Demolido o Passeio Público em 1886 para dar lugar à abertura da Avenida da Liberdade, esta foi durante algum tempo o espaço de passeio da pequena burguesia lisboeta e da “gente operária endomingada".
Em 1910, André Brun descreve desdenhosamente a frequência da Avenida nestes termos: “Ao domingo a Avenida é a montra de um bazar de quinquilharias baratas. Todo o alfacinha de meia-tigela que não tem vintém para ir aos divertimentos caros que a cidade oferece {...] aflui à Avenida”. Uns vão para o pavilhão da música, outros para o quiosque dos refrescos. Quem tem “um vintenzinho para a cadeira fica de um lado; a pelintragem bravia, do outro. Quando acaba o fungagá, a gente das cadeiras desce a Avenida com toda a coragem. A outra, que está de pé em volta do coreto, se a desce é pelas ruas laterais. Pelo meio não se atreve. Imaginem: gente operária endomingada, muita soldadesca que vem atrás da banda, caixeirada de meia tigela...". Apenas num talhão correspondente ao Teatro Avenida se pode encontrar alguém do “Carnet Mondain - registo azul” (Brun, 1999, p. 66-73). Se a pequena e média burguesia — homens e mulheres — passeava na Avenida, os trabalhadores e operários dos bairros populares optavam pelas hortas, como acima se referiu, ficavam em casa, ou iam aos espectáculos populares como a tourada, mas sozinhos, sem as mulheres.
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Avenida da Liberdade (N-S )em terra batida |1905| João Ribeiro Cristino da Silva, litografia colorida, Suplemento ao o° 488 da Mala da Europa Museu de Lisboa, in Lisboa de Antigamente |
Ramalho Ortigão retratou assim essa diferença no uso da cidade e dos seus diverti mentos entre os grupos sociais: “Ide à Baixa ao domingo à tarde. Encontrareis os prédios fechados e desertos: as mulheres dos lojistas foram passear com os maridos. Ide aos bairros de Alcântara ou à Mouraria nos mesmos dias: todas as mulheres estão nas suas pequenas casas, às janelas ou às portas, numa inação desconsolada e abatida. E não encontrareis um homem. Vede pelo contrário os divertimentos populares a trincheira do lado sol na praça de touros: não há uma mulher.” (Ortigão, 1992, p. 143-144). É também na segunda metade do século XIX, ainda que com raízes no século anterior, que um outro tipo de passeio associado à vida de café, aos teatros públicos e ao novo comércio de lojas se instala. Ia-se apanhar o fresco do entardecer ou da noite, e admiravam-se as fachadas, as luzes e o movimento dos cafés e teatros, as montras das lojas com as suas mercadorias (Lousada, 2004, p. 104-5).
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Avenida da liberdade (S-N) |post. 1886| Robert Kãmmere,, in Lisboa de Antigamente |
N'um claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio Público pacato e frondoso — um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço côr d'assucar na vibração fina da luz de Inverno: e os largos globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar. Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados prédios, lisos e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa «da uma», ouvindo a Banda, com casimiras e sêdas, no catitismo domingueiro.==(Eça de Queiroz, ln Os Maias, 1888)
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O Passeio Público de Lisboa (entrada S.) |c. 1843| Com o início da construção em 1764, o Passeio foi traço do arq. Reinaldo Manuel e conheceu durante os seus cento e dezoito anos de vida duas épocas claramente distintas. até 1836, o Passeio era unicamente um bosque, ladeado de altos muros revestidos pela parte interior de buxo e de louro, com quinze janelas de grade de cada lado, que lhe davam o resguardo necessário e de tradição. Litografia colorida de Legrand, (Lith. de M.el Luiz),, in Lisboa de Antigamente |
Relíquia de gravuras, parabéns pela postagem
ReplyDeleteA nossa Lisboa de outras vidas.
ReplyDeleteLindo panorama. Bom dia minha linda e querida Lisboa.
ReplyDeleteMe arrependi de ter ficado poucos dias, recomendo mais de 15.
ReplyDeleteLisbon is incredibly beautiful. From stunning architecture to picturesque miradouros (or viewpoints), there's something for everyone to appreciate.
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