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domingo, 19 de abril de 2026

O Sítio de Alcântara

Dizer Alcântara na toponímia lisboeta é, só por si, compor um quadro de movimento e de febril agitação bairrista — recorda Norberto de Araújo, o grande enamorado de Lisboa. Alcântara foi um lugar, um sítio; é um bairro, uma zona com individualidade e consciência. Tudo gira em Alcântara: fábricas, oficinas, linhas, ruas — vidas.
O que em Alfama é estático é, em Alcântara dinâmico. Este bairro tem azougue.
O seu pitoresco é de cosmograma. Não existe neste rincão da Cidade nada de contemplativo. Apenas nas Necessidades, com seu jardim, com seu obelisco, com o seu palácio e na sua tapada — mora o repouso. Persiste ali um pedaço de beleza e gracilidade de miradouro. É a mancha aristocrática e requintada do bairro. 

Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Antigo Largo de Alcântara 
À dir. destaca-se o prédio setecentista — pombalino e altaneiro — referido mais à frente por Norberto Araújo,   
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Remodelação da Rotunda de Alcântara, devido à construção do acesso à ponte sobre o Rio Tejo; à dir. observa-se o antigo Eden Cinema. 
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. Do tempo velho ficaram e falam deliciosas legendas: Baluarte, Trabuqueta, o Arco, as Fontainhas, a Triste-Feia; a Horta Navia — saudade de Alcântara quinhentista, o Fiúza — reminiscência de Alcântara palaciana, o Sacramento — evocação de Alcântara conventual.
Foram-se os marinheiros rude golpe no coração do bairro! — ; ficou a Praça da Armada com seu Neptuno de tridente no Chafariz. O risonho vale de Alcântara vai-se sumindo, mas nas lombas do Alvito e da Cruz das Oliveiras demora-se a expressão popular campesina que ficou do rústico antigo.
O prédio setecentista cor-de-rosa da quina poente-sul do Largo — pombalino e altaneiro — é com a sua famosa adega do «Sete-e-Sete» — o padrão bairrista de Alcântara [vd. 1.º imagem à dir.]: cinco gerações o contemplaram — sequiosas.
Pequeno mundo alfacinha, vizinho do Calvário, da Pampulha, da Avenida da India — desentranha-se em vida. É o pregão cantante do trabalho. Contido entre a Serra e Tejo, possui a índole atávica de um poeta, a alma rude, nostálgica de um mareante.==

Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Vista tomada da R. da Quinta do Jacinto — onde brincam os ganapos. Ao fundo nota-se o pináculo da torre sineira do Palácio das Necessidades.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Rua de Alcântara (esq-) e acesso à ponte sobre o Rio Tejo.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

N.B. A edilidade lisboeta, através  edital de 18/08/1966, presta homenagem ao General Domingos de Oliveira atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]
Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira (1873–1957) foi presidente do Conselho de Ministros em 1920, ministro interino da Justiça, membro vitalício do Conselho de Estado (1949) e oficial-general do Exército. A sua carreira reúne inúmeros louvores e condecorações, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis e a da Ordem Militar da Torre e Espada.

Fotografia aérea da zona industrial de Alcântara |1950-04|
Caminho de ferro; Palácio das Necessidades; Estação de Alcântara-Terra e Mercado de Alcântara; Vale de Alcântara...
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 142-143, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Alameda de S. Pedro de Alcântara

Nos séculos velhos — recorda Norberto de Araújo —  estes campos, muito em declive para os lados da Avenida [Liberdade] de hoje, de semeadura e de olival, altaneiros sobre o esteio do rio Valverde, depois feito charco até enxugar de todo. Já o Bairro Alto oferecia certa pompa urbanista incipiente com casas, alguns palácios, igrejas, conventos e ruelas alinhadas, ainda verdejantes sobre os restos da Quinta dos Andrades — e isto , S. Pedro de Alcântara, era um arrabalde contemplativo.
Na lomba, aos pés das Taipas de hoje, elevava-se casario, e estava desenhada a encosta da Glória, depois Calçada formalizada nos roteiros. Mas cá em cima, num plano irregular, circundada de chãos que eram de particulares, desagregados dos prazos pertencentes a Santa Maria (Sé) e a Santa Justa, o «cômoro», planície que olhava, como hoje, a Lisboa velha, não tinha foros de alameda.

S. Pedro de Alcântara no primeiro terço do sé. XIX [1821]
Neste desenho observa-se, à direita, a torre ou cúpula da Mãe de Água (1) e o Chafariz de S. Pedro (2) (hoje sito na Cç. da Glória),  distinguindo-se igualmente a igreja e o Convento de S. Pedro de Alcântara (3), e o Palácio do Marquês de Santa Iria (4), assim como a velha  muralha e parte do terreno do antigo sequeiro de S. Roque (parte do actual largo Trindade Coelho) . Na parte inferior, do lado esquerdo, notam-se algumas casas do Bairro da Glória.
Desenho por Luiz Gonzaga Pereira, in Lisboa de Antigamente

Realizavam-se por aqui passeios domingueiros, e fazia-se uma feira ou arraial que durou do começo de setecentos precisamente a 1812, ano em que foi proibida.
Do lado edificado, este à nossa direita, levantavam-se dois palácios, algumas casas, um hospício de Clérigos e um Convento de Arrábidos. Em 1732, a Câmara Municipal comprou estes terrenos, onde hoje está a Alameda, a um Fernão Pais, que os adquirira de André Dias, por tal sinal genro do navegador João da Nova. E comprou-os para aqui fazer uma grande «Mãe de Água» — variante das Águas Livres – destinada, por um aqueduto, a abastecer a Cidade Oriental, aqueduto que passaria sobre o vale, a futura Avenida. Construiu-se, e não foi imediatamente. (1752), a muralha sobre as Taipas, e fez-se obra de alvenaria neste local, com aquele bem intencionado propósito. Mas a ideia do aqueduto, aliás esboçado, não prosseguiu.
É esta a origem da Alameda de S. Pedro de Alcântara.

Alameda de  São Pedro de Alcântara [1909]
O gradeamento, que ainda hoje ali se encontra, veio do Palácio da Inquisição do Rossio, ou dos Estaus, actual Teatro D. Maria.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A água, contudo, foi trazida desde Campolide para S. Pedro de Alcântara, e em 1754 já existia um chafariz de cinco bicas, defronte, pouco mais ou menos do Recolhimento [de S. Pedro de Alcântara] hoje de pé, à esquina curva. Este chafariz foi passado, em 1833, para o começo da Rua das Taipas – espécie de meia circunvalação de S. Pedro de Alcântara – e mais tarde arrumou-se onde está hoje [c. 1880], no princípio da Calçada da Glória.
Isto passou a ser um monturo de pedregulhos e de imundícies, vala de despejo de animais mortos, a contrastar com a bonita e verdejante encosta que caía mais para o lado de S. Roque, sobre o fundo de Valverde, depois Passeio Público, justamente a Quinta do Marquês de Castelo Melhor.
Finalmente, nas primeiras décadas do século passado — há cem [180] anos — a Câmara começou a pensar a sério em S. Pedro de Alcântara.
Aí por 1830 estava instalado nos baixos do Palácio Ludovice, defronte da Calçada da Glória, um Quartel da Guarda Real da Polícia, e as cavalariças situavam-se aqui no recanto da Alameda, hoje tabuleiro superior, encostado ao pátio do actual Park Hotel [Rua D. Pedro V, 2 actual edifício da SCML], e a cair sobre as Taipas. Foram os oficiais que promoveram a arborização do local, que os seus soldados terraplanaram.
A Alameda de S. Pedro de Alcântara data de 1840.

Alameda de  São Pedro de Alcântara [1909]
Rua de S. Pedro de Alcântara e Rua das Taipas
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Do muito que haveria a dizer – isto basta a uma ideia rápida da evolução do sítio.
Fizeram-se dois terraplanos — o do Passeio, em cima , e o do jardim em baixo, sendo as grades colocadas em 1864, porque a muralha, com a altura de vinte metros sobre as Taipas era uma atracção dos suicidas (parte do gradeamento pertencera ao Palácio da Inquisição ao Rossio). O lago ou tanque da Alameda veio dos jardins do Paço da Bemposta. [...]
S. Pedro de Alcântara teve o seu período de moda. Era o «Passeio», a «Alameda», o «Jardim» de S. Pedro de Alcântara, com a sua ingenuidade alfacinha, e o seu traço espiritual de romantismo.

Fotografia aérea da zona do Bairro Alto e de  São Pedro de Alcântara [1950]
Igreja de São Roque; Rua de S. Pedro de Alcântara: Rua das Taipas
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 114-115, 1938. 

domingo, 31 de dezembro de 2017

De Alcântara-Terra a Alcântara-Mar

Sobre o sítio de Alcântara (que significa «a ponte») refere o olisipógrafo Norberto Araújo o seguinte:
Alcântara povoada de casas e gentes, em expressão rudimentar, não vai além de seiscentos, pois seria forçar a nota dar significado de «póvoa feita» a casario disperso entre quintas, a um ou outro aglomerado em certo lanço de caminho, ou às casas nobres esparsas que por aqui haveria, à sombra dos Conventos. Subúrbios foram sempre, ridentes, arejados, cortados de vales, bafejados pela brisa do mar. Campos e quintas havia-as per todo o lado, a poente, a norte, e a nascente da ponte sobre a ribeira, tão antiga, em várias configurações, como o próprio curso de água. [...]
Foi o Terramoto que contribuiu para a constituição bairrista de Alcântara, que só aparece paróquia autónoma e definida no final do século do grande sismo (1798).¹

De Alcântara-Terra a Alcântara-Mar  [1926]
Ao centro a remise da Estação de Alcântara-Terra
Na manhã de 26 de Dezembro de 1926, Lisboa acordava coberta de neve.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sobre a Estação do Caminho de Ferro erguida neste local, o mesmo autor adianta que Um dos grandes factores da animação e desenvolvimento de Alcântara foi a construção da Estação do Caminho de Ferro. Concluiu-se e inaugurou-se em 2 de Abril de 1887 com a linha Cacém-Torres Vedras, logo seguida no ano seguinte da linha Torres-Figueira Para a construção da Estação foi necessário cobrir-se o velho caneiro — e não foi esta uma das menores vantagens do empreendimento —, realizar um terrapleno e abrir o túnel principal, sob a Quinta dos Prazeres, e cuja extensão é de 540 metros.
À estação de Alcântara-Terra seguiu-se a de Alcântara-Mar, seu natural prolongamento, inaugurada em 10 de Agosto de 1891.²

De Alcântara-Terra a Alcântara-Mar  [1967]
Ao centro a remise da Estação de Alcântara-Terra  e, ao longe, a Ponte 25 de Abril e o Monumento a Cristo Rei.
Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 11-12, 1939.
² ibid. p. 25.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Antigo Mercado de Alcântara

O antigo Mercado de Alcântara ficava paredes meias com a estação do Caminho de Ferro de Alcântara-Terra que tinha sido inaugurada em 1887. Abriu ao público em 1 de Janeiro de 1905, numa área de 900 metros quadrados, com estrutura de ferro e alvenaria, flanqueado de quatro torreões, segundo risco do arq.º José Alexandre Soares.

Mercado de Alcântara |1938|
Praça General Domingos de Oliveira, antigo Largo de Alcântara e sítio da antiga Ponte de Alcântara
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Mercado de Alcântara, interior |c. 190-|
Rua Prior do Crato e Praça General Domingos de Oliveira, antigo Largo de Alcântara
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Aqui se manteve uma boa parte deste século XX, até que a necessidade dos acessos à ponte sobre o Rio Tejo veio contribuir para o seu desaparecimento cerca de 1950, altura em foi demolido. Hoje o espaço corresponde à actual Praça Gen. Domingos de Oliveira, vulgo rotunda de Alcântara.

Mercado de Alcântara |1940|
Perspectiva tirada da Rua de Alcantara sobre a Praça General Domingos de Oliveira, antigo Largo de Alcântara,  e Rua Prior do Crato (ao fundo)
A antiga Ponte de Alcântara tinha e direcção dos carris da linha dos carros eléctricos, e  o seu arco, normal aquela linha,  ficava por baixo da segunda carroça que se vê na foto.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Mercado de Alcântara |c. 190-|
Praça General Domingos de Oliveira, antigo Largo de Alcântara
Artur Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.

domingo, 9 de junho de 2019

Ponte de Alcântara

Alcântara, que hoje faz parte de Lisboa, era há poucos anos um dos arrabaldes — escrevia Angelina Vidal por volta do ano de 1900. Ficava fora das muralhas de D. Fernando. 

Todos ai se lembram da ponte que formava a barreira de Lisboa, sobre o caneiro de Alcântara, de mefítica memória.

Al-cantara é palavra árabe que significa a ponte. Ficou com o nome que lhe davam os mouros, como afinal muitas palavras do seu idioma vieram até nós mais ou menos deturpadas.


A grande ponte de Alcântara é celebre pelos combates de 14 de Maio de 1805, e 10 de Junho do mesmo ano. Ali se encontraram os heróicos soldados da Leal Legião Lusitana com as tropas invasoras, às quais aplicaram uma soberba derrota. Ficou memorado o valor e sangue frio dos nossos, nessas duas batalhas.
Também aqui se deu a desgraçada batalha de 25 de Agosto de 1580 [vd. 4ª imagem], na qual ficou derrotado D. António, Prior do Crato, e com ele vencido o nobre Portugal durante sessenta anos.
O combate tinha sido um arrojo da parte dos aportugueses, e só se pôde explicar por fanatismo patriótico. Quatro mil homens apenas compunham o exército de D. António, e esses mesmos mal armados, sem conhecimentos militares, e eram estes a fazer face a vinte e dois mil soldados do Duque de Alba, bem instruídos, bem armados e bem alimentados
Além do que não era só a força militar como também a marítima, constando de uma forte esquadra, que enchia o rio de Alcântara, ao tempo muito maior que modernamente.
Alcântara estava ainda quasi desabitada. Só depois da restauração se foi povoando, principalmente desde que D. Afonso VI foi habitar o palácio real do Calvário.
D. Pedro II também gostava muito do sitio, e aqui passava a estação calmosa; morreu neste palácio. Pouco a pouco se foi enchendo de arruamentos até que em 1755 já formava uma paróquia extra-muros.

Ponte de Alcântara em meados do séc. XIX
Nesta gravura vê-se a ponte já com a iluminação a gás e observam-se os portões em ferro das barreiras

e casas da guarda e a casa da apalpadeira que condicionavam o acesso à cidade de Lisboa. Sobre o lado norte da ponte ergue-se a estátua de S. João Nepomuceno. Numa planta datada de 1727, o comprimento da ponte, medido nas guardas, era de 90 metros, aproximadamente, e a largura de 6,2m.
Gravura por Cazellas, in Lisboa de Antigamente

O antigo riacho que ali correra, e que ultimamente estava consideravelmente reduzido pelo desvio de aguas, que a ele aluíam, principalmente antes da construção do monumental Aqueduto, — obra que seria desnecessária se a esse tempo fosse já conhecida uma  singelíssima lei física com respeito à propriedade que assiste às correntes de agua canibalizadas, — tornara-se um foco de emanações pútridas, de miasmas fétidos, de perigosa vizinhança. O Caneiro de Alcântara foi afamado como uma das coisas mais dignas de lástima e mais repugnantes da capital que o teve por muito tempo por limite naquele ponto.
É um dos importantes benefícios que se deve ao progresso, a eliminação daquele foco infeccionante.
A prolongação da linha férrea de Cascais até ao Cais do Sodré e o estabelecimento da linha de Cintura, que liga a Estação de Alcântara com a do Norte, realizaram esta obra meritória. O velho Caneiro foi coberto em longa extensão, desaparecendo a antiga ponte.

O sítio da Ponte de Alcântara [1941]
O seu local era na junção das actuais Ruas de Alcântara  — donde é tomada a foto — e do Prior do Crato, D. António, na direcção dos carris da viação eléctrica, e perpendicularmente à linha férrea que vai da estação de Alcântara-Terra para a de Alcântara-Mar pelo leito da Rua de João de Oliveira Miguens. As cancelas da passagem de nível do caminho de ferro marcam aproximadamente o vão do arco central do ponte, e a linha da frontaria do Mercado de Alcântara e os topos fronteiros dos muros divisórios do terreno  do leito da linha férrea marcam a largura da ponte.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Na ponte [...] esteve uma estátua colossal de S. João Nepomuceno. primoroso trabalho de escultura feito pelo insigne escultor João António de Pádua, e colocada em 1743. No pedestal mandaram os moradores do bairro pôr uma inscrição que dizia: — A S. João Nepomuceno, novo taumaturgo do mundo, dominador da terra, do fogo, da agua e do ar, e sobretudo aplacador dos mares, um seu devoto, reconhecido para com o seu protector, ergueu estátua, no ano de 1743, depois de salvo.
O artista que tez esta estátua notabilizou-se em vários trabalhos de mérito superior, como os celebres púlpitos da igreja do Colégio de Santo Antão de Lisboa, o trabalho esculturado da capela-mor da igreja de S. Domingos, as imagens da capela-mor da Sé de Évora, etc. Pedro António Luques, hábil artista cinzelador, cooperou brilhantemente em todos os principais trabalhos de Pádua.

Ponte de Alcântara em 1862
Vê-se a estátua de S. João Nepomuceno com o seu gradeamento
(que consta era em bronze) erigida em 1743 e apeada c. de 1887, e á direita o começo da estrada e do muro de circunvalação construidos em 1845.
Gravura por Nogueira da Silva, in Archlvo Pittoresco

Esquecia-nos dizer que a estátua de S. João Nepomuceno foi arrancada de cima da ponte e mudada para o Museu do Carmo [onde se encontra na ala do cruzeiro, do lado da Epístola]. Ouvimos que a operação foi feita com tanta delicadeza que a estátua ficou truncada.
As dimensões desta obra monumental que se conserva. são: Plinto: 1,17m x 1,5m de frente, e 2,65m de altura; estátua com a sua base: 3,35m de altura; altura total: 6,0m.

Ponte de Alcântara
Portrait du site et ordre  de La bataille donnée entre le sr. don Antonio nommé Roy de Portugal et Le duc Dalba Lieutenant et capp.ⁿ général du Roy cath. Dom Philippe II devant Lisbonne par mer et par terre en un mesme jour le 25 d'aout 1580.
Desenho que representa a  batalha travada em 1580 nas vizinhanças da ponte de Alcântara, entre as tropas do pretendente D .  António e as do Duque de Alba. Vê-se ao centro (assinalada com um circulo) a ponte representada de cantaria com o  tabuleiro horizontal,  e com três arcos de volta Inteira; .ao meio está levantada uma barricada.
Desenho, in Lisboa de Antigamente

N.B. Com os elementos de que dispomos — diz o eng.º A.Vieira da Silva — , devemos presumir que a ponte era construída de cantaria, e teve de origem três vãos de arcos, sendo o central de volta inteira; que o oriental, por desnecessário, foi entaipado talvez no século XVII; e que o  ociental  foi vedado nos meados do século XIX. 
No arquivo do extinto Ministério das Obras Públicas existiam os desenhos de um projecto de regularização da ribeira e alargamento da ponte, em que esta e as suas circunvizinhanças estavam representadas. A planta destes projectos deve ser do 3.º quartel do século XVIII (1759 a 1769), em que o 1.º ministro de D. José era conde de Oeiras), e mostra um arco grande, e um mais pequeno perto do extremo ocidental da ponte. Parece dever Inferir-se que no 3.º quartel do século XVIII a ponte só conservava dois arcos dos três mencionados, ou que então possuía os. três, mas estando o oriental já tapado ou inutilizado.
___________________________________________________________________________________
Bibliografia
VIDAL, Angelina, Lisboa antiga e Lisboa moderna: elementos históricos da sua evolução, 1900.
Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa»,  A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças: notícia histórica, por A. Vieira da Silva, 1942.

sábado, 4 de março de 2017

Convento dos Arrábidos (ou de S. Pedro de Alcântara)

Nestes limites e extremos do Bairro Alto, raros documentos citadinos oferecem um interesse tão simpático como este Recolhimento das Órfãs, dependente da Misericórdia de Lisboa, aqui na curva e esquina da Rua Luísa Todi, antiga Travessa da Estela; é mesmo uma das mais antigas instituições de assistência moral e educativa da velha Santa Casa.

O pequeno edifício, aliás gracioso, foi o do antigo Convento de S. Pedro de Alcântara, que deu nome ao local. Aí estás a ver a Casa, com seu portal agradável, com seu painel de azulejo, logo na frente do patim, à vista da Rua, e que representa S. Francisco, com sua escadaria que se desdobra, com seu adro simples e a galilé pequenina, que abre de três arcadas singelas e decorativas.

Convento de São Pedro de Alcântara  [1966]
Rua de São Pedro de Alcântara, 85 (Igreja); Rua da Rosa, S/N (Convento de São Pedro de Alcântara);
Travessa de São Pedro, 2-8; Rua Luísa Todi, 1-11
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Erigido no Largo Rua de S. Pedro de Alcântara, no local onde foi o Palácio dos Condes de Avintes, e nos outros tempos, uma nobre morada de casas de Marcos Tinoco (Secretário da Mesa da Consciência e Ordens), este convento foi fundado pelo 1.° Marquês de Marialva, D. António Luís de Meneses, em 1680, para os religiosos Arrábidos, em cumprimento de um voto feito na Batalha de Montes Claros. 
O edifício tinha inicialmente uma pequena igreja, e a cerca abrangia todo o quarteirão entre a Rua da Rosa, a Travessa do Sacramento e a Rua do Príncipe Real [actual D. Pedro V]. 
Os frades Arrábidos tomaram posse do terreno e das casas em 1672, mas apenas em 1680 seria lançada a primeira pedra na igreja, mudando-se os religiosos para lá só em 1685. Eram pouco mais de 40 frades.
Vivia esta Ordem em austeridade na Serra da Arrábida, conforme as regras iniciadas por Frei Martinho e Frei Pedro de Alcântara.
Em 1707, possuía a Congregação, na chamada Província de Portugal, cerca de 22 conventos, dos quais 20 pertenciam ao Bispado de Lisboa.
Com o terramoto de 1755 ficou bastante deteriorado. A igreja caiu inesperadamente, esmagando muitos seculares e especialmente algumas mulheres que assistiam ao culto do dia. 
Foi posteriormente restaurada. 
A Casa do Capítulo (da autoria de Manuel da Maia), o refeitório e os dormitórios (restaurados em tempos de D. João V), resistiram ao sismo.
Na igreja jaz o grande General da Restauração, que foi ao mesmo tempo fundador do convento, e no adro o Arcebispo de Évora, D. Veríssimo de Lencastre. 
O 2.° Marquês de Marialva, D. Pedro António de Meneses, viria a promover o aumento da igreja com a reconstrução da capela-mor. 

Convento de São Pedro de Alcântara [entre 1901 e 1910]
Rua de São Pedro de Alcântara, 85 (Igreja); Rua da Rosa, S/N (Convento de São Pedro de Alcântara);Travessa de São Pedro, 2-8; Rua Luísa Todi, 1-11
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente
 
De referir no seu interior: 
A escadaria com painéis de azulejos Setecentistas; 
A entrada sob uma galilé de 3 arcos; 
A célebre Capela dos Lencastres, com tectos de Pierre Bordes [tecto pintado em trompe l’oeile] telas atribuídas a Pedro Alexandrino [A Pregação de São João Baptista], Wolkmar Machado e Quillard [A Coroação da Virgem]. 
A igreja foi restaurada em 1878, já depois da extinção das Ordens Religiosas.
Serviu depois para recolhimento de raparigas desamparadas, com o nome de Asilo da Apresentação de Maria (Assistência Social), estando actualmente dependente da Misericórdia de Lisboa [por decreto de D. Pedro, Duque de Bragança, ex-imperador do Brasil, a 31 de Dezembro de 1833].

Convento de São Pedro de Alcântara, fachada lateral [séc. XIX]
Rua de São Pedro de Alcântara, 85 (Igreja); Rua da Rosa, S/N (Convento de São Pedro de Alcântara);Travessa de São Pedro, 2-8; Rua Luísa Todi, 1-11
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em 1943 passou a ser administrado, em acordo de cooperação, pelas Irmãs da Província Portuguesa da Congregação da Apresentação de Maria. Actualmente designa-se por Instituto de S. Pedro de Alcântara. Este imóvel insere-se no tecido consolidado do Bairro Alto, classificado Conjunto de Interesse Público.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, p. 73, 1938
CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa, p. 145, 1954

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Rua de São Pedro de Alcântara: Calçada Portuguesa

S. Pedro de Alcântara teve o seu período de moda. Era o «Passeio», a «Alameda», o «Jardim» de S. Pedro de Alcântara, com a sua ingenuidade alfacinha, e o seu traço espiritual de romantismo.  (ARAÚJO: 1938)

A denominação deriva do antigo Convento de S. Pedro de Alcântara (ou dos Arrábidos) que ainda hoje encontramos na esquina da Rua Luísa Todi. Fundado por D. António Luiz de Menezes, Conde Cantanhede e Marquês de Marialva, em 12 de Agosto de 1680, em cumprimento do voto feito na Batalha de Montes Claros que ganhou aos espanhóis na guerra da Restauração, logo ali se instalaram os franciscanos arrábidos.

Rua de São Pedro de Alcântara que foi «da Tôrre de S. Roque» |entre 1908 e 1914|
Destaque para a Calçada Portuguesa junto à Alameda de S. Pedro de Alcântara. 
Ao fundo vê-se o inicio da Rua de D. Pedro V. 
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Este topónimo já surge nas plantas da remodelação paroquial de 1780, como Rua de São Pedro de Alcântara e Rua Direita de São Pedro de Alcântara. Mas 79 anos depois, pelo edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859, a Rua da Torre de S. Roque (também vulgarmente conhecida como Torre do Relógio) e o Largo de São Pedro de Alcântara passaram a constituir um arruamento único com a denominação de Rua de São Pedro de Alcântara.

Rua de São Pedro de Alcântara que foi «da Tôrre de S. Roque» |entre 1908 e 1914|
Destaque para a Calçada Portuguesa junto à Alameda de S. Pedro de Alcântara na direcção

do Largo Trindade Coelho.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 27 de março de 2019

Miradouro de São Pedro de Alcântara

Varanda dos amores românticos, do tempo em que era alameda — S. Pedro de Alcântara é um dos mais ternos miradouros naturais da cidade. Bem avisada andou a vereação que há pouco mais de um século fez deste cômoro, que fora de olivais, rústico e arrabaldino, — uma esplanada de crianças, um eirado, um jardim, uma alameda.

Sobre as Taipas e o Passeio Público, depois sobre a Avenida — S. Pedro de Alcântara é também um «passeio», suspenso, balouçante entre S. Roque, já sem padres, o Convento do Marialva, já sem arrábidos, e a Patriarcal, que nunca o chegou a ser.

Varanda do Bairro Alto, este Jardim — olha a direito. Que panorama!


Lisboa vista do Jardim de São Pedro de Alcântara [post. 1932]
S. Pedro de Alcântara teve o seu período de moda. Era o «Passeio», a «Alameda», o «Jardim» de S. Pedro de Alcântara, com a sua ingenuidade alfacinha, e o seu traço espiritual de romantismo. Não dava espectáculo, como o Passeio Público, mas era aprazível na sua posição de miradouro.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Para nascente e sul, o Castelo, recortado sobre a peanha pintalgada da cidade velha; as torres alvíssimas de S. Vicente espreitando da linha do horizonte, acima do casario; a Graça, generosa, entregando-se toda; S. Gens, minúsculo, pousado no outeiro que cai sobra as Olarias; a Sé, flanqueada de torres, morena, muito severa... Para norte, os altos de Campolide, os retalhos verdes do Parque, ainda rústico aqui e ali, a confusão indistinta das avenidas modernas, e logo a cumeeira de Santana. É uma ondulação cenográfica de encantamento, sobretudo a certas horas de luz dourada, quando o sol se rende, e se despede nas vidraças de mil casas e tugúrios, embrechados nas colinas sagradas de Lisboa do oriente. [...]¹

Miradouro Jardim de São Pedro de Alcântara [entre 1926 e 1932]
Tanque do jardim  de São Pedro de Alcântara, no plano superior da Alameda (que data de 1840), peça elegante que fez parte do Paço da Bemposta ou Paço da Rainha.
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

Tinham entrado em São Pedro de Alcântara — escreve o imortal Eça no seu Primo Basílio; um ar doce circulava entre as árvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céu azul parecia leve e muito remoto.[...]
Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. [...]
Foram encostar-se às grades. Através dos varões viam, descendo num declive, telhados escuros, intervalos de pátios, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal ressequido; depois, no fundo do vale, o Passeio [Público], estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada.

Miradouro de São Pedro de Alcântara [c. 1920]
No tabuleiro inferior — verdadeiro jardim de crianças, contemplativo e sereno — foram colocados os bustos de mármore que ainda lá se vêem, e que representam homens notáveis de Portugal — o Infante
D. Henrique D. João de Castro, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral — de mistura com figuras de mitologia e da lenda: Ulisses, Minerva, Vénus [entre outros]
.

Mário Novais,in Lisboa de Antigamente

 

Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da Rua Oriental [do Passeio Público], recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças; por trás iam-se elevando no mesmo plano terrenos de um verde crestado fechados por fortes muros sombrios; a cantaria da Encarnação de um amarelo triste; outras construções separadas, até ao alto da Graça coberta de edifícios eclesiásticos, com renques de janelinhas conventuais e torres de igrejas, muito brancas sobre o azul; e a Penha de França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, de onde sobressaia uma tira verde-negra de arvoredo. À direita, sobre o monte pelado, o castelo assentava, atarracado, ignobilmente sujo; e a linha muito quebrada de telhados, de esquinas de casas da Mouraria e de Alfama descia com ângulos bruscos até às duas pesadas torres da Sé, de um aspecto abacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz; duas velas brancas passavam devagar; e na outra banda, à base de uma colina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias de uma povoaçãozinha de um branco de cré luzidio. 

Miradouro Jardim de São Pedro de Alcântara [ant. 1938]
O tabuleiro inferior era um «Queluz» em miniatura, delícia das nossas avós pequeninas; lá existiram um labirinto de buxo, os bancos voltados à cidade, os balouços e brinquedos infantis, os velhos do Asilo da Mendicidade e alugando cadeiras ao domingo, e, cá em cima, uma Banda regimental.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metálica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.
— Grande panorama! — disse o Conselheiro com ênfase. — E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso. Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente!
— Isto devia estar na mão dos ingleses, minha rica senhora! — exclamou.
Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica. Jurou que era uma maneira de dizer. Queria a independência do seu país; morreria por ela, se fosse necessário; nem ingleses nem castelhanos!... Só nós, minha senhora! — E acrescentou com uma voz respeitosa: — E Deus! 
— Que bonito está o rio! — disse Luísa.
Acácio afirmou-se, e murmurou em tom cavo:
— O Tejo!

Miradouro de São Pedro de Alcântara [1967]
Ao fundo, antes das escadas de pedra que dão acesso à Alameda, vê-se o  groto embutido no muro de suporte e o respectivo tanque, também visível na 2ª foto.
Em meados do século XIX, segundo Norberto de Araújo, todo este sítio era «um monturo de pedregulhos e de imundícies, vala de despejo de animais mortos, a contrastar com a bonita e verdejante encosta que caía mais para o lado de S. Roque, sobre o fundo de Valverde, depois Passeio Público, justamente a Quinta do Marques de
Castelo Melhor».

Artur Inácio Bastos, in Lisboa de Antigamente

Quis então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarelas, esvoaçavam; um gotejar de água fazia no tanque um ritmozinho de jardim  burguês;  um aroma  de  baunilha  predominava; sobre  a  cabeça  dos bustos  de  mármore, que se elevam dentre os maciços e as  moitas de dálias, pássaros pousavam. 
Luísa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades tão altas...
— Por  causa  dos  suicídios! — acudiu  logo  o  Conselheiro. [...]
— Se fôssemos andando?... — lembrou Luísa.
O  Conselheiro  curvou-se,  mas  vendo-a,  a  ir  colher  uma  flor,  reteve-lhe vivamente o braço:
— Ah,  minha  rica  senhora,  por  quem  é!  Os regulamentos  são  muito explícitos!  Não  os  infrinjamos,  não  os  infrinjamos! — E acrescentou: — O exemplo deve vir de cima.²

Miradouro de São Pedro de Alcântara [entre 1918 e 1922]
O gradeamento, que ainda hoje ali se encontra, veio do Palácio da Inquisição do Rossio, ou dos Estaus, actual Teatro D. Maria..
João Penha Lopes, in Lisboa de Antigamente

Apenas no tabuleiro inferior — remata Norberto de Araújo — , quando se cala o alarido saudável do dia infantil, e as sombras se alongam — S. Pedro de Alcântara se pode entregar ao recolhimento, que amacia as almas. Mas com o seu arvoredo ralo, com os seus canteiros de miosótis, com a sua cascata romântica, com o seu tanque, que pertenceu ao Paço da Bemposta, com o seu ardina de bronze a apregoar a liberdade — é um enternecedor eirado do Ocidente, senhor de Lisboa.¹
______________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 114-115, 1943. 
² QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.

domingo, 26 de maio de 2024

Ruas Cascais e do Cais de Alcântara

Da Rua Fradesso da Silveira para o sul, até à Avenida da Índia, sobre o caneiro de Alcântara e do lado ocidental do mesmo — diz o eng.º Vieira da Silva — , passa uma rua que faz seguimento à de João de Oliveira Miguens, a qual tinha o mesmo nome que eia, que foi mudado em 1917 para Rua Cascais.
É obscura a origem da Rua Cascais, embora se possa aventar a hipótese de este topónimo se dever à proximidade à linha ferroviária para Cascais.
Do, meio da Rua Cascais para o rio, com as obras do Porto de Lisboa, foram conquistados mais terrenos, onde se implantaram vários edifícios e estruturas, entre os quais, as vias férreas da Estação de Alcântara-Mar e a doca de Santo Amaro.¹ Este topónimo foi atribuído por Edital municipal de 21/01/1889 e recorde-se que nesse mesmo ano, a 30 de Setembro, foi inaugurado o ramal de Cascais, com início em Pedrouços e ligação a Lisboa por barco. No ano seguinte, com terrenos ganhos ao rio Tejo, o referido ramal chegou a Alcântara, fazendo ligação à linha de Cintura e permitindo o acesso à estação do Rossio até em 1895 se concluir a ligação ao Cais do Sodré.

Rua Cascais (em cima) e Rua do Cais de Alcântara |1940-08|
Troço compreendido entre a Rua Fradesso da Silveira e a margem do Tejo.  Rua João de Oliveira Miguens; ao fundo nota-se o Cemitério dos Prazeres.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nos terrenos conquistados ao Tejo acham-se abertas muitas vias públicas, das quais a mais importante é a Avenida da India, começada a construir há muitos anos, sendo o último troço a concluir-se o que vai desde a Avenida 24 de Julho até à actual Rua do Cais de Alcântara a que primeiro foi dado o nome de Rua 14 de Maio.¹
O Edital da época informa o seguinte:
  1. Considerando que a esta Câmara Municipal têm chegado numerosos pedidos de entidades oficiais e particulares, para que se modifiquem determinadas denominações toponímicas da Capital;
  2. Considerando a vantagem de regressar, em certos casos, às antigas denominações, e a justiça de homenagear algumas figuras e entidades nacionais merecedoras da nossa consagração (…)
  3. Que à Rua 14 de Maio – que não tem nenhum passado histórico – , passe a designar-se Rua do Cais de Alcântara. 
Final da Rua Cais de Alcântara e da Rua Cascais com a Av. da IndiaAv. da India |1940-08|
Na confluência destas artérias foi erguido o Viaduto de Alcântara inaugurado em 1972.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa»,  A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças: notícia histórica, por A. Vieira da Silva, 1942.

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