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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Teatro Apolo ou do «Príncipe Real»

Na esquina da Rua Fernandes da Fonseca e Rua Nova da Palma— recorda Norberto de Araújo — assenta o Teatro Apolo, até 1910 chamado do Príncipe Real (D. Carlos), e que foi ali erguido em 1864 [1865] por Francisco Ruas, no local onde existiu o salão Wauxhall. Pelo velho «Príncipe Real», dos dramalhões, teatro definido, passaram grandes figuras da cena portuguesa, entre elas, mais permanentemente, Ernesto Vale. e Adelina Abranches.

Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [1956]
Em primeiro plano, um trecho da Rua da Palma com o Teatro Apolo (à esquerda).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [séc. XIX]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O edifício teve há poucos anos o dístico fatal «Para demolição»; parece, porém, que a condenação está suspensa. Tem um tecto de boa pintura de José Maria Pereira.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa [1938], vol. III, p. 72, 1938)

Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [1956]
Teatro Apolo, interior, boca de cena

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [1956]
Teatro Apolo, tecto, obra de de José Maria Pereira

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

«Dois Pobres E Uma Porta», em 3 actos e, «Muito Padece Quem Ama» são as comédias apresentadas na inauguração.Em 1906, Palmira Torres é a actriz principal da peça «A Severa», de Júlio Dantas. «Agulha em Palheiro», primeira revista original após a instauração da República, é aqui representada logo em 1911.

Rua da Palma [c. 1910]
Teatro Apolo, bilheteiras

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma [c. 1910]
Teatro Apolo, bilheteiras

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

«De Bota Abaixo», viria a ser a última revista estreada no Teatro Apolo, antes de este vir a ser demolido. O título era, aliás, um trocadilho com esse facto anunciado pela Câmara Municipal de Lisboa, então presidida por Salvação Barreto, como parte da reforma daquela zona da cidade. Um ano depois, em 1957, não obstante os inúmeros sucessos — e já rodeado pelos escombros dos prédios da Mouraria arrasados em redor — caiu o pano sobre o Apolo.

Rua da Palma, Rua Fernandes da Fonseca [1956]
Defronte ao
Teatro Apolo (onde se vê o parque de automóveis) erguia-se a Igreja do Socorro, demolida em 1949.

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Palácio Geraz do Lima (Condes da Folgosa)

Sobre a origem do topónimo «Rua da Palma», refere o olisipógrafo Norberto de Araújo o seguinte: 
«Esta Rua, desafogada, hoje constituindo uma única artéria, das traseiras de S. Domingos ao Intendente, divide-se em dois troços. O primeiro chega só à Guia [Martim Moniz] e é muito antigo, havendo sido nos séculos velhos arruamento dos comerciantes alemães que cultivavam religiosamente a lenda da palma que florira na sepultura do cavaleiro cruzado Henrique, sacrificado na Tomada de Lisboa, em 1147; [...]
O segundo troço, «Rua Nova da Palma», data de 1862, e chegava até aqui ao Socorro, começando gradualmente a prolongar-se até ao Intendente; a Câmara começara a comprar terrenos de hortas e campos, que por aqui existiam, desde o ano de 1776.»
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 24-25)

Palácio Geraz do Lima (Condes da Folgosa) [1930]
Rua da Palma
Anterior à demolição parcial
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente


Sobre o sítio do Socorro e o palácio que aqui existiu no século XIX, citamos o olisipógrafo Júlio de Castilho, que, por volta de 1900, afirmava o seguinte:
« (...) O palácio dos Porcilles, Porsili, ou Possilli (que assim, por estas variadas formas, se escrevia e pronunciava no publico esse apelido) ficava na freguesia do Socorro. (...) É o actual palácio que pertenceu ao Barão de Folgosa, depois a sua filha a snrª. Condessa de Geraz do Lima, e hoje [1903] ao 3º. viúvo d'esta senhora. Para este palácio, cuja entrada era por um portão defronte da igreja paroquial do Socorro, antes da abertura do 2º. lanço da rua Nova da Palma foi transferido em 1813 o Colégio de Miguel Bourdiec, francês (...) O Colégio francês mudou-se em Julho de 1819 para a rua direita de S. Paulo, n.º 5, e o palácio do Socorro alugava-se ou inteiro, ou em quartos separados.»
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga, 1903, vol. III, p. 15)

Palácio Geraz do Lima (Condes da Folgosa) [1932]
Rua da Palma
Anterior à demolição parcial
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O palácio Folgosa foi mandado construir, em 1891, por António de Sousa e Sá, Conde da Folgosa. Após a sua morte, o Palacete foi adquirido pela Câmara Municipal, que mandou demolir parte do edifício para rectificação e alinhamento da Rua da Palma, cerca de 1930.

Palácio (dos Condes da) Folgosa [1939]
Rua da Palma
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente




quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Paraíso de Lisboa

Inaugurado a 12 de Julho de 1907 — na cerca do Palácio Folgosa, à Rua da Palma, o famoso «Paraíso de Lisboa», era um parque de diversões, ornado de pequenas muralhas, situado na Rua da Palma paredes meias com o «Real Colyseu de Lisboa». 
 
É provável que o recinto, dirigido por Augusto Pina e por Mimon Anahory, que tinha sido responsável pelo parque de diversões que nos meses de Verão se instalava no Jardim de S. Pedro de Alcântara, correspondesse, segundo os dados de que dispomos, ao modo como a cidade tradicionalmente vivia os seus divertimentos. A quase espontaneidade formal dos seus dois «teatrinhos», onde se ofereciam espectáculos variados e animatógrafo, as barracas de jogos e os cafés que se levantavam ao ar livre tornam possível imaginarmos o ambiente e o uso efectivo que se dava às suas estruturas. Aliás, a simples nota registada na altura de que o espaço fazia lembrar a antiga Esplanada d.os Recreios Whittoyne, aos Restauradores, demolida em 1866.

Paraíso de Lisboa [ant. 1910]
 Rua da Palma, 273
Entrada 100 réis, lê-se no muro ameado.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Paraíso de Lisboa [1912]
 Rua da Palma, 273
Note-se o novo edifício do animatógrafo inaugurado em 1910.
Homenagem aos mortos da República. O Estado Maior da Armada e forças da Marinha passando na rua da Palma a caminho do cemitério do Alto de São João.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O recinto incluía um teatro, ringue de patinagem, carrossel, labirinto de espelhos, barracas de tiro, tômbolas,  de comidas e bebidas — divertimentos fáceis, ao ar livre — ligeiros, género Folies Bergères, jogos, cafés, etc..

Paraíso de Lisboa, recinto de diversões [ant. 1910]
Rua da Palma, 273
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Possuía um palco arte-nova instalado sobre um pequeno lago, e plateia ao ar livre. Não teve vida desafogada, acabando por encerrar no fim da década de 1910 sucumbindo à urbanização do lado poente da Rua da Palma.
 
Paraíso de Lisboa, palco de um dos «teatrinhos» [ant. 1920]
Rua da Palma, 273
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2012

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Rua da Palma

(...) deslizavam carros eléctricos pintados dum amarelo ovo magnificente. E a tilintada surpreendia o meu ouvido...

(AQUILINO, Aquilino, Lápides Partidas)

 

Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes, multiplicam-se em indústrias, operários, vidas, realidades, tudo. Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.

(Bernardo Soares/Fernando Pessoa. (1888-1935). Livro do Desassossego)

Panorâmica da encosta do Castelo, a partir da Rua da Palma [1949]
Antes das demolições da Mouraria; cruzamento com a Rua Fernando da Fonseca; antigo Teatro Apolo.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma [1949]
Antes das demolições da Mouraria; cruzamento com a antiga Rua Martim Moniz [Guia]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
 
Norberto de Araújo recorda-nos a origem do topónimo Palma: «Esta Rua, desafogada, hoje constituindo uma única artéria, das traseiras de S. Domingos ao Intendente, divide-se em dois troços. O primeiro chega só à Guia [actual Pç. de Martim Moniz, vd. foto abaixo] e é muito antigo, havendo sido nos séculos velhos arruamento dos comerciantes alemães que cultivavam religiosamente a lenda da palma que florira na sepultura do cavaleiro cruzado Henrique, sacrificado na Tomada de Lisboa, em 1147; foi rua sempre estreita, muito mais do que hoje é, bastante mercantil, caracterizada pelos negócios de ourives e prateiros. »
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. IV, pp. 24-25)
 
Rua da Palma [1921-12-25]
Antes das demolições da Mouraria; trânsito caótico em Domingo de Natal.
C. Salgado, in Lisboa de Antigamente
Rua da Palma [finais da década de 1950]
Depois das demolições da Mouraria; Av. Almirante Reis.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

domingo, 30 de novembro de 2025

Rua da Palma que foi «Nova» e «da Imprensa»

As principais alterações urbanísticas no bairro da Mouraria iniciaram-se na segunda metade do século XIX. Uma das intervenções que mais contribuíram para a nova feição urbana da área foi a abertura da Rua Nova da Palma, alterando a malha e a dinâmica urbana da zona da Baixa da Mouraria. Para tal, foram destruídos um troço da Cerca Fernandina e a Ermida de Nossa Senhora da Guia (de 1759). Por detrás da antiga Igreja da Nossa Senhora do Socorro estava a famosa horta das Atafonas, expropriada em 1859. 

Rua da Palma e Av. Alm. Reis |c. 1940|
Procissão Nossa Senhora da Saúde. [vd. N.B]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Inicialmente, o novo trecho da rua chamou-se da Imprensa, mas no edital de 1859 “foi trocada em Rua Nova da Palma, e incorporada a nova artéria no primeiro troço quinhentista que já tinha esse nome. […] Em 1889 passou esta via pública, de extremo a extremo, a chamar-se Rua da Palma” (Silva: 1987). Contudo, as construções que deveriam “marginar a artéria” decorreram com lentidão, tendo tido início somente em 1852. Surgiram então o Teatro do Príncipe Real (1865) – depois chamado Teatro Apolo –, o Real Coliseu de Lisboa (de 1887), o Paraíso de Lisboa (local para realização de espectáculos) e o Circo Popular Lisbonense. [Menezes: 2023]

Rua da Palma, 238 |1927|
Novo edifício das encomendas postais (o anterior ocupou o espaço do Real Coliseu de Lisboa,  depois Garagem Liz.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. A procissão da Saúde era dos mais curiosos espectáculos da Lisboa religiosa, com um carácter diverso da dos Passos e da do Corpo de Deus ou S. Jorge.
A primeira vez que se realizou foi em 20 de Abril de 1570. A última em 20 de Abril de 1910. Saia de manhã cedo da Mouraria, ia à Sé onde se cantava um Te-Deum, e depois a S. Domingos, onde havia sermão. Recolhia ao entardecer à Mouraria — e era de ver-se. [Araújo: 1989]

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Rua dos Condes de Monsanto que foi da Bitesga

Por Edital de 28-08-1950 a Rua da Betesga ficou limitada pela Praça da Figueira e de Dom Pedro IV. Até então, a antiga Rua da Betesga — vulgo da Bitesga — , estendia-se desde a Praça Dom Pedro IV até ao Poço do Borratém. Este  troço da Rua da Betesga —  entre a Rua dos Fanqueiros e Poço do Borratém  — passou a denominar-se Rua dos Condes de Monsanto.

Pelo mesmo edital, a Rua dos Fanqueiros, antiga da Princesa antes Rua Nova da Princesa, que até 1950 se prolongava até à Rua da Palma, passou a terminar na actual Praça da Figueira. Confuso? Para melhor compreensão ver carta topográfica aqui.

Rua dos Condes de Monsanto, 5 de Outubro de 1910
Antigo troço da Rua da Betesga; ao fundo, o Poço do Borratém e a Rua da Madalena.
Artur Benarus, in Lisboa de Antigamente

Toda esta área — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — hoje contida entre a Rua dos Álamos, o princípio da Velha Rua dos Canos, a Rua da Praça da Figueira toda até à Betesga e daí ao Poço do Borratém e Marquez do Alegrete (no encontro com os Áamos) pertencia, com excepção de alguns pedaços, à Casa dos Condes de Monsanto e Marqueses de Cascais descendentes e herdeiros de D. Leonor da Cunha, mulher do famoso jurisconsulto João das Regras; [...] [Araújo: 1938]

Rua dos Condes de Monsanto, 5 de Outubro de 1910
Antigo troço da Rua da Betesga com a Rua dos Fanqueiros [troço integrado, desde 1910, na actual Praça da Figueira; ao fundo, o Poço do Borratém e a Rua da Madalena.
Artur Benarus, in Lisboa de Antigamente

domingo, 7 de junho de 2026

Rua da Palma, esquina com o Largo do Intendente Pina Manique

Esta Rua [da Palma], desafogada, hoje constituindo uma única artéria, das traseiras de S. Domingos ao Intendente, divide-se em dois troços — recorda o ilustre Norberto de Araújo. O primeiro chega só à Guia e é muito antigo, havendo sido nos séculos velhos arruamento dos comerciantes alemães que cultivavam religiosamente a lenda da palma que florira na sepultura do cavaleiro cruzado Henrique, sacrificado na Tomada de Lisboa, em 1147; [...]

Rua da Palma, esquina com o Largo do Intendente Pina Manique |1944|
Em segundo plano observam-se os edifícios na Rua do Benformoso.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O segundo troço, «Rua Nova da Palma», data de 1862, e chegava até aqui ao Socorro, começando gradualmente a prolongar-se até ao Intendente; a Câmara começara a comprar terrenos de hortas e campos, que por aqui existiam, desde o ano de 1776.==
(ARAÚJO, Norberto de, «Peregrinações em Lisboa», vol. IV, pp. 24-25)

Rua da Palma, entrada para o Largo do Intendente Pina Manique |1969-12|
 João Goulart, in Lisboa de Antigamente

sábado, 10 de outubro de 2015

Igreja do Socorro

Mas vejamos a Igreja do Socorro — convida Norberto de Araújo.
A freguesia do Socorro, desmembrada da de Santa Justa, em 1596, pelo arcebispo D. Miguel de Castro, estabeleceu primeiramente a sua sede na Ermida de S. Sebastião dos artilheiros, à Mouraria (Ermida de Nª Sª da Saúde). A igreja só se ergueu neste sítio,  em 1646, vindo para ela a imagem de Nª Sª do Socorro, a «Velha» que era a do orago da paróquia. O Terramoto quási inteiramente destruiu o templo, levantando-se, mais tarde, o actual, só concluído em 1816. 
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 16, 1938)

Igreja do Socorro, Rua da Palma [1949]
Estaleiro de demolição da Igreja do Socorro.

Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

A igreja do Socorro ficava na Rua da Palma, perto do inicio da Rua de São Lázaro. Foi demolida em 1949, na consequência do plano de demolições da Mouraria.







Igreja do Socorro [1944]
Rua da Palma
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente








A Mouraria — recorda Calderon Dinis na sua Lisboa do meu tempo — , o velho bairro popular da Baixa lisboeta, embora albergasse uma população particularmente característica onde abundavam os fadistas e as prostitutas, detinha os aspectos curiosos da velha Lisboa, tão do agrado dos turistas. Ali se situou a célebre peça de Júlio Dantas — a Severa e os seus amores com o Vimioso, na Rua do Capelão.
A Rua da Palma foi passada à rasoura e lá se foi o Teatro Apolo e a antiga Igreja do Socorro, todos envolvidos pelo camartelo municipal. ==
(DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 174, 1986)

Igreja do Socorro, Rua da Palma [1923]
Altar de N.ª S.ª dos Passos
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

domingo, 12 de março de 2017

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete

O Palácio do 1º Marquês de Alegrete, que o mandou construir em 1694, e ali existiu até 1946 junto à porta de São Vicente da Mouraria. Arruinado pelo terramoto de 1755, deixou de ser habitado pelos seus proprietários e foi alugado a modestos inquilinos que ali fizeram estabelecimentos comerciais e industriais.
Tinha o palácio três frentes, duas para locais já desaparecidos: o Largo Silva e Albuquerque e a Rua Martim Moniz, e a terceira para a Rua da Mouraria. Em 1946 foi demolido para dar lugar à actual Praça Martim Moniz.


O velho Palácio do Alegrete que teve certa aura na Lisboa de setecentos — relembra o olisipógrafo Norberto de Araújo —, é hoje [1938] uma ruína, pouco mais que um pardieiro, condenado à demolição, mas onde estão instalados ainda estabelecimentos de vária natureza e casas de habitação.

Palácio (arco) do Marquês de Alegrete  |ant. 1946]|
Rua da Mouraria e Rua Martim Moniz (à dir.); ao  fundo a Calçada do Jogo da Pela.
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente
Palácio (arco) do Marquês de Alegrete, portal brasonado |1907|
Rua da Mouraria
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Tem a forma de um rectângulo contido entre a Rua da Mouraria [1ª foto] (junto ao Arco, onde avulta ainda o portal brasonado dos Sylvas, entrada hoje [1938] de uma serralharia), a Rua Martim Moniz (onde existe um portal do antigo tipo arquitectónico), a Rua da Palma, agora em muro raso (desde que em 1935 foi demolido o prédio da Ourivesaria Cunha, que se encostava a este topo do palácio) e o Largo de Silva e Albuquerque [3ª foto], antiga Rua dos Canos (onde na fachada se rasgam dois portais também do tipo dos antecedentes). 
O Arco, sobre o qual assentam dois andares, cada um com sua janela, pertence ao prédio da Rua do Arco do Marquez do Alegrete, que se lhe encosta, e que é propriedade também da família dos Condes de Tarouca [Teles da Sylva].

Palácio do Marquês de Alegrete  |1946|
Largo Silva e Albuquerque com a Rua da Palma em fundo.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Palácio do Marquês de Alegrete |194.|
Rua Martim Moniz (à esq,); Praça Martim Moniz (antes das demolições)
Filmarte, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 78, 1938.

domingo, 10 de dezembro de 2023

Panorâmica do Martim Moniz

Em 1908 o herói Martim Moniz ganhou uma placa evocativa na porta do seu sacrifício e, em 1915, ficou também imortalizado na toponímia da Mouraria já que a Rua de São Vicente à Guia – que se situava entre a Rua da Mouraria, Rua do Arco do Marquês de Alegrete e a Calçada do Jogo da Pela – se passou a denominar Rua Martim Moniz, pelo Edital de 14 de Outubro de 1915.
Na década de 90 do século XX, a edilidade lisboeta procurando preservar a toponímia mais histórica e tradicional da zona, ao arruamento já conhecido vulgarmente por Largo do Martim Moniz – situado entre a Rua da Palma e a Rua do Arco do Marquês de Alegrete - atribuiu o topónimo Rua Martim Moniz, por Edital de 30 de Abril de 1991.

Panorâmica do Martim Moniz |1976|
Miradouro de Nossa Senhora do Monte

Francisco Leite Pinto, in Lisboa de Antigamente

Passados 6 (1997) anos e concluída a recuperação urbana desta zona levada a cabo pela Câmara Municipal de Lisboa, determinou esta que o espaço delimitado pela Rua da Senhora da Saúde, Rua Fernandes da Fonseca, Rua da Palma e Rua do Arco do Marquês de Alegrete, onde se situava também a Rua Martim Moniz se passasse a denominar Praça Martim Moniz.

Panorâmica do Martim Moniz |1976|
Francisco Leite Pinto, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Real Colyseu de Lisboa (actualizado)

Aqui onde está hoje o edifício da «Garage Liz» — recorda-nos Norberto de Araújo — assentou o Real Coliseu de Lisboa, construido em 1887, em terrenos que pertenciam à Condessa de Geraz de Lima e depois ao seu viúvo Conde da Folgosa.


No princípio da [Rua da Palma] — lê-se no Guia de Portugal —, fazendo esquina para a Calçada do Desterro, [ficava] o edifício que foi do Real Colyseu de Lisboa, teatro-circo inaugurado em 1887 (...) O Real Colyseu, cuja sala podia comportar uns 5.000 espectadores, sendo o risco do engenheiro Ganhado, funcionou até à abertura do Coliseu dos Recreios, tendo sido transformado depois em animatógrafo.

Real Colyseu de Lisboa |Início séc. XX|
Rua da Palma com a Calçada do Desterro
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na Rua da Palma — paredes meias com o Real Colyseu — ficava ainda o Paraíso de Lisboa (ao fundo), inaugurado em 1907, também com teatro, carrossel, barracas de tiro, de comidas e bebidas. Foi uma espécie de antecessor da Feira Popular. Foi neste local que se realizou a primeira projecção de Animatógrafo em Portugal no dia 18 de Junho de 1896, apenas meio ano depois da estreia mundial em Paris.

Fachada do Real Colyseu |ant. 1929|
Rua da Palma
Fotografia: Livro "Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa"

O sucesso foi tão grande que viria a estabelecer-se no recinto aquele que depois foi baptizado como Cinema Colossal, e que funcionava com a tela de projecção no palco principal do Coliseu. Com o aparecimento de novas salas mais bem equipadas e com a construção do novo Coliseu dos Recreios, o Real Coliseu foi perdendo encanto e acabaria por encerrar no final dos anos 20 (1929), sendo posteriormente demolido. No seu local veio a instalar-se a referida garagem Auto-Lys ou Garage Liz.

Real Colyseu de Lisboa |1927-03-25|
Rua da Palma 
Aguardando a chegada inevitável do camartelo municipal.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 68, 1938.
Guia de Portugal: Generalidades. Lisboa e arredores, vol. I, p. 268, B.N.L, 1924.

domingo, 6 de abril de 2025

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São Sebastião da Mouraria»

No final do Século XVI, em 1596, foi iniciada a construção da igreja da paróquia de São Sebastião da Mouraria e que viria a ser mais tarde, em 1646, renomeada para Nossa Senhora do Socorro, acabando por se tornar mais tarde na Igreja do Socorro (demolida em 1949, sensivelmente onde está agora o Centro Comercial do Martim Moniz).


Como era costume na época, a expansão urbana desenvolvia-se organicamente sem grande plano em torno dos edifícios importantes. Também na Mouraria, clero e nobreza mandaram construir uma série de edifícios de maior porte, entre eles, em 1505, a Ermida de S. Sebastião, mais tarde designada por Capela de Nossa Senhora da Saúde (no Largo do Martim Moniz, entre a Rua da Mouraria e a Rua Nossa Senhora da Saúde). (Rodrigues, 1970: 106)]
Depois de 1496, a população muçulmana foi substituída por outra cristã, que “invadiu o arrabalde, enchendo-o de templos, de ermidas, de procissões e nichos, com seus cultos e devoções” (Ribeiro, 1907). De salientar a procissão de devoção à Nossa Senhora da Saúde, iniciada no ano de construção da Ermida do mesmo nome, em1505, que é ainda actualmente celebrada todos os anos, no mês de Maio. 

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |c. 1910|
Rua de São Lázaro com Rua da Palma ao fundo e, nela, o Teatro Apolo.
Ourivesaria do Socorro
; Igreja do Socorro

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |c. 1910|
Rua da Palma co Rua de São Lázaro.
Ourivesaria do Socorro; Igreja do Socorro.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A paróquia de Nossa Senhora do Socorro foi desmembrada da de Santa Justa ao tempo em que era arcebispo de Lisboa D. Miguel da Costa. Teve o seu orago na ermida de S. Sebastião na Mouraria, que era dos artilheiros, pelos anos de 1596, e passou a chamar-se freguesia de S. Sebastião da Mouraria. Construído em 1646 outro templo maior, foi para ele transferido o Santíssimo Sacramento e a imagem de Nossa Senhora do Socorro, que lhe deu o nome. 
[COSTA, António Carvalho da Corografia Portuguesa, III, p. 104]

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |c. 1940|
Rua da Palma
Mário Novaes, in Lisboa de Antigamente

N.B. Veja-se também o Cartório Paroquial da Igreja do Socorro, com 24 maços que entraram no ANTT em Janeiro de 1951.Ali se encontram muitos papéis da Irmandade do Santíssimo Sacramento ( Certidões de missas e patentes de admissão) , da Irmandade do Senhor Jesus da Compaixão ( Requerimentos e receitas e despesas), da Irmandade das Almas (Certidões de missas e despesas) e da Irmandade de Nossa Senhora da Igreja do Socorro (Assentos das obrigações de missas nas capelanias), todos referentes aos séculos XVIII e XIX, e ainda por tratar do ponto de vista arquivístico.

Igreja de N. S. do Socorro que foi «de São  Sebastião da Mouraria» |Inicio séc. XX|
Panorâmica tirada da encosta da Senhora do Monte.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Gésero, Paula, Configuração da paisagem urbana pelos grupos imigrantes: o Martim Moniz na migrantscape de Lisboa, 2014.
SERRÃO, Joel, Roteiro de Fones da História Portuguesa Contemporânea, 1984 , vol. I , pp . 124-125.
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