1965|
Rua Primeiro de Maio, 112-124
Antiga de São Joaquim, ao Calvário, antes Rua direita do Calvário
Frontaria (séc. XVIII) e fachada lateral do Palácio Sabugosa, em Santo Amaro; anota-se:  o Andar térreo, com quatro janelas de pei­toril,  centradas por dois portões triviais, de acesso.
Armando Serôdio ,in Lisboa de Antigamente

 

O Palácio Sabugosa ou dos Césares, em Santo Amaro [vale recordar que Eça leu parte de Os Maias ao Conde de Sabugosa, precisamente neste palácio — protótipo do Ramalhete], remonta ao século XVI, no seu núcleo primitivo. Foi fundado por Luís César, segundo deste nome e apelido, que, como seus avós, foi do Conselho de El-Rei, Guarda-mór das Naus da Índia, Provedor dos Armazéns nos Reinos e Senhorios de Portugal, Alcaide-mór de Alenquer. Foi o primeiro administrador do Morgado dos Césares, insti­tuído na primeira metade do século XVI, por seu pai Vasco Fernandes César.
Luís César de Menezes, cativo da batalha de Alcácer-Quibir, foi um dos oitenta fidalgos res­gatados na carta régia de 10 de Outubro de 1678. Nos anos de 1583 e 1584, Luís César adquiriu várias propriedades, de algumas das quais já era senhor directo. Mas na escritura celebrada pelo tabelião de Lisboa, João Rodrigues Jacome, em 5 de Outubro de 1588 diz-se «Luís César comprou huma casa junto das suas de sua vivenda de S. Amaro» que confrontava pelo Sul com caminho de Lisboa para Belém. No quadrante de um relógio de sol existente nos jardins do palácio lê-se a data de 1605. O palácio ou vivenda de campo — qualificação que mais lhe quadraria — era, porém, quer no sem­blante, quer no interior e disposição, diferente do que veio a ser no século XVIII depois de obras de ampliação e beneficiação levadas a efeito em 1728 por Vasco Fernandes César de Menezes, quinto neto do fundador do palácio, em meados do século XVI [...].

Rua Primeiro de Maio, extracto da Carta topográfica de Filipe Folque, 1857
Legenda:  a Azul a Rua Primeiro de Maio, antiga de São Joaquim, ao Calvário, antes Rua direita do Calvário; a Vermelho o actual Palácio Sabugosa e jardins; a Laranja terrenos da antiga «Quinta Cesárea»

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Eis por que a vasta propriedade que se estendia à ilharga da quinta dos Césares até ao Alto de S. Amaro, e que havia sido adquirida em 1580, se chamou «Casal do Conde de S. Lourenço» em homenagem à aliança dos Césares com os Condes de S. Lourenço, família muito antiga que precedia de Pedro Pires, rico homem do século Xll, onde entroncaram os Sabugosas.
E de crer que a «Quinta Cesária» — assim foi chamada — fosse anterior à construção da primitiva casa de campo, ou palácio, pois os Césares eram possuidores de largos tratos de terrenos rústicos; quanto à casa seiscentista era um pouco mais recuada, em relação ao alinhamento que o 1º Conde de Sabugosa lhe deu, e servida por um largo portão que não é, evidentemente, o que hoje se abre na fachada principal. [...]
A «Quinta Cesária», que se dilatava para Poente até quase à Ermida de Santo Amaro, e, para Norte, até à zona onde veio a ser construído em 1904 o Palacete Valflor, foi em grande parte retalhada e alienada, para urbanismo local, pelo 3.º Marquês de Sabugosa, alguns anos antes da sua morte (1897); a Rua Luís de Camões foi, no final do século passado [XIX], aberta em terrenos da quinta.
O filho do 3.º Marquês, António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, 9.º Conde de Sabugosa e 11.º Conde de S. Lourenço — o escritor e académico ilustre, mordomo-mór da Casa Real — promoveu depois de 1898 grandes obras de restauro e transformação no palácio de seus maiores, podendo dizer-se que a actual casa de Santo Amaro, à parte o semblante exterior, é outra em relação ao que teria tido mesmo no século XVIII. Foi o Conde de Sabugosa, ele próprio, o orien­tador artístico dos restauros e transformações, nas quais avultou a construção da biblioteca-livraria, ocupando o espaço de um antigo pátio, contíguo ao jardim: nas decorações trabalharam um artista Anunciação (que não Tomás da Anunciação) e Leandro Braga, mestre entalhador.

O  brasão de  armas dos Sabugosas tem sido alterado no  decorrer das idades; o do último Conde, e que prevalece, é  encimado pela coroa de duque com o símbolo dos Césares, esquartelado das armas dos Lencastres (armas de  Portugal com filete em  contrabanda), dos  Césares (seis  fustas), dos Melo (seis arruelas) e dos Vieiras (seis vieiras), centrado pelo escudo com leão rompante dos Silvas

Nota:  Como o artigo já vai longo, decidimos inserir aqui a chamada «quebra de página», caso queira continuar a ler a descrição de algumas das salas do Palácio Sabugosa clique em «ler mais [read more]».
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