Showing posts sorted by relevance for query Sant'ana. Sort by date Show all posts
Showing posts sorted by relevance for query Sant'ana. Sort by date Show all posts

Tuesday, 13 October 2015

Praça de touros do Campo de Sant'Ana

No sítio onde assenta a Escola [Médica, actual Faculdade de Ciências Médicas] existiu a Praça de Touros do Campo de Sant'Ana, de tradições na vida alfacinha, com a sua aura fidalga e popular a um tempo. Foi aquela Praça inaugurada em 3 de Julho de 1831 — recorda-nos Norberto de Araújo — tempos do Senhor D. Miguel, que assistiu à «festa», sendo corridos dezasseis touros das manadas reais; à noite, com motivo no acontecimento tauromáquico, houve «luminárias» e «fogo de vistas». A Praça do Campo de Sant'Ana era pequena e quase toda de madeira, sem o tipo clássico dos redondéis hispano-árabes, uma arena muito para «brinco de touros», mas que fez as delícias dos nossos avós.

Vista da cidade tirada do Largo de Nª. Sª. do Monte para o lado do hospital do Desterro e Campo de Sant'Ana [ant. 1888/1891]
A Praça de touros do Campo de Sant'Ana é o edifício mais escuro e arredondado que se pode ver em cima à esquerda; em baixo, à direita, o Hospital do Desterro na Rua Nova do Desterro; ao fundo, correndo entre muros, a Avenida Dona Amélia (1903) e antes Avenida dos Anjos (1895), ainda antes Avenida no prolongamento da Rua da Palma até à Estrada da Circunvalação, e desde 1910, Avenida Almirante Reis.
Estúdio Novais, in Lisboa de Antigamente


Além de corridas de touros, realizaram-se nesta Praça espectáculos de circo e ascensões aeronáuticas — lê-se num Guia do Viajante publicado em 1863. Esta distracção popular, com quanto não abone a civilização dos amadores do divertimento, não produz ordinariamente aspecto repugnante de mortes, e dilacerações de membros, porque as armas dos touros são previamente impossibilitadas de poder furar, e não é permitida a matança dos touros, nem o suplicio das garrochas de fogo [ferro farpado], como noutro tempo. Há geralmente, grande concorrência ao espectáculo.
Preços: — Trincheiras à sombra 500 réis, ao sol 240 réis. — Camarotes de 1.ª ordem de 3$000 a 6$000 réis, — Camarotes de 2.ª ordem de 1$800 a 3$600 réis. Estes preços variam conforme as empresas.
(SULLEMAN, François , Novissimo guia do viajante em Lisboa e seus suburbios, 1863)
 

Vista parcial de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  [c. 1870]
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Destacam-se na imagem a Praça de touros do Campo de Sant'Ana, o Hospital de S. José e a Igreja da Pena na Cç. de Sant'Ana.
Francesco Rocchini (1822-1895), in Lisboa de Antigamente


Até 1915 uma «maquette» desta Praça encontrava-se no Club Tauromáquico, ao Chiado; foi por essa época destruída num assalto político àquele Club, e dela resta, apenas, a memória numa fotografia feita um pouco antes pelo Sr. J. A. Barcia. A Praça do Campo de Sant'Ana, que sucedera á do Salitre, esta inaugurada em 4 de Junho de 1790, foi demolida em 1891¹, para dar lugar à do Campo Pequeno, inaugurada em 18 de Agosto de 1892.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p 33, 1938)

A Maquette da Praça de Touros do Campo de Sant'Ana encontrava-se no Club Tauromáquico, ao Chiado [ant. 1915]
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

¹ Outros autores referem o ano de 1888 como data de demolição, na sequência de uma vistoria que interditou o edifício por questões de segurança relacionadas com a má conservação do mesmo.

Praça de touros do Campo de Sant'Ana, com os touros ao centro da mesma [ant. 1888/1891]
Espólio Cassiano Branco, in Lisboa de Antigamente

Friday, 20 November 2020

Igreja da Pena

A igreja de Nossa Senhora da Pena é uma construção do século XVII, e foi inaugurada em 25 de Março de 1705. A paróquia, que primeiramente se chamou de Sant'Ana, foi criada pelo Cardeal D, Henrique entre 1564 e 1570 e instalada no convento de Sant'Ana, abrangendo de começo uma área desanexada da paróquia de Santa Justa. A igreja da Pena foi muito sacrificada pelo Terramoto na frontaria e no corpo da igreja, mas não sofreu incêndio, motivo por que do seu semblante primitivo muito se manteve, através da reedificação, que não foi demorada, pois em 1763 a igreja estava reaberta, embora sem as obras concluídas, faltando-lhe a torre, a fachada rebocada e as decorações interiores. 

Igreja da Pena [1901]
Calçada de Sant'Ana
Note-se a pequena escadaria guarnecida por cortina de pedra (hoje removida).
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Durante o período que mediou entre o Terramoto e a conclusão das obras de restauro a paróquia esteve instalada, primeiro numa ermida junto do Colégio de Santo Antão (Hospital de S. José), depois na igreja de Nossa Senhora da Conceição, na travessa das Recolhidas, e a seguir na ermida dos Perdões, do palácio que foi dos Mitelos. Profanada em 1910 só reabriu ao culto depois de 1926. 
Beneficiou a igreja de reparações e acrescentamentos no século passado [XIX], nomeadamente em 1833 e 1898, e no actual século [XX], em 1903.

Igreja da Pena [1926]
Calçada de Sant'Ana; Tv. da Pena; Tv. do Adro
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
 
No interior, destaca-se retábulo em talha da capela-mor, concebido por Domingos da Costa Silva e iniciado a partir de 1715. O altar apresenta uma simetria rigorosa. O vazio central onde se encontra o trono é destinado ao Santíssimo Sacramento, sendo ladeado por duas colunas torsas revestidas de pâmpanos e folhagens de acanto assentes em mísulas suportadas por atlantes de inspiração clássica. 
O tecto (que substitui o primitivo, de António Lobo), em madeira e tela, abau­lado, com pintura larga, de tintas quentes, representando, em perspectiva, uma opu­lenta balaustrada de sentido arquitectural, obra de Luís Baptista (1781), na qual tra­balharam Tomás Gomes, Jerónimo de An­drade e Caetano Ciríaco, e cuja pintura central mostra uma alegoria a Nossa Senhora da Pena; os dois púlpitos monumentais em talha artisticamente trabalhada simulando pedra no mais puro barroco, com as portas re­matadas por coroas reais e guarnições de mármore.

Igreja da Pena. púlpito  [1956]
Calçada de Sant'Ana
Note-se a pequena escadaria guarnecida por cortina de pedra
Mário de Oliveira, in in Lisboa de Antigamente

N.B. As imagens do templo são do século XVIII, e de autor: a de Nossa Senhora da Conceição, na capela do topo do lado da Epístola (da escola de Machado de Castro e por alguns atribuída ao escultor italiano Cláudio Laprade) a de S. Sebastião, a pri­meira do corpo da igreja, do mesmo lado (Valentim de Carvalho), e a de S. Miguel, fronteira a esta (Manuel Dias, o Pai dos Christos). Muitos dos quadros do corpo da igreja, e de outras dependências provieram do convento de Sant'Ana. No cartório da nova sacristia encontra-se um quadro, em tela, representando S. Vicente de Paulo, que pertenceu ao Museu de Arte Antiga, o qual, como outros (o citado de S. Bruno, por exemplo), foi trocado cerca de 1880, por acordo entre a Academia de Belas-Artes e a Irmandade de Santíssimo Sacramento, por um valioso cálice, pertença da igreja). Muitas das pinturas são de Pedro Alexan­drino, André Gonçalves e Vieira Portuense.
___________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1956.

Monday, 26 October 2015

Hospital (Sanatório) de Sant'Ana

O antigo Sanatório de Sant'Ana e actual Hospital Ortopédico, pertença da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, conserva a sua imponência arquitectónica, destacando-se pela longa fachada, paralela à avenida Marginal. Edificado no início do século XX (1902-1914), este edifício deixa adivinhar o gosto ecléctico que vigorava na arquitectura portuguesa de então, mas aliado, aqui, a uma profunda capacidade funcional, bem expressa na articulação de espaços, serviços e equipamentos.

Hospital de Sant'Ana [Início séc. XX]
Avenida Marginal; Avenida Vasco da Gama, Parede, Cascais

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

A história da construção do hospital foi, inicialmente, algo conturbada. Deve-se a sua iniciativa ao casal D. Amélia e Frederico Biester, que contaram desde logo com o apoio do reputado médico Dr. Sousa Martins. A questão dos sanatórios encontrava-se na ordem do dia, e o local escolhido preenchia os requisitos necessários para tais instituições. O primeiro projecto para o sanatório foi concebido por José António Gaspar, arquitecto professor na Academia de Belas Artes. Todavia, o falecimento dos fundadores levaram-no a abandonar a obra, que seria retomada pela herdeira de D. Amélia, Claudina de Freitas Chamiço. O arquitecto então chamado foi Rosendo Carvalheira, ao qual estavam ligados outros profissionais que também aqui intervieram. Eram eles Norte Júnior, António do Couto, Marques da Silva e Álvaro Machado. (...)

Aspecto das obras do Sanatório de Sant’Ana
na Parede, em Agosto de 1902, um ano depois da cerimónia de lançamento da primeira pedra


Outro aspecto das obras do Sanatório de
Sant’Ana, na Parede, em Agosto de 1902

De acordo com esta leitura, o novo arquitecto teria sido responsável pela introdução, nos planos anteriores, de uma maior e mais eficaz funcionalidade, que respeitava mesmo "as prescrições (...) para as construções hospitalares usadas desde 1901 em França e aconselhadas em Portugal desde 1902". Por outro lado, o moderno sistema de ventilação empregue foi elogiado nas revistas de arquitectura da época, destacando-se ainda a lavandaria anexa, que se liga ao edifício através de carris.
Lançada a primeira pedra a 7 de Agosto de 1901, o primeiro bloco foi inaugurado logo em 31 de Julho de 1904, muito embora o sanatório apenas ficasse concluído, na sua totalidade, em 1912. Classificado como MIP - Monumento de Interesse Público. [in DGPC]

Capela do Sanatório de Sant’Ana [meados do século XX

Sunday, 19 May 2024

Campo dos Mártires da Pátria que foi de Sant'Ana e do Curral

E agora dilecto nesta quietação urbanista podes adivinhar — diz Norberto de Araújo — , se quiseres fazer um pequeno esforço, um «Rossio» popular, que foi em velhos tempos cômoro de moinhos de vento, eirado de rezes votadas ao sacrifício; depois, jornada de passeio, mercado, hortas e feira; praça de toiros, com esperas de gado, guizalhadas, alarde de batedores, alarido, cenas de boémia e guitarradas; campo de procissões, ponto de romarias a Sant'Ana, em paradas da devoção popular exteriorizada; logradouro de cavaleiros e fidalgos, na volta da Carreira dos Cavalos [actual Rua Gomes Freire]; desfile de seges, de tipóias, de carruagens de estadão, passagem fortuita de cortejos de embaixadas à Bemposta; passo obrigatório da população arrabaldina até [a]o Rossio pela lomba da Calçada Velha [Cç. de Sant'Ana]; estendal de velharias, de curiosidades, de bagatelas de vida em almoeda; e — campo de martírio, pois aqui foram enforcados os companheiros de Gomes Freire de Andrade, implicados ou suspeitos da conspiração contra o marechal Beresford.

Campo dos Mártires da Pátria |1933|
Denominado "de Sant'Ana" devido à existência, desde 1561, de um Convento do mesmo nome. Ao fundo corre a Rua Gomes Freire.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Isto foi o Campo de Sant'Ana.
Desde 12 de Novembro de 1880  11 de Julho de 1879, passou a chamar-se Campo dos Mártires da Pátria, designação que perdura no dístico municipal, mas que não entrou na auditiva popular.

Campo dos Mártires da Pátria [finais do  séc. XIX]
Topo norte junto ao antigo Chafariz de Sant'Ana. Ao fundo nota-se a estreita embocadura da Rua Gomes Freire (antiga 
Carreira dos Cavalos) antes do alargamento e rectificação daquela artéria por volta da década de 1940.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

«Campo do Curral» lhe chamavam do seu começo. porque afastado, mais pelo isolamento do que pela distância, do Rossio verdadeiro de Valverde (o Rossio de hoje) — aqui, ou melhor: ali onde é o Largo do Mastro, onde se faziam as matanças de gado para o abastecimento da cidade quinhentista,
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 36-37, 1938)

Campo dos Mártires da Pátria |c. 1910|
Antigo do Curral; Campo dos Mártires da Pátria (desde 1879); Rua de Santo António dos Capuchos (dir.); ao fundo nota-se a "torre" do Palácio Silva Amado e a Rua do Instituto Bacteriológico.
Lima, Alberto Carlos, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 31 July 2016

Palácio dos Possolos

"A Rua de Sant'Ana mostra algumas casas e casebres, de tipo pitoresco. A meio desta rua, à esquina da velha Travessa das Almas, estão ainda de pé [em 1939] os restos decrépitos do palácio dos Possolos, com suas oito varandas de setecentos, o seu portal brasonado de pátio (n.° 121), tudo a dizer ainda, no semblante de ruína perfeitahoje habitações de famílias pobríssimas, a vida solarenga de entre Lapa e Boa Morte de há duzentos anos. Pertenceu êste palácio, depois dos Possolos, ricos negociantes italianos do século XVII, aos antepassados de Gustavo de Matos Sequeira, escritor olisiponense, que hoje detém a propriedade, condenada a demolição, e que não consente restauro."
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 59, 1939)

Palácio dos Possolos [1939]
Rua de Sant'Ana à Lapa
Neste local assenta actualmente a Av. Infante Santo.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O topónimo original do arruamento é Rua de Sant' Ana e assim figura na planta da cidade de 1910. Conforme consta no processo 1841/50 foi acrescentada a palavra "à Lapa" por parecer da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 19/05/1950.
A sua origem radica no culto popular a Santa Ana, muito divulgado na Lisboa antiga, como imagem catalisadora da grande devoção das mães portuguesas, padroeira do vendedores de objectos usados, das mulheres que fazem renda, das donas de casa, dos marceneiros, dos torneiros, dos moços de estrebaria e fabricantes de vassouras e de especial devoção em casos de pobreza e para se encontrarem objectos perdidos. [cm-lisboa.pt]

Palácio dos Possolos [1939]
 Rua de Sant'Ana à Lapa. Portal brasonado de pátio (n.° 121).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 18 December 2022

Sítio do Convento da Encarnação

No Largo do Convento da Encarnação, à esquina do antigo Beco das Cruzes, hoje Travessa de Sant'ana, — que desce até às Escadinhas da Barroca — existe uma peque na casa, cheia de pitoresco, das mais antigas desta área de Sant'ana. É o prédio n.º 1 do Largo. Tem uma configuração quase pura de setecentos, gracioso na sua fachada, escada exterior, conjunto e até na cor de que se deixou revestir.
Não é uma ruína: é uma reminiscência» — recorda Norberto de Araújo, que desde o início nos tem acompanhado nesta peregrinação.

Sítio do Convento da Encarnação [c. 1940]
Casa setecentista no Largo do Convento da Encarnação esquina com a
Travessa de Sant'Ana (antigo Beco das Cruzes); Largo do Convento da Encarnação (dir.).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Acusa um toque do final do século do terramoto e retoques posteriores, mas na sua harmonia, e até mesmo na tessitura, é um documento de raro pitoresco de Lisboa, de que os aguarelistas ainda se não lembraram.==

Sítio do Convento da Encarnação [1903]
«Casinha setecentista de um pitoresco inverosímil, milagre de arquitectura ingénua e popular»
no Largo do Convento da Encarnação esquina com a Travessa de Sant'Ana (antigo Beco das Cruzes).
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 60-61, 1943.
Olisipo: boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", vol.17, 1954.

Sunday, 23 February 2020

Sítio que foi da Boa Morte: palacete dos Condes de Sabrosa

Entramos no sítio que foi da Boa Morte, invocação que teimosamente perdura na bôca de velhos bairristas, e que os roteiros modernos se encontram na necessidade de apontar, em sujeição à tradição oral.
O cruzamento das Ruas de Santo António, Sant'Ana, Possidónio da Silva, do Possolo e do Patrocínio, é que fazem o sítio da Boa Morte. A razão deste nome, de fundamento religioso, está na existência da Igreja da Boa Morte do Convento da mesma invocação; [...]

Palacete dos Condes de Sabrosa [c. 1940]
Rua de Sant'Ana com a Rua do Possolo

Casa de estilo português, revestida exteriormente de azulejos da Cerâmica de Campolide.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bem curioso é este enfiamento da Rua de Sant'Ana; à sua esquina, do lado poente, com ingresso pela Rua do Possolo, 76, ergue-se com um único andar o palacete dos Condes de Sabrosa, essa casa de estilo português, toda revestida exteriormente de azulejos decorativos, de tipo de silhar palaciano, mas pintados há poucas dezenas de anos por João Rodrigues, e saídos dos fornos da Cerâmica de Campolide [Fábrica da Louça do Rato].

Nota(s): Actualmente está aqui instalada a Embaixada da Finlândia.

Palacete dos Condes de Sabrosa [1969]
Rua do Possolo, 76 com a
Rua de Sant'Ana
Casa de estilo português, revestida exteriormente de azulejos da Cerâmica de Campolide.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, pp. 56-59, 1939.

Wednesday, 17 June 2015

Campo de Sant'Ana, antigo do Curral

"Campo de Sant'Ana! Aí está, como raros, um título toponímico de ressonância lisboeta, Ele foi, Dilecto e nunca fatigado companheiro, um «Rossio» campestre de Lisboa do século XVI, subúrbio de hortas e azinhagas do velho tempo de quatrocentos, aqui e ali soerguido em construções solarengas e conventuais dispersas.

Campo de Sant'Ana |post. 1908|
Campo dos Mártires da Pátria (desde 1879)
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

«Campo do Curral» lhe chamavam do seu comêco. porque afastado, mais pelo isolamento do que pela distância, do Rossio verdadeiro de Valverde (o Rossio de hoje) — aqui, ou melhor: ali onde é o Largo do Mastro, onde se faziam as matanças de gado para o abastecimento da cidade quinhentista, que tinha o seu empório na Rua Nova, e se disseminavam por dezenas de conventos, centenas de palácios, milhares de casas a surgirem todos os dias para além, cada vez mais para além, dos muros da cerca de D. Fernando."
(ARAÚJO, Norberto de, in Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 35, 1938)

 

Campo de Sant'Ana |1940|
Campo dos Mártires da Pátria (desde 1879)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 24 January 2021

Rua de Sant'Ana à Lapa

O topónimo original do arruamento é Rua de Sant'Ana e assim figura na planta da cidade de 1856. Conforme consta no processo 1841/50 foi acrescentada a palavra "à Lapa" por parecer da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 19/05/1950.
A sua origem radica no culto popular a Santa Ana, muito divulgado na Lisboa antiga, como imagem catalisadora da grande devoção das mães portuguesas, padroeira do vendedores de objectos usados, das mulheres que fazem renda, das donas de casa, dos marceneiros, dos torneiros, dos moços de estrebaria e fabricantes de vassouras e de especial devoção em casos de pobreza e para se encontrarem objectos perdidos. [cm-lisboa.pt]

Rua de Sant'Ana à Lapa [1960]
Cruzamento com a Rua de Buenos Aires
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

Wednesday, 25 October 2017

Ermida do Senhor Jesus da Salvação e Paz e da Senhora das Dores

É uma ermidinha na calçada de Santa Anna junto ao muro das Religiosas Commendadeiras, a qual é administrada por uma confraria da Via-Sacra.¹


Quando tudo isto — Monte de Sant'Ana — era campos de encosta — recorda-nos Norberto Araújo —, primeiramente pertença de vários senhores, e, depois, cercas de conventos ou pedaços de quintas de casas nobres, dos Menezes, principalmente, — este arruamento, vertente natural, existia desenhado na Lisboa primitiva, de começo por caminho de pé posto, logo vereda, logo estrada, logo calçada, que acabou por receber a sua designação do orago do Convento freirático mais acima. A Calçada de Santa'Ana era estreita, como ainda hoje, até o sítio onde passava a muralha de D. Fernando, e daí para riba alargava em campos, que só no século XVII, começaram a receber revestimenta urbana de edifícios, numa ligeira ordenação municipal. [...]

Ermida do Senhor Jesus da Salvação e Paz |s.d. c. 1900|
Calçada de Sant'Ana
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Ficava nesse sítio [encostada à torre N. da muralha fernandina] a Ermida do Senhor Jesus da Salvação e Paz, e da Senhora das Dôres, que, até há três anos [1935], ali existia, na sua pequenez e abandono. O Estado, a quem pertencia o terreno, vendeu os restos da Ermida, e levantou-se então o edifício que vês, encostado, justamente, ao «prédio «onde viveu Camões», o que faz esquina para o Beco (escadinhas) de S. Luiz. ²

Ermida do Senhor Jesus da Salvação e Paz |s.d. c. 1900|
Calçada de Sant'Ana
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ Mappa de Portugal antigo e moderno pelo Padre João Bautista de Castro (...) 3a ed. revista e accrescentada por Manoel Bernardes Branco, 1870.
² ARAUJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. IV, pp. 27-29.

Sunday, 18 July 2021

Palácio Sanches de Brito

«EDIFICADA, 1730, ARQUITECTO LUDOVICE QUE O FOI DO PALACIO DE MAFRA. RESTAURADA E ACCRESCENTADA SOB A DIRECÇÃO DE J. A. SANTOS CARDOSO E MOREIRA RATO — 1867»


De acordo com a inscrição existente na placa sobre uma porta do primeiro andar deste edifício, o palácio terá sido construído em 1730 sob a direcção do arqª João Frederico Ludovice, «que o foi do Palácio de Mafra», sendo restaurado em 1867. Foram encontradas referências a esta propriedade nos antepassados da família Sanches de Brito desde finais do século XVI, estando a mesma na posse de Álvaro Sanches de Brito já nos inícios do século XVII. Este facto poderia corroborar a informação contida na placa, datando o edifício de 1730 e indicando o nome de J. F. Ludovice. No entanto, esta informação, que não revela a fonte primordial em que se baseou, é contraditada por um documento de 1748, constante de um Livro de Cordeamentos. [...]

Palácio Sanches de Brito |ant. 1910|
Campo dos Mártires da Pátria, vulgo Campo de Sant'Ana, antigo Campo do Curral
Embaixada da Alemanha e instituto Alemão, despis Palácio Patriarcal.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Aquilo que se pode afirmar com segurança documental é que no início do século XVIII havia umas casas onde habitava Álvaro Sanches de Brito, casas essas que seu filho, João da Costa de Brito, fez demolir e substituir por outras com uma fachada com um corpo central saliente. Aliás, as características arquitectónicas do edificado apontam para data mais tardia de 1730, como se dirá adiante, levando outros autores a atribuírem o edifício ao arq.º Mateus Vicente de Oliveira (1706-1785), discípulo de Ludovice. [...]
Seria que as casas de residência de Álvaro Sanches de Brito foram objecto de uma intervenção de Ludovice, em 1730? É pouco provável que uma obra realizada sob a orientação de Ludovice, por certo de monta, fosse demolida dezoito anos depois, em 1748, para dar lugar a novo edifício, aliás bem aparentado com o gosto introduzido e difundido em Lisboa pelo mesmo mestre alemão. Aliás, Ludovice ainda estava vivo em 1748, pelo que poderá ter indicado o seu discípulo Mateus Vicente para dirigir o projecto. Esta afinidade poderá ter induzido em erro os autores dos restauros datados de 1867, afixando na placa a informação da autoria de Ludovice e a data de 1730. [...]

Palácio Sanches de Brito |1907-03|
Campo dos Mártires da Pátria, vulgo Campo de Sant'Ana, antigo Campo do Curral
Embaixada da Alemanha, visita do Rei de Saxe a Lisboa.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Pelo menos até 1833, a propriedade manteve-se na família, sendo mais tarde vendida à família Costa Lobo, responsável pela campanha de obras de 1867, como parece indicar a existência do seu brasão de armas em ferro sobre a porta de entrada. Nestas obras ter-se-ão provavelmente acrescentado alguns elementos decorativos em pedra, sobretudo em torno da mesma porta axial, bem como a balaustrada sobre a cornija e as estátuas que a coroam. [...]
No princípio do século XX esteve instalada no palácio a embaixada da Alemanha, ao tempo que era embaixador o Conde de Tattenbach, que aqui deu grandes festas, sobretudo aquando da visita a Lisboa do Kaiser Guilherme II. Depois, um dos membros da família Costa Lobo doou a sua parte do edifício à Misericórdia de Lisboa, vindo este a ser arrendado para instalação da residência do patriarca de Lisboa, em 1913. A outra parte acabou por ser adquirida pelo cónego Manuel Anaquim e pelo padre António Joaquim Alberto que depois arremataram a parte da Misericórdia (1923/24), mantendo-se o Patriarcado na sua posse até tempos recentes.

Palácio Sanches de Brito [1907-07]
Campo dos Mártires da Pátria, vulgo Campo de Sant'Ana, antigo Campo do Curral
Embaixada da Alemanha
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Os mencionados membros desta família Sanches de Brito, nos finais do século XVII e ao longo do século XVIII, destacaram-se nas lides marítimas, como oficiais de marinha de guerra, como coronéis de mar e capitães de mar e guerra. O primeiro, Álvaro, chegou a ser governador da fortaleza de São Lourenço da Barra (Cabeça Seca), o filho, João da Costa de Brito chegou a capitão de mar e guerra, com uma carreira militar que ultrapassou os 40 anos ao serviço da armada.
Por fim, José Sanches de Brito, fidalgo da Casa Real e comendador da Ordem de Cristo, chegou a almirante da Armada Real.
____________________________________________________________________________________________________
Bibliografia
MATOS, José Sarmento de; PAULO, Jorge Ferreira, «Da relevância dos Livros de Cordeamentos no estudo da arquitectura de Lisboa – O caso do Palácio Sanches de Brito», MATOS, José Sarmento de; PAULO, Jorge Ferreira, 2014.

Saturday, 29 August 2015

Praça da Alegria: a Feira da Ladra e o Palácio Azul


A razão porque se chama «da Alegria» não a sei — diz Norberto de Araújo — , nem creio que alguém a conheça. Matos Sequeira, que muito estudou (não se limitou a apontar) estes sítios, não nos diz algo; conjectura. Por o local ser ameno, lavado de ares, ridente por natureza?

 

Eu lembro que as designações de sítios partiam quasi sempre de lindas invocações religiosas, tal a «Glória», a «Estrela». Ora eu adquiri, há anos, uma imagem de N.ª Sr.ª da Alegria, e que bem pode corresponder a uma invocação pessoal, caprichosa, pois «Alegria» não consta dos oragos de qualquer região do país. Mas também pode suceder que a poética religiosa se comprazesse numa invocação, que não chegou até nós em documento vivo.

 
A Alegria, pois, é posterior ao Terramoto; a razão porque a Basílica de Santa Maria Maior era a detentora de grande parte dos domínios directos por aqui, não a sei. Lisboa está cheia de lapides foreiras à «Basílica», a «S. M. M.», à «Sé».
Os prédios por aqui datam, os mais antigos, do princípio do século passado, ou da agonia do século XVIII, e a maioria deles são de 1840-1850. [...]
Cabe aqui dizer-te, Dilecto, ou lembrar-te, que um tempo houve — ainda isto por aqui mal povoado andava (em 1778 havia apenas oito prédios formais de feição pombalina) — em que este largo ou praça se chamou «do Suplício». Uma certa Dona, Izabel Xavier Clesse, além de atraiçoar seu marido, o marchante Tomaz Goilão, lembrou-se de - o envenenar. Foi neste local enforcada em 31 de Março de 1771. O povo durante três anos designou a Praça pelo sucesso que a infamara; depois, esqueceu-se.

Palácio Azul Praça da Alegria, Feira da Ladra na (1809-1818) da autoria de Nicolas Delerive
Actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga

Oferece uma certa curiosidade na sua fisionomia e desenho o prédio do lado nascente, caindo sobre o Sul, n.°' 9 a 11, no qual está instalada a esquadra da Polícia «da Alegria» que teve há anos a sua sede na Rua das Portas de Santo Antão. Foi este o famoso «Palácio Azul», de que muito se falava (apenas por estar pintado de azul) há cem anos. Construiu-o, pouco mais ou menos em 1796, D. Álvaro de Távora, Conde de S. Miguel, que casou com D. Luiza de Pilar de Noronha, filha dos Condes dos Arcos; em 1832 foi Quartel do Estado Maior General, e no ano seguinte sede dos Conselhos de Guerra. Em 1840 pertencia a propriedade ao Barão de Alrneirim, pai de Anselmo Braamcamp Freire, que nesta casa nasceu; em 1845 sofreu transformações que não lhe alteraram o curioso semblante. E ai está hoje quasi como há cem anos, no seu exterior.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 29, 1939)

[Inscrição na gravura] «Vista da antiga praça da Alegria, com a feira da ladra; aguarela comprada* por 1:000 reis ao saloio Aniceto da quinta das Córtes aos Olivaes em 22 de Fevereiro de 1882.»
*terá sido adquirida pelo Visconde Júlio de Castilho (nota consta no AML)

Ainda de acordo com o mesmo autor «a Feira da Ladra (ou da Lada?), é um mercado lisboeta que remonta ao século xII, e cuja avó foi aquela que se realizava, um dia por semana, no Chão da Feira, ao Castelo, com carácter muito diverso do que oferece hoje. Em 1430 estava no Rossio; onde perdurou até ao Terramoto, passando depois para as antigas hortas de Valverde (Praça da Alegria de Cima, imagem acima), mas irradiando depois, por abuso dos feirantes, até aos Restauradores de hoje. Em Fevereiro de 1823, transferiram-na para o Campo de Sant'Ana, de onde após cinco meses de mal contente pousio voltou para o Passeio Público (Alegria). Em Maio de 1835, tomou para Sant'Ana, onde esteve até Abril de 1882, que foi quando a Câmara a fez rodar para o Campo de Santa Clara, por poucos dias, é certo, pois os feirantes protestaram, talvez por ficar longe, tornando a Feira a Sant'Ana. Finalmente —  decorridas apenas algumas semanas — em l de Julho de 1882, velha Feira da Ladra teve em definitivo seu lugar marcado neste sítio, e em Santa Clara se conserva desde há cinquenta e sete anos [cento e quarenta] .==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 72-73, 1938)
 

Palácio Azul |1968|
Praça da Alegria, 9-11
«Hoje há-as de todas as cores, desde o amarelo-canário ao verde-salsa, e ninguém faz disso
maior reparo. Num anúncio de 1836, lê-se :
«Vende-se uma parelha de cavalos de sege e traquitana que se podem ver na praça da
Alegria, nas «cavalariças do Palácio Azul, e ajustar com o dono na «rua nova da
Alegria n.° 11, 2.° andar».
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Wednesday, 10 June 2015

Luiz de Camões, o poeta maior

De acordo com Norberto de Araújo «não se pode garantir, em ciência de academia, que «nesta casa morreu Camões», mas pode manter-se, sem perigo de ofender a razão, que «é tradição Camões ter vivido e morrido nesta casa». Atentemos na sua explicação:
«Para melhor entendimento do que vou dizer-te podemos ler a lápide comemorativa: «Nesta casa, segundo tradição documental, faleceu a 10 de Junho de 1580 Luiz de Camões». O actual proprietário, Manuel José Correia  mandou pôr esta lápide em 1867». O prédio já não tem a configuração pitoresca de há 70 anos, mas não mudou sensilvelmente.
Ora o problema é êste dilecto companheiro alfacinha: Camões viveu e morreu aqui? Qual é a «tradição documental» a que a legenda comemorativa se refere?
Não se comporta nesta «Peregrinação» o debate inocente desta questão, que já fez verter alguma tinta.  Indiscutivel é que o poeta habitou e morreu aqui a dois passsos, ou no sítio onde está o prédio e onde assentou a Ermida do S. J. da Salvação, encostado ao da lápide, ou ali à entrada,  em reentrância, na fronteira Calçada Nova do Colégio, o que tudo situava junto à Porta de Sant'Ana do lado de fora.
Ora quanto a mim, Dilecto, não se trata de saber «onde era o prédio», precisamente, matemàticamente, arqueològicamente, porque estes prédios actuais não assentam, de seguro, sôbre fundamentos de quaisquer outros; trata-se, sim, de saber «onde era o sítio». E o sítio é «aqui» (versão do Visconde de Jerumenha ante a biografia manuscrita de Padre Francisco de Santo Agostinho), ou é «ali», a vinte metros (interpretação extensiva do que «constava a Manuel de Faria e Sousa, que nasceu dez anos depois da morte de Camões).
(Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, p. 29)
Arco de Sant'Ana e casa onde viveu e morreu Luís de Camões em 1580, desenho conjectural de Júlio Castilho 
[Calçada de Sant'Ana]

Sunday, 16 June 2019

Chafarizes de Sant'Ana

Este Largo do Mastro é que foi o sítio exacto do «Campo do Curral» — recorda-nos o insigne olisipógrafo Norberto de Araújo. Mas é preciso não perderes de vista que essa cortina — o muro paredão que sustenta o jardim do Campo dos Mártires da Pátria — não existia sequer até hà cem anos [c. 1838]. Desde o Convento de Sant'Ana até ao Paço da Rainha (isto é: desde o Instituto Bacteriológico até à Escola do Exército), o pavimento, em encosta, era todo um, com mal pronunciada ondulação de terreno.


Adossado ao muro paredão que sustenta o jardim do Campo dos Mártires da Pátria encontramos o Chafariz do Campo de Santana virado ao Largo do Mastro. O muro é em cantaria de granito aparente, em aparelho isódomo e está fronteiro a pequena faixa de passeio público, pavimentado a calçada, a qual confina com um parque de estacionamento.
Chafariz simplista de planta rectangular, construído em 1887, autor desconhecido, assente em plataforma de dois degraus em cantaria de calcário lioz e vermelho. É executado em cantaria de calcário lioz, composto por espaldar rectilíneo, encimado por recortes lobulados e, ao centro, pequeno espaldar contracurvado, onde surgem as armas municipais, emolduradas por painel circular e a data «1887». Cada um dos lóbulos, com molduras múltiplas circulares, possui uma bica em chumbo, rodeada por pétalas de flores, que vertia para tanque rectangular, de perfil galbado, assente em pequeno rodapé rectilíneo, com bordos boleados; o interior encontra-se tripartido por blocos de cantaria, capeados a cimento, com escoamento metálico. No espaldar e no bordo do tanque surgem vestígios das antigas réguas de apoio ao vasilhame. No lado esquerdo, surge um vão de verga recta e moldura simples, protegido por porta metálica, pintada de verde, de acesso à caixa de água.
Monumento Nacional desde 2002.

Chafariz de Santa Ana [1944]
Largo do Mastro
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Nas imediações, situa-se um segundo chafariz, denominado Chafariz do Largo do Mastro. [vd. 2ª foto]
Este chafariz foi inaugurado em 1848, em Belém, no sítio do Chão Salgado, por iniciativa camarária, com projecto do arq. Malaquias Ferreira Leal. Na sua construção foram utilizados elementos escultóricos do Chafariz do Campo de Santana [vd. N.B.], que nunca chegou a ser construído, nomeadamente 4 golfinhos da autoria do escultor Alexandre Gomes. Por ocasião da Exposição do Mundo Português, em 1940, o chafariz foi retirado do local original e mais tarde, em 1947, reutilizado no Largo do Mastro, ao Campo de Santana. Chafariz elegante, de boa cantaria, em forma de obelisco, que apresenta uma urna de curvas reentrantes e de 4 faces, das quais emerge, respectivamente, um golfinho com a função de bica. A rematar este núcleo decorativo eleva-se uma alta pirâmide hexagonal, estriada, cintada por faixa lisa a um terço de altura, coroada por uma pinha.

Chafariz do Largo do Mastro [1947]
Largo do Mastro
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Quanto ao novo e esplendoroso Chafariz de Santa Anna — que viria substituir o chafariz "interino" que ali existia — , diz-nos a Memória de Velloso de Andrade, que o projecto foi abandonado por razões desconhecidas:
"Esse Chafariz, se se fizesse conforme o risco approvado, era de tamanha architectura, que devia conter as quatro figuras que estiveram no Lago do Passeio Público; o Tejo, e o Douro, que ainda existem no dito Passeio; os quatro Golfinhos, que se acham no Chafariz de Belém, e as quatro Carrancas, que serviram para o Chafariz d'Alcântara; como tudo se mostra no dito risco. As figuras acima ditas, foram feitas pelo Portuguez Alexandre Gomes, por 3:746$246 réis, incluindo 706$S46 réis, importe das seis pedras postas no telheiro ao Campo de Santa Anna, aonde as ditas figuras foram feitas; pelas quaes um Lord Inglez offerecia doze mil cruzados.[...]

Chafariz de Santa Ana [finais do  séc. XIX]
Campo dos Mártires da Pátria
Foi demolido em finais do séc. XIX aquando da construção do Jardim dos Campos dos Mártires da Pátria vulgo Campo de Santana; a dir. nota-se uma clarabóia do Aqueduto e, ao fundo, vê-se o prédio sito nos Campo dos Mártires da Pátria, 96, erguido em 1854 e que ainda lá está.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este chafariz n.º 6 situava-se a norte do Campo de Santa Anna (Campo dos Mártires da Pátria) sobre a antiga Carreira dos Cavallos, hoje Rua de Gomes Freire, conforme atesta o levantamento topográfico realizado em 1858 por Filipe Folque [vd. carta topográfica]Em 1838 "foi reformado, pondo-se-lhe em frente um semicírculo de columnellos, cujo espaço foi calçado de novo"
Em 1851, o Chafariz do Campo de Santa Anna (chafariz n.º 6) tinha 4 bicas, 2 tanques, 5 companhias de aguadeiros, 5 capatazes e cabos, 165 aguadeiros e 2 ligeiros. Os sobejos foram concedidos ao Hospital de S. José, por Ordem de 23 de Maio de 1792. Abastecia, por volta de 1850, o antigo Hospital de Rilhafoles (hoje Miguel Bombarda) e o Asilo de Mendicidade (hoje Hospital dos Capuchos). 

Local do Chafariz do Campo de Santa Anna em 1858
Levantamento topográfico de Lisboa sob a orientação de Filipe Folque, 1858 (excerto)
A vermelho está assinalado o chafariz e o Aqueduto que levava a água ao Chafariz do Campo de Santa Anna; a azul, a antiga Carreira dos Cavallos, hoje Rua de Gomes freire.
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 61, 1938.
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.
cm-lisboa.pt.

Saturday, 11 June 2016

Convento de Sant'Anna, sepultura de Luiz de Camões

Diz-se que as ossadas de Luíz Vaz de Camões, que se encontram no Mosteiro dos Jerónimos, foram retiradas de um túmulo da Igreja do antigo Convento de Sant'Anna (vd. Fig. 1), onde terá estado depositado o corpo do poeta de 1595 a 1737. Na tentativa de encontrar os ossos do grande épico foram  criadas duas comissõoes: a primeira em 1836 e a  segunda em 1856. Ambas asseguraram ter descoberto os restos mortais de Camões, se bem que em diferentes locais do convento.(vd. Fig 2). Subsistem dúvidas sobre se serão mesmo do autor de "Os Lusíadas", já que não foi encontrado no local qualquer inscrição que o indicasse.

Convento de Sant'Anna, igreja [ant. 1900]
Antiga Rua do Convento de Sant'Anna [actual Rua do Instituto Bacteriológico]
com a antiga Travessa do Convento de Sant'Anna [Rua Câmara Pestana].
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O Convento pertencia à Ordem dos Frades Menores (Ordem de São Francisco), estava situado junto ao  antigo Campo de  Sant'Anna (hoje Campo dos Mártires da Pátria), na freguesia da Pena. Foi extinto em 4 de Maio de 1884, por morte da última religiosa madre Maria da Conceição, tendo sido demolido em 1899 para a construção do Instituto Bacteriológico de Câmara Pestana.

Convento de Sant'Anna [ant. 1900]
Antiga Rua do Convento de Sant'Anna [actual Rua do Instituto Bacteriológico]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1561, «vinte freiras penitentes que habitavam, em  regra religiosa de Santo Agostinho, um Recolhimento no Castelo, fundado — diz a tradição — por uma prêta chamada simplesmente Ana» (ARAÚJO, 1939), acordaram com a Real Irmandade dos Escravos do Santíssimo Sacramento de edificar o mosteiro junto às paredes da pequena Ermida de Sant'Anna, de que aquela se dizia proprietária, sob a protecção da rainha D. Catarina, mulher de D. João III, lavrando-se escritura da concordata, em 21 de Julho de 1561.

Fig. 1 - Carta topográfica de Folque, Filipe, 1858 [Fragmento ]
Legenda (clicar para ampliar):
Vermelho: Convento de Santana, igreja
in Lisboa de Antigamente

Quando se instalaram as freiras, surgiram discórdias de parte a parte, dissolvidas pelo Terramoto de 1755, visto que destruiu a ermida e desmoronou parte do Convento, obrigando as religiosas a abrigarem-se em barracas feitas na cerca, indo os irmãos de Sant'Anna para São Crispim, à Sé, onde trataram de reedificar a capela com a mesma invocação.

Fig. 2 - Planta do Convento de Santana, igreja [30 Out. 1899]
Legenda (clicar para ampliar):
Azul: O local das ossadas de Luiz de Camões determinado pela segunda comissão em 1836
Vermelho: O local das ossadas de Luiz de Camões determinado pela segunda comissão em 1856
in O Occidente
Web Analytics