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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Rua Gil Vicente: Inauguração da luz eléctrica

A Rua Gil Vicente nasceu na Rua n.º 9 do Casal do Rolão em finais do séc. XIX (1892), com o processo de urbanização desta zona no triângulo formado pela Calçada de Santo Amaro, Calçada da Tapada e Rua Luís de Camões, na freguesia de Alcântara, tendo os topónimos sido atribuídos por deliberação camarária de 8 de Julho de 1892 e todos com ligação a figuras da cultura e literatura portuguesas. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Rua Gil Vicente, 5 (N→S) |1922-07-10|
Antiga Rua nº 9 do Bairro do Casal do Rolão.
Vista tomada do lado da Calçada de Santo Amaro.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. O topónimo homenageia Gil Vicente (1465? -1537?) é geralmente considerado o primeiro grande dramaturgo português, além de poeta de renome. Há quem o identifique como o ourives, autor da Custódia de Belém, mestre da balança, e com o mestre de Retórica do rei Dom Manuel. Enquanto homem de teatro, parece ter também desempenhado as tarefas de músico, ator e encenador. É frequentemente considerado, de uma forma geral, o pai do teatro português, ou mesmo do teatro ibérico já que também escreveu em castelhano, partilhando a paternidade da dramaturgia espanhola com Juan del Encina. 
 Gil Vicente escreveu um total de 44 peças, sendo 11 em castelhano, 16 em português e 17 em ambas as línguas, muitas delas criadas para celebrações da corte. Entre sua vasta obra, destacam-se o "Auto da Sibila Cassandra" (1513), que marca o início do Renascimento em Portugal, "A Farsa de Inês Pereira" (1523), considerada a primeira comédia regular portuguesa, e a trilogia das barcas: *Barca do Inferno" (1516), "Barca do Purgatório" (1518) e "Barca da Glória" (1519).
Morreu em lugar desconhecido, talvez em 1537? sendo que, a partir dessa data deixa-se de encontrar qualquer referência ao seu nome nos documentos da época. ▘

Rua Gil Vicente, 1 |1922-08-22|
Inauguração da luz eléctrica
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 19 de julho de 2026

Campos de Futebol de Antanho: Campo da Feiteira

A primeira grande surpresa de Afonso, ao chegar ao campo [da Feiteira] e ao ver as equipas no aquecimento, foi a de que nada parecia ter mudado. O Sport Lisboa e Benfica alinhava com o antigo equipamento do Grupo Sport Lisboa, camisolas vermelhas e calções brancos, e o próprio emblema da águia se mantinha ao peito, acrescentando-se-lhe agora uma roda de bicicleta, o símbolo do Bemfica. [SANTOS, 2004]

Campo da Feiteira |c. 1909|
Inaugurado em 1907, tinha capacidade para 8 mil espectadores, e o campo media 120 metros por 79.
Quinta da Feiteira junto à Estr. de Benfica, e nela: Chalet Ribeiro, Villa Ana (1890) e igr. de Benfica.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O major Faria Leal, antigo dirigente do Sport Benfica (fund. 1906), revelaria mais tarde: «O futebol tomou logo de princípio enorme incremento e adquiriu-se, por arrendamento, na Quinta da Feiteira”, de que era proprietário o brasileiro comendador César José de Figueiredo, um campo. Este campo, hoje ocupado pelo grande bairro fronteiro à igreja de Benfica, e que foi arrendado por uma ridicularia, fora um extenso faval sulcado de regos, que foi convenientemente trabalhado à enxada pelos próprios sócios, para que pudesse ser adaptado ao jogo. O facto de sermos o primeiro clube que possuía campo próprio atraiu à nossa convivência os jogadores de outros clubes, principalmente os do Sport Lisboa (fund. 1904) que como todos eles, se treinavam e jogavam nos areais de Alcântara e Belém, ou no Largo da Luz. Desta convivência resultou, mais tarde, a união Sport Lisboa e Benfica (1908), que subsistiu até hoje.» [Dias: 2000]

Campo da Feiteira |entre 1907 e 1910|
O terreno na Quinta da Feiteira foi oficialmente adquirido pelo clube em 26 de Maio de 1907, e o campo foi inaugurado em 14 de Julho do mesmo ano.
Quinta da Feiteira junto à Estr. de Benfica vendo-se o Chalet Ribeiro e a Villa Ana. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Foi no seio de um grupo de antigos alunos da Real Casa Pia que surgiu a ideia de fundar um clube, o Grupo Sport Lisboa. Em 1904,  realizou-se uma reunião histórica nas instalações da Farmácia Franco, sita na velhinha Rua Direita de Belém.  Nela estiveram presentes dezoito elementos, entre eles, Cosme Damião, que contava apenas dezoito anos e era jogador da equipa, assumindo mais tarde o posto de capitão do grupo e um jogador importantíssimo, vindo a ser, no entanto, como dirigente que mais se destacou, mesmo nunca chegando a presidente. [C.F. Casa: 2013]

Campo da Feiteira |1910-01-23|
Equipa do Sport Lisboa e Benfica, no campo da Feiteira. Cosme Damião é o capitão da equipa (com a bola). Jogo entre o Sport Lisboa e Benfica e o Clube de Carcavelos arbitrado por Eduardo Pinto Basto.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 19 de abril de 2026

O Sítio de Alcântara

Dizer Alcântara na toponímia lisboeta é, só por si, compor um quadro de movimento e de febril agitação bairrista — recorda Norberto de Araújo, o grande enamorado de Lisboa. Alcântara foi um lugar, um sítio; é um bairro, uma zona com individualidade e consciência. Tudo gira em Alcântara: fábricas, oficinas, linhas, ruas — vidas.
O que em Alfama é estático é, em Alcântara dinâmico. Este bairro tem azougue.
O seu pitoresco é de cosmograma. Não existe neste rincão da Cidade nada de contemplativo. Apenas nas Necessidades, com seu jardim, com seu obelisco, com o seu palácio e na sua tapada — mora o repouso. Persiste ali um pedaço de beleza e gracilidade de miradouro. É a mancha aristocrática e requintada do bairro. 

Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Antigo Largo de Alcântara 
À dir. destaca-se o prédio setecentista — pombalino e altaneiro — referido mais à frente por Norberto Araújo,   
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Remodelação da Rotunda de Alcântara, devido à construção do acesso à ponte sobre o Rio Tejo; à dir. observa-se o antigo Eden Cinema. 
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. Do tempo velho ficaram e falam deliciosas legendas: Baluarte, Trabuqueta, o Arco, as Fontainhas, a Triste-Feia; a Horta Navia — saudade de Alcântara quinhentista, o Fiúza — reminiscência de Alcântara palaciana, o Sacramento — evocação de Alcântara conventual.
Foram-se os marinheiros rude golpe no coração do bairro! — ; ficou a Praça da Armada com seu Neptuno de tridente no Chafariz. O risonho vale de Alcântara vai-se sumindo, mas nas lombas do Alvito e da Cruz das Oliveiras demora-se a expressão popular campesina que ficou do rústico antigo.
O prédio setecentista cor-de-rosa da quina poente-sul do Largo — pombalino e altaneiro — é com a sua famosa adega do «Sete-e-Sete» — o padrão bairrista de Alcântara [vd. 1.º imagem à dir.]: cinco gerações o contemplaram — sequiosas.
Pequeno mundo alfacinha, vizinho do Calvário, da Pampulha, da Avenida da India — desentranha-se em vida. É o pregão cantante do trabalho. Contido entre a Serra e Tejo, possui a índole atávica de um poeta, a alma rude, nostálgica de um mareante.==

Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Vista tomada da R. da Quinta do Jacinto — onde brincam os ganapos. Ao fundo nota-se o pináculo da torre sineira do Palácio das Necessidades.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Rua de Alcântara (esq-) e acesso à ponte sobre o Rio Tejo.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

N.B. A edilidade lisboeta, através  edital de 18/08/1966, presta homenagem ao General Domingos de Oliveira atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]
Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira (1873–1957) foi presidente do Conselho de Ministros em 1920, ministro interino da Justiça, membro vitalício do Conselho de Estado (1949) e oficial-general do Exército. A sua carreira reúne inúmeros louvores e condecorações, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis e a da Ordem Militar da Torre e Espada.

Fotografia aérea da zona industrial de Alcântara |1950-04|
Caminho de ferro; Palácio das Necessidades; Estação de Alcântara-Terra e Mercado de Alcântara; Vale de Alcântara...
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 142-143, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Avenida 24 de Julho: o «Aterro»

O Aterro da Boa Vista iniciou-se em 1855 e foi uma das maiores obras públicas portuguesas desse século. Consistiu na ligação do Cais do Sodré a Alcântara através da Av. 24 de Julho, conquistando, para isso, terrenos ao rio. A zona era uma enseada de atracação de embarcações delimitada por um caminho à beira-rio, onde é actualmente a Rua da Boavista.

Avenida 24 de Julho |c. 1900|
Carro de bois na zona do Aterro da Boa Vista — na zona da Ribeira Nova — carregando carvão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Situava-se o Aterro, que corresponde à actual Avenida 24 de Julho, perto do Ramalhete dos Maias de Eça de Queiros, Aterro porque era a parte aterrada do rio Tejo por volta de 1858. Foi aqui que Carlos da Maia salvou de um garrotilho a ilha de um brasileiro, ganhando «a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um homem da sua família».

Avenida 24 de Julho |c. 192-|
Greve dos carroceiro junto a Santos.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Jardim de São Pedro de Alcântara: tabuleiro inferior

Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. [...] Cobardemente, por inércia, enervada pela voz pomposa do conselheiro, Luísa foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim.
(QUEIROZ Eça de, O Primo Basílio, 1878)

O tabuleiro inferior foi ajardinado à francesa, com os arbustos e canteiros de flores desenhados geometricamente, da mesma forma foi erguido um tanque de repuxo de pequenas dimensões e outro em cascata imbuído na muralha. Nas bordas dos passeios de areia, assentes em altos plintos, podemos observar bustos de deuses e heróis da mitologia greco-romana, como também figuras históricas dos nossos anos de descobridores. [...] O tabuleiro inferior acabou por ser fechado ao público, proibindo-se o acesso sob a vigilância de um guarda municipal. Tal ficou a dever-se ao facto de muitos utilizarem aquele espaço para pôr termo à vida, lançando-se do tabuleiro inferior e caindo na Rua das Taipas. O número destas ocorrências aumentou significativamente com o fecho do Aqueduto das Águas Livres, curiosamente devido às mesmas razões. Em 1864 foi colocada uma grade, exigida desde 1852. [paleolisboa.com]

Jardim de São Pedro de Alcântara/Jardim António Nobre |1949|
Rua de São Pedro de Alcântara 
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Esta esplanada, com a sua legião de bustos brancos orlando as aleias e os canteiros, é um dos mais belos miradoiros de Lisboa.
O passeio de S. Pedro de Alcântara, levantado sobre a muralha, de que em outros artigos já falámos, é, deslumbrante pelo panorama que descobre. O jardim, que fica subposto, tem muitos e viçosos canteiros, copada vegetação, uma cascata, e está adornado com bustos de romanos [e portugueses] célebres. (Portugal antigo e moderno, 1874)

N.B. O Jardim de São Pedro de Alcântara foi construído em Oitocentos sobre os restos de muralhas levantadas durante as obras das Águas Livres. O nome deste espaço de lazer deriva do Convento de Frades Arrábidos situado nas proximidades do jardim. [...]

Jardim de São Pedro de Alcântara/Jardim António Nobre |entre 1918 e 1922|
Rua de São Pedro de Alcântara 
João José Penha, in Lisboa de Antigamente

domingo, 12 de outubro de 2025

Aqueduto das Águas Livres: a «incrível magestade os seus enfileirados trinta e cinco arcos»

A grandiosidade do Aqueduto das Águas Livres deslumbrou os viajantes que demandaram Lisboa. Mesmo os menos pródigos em encómios aos marcos monumentais da cidade reconheceram os seus atributos estéticos e funcionais: 
No vale de Alcântara, a curta distância de Lisboa, tive ocasião de ver o famoso aqueduto que ligava duas colinas [...] Era todo de mármore branco e não ficava a dever nada aos mais magnificentes aquedutos que nos deixaram os antigos, quer em utilidade e grandeza, quer em elegância. [Gorani, 1765, p. 100]

 

Aqueduto das Águas Livres |1946|
A extraordinária arcaria do vale de Alcântara, numa extensão de 941m, é composta por 35 arcos, incluindo, entre estes, o maior arco de pedra em vão do mundo, com 65,29 m de altura e 28,86 m de largura.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Não existe em Lisboa nenhum edifício que se imponha pela vastidão e majestade ou mesmo pelo seu conjunto [...] O único edifício público que merece ser visto está fora de Lisboa — é um soberbo aqueducto, destinado a abastecer de água esta cidade [...]: nele se conjugam a magnificência com a beleza, o ousio à solidez da construção. [Carrere, 1796, pp. 29-30]
É impossível comunicar aos outros o sentimento de admiração que se apossou de nós logo à primeira vista, porque a imaginação não pode elevar-se a uma concepção tão sublime como aquela que a realidade apresenta. [Ruders, 1798-1802, p. 48]

Aqueduto das Águas Livres |190-|
Quinta da Rabicha
Construído entre 1731-1748, contou desde o início com o apoio de. D. João V. Na direcção das suas obras trabalharam. o Coronel Engenheiro Manuel da Maia, Custódio Vieira e o romano António Canevari, arquitecto italiano, e João Frederico Ludovice.

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Aqueduto das Águas Livres |1900|
O Aqueduto das Águas Livres «n'uma  recta quebrada» foi «a grande obra de engenharia do reinado joanino» que partiu de uma iniciativa do procurador da cidade, Claudio Gorgel do Amaral, em 1728. Com um grande declive, a vista é particularmente dominada pela imponente conduta de água que, com trinta e cinco arcos, se estende sobre o vale fundo. Árvores altas e casas de quatro andares parecem ficar como a seus pés.
Cunha Moraes, in Lisboa de Antigamente

O Aqueduto das Águas Livres, no seu troço mais monumental, sobre o vale de Alcântara, é atravessado por várias estruturas viárias (ramais ferroviários de Alcântara e da ponte 25 de Abril, avenidas de Ceuta e Calouste Gulbenkian, Eixo Viário Norte/Sul, entre outras). O Monumento, propriamente dito, sobre a Ribeira de Alcântara, começado a construir-se em 1739, na extensão de 941 metros, e nele, a assinalar: 35 arcos, dos quais: 18, de volta inteira, do lado de Lisboa; 14 (os do centro) de perfil ogival, com robustos pegões, o maior dos quais — «Arco Grande» — mede 65,29m de altura e 28,86m de boca (largura); e 3, de volta inteira.
Chamei de ominosa memoria ao arco grande; todos me entendem — diz Júlio de Castilho; foi o alto d'aquella ogiva, o theatro lugubre das façanhas de Diogo Alves, o assassino. O ecco d'essa aboboda, que repete varias vezes cada palavra , ainda se lembrará talvez dos ais angustiosos das victimas arrojadas lá de cima, e volteando no ar até se espalmarem no lagedo natural do chão. 
(Júlio de Castilho (1840-1919) . «Aqueducto das Aguas Livres, 26 de Outubro de 1901)

Aqueduto das Águas Livres, Arco Grande |c. 1912|
Calçada da Estação e linha férrea Lisboa-Sintra, inaugurada em 1887, chegou a Campolide em 1895.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

domingo, 7 de setembro de 2025

Edifício da Ford Lusitana

A sede da “Ford Lusitana, SARL”, fundada em 11 de Janeiro de 1932, situava-se na Rua Castilho em Lisboa, e foi projectada pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro em 1930. Foi demolido em 1974.

O edifício-sede da Ford Lusitana, situava-se no gaveto da Rua Castilho com a Rua Marquês de Subserra, no quarteirão seguinte aquele onde mais tarde o autor viria a projectar o Hotel Ritz.
Para além de escritórios, oficinas e venda de peças o edifício que se destinava a «expor e vender Automóveis, camiões e tractores, também exibia e vendia aviões».
O edifício adopta uma arquitectura de grande horizontalidade ao longo das duas ruas, sendo essa característica acentuada no 1º andar coberto por um terraço.

Edifício da Ford Lusitana, filial da Ford Motor Company U.S.A. |1937|
Rua Castilho, 149 com a Rua Marquês de Subserra, 2
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No gaveto, fazendo charneira entre os volumes ao longo das ruas surge um grande corpo cilíndrico de vidro, luminoso onde a marca se destaca dia e noite [vd. última imagem].Este volume redondo, para além de uma forte componente publicitária que, com êxito imprimiu ao edifício, marca a entrada principal para clientes no edifício. Na altura da sua construção o edifício tinha grande exposição, sendo visível desde a Praça Marquês de Pombal, dominando o lago então existente no atualmente denominado Parque Eduardo VII.

Edifício da Ford Lusitana |c. 1940|
O Parque Eduardo VII foi ajardinado em 1929; a esq., sobe a Rua Joaquim António de Aguiar.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Vista aérea sobre o Parque Eduardo VII |c. 1950|
Ao centro observa-se o edifício-sede da Ford Lusitana e, à esq. deste, os terrenos do futuro Hotel Ritz (1959). Atrás nota-se o Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho.
Mário de Oliveira, in Lisboa de Antigamente

Concebido para ter grande presença na noite de Lisboa, apresentava rasgados vãos ao nível do R/C onde os modelos da marca se podiam facilmente observar por quem passava nas zonas circundantes.
Neste projecto o arquitecto escolhe as peças e desenha mesmo algum mobiliário, o que permite a concepção da obra como um todo.
(PACHECO, Ana Assis - Ob. cit., 1998)

Edifício da Ford Lusitana |c. 1940|
Gaveto da Rua Castilho, 149 com a Rua Marquês de Subserra, 2
Fachada com corpo cilíndrico de vidro, luminoso onde a marca se destaca dia e noite-
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957) foi um dos mais importantes arquitectos da primeira metade do Século XX em Portugal e principal responsável pela viragem modernista da arquitectura portuguesa. O legado do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro conta com obras como as Gares Marítimas de Alcântara (1943) e da Rocha do Conde de Óbidos (1948), a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (Prémio Valmor 1938), o edifício do Diário de Notícias (anos 1930, premiado em 1940), entre muitas outras.

domingo, 31 de agosto de 2025

Profissões de antanho: o ardina

— Olh'ó Notícias, o Diá... Notícias!
— Olh'ó Século, saiu agora!
A profissão de vendedor de jornais — o ardina — começou a bem dizer, com a publicação do Diário de Notícias, a partir de 1 de Janeiro de 1865, uma vez que, anteriormente, não havia jornais diários à venda pelas ruas de Lisboa, pois apenas era permitida a venda de papéis noticiosos, realizada por cegos, conhecidos pelos «cegos—papelistas» que constituíam uma Irmandade, criada pelo Marquês de Pombal, como protecção aos invisuais, para que não andassem mendigando pelas ruas de Lisboa.
Daí que, ao surgirem os ardinas apregoando o Diário de Notícias, logo se levantasse certa resistência, tanto por parte dos invisuais como duma mendicidade lucrativa que enxameava Lisboa e via sem razão nos rapazes dos jornais certa concorrência.

Profissões de antanho: o ardina |1913|
Praça do Comércio vulgo Terreiro do Paço.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A verdade é que apenas trinta rapazes iniciaram a venda do Diário de Notícias, embora, três meses passados, mais de cem se ocupassem da venda do jornal, donde auferiam diariamente entre 200 a 400 réis! E de tal forma o negócio se foi valorizando que, a dada altura, um deles, que havia adquirido posse de local de venda, o passou temporariamente a outro por cem mil réis, e para o readquirir teve de lhe pagar o dobro!
Em 1887 já os vendedores de jornais tinham associação de classe, para socorro mútuo e instrução, o que lhes deve ter proporcionado boas vantagens, uma vez que se tratava de rapazes tirados à vadiagem das ruas, rapidamente adquirindo personalidade e confiança no trato do negócio, a tal ponto que chegaram a levantar os jornais a crédito, quando em dificuldades. E assim muitos foram vencendo na vida, sendo mais tarde comerciantes e industriais.

Profissões de antanho: o ardina |1926-03-01|
Grupo de vendedores de 'O Século' à porta deste jornal na antiga Rua Formosa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
Provindo, quase todos, da classe ovarina, que há muito assentara arraiais nos bairros da Madragoa e da Esperança, o ardina era esperto e trabalhador na profissão que lhe dava liberdade para galgar Lisboa de lés a lés, na ânsia de levar o jornal ao fim da cidade, contanto que chegasse primeiro que todos! Garoto da rua, mal liberto das saias da mãe — a varina — , o ardina, com a venda dos jornais, levaria para casa uma ajuda valiosa aos parcos rendimentos da família. [Dinís: 1986]

Monumento a Eduardo Coelho |post. 1904|
Ao centro destaca-se a imagem de um garoto a apregoar jornais, o popular «ardina». Quiosque do  Jardim Miradouro de São Pedro de Alcântara. 

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

domingo, 29 de junho de 2025

Calçadinha da Figueira

Figueira (calçadinha da) segunda á esquerda na calçadinha de S. Miguel, indo do largo de S. Miguel e finda na rua d'Adiça [actual Rua Norberto de Araújo desde 1956], freguezia de S. Miguel 2 a 12 e 1 a 27. [Velloso: 1869]

Esta Calçadinha da Figueira, cheia de escadas — recorda Norberto de Araújo — , leva a um curto enquadramento, que não chega a Largo, e no qual começa a Rua, bairrista como poucas, do Castelo Picão. Ali tens à direita, n.º 19 da Calçada da Figueira ainda, uma Clérigos Pobres lápide, que diz «Clérigos Pobres»,
Este pormenor despercebido a tanta gente, leva-me a crer que a Casa dos Arcos houvesse sido uma estância dos Clérigos Pobres, talvez dos que tiveram hospício em S. Pedro de Alcântara. O quintal da Casa citada não fica a vinte passos do prèdiozito da lápide. Mais duas casitas típicas alfamenses à direita, e eis-nos em pleno Castelo Picão.

Calçadinha da Figueira |1945|
O nome remete para a existência de figueira(s) no local.
Fernando Martinez Pozal,  in Lisboa de Antigamente

A Calçadinha da Figueira, identificada como Calçada da Figueira, consta do levantamento dos arruamentos da cidade datado de 1858, conduzido por Filipe Folque.

Calçadinha da Figueira |c. 1960|
Perspectiva tirada da Rua Norberto de Araújo.
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

domingo, 20 de abril de 2025

Cemitério dos Prazeres que foi «Cemiterio Occidental de Lisboa»

No lugar onde hoje existe este cemitério, foi a antiga casa de saúde (lazareto) que se estabeleceu nas terras da Quinta dos Prazeres em 1599, no ano chamado da peste grande. Havia aqui uma fonte, sobre a qual apareceu uma imagem da Virgem (pelo que se chamou Fonte Santa, e á imagem Nossa Senhora dos Prazeres).
Fez-se-lhe uma ermida dentro do cemitério [em 1860 foi substituída por uma capela].
Os paroquianos de Santos prometeram uma procissão annual a Nossa Senhora se desaparecesse o flagelo da peste; e como foram ouvidos, têm até hoje cumprido o seu voto. [vd, Feira das Amoreiras]


Temos à vista o Cemitério dos Prazeres — observa Norberto de Araújo. Os cemitérios, em algumas cidades da Europa, são verdadeiros campos santos de arte, ou parques floridos; neles em verdade não se sente a morte, mas a vida, até pelos horizontes que deles se desfruta. O Cemitério dos Prazeres, já limitado, é, com efeito, um recinto fechado onde se topa alguma cousa de arte, que não é apenas a dos canteiros lavrantes, mas que não consente atribuir-se ao Cemitério a classificação de recinto de Museu.

 

Cemitério dos Prazeres que foi «Cemiterio Occidental de Lisboa» |1939|
Perpectiva tomada do Largo de Alcântara (Ruas. Maria Pia e Prior do Crato).
Os primeiros enterramentos socorreram em 1590 junto à primitiva ermida dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, resultantes de uma epidemia de peste.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Este Cemitério, construído, como te disse, em 1833, embora só organizado formalmente em 1835, é contemporâneo do do Alto de S. João. Tem 82 ruas que preenchem 1.100 hectares. 
O portão da entrada foi traça do arquitecto Domingos Parente da Silva.

Cemitério dos Prazeres que foi «Cemiterio Occidental de Lisboa» |séc. XIX|
 Entrada vista da Praça São João Bosco.
O pórtico monumental, em estilo neo-clássico, com colunas que sustentam frontões triangulares de mármore e portões de ferro fundido é da autoria de Domingos Parente [da Silva].
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Cemitério dos Prazeres que foi «Cemiterio Occidental de Lisboa» |c. 1900|
 Entrada vista da Alameda Central — que se estende até à capela do lugar — para Praça São João Bosco. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Entre os monumentos funerários cumpre-me apontar-te o de Oliveira Martins arquitectura de José Teixeira Lopes, no qual se admira a formosa figura «A História», do escultor António Teixeira Lopes; merecem-nos também referência o jazigo dos Bombeiros Municipais, por Simões de Almeida, tio, o dos Duques de Palmela, por Cinatt, com escultura de Calmels, o do Conde das Antas, também de Cinatti, o do Marquês de Valflor, o de Carvalho Monteiro, o de Guilherme Cossoul, além de muitos outros mausoléus destacados, ou simples colunas funerárias, que quebram a monotonia das alamedas .

Cemitério dos Prazeres que foi «Cemiterio Occidental de Lisboa» |195-|
Mausoléu dos marqueses de Valle Flor, no cemitério dos Prazeres.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Cemitério dos Prazeres que foi «Cemiterio Occidental de Lisboa»
Jazigo de Oliveira Martins «A História» c. 1910; Mausoléu da família Carvalho Monteiro, 195-: Jazigo do Batalhão de Sapadores Bombeiros, 19--.  
in Lisboa de Antigamente

A Quinta dos Prazeres foi mais tarde dividida — recorda o ilustre Norberto de Araújo — e na parte que pertencia ao Conde de Lumiares, descendente dos Condes da Ilha, e que incluía a ermida e uma casa nobre, é que se construiu o Cemitério.
Eis-nos diante da «Taberna do João da Ermida». É o resto material da Ermida da Quinta dos Prazeres, que, quando se construiu o Cemitério, algum tempo serviu, ou se destinou para servir, a actos fúnebres. (A Capela do Cemitério data de 1869).

Cemitério dos Prazeres que foi «Cemiterio Occidental de Lisboa» |1866|
 Perpectiva tomada da Praça do Príncipe Real.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
PINHO LEAL, (Augusto) Portugal Antigo e Moderno, vol. 4,p- 200, 1874.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. XI, p. 60, 1939.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Lojas de Antanho: F. H. D' Oliveira & C.ª (fund. 1895)

Por delib. da Câmara de 09/09/1878 e edital de 13 do mesmo mês e ano, foi dada a denominação de Rua 24 de Julho à parte do aterro ocidental construída no prolongamento daquela Rua, que começando na praça de D. Luís terminava no caneiro de Alcântara.

«F. H. D' Oliveira & C.ª (Irmão)» Casa fundada em 1895, loja de madeiras e materiais de construção e cantaria.
Madeiras nacionaes e eetrangeiros. Cantarias lagedoe e cascõcs. Fábticas de cal, ladrilhos. mosaicos, polvora e exploração de pedreiras no AIvito - Aleantara e Paço d'Arcos. Exportação para Africa,Bratzil eIlhas.  Escrpitório, Rua Vinte e Quatro de Julho,. 632.

Lojas de Antanho: F. H. D' Oliveira & C.ª  fund. 1895  |c. 1909|
Antiga Rua Vinte e Quatro de Julho, 630-632, a
ctualmente Avenida 24 de Julho, 150-152.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Em 2 de Janeiro de 1931 muda de ramo de negócio com a inauguração de um novo stand como representante dos automóveis "De Soto" e camiões "Fargo".

Avenida 24 de Julho |1965|
Enquadramento do edifico n.º 150-152 junto ao cruzamento com a Av. Infante Santo; "Hotel Residencial Infante Santo" inaugurado em 1957, propriedade da firma F. H. D' Oliveira.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

domingo, 2 de março de 2025

Do Passeio à Avenida

Decidiu casar. Conheceu Luísa, no verão, à noite, no Passeio, apaixonando-se pelos seus cabelos louros, pela sua maneira de andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No inverno seguinte foi despachado e casou. (Eça de Queiroz, ln O Primo Basílio, 1878)

 
Demolido o Passeio Público em 1886 para dar lugar à abertura da Avenida da Liberdade, esta foi durante algum tempo o espaço de passeio da pequena burguesia lisboeta e da “gente operária endomingada". 

Em 1910, André Brun descreve desdenhosamente a frequência da Avenida nestes termos: “Ao domingo a Avenida é a montra de um bazar de quinquilharias baratas. Todo o alfacinha de meia-tigela que não tem vintém para ir aos divertimentos caros que a cidade oferece {...] aflui à Avenida”. Uns vão para o pavilhão da música, outros para o quiosque dos refrescos. Quem tem “um vintenzinho para a cadeira fica de um lado; a pelintragem bravia, do outro. Quando acaba o fungagá, a gente das cadeiras desce a Avenida com toda a coragem. A outra, que está de pé em volta do coreto, se a desce é pelas ruas laterais. Pelo meio não se atreve. Imaginem: gente operária endomingada, muita soldadesca que vem atrás da banda, caixeirada de meia tigela...". Apenas num talhão correspondente ao Teatro Avenida se pode encontrar alguém do “Carnet Mondain - registo azul” (Brun, 1999, p. 66-73). Se a pequena e média burguesia — homens e mulheres — passeava na Avenida, os trabalhadores e operários dos bairros populares optavam pelas hortas, como acima se referiu, ficavam em casa, ou iam aos espectáculos populares como a tourada, mas sozinhos, sem as mulheres. 

Avenida da Liberdade (N-S )em terra batida |1905|
João Ribeiro Cristino da Silva, litografia colorida,
Suplemento ao o° 488 da Mala da Europa Museu de Lisboa, in Lisboa de Antigamente

Ramalho Ortigão retratou assim essa diferença no uso da cidade e dos seus diverti mentos entre os grupos sociais: “Ide à Baixa ao domingo à tarde. Encontrareis os prédios fechados e desertos: as mulheres dos lojistas foram passear com os maridos. Ide aos bairros de Alcântara ou à Mouraria nos mesmos dias: todas as mulheres estão nas suas pequenas casas, às janelas ou às portas, numa inação desconsolada e abatida. E não encontrareis um homem. Vede pelo contrário os divertimentos populares a trincheira do lado sol na praça de touros: não há uma mulher.” (Ortigão, 1992, p. 143-144). É também na segunda metade do século XIX, ainda que com raízes no século anterior, que um outro tipo de passeio associado à vida de café, aos teatros públicos e ao novo comércio de lojas se instala. Ia-se apanhar o fresco do entardecer ou da noite, e admiravam-se as fachadas, as luzes e o movimento dos cafés e teatros, as montras das lojas com as suas mercadorias (Lousada, 2004, p. 104-5).

 

Avenida da liberdade (S-N) |post. 1886|
Robert Kãmmere,, in Lisboa de Antigamente

N'um claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público pacato e frondoso —  um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço côr d'assucar na vibração fina da luz de Inverno: e os largos globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar. Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados prédios, lisos e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa «da uma», ouvindo a Banda, com casimiras e sêdas, no catitismo domingueiro.==
(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)

 

O Passeio Público de Lisboa (entrada S.) |c. 1843|
Com o início da construção em 1764, o Passeio foi traço do arq. Reinaldo Manuel e conheceu durante os seus cento e dezoito anos de vida duas épocas claramente distintas. até 1836, o Passeio era unicamente um bosque, ladeado de altos muros revestidos pela parte interior de buxo e de louro, com quinze janelas de grade de cada lado, que lhe davam o resguardo necessário e de tradição.
Litografia colorida de Legrand, (Lith. de M.el Luiz),, in Lisboa de Antigamente

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