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sexta-feira, 14 de julho de 2017

Casa e Palacete Lambertini

Michel’Angelo Lambertini (1862-1920), foi uma personagem fundamental da cultura portuguesa de finais do século XIX, princípios do século XX. No domínio da música foi executante, maestro, compositor e musicólogo além de editor e comerciante. Foi também o responsável pela reunião de uma parte considerável do actual acervo do Museu da Música.


A Casa Lambertini & Cª, com a licença nº 454 registada e paga para o ano inteiro inteiro em 12 Janeiro de 1861, localizava-se na Rua Oriental do Passeio, 2, e apresentava armazém de pianos e instrumentos. No ano seguinte à morte de Luís Joaquim Lambertini, em 1865, os filhos renomeiam a designação comercial da casa passando a chamar-se Lambertini Filhos & Cª, no Largo do Passeio Público, 8– 2. A morada sofrerá pequenas alterações de número de polícia, não deixando, no entanto, de se fixar sempre na zona do Passeio Público, mais tarde Praça dos Restauradores e Avenida da Liberdade.
O nome perdurou por toda a segunda metade do séc. XIX, tendo dobrado a centúria. No limiar do séc. XX a casa estava já nas mãos de um neto do bolonhês, Michel’Angelo Lambertini, na Praça dos Restauradores, 43–49, declarando uma renda anual de 400$000 réis, sintomática da prosperidade económica da casa e da sua implantação no mercado.

Praça dos Restauradores, 43–49 |ant. 1900|
Antiga Rua Oriental do Passeio Público
O terceiro toldo, à direita, é da «Casa Lambertini».
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O projecto de criação de um Museu Nacional da Música remonta a 1911, por iniciativa do próprio Michel’Angelo Lambertini, mas viria a falhar, contudo, com a morte do musicólogo, sendo retomado anos mais tarde pelo Conservatório Nacional na sequência da aquisição pelo estado do acervo.

Anúncio da Casa Lambertini em 1896
Branco e Negro: semanario illustrado

O Palacete Lambertini, sito na Avenida da Liberdade, 166, mandado construir por iniciativa de Michel’Angelo Lambertini, foi projectado, em 1901, pelo arq. Nicola Bigaglia. Este edifício recebeu, ex-aequo com outro imóvel, uma Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1904, facto que não agradou de todo ao seu proprietário, uma vez que o prémio principal não havia sido atribuído nesse mesmo ano, em virtude do júri ter considerado que "(...) nenhum dos prédios concluídos em Lisboa (...) [durante o ano em questão, reunia] o conjunto de condições artísticas essenciais para ser classificado em mérito absoluto (...)". Apesar das reclamações e apelos de Lambertini junto da Câmara, a decisão manteve-se. Posteriormente foi objecto de duas alterações importantes, a 1ª , em 1927, com projecto do arq. Carlos Ramos e a 2ª, a partir de 1939, obra do arq. Raúl Tojal (foi alteado de um piso).
Incluído na zona da Avenida da Liberdade que se encontra Em Vias de Classificação, este imóvel traduz uma arquitectura eclética e assenta numa lógica renascentista veneziana, próxima do estilo lombardesco, evidenciando como elemento excepcional a integração no alçado principal de composições de mosaicos, inspirados nos da Igreja de São Marcos de Veneza.

Vista sobre a Avenida da Liberdade [ant. 1939]
Enquadramento do Palacete Lambertini (assinalado a vermelho) na Avenida; Monumento aos Mortos da Grande Guerra (1931)
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Incluído na classificação da Avenida da Liberdade e na Zona Especial de Proteção Conjunta dos imóveis classificados da Avenida da Liberdade e área envolvente. O edifício recebeu, ex-aequo com outro imóvel (Avenida da Liberdade, 262-264), uma Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1904, facto que não agradou de todo ao seu proprietário, uma vez que o prémio principal não havia sido atribuído nesse mesmo ano, em virtude do júri ter considerado que "(...) nenhum dos prédios concluídos em Lisboa (...) [durante o ano em questão, reunia] o conjunto de condições artísticas essenciais para ser classificado em mérito absoluto (...)". Apesar das reclamações e apelos de Lambertini junto da Câmara, a decisão manteve-se.

Palacete Lambertini |c. 1966|
Avenida da Liberdade, 166
Mário Novais, iin Lisboa de Antigamente

Bibliografia
Cadernos do Arquivo Municipal, Nº4, 2000-
FERREIRA, Fátima C. G., Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa, p. 287, 1987.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Antigo coreto da Avenida da Liberdade

D. Felicidade quis então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o Conselheiro; por ele, para lhe parecer bem, fizera o sacrifício de se apertar!
Acácio não vinha, os gases começavam a afrontá-la; e o despeito daquela ausência aumentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, o corpo mole, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, numa névoa empoeirada. 

Mas a música, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruído de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquilo reanimou-a.
Era pot-pourri da ópera — e não havia música de que gostasse mais. (Queiroz, 1878)


No projecto da Avenida da Liberdade (após demolição do Passeio Público) estavam contemplados novos equipamentos para o jardim, incluindo um novo coreto, criado por José Luís Monteiro e cuja construção foi iniciada no lado oriental da Avenida, no talhão situado entre a Rua dos Condes e o Largo da Anunciada, mas uma petição de Dezembro de 1885, de vários moradores da zona pediu a suspensão da sua construção naquele local, o que foi aceite em Comissão Executiva, a 13 de Fevereiro de 1886, que decidiu suspender os trabalhos, remover os materiais e guardá-los até ser designado novo local para o coreto. Apesar de não haver coreto na Avenida, existem referências de bandas tocarem entre a Praça dos Restauradores e a Rua das Pretas.
Mais tarde, possivelmente no lugar onde actuavam as bandas foi construído um (primeiro) coreto fixo de materiais pouco duráveis a pedido da Sociedade Promotora das Creches para a realização de uma quermesse em Setembro de 1886, coreto esse que a pedido dos moradores, foi mantido nesse local até 1894, ano de inauguração do coreto fixo (segundo).
A necessidade de um novo coreto na Avenida da Liberdade, devido ao estado de degradação do coreto provisório e o pedido dos moradores lisboetas tendo em vista a necessidade de manter a música neste local, fez com que a 19 de Maio de 1892 fosse retomado o projecto de coreto de José Luís Monteiro, mas agora noutro local, para a parte mais alta da Avenida, no talhão em frente à Rua Rosa Araújo.
O coreto fixo, inaugurado a 15 de Agosto de 1894, foi aí mantido até 1935, quando foi desmanchado para ser novamente reconstruido noutro local, o Jardim da Estrela, onde se mantêm até aos dias de hoje. A decisão de mudar este coreto de local deveu-se ao aumento da quantidade de tráfego, comércio e escritórios na Avenida da Liberdade, factores pouco convidativos para o ambiente musical e para atrair pessoas até ao coreto.

Avenida da Liberdade, coreto [c. 1894]
Este coreto situava-se defronte ao nº 232 no lado nascente da avenida, no quarteirão entre as ruas Barata Salgueiro e Alexandre Herculano. Foi transferido em 1935-36 para o Jardim da Estrela.
Chaves Cruz, in Lisboa de Antigamente

Inaugurado em 15 de Agosto de 1894, tocando, à noite, das oito às dez horas a banda de Infantaria 2, e sendo todo iluminado a luz eléctrica. Porém, não deu o melhor resultado porque se apagou muitas vezes, o que fez com que a música desse algumas fifias, por estar às escuras.
É um coreto em mármore e ferro, do risco de José Luís Monteiro, com sugestões indianas no desenho dos arcos e na cobertura. O interior desta apresenta um invulgar trabalho decorativo em madeira com liras, folhagem e monograma camarário. É o único coreto com duas escadas de acesso, em ferradura, que pela simetria da planta lhe conferem um maior equilíbrio no desenho.

Avenida da Liberdade, coreto [c. 1900]
Coreto da autoria de José Luís Monteiro, foi transferido em 1935 para o Jardim da Estrela.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Na edição de 1831, do Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, a palavra coreto surge com o significado de «pequeno coro feito para alguma função». Enquanto em 1890 surge uma outra versão, emendada e acrescentada, que define o coreto da seguinte forma:
«Corèto», s. m. Côro pequeno. Especie de palanque, vistosamente ornamentado, destinado à música, e que se arma geralmente por occasião de festa publica, em arraiaes, etc..»

Antigo coreto da Avenida da Liberdade [1960-06-11]
Coreto da autoria de José Luís Monteiro, foi transferido para este Jardim da Estrela em 1935. 
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
QUEIROZ, Eça de, O Primo Basílio, 1878.

NUNES, Joana, O coreto na cidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes (FBA), Dissertações de Mestrado, 2012.
RELVAS, Eunice; BRAGA, Pedro Bebiano, Coretos em Lisboa: 1790-1990, p. 129, 1991.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Avenida da Liberdade

Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?.... Já não é mau! 1


A Avenida da Liberdade, inaugurada em 1885, ou a Avenida, como quase logo passou a ser designada, foi um lugar em si mesmo. Nos últimos anos do século XIX e até à proclamação da República, «fazia-se a Avenida» como se fazia a Rua Áurea e o Chiado: para passear, ver e ser visto, numa ritualização do passeio urbano cujas características eram ainda românticas.
O ajardinamento das placas laterais (que salvaguardaram espécies do Passeio Público e alguns dos seus elementos decorativos, como os pequenos lagos), a amplitude do espaço de andar e a quase ausência de trânsito explicam que a Avenida tenha sido, de facto, a mesma espécie de palco que fora o Passeio Público, mas sem muros nem portões de acesso, democratizando o passeio e a fruição de espectáculos ocasionais de Verão. 2

Avenida da Liberdade [1955]
Panorâmica da Avenida da Liberdade com placas ajardinadas
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente


«Assim se fez a Avenida» escreve, em 1893, Fialho de Almeida — panfletário maior da literatura portuguesa — «que é como se sabe um corredor de cantaria, com altos muros cheios de buracos, palmeiras de cabellos nas pernas, e um obelisco-thermometro marcando no primeiro de Dezembro o zero da temperatura patriotica. (...)
Insisto no que poderia ter dado a Avenida, se a camara partindo d'um estudo de transformação architectonica bem guiado, e sabendo que para essa arteria convergiriam todas as novas construcções luxuosas da classe rica, dictasse a esta typos de residencia, não nos seus detalhes meúdos, que isso seria um attentado ás leis da variedade, mas dentro d'um quadro d'estilos sujeito a um ensemble, e frisando o monumental da grande rua. Eis o que teria afastado daquele sítio os prédios mercenários, os predios cómodas, com janelas de bico e platibandas de louça por vidrar, e o que multiplicaria as perspectivas por uma diversidade sem fim de tipos palaciais, dando a esse eixo novo de Lisboa a grandeza cenográfica que lhe falta, e o ar de grande terra que já agora só com um terramoto novo pode ter. 

Avenida da Liberdade [ant. 1939]
Placas ajardinada
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

É realmente mágoa olhar da praça dos Restauradores, até à Penitenciária, o bisonho canal de casarões saloios que arrotam sobre a via, chatos e altíssimos, com seus telhados opacos, lucarnas de celeiro, magras varandas, e divisórias de aluguer, cheirando a sovinice dos senhorios. Dos pouquíssimos palácios que lá restam, apenas do marquês da Foz tem grande tipo, o resto concebido num tipo de cartonagem chinfrinote, dizendo o disfrute ou a estupidez do arquitecto, a farófia patuda dos donos, e a irremissível chateza merceeiral do nosso tempo.» [3]

Avenida da Liberdade [1955]
Placa ajardinada; Monumento aos Restauradores
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

1 QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888.
2 SILVA, Raquel Henriques da, O Livro de Lisboa: O Passeio Público e a Avenida da Liberdade.
3 ALMEIDA, Fialho de, Os Gatos, vol. 6, 1893.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Teatro da Rua dos Condes, hoje Cinema Condes

O Teatro da Rua dos Condes, hoje Cinema Condes, representou grande papel na vida nacional. Construído entre 1756 e 1765 no Pátio dos Condes, assim chamado por ali estar o palácio dos Condes da Ericeira, foi o campo de manobras da famosa cantora Zamperini, que fez andar a cabeça à roda à nobreza. O filho do Marquês de Pombal obrigou os comerciantes de grossos cabedais a fazerem-se accionistas do teatro, para ganho e lustre da amásia.


Aí temos o Cinema Condes, banal e que pouco diz. Tem alguma história. Era neste sítio, até ao Terramoto — recorda o ilustre Norberto de Araújo — , o Pátio dos Condes da Ericeira, tornado montão de ruínas depois do cataclismo. O primitivo Teatro da Rua dos Condes datava de 1765, e foi demolido em 1882, dando o último espectáculo em 20 de Maio. Fora construído pelo arquitecto Petrónio Mazzoni, e nele se cantou ópera durante dezenas de anos. Ficou célebre a passagem por esse teatro da famosa cantora Zamperini, que tantos escândalos amorosos deu em Portugal, vendo-se o Marquês de Pombal obrigado a expulsá-la do país . O Teatro teve história, ligada à vida literária e teatral portuguesa; em 1782 passou a ser o Teatro Nacional, e no começo da século passado [XIX] a sua administração esteve ligada à de S. Carlos. 
Em 1837 intitulava-se Novo Teatro Nacional do Ginásio.

Theatro da Rua dos Condes
Demolido em 1882, no sitio onde levantou outro teatro [vd 2ª imagem], hoje Cinema Condes.
Desenho de M. de Macedo, in Lisboa de Antigamente

Demolido, como disse, em 1882, construíu-se um pequeno Chalet, teatrinho contido num barracão que durou pouco mais de um ano Só em 1888 se ergueu este Teatro da Rua dos Condes [vd 2ª imagem], por iniciativa do comerciante Francisco de Almeida Grandela, sendo arquitecto Dias da Silva, e decoradores Eduardo Reis e Júlio Machado. Foi inaugurado em 23 de Dezembro com a peça «As Duas Rainhas», uma tradução de Sousa Bastos, e com um monólogo de abertura recitado por Taborda , escrito por Baptista Machado.
O Teatro foi restaurado em 1898, e, modernamente, com transformações largas, recebeu obras em 1931. Desde 1920 1915, porém, deixou de ser teatro para se converter como tantos em «Cinema Condes». [Estreou como cinema em 2 de Abril de 1915]

Teatro da Rua dos Condes,  inaugurado em 23 de Dezembro de 1888 [c. 1908]
Avenida da Liberdade com a Rua dos Condes
Em cartaz: "De olho aberto!: revista simbólica e de costumes em 3 actos e 9 quadros" de Daniel Moreira (Rei Móra). Música de Luz Junior.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O recente Cinema Condes foi construído, entre 1950 e 1952, por iniciativa da empresa teatral Variedades, no mesmo local onde existira o Teatro Condes, propriedade de Francisco Grandela. Projectado pelo arqº Raul Tojal e executado pelo construtor António Costa, apresenta planta rectangular, volumetria escalonada e cobertura em terraço. Acompanhando o declive do terreno, desenvolve-se em duas frentes, uma voltada à Avenida da Liberdade e a outra à Rua dos Condes. As fachadas em reboco pintado, com apontamentos rectilíneos de grande verticalidade em cantaria e com piso térreo totalmente revestido a cantaria, apresentam um ângulo de articulação boleado, esculpido com relevos, acentuado superiormente por remate em corpo circular de menor secção, vazado por cinco janelas e protegido por pala. 


Cinema Condes [c. 1956]
Avenida da Liberdade com a Rua dos Condes
Salvador Fernandes. in LdA


Cinema Condes [c. 1952]
Avenida da Liberdade com a Rua dos Condes
Estúdio Horácio Novais, in LdA



A porta principal, de verga recta, rasga-se no ângulo e permite a entrada para o interior, onde funciona, desde 2003, o «Hard Rock Café», aí instalado após grandes obras de transformação e adaptação do cinema a restaurante.
Este imóvel integra a Zona da Avenida da Liberdade, que se encontra Em Vias de Classificação. [instituto-camoes.pt]

Cinema Condes,  inaugurado em 30 de Outubro de 1951 [c. 1952]
Avenida da Liberdade com a Rua dos Condes
O Cinema Condes manteve-se como sala de projecção até 1997.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, pp. 25-26, 1943. 

domingo, 7 de abril de 2019

Circo Price

Do lado ocidental da actual Avenida da Liberdade — situado na esquina da antiga Travessa da Vacas (hoje «do Salitre») com a Rua do Salitre (antes «Calçada do») — erguia-se o antigo Circo Price [vd. mapa], fundado em 1860 pelo inglês Thomas Price e que teve grande aura como um dos divertimentos predilectos de Lisboa. Dele contaram histórias autores afamados. Aqui damos nota de alguns deles.

E o Circo Price  — interrogarás tu, Dilecto, que tanto tens ouvido falar dele? Ora eu te digo, em poucas palavras. 
 O Circo Price foi vizinho da velha Praça taurina [do Salitre], mas muito posterior. Assentava no eixo da Avenida [da Liberdade] de hoje, pouco mais ou menos onde está o monumento aos Mortos da Guerra.
Em parte do terreno da horta dos frades capuchos, e que êles em seu tempo traziam de renda, fêz erguer o inglês Tomás Price o seu Circo, inaugurado em 11 de Novembro de 1860, o que contribuiu para liquidar o Circo velho do Salitre. Deu espectáculos de «cavalinhos» [nome pelo qual o povo conhecia esta casa de espectáculos], de exposição de feras, e até deliciou o público com zarzuela, e da melhor de Espanha. Em 1875 o Circo Price foi hipotecado, e desapareceu, mas o simpático inglês não desanimou e instalou-se no abandonado Circo vizinho, o «do Salitre», que, assim, reviveu um tempo.
E em 1880 já não havia nada disto; teatros, praças, circos, sumiram-se.¹

Circo Price [ant. 1880]
Calçado do Salitre, esquina da  , foi demolido para abertura da Avenida da Liberdade em 1880

«Era mais amplo que o actual Colyseo dos Recreios, e a sua enorme cupula assentava sobre grossas vigas de madeira, que resistiram a todo o tempo e maus tratos que lhes deram. (I.P. 1885)
Desenho de Domingos Cazellas, gravura de Caetano Alberto

Era em 1867. Frente a frente, as Variedades [Theatro das] e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira — noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapeus tombados, ombros que penetravam á cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.²

Circo Price [ant. 1880]
Calçado do Salitre, esquina da Travessa das Vacas, foi demolido para abertura da Avenida da Liberdade em 1880
Número de equilibrismo

«O espectaculo compunha-se quasi todo de trabalhos sobre cavallos, saltos de bandeiras, arcos e fitas, e intermedios comicos pelos tres clowns Whyttoine, Secchi e Alfano. O valor da companhia aquilatava-se pelo numero de cavallos que a mesma trazia. Era parte obrigada do espectador visitar as cavallariças no intervallo do espectaculo.». (I.P. 1885)
Desenho da época, reproduzido fotograficamente por José Artur Barcia

Tinham chegado ao Price. Uma multidão de domingo, alegre e pasmada, apinhava-se até ás ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os requebros do palhaço [vd. N.B.], rebocado de caio e vermelhão, que tocava nos pésinhos duma voltigeuse e lambia os dedos, de olhos em alvo, num gosto de mel... Descansando na sela larga de xairel dourado, a criatura, magrinha e séria, com flores nas tranças, dava a volta devagar, ao passo dum cavalo branco, que mordia o freio, levado à mão por um estribeiro; e pela arena o palhaço lambão e néscio acompanhava-a, com as mãos ambas apertadas ao coração, numa suplica babosa, rebolando languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de lantejoulas. Um dos escudeiros, de calça listrada de ouro, empurrava-o, num arremedo de ciúmes; e o palhaço caia, estatelado, com um estoiro de nádegas, entre os risos das crianças e os rantantans da charanga. O calor sufocava; e as fumaraças de charuto, subindo sem cessar, faziam uma neva onde tremiam as chamas largas do gás. Carlos, incomodado, abalou.
— Espera ao menos para ver a mulher dos crocodilos! gritou ainda o Taveira.
— Não posso, cheira mal, morro!³
     [...]
— Então de onde vem, de onde vem?
Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da pipa.
— A pipa tem muita graça! Muita graça!⁴

[Leopoldina] Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, chaves, uma caixinha de pó-de-arroz; mas encontrou apenas um programa do Price.⁴

Programa do Circo Price [1867]
Calçado do Salitre, esquina da Travesso das Vacas, foi demolido para
abertura da Avenida da Liberdade em 1880

Do circo do Price lembro-me muito bem — diz Matos Sequeira — , como da figura do Price, sentado de chapeu alto, no pequeno salão precedido do estreito corredor de entrada, distribuindo programas do alto do seu estrado.⁵

Levantamento topográfico de Lisboa, extracto [1878]
Legenda: a
azul o Circo Price; a azul claro a antiga Travesso das Vacas (actual «do Salitre»; a vermelho, a Avenida da Liberdade; a verde, a Praça/Circo do Salitre e o Theatro das Variedades;
a laranja, a Rua do Salitre, antiga «Calçada do»

César Goullard, in Lisboa de Antigamente

N.B. O palhaço a que Eça se refere em «Os Maias» e na «brincadeira da pipa» em «O Primo Basílo»(³,⁴), era, com grande probabilidade, o famoso Whyttoine, um dos mais aclamados clowns do panorama artístico do séc. XIX, largamente elogiado n'A Illustração portugueza de 1885:
«No Circo Price existia porém uma individualidade unica, especial, sui generis, que todos conheciam, applaudiam, estimavam e respeitavam — o velho Whyttoine, esse clown que chegou até nossos dias como um symbolo de bondade, trabalho e honradez, e como uma mimosa recordação da nossa descuidada infancia.
Whyttoine era a nota alegre do Circo Price. Perante a sua veia comica abatiam-se humilhadas as mais austeras gravidades e sorumbaticos caracteres. A scena da pipa e o morto e o viro não tornaram a ter outro interprete que melhor as desempenhasse.»
______________________________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 34. 
² Abel Botelho. O Barão de Lavos, 1908.
³ QUEIROZ, Eça de, Os Maias,1888.
³ idem, O Primo Basílio, 1878.
⁵ MATOS SEQUEIRA, Gustavo de, Depois do terramoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, 1967.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Monumento a Rosa Araújo

Na esquina do quarteirão onde está. a Sociedade de Belas Artes, enfrentando as Ruas Rosa Araújo e Mourinho da Silveira, foi colocado em [25 de Outubro] de 1936 um monumento, bem modesto por tal sinal, e ridiculamente situado, a José Gregório de Rosa Araújo, o criador da Avenida da Liberdade. O busto é em bronze (Costa Mota, sobrinho); sobre o soco, em pedestal, avulta em tamanho natural a figura de Lisboa coroada.

É tudo, Dilecto, quanto Rosa Araújo mereceu da edilidade!


Monumento a Rosa Araújo |1936|
Esquina das Ruas Rosa Araújo e Mouzinho da Silveira
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A grande audácia da época — a abertura da Avenida da Liberdade — ficou a dever-se ao génio perseverante e audaz de Rosa Araújo, o «Barão Haussmann Português», tendo a seu lado o engenheiro Miguel Pais.
Esse notável rasgo, partindo de 1879, com a demolição da Travessa do Salitre — e com ela a de um grande prédio onde estava a Fotografia Rocha, que, pelo seu elevado custo, tantos engulhos causou a Rosa Araújo — teve a sua culminância em 1882 quando aquele benemérito, enérgica e decididamente, lutando contra a opinião de grande parte da gente alfacinha — o próprio Júlio de Castilho o lamentou — resolveu mandar derrubar as grades que vedavam as entradas do Passeio Público. Foi esse acto inesquecível que permitiu ser a cidade dotada com a mais linda avenida que possuímos.
José Gregório da Rosa Araújo, filho do velho confeiteiro da Rua de S. Nicolau — o Có-có, fartamente caricaturado mas que não conseguiram ridicularizar, chegou a ocupar o alto cargo de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Herdou de seu pai a honra, o título e a fortuna e pôs esta, bastas vezes, ao serviço da causa e da filantropia, morrendo pobre. O importe das primeiras obras, no valor de 22 contos, foi adiantado do seu bolso.
A Avenida da Liberdade — a que Rosa Araújo idealizou e em cuja obra pôs toda a esperança e paixão — viu passar o cortejo fúnebre desse insigne edil, um dos maiores e mais dedicados servidores da cidade de Lisboa, falecido em 26 de Janeiro de 1893, por entre alas compactas de povo, com os candeeiros acesos e envoltos em crepes.

Colocação do Monumento a Rosa Araújo |1945|
Avenida da Liberdade
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Finalmente, em Outubro de 1945, o busto de Rosa Araújo (1840-1893) foi colocado na Avenida da Liberdade, em frente da rua com o nome do antigo presidente do Município da capital.
_______________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 41, 1939.

COSTA, Mário, Feiras e outros divertimentos populares de Lisboa, 1960.

domingo, 18 de setembro de 2022

Theatro da Avenida

O Teatro [da] Avenida foi construído nuns terrenos que aqui possuía João Salgado Dias por iniciativa deste, ligado a Alexandre Mó, e a Ernesto Desforges. Inaugurou-se em 11 de Fevereiro de 1888 — recorda Norberto de Araújo — com as comédias «O Tio Torcato», em que entrou Taborda, e «De Herodes para Pilatos», com António Pedro.
Esta casa de espectáculos — que nunca caiu em cinema —  também está ligada à história do teatro português; foi o grande teatro de Sousa Bastos, e o palco de glória de Palmira Bastos, na mocidade. Não possui este Teatro, que alguns restauros sumários tem recebido, um maior interesse artístico.

Theatro da Avenida, em cartaz a revista Có-có-ró-có  |1912|
Avenida da Liberdade, 150-156
A fachada, de aparência simples, é composta por dois pisos: no rés-do-chão, quatro portas de madeira; no primeiro andar, uma varanda de ferro a toda a largura daquela; no cimo, um arco com a inscrição “Theatro da Avenida”.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Antes da inauguração, em 1888, informava o Diário ilustrado que «os peritos que ontem passaram vistoria a este Teatro encontraram-no nas melhores condições e com as mais prontas e rápidas saídas. A nova e elegante casa de espectáculos é inaugurada amanhã», acontecimento adiado «por não estarem ainda completos todos os trabalhos de ornamentação». Finalmente o Teatro abriu as suas portas ao público no dia 11 de Fevereiro e o mesmo jornal comentava: «Por um prodígio de actividade, raro em a nossa proverbial indolência, o Teatro da Avenida surgiu de um montão de escombros, no breve espaço de alguns meses, doirou-se, aformoseou-se, completou-se no rápido decurso de alguns dias, e abriu anteontem as suas portas ao público, que o contemplava, maravilhado, mal podendo crer no testemunho dos seus olhos. 

Teatro da Avenida  |c. 1930|
Avenida da Liberdade, 150-156
Esta sala de espectáculos abrira as portas na Avenida para tentar imprimir à nova artéria a centralidade
perdida com a demolição do Passeio Público, onde Lisboa se mostrava e se via.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

O Teatro é alegre, elegante, matizado de cores claras, brilhando à chama mordente do gaz, que o enche de luz. O balcão, guarnecido de cadeiras de cordovão escarlate e pregaria amarela, de um gosto original e moderníssimo, é muito bonito e desafogado, e talvez mesmo o melhor lugar do novo teatro. Os avant scènes são espaçosos e também muito elegantes, verdadeiros avant scènes parisienses. O pano de boca, à parte uma tal ou qual ausência de perspectiva, é de um grande efeito decorativo, especialmente do lado direito, que apresenta um toldo oriental, realmente bem pintado. À sua entrada em cena, os dois gloriosos artistas Taborda e António Pedro foram acolhidos com ruidosas salvas de palmas e uma chuva de camélias que se alastrou no palco, transformando-o em um florente jardim».

Teatro da Avenida  |ant. 1932|
Avenida da Liberdade, 150-156, junto à Rua do Salitre defronte do local do Monumento
aos Mortos da Grande Guerra. O Avenida nunca desvirtuou o seu primeiro propósito
– o teatro –, sendo dos poucos a resistir ao cinema e a outros apelos comerciais, manteve
sempre o nome e a identidade.
Pouco apelativo às elites, sempre foi o “popular Avenida”.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Em 1964, Vasco Morgado, empresário do Avenida, «empresta» o teatro à companhia Rey Colaço/Robles Monteiro, recém desalojada (devido ao incêndio) do Teatro Nacional D. Maria II, , acrescia à penúria já notada uma visível degradação do edifício. 
A companhia decidiu assumir a remodelação considerada essencial para a dignificação do espaço, suportando financeiramente as alterações técnicas e estéticas a cargo de Lucien Donnat. Amélia Rey Colaço investiu cerca de mil contos, “a verba recebida pelo Seguro, inferior ao valor perdido [com o incêndio do D. Maria II], que foi praticamente absorvida na remodelação da sala do Teatro Avenida que se encontrava num estado de abandono impróprio de receber uma Companhia oficial, [e] no equipamento eléctrico do palco” (Santos 1989: 262). A empresária cedeu, ainda, “mobiliário que era pertença sua: lustres, candeeiro de pé, tapeçarias, cortinados de veludo e jogos de maples que Amélia, devotada totalmente ao seu trabalho, levara da sua residência, ajudando com a sua iniciativa, e com os seus objectos, o engenho do decorador Lucien Donnat”.

Teatro da Avenida, interior  |1913|
Avenida da Liberdade, 150-156
Apresentação da revista Alerta!
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

No dia da reabertura do Teatro Avenida, a 6 de Fevereiro de 1965, a imprensa aplaudiu. 
Mas o élan não dura três anos. Às 21 horas e 20 minutos do dia 13 de Dezembro de 1967, a 25 minutos da apresentação de Feliz aniversário de Harold Pinter, ainda sem um único espectador no teatro, irrompe o fogo. Até então, o Avenida tinha levado à cena mais de 300 peças teatrais.
Foi demolido em 1970.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, pp. 39, 1939.
MOURA,  Nuno Costa, Teatro Avenida Hoje e sempre, fora dos eixos, APCT - Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, Sinais de cena 2. 2004, 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Carnaval de Lisboa

Se não participava nos bailes de máscaras, assaltos e no Corso da Avenida, espectáculo reservado à burguesia que toda se enfeitava para descer a Avenida da Liberdade e subir o Chiado, em vistosos carros alegóricos, qual deles o mais imaginativo, ao povo pertenciam, inteiramente, os folguedos carnavalescos mais tradicionais, como as Paródias, as Cégadas, a Dança da Bica, a Dança da Luta, todos de forte pendor histórico.


Avenida da Liberdade, Lado ocidental entre a Calçada da Glória e a Tv. da Glória [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida da Liberdade, junto à Rua Alexandre Herculano [1906]
Ao fundo o edifício (já demolido) da Associação Industrial Portuguesa

Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Avenida da Liberdade, junto à Rua do Salitre [Inicio séc. XX]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida da Liberdade [Inicio séc. XX]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Para as Paródias de Carnaval constituíam-se em grupos de cerca de trinta ou quarenta pessoas, cada uma encarnando determinada figura, obedecendo todos ao toque do apito dum director-ensaiador que os vinha preparando, desde havia dois ou três meses atrás.
Entre os tipos de mascarados que acompanhavam estes cortejos abundavam os «Homens de Capote e Lenço» e os «Galegos» em fralda de camisa. A figura mais popular era, porém, a do «Chéché», de cabeleira de estopa, com grandes lorgnons, trazendo, espetado na bengala, um grande chifre, empunhava um facalhão de madeira e papel prateado com o qual ia ameaçando: «Arreda que te espeto».

Praça Dom João da Câmara; Largo do Regedor [1907]
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Rua da Escola Politécnica [c. 1910]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Largo do Regedor [1907] 
Dança da Luta
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Estes cortejos acabavam sempre por parar no Rato, em frente ao Palácio do Marquês da Praia, que não dispensava esta atenção popular. As Cégadas, com possíveis raízes nos autos medievais, eram farsas burlescas, representadas em plena rua, cujo assunto inspirava-se em cenas de vida quotidiana. Para estas representações, os figurantes envergavam indumentária e caracterização apropriada às personagens que pretendiam encarnar. Entre as paródias carnavalescas mais populares contavam-se a Dança da Escada e a Dança da Bica ou Dança da Luta, nas quais eram executados vários números acrobáticos, mostrando os participantes a sua destreza no salto, nos jogos de força, ou como equilibristas.

Largo do Chiado [c. 190-]
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Praça Dom Pedro IV, o «chéché» ou «xéxé» a principal figura do carnaval lisboeta [c. 1900]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Praça Do Comércio [c. 190-]
Alberto Carlos Lima,in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
O Povo de Lisboa: tipos, ambiente, modos de vida, mercados e feiras, divertimentos, mentalidade, Câmara Municipal de Lisboa, p. V, 1979.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Café Cristal

Localizado em plena Avenida da Liberdade, 131-137, nas proximidades do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, o Cristal começou por ser um simples café. A sua criação terá ocorrido por volta de 1940, data em que o célebre arquitecto Cassiano Branco submeteu um primeiro projecto de decoração revelador de uma enorme influencia do estilo Art-Déco.


A importância do estabelecimento como centro de espectáculos emergiu a partir de Novembro de 1941, com a inauguração do Bar Cristal. O passo seguinte foi a abertura, em Janeiro de 1942, do dancing, faceta que acrescentou ao Cristal a valência de cabaré com animação nocturna entre as 23.00 e as 5.00 horas. Para esta última etapa contribuiu o encerramento do Maxim's, ocorrido em 1940, como se depreende de um anúncio publicado no Diário de Lisboa: «Não há nenhum português de categoria e cremos, até, dos estrangeiros nossos hóspedes, anos atrás, que não sintam o desaparecimento do Maxim's [...]. 

Café Cristal |1941|
Avenida da Liberdade, 131-137 (edifício demolido em 1989)
Estúdio Mário Novais,in Lisboa de Antigamente
Café Cristal |1941|
Avenida da Liberdade, 131-137 (edifício demolido em 1989)
Estúdio Mário Novais,in Lisboa de Antigamente
Café Cristal |1941|
Avenida da Liberdade, 131-137 (edifício demolido em 1989)
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

A direcção do Bar Cristal Dancing, sentindo também essa falta e dentro das suas possibilidades, pretende, em parte, proporcionar ao público o ambiente, luxo e conforto que ali se desfrutavam».
Pelo Cristal, situado ao lado do Café Lisboa e junto ao Parque Mayer, passaram ao longo dos anos várias orquestras e agrupamentos nacionais e estrangeiros ligados aos primórdios do jazz. A primeira foi a Orquestra Caravana, contratada para inaugurar o estabelecimento, que ali actuou nos seus primeiros três meses de actividade. Sucederam-lhe, entre outras, a orquestra Sousa Pinto e Manolo Bel (1945) e, já nos anos 50, a orquestra de Tavares Belo com o vocalista Moniz Trindade, Harlem Jazz, com o cantor Ernâni Ribeiro, Night and Day e Blue Skies. As pequenas formações foram também contempladas, nomeadamente com a cantora espanhola Mari Merche, acompanhada pelo Quarteto Swing (1943), o Quinteto Murilo, com o pianista espanhol Pedro Masmitja (1944), e os Five Swings (1944).

Café Cristal |1941|
Avenida da Liberdade, 131-137 (edifício demolido em 1989)
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

O Cristal terá entrado em crise a partir de 1954, ano em que a sua publicidade na imprensa da época começou a escassear, num total contraste com a profusão anunciadora dos anteriores 12 anos. Não surpreende, pois, que em Fevereiro de 1958 tenha sido substituído pelo Pasapoga, que já não teve, porém, qualquer relevância no panorama do jazz nacional, uma vez que optou por uma programação que privilegiava sobretudo as artistas espanholas de variedades, não obstante a actuação pontual da orquestra de Almeida Cruz.

Café Cristal (1941-1958)
Avenida da Liberdade, 131-137

Bibliografia
SANTOS,  João Moreira dos, Roteiro do Jazz na Lisboa dos anos 20-50 : guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do Jazz em Portugal 2012.
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