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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Campos de Futebol de Antanho: antigo Estádio do Sporting Clube de Portugal

O primeiro campo do Sporting Clube de Portugal foi inaugurado em 8 de Maio de 1906, no nº 73 da Alameda do Lumiar (atualmente Alameda das Linhas Torres), num local conhecido como Sítio ou Quinta das Mouras. Os terrenos foram doados pelo Visconde de Alvalade, atendendo ao desejo do neto, José Alvalade, de fundar um novo clube após a cisão do Campo Grande Football Club. A doação incluiu também um edifício na mesma Alameda, que serviu como a primeira sede do S.C.P..
No ano seguinte, a 4 de julho de 1907, ocorreu uma remodelação que melhorou bastante as condições desportivas: além de um segundo campo de futebol, passou a contar também com uma pista de atletismo.

Antigo Estádio do Sporting Clube de Portugal |c. 1917|
Designado Estádio do Lumiar ou Stadium de Lisboa.
Em segundo plano, ao centro, a «Villa Sousa» sita na Alameda das Linhas de Torres, 22. Campo Grande.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Antigo Estádio do Sporting Clube de Portugal |c. 1917|
Exercícios de ginástica no antigo estádio do Sporting Clube de Portugal.
Ao fundo, na zona N. do Campo Grande e da dir. para a esq,, veem-se as traseiras do o Restaurante do Campo Grande e do Palácio Valência-Vimioso. A esq. obervam-se alguns dos edifícios na 
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O Sporting Clube de Portugal. deixou o Sítio das Mouras e, em 1917, mudou-se para o número 412 do Campo Grande, data em que foi inaugurado. com a designação de Stadium de Lisboa, também conhecido como Estádio do Lumiar. [sporting.pt]

Panorâmica sobre o Campo Grande e Lumiar |c. 1947|
Antigos campos do SLB — [1940-70] Campo Grande, em baixo — e do SCP — Stadium de Lisboa ou do Lumiar [1914] em obras — depois primitivo Estádio José de Alvalade [1947].
No topo N. do Campo Grande destaca-se o Palácio Valência-Vimioso que torneja para a Alameda das Linhas de Torres (dir.) e o Restaurante do Campo Grande. Na esq. baixa nota.se o Palácio Pimenta (Museu de Lisboa). 
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

domingo, 19 de julho de 2026

Campos de Futebol de Antanho: Campo da Feiteira

A primeira grande surpresa de Afonso, ao chegar ao campo [da Feiteira] e ao ver as equipas no aquecimento, foi a de que nada parecia ter mudado. O Sport Lisboa e Benfica alinhava com o antigo equipamento do Grupo Sport Lisboa, camisolas vermelhas e calções brancos, e o próprio emblema da águia se mantinha ao peito, acrescentando-se-lhe agora uma roda de bicicleta, o símbolo do Bemfica. [SANTOS, 2004]

Campo da Feiteira |c. 1909|
Inaugurado em 1907, tinha capacidade para 8 mil espectadores, e o campo media 120 metros por 79.
Quinta da Feiteira junto à Estr. de Benfica, e nela: Chalet Ribeiro, Villa Ana (1890) e igr. de Benfica.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O major Faria Leal, antigo dirigente do Sport Benfica (fund. 1906), revelaria mais tarde: «O futebol tomou logo de princípio enorme incremento e adquiriu-se, por arrendamento, na Quinta da Feiteira”, de que era proprietário o brasileiro comendador César José de Figueiredo, um campo. Este campo, hoje ocupado pelo grande bairro fronteiro à igreja de Benfica, e que foi arrendado por uma ridicularia, fora um extenso faval sulcado de regos, que foi convenientemente trabalhado à enxada pelos próprios sócios, para que pudesse ser adaptado ao jogo. O facto de sermos o primeiro clube que possuía campo próprio atraiu à nossa convivência os jogadores de outros clubes, principalmente os do Sport Lisboa (fund. 1904) que como todos eles, se treinavam e jogavam nos areais de Alcântara e Belém, ou no Largo da Luz. Desta convivência resultou, mais tarde, a união Sport Lisboa e Benfica (1908), que subsistiu até hoje.» [Dias: 2000]

Campo da Feiteira |entre 1907 e 1910|
O terreno na Quinta da Feiteira foi oficialmente adquirido pelo clube em 26 de Maio de 1907, e o campo foi inaugurado em 14 de Julho do mesmo ano.
Quinta da Feiteira junto à Estr. de Benfica vendo-se o Chalet Ribeiro e a Villa Ana. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Foi no seio de um grupo de antigos alunos da Real Casa Pia que surgiu a ideia de fundar um clube, o Grupo Sport Lisboa. Em 1904,  realizou-se uma reunião histórica nas instalações da Farmácia Franco, sita na velhinha Rua Direita de Belém.  Nela estiveram presentes dezoito elementos, entre eles, Cosme Damião, que contava apenas dezoito anos e era jogador da equipa, assumindo mais tarde o posto de capitão do grupo e um jogador importantíssimo, vindo a ser, no entanto, como dirigente que mais se destacou, mesmo nunca chegando a presidente. [C.F. Casa: 2013]

Campo da Feiteira |1910-01-23|
Equipa do Sport Lisboa e Benfica, no campo da Feiteira. Cosme Damião é o capitão da equipa (com a bola). Jogo entre o Sport Lisboa e Benfica e o Clube de Carcavelos arbitrado por Eduardo Pinto Basto.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Estr. de Benfica, 674: Vila Ana e Vila Ventura

Vila Ana e Vila Ventura são duas vilas (Chalets) centenárias mandadas construir por uma família portuguesa regressada do Brasil, situadas no nº 674 da Estr. de Benfica. Os seus projectos datam de 1890 e 1910, respectivamente.
São os últimos vestígios históricos e arquitectónicos (apelidado como “Casas do Brasileiro”) das casas apalaçadas e quintas que existiam na freguesia de Benfica. Ali viveu o General Spínola e o escritor Luiz Pacheco.

Estr. de Benfica, 674: Vila Ana e Vila Ventura |1968|
Vila Ana, cujo nome homenageia a mãe da promotora - D. Maria Gertrudes da Conceição Macedo de Barros, e Vila Ventura, cujo nome homenageia o pai daquela. 
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Alinhadas em espelho, dois andares de cinco janelas por piso, ladeadas cada uma por um torreão de quatro águas e outro de duas. Toques de gosto de quem construiu para servir ou fazer inveja a quem passa: os torreões têm janelas redondas, em óculo, e as telhas das cumeeiras são rematas por friso de elementos decorativos.

Campo de futebol da Quinta da Feiteira |1911-05-21|
Ao fundo, na Estr. de Benfica, vislumbram-se as Vilas Ana (1890) e Ventura (em construção). À dir. vê-se a igr. de Benfica.
Legenda no abandalhado amL «Equipa da Associação de Futebol de Lisboa que jogou com os estudantes de Bordéus e ganhou por 5-1»
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 10 de março de 2024

Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club

Dois dos clubes em foco, o Magestic, entre 1917 e 1920, e depois o Monumental, até 1928, ocupam o edifício do Palácio Alverca, também conhecido por Palácio de São Luís ou Palácio Paes do Amaral, situado na via hoje identificada por Rua das Portas de Santo Antão. [...]

A construção da mansão da família Paes de Amaral, viscondes de Alverca, é datada, por diferentes olisipógrafos, dos finais do século XVII. Desconhece-se, no entanto, uma data precisa ou fontes que comprovem esta datação. A fundamentar esta hipótese são evocados alguns elementos arquitectónicos presentes no edifício, anteriores à transformação do Palácio Alverca em 1917-1919. O edifício terá sido erguido, após o terramoto, no espaço liberto das muralhas [Cerca Fernandina] da cidade e sobre parte das suas ruínas.

Palácio Alverca |1968|
Casa do Alentejo desde 1932. Rua das Portas de Santo Antão
Armando Serôdio ,in Lisboa de Antigamente

Segundo o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, no local onde foi erguido o Palácio, e onde funciona depois o Magestic Club e, posteriormente, o Monumental Club, existira antes um curral de porcos:
«No chão onde esteve o curral dos porcos, edificou-se, muitos anos depois, o palácio de Miguel Pais do Amaral, no qual, já nos nossos dias, esteve o clube mais chique de Lisboa – O Monumental. Quem pensaria então, naquelas noites lilases ou azuis, com tangos rosas ou verdes, que ali, no mesmo sítio, também já tinham chafurdado porcos? [...]
Entre 1917 e 1919, o Palácio Alverca é objecto de uma profunda intervenção, a fim de acolher o Magestic Club. No processo de obras salienta-se que nos trabalhos serão utilizados unicamente materiais de «primeira qualidade» e que todas as obras seriam «executadas conforme preceitos técnicos de construção e com os cuidados e fiscalização que a importância das obras do club reclamam». [...]

Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão
Pátio estilo neo-árabe risco do arquitecto Silva Júnior (1918)  e escadaria.
Naturalmente em «pastiche», transpira certa frescura mourisca, mesmo nas varandas, escadaria e galerias. [Araújo: 1939]
Fotografia: Casa do Alentejo 

Segundo a descrição feita na época pela revista A Arquitectura Portuguesa, que pela grandiosidade da obra lhe dedica dois números seguidos, o projecto da Sociedade do Magestic Club não tinha como objectivo único ganhar fortuna: era antes uma empresa com fins patrióticos, que ambicionava abrir, em local apropriado, um «club de primeira ordem, para ser apresentado pela primeira sociedade e onde, os estrangeiros que visitassem o nosso país, pudessem ser condigna e luxuosamente recebidos».
A revista descreve ainda a «grandiosa escadaria» que uma porta vulgar não deixa adivinhar, a sala de bilhar, a «sala de Bridge e outros jogos de vaza», o bengaleiro, o vestiário de homens e senhoras, as casas de banho, o Toilette das senhoras em estilo Luís XV, a barbearia e o gabinete do director, mencionando ainda sete gabinetes reservados ainda não concluídos na altura da publicação do artigo. É de referir a menção ao cuidado sistemático para que toda a decoração e mobiliário destes espaços estejam de acordo com a decoração e o estilo arquitectónico adoptado.

Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão
Salão dos espelhos em estilo neo-barroco (Salão de Baile e Restaurante).
A. sala de baile é toda decorada no tecto e nas paredes por Bemvindo Ceia, e outra sala contigua apresenta pinturas de Domingos Costa. [Araújo: 1939]
Fotografia: Casa do Alentejo 
Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão
Sala de Bridge e outros jogos de vaza com pinturas de Domingos Costa
.
Fotografia: Casa do Alentejo 
Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão, 44-60
Pormenor  de uma das pinturas de Domingos Costa que cobrem as paredes da Sala de Bridge e outros jogos de cartas.
Fotografia: Casa do Alentejo 

O Monumental procura manter essa imagem de exclusividade, luxo, elegância e respeitabilidade sendo, nos anos seguintes, palco de diversos almoços e banquetes, alguns dos quais verdadeiramente luxuosos. Contudo, tal não impede a sua associação ao jogo e a outras actividades consideradas por alguns como imorais. A 24 de Novembro de 1928, um correspondente em Lisboa do jornal O Provir de Beja dá notícia de um fogo ocorrido no clube em meados desse mês, comentando que a Natureza, indignada com as imoralidades ali praticadas, se revoltou e «pegou fogo ao antro».
Em 1928 o clube é encerrado pelas autoridades, em consequência das medidas legislativas tomadas pelo Estado Novo para a repressão do jogo. O edifício mantém-se fechado nos quatro anos seguintes, na esperança de poder voltar a explorar o negócio dos jogos de azar. Em 1932, confrontados com a impossibilidade desta hipótese, os proprietários do Monumental Club procuraram transaccionar com o Grémio Alentejano todos os direitos que possuíam sobre o imóvel, bem como o recheio de que são donos.

Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
Rua das Portas de Santo Antão, 44-60
Sala de Bilhar decorado com azulejos de Jorge Colaço.
São de ver-se outras salas, tais as de <estar», «de fumo», de jogos de vasa, com magníficas decorações em azulejos de Jorge Colaço (1918), uma delas dando, a azul, cenas dos «Lusíadas», outra, em pintura policroma, reproduzindo quadros de romaria e feiras de todo o país, outro ainda figurando em grandes painéis caçadas aos javalis, uma da çaçada real do século xv, uma cena medieval de perseguição de touros a rojão. [Araújo: 1939]
Fotografia: Casa do Alentejo

Nota(s): A agora denominada Casa do Alentejo ainda hoje tem sede neste palácio e no interior do edifício continuamos a poder ver o trabalho de remodelação que aí foi realizado.
Mais imagens aqui.




Palácio Alverca: O Magestic Club e o Monumental Club |c. 1930|
A barbearia (esq.) e o bar com painel da autoria de José Ferreira Bazaliza (dir.).
Fotografia: Casa do Alentejo







Bibliografia
 VAZ, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa: sociabilidade, diversão e transgressão (1917-1927.
ARAÚJO, Norberto de,, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 105.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Clube Naval de Lisboa

Foi fundado em 27 de Janeiro de 1892 por Abel Power Daggge, entre outros,  e remontava ao "Clube de Remeiros Lusitano", fundado desde 1862. Considera-se, portanto, que a história do CNL vem desde essa distante data. Foi um dos primeiros Clubes em Portugal a praticar a vela, o remo e a natação. Actualmente dispõe de um tanque para remar, vários tipos de barcos para aprendizagem de remo e vela .
Conta no seu palmarés com as Taças Vasco da Gama, Taça de Portugal, Taça Camões e foi o Primeiro clube em Portugal a construir a sua sede em 1898 no no Cais da Viscondessa. [wikipedia.org]

Clube Naval de Lisboa [post. 1899]
Cais da Viscondessa, a Santos
Ao fundo nota-se a Igreja de Santos-o-Velho.
António Novaes[?], in Lisboa de Antigamente

O Clube, que nos estatutos iniciais tinha como missão “cooperação à utilíssima, nobre e filantrópica ideia de criação dum posto de socorros a náufragos e a instrução náutica”, rapidamente assumiu um papel importante no panorama náutico português
Em 1893 o Rei D. Carlos I atribui o título de Real ao clube, que passa a denominar-se Real Club Naval de Lisboa e o Príncipe D. Luiz Filipe aceita o título de Comodoro Honorário.

Clube Naval de Lisboa |1904|
Uma das primeiras eliminatórias da Taça Lisboa com uma pista da Junqueira.
Fotografia anónima], in Lisboa de Antigamente

​No campo da organização de regatas, de remo e vela foi de fundamental importância para o crescimento do Clube a abertura da secção de Cascais em 1901. Esta secção foi encerrada no final da década de 30, coincidindo com a fundação do Clube Naval de Cascais. Durante mais de trinta anos o clube organizou anualmente eventos de grande importância para a época. [Clube Naval de Lisboa | Restaurante do Clube Naval de Lisboa]

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Sport Lisboa e Benfica: Estádio das Amoreiras

Em 1923 — recorda-nos Norberto de Araújo — a Casa Alferrarede, que se continua da Casa Anadia, vendeu terrenos ao Sport Lisboa e Bemfica, e o gracioso Horto [de Marcolino Teixeira Marques] desapareceu a pouco e pouco, até pela razão de seu proprietário se encontrar velho.


A colectividade desportiva do Sport Lisboa e Bemfica data de 1904 [1908], e possuiu, antes deste campo de jogos, o de Bemfica [Feiteira] e depois o de Palhavã [Sete Rios]. Foi durante uma das direcções do seu sócio fundador e grande animador do Club, Cosme Damião, que foram adquiridos os terrenos para construção de um estádio, que seria um dos melhores de Lisboa, se se houvesse concluído. Fizeram-se o campo de jogo, inaugurado em 13 de Dezembro de 1925, e algumas dependências.

Estádio das Amoreiras [post. 1925]
À esquerda vê-se parte da antiga Estação da Carris com acesso pela Rua das Amoreiras
Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente


O Sport Lisboa e Bemfica, que é das mais importantes e populares agremiações desportivas de todo o país, vai sair deste sítio, pois o seu campo é sacrificado ao plano de urbanização e construção de uma Avenida [Eng.º Duarte Pacheco], que ligará à monumental ponte projectada sobre o vale de Alcântara até à Cruz das Oliveiras. 

N.B. Além do campo principal o complexo dispunha de dois "courts" de Ténis e um campo de basquetebol Actualmente, nos terrenos onde esteve o campo e instalações desportivas está o Liceu Francês e a Avenida Eng.º Duarte Pacheco. Em finais de 1940, o Benfica abandonou as Amoreiras.
_________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 85, 1939.

domingo, 18 de março de 2018

Palácio Regaleira, a S. Domingos

No quarteirão entre as Escadinhas da Barroca e a Calçada do Garcia, ali tens o prédio, n.º 14 a 15 com sete portas, que foi o Palácio Regaleira, propriedade no meado do século passado [séc. XIX] de D. Ermelinda Monteiro [Allen] d'Almeida, baronesa e viscondessa da Regaleira, título que passou e se mantém nos Morais Palmeiro; êste prédio pertenceu a Francisco de Sousa Cruz, em 1915? passou por compra a Artur Aires, e hoje [1939] é da Companhia dos Tabacos.

Existiu aqui um clube de jogo e de prazer, impropriamente chamado "Clube Regaleira".¹


O registo mais antigo que se encontra sobre este edifício remonta a 28 de Outubro de 1814, no qual a localização do palácio é descrita no Registo de Descrições Prediais. A localização privilegiada do Palácio Regaleira numa zona nobre, central e movimentada da cidade, próximo do Rossio e no mesmo Largo da Igreja de São Domingos fez com que este mantivesse a sua centralidade relativamente ao espaço e vida urbana ao longo dos tempos.
Os dados precisos sobre a autoria e data de construção do edifício são desconhecidos. Vários autores sugerem tratar-se de uma edificação do século XVIII, provavelmente anterior ao terramoto de 1755. Segundo José-Augusto França, em gravuras anteriores a essa data, surge representado no mesmo local um edifício que apresenta grandes semelhanças com o actual: um prédio de três pisos, com a fachada principal virada a sul, de arquitectura sóbria e disposição simétrica de portas e janelas, que ocupam de forma regular grande parte da frontaria. É provável que o edifício tenha entrado na posse da família Allen em período anterior ao de D. Ermelinda Allen Monteiro d’Almeida, a primeira viscondessa da Regaleira, que teria herdado o Palácio dos seus pais e empreendido os trabalhos de remodelação entre 1835 e 1842, conferindo ao edifício a sua traça actual.

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A vida social de grande ostentação e as festas sumptuosas dadas nesta época pela baronesa e viscondessa da Regaleira no seu palácio lisboeta são-nos descritas por Fialho de Almeida:
«A primeira foi em 4 de Março de 1842, e Paulina de Flaugergues aponta-a como uma das mais belas e animadas da estação. Estiveram cerca de mil convidados, e era notável a porção de mulheres bonitas que se encontrava nos salões. A ornamentação da casa em pouco ou nada fora alterada a mais do que costumava ser nos dias ordinários. O palácio de madame Monteiro d’Almeida era um verdadeiro museu de coisas de arte e de elegância, e arcava em gosto e riqueza com a residência dos Palmelas, dos Fronteiras, dos Atalaias, e dos viscondes de Porto Covo […] No pátio da casa, em que tocavam três bandas de regimento, fora improvisado um jardim com laranjeiras, pritchardias e camélias, sob uma tenda de seda, às riscas multicolores, esticada e, lanças e albardas, que aprumavam de roda, mais de catorze ou quinze estátuas de guerreiros.»²

Em 1901 — após ter saído em definitivo (1898) da posse da família Allen — está instalado no Palácio Regaleira o Teatro Eléctrico Mágico. A partir do ano seguinte, funciona nesse edifício o Liceu de São Domingos, um desdobramento do Liceu do Carmo. Segundo o olisipógrafo Appio Sottomayor, terá aí funcionado, pouco tempo antes da implantação da República, a sala de cinema Rossio Palace, na qual se realizam, para alguns espectadores escolhidos e pagantes, sessões especiais com filmes pornográficos que têm lugar pela noite fora49. Já João Paulo Freire refere nas suas memórias «uma exposição-museu de figuras de cera, com uma secção reservada a doenças venéreas» que teria estado no Palácio Regaleira em 1918, aproximadamente.³

Palácio Regaleira [post. 1933]
Largo de S. Domingos, 14-15
No início do séc. XX esteve aqui instalada sala de cinema Rossio Palace
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

No mesmo edifício funciona ainda um estabelecimento comercial denominado Vaccaria de S. Domingos e um hotel. A 24 de Março de 1919 o prédio foi vendido à firma Arthur Adriano Ayres, Lda. Este dado, retirado dos Registos Prediais, contradiz a data de transição da propriedade do imóvel que nos é dada por Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa como se pode ler logo no inicio desta publicação: «em 1915? passou por compra a Artur Aires».

Palácio Regaleira [1910]
Na esquina do Largo de S. Domingos com as Escadinhas da Barroca, observa-se a Vaccaria S. Domingos.
António Novais, in Lisboa de Antigamente

No que respeita ao Regaleira Club — também mencionado por Norberto de Araújo como Clube Regaleira — há notícia do seu funcionamento entre 1920 e 1922. Contudo, este poderá ter aqui funcionado antes da data indicada. Entre Fevereiro e Maio de 1917 estaria, a julgar pelo nome, aí já instalado o Club Palácio da Regaleira, que pagava ao Governo Civil de Lisboa a devida licença para prolongar, todas as noites, as suas diversões para além da meia-noite. Não foi no entanto possível apurar se este seria ou não o mesmo estabelecimento conhecido por Regaleira Club em 1920. O seu encerramento em 1923 parece ser consensual.
Com a sua instalação no Palácio Regaleira e a adopção do nome deste para sua própria denominação, este clube nocturno procurou claramente beneficiar do estatuto alcançado e difundido na época da baronesa e viscondessa da Regaleira, aproveitando do edifício a aura que ainda prevalecia de festas sumptuosas e luxuosas.

«A monumental escada» e «A majestosa sala do “Regaleira Club”»
Efeitos da Guerra», ABC, 7 de Julho de 1921 [fotografias de Serra Ribeiro]

O palácio é vendido à Companhia de Tabacos de Portugal, que compra o imóvel pelo montante de 1.303.000$00 em escritura de 14 de Novembro de 1923.
Os inquilinos multiplicam-se e sucedem-se: um Armazém de Roupas Nogueira Viegas Lda.; a Fotografia Electro Rápida, de Brito Gago Justel; um estabelecimento de instrumentos musicais, de Larcher Castelo Branco, um estabelecimento comercial de artigos de malha, de José Esteves de Almeida; a Empresa Portuguesa de Instalações Eléctricas, Lda.; um estabelecimento de comércio de fruta e um outro de peixe, de Maria Fernandes de Almeida; o Bazar Universal, de Orlando Silva. Por estes anos está também instalada no Palácio Regaleira a Casa das Beiras, instituição de carácter regional que organiza festas e récitas.
No final da década o edifício encontra-se em adiantado estado de degradação: «O palácio estava em mísero estado. Parecia um chavascal. Soalho esburacado, paredes sujas, portas escangalhadas, um pavor.»
Em 1933 a Companhia dos Tabacos arrenda à Ordem dos Advogados o 1.º andar do edifício, que inicia obras de recuperação no palácio. A nova sede da Ordem dos Advogados só é inaugurada em cerimónia solene a 24 de Maio de 1939. Finalmente, a 26 de Janeiro de 1960, a Companhia dos Tabacos de Portugal vende o Palácio Regaleira à Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados e Solicitadores pelo preço avultado de 11.000.000$00.
Tudo leva a crer que a traça arquitectónica exterior do edifício se tenha mantido igual desde meados do século XIX, altura em que se realizaram os amplos trabalhos de remodelação. Já o interior do Palácio terá conhecido múltiplas e significativas intervenções, em resultado dos numerosos inquilinos e das diversas actividades que ali tiveram lugar.⁴
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 81, 1939.
² ALMEIDA, Fialho de, Vida Errante, pp. 334-335, 1925.
³ FREIRE, João Paulo, Lisboa do meu tempo e do passado, Lisboa, 1931-1939, p. 10-11.
⁴ VAZ, Cecília Santos, Clubes nocturnos modernos em Lisboa: sociabilidade, diversão e transgressão (1917-1927), Palácio Regaleira, pp. 76-81, 2008.
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