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Sunday, 16 April 2017

Torre da Pólvora: Palácio da Cova da Moura

Como já preconizava Norberto de Araújo, em 1938, nas suas Peregrinações «a Rua da Tôrre da Pólvora que tende a desaparecer, pela urbanização que já nela começou no seu começo, esteve ligada às tradições polvoreiras de Alcântara».1 De facto, esta antiga artéria seria extinta e, mais tarde, integrada na novíssima Avenida Infante  Santo, cujo topónimo viria a ser atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Torre da Pólvora. 


Espreitemos a Rua da Torre da Pólvora - prossegue Norberto de Araújo -, urbanizada e rectificada no seu troço inicial, sob a Pampulha, há dois anos [1936]. Na parte antiga vemos, à esquerda, uns casebres decrépitos, e os restos de fornos de cal, pois muitos por aqui houve. O sítio foi chamado, no século XVI, «Lapa da Moura», em virtude da existência de uma lapa entre as pedreiras que afloram ainda na raiz das construções. De Lapa da Moura se passou a Cova da Moura, nome que esta área entre Alcântara e Pampulha ainda mantém.
A designação de Torre da Pólvora nesta serventia nasce da circunstância de, no fundo da rua, ter sido construída, de 1670 a 1696, uma torre, depósito ou paiol de pólvora defendida per seu guarda fogo, num recinto relativamente largo.

Panorâmica sobre a zona da Pampulha e a antiga Rua da Torre da Pólvora {c. 1940]
 O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Tôrre da Pólvora
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Legenda:
1 - Palácio da Cova da Moura - Prémio Valmor, 1921, (Restauro), arq,º Tertuliano Marques   2 - Rua da Torre da Pólvora (extinta e integrada na Av. Infante Santo)   3 - Rua da Cova da Moura   4 - Hospital da    CUF Infante Santo (Tv. do Castro)   5 - Prédio, de 1938, «ao estilo moderno e desafogado» referido por Norberto de Araújo nas suas «Peregrinações em   Lisboa»   6 - Dispensário de Alcântara, sito na Rua Tenente Valadim, edifício de relevância histórica, foi mandado erigir por iniciativa da Rainha Dona Amélia. Inaugurado em 1893   7 - Rua do Sacramento a Alcântara

O casarão foi depois presídio (1843), já há muito o depósito de pólvora havia desaparecido do local. Mais tarde, nas casas anexas reconstruidas e ampliadas, instalou-se o regimento de Infantaria n.° 7; ainda depois, em 1899, vários serviços de Administração Militar, e em 1928 uma Companhia de Trem Hipomóvel. É êste o bairrista quartel da Cova da Moura. (...)

Abertura da Avenida Infante Santo (Viaduto da Pampulha) [c. 1949]
Ao fundo o Palácio da Cova da Moura (jardins)
O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Torre da Pólvora.

Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Ora tornemos ao começo da Rua. Este palacete, do estilo de D. João V, à esquina da Cova da Moura, por onde tem a entrada principal, é do século passado [séc XIX]; pertencia ao Dr. João Ulrich, e foi adquirido pelo Ministério da Guerra em Agosto de 1935, para sede do Conselho Superior de Defesa Nacional e do Conselho Superior do Exército. Como contraste, olha-me este prédio, de 1938, ao estilo moderno e desafogado, e esse outro, em gaveto, estreito como uma cunha, entre as Rua e Travessa da Cova da Moura, do século passado. O urbanismo em Lisboa tem muito deste desequilíbrio estético.2

Palácio da Cova da Moura [ant. 1950]
Avenida Infante Santo
O topónimo Avenida Infante Santo foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 13/5/1949, à anterior Rua da Torre da Pólvora.
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Em 1921, o Prémio Valmor foi o restauro do Palácio (setecentista) da Cova da Moura sito na Rua Cova da Moura; Avenida Infante Santo,; Travessa do Castro, projectado por Tertuliano Marques (1883-1942) e pertencente a João Ulrich. Até à data tinha sido o único caso de atribuição do prémio a um restauro, considerado significativo “por se desenvolver dentro de uma arquitectura tradicionalista portuguesa das mais belas”.
Apesar de ainda existir, foi profundamente modificado e acrescentado em 1950 e adaptado para ali funcionar uma dependência do Ministério da Defesa.
__________________________________________
Bibliografia
1 ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 56, 1938.
2 idem, vol. IX, p. 13.

Saturday, 3 September 2016

Avenida Infante Santo

Conforme o Edital de 13 de Maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo. [1]

Início dos trabalhos de demolição do troço do Aqueduto para a abertura da Avenida Infante Santo [1949]
Este troço do Aqueduto abastecia, desde 1778, o Palácio das Necessidades, a Cova da Moura, a Fábrica Ratton
e a Fábrica da Pólvora em Alcântara. A abertura da Avenida Infante Santo vai implicar a sua destruição
em finais da década de 1940; Basílica da Estrela

Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Dom Fernando, o Infante Santo, oitavo filho de D. João I e de Dona Filipa de Lencastre, nasceu em Santarém, a 24 de Setembro de 1402, vindo a morrer em Fez, no ano de 1443.
Aparece ligado ao movimento defensor da presença portuguesa em Marrocos, perspectivando esta presença num misto de alargamento político da presença portuguesa e de alastramento da fé cristã. Sendo um defensor da conquista marroquina, é perfeitamente natural que pretendesse tomar parte na expedição, organizada já no reinado de D. Duarte, contra Tânger, e comandada pelo seu irmão Infante D. Henrique. Com o fracasso desta expedição e com a sua captura e abandono nos cárceres de Arzila e Fez, tornou-se num meio de pressão dos mouros junto dos portugueses para a sua troca pela cidade de Ceuta. No entanto, a importância de que Ceuta se revestia junto dos defensores da conservação daquela praça, leva a que o Infante D. Fernando seja sacrificado a este interesse, o que ele não entendia, dado o teor de uma carta que enviou da prisão ao seu irmão Infante D. Pedro, na qual se mostrava esperançado na sua libertação.
Com a sua morte, nascia a figura do Infante Santo, designação por que passou a ser conhecido. [2]

Avenida Infante Santo [1949]
Abertura da Avenida Infante Santo no local da antiga praceta do Aqueduto das Necessidades;
obras de urbanização e pavimentação

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
[1] cm-lisboa.pt.
[2] CAMPOS, Nuno/CARNEIRO, Isabel: O Padrão dos Descobrimentos – roteiro para visita de estudo, 1994.

Sunday, 10 April 2022

Rua da Torre da Pólvora

[1804Torre da Pólvora: é a ultima à direita, descendo pela Calçada da Pampulha, vindo da Igreja de S. Francisco de Paula, e vai terminar aos Armazéns da Pólvora
[1864Torre da Pólvora (largo da)  fica na fim da rua da Torre da Pólvora, indo da calçada da Pampulha e finda na travessa do chafariz das Terras, freguesia de Santos. Está n'este largo o presidio denominado da Cova da Moura, actualmente serve de quartel para infantaria.
[1924] Fronteira à R. do Tenente Valadim, a rua da Torre da Pólvora, que vai dar à Cova da Moira, ao fundo da qual fica o quartel onde se acha instalado o 1.º grupo de companhias de administração militar. 

A designação de Torre da Pólvora nesta serventia — recorda Norberto de Araújo — nasce da circunstância de, no fundo da rua, ter sido construída, de 1670 a 1696, uma torre, depósito ou paiol de pólvora defendida por seu guarda fogo, num recinto relativamente largo.

Rua da Torre da Pólvora |1939|
Desaparecida para dar lugar à Avenida Infante Santo
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

O casarão foi depois presídio (1843), já há muito o depósito de pólvora havia desaparecido do local. Mais tarde, nas casas anexas reconstruídas e ampliadas, instalou-se o regimento de Infantaria n.° 7; ainda depois, em 1899, vários serviços de Administração Militar, e em 1928 uma Companhia de Trem Hipomóvel. É este o bairrista quartel da Cova da Moura. [...]

Panorâmica sobre o Quartel da Cova da Moura |c. 1947|
Demolido para dar lugar à Avenida Infante Santo
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

A abertura da Avenida Infante Santo vai implicar a sua destruição em finais da década de 1949. Conforme o Edital de 13 de Maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo.

Panorâmica sobre a Avenida Infante Santo |c. 1959|
A abertura da Avenida Infante Santo vai implicar a destruição da Rua da Torre da Pólvora.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 56, 1938.
COSTA, António José Pereira da - A Fábrica e a Torre da Pólvora, 2017.

Thursday, 26 November 2015

Avenida Infante Santo

Conforme o Edital de 13 de maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora passou a ser a Avenida Infante Santo

Avenida Infante Santo [195-]
Blocos residenciais em construção.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Avenida Infante Santo [1958]
Blocos residenciais em construção.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Avenida Infante Santo [1959]
Blocos residenciais em construção.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 9 February 2020

Dispensário Rainha D. Amélia (ou de Alcântara)

A construção deste Dispensário para Tuberculosos corresponde a uma iniciativa da Rainha D. Amélia e tinha como objectivo o amparo e tratamento de crianças e jovens atingidos por esta grave doença. No local fornecia-se aos internados a assistência médica e medicamentosa necessária. O apoio aos doentes ficava ainda a cargo de uma comunidade religiosa as Irmãs Missionárias que habitavam um edifício anexo localizado a Oeste do Dispensário e que correspondia à antiga casa do Vigário do Convento de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento de Alcântara. Curiosamente, esta comunidade ainda se mantém no local.

Dispensário Rainha D. Amélia (ou de Alcântara) |c. 1949|
Rua Tenente Valadim, (ste troço está hoje integrado na Av. Infante Santo) no cruzamento com a Rua do Sacramento A Alcântara e Calçada Pampulha: abertura Av. Infante Santo, rasgada no final da década de 1940.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O edifício designado como "Dispensário de Alcântara" ou "Dispensário Rainha D. Amélia", localiza-se num gaveto entre a Avenida Infante Santo e a Rua Tenente Valadim. Trata-se de uma construção mista de ferro e alvenaria de pedra construída de raiz nos finais do século XIX (1893) apresentando uma planta quadrangular em torno de um pátio central iluminado por claraboia em vidro. No exterior, pintado a ocre, rasgam-se diversos janelões dispostos ao alto, quer simples quer duplos, rematados superiormente por vergas que se prolongam nas ombreiras. Uma moldura saliente seguida de platibanda marca todo o perímetro superior das fachadas.
De destacar a presença de um soco em pedra bujardada onde, na secção inferior, se abrem pequenas janelas rectangulares que na fachada defronte à Avenida são de diminutas dimensões mas na Rua Tenente Valadim assumem uma maior expressão apresentando vergas em arco. Ainda na fachada principal, virada à Avenida, surge uma porta destacada ao centro com arco de volta inteira inserida num pórtico em arco abatido sobre o qual se inscreve a designação do edifício. Nesta fachada observam-se também dois corpos laterais salientes, tipo torreão, coroados por frontões onde se inscrevem janelões semicirculares.

Dispensário Rainha D. Amélia (ou de Alcântara) |190-|
Rua Tenente Valadim, (este troço está hoje integrado na Av. Infante Santo)
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

No interior a compartimentação é feita através de paredes de alvenaria e tabique apresentando lambris de azulejo alusivos às funções de cada espaço. No quadrante Oeste o pavilhão prolonga-se apresentando, ao nível do piso superior, um terraço virado ao Tejo onde os doentes iam igualmente para usufruir dos bons ares.
Trata-se assim de um imóvel de relevante interesse patrimonial onde a configuração arquitectónica se adequa exemplarmente às funções — cuidados de saúde — algo que na época era bastante inovador.
Infelizmente hoje o edifício encontra-se em avançado estado de degradação não se sabendo ainda qual será o seu destino. [DGCP]

Friday, 8 November 2024

Panorâmica da Estrela tomada do zimbório da Basílica da Estrela

Do majestoso zimbório da Basílica da Estrela — a que se pode ascender depois de galgados mais de 200 degraus — o panorama de que ali se desfruta é dos mais belos de lisboa. 

Se da maioria dos pontos altos de lisboa se avista a parte antiga da cidade — recorda o Guia de Portugal (1924) —  o que aqui domina inteiramente no conjunto é a  cidade moderna. O espectáculo torna-se por isso mais claro e mais alegre, variado ainda pela abundância de pequenos bosques e jardins, desdobrados como numa grinalda. Logo a O. a tapada da Ajuda, hoje já muito rarefeita, e a mole enorme do palácio; mais para cá a mancha verde do parque das Necessidades, e a seguir a parada sombria dos ciprestes dos Prazeres. Ao longe desdobra-se o espinhaço de Monsanto, e mais além e a NO. as alturas de Sintra. Para o N. abrange-se a cidade nova, e logo em baixo repousa o olhar a frondosa espessura do Jardim da Estrela, continuada ao fundo com os belos ciprestes do cemitério dos Ingleses. A E. avista-se o Castelo, a torre de S. Vicente e mais abaixo as da , um pouco perdidas na massa escura dos telhados. Ao S. abre-se enfim, maravilhosa de luz e de amplidão, a enseada do Tejo, a melo da qual se ergue o pontal de Cacilhas, avançando no rio como a proa duma nau.

Panorâmica da Estrela tomada do zimbório da Basílica da Estrela |entre 1926 e 1936|
Vêem-se os terrenos onde virá a ser rasgada a Avenida Infante Santo nas décadas de 1940/50, o Hospital da Estrela, antigo Convento do Sagrado Coração de Jesus, um trecho do Aqueduto das Aguas Livres [demolido], uma nesga do Tejo e a Outra Banda.
António Passaporte,  in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Conforme o Edital de 13 de Maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo.

Obras para abertura da Avenida Infante Santo |1949|
Junto ao Hospital Militar Principal, à Estrela
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 7 June 2016

Rua de Santo António à Estrela: demolição de um arco do Aqueduto das Águas Livres

Este arco sito na do Rua de Santo António à Estrela era parte do Aqueduto do Convento da Estrela, ramal subsidiário do Aqueduto das Águas Livres ou Galeria das Necessidades, que conduzia a água para os chafarizes de Campo de Ourique, da Estrela, da Praça da Armada e das Terras

Convento do Santíssimo Coração de Jesus e Arco do Aqueduto sobre a Rua de Santo António à Estrela [ant. 1885]
Em 1885, as dependências conventuais são entregues à Fazenda Nacional, para instalação dos Serviços Geodésicos, depois Instituto Geográfico e Cadastral.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Partia do Arco do Carvalhão terminando na Tapada das Necessidades, onde nascia outro ramal à superfície, que atravessava o Vale da Cova da Moura, actualmente a Avenida Infante Santo, até às Janelas Verdes, abastecendo o respectivo chafariz; a abertura da Avenida implicou a sua demolição. 

Rua de Santo António à Estrela: demolição de um arco do Aqueduto [10 de Abril de 1897]
O último prédio alto à esquerda [vd. 3ª imagem], com portal abobadado, era o edifício
utilizado para recolha dos ascensores Estrela-Camões; à direita, a antiga Cerca do
Convento da Estrela (ou Sagrado Coração de Jesus, hoje pavilhão do Hospital Militar);
ao fundo, a Igreja e Antigo Convento de Nossa Senhora da Estrela (Hospital Militar Principal).

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Foto, inscrição no original: «Demolição do Arco Grande do Aqueduto, na Rua de Santo António à Estrela, arriado em 10 de Abril de 1897 pelos operários da secção de obras da Exma Câmara Municipal de Lisboa, foram entregues no depósito do Edificio da Estrela em 10 de Agosto do mesmo anno duas torneiras de bronze que pezavam a 1.ª 117,0 Kilos e a 2.ª 115,0 Kilos no total de 232,0 kilos.»

Levantamento topográfico de Francisco Goullard (1882)]: n.º 163
Planta referente ao estado da Rua de Santo António à Estrela, em Outubro de 1890. Localização do Arco Grande do Aqueduto do Convento da Estrela
(Clicar para ampliar)

Recolha dos elevadores Estrela-Camões, demolido em finais de 1941
Praça da Estrela; a esq., a Rua Domingos Sequeira e, à dir., a Rua da Estrela

(Este prédio é aquele que se pode observar do lado esquerdo na 2.ª imagem). 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 22 August 2018

Calçada da Pampulha

[...] eis-nos no sitio da Pampulha — para o qual a Lapa é uma criança — e que remonta ao século XVI. (...) A Calçada da Pampulha — diz Norberto Araújohoje é a continuação da Rua do Presidente Arriaga, nome que depois de 1917 foi dado à Rua de S. Francisco Paula. Em verdade, oficializada, a Pampulha não tem mais que duzentos metros, mas a designação extravasa, possui ressonância bairrista além do limite municipal do dístico.
«Pampulha» porquê? Não o sei eu, nem os mestres que têm. até agora, escrito acerca das origens dos nomes das ruas de Lisboa. Julgo, porém, que problema não é insolúvel, e creio até que estará para breve o desvendar deste mistério toponímico.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, pp. 55-56, 1938)

Calçada da Pampulha [ant. 1939]
Cruzamento com a Rua Tenente Valadim; anterior à construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo, em 1949 (vd. 2ª foto)
Eduardo Portugal, in in Lisboa de Antigamente

Em relação à etimologia da palavra «Pampulha», José Pedro Machado no seu Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa (1984) avançou a hipótese de a origem estar em «pão da Apúlia» (pan no português arcaico), indicando o local onde era recebido o trigo vindo da Apúlia italiana.
Gomes de Brito refere que «Pampulha» já surge num Assento da Vereação de 1636: «Nas travessas que há do Corpo Santo até á Pampulha». Em 1786, na Relação Universal figura este arruamento ora como Rua Fresca da Pampulha, ora como Rua Direita da Pampulha. E como Calçada da Pampulha aparece primeiro no Itinerário lisbonense de 1818 e no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1857. No entanto, num documento de 1875 ainda é referida a denominação genérica da zona, numa planta da Praia da Pampulha.

Calçada da Pampulha [c. 1949]
Construção do viaduto sobre a Avenida Infante Santo no cruzamento com a Rua Tenente Valadim
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Refira-se ainda que a Fábrica de Bolachas da Pampulha, a primeira fábrica de bolachas em Portugal, fundada por Eduardo Costa na década de 1870, referenciava a sua localização entre a Pampulha e a Rua 24 de Julho (hoje Avenida 24 de Julho). [cm-lisboa.pt]

Publicidade da Fábrica de Bolachas da Pampulha em 1907

Sunday, 8 December 2024

Rua do Jardim, à Estrela

Do lado sul da Rua de Santo António, à Estrela, prolonga-se até uma extensão de cento e cinquenta metros o muro da antiga cerca do Convento de D. Maria I (hoje pavilhão do Hospital Militar e já demolidos para construção da Av. Infante Santo); do lado direito — diz Mestre Araújo, a quem vamos sempre seguindo — abrem-se a Travessa e a Rua do Jardim, cujos nomes derivam do Passeio da Estrela

Rua do Jardim à Estrela com o extinto Beco do Jardim |1902-01|
Ao fundo nota-se a Rua Santo António à Estrela e a cerca do antigo Convento do Santíssimo Coração de Jesus na Praça da Estrela.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Nesta área havia muitas casas foreiras à Irmandade de Santo Onofre — não sei de que igreja — e datadas do princípio do século passado: 1802, como esta Rua do Jardim, 1804 e 1805 como algumas mais adiante. Aí temos, passado o muro da cerca, um renque de prédios setecentistas, com suas empenas de bico — n.ꟹ 1 a 19 — , e um outro, cujas portas são ainda servidas por degrau , oferecendo o seu semblante típico em janelas de reixa — n.ꟹ 21 a 27.¹

Rua do Jardim à Estrela com a Rua Domingos Sequeira |1902-01|
R. Domingos Sequeira foi rasgada por volta de1896. À esq. nota-se um troço do ramal do Aqueduto das Águas Livres que abastecia o Convento da Estrela e chafarizes desta zona. Em 1897, foi demolido um arco do aqueduto que passava sobre a R.  de Santo António à Estrela.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente
Rua do Jardim à Estrela |1902-01|
Ao fundo nota-se a Rua Domingos Sequeira. No local onde se vê a frontaria e chaminé de uma fábrica (cerâmica?) virão a ser erguidas as escadinhas que ligam àquele arruamento  [vd. imagem abaixo].
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A origem do topónimo radica nos frades beneditinos que dedicaram a sua igreja a N. S. da Estrela, ou da Estrelinha. Os frades chegaram a Lisboa no séc. XVI e fundaram o seu 1º convento – concluído em 1571 – onde hoje é a praça e o jardim. Quando passaram para o maior, abaixo, de São Bento da Saúde, o da Estrelinha ficou para ensino dos noviços. O terramoto destruiu parte. Em 1818 parte já era secretaria dos Hospitais Militares. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, alargou o exército a ocupação pelo que em 1837 era Hospital Militar.

Rua do Jardim à Estrela |1953|
Escadinhas construídas c. de 1915 e que ligam esta artéria à Rua Domingos Sequeira.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p.-55, 1939.

Tuesday, 29 March 2016

Palácio dos Côrte Reais, ao Corpo Santo

D’aqui nos dirigimos ao largo do Corpo Santo onde temos um templo digno de attenção. Sabem os nossos presados e esclarecidos leitores que este largo se chamou também — do Corte Real, por estar ali o enorme palacio de Cbristovam de Moura Corte Real, homem tristemente celebre pela sua traição á patria. [Vidal A.: 1900]

 
 «Falemos do Corpo Santo».   
   De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo  «A origem deste nome está no culto de São Teimo, ou seja de S. Pedro Gonçalves Telmo, padroeiro dos pescadores, ao qual os devotos chamavam «Corpo Santo»; (...). O nome de Corpo Santo passou ao sítio, ao Arco, ao Largo, e ao Convento dos dominicanos. Mas chegamos ao Corpo Santo, Largo cuja situação não é precisamente, quer em área quer em orientação, a que foi antes de 1755; a Igreja era mais avançada do que hoje é, e o Convento, desaparecido, situava-se pelo lado sul, ocupando uma boa parte do largo.
Aqui perto teria existido um postigo (porta), ou simples serventia dos Côrtes Reais. Porta do Corpo Santo ou do Cata-que-farás, ou Arco dos Cobertos, localizava-se em frente do actual Largo, na Travessa do Cotovelo

A Ribeira das Naus e o antigo Paço da Ribeira (torreão de autoria de Filipe Terzi, por ordem de D. Filipe II) [c. 1750]
Ao fundo nota-se  o Palácio dos Côrte Reais, ao Corpo Santo
A view of the palace of the King of Portugal at Lisbone
gravura água-forte aguarelada
, Paris chez Maillet 
   
Aqui, na esquina da Rua do Arsenal, onde assenta ainda o casarão fabril abandonado, vazio e silencioso, depois que o Arsenal se foi para o Alfeite, existiu desde 1585, com seus quatro imponentes torreões o celebrado Palácio dos Côrte Reais, melhor diremos de Cristóvão de Moura, Marquês de Castelo Rodrigo, e que desapareceu pelo Terramoto.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 34-35, 1939)

Palácio dos Côrte Reais
«A residência do Marquês de Castel Rodrigo situada à beira-mar, é das mais magníficas, e possui quatro corpos, com belas Torres com galerias onde se pode passear & que se voltam para o Mar.»(Monconys, 1628)

Edificado em 1585 por Cristóvão Moura Corte-Real, Marquês de Castelo Rodrigo e partidário da Dinastia Filipina, situava-se na margem do rio Tejo junto ao Largo do Corpo Santo e comunicava com o Paço da Ribeira através de um passadiço. Após a Restauração da Independência em 1640, foi confiscado pela Coroa e tornou-se residência do Infante D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, e também das rainhas consortes D. Francisca Isabel de Sabóia e de D. Sofia de Neubourg.
Mais tarde, D. Pedro II passou o palácio para a Casa do Infantado, pertencente ao seu segundo filho. Um incêndio destruiu o edifício em Julho de 1751, e o pouco que dela restava terá desaparecido com o terramoto de 1755.

Fragmento da Planta de Lisboa
O traçado e dizeres a preto correspondem à actualidade.
O traçado e dizeres a vermelho correspondem à Lisboa anterior ao Terramoto de 1755.
O traçado a azul corresponde ao Palácio dos Côrte Reais.

Tuesday, 14 February 2017

Nova Companhia Nacional de Moagem

Teve eco na imprensa a inauguração de uma nova fábrica destinada à produção de todos os tipos de bolachas, biscoitos e massas alimentícias os quais «até aqui havia necessidade de importar». Pertencente à Nova Companhia Nacional de Moagem a nova Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias localizava-se, na Avenida 24 de Julho (antes Rua 24 de Julho e antes Aterro da Bôa Vista) e a sua construção esteve a cargo do construtor civil Zacarias Gomes de Lima.


Na cerimónia de inauguração, em 20 de ]unho de 1910, estiveram presentes o chefe de Estado, El-Rei D. Manuel, vários ministros, a imprensa, representantes das principais colectividades industriais, comerciais e agrícolas do País, e representantes de todas as classes sociais e do alto funcionalismo.

Edifício da Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias da Nova Companhia Nacional de Moagem |c. 1910|
Avenida 24 de Quatro do Julho, entre a Rocha do Conde de Óbidos e a Avenida Infante Santo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Nova Companhia Nacional de Moagem, de acordo com a revista O Occidente — o primeiro estabelecimento fabril do País em 1910 — agrupava um conjunto de dezassete fábricas, de «capital social e nacional de 4 914 9005000 de réis» Esta revista considerou a abertura da nova fábrica uma grande manifestação de iniciativa particular, em benefício do progresso e da riqueza pública em Portugal, um «acontecimento de maior importância como tudo quanto é grande e belo, onde o capitalismo e a inteligência se completam realizando o verdadeiro progresso que resulta desta feliz combinação»

Edifício da Fábrica de Moagem da Nova Companhia Nacional de Moagem |1910|
Avenida 24 de Quatro do Julho, entre a Avenida Infante Santo e a  Rocha do Conde de Óbidos
in O Occidente

A Nova Companhia Nacional de Moagem detinha o oitavo lugar (em capital) no complexo comercial e industrial da metrópole em 1910, e o quinto lugar sete anos mais tarde. Com a implantação da República, esta companhia estará na origem da criação, em 1919, do poderoso cartel da Companhia Industrial de Portugal e Colónias.

Enquadramento dos edifícios da Fábrica de Moagem (1) e da Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias (2) da Nova Companhia Nacional de Moagem |1934|
Avenida 24 de Quatro do Julho; ao centro, entre as duas fábricas, vislumbra-se a Igreja São Francisco de Paula
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 Legenda no arquivo: «A esquadra inglesa, à sua chegada a Lisboa»

Bibliografia
O Século, 18 de Junho de 1910.
O Occidente, 30 de Julho de 1910.

Friday, 7 March 2025

Lojas de Antanho: F. H. D' Oliveira & C.ª (fund. 1895)

Por delib. da Câmara de 09/09/1878 e edital de 13 do mesmo mês e ano, foi dada a denominação de Rua 24 de Julho à parte do aterro ocidental construída no prolongamento daquela Rua, que começando na praça de D. Luís terminava no caneiro de Alcântara.

«F. H. D' Oliveira & C.ª (Irmão)» Casa fundada em 1895, loja de madeiras e materiais de construção e cantaria.
Madeiras nacionaes e eetrangeiros. Cantarias lagedoe e cascõcs. Fábticas de cal, ladrilhos. mosaicos, polvora e exploração de pedreiras no AIvito - Aleantara e Paço d'Arcos. Exportação para Africa,Bratzil eIlhas.  Escrpitório, Rua Vinte e Quatro de Julho,. 632.

Lojas de Antanho: F. H. D' Oliveira & C.ª  fund. 1895  |c. 1909|
Antiga Rua Vinte e Quatro de Julho, 630-632, a
ctualmente Avenida 24 de Julho, 150-152.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Em 2 de Janeiro de 1931 muda de ramo de negócio com a inauguração de um novo stand como representante dos automóveis "De Soto" e camiões "Fargo".

Avenida 24 de Julho |1965|
Enquadramento do edifico n.º 150-152 junto ao cruzamento com a Av. Infante Santo"Hotel Residencial Infante Santo" inaugurado em 1957, propriedade da firma F. H. D' Oliveira.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Friday, 7 February 2020

Rua Tenente Valadim, à Pampulha

Esta Rua Tenente Valadim que celebra a memória de um oficial sacrificado nas guerras de África 1890, leva à Avenida 24 de Julho [vindo da Calçada Pampulha]; não tem meio século [...]
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 56, 1938)

Eduardo António Prieto Valadim nasceu em Lisboa a 13 de Junho de 1865. Entrou para o Colégio Militar em 1876 com o nº 132. Oficial do Exército, distinguiu-se nas campanhas de África do final do século XIX, em Moçambique. Morreu decapitado pelo régulo Mataca, no Niassa, em Moçambique, em Janeiro de 1890, quando se preparava para içar a bandeira portuguesa numa povoação daquela província ultramarina a fim de assegurar a soberania nacional.

Rua Tenente Valadim, à Pampulha |1939|
[Este troço está hoje integrado na Av. Infante Santo]
No cruzamento com a Rua do Sacramento A Alcântara e Calçada Pampulha: ao centro, entre o casario, vislumbra-se a futura Av. Infante Santo, rasgada no final da década de 1940.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 21 April 2024

Hotel Aviz (Palacete Silva Graça)

Já agora, anotemos o luxuoso Hotel Aviz, que se contém no quarteirão que segue para Sul — sugere o ilustre Norberto de Araújo.

Foi aqui o palacete que o director de «O Século», José Joaquim da Silva Graça, fez levantar em 1904 (desenhado para habitação pelo arq.º Ventura Terra), para sua moradia particular. Em 1919 José Rugeroni, genro de Silva Graça, adquiriu este palacete ao mesmo tempo que comprava «O Século»; em 1931 decidiu José Rugeroni converter o palacete, com seus jardins e anexos, num hotel de luxo.
O edifício foi então radicalmente transformado, segundo a orientação do seu proprietário, com o qual colaborou o arquitecto Vasco Regaleira
O Hotel, cujo levantamento só foi possível com o auxilio financeiro da Caixa Geral de Depósitos, foi inaugurado em 24 de Outubro de 1933.


Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
Av. Cinco de Outubro com a Av. Fontes Pereira de Melo
Na fachada destaque para a enorme águia de asas abertas.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
 O palacete do antigo jornalista Silva Graça situava-se entre as ruas de Tomás Ribeiro,
Viriato, Latino Coelho e Avenida de Fontes Pereira de Melo.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

O Hotel está recamado de arte na construção e decoração de sentido histórico no seu ambiente; é possível que pareça pretensioso, mas resultou bem o risco, até pela solução de vários problemas, nos quais a intenção e o bom gosto se poderiam chocar.

Um «hall» vistoso introduz num salão «Renascença» — grande vestíbulo — no qual se vê, à direita, um fogão, tipo de lareira portuguesa, com ricas colunas de madeira lavrada, peça que adveio da Vila de Santo António, à Junqueira, que pertenceu aos Burnays; sobre ele se colocou um brasão da Casa de Aviz. Do lado oposta vê-se um belo armário « Renascença», exemplar seiscentista que estava no Convento das Trinas; anota aquela formosa porta monumental ao fundo, e a balaustrada de ferrageria portuguesa antiga, peça que pertenceu à capela do Convento de Sacavém. Evidentemente todos estes exemplares beneficiaram de restauro. As sobreportas ostentam as armas e as divisas dos infantes da Ínclita Geração.

Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
 Vestíbulo no qual se vê, à direita, um fogão, tipo de lareira portuguesa e balaustrada de ferrageria portuguesa antiga.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Hotel Aviz (Palacete Silva Graça) |c. 1960|
 Salão «Renascença».
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

A Sala de Leitura, com mobiliário de estilo alentejanos, o «bar», no qual se notam baixos relevos históricos de Diogo de Macedo, e um sentido original no mobiliário, os terraços decorados com azulejos de tipo hispano- -árabe - definem já o « carácter e a fisionomia do Hotel.
As dependências e quartos, no primeiro pavimento, designam-se por «Suites», ou melhor — por correntezas — , que tomaram os nomes dos reis e príncipes da Casa de Aviz: D. João I, D. Filipa de Lencastre, D. Duarte, D. Pedro «Regente», Infante D. Henrique, Infante Santo e Infante D. João. As guarnições interiores dos aposentos são ricas, como arte aplicada. 
A Sala de Jantar situa-se no primeiro pavimento, abrindo dos jardins; há que destacar nela um grande painel de azulejos (Leopoldo Batistini) que reproduz uma das tapeçarias portuguesas de Pastraña (Espanha), além de outras decorações artísticas, de sentido histórico e etnográfico.
 
Como viste, o Hotel Aviz não está mal; este, e o Palace do Bussaco, constituem os dois únicos espécimes de hotel de luxo em Portugal.¹

Palacete Silva Graça depois Hotel Aviz  |c. 1905|
Perspectiva tirada do cruzamento da Av. Cinco de Outubro com a Rua Pinheiro Chagas na direcção da Av. Fontes Pereira de Melo. Do lado esq. nota-se o muro da Casa-Museu Doutor Anastácio Gonçalves, antiga Casa Malhoa.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Palacete Silva Graça depois Hotel Aviz |c. 1908|
Perspectiva sobre os jardins do Palacete Silva Graça vendo-se a Av. Cinco de Outubro à dir. e a Rua Viriato à à esq...
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. O quarto número 72, com uma casa de banho extraordinária, ficou conhecido pelo Quarto Eva Perón; noutras épocas recebeu também Cecil B. DeMille. Além destes, passaram por lá Mastroianni, Sinatra, Ava Gardner, Maria Callas e outros. Calouste Gulbenkian viveu e morreu neste Hotel.
Durante a Grande Guerra também espiões alemães foram frequentemente instalados no Aviz, como o famoso Dusko Popov, e membros de famílias reais, como Humberto II de Itália, o futuro rei Juan Carlos de Espanha e o ex-rei da Roménia, Carol. Este último tinha abdicado do trono romeno sob pressão alemã, em 1940. Como estava sempre a ser seguido por membros da Gestapo durante a sua estadia no Aviz, nunca deixou o hotel antes de se mudar para a Casa Mar e Sol, no Estoril.
Hotel Aviz foi também o local do lendário jantar do duque de Windsor − antigo rei Eduardo VIII de Inglaterra − e da sua esposa Wallis Simpson. O jantar teve lugar a 30 de Julho de 1940, no dia anterior à sua partida a bordo do Excalibur para as Bahamas, onde lhe foi atribuído o cargo de governador por Winston Churchill. Os serviços secretos alemães planeavam raptar o duque, que simpatizava fortemente com a Alemanha nazi, nessa mesma noite. Mas os serviços secretos britânicos descobriram a Operação Willi e a trama nazi falhou.²
Demolido em 1962 erguem.se no seu lugar o “Edifício Aviz e o “Hotel Sheraton”.
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Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 81-82, 1939.
² LANGENS, Joke, Lisboa em 10 Histórias, 2022.
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