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Sunday, 10 December 2023

Panorâmica do Martim Moniz

Em 1908 o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915.
Na década de 90 do século XX, a edilidade lisboeta procurando preservar a toponímia mais histórica e tradicional da zona, ao arruamento já conhecido vulgarmente por Largo do Martim Moniz – situado entre a Rua da Palma e a Rua do Arco do Marquês de Alegrete - atribuiu o topónimo Rua Martim Moniz, por Edital de 30 de Abril de 1991.

Panorâmica do Martim Moniz |1976|
Miradouro de Nossa Senhora do Monte

Francisco Leite Pinto, in Lisboa de Antigamente

Passados 6 (1997) anos e concluída a recuperação urbana desta zona levada a cabo pela Câmara Municipal de Lisboa, determinou esta que o espaço delimitado pela Rua da Senhora da Saúde, Rua Fernandes da Fonseca, Rua da Palma e Rua do Arco do Marquês de Alegrete, onde se situava também a Rua Martim Moniz se passasse a denominar Praça Martim Moniz.

Panorâmica do Martim Moniz |1976|
Francisco Leite Pinto, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 12 March 2017

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete

O Palácio do 1º Marquês de Alegrete, que o mandou construir em 1694, e ali existiu até 1946 junto à porta de São Vicente da Mouraria. Arruinado pelo terramoto de 1755, deixou de ser habitado pelos seus proprietários e foi alugado a modestos inquilinos que ali fizeram estabelecimentos comerciais e industriais.
Tinha o palácio três frentes, duas para locais já desaparecidos: o Largo Silva e Albuquerque e a Rua Martim Moniz, e a terceira para a Rua da Mouraria. Em 1946 foi demolido para dar lugar à actual Praça Martim Moniz.


O velho Palácio do Alegrete que teve certa aura na Lisboa de setecentosrelembra o olisipógrafo Norberto de Araújo —, é hoje [1938] uma ruína, pouco mais que um pardieiro, condenado à demolição, mas onde estão instalados ainda estabelecimentos de vária natureza e casas de habitação.

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete  |ant. 1946]|
Rua da Mouraria e Rua Martim Moniz (à dir.); ao  fundo a Calçada do Jogo da Pela.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Palácio (arco) do Marquês de Alegrete, portal brasonado |1907|
Rua da Mouraria
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Tem a forma de um rectângulo contido entre a Rua da Mouraria [1ª foto] (junto ao Arco, onde avulta ainda o portal brasonado dos Sylvas, entrada hoje [1938] de uma serralharia), a Rua Martim Moniz (onde existe um portal do antigo tipo arquitectónico), a Rua da Palma, agora em muro raso (desde que em 1935 foi demolido o prédio da Ourivesaria Cunha, que se encostava a este topo do palácio) e o Largo de Silva e Albuquerque [3ª foto], antiga Rua dos Canos (onde na fachada se rasgam dois portais também do tipo dos antecedentes). 
O Arco, sobre o qual assentam dois andares, cada um com sua janela, pertence ao prédio da Rua do Arco do Marquez do Alegrete, que se lhe encosta, e que é propriedade também da família dos Condes de Tarouca [Teles da Sylva].

Palácio do Marquês de Alegrete  |1946|
Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Palácio do Marquês de Alegrete |194.|
Rua Martim Moniz (à esq,); Praça Martim Moniz (antes das demolições)
Filmarte, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 78, 1938.

Sunday, 17 March 2024

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria

Na Baixa da Mouraria, onde o passado e o presente se entrelaçam, encontramos o Martim Moniz, encravado entre o Borratém, a Rua da Mouraria, o começo da Rua da Palma, a encosta que leva ao Hospital de S. José, o início da Rua de S. Lázaro e as traseiras de S. Domingos. Com as demolições na Baixa da Mouraria, parte da Rua da Palma foi derrubada e, com ela, o velho Teatro Apolo, antes chamado do Príncipe Real (D. Carlos), apenas pouparia o bairro da Mouraria e a Ermida de Nossa Senhora da Saúde.

A ocupação humana deste lugar remonta a 8 mil anos atrás como povoado neolítico da encosta de Sant ' Ana, situado na margem do Regueirão dos Anjos, no vale da Mouraria. Porém, somente a partir da Idade Média a fixação humana neste local se tornou mais significativa. No século XIV a área correspondente à praça actual era atravessada pela Cerca Fernandina (1373-1375), estrutura muralhada que delimitava a cidade e da qual ainda hoje restam vestígios na zona, como a Torre do Jogo da Péla.

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria |c. 1949|
Actual Praça de Martim Moniz
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG)

A intenção de unir o núcleo histórico à cidade em expansão, e as medidas higienistas e embelezadoras do regime político de então, determinaram as demolições empreendidas nas décadas de 40 e 50 do século XX. Desaparecia uma dezena de ruas, becos e pátios e com eles uma parte significativa da memória da cidade.

Antiga Rua Martim Moniz antes das demolições efectuadas na Baixa da Mouraria |c. 1949|
Actual Praça de Martim Moniz
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local e a data da foto não estão identificados no arquivo (FCG)

Sunday, 7 July 2024

Arco do Marquês do Alegrete, ao Martim Moniz

Ora aí temos o Arco do Marquês do Alegrete — diz Norberto de Araújo — no aspecto de 1674, ano em que foi transformada a velha porta de S. Vicente da Mouraria, assim chamada ainda em 1554. Intitula-se do Marquês do Alegrete, porque a ele se encostou o palácio construído pelo Conde de Vilar Maior, antecessor da Casa dos Alegretes, depois Penalvas e Taroucas (Teles da Sylva).
 
 
O boletim trimestral — Olisipo do grupo de Amigos de Lisboa — , apurou em Abril de 1945: «Passam por hora sob o Arco do Marquês de Alegrete: mais de 100 eléctricos, 200 automóveis, 6000 pessoas a pé e muitos caminhões. Apesar de algumas dúvidas nas quantidades, sobretudo no exagero de tantos eléctricos por hora quando competiam num buraco de agulha, além da multidão, com «caminhetas e carretas», cito o rol feito pelo olisipógrafo Luís Pastor de Macedo — a quem vamos sempre seguindo.

Arco do Marquês do Alegrete, ao Martim Moniz |1946|
Arco do Marquês do Alegrete
 — durante as demolições na Mouraria; Salão Lisboa
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A tradição conta-nos que Martim Moniz era um dos cavaleiros de D. Afonso Henriques que em 1147, na conquista de Lisboa, se atravessou numa porta da muralha do Castelo dos Mouros, impedindo o seu fecho e, sendo de imediato morto pelos sitiados enquanto garantia a abertura necessária para a entrada dos exércitos cristãos conquistarem a cidade.
Em 1908 o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915. Contudo, as alterações urbanísticas do local iniciadas a partir da década de 30, a pretexto de ligar a Avenida Almirante Reis ao Rossio, acabaram por fazer desaparecer o Mercado da Figueira, parte da Mouraria e este arruamento.

Arco do Marquês do Alegrete, ao Martim Moniz |1945|
Arco e Palácio do Marquês do Alegrete e Salão Lisboa
André Salgado, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em 1961 foi finalmente empreendida a controversa destruição do Arco do Marquês de Alegrete, o último resquício das portas da Cerca Fernandina, a Porta da Mouraria, e recordado em versos:

Arco do Marquês de Alegrete
O quadro ilustra bem
Uma imagem que morreu
Será que existe alguém
Que este passado viveu?
Era palácio e cinema
Eléctricos, engraxadores
Eis a leitura do tema
Ao Arco dos meus Amores.
(Baguinho: 1999)

___________________________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 78-79, 1938.
MENEZES, Marluci, Mouraria, Retalhos de Um Imaginário: Significados Urbanos de Um Bairro de Lisboa, 2023.
FERNANDES, José Ferreira, Martim Moniz - Como o Desentalar e Passar a Admirar, 2024.

Friday, 29 August 2025

Praça do Martim Moniz: os vendedores de manjericos e o Mundial

A tradição conta-nos que Martim Moniz era um dos cavaleiros de D. Afonso Henriques que em 1147, na conquista de Lisboa, se atravessou numa porta da muralha do Castelo dos Mouros, impedindo o seu fecho e, sendo de imediato morto pelos sitiados enquanto garantia a abertura necessária para a entrada dos exércitos cristãos conquistarem a cidade.
Em 1908, o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915. Contudo, as alterações urbanísticas do local iniciadas a partir da década de 30, a pretexto de ligar a Avenida Almirante Reis ao Rossio, acabaram por fazer desaparecer o Mercado da Figueira, parte da Mouraria e este arruamento. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

 Praça do Martim Moniz |1961|
Venda de manjericos.
Augusto de J. Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Quando o Hotel Mundial foi inaugurado, em 1958, tinha o lobby virado para as traseiras da Igreja de São Domingos e para a Barros Queirós, ruela muito comercial que leva ao Rossio. Depois, o Mundial expandiu-se, quase ocupou o quarteirão, triplicou os quartos e abriu-se para o Martim Moniz. {Fernandes: 2024]

Praça do Martim Moniz |1964|
Festas populares de Junho: venda de manjericos junto ao Hotel Mundial.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 1 August 2021

Ermida da Saúde

Eis-nos, agora, diante da Igreja de N. Senhora da Saúde, a da famosa procissão que constituía um dos encantos populares religiosos de Lisboa do século passado [XIX], e que perdurou até à República. 

Neste sítio se elevava no século XVI, logo no começo (1506), uma ermida da invocação de S. Sebastião, advogado contra as pestes, construção que foi da iniciativa dos artilheiros da guarnição de Lisboa.
Em 1596, por deliberação do Arcebispo D. Miguel de Castro, a igrejinha converteu-se em paroquial de S. Sebastião (da Mouraria), desanexada da de Santa Justa, e assim o bairro tomou independência como freguesia. (...)

Ermida de Nossa Senhora da Saúde [190-]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
José Artur Bárcia,
in Lisboa de Antigamente
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Procissão de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

A sede da paróquia em 1646 foi levada para a Igreja do Socorro; a actual Igreja da Saúde continuava a chamar-se de S. Sebastião, sem honras de Paroquial, mas muito mais representativa. 
Só em 1662 a Igreja de S. Sebastião passou a chamar-se de N. S. da Saúde, quando a imagem foi transferida do Colégio de Jesus [ou dos Meninos Órfãos], de que te falei, aqui a dois passos, para a actual «residência». E de Nossa Senhora da Saúde passou a ser até hoje [1938]. S. Sebastião esqueceu.
Pelo Terramoto o templo recebeu dano, mas pouco, porque logo dois anos depois estava restaurado e aberto ao público.»
A Ermida — melhor é classificá-la assim — constitui um dos restos piedosos de Lisboa velha, embora os artilheiros hoje já se não preocupem com a devoção. Oferece uma certa ingenuidade; lembra uma capela de aldeia, pois não lembra?

Tem uma só nave, e mais não precisa. Os altares laterais são os de Nossa Senhora piedade e de Cristo Crucificado, e as imagens são em pintura e não escultura, obra do pintor setecentista António Machado Sapeiro. Na capela-mor vês as imagens de Santo António, S. Sebastião, de roca, e sempre muito alindada. O retábulo que notas é do escultor Brás de Oliveira. São interessantes os azulejos oitocentistas da Igreja.

Aí tens, Dilecto, o que é a Igreja de que falam os versos de um fado, até há dois anos, muito em voga:
Há festa na Mouraria
é dia da Procissão
da Senhora da Saúde...
Ermida de Nossa Senhora da Saúde [ant. 1910]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
Saída do andor com a imagem de Nossa Senhora da Saúde
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

Mas na Mouraria, hoje, já não há procissão. A procissão da Saúde era dos mais curiosos espectáculos da Lisboa religiosa, com um carácter diverso da dos Passos e da do Corpo de Deus ou S. Jorge.
A primeira vez que se realizou foi em 20 de Abril de 1570. A última em 20 de Abril de 1910. Saia de manhã cedo da Mouraria, ia à Sé onde se cantava um Te-Deum, e depois a S. Domingos, onde havia sermão. Recolhia ao entardecer à Mouraria — e era de ver-se.
Na procissão iam as três imagens citadas, de S. Sebastião, dos Artilheiros, e da Saúde, ambas da mesma confraria, e a de Santo António que andou sempre ligado a S. Sebastião aqui no bairro, de outra irmandade. Música religiosa, bandas militares, filarmónicas locais; foguetes, sinos, alarido típico do sítio; «anjinhos», soldados vestindo capa vermelha sobre a farda, e, nos seus últimos trinta anos, o Infante D. Afonso, como figura de destaque, simpática ao povo. O Capelão, a Amendoeira, o Outeiro, o Coleginho, os Álamos, despejavam-se sobre a Mouraria: quadro de costumes lisboetas dos mais sugestivos que pode imaginar-se, sem a grandeza da procissão do Corpo de Deus, nem a compostura fidalga da dos Passos da Graça — plebeia, original, bairrista, enternecedora.

Enquadramento da Ermida da Saúde na Pç. do Martim Moniz depois das demolições na Mouraria [1949]
A igreja actual é de pequenas dimensões e data do século XVIII. É um símbolo da arquitectura religiosa barroca embora a sua fachada principal e simples seja atribuída ainda ao mestre João Antunes dos inícios de 1700. 
Artur Pastor[?], in Lisboa de Antigamente

N.B.  Os artilheiros da Guarnição de Lisboa, denominados por bombardeiros, mandaram erguer em 1505, uma pequena ermida dedicada a São Sebastião, padroeiro e advogado da peste, em cumprimento da promessa feita ao mártir pelo fim da epidemia que nesse ano se estendeu por toda a cidade e que matou muitos habitantes.
Em Outubro de 1569, o rei D. Sebastião devido a mais um surto epidémico que matou milhares de pessoas, pede ao Senado da Câmara de Lisboa a construção de uma igreja maior, consagrada a São Sebastião, e em Dezembro, ordena que a sua edificação seja efectuada na Mouraria perto do local da antiga ermida.

Ermida de Nossa Senhora da Saúde, interior [1902-01-25]
Praça do Martim Moniz; Rua da Mouraria
O culto a Nossa Senhora da Saúde é muito importante na cidade de Lisboa e anualmente realiza-se a procissão em agradecimento e protecção à Virgem, tradição que se mantém desde o século XVI.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, pp. 76-77, 1938.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa, 1.ª ed., Sacavém, Carlos Quintas & Associados – Consultores, 1994, pp. 874-876.

Sunday, 6 April 2025

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São Sebastião da Mouraria»

No final do Século XVI, em 1596, foi iniciada a construção da igreja da paróquia de São Sebastião da Mouraria e que viria a ser mais tarde, em 1646, renomeada para Nossa Senhora do Socorro, acabando por se tornar mais tarde na Igreja do Socorro (demolida em 1949, sensivelmente onde está agora o Centro Comercial do Martim Moniz).


Como era costume na época, a expansão urbana desenvolvia-se organicamente sem grande plano em torno dos edifícios importantes. Também na Mouraria, clero e nobreza mandaram construir uma série de edifícios de maior porte, entre eles, em 1505, a Ermida de S. Sebastião, mais tarde designada por Capela de Nossa Senhora da Saúde (no Largo do Martim Moniz, entre a Rua da Mouraria e a Rua Nossa Senhora da Saúde). (Rodrigues, 1970: 106)]
Depois de 1496, a população muçulmana foi substituída por outra cristã, que “invadiu o arrabalde, enchendo-o de templos, de ermidas, de procissões e nichos, com seus cultos e devoções” (Ribeiro, 1907). De salientar a procissão de devoção à Nossa Senhora da Saúde, iniciada no ano de construção da Ermida do mesmo nome, em1505, que é ainda actualmente celebrada todos os anos, no mês de Maio. 

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |c. 1910|
Rua de São Lázaro com Rua da Palma ao fundo e, nela, o Teatro Apolo.
Ourivesaria do Socorro
Igreja do Socorro

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |c. 1910|
Rua da Palma co Rua de São Lázaro.
Ourivesaria do Socorro; Igreja do Socorro.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A paróquia de Nossa Senhora do Socorro foi desmembrada da de Santa Justa ao tempo em que era arcebispo de Lisboa D. Miguel da Costa. Teve o seu orago na ermida de S. Sebastião na Mouraria, que era dos artilheiros, pelos anos de 1596, e passou a chamar-se freguesia de S. Sebastião da Mouraria. Construído em 1646 outro templo maior, foi para ele transferido o Santíssimo Sacramento e a imagem de Nossa Senhora do Socorro, que lhe deu o nome. 
[COSTA, António Carvalho da Corografia Portuguesa, III, p. 104]

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |c. 1940|
Rua da Palma
Mário Novaesin Lisboa de Antigamente

N.B. Veja-se também o Cartório Paroquial da Igreja do Socorro, com 24 maços que entraram no ANTT em Janeiro de 1951.Ali se encontram muitos papéis da Irmandade do Santíssimo Sacramento ( Certidões de missas e patentes de admissão) , da Irmandade do Senhor Jesus da Compaixão ( Requerimentos e receitas e despesas), da Irmandade das Almas (Certidões de missas e despesas) e da Irmandade de Nossa Senhora da Igreja do Socorro (Assentos das obrigações de missas nas capelanias), todos referentes aos séculos XVIII e XIX, e ainda por tratar do ponto de vista arquivístico.

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |Inicio séc. XX|
Panorâmica tirada da encosta da Senhora do Monte.
José A. Bárciain Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Gésero, Paula, Configuração da paisagem urbana pelos grupos imigrantes: o Martim Moniz na migrantscape de Lisboa, 2014.
SERRÃO, Joel, Roteiro de Fones da História Portuguesa Contemporânea, 1984 , vol. I , pp . 124-125.

Friday, 8 July 2016

Rua da Palma

(...) deslizavam carros eléctricos pintados dum amarelo ovo magnificente. E a tilintada surpreendia o meu ouvido...

(AQUILINO, Aquilino, Lápides Partidas)

 

Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes, multiplicam-se em indústrias, operários, vidas, realidades, tudo. Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.

(Bernardo Soares/Fernando Pessoa. (1888-1935). Livro do Desassossego)

Panorâmica da encosta do Castelo, a partir da Rua da Palma [1949]
Antes das demolições da Mouraria; cruzamento com a Rua Fernando da Fonseca; antigo Teatro Apolo.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma [1949]
Antes das demolições da Mouraria; cruzamento com a antiga Rua Martim Moniz [Guia]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
 
Norberto de Araújo recorda-nos a origem do topónimo Palma: «Esta Rua, desafogada, hoje constituindo uma única artéria, das traseiras de S. Domingos ao Intendente, divide-se em dois troços. O primeiro chega só à Guia [actual Pç. de Martim Moniz, vd. foto abaixo] e é muito antigo, havendo sido nos séculos velhos arruamento dos comerciantes alemães que cultivavam religiosamente a lenda da palma que florira na sepultura do cavaleiro cruzado Henrique, sacrificado na Tomada de Lisboa, em 1147; foi rua sempre estreita, muito mais do que hoje é, bastante mercantil, caracterizada pelos negócios de ourives e prateiros. »
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. IV, pp. 24-25)
 
Rua da Palma [1921-12-25]
Antes das demolições da Mouraria; trânsito caótico em Domingo de Natal.
C. Salgado, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma [finais da década de 1950]
Depois das demolições da Mouraria; Av. Almirante Reis.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 28 March 2025

A Rua do Benformoso que foi do «Boi-Formoso» e «de Bemfica»

A Rua de Bemfica é noticiada desde o século XIV e tudo indica que a sua localização era neste local. Coloca-se a hipótese, considerada por muitos como plausível, de esta rua ter sido posteriormente chamada por Rua do Boi Formoso, derivando daí a sua atual designação de Rua do Benformoso  [Azevedo 1900]
Os poucos casos estudados, um total de nove habitações, deram a entender que as casas tinham uma área correspondente a 11,29m2 e a 36,3m2, sendo muito menores do que as das mourarias situadas a norte do Tejo. [Coelho 1996]

Rua do Benformoso, 109-113 |1902|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da 
Mouraria (séc. XVI)
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Rua do Benformoso, 109-113 |1902|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da 
Mouraria (séc. XVI)
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente




























Os limites da Mouraria não se podem por enquanto, determinar exactamente. Pelo sul ficava a meio da encosta do Castello, pelo poente era limitada pela rua direita da porta de S. Vicente, hoje chamada da Mouraria, e pelo nascente não passava alem da entrada da rua da Amendoeira. Da parte norte ainda é maior a dúvida, porque era aqui onde se encontravam os almocavares dos judeus e dos mouros, os quaes terrenos foram depoes cortados por diversas ruas, ao que parece. […] Do lado poente o bairro dos mouros não passava das modernas ruas da Mouraria e da rua do Benformoso. [Azevedo 1900: 270-271]

 

 
Rua do Benformoso, 101-117 |1902|
Antiga do Boy Formoso, antes Rua Direita da
Mouraria (séc. XVI)
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
 
Rua do Benformoso, 109-113 |1939|
Une maison rouge! A grandir à peu
prés comme épreuve! 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente











 

A casa mais antiga da Rua do Benformoso [v.d prédio ao centro nas imagens acima] é um edifício pertencente à denominada "Arquitectura Popular", a sua construção efectuou-se, sensivelmente, entre os séculos XVI e XVII.
De planta longitudinal, formando um trapézio irregular, este prédio possuí quatro pisos, encontrando-se os dois primeiros apartados por um diminuto pé-direito. É, aliás, no segundo piso que a sua metade esquerda apresenta janela de sacada com guardas de estrutura férrea e gradeamento de rótulas de madeira, enquanto que a outra metade encontra-se rasgada por uma fresta e um óculo. Cadência esta que vemos repetir-se ao nível dos outros dois pisos. O telhado de duas águas encontra-se sustentado por uma trave de madeira que, por seu turno, se apoia em mísulas.

Rua do Benformoso, 194 |1902-05|
Regra geral, os edifícios da Mouraria não eram muito diferentes dos seus
contemporâneos medievais, à excepção de algumas casas térreas que possuíam um
quintal fronteiriço.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Em paralelo às gentes dos ofícios e serviços e ao baixo nível socioeconómico da população, a Mouraria rapidamente se tornaria um bairro “mal afamado” e “tempestuoso” por causa da gente de “vida parasitária” e das “desordeiras”, sendo exemplo dessa condição as prostitutas e o tipo fadista. Na Lisboa boémia, a Mouraria teria um lugar cativo com as suas...

“casas suspeitas, os hotéis para pernoitar, com a sua tradicional lanterna de luz frouxa, os seus cantos e recantos que protegem baixas aventuras, as estalagens das lavadeiras saloias, os vendedores de elixires maravilhosos que pregam ao domingo, a infabilidade dos seus medicamentos nos largos do bairro; e ainda o formigar de gente baixa pelas ruelas da encosta, o Capelão, João do Outeiro e Amendoeira, tudo nos ajuda a invocar o quadro cheio de cor deste bairro popular, onde ainda se vê nas mais sujas serventias o nicho, devoto, o registo dos azulejos com St António ou S. Marçal, e um ou outro pormenor arquitectónico dos tempos idos. […] Esta história animada e pitoresca ainda hoje se reflecte na fisionomia gritadora do antigo arrabalde cedido aos muçulmanos vencidos.” 
[Guia de Portugal 1924]

Rua do Benformoso  |1925|
 Em finais do século XIX instalaram-se na Mouraria famílias ligadas à aristocracia
e à burguesia, dessa vez ocupando o troço final da
Rua do Terreirinho e da Rua do Benformoso com edifícios de traça arquitectónica
de mais qualidade e com maiores dimensões ao inverso das habitações populares.

Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), in BNP

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 12-14, 1938.
MENEZES, Marluci, Mouraria, Retalhos de Um Imaginário: Significados Urbanos de Um Bairro de Lisboa, 2023.
FERNANDES, José Ferreira, Martim Moniz - Como o Desentalar e Passar a Admirar, 2024.
MESQUITA, Alfredo. Lisboa, pp. 526-527, 1903.

Friday, 20 December 2019

Rua José António Serrano que foi Cç. do Colégio

Colégio (Calçada Nova do) — Esta categoria foi acompanhada do sufixo «Nova», para diferençar a via pública a que está aplicada a denominação correspondente, de outra que a teve igual, e hoje é denominada «José António Serrano» , com a categoria de Rua.
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935)

Rua José António Serrano |1951|
Antiga Calçada do Colégio
Do lado esquerdo, o antigo Largo (e rua) do Socorro demolidos para urbanização
e rectificação da Rua da Palma e posterior abertura da Praça Martim Moniz na década de 1950.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Com a legenda «Doutor Tratadista, Osteólogo, 1851–1901» foi o nome de José António Serrano fixado na que era a Calçada do Colégio, por deliberação camarária de 6 de Dezembro de 1906.
José António Serrano (1851-1904), foi Lente da Escola Médica e o primeiro cirurgião português que obteve a cura de um tumor sólido do ovário (por meio de laparatomia, em 1889) e a realizar uma histerectomia abdominal. Defendera tese em 22.12.1875 e três anos depois foi nomeado preparador e conservador do Museu de Anatomia da Escola sendo também cirurgião do Banco do Hospital de São José e, a partir de 1895, director de enfermaria do Hospital do Desterro bem como, em 1901, director da Repartição de Estatística do Hospital de São José. Foi lente substituto em 1880 de Anatomia Descritiva e lente proprietário em 1889, para além de ter regido na Escola de Belas Artes a cadeira de Anatomia Artística e Higiene de Edifícios. As suas obras essenciais foram «Manual Sinóptico de Anatomia Descritiva» e «Tratado de Osteologia Humana». [cm-lisboa.pt]

Rua José António Serrano |ant. 1949|
[Antes das demolições do Martim Moniz]
Antiga Calçada do Colégio [dos Jesuítas de Santo Antão-o-Novo, hoje Hosp. S. José, cerca;
Miradouro de Nossa Senhora do Monte.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 2 August 2017

Os «Canos da Mouraria»

O sítio é feio, desagradável, sem pitoresco, ainda que com significação bairrista, nos seus cafés de tipo antigo, botequins e tavernas de peixe frito, durante o século passado de fama equivoca.


Esta zona na antiga freguesia do Socorro fazia parte de um dédalo de arruamentos que foram alvo do camartelo camarário, cerca de 1940-50, para dar lugar à "moderníssimo" Praça do Martim Moniz [vd. carta topogáfica anotada]. O local era outrora conhecido como os «Canos da Mouraria» como nos conta, em 1938, mestre Norberto de Araújo:

Beco  dos  Álamos |c. 1940|
Esta serventia começava na Rua Silva Albuquerque e findava
na Rua do Arco do Marquês de Alegrete, que se vê ao fundo
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Tudo isto — que é um dédalo — eram os canos da Mouraria, que transmitiram o nome às nossas contemporâneas Travessa, Beco e Rua dos Canos, de dístico substituído em 1885, por este actual de Silva e Albuquerque, operário muito culto, um apóstolo da instrução primária gratuita, falecido em 1879.
Como já disse toda esta área foi alagadiça, depois de ter sido um verdadeiro rio, e assim por aí acima, pelo Benformoso e Anjos, até Arroios.
No século XVI isto por aqui eram os «Canos de S. Vicente» (da porta de S. Vicente), e no século seguinte «Canos da Mouraria».

Beco  dos  Álamos (esq,), ao fundo o arco de ligação ao Beco da Póvoa; (dir.) Rua dos Vinagres |c. 1940|
A Rua dos Vinagres começava na Rua dos Álamos e findava no Largo de Silva e Albuquerque
Fotografo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Estas horríveis serventias, Beco da Póvoa, Rua dos Vinagres (onde havia a «póvoa» dos «vinagreiros»), Rua dos Álamos, já de 1550, e mais vielas, eram tudo — os «Canos».
E esses canos eram umas valas abertas no leito da rua, escoantes das águas que, no vale, corriam das encostas de Sant'Ana e do Castelo, e vinha já de Arroios. Em 1840 ainda aqui havia sumidouros, cobertos de grades, como os do Rossio, nos passeios laterais.

Beco  da  Póvoa |c. 1940|
Este insignificante
beco ligava, através de um arco (ao fundo) com o Beco dos Álamos, a
Rua do Arco do Marquês de Alegrete ao Largo de Silva e Albuquerque
No século XVI era denominado Beco da estalagem das moças, ou do mouco.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Rua dos Álamos, demolições |c. 1950|
Perspectiva tomada da Rua do Arco do Marquês de Alegrete
Judah Benoliel,in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 79, 1938.
COSTA, António Carvalho da (Pe.), Corografia portuguesa, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal..., vol, III,  1706-1712.
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