Sunday, 9 June 2019

Ponte de Alcântara

Alcântara, que hoje faz parte de Lisboa, era há poucos anos um dos arrabaldes — escrevia Angelina Vidal por volta do ano de 1900. Ficava fora das muralhas de D. Fernando. 

Todos ai se lembram da ponte que formava a barreira de Lisboa, sobre o caneiro de Alcântara, de mefítica memória.

Al-cantara é palavra árabe que significa a ponte. Ficou com o nome que lhe davam os mouros, como afinal muitas palavras do seu idioma vieram até nós mais ou menos deturpadas.


A grande ponte de Alcântara é celebre pelos combates de 14 de Maio de 1805, e 10 de Junho do mesmo ano. Ali se encontraram os heróicos soldados da Leal Legião Lusitana com as tropas invasoras, às quais aplicaram uma soberba derrota. Ficou memorado o valor e sangue frio dos nossos, nessas duas batalhas.
Também aqui se deu a desgraçada batalha de 25 de Agosto de 1580 [vd. 4ª imagem], na qual ficou derrotado D. António, Prior do Crato, e com ele vencido o nobre Portugal durante sessenta anos.
O combate tinha sido um arrojo da parte dos aportugueses, e só se pôde explicar por fanatismo patriótico. Quatro mil homens apenas compunham o exército de D. António, e esses mesmos mal armados, sem conhecimentos militares, e eram estes a fazer face a vinte e dois mil soldados do Duque de Alba, bem instruídos, bem armados e bem alimentados
Além do que não era só a força militar como também a marítima, constando de uma forte esquadra, que enchia o rio de Alcântara, ao tempo muito maior que modernamente.
Alcântara estava ainda quasi desabitada. Só depois da restauração se foi povoando, principalmente desde que D. Afonso VI foi habitar o palácio real do Calvário.
D. Pedro II também gostava muito do sitio, e aqui passava a estação calmosa; morreu neste palácio. Pouco a pouco se foi enchendo de arruamentos até que em 1755 já formava uma paróquia extra-muros.

Ponte de Alcântara em meados do séc. XIX
Nesta gravura vê-se a ponte já com a iluminação a gás e observam-se os portões em ferro das barreiras

e casas da guarda e a casa da apalpadeira que condicionavam o acesso à cidade de Lisboa. Sobre o lado norte da ponte ergue-se a estátua de S. João Nepomuceno. Numa planta datada de 1727, o comprimento da ponte, medido nas guardas, era de 90 metros, aproximadamente, e a largura de 6,2m.
Gravura por Cazellas, in AML

O antigo riacho que ali correra, e que ultimamente estava consideravelmente reduzido pelo desvio de aguas, que a ele aluíam, principalmente antes da construção do monumental Aqueduto, — obra que seria desnecessária se a esse tempo fosse já conhecida uma  singelíssima lei física com respeito à propriedade que assiste às correntes de agua canibalizadas, — tornara-se um foco de emanações pútridas, de miasmas fétidos, de perigosa vizinhança. O Caneiro de Alcântara foi afamado como uma das coisas mais dignas de lástima e mais repugnantes da capital que o teve por muito tempo por limite naquele ponto.
É um dos importantes benefícios que se deve ao progresso, a eliminação daquele foco infeccionante.
A prolongação da linha férrea de Cascais até ao Cais do Sodré e o estabelecimento da linha de Cintura, que liga a Estação de Alcântara com a do Norte, realizaram esta obra meritória. O velho Caneiro foi coberto em longa extensão, desaparecendo a antiga ponte.

O sítio da Ponte de Alcântara [1941]
O seu local era na junção das actuais Ruas de Alcântara  — donde é tomada a foto — e do Prior do Crato, D. António, na direcção dos carris da viação eléctrica, e perpendicularmente à linha férrea que vai da estação de Alcântara-Terra para a de Alcântara-Mar pelo leito da Rua de João de Oliveira Miguens. As cancelas da passagem de nível do caminho de ferro marcam aproximadamente o vão do arco central do ponte, e a linha da frontaria do Mercado de Alcântara e os topos fronteiros dos muros divisórios do terreno  do leito da linha férrea marcam a largura da ponte.
Eduardo Portugal, in AML

Na ponte [...] esteve uma estátua colossal de S. João Nepomuceno. primoroso trabalho de escultura feito pelo insigne escultor João António de Pádua, e colocada em 1743. No pedestal mandaram os moradores do bairro pôr uma inscrição que dizia: — A S. João Nepomuceno, novo taumaturgo do mundo, dominador da terra, do fogo, da agua e do ar, e sobretudo aplacador dos mares, um seu devoto, reconhecido para com o seu protector, ergueu estátua, no ano de 1743, depois de salvo.
O artista que tez esta estátua notabilizou-se em vários trabalhos de mérito superior, como os celebres púlpitos da igreja do Colégio de Santo Antão de Lisboa, o trabalho esculturado da capela-mor da igreja de S. Domingos, as imagens da capela-mor da Sé de Évora, etc. Pedro António Luques, hábil artista cinzelador, cooperou brilhantemente em todos os principais trabalhos de Pádua.

Ponte de Alcântara em 1862
Vê-se a estátua de S. João Nepomuceno com o seu gradeamento
(que consta era em bronze) erigida em 1743 e apeada c. de 1887, e á direita o começo da estrada e do muro de circunvalação construidos em 1845.
Gravura por Nogueira da Silva, in Archlvo Pittoresco

Esquecia-nos dizer que a estátua de S. João Nepomuceno foi arrancada de cima da ponte e mudada para o Museu do Carmo [onde se encontra na ala do cruzeiro, do lado da Epístola]. Ouvimos que a operação foi feita com tanta delicadeza que a estátua ficou truncada.
As dimensões desta obra monumental que se conserva. são: Plinto: 1,17m x 1,5m de frente, e 2,65m de altura; estátua com a sua base: 3,35m de altura; altura total: 6,0m.

Ponte de Alcântara
Portrait du site et ordre  de La bataille donnée entre le sr. don Antonio nommé Roy de Portugal et Le duc Dalba Lieutenant et capp.ⁿ général du Roy cath. Dom Philippe II devant Lisbonne par mer et par terre en un mesme jour le 25 d'aout 1580.
Desenho que representa a  batalha travada em 1580 nas vizinhanças da ponte de Alcântara, entre as tropas do pretendente D .  António e as do Duque de Alba. Vê-se ao centro (assinalada com um circulo) a ponte representada de cantaria com o  tabuleiro horizontal,  e com três arcos de volta Inteira; .ao meio está levantada uma barricada.
Desenho, in BNF

N.B. Com os elementos de que dispomos — diz o eng.º A.Vieira da Silva — , devemos presumir que a ponte era construída de cantaria, e teve de origem três vãos de arcos, sendo o central de volta inteira; que o oriental, por desnecessário, foi entaipado talvez no século XVII; e que o  ociental  foi vedado nos meados do século XIX. 
No arquivo do extinto Ministério das Obras Públicas existiam os desenhos de um projecto de regularização da ribeira e alargamento da ponte, em que esta e as suas circunvizinhanças estavam representadas. A planta destes projectos deve ser do 3.º quartel do século XVIII (1759 a 1769), em que o 1.º ministro de D. José era conde de Oeiras), e mostra um arco grande, e um mais pequeno perto do extremo ocidental da ponte. Parece dever Inferir-se que no 3.º quartel do século XVIII a ponte só conservava dois arcos dos três mencionados, ou que então possuía os. três, mas estando o oriental já tapado ou inutilizado.
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Bibliografia
VIDAL, Angelina, Lisboa antiga e Lisboa moderna: elementos históricos da sua evolução, 1900.
Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa»,  A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças: notícia histórica, por A. Vieira da Silva, 1942.

5 comments:

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  2. Segundo creio, os 2 marcos que estavam colocados nas entradas da ponte estão agora no Museu de Lisboa, no pátio carral do Palácio Pimenta.
    Cumprimentos

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  3. Passo horas a ler as suas publicações. Tenho por costume dizer que sou uma filha de Alcântara. Fui gerada e criada nesse bairro. Até aos 4 anos na Rua Rodrigues Faria e até aos 22 na Rua do Arco a Alcântara de onde sai há 40 anos. Desconhecia por completo a referência a al-cantara, ou a ponte que ali existiu. Muitos parabéns pelo seu trabalho.

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    1. Boa tarde Flor....Rua do Arco 🤔. Nasci na rua do Arco, morei até aos 8a mudei para st.amaro. Mais tarde voltei a morar na rua do Arco novamente em frt á casa onde nasci. Alcântara até hoje vive em mim e estou sempre perto. Sendo filho do bairro, lembrare-ei certamente de si ou familia como quarentão que sou 🙂.

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