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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Largo e Escadinhas de S. Miguel

Eis-nos no largo de São Miguel — o coração da alfama —, no dizer do olisipógrafo Norberto de Araújo.

Direi o seu Rossio? Não. Seria pender o respeito pelo valor das palavras. E de resto, como vês, o pequeno Largo defronte da Igreja, com a sua palmeira africana no centro, as suas ramificações de becos e vielas, a sua fisionomia de uma pobreza confessada e ingénua, não nos permitem o atrevimento: o Rossio, isto...


Estamos agora, nesta reentrância defronte da quina poente da fachada da Igreja [de S. Miguel], em presença de dois dos mais puros exemplares seiscentistas de toda a Alfama. São estes prédios contíguos, fazendo esquina, n.° 11-13 e n.° 15 [vd- 1ª imagem]; o que enfrenta o terreiro, de um largo ressalto, cor de rosa, janelas pequenas, beirais engrinaldados de ervas nascidas da humidade, é um verdadeiro apontamento para artistas de centelha. Não nos demoraremos perante eles, senão surge a pergunta sacramental: «vão-nos demolir a nossa casas?». Esta gente da Alfama não tem o pavor das revoluções, nem das trovoadas, nem dos incêndios — que se afogam em cobertores de papa —; tem o pavor das demolições.

Largo de S. Miguel, Alfama |1927|
Quina poente da fachada da Igreja de S. Miguel e o dois prédios seiscentistas contíguos, fazendo esquina, n.° 11-13 e n.° 15, destacados por  Norberto de Araújo.
Fotógrafo não identificado,
in Lisboa de Antigamente

Ora vê agora esse enfiamento por aí acima, até não sei onde, no complicado das escadarias, ao centro da ladeira empedrada à antiga, lisa e polida, que é um perigo pisá-la. É um dédalo a descoberto. Quintais, frontarias de dois palmos, gatos, crianças rebolando,  e ao fundo, estrídulo, um pregão de laranjas... (...)
Em todo o caso, aqui neste segundo largo [antigo da Cantina Escolar, vd 2ª e 3ª imagens], em ladeira, por trás da Igreja [de S. Miguel], desde há anos chamado da «Cantina Escolar», e que era o prolongamento do Beco do Alegrete [actuais Escadinhas de São Miguel] — lindo nome! — , começo do intrincado Beco das Curvinhas, olha-me este panorama de uma Lisboa que Lisboa não conhece! ¹

Escadinhas de São Miguel, na direcção de Santa Luzia |1939|
Antigo Largo da Cantina Escolar
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

São Miguel Arcanjo tem 6 topónimos a perpetuá-lo nesta zona de Alfama que foi da antiga freguesia de São Miguel: a Calçadinha, o Largo, a Rua, a que se juntaram no final do séc. XIX o Beco e a Travessa e, já no séc. XX, em 1963, as Escadinhas de São Miguel.
A Rua de São Miguel funcionou como uma típica rua Direita medieval deste local. O Beco e a Travessa que hoje encontramos foram obra do Edital Municipal de 09/07/1894, em vez das respectivas anteriores denominações de Beco dos Mortos e Beco de São Miguel. Estas Escadinhas foram as últimas a integrar a toponímia local, nascidas do Edital municipal de 25/01/1963, para substituir o Largo da Cantina Escolar que a autarquia lisboeta quis ali colocar pelo Edital de 27/10/1916 em homenagem à Cantina Escolar de São Miguel, ali fundada em 1909, e que antes era o Beco do Alegrete.
São Miguel tido como o defensor do Povo de Deus no tempo de angústia e aquele que acompanha as almas dos mortos até o céu, tem aqui lugar derivado à proximidade à Igreja de São Miguel que ali está desde o século XII. A primitiva ermida terá começado a ser construída cerca de 1150 e a sede da paróquia do mesmo nome criada em 1180, ocupando a zona norte de Alfama, mais rural que a da freguesia de São Pedro. ²

Aspecto pitoresco do antigo Largo da Cantina Escolar, 
actuais Escadinhas de S. Miguel |1927|
À dir vê-se a fachada lateral da Igreja de S. Miguel e o edifício da «Cantina Escolar»;

no cimo observa-se a torre sineira da Igreja de Santa Luzia.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 55-57)
² cm.lisboa.pt

domingo, 1 de outubro de 2017

Igreja de S. Miguel

A Igreja bairrista de S. Miguel é das mais bonitas de Lisboa, rica de talhas, exemplar quási puro do estilo religioso decorativo de seiscentos, na sumptuária doirada que caracterizava a época.


A paroquial de S. Miguel — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — existia já nos meados do século XVI (1551, pelo menos), mas devia ser muito mais antiga, pois uns cento e vinte anos depois estava de tal maneira ameaçando ruína que houve de ser reconstruída de alto abaixo, como se igreja nova fosse (1674).
Em alguns escritores aparece como existente já no século XIII, coeva de Santo Estêvão (1295), anterior pois à dc S. João da Praça. Nos seus primeiros ciclos de anos, S. Miguel de Alfama olhava o mar do alto da sua encosta, e não estaria envolta de tanto casario como no tempo da reedificação.
O Terramoto destruiu-a em parte, e o que escapou não oferecia segurança, pelo que se decidiu reedificá-la, sensivelmente como hoje se encontra.
 
Igreja de São Miguel  [1899]
Largo de São Miguel
Sobre a cimalha ao centro abre-se um nicho, encimado por frontão triangular
com aletas, o qual acolhe uma imagem de S. Miguel. A escadaria foi substituída em 1962.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

S. Miguel, freguesia bairrista por excelência, apresenta a sua paroquial com relativa imponência, para a modéstia do sítio. Duas torres, uma das quais hoje [1939] apenas é sineira, um alçado central no qual se ostenta num nicho uma escultura de S. Miguel, que não deve ser a primitiva pois o frontispício da velha igreja caiu em 1755; três portas, uma das quais, a principal, se destaca pela altura e guarnição, e ainda três janelas rasgadas no segundo entablamento, compõem o conjunto da frontaria, voltada a Sul.

Igreja de São Miguel, abside [1899]
Escadinhas de São Miguel
O edifício que se prolonga da Igreja a norte foi desanexado em 1911.
Machado & Souza, , in Lisboa de Antigamente

Vejamos o templo interiormente.
É de uma única nave, com três capelas por banda, uma das quais, a extrema do lado direito, não existe armada, dela se conservando apenas o arco. Estas capelas são: pela direita a de S. Sebastião e logo a de N. Sr.ª das Dores, pois não existe a terceira; pela esquerda, as de Santo António, do Senhor Jesus das Almas, e a que foi do Santíssimo, hoje sem culto.
Nos topos, ao lado do arco da Capela-mor, temos dois altares, o de S. Coração de Jesus, do lado do Evangelho, e o de N. Sr.* da Conceição, da lado da Epístola.
O tecto é de masseira, com pinturas em quinze rectângulos, representando símbolos da Eucaristia.
Toda a Igreja é interiormente revestida de mármores; ricos os altares de talha, não há pedaço de parede que não esteja coberto de quadros, de grossas molduras douradas, mesmo nos intercolúnios, dando assim um conjunto semelhante, posto que menos rico, ao de Santa Catarina, no antigo Convento dos Paulistas.
Estas pinturas, quási todas de Bento Coelho da Silveira — assim anda escrito — têm indiscutível merecimento; representam passos da Bíblia.
Aos lados do arco da capela-mor, sobre os pequenos altares, vêem-se quadros representando os quadros representando os quatro doutores da Igreja, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, S. Jerónimo e S. Gregório, dois de cada lado. Também no coro existem dois quadros de assuntos bíblicos. 

Igreja de São Miguel, nave, capela-mor  [1963]
Largo de São Miguel
O interior é de nave única, coberta por tecto de madeira, com pinturas de José Ferreira de Araújo. São de salientar as 16 telas, algumas atribuídas a Bento Coelho da Silveira e emolduradas com talha, e a capela-mor igualmente revestida de talha dourada barroca, estilo joanino.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A capela-mor é exuberante de boa talha no altar, no qual, sobre o sacrário, se vê S. Miguel, e, aos lados, S. José e N. Sr.ª da Boa Viagem. O tecto é também de talha rica na qual se abrem cinco medalhões com pinturas [de José Ferreira de Araújo]. As paredes são almofadadas de mármore e o chão é também de pedra nobre. Nas paredes laterais desta capela ostentam-se enormes esculturas que representam os quatro evangelistas. Eis um conjunto que transcende da vulgaridade. [...]
O edifício que se prolonga da Igreja a norte [vd. 2ª imagem] foi desanexado em 1911, e nele estão instaladas a Cantina de S. Miguel e a Junta de Freguesia. 

Igreja de São Miguel, fachada lateral [1899]
Calçadinha (Beco) de São Miguel
Machado & Souza, , in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 55--57, 1939.

domingo, 17 de setembro de 2023

Rua de São Miguel

Miguel (rua de S.) principia na rua de S. Pedro, antes da rua da Galé [Largo de São Rafael], atravessa o largo de S. Miguel, e finda na rua da Regueira, freguezias de S. Miguel 14 a 82 e 1 a 105, S. João da Praça 2 a 12. [Velloso:1869]

Voltando agora a E. — reza o Guia de Portugal (1924) — , à rua de S. Miguel, de aspecto curiosíssimo, deve notar-se a série de estreitíssimos becos que nela desembocam, um dos quais (o da Bicha) pouco mais tem que dois palmos de largura. No n.º 1 casa interessante. A certa altura abre-se na rua o largo de S. Miguel, que oferece um aspecto típico de logradoiro quinhentista, e onde se ergue, quasi intacta, a igr. de S. Miguel, constr. em substituição da que o terramoto destruiu. É de uma só nave, com quadros atribuídos a Bento Coelho.

Rua de São Miguel N-S |c. 1900|
Nesta cena de rua, tendo como pano de fundo a velhinha igr. de S. Miguel.
contracenam o incontornável aguadeiro com a barrica ao ombro, o vendedor de azeite com
o seu burrico e, surgindo do Beco da Cardosa, o limpador de candeeiros com uma lanterna
às costas
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Esta Rua de Alfama, que vai do Largo de São Rafael até à Rua da Regueira, deriva  seu topónimo da Igreja de São Miguel, que começou a ser construída cerca de 1150, sendo a Freguesia da mesma invocação criada em 1180 e, assim a Rua de São Miguel funcionou como uma típica rua Direita medieval deste local.

Rua de São Miguel, junto ao Beco da Formosa |c. 1920|
Ao fundo nota-se a torre sineira da Igreja de Santo Estevão
Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Beco de São Miguel: casa de Ressalto

Neste e naquele beco, no labirinto de pátios, de socalcos, e ladeiras ou praças minúsculas, Alfama é um alfobre de casitas de ressalto. São iluminuras do bairro que a moderna «limpeza» urbanística do velho aglomerado respeitou. A da Rua da Regueira, por exemplo, ou do Becos das Cruzes, do Arco do Salvador, da Adiça, ou tantas outras são exemplares representativos do tipicismo do burgo, a sua certidão de idade. Todo o seu traçado é um desafio a qualquer concepção de arquitectura delineada: só o acaso, o grande inspirador de todo esse amálgama urbanístico, pode ter erguido tão características fachadas. 

Beco de São Miguel  [1930]
Casa de Ressalto (após restauro); Igreja de São Miguel antes da remoção do gradeamento levado a cabo na década de 1960 [vd. imagem abaixo.
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Repare-se no «jogo» de empenas salientes e desencontradas, na assimetria das janelas, nos varões oblíquos onde o andar de ressalto assenta como que disposto em docel.
ANDRADE, Ferreira de, «Que diferente és, Lisboa: crónicas alfacinhas», p. 74, Editorial de Publicações Turísticas, 1968.

Beco de São Miguel, ao fundo  |1963|
Casa de Ressalto, perspectiva tomada do Largo de São Miguel vendo-se a
Igreja de São Miguel após remoção do gradeamento.

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Panorâmica sobre São Vicente de Fora

Considerada um dos mais impressionantes edifícios lisboetas, a Igreja de São Vicente de Fora ergue-se como uma imagem emblemática do mecenato arquitectónico de Filipe I, depois de ter subido ao trono português.

Instituído por D. Afonso Henriques em 1147, decorrendo do voto feito pelo monarca caso conseguisse conquistar Lisboa, o mosteiro dedicado ao mártir, e entregue aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, simbolizou na sua essência a refundação cristã da cidade, tornando-se progressivamente uma das mais importantes casas conventuais lisboetas.

 

Em 1527, D. João III encetou uma profunda reforma no interior da ordem dos Crúzios, que estabelecia uma reformulação das regras de vida monástica, estendendo-se à arquitectura dos complexos conventuais.
No entanto, só no início do reinado de Filipe I foi iniciada a reforma do edifício da igreja e do mosteiro, numa acção em que o monarca "refazia o gesto fundacional de Afonso Henriques, sobretudo como gesto primeiro de um novo dinasta e de um novo mecenas", reforçada pela escolha do templo para panteão real (Soromenho, 1994, p. 208).
A autoria da traça do novo mosteiro continua envolta em alguma polémica, embora nos últimos anos seja consensual que as grandes figuras de destaque da reforma vicentina sejam os arquitectos Juan de Herrera e Filipe Terzi.
Se a Herrera, autor do Escorial, são atribuídos os planos do complexo mandados fazer por Filipe I, coincidindo a data dos esboços com os anos de permanência do arquitecto em Lisboa (1580-1583), de Terzi destaca-se o seu contributo nas "traças operativas", ou seja, o seu papel na condução do estaleiro de obras e a influência decisiva do seu trabalho na estrutura final (idem, ibidem, p. 210).

Panorâmica sobre São Vicente de Fora, observando-se o Mercado de Santa Clara e a Escola Secundária Gil Vicente |1940|
in Lisboa de Antigamente

Outra figura de destaque na obra de São Vicente de Fora é, sem dúvida, o arquitecto português Baltazar Álvares, que dirigiu as obras entre 1597 e 1624, e a quem se aponta a composição da fachada (idem, ibidem; Soromenho, 1995, p. 379-380). Adaptando a tradição do Maneirismo romano às tradições arquitectónicas portuguesas, o seu modelo constituiu-se como uma das géneses do estilo chão, marcando em definitivo a arquitectura maneirista, em Portugal e em todo o mundo português, durante o século XVII.
De planta longitudinal, o templo vicentino possui nave única, com transepto, capela-mor bastante profunda e retro-coro. Nas paredes laterais da nave "destaca-se a sequência rítmica de pilastras emparelhadas" (idem, ibidem), entre as quais foram rasgadas, em 1608 pequenas capelas, comunicantes entre si. O espaço, cuja iluminação é feita através de janelas termais que se distribuem pelo topo da cabeceira e do transepto, é coberto por abóbada de berço de caixotões, estando estes decorados com diferentes relevos. O cruzeiro da igreja era originalmente rematado por uma cúpula, que ficou totalmente destruída durante o terramoto de 1755.

Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora |1858|
Largo de São Vicente; Palácio Teles de Menezes (esq.)
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

A fachada apresenta uma composição muito original, de linhas sóbrias e depuradas mas repleta de monumentalidade, como convinha a uma igreja designada panteão-real, na qual se destaca a disposição das duas torres. Estas não são simplesmente justapostas como dois blocos adossados ao frontispício, mas antes plenamente integradas na estrutura, numa tipologia que recria, à luz da tratadística renascentista, a arquitectura medieval portuguesa, alcançando "um equilíbrio perfeito entre a tensão horizontal de um alçado de cinco tramos e a verticalidade sugerida pelos volumes torreados" (idem, ibidem).
(DIDA/IGESPAR/28 de Novembro de 2007)

Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora |1951|
Largo de São Vicente
Eduardo Portugal, 
in Lisboa de Antigamente

N.B. A freguesia dita de S. Vicente, funcionou, logo desde 1147, na igreja conventual, e o seu patrono foi S. Miguel, invocação principal que se perdeu. Esteve, desde o início fora da jurisdição episcopal, e, talvez por isso, se chamou S. Vicente «de Fora». e não por estar fora dos muros da Cerca Moura. Em fins de Janeiro de 1856 foram anexadas à paróquia de S. Vicente as de S. Tomé. e do Salvador. já retinidas uma à outra desde 1836. A freguesia civil passou a chamar-se das Escolas Gerais desde 15 de Julho de 1916.
(ARAÚJO, Norberto de, IL, 1944)

Panorâmica tirada das Portas do Sol sobre São Vicente de Fora |194-|
Largo de São Vicente
Amadeu Ferrari, 
in Lisboa de Antigamente

domingo, 15 de fevereiro de 2026

A S. Miguel de Alfama

Largo de S. Miguel de Alfama ao centro, recamada de talha de ouro, na sumptuária sacra de seiscentos, esplende a paroquial, templo bairrista cuja primeira fábrica remontava ao século XIII. S. Miguel de Alfama!

Sobem por aí acima até à Adiça e a Santa Helena, em escadarias contorcidas de presépio bíblico, o Beco das Curvinhas (ou da Corvinha), as Calçadas da Figueira e de S. Miguel. Não seria possível a um pintor conceber cousa assim, se ele quisesse criar originalidade de cenário e construir planos de inverosímil lógica urbanística. É arrojo, na Alfama, destacar, dentro do pitoresco, uma gracilidade de outra gracilidade.

Largo e Calçadinha de S. Miguel |c. 1910|
Fachada lateral da Igreja de S. Miguel.
José A .Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Eis um alfobre de fantasias que ficaram dos meandros mouriscos. Mas este sitiozinho modelo do génio truculento do acaso é um padrão.
O Largo esmalta-se de casitas excêntricas, como outras não há, tão de sua índole seiscentista, salientes do fundo da fatalidade dos tempos.

Rua do Castelo Picão (N-S) junto ao Beco do Garcês |c. 1910|
O Castelo Picão é uma artéria, relativamente longa - emula da Regueira — que desenhando uma curva, quási em ângulo recto, nos traz do Salvador a S. Miguel». [Araújo: 1939]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL
Rua do Castelo Picão |1953|
Alfama teve durante os anos de 1950/60, o Concurso de janelas floridas, incluído nas Festas da Cidade.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

De largo ressalto, janelas minúsculas, beirais engrinaldados de ervas, nascidas do sol e da chuva, cor-de-rosa, maneirinhas — as casas de S. Miguel são cousas de copiar, moldar com dedos de ternura, e colocar como espécimes sobre as mesas de artistas inspirados na humildade. Uma delas, a da esquina do Largo sobre sobre a Rua, semelha uma torre, imposta sobre uma base estreita, que mal pode com ela. Em todas mora a alegria, que nem sequer carece do condimento da resignação. A cantar o «passarinho trigueiro» as mulheres de Alfama, maliciosas e inocentes, redimem o bairro da sua melancolia atávica. E são às dezenas, pela redondeza, os exemplares desta construção, imaginada por oleiros de presépio.

Cai a noite em Alfama: Largo e Beco de S. Miguel visto das Escadinhas do mesmo nome |1961|
«Alfama é, com certeza, uma cousa única nas cidades com consciência do que se devem.
A sua beleza é muito subjectiva. Ali não há possibilidade de se fazer um Museu aberto. O
que se lhe exige é limpeza» [Araújo: 1939]
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

Muros tisnados sobre os quais caem arbustos. Traseiras, absurdas de branco, que moram no Castelo Picão. Mil janelinhas de roupa estendida, os píncaros da Regueira, o perfil esbelto de uma chaminé, um gato espreguiçado num banho de sol.
Um pregão, uma cantiga vinda de um tugúrio. O voo de uma pomba!
A S. Miguel de Alfama ... 
(ARAÚJO, Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, pp. 60-61, 1943)

Calçadinha de S. Miguel |c. 1940|
R. do Castelo Picão
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Calçadinha de S. Miguel |c. 1913|
(Colecção Afonso Lopes Vieira)
Roque Gameiro (1864-1935)







                                         






sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Largo de São Rafael

Aí temos no Largo, no prédio n.° 2 — recorda Norberto de Araújo — , um registo de azulejo dando N. Senhora, Santo António e S. Marçal [entretanto removido, vd. 2ª imagem]. Os dois prédios contíguos já são do tipo original da Alfama, embora ainda discretos; noutro sítio de Lisboa seriam «uma graça». Por aqui, à força da acumulação dos motivos urbanos, não passam estes de triviais.
Eu calculo, sem exagero, em mais de uma centena o número de casas pitorescas neste histórico bairro, de vários tipos e idades, mas cada uma delas com sua característica própria e nota «pessoal»: raro é uma casa reproduzir-se de outra.

Largo de São Rafael [c. 1950]
Ao fundo nota-se um registo de azulejo dando N. Senhora, Santo António e S. Marçal, entretanto removido.
Estúdio Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Este Largo de Alfama que se encontra na confluência entre a Rua São João da Praça, Rua de São Miguel, Beco das Barrelas e Rua da Judiaria é um topónimo fixado em Lisboa após o terramoto de 1755. De acordo com Gomes de Brito, a denominação radica no facto de neste arruamento ter havido a ermida da Congregação de S. Rafael. No local onde se ergueu a igreja paroquial de São Pedro destruída pelo terramoto foi construído um hospício e igreja de Nossa Senhora da Conceição ou dos Sufragadores das Almas do Purgatório, religiosos da Ordem que tinha por patrono o arcanjo S. Rafael e que acabou extinto em 1834.
Nesta artéria ergue-se a Torre de Alfama ou de S. Pedro.

Largo de São Rafael, 2 [1960]
Painel de azulejos representando Nossa Senhora da Conceição, Santo António e
São Marçal, entretanto removido.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Largo do Salvador: Convento de São Salvador e Palácio dos Condes dos Arcos

Estamos no Largo do Salvador — diz .Norberto de Araújo E do Salvador — porquê? 
Neste sítio, que no começo da Lisboa era de todo silvestre, em encosta que acompanhava pelo exterior uma parte da muralha moura, apareceu—segundo rezam as lendas—em certa manhã, espetado no chão do matagal, um crucifixo, e perto dele uma imagem de N. Senhora com o Menino. Milagre era; naquele tempo devoto, primeiros anos após a conquista, a notícia correu célere por Lisboa. Logo se ergueu uma ermidinha a Jesus Salvador «da Mata», porque mata cerrada era tudo isto por aqui. A ermida teve, pouco depois de erguida, grande concorrência de mulheres penitentes que junto dela fizeram um Recolhimento, já levantado em 1240. O sítio foi-se desbravando, povoando, dando uma pequena freguesia, o que se explica, porque a Ermida era do priorado.

Largo do Salvador |c. 1910|
Arco do Salvador e Convento de São Salvador, fundado em 1392
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
    
Em 1392 o Bispo do Porto, D. João Esteves, da Azambuja chamado por ser natural desta vila, mais tarde (1402) arcebispo de Lisboa, e cardeal (1411), resolveu com autorização do Rei e do Papa fazer do pequeno Recolhimento um mosteiro de religiosas dominicanas; a Igreja fôra confirmada paroquial no ano anterior. Era o tempo de D. João I que cousa. alguma negava ao tratar-se de ampliar Lisboa; o mosteiro, cuja primeira abadessa se chamava Margarida Anes, foi construído com lentidão, pois só é dado por concluído em 1478, a esforços da princesa, depois Rainha D. Leonor, mulher de D. João II.

Largo do Salvador |c. 1900|
Convento de São Salvador, fundado em 1392.
Fotógrafo não identificado, iin Lisboa de Antigamente

O Terramoto destruiu o velho mosteiro, que houve de ser reedificado de alto a baixo, não estando as obras concluídas em 1762, e havendo passado a paroquial para o Menino de Deus, para só voltar, mais tarde, à sua antiga sede.
Pela extinção das Ordens, o Mosteiro conservou-se até à morte da última freira (1884), mantendo-se depois ainda o culto na Igreja, cuja paroquial, porém, como a de S. Tomé, se uniu à de S. Vicente em 1836. 
Em Outubro de 1910, quando se proclamou a República, o antigo Convento era ocupado por um Colégio religioso, cuja patrona era D. Tereza Saldanha.
Depois tudo acabou — Colégio e Igreja; esta foi profanada, recebeu obras do Estado, nela se instalando, pouco depois o Centro Republicano Magalhãis Lima, com sua escola infantil.

Largo do Salvador |c. 195-|
Convento de São Salvador, fundado em 1392 e Palácio dos Condes dos Arcos, ou de S. Miguel (ao fundo). Observe-se o brasão de armas coberto por panos.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Aí temos, à nossa esquerda, o Palácio dos Condes dos Arcos (de Val-de-Vez), hoje dos Condes de S. Miguel, cuja Condessa (Noronha) é ainda Arcos. Este Palácio histórico, n.°s 14 a 25 do Largo, é o único representativo de toda a Alfama, aquele que, a despeito de não estar ocupado pelos seus ilustres proprietários senão no andar nobre, se mantém de pé. Relíquia alfamense na nobreza, com pergaminhos e crónica fidalga, êle sobrevive à evolução do tempo e dos costumes, como os raros, seus vizinhos, de S. Vicente. O Palácio, na sua formação primitiva, data dos fins do século XVI (...)

Largo do Salvador |c. 1910|
Palácio dos Condes dos Arcos, ou de S. Miguel. Observe-se o brasão de armas coberto por panos.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

O brasão que avulta sobrepujando o pórtico nobre é o dos Arcos, com as armas de Portugal no primeiro e terceiro quartel, e as do antigo reino de Castela, com dois leões batalhantes, no segundo e quarto.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 73-78, 1939)

Pórtico nobre do Palácio dos Condes dos Arcos, ou de S. Miguel |1955|
Largo do Salvador
Brasão dos Condes dos Arcos com as armas de Portugal e as do antigo reino de Castela
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

domingo, 30 de junho de 2019

Convento e Igreja do «Corpus Christi», aos Fanqueiros

Ora aqui chegamos ao antigo Largo dos Torneiros, — recorda-nos Norberto de Araújo —  que se sucedeu na designação oral de uma antiga Rua dos Torneiros ou da Tornoaria e que, antes do Terramoto, é claro, ia dar ao Largo de S. Nicolau. Vês êste edifício, bem curioso, da esquina, propriedade de rendimento, com lojas de comércio, de um exterior manifesto de antiga Igreja ou Casa Religiosa?

Pois foi aqui, com efeito, um Convento: o do Corpus Christi, ou dos frades torneiros, nome que a êles derivou do sítio onde se arruavam os homens dos tornos.

 

O Convento do Corpus Christi pertencia aos religiosos carmelitas descalços de Santo Alberto, e foi construído em 1648 a expensas da Rainha D. Luiza de Gusmão, em sinal de agradecimento per o Rei, seu marido, haver escapado de um atentado que — diz-se — neste sitio se projectou contra ele. O Terramoto destruiu-o; foi reedificado, mas em 1834 entrou nos próprios nacionais e foi vendido.

O episódio foi rapidamente aproveitado como instrumento de propaganda contra Castela, servindo igualmente para reforçar a tese da protecção divina do reino de Portugal, associada à devoção pelo Santíssimo Sacramento. A capela integrava-se assim num conjunto de obras régias de forte carga ideológica, apresentando-se como um dos primeiros monumentos de celebração do sucesso da Restauração. O convento anexo foi edificado posteriormente, e entregue aos Carmelitas Descalços em 1661, embora as obras se tenham prolongado pelo menos até à primeira década do século seguinte.

Convento e Igreja do «Corpus Christi» [1968]
Antigo Largo dos Torneiros
Rua dos Fanqueiros nº 113-117,Rua de São Nicolau nº 2-16,  Rua dos Douradores nº 50-62
Destruído em 1755 pelo Terramoto e pelo consequente incêndio, sobreviveram parte do corpo da igreja e alguns espaços conventuais, que foram adaptados à estrutura arquitectónica e às ordens impostas para a reconstrução da baixa da cidade e implementado pelos arquitectos da Casa do Risco.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Da campanha de obras inicial, concebida por Teodósio de Frias, conhecem-se algumas descrições. Segundo fontes coevas, o templo, de planta quadrada, erguia-se sobre um soco baixo, tendo torre sineira e fachada vazada por pórtico de arcada dupla dando acesso ao portal de feição clássica, enquadrado por duas janelas e encimado por frontão ornado com as armas reais e por um nicho. No interior destacavam-se os alçados marcados por grandes arcos redondos, rematados por cimalha e articulados com as trompas de apoio ao zimbório, as seis tribunas, uma de maiores dimensões, e ainda os mármores de revestimento.
Com o Terramoto de 1755 e o incêndio subsequente, o convento terá sofrido destruição quase total, ficando a igreja muito arruinada, embora possivelmente de pé. A sua reedificação no mesmo local não terá sido decidida de imediato, já que para aí esteve inicialmente prevista a vizinha Igreja de São Nicolau. Quando enfim tomou corpo, a reconstrução, a cargo do arquitecto Remígio Francisco de Abreu, integrou os edifícios na malha ordenada da Baixa Pombalina, e o novo convento, ocupando quase todo o quarteirão, foi parcialmente dividido em lojas e apartamentos para aluguer, destinadas a proporcionar rendimento aos frades.

Convento e Igreja do «Corpus Christi» [c. 1940]
Antigo Largo dos Torneiros
Rua dos Fanqueiros nº 113-117,Rua de São Nicolau nº 2-16,  Rua dos Douradores nº 50-62
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

A igreja oitocentista reproduzirá pelo menos os traços fundamentais do templo original, sendo mesmo possível que tenha incorporado parte da estrutura sobrevivente, suposição permitida pela análise da planta e da sua inserção urbanística, dos alçados internos, com cobertura em cúpula assente igualmente em quatro arcos com cimalha corrida, e de alguns revestimentos marmóreos de embutido largo, muito empregue na arquitectura portuguesa da primeira metade do século XVII. A planta centralizada (quadrado de cantos cortados), que constitui caso único na Baixa Pombalina, conserva o simbolismo de moimento, e até de martyrium, do edifício anterior, evocando o milagre da vitória régia sobre a morte, com uma conotação funerária que fora igualmente aproveitada aquando do sepultamento provisório de D. Luísa de Gusmão, em 1666. O espaço interior esteve dividido em sobrados, sendo hoje possível voltar a admirar a sua grande altura, bem como o esplendor dos mármores brancos, negros e rosa, iluminados pelas oito janelas da cobertura.
A actual frontaria é o resultado de uma série de alterações posteriores à extinção das ordens religiosas [1834] e à consequente venda e remodelação do templo e do convento para usos comerciais, nomeadamente o desaparecimento do portal de frontão curvo interrompido da igreja pombalina, de que resta um desenho do século XIX, substituído por três portas de verga recta no piso térreo e igual número de janelas de sacada no segundo andar. As janelas do terceiro andar mantiveram-se, embora com alterações, sendo ainda hoje encimadas pelo frontão contracurvado, único elemento da fachada a recordar a antiga função religiosa, apenas coadjuvado pelo zimbório octogonal que sobressai da regularidade dos telhados pombalinos.

Convento e Igreja do «Corpus Christi» [c. 1940]
Antigo Largo dos Torneiros
Rua dos Fanqueiros nº 113-117,Rua de São Nicolau nº 2-16,  Rua dos Douradores nº 50-62
A original igreja de planta circular com o zimbório octogonal encimado por um pináculo é
ainda visível actualmente, bem como o portal da entrada da igreja, hoje convertido em acesso
a um prédio típico da baixa.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p.39, 1939.
SOROMENHO, Miguel, SANTOS, Maria Helena Ribeiro dos, O Convento de Corpus Christi: um caso de estudo, Monumentos, n.º 21, pp. 116-131, DGPC, 2004.

sábado, 14 de maio de 2016

Largo do Chafariz de Dentro (ou dos Cavalos)

O olisipógrafo Norberto de Araújo refere-se a este local como «o mais pitoresco apontamento de Lisboa em dez léguas da grande póvoa. Tudo quanto é generoso de expressão popular assentou aqui arraial. Alfama tem o seu Rossio — S. Miguel; a sua Sé — Santo Estêvão; o seu Terreiro do Paço — o Largo do Chafariz de Dentro. (...) este sítio chama-se «de Dentro», porque ficava dentro das muralhas do século XIV, que passavam um pouco mais recuadas, e em recta, em relação à linha de trânsito Terreiro do Trigo-Jardim do Tabaco.
O mesmo autor considera ainda este Largo de Alfama — na confluência entre a Ruas do Terreiro do Trigo, do Jardim do Tabaco, dos Remédios e de São Pedro — , como «o Rossio de tôda a Alfama, e melhor diria o seu Terreiro do Paço pois muitos séculos não há que o mar aqui chegava.¹
 
Largo do Chafariz de Dentro [Início séc. XX]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente
Largo do Chafariz de Dentro [Início séc. XX]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Lera Calisto Elói que também o chafariz dos cavalos da rua Nova tinha prodigiosas virtudes em cura de moléstias de olhos. Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 soterrara; procurou o chafariz, que, segundo ele, devia estar na rua dos Capelistas [actual do Comércio] ou Algibebes [actual de S. Julião] sucessoras daquela rua. Ninguém lhe dava conta do chafariz dos cavalos; e alguns lojistas interrogados supuseram que o provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquela aplicação.
O erudito respondia aos chacoteadores:
— Pois saibam que se perdeu um mirífico chafariz! Rezam os meus livros que as salubérrimas águas desta fonte perdida tinham a propriedade oculta de engordar as carruagens que bebiam dela; e acrescenta Marinho de Azevedo, textualíssimas palavras: e quando ela faz tão conhecidos efeitos nos animais, os fizera nos corpos humanos, se a beberam na sua fonte.
— Este homem parece que tem uma carruagem magra no corpo!
Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados. Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio até ele achar o chafariz dos cavalos.
(Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo, 1866)

Largo do Chafariz de Dentro [1961]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

O Chafariz de Dentro, que não teve sempre esta disposição, (...) existia já no século XIV, com fartas águas que brotam do seu manancial vetusto, e foi objecto de arranjos em 1494. A sua principal reforma parece ser aquela a que se refere a inscrição em mármore rosa, colocada na frontaria e que reza na letra e ortografia da época: «Êste Chafariz mandou a Câmara desta Cidade reformar no ano de 1622, sendo presidente dela João Furtado de Mendonça do Conselho de Sua Magestada, e mais abaixo: «O qual se reformou com o dinheiro do real d'agua».»

Largo do Chafariz de Dentro [1929]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Acrescenta Norberto Araújo que este «Chafariz chamou-se primitivamente «dos Cavalos» por motivo de as águas abundantes jorrarem da boca de cavalos de bronze que adornavam a frontaria; esses bronzes tê-los-iam levado os castelhanos, como recordação, quando levantaram o cerco a Lisboa (3 de Setembro de 1384), isto na interpretação dos dizeres de Fernão Lopes, o que não se concilia com a descrição que do chafariz faz Damião de de Góis (meados do século XVI), e na qual dá os cavalos existentes ainda. Há destas frequentes disparidades nos nossos livros velho[s].2

Largo do Chafariz de Dentro [c. 1950]
Chafariz de Dentro ou dos Cavalos
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

N.B. É provavelmente o chafariz mais antigo de Lisboa, também designado por Chafariz N.º 19. As águas deste chafariz abasteciam o Chafariz da Praia [de Alfama] e os seus sobejos iam para um tanque de lavadeiras no Cais da Lingueta. No século XIX, tinha quatro bicas, quatro companhias de aguadeiros, quatro capatazes, cento e trinta e dois aguadeiros e um ligeiro. (ANDRADE: 1851)
____________________________________
Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, «Legendas de Lisboa», p. 194, 1943.
2 idem, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 66-67, 1939. 

domingo, 29 de setembro de 2024

Igreja de São Domingos

S. Domingos — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...]

Junto do templo dominicano, assentava, crê-se que já antes de se erguer o Convento, a pequenina ermida de N. Senhora da Purificação, da Escada, de grande nomeada na Lisboa velha; o seu lugar era onde está a Casa de Candeeiros, que foi de Tomé de Barros Queiroz, bom cidadão de Lisboa (...)»

Igreja de São Domingos [c. 1910]
Rua Barros Queirós; Largo de S. Domingos; Ginjinha do Rossio
A velha Igreja de São Domingos ficava junto à ermida de Nossa Senhora da Escada, também conhecida por Nossa Senhora da Corredoura, por ficar próximo do sítio deste nome, actualmente a Rua das Portas de Santo Antão, e cuja construção datava dos princípios da monarquia.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Tendo sido lançada a primeira pedra no ano de 1241, e alvo de sucessivas e diferentes campanhas de obras que lhe foram alterando e adicionando a traça primitiva, data de 1748 a reforma efectuada na capela-mor pelo arqº Ludovice, acabando por ser a única zona do templo poupada ao terramoto de 1755. Seguidamente, a igreja foi reconstruída por Manuel Caetano de Sousa, que reaproveitou o portal e a sacada sobrejacente pertencentes à Capela-Real do Paço da Ribeira.
Em termos formais, esta Igreja conventual denuncia uma arquitectura barroca, de planta em cruz latina. Enquanto que exteriormente é caracterizada pelas suas linhas simples, o interior ainda revela alguma da sua notória riqueza ecléctica. Assim, serão dignos de realce, não apenas o aspecto grandioso de todo o espaço interior, como os próprios mármores e pinturas, infelizmente hoje desaparecidos.

Era notável a sua riqueza em alfaias preciosas, havendo uma imagem de prata maciça, que saía em procissão num andor do mesmo metal, alumiada por lâmpadas também de prata. As pinturas dos altares, os paramentos, os tesouros, tudo desapareceu durante o terramoto de 1755, salvando-se unicamente a sacristia e a capela-mor, mandada fazer por D. João V e riscada pelo arquitecto João Frederico Ludovice, em 1748 - homem que projectou o colossal Convento de Mafra. A capela-mor, toda de mármore negro, e em cujas colunas se vêem, junto à base, medalhões delicadamente cinzelados, que também avultam sobre os nichos laterais.
 
Igreja de São Domingos |Inicio séc. XX|
Perspectiva longitudinal do interior da Igreja
A Capela-mor, edificada em 1748 por Ludovice e acabada por João António de Pádua é rematada
por um arco de volta perfeita que marca a outra extremidade da abóbada de berço e possui quatro
grandes colunas sem capitel que delimitam o receptáculo do Sacrário com porta de bronze. O conjunto
é rematado por formação escultórica ladeando o registo central, duas mísulas com as estátuas de
S. Domingos e S. Francisco. Nas paredes laterais, janelas ao nível do grupo escultórico superior.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Em 13 de Agosto de 1959, um violento incêndio destruiu por completo a decoração interior da igreja, onde constavam altares em talha dourada, imagens valiosas e pinturas de Pedro Alexandrino de Carvalho. A igreja recebeu obras e reabriu ao público em 1994, sem esconder as marcas do incêndio, como as colunas rachadas. Ainda que destruída, é uma igreja que sobressai pela policromia dos seus mármores. 
Actualmente é a igreja paroquial da freguesia de Santa Justa e Santa Rufina, em plena Baixa Pombalina e foi classificada como Monumento Nacional. Expõe metade do lenço usado por Lúcia no dia 13 de Outubro de 1917 (a outra metade encontra-se no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Fátima) e ainda o terço usado por Jacinta Marto no mesmo dia.

Igreja de São Domingos, abside e torre sineira |c. 1950|
Rua Dom Duarte cruzamento com a Rua da Palma  e Rua Barros Queirós
Numa passagem para a sacristia, com entrada pela Rua da Palma, encontram-se os túmulos do grande pregador dominicano Fr. Luís de Granada (m. 1588) e do reformador da ordem Fr. João de Vasconcelos (m. 1652). Esta igreja tem ainda uma cripta abobadada e dotada de lambris de azulejos, onde está o túmulo de D. João de Castro, capelão de D. João. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. XII, p. 80, 1939.
CARRIÇO, Hugo Miguel, Informação sobre igrejas de Lisboa, 2017.
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