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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Animatógrafo Chiado Terrasse

O animatógrafo Chiado Terrasse foi inaugurado a 12 de Junho de 1908, na chiquérrima Rua António Maria Cardoso [antiga doTesouro Velho, até 1890]. Era um Animatógrapho ao ar livre como se pode perceber pela noticia publicada na véspera da sua inauguração oficial:

Chiado Terrasse: A novidade da semana é a inauguração do novo animatógrapho, ao ar livre, da rua do Thesouro Velho. Os proprietários do Chiado Terrasse contractaram uma excelente orquestra de distintos professores, para que todas as noites ali haja um magnífico concerto musical. No dia da inauguração, que só se realiza amanhã, apresentam-se sete quadros novos em Portugal. O prazível recinto será profusamente iluminado a luz eléctrica, devendo produzir óptimo efeito.
(in O Século, 11 de Junho de 1908, p. 3)

No início do século «numa altura em que o cinema, entre nós, procurava impor-se à atenção do público» [Costa: 1987], reconstruído em 1911 e restaurado em 1925, o animatógrafo — do qual existe registo fotográfico da autoria de Benoliel —, é um edifício sóbrio, térreo, com o pano da fachada na continuação do muro do Palácio Quintela, quase como um prolongamento e com ele se confundindo, distinguindo-se pela fenestração contínua (onde se incluíam quatro vãos cegos destinados a afixar os cartazes), envazamento de cantaria, e, ao centro, um corpo alteado terminado por frontão triangular e que abrigava uma galeria fotográfica.

Animatógrafo Chiado Terrasse  [ant. 1911]
Rua António Maria Cardoso; ao fundo, o novo chafariz do Loreto.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Animatógrafo Chiado Terrasse  [ant. 1911]
Rua António Maria Cardoso, antiga do Tesouro Velho
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O Chiado Terrasse, propriedade de Albino José Baptista. o proprietário do 92 [vd. 2-ª imagem] sendo secretário Sabino Correia Jr, era destinado a um público mais aristocrata, uma vez que os espectadores dispunham de um serviço de restaurante.
Foi o primeiro «cinema», especialmente construído para o efeito, em Lisboa. Transformou-se desde o início numa das mais importantes salas de Lisboa, pelas suas instalações, pelos seus programas, pela sua variedade, não esquecendo o êxito do animatógrafo «falado».
Em 1910, o arquitecto Tertuliano de Lacerda Marques (1833-1942) assina o projecto, não ao acaso designado de «Alterações», destinado ao melhoramento do animatógrafo da empresa Chiado Terrasse: as estruturas existentes são aproveitadas, redesenhando-se a fachada mas construindo-se todo o interior a partir de três espaços diferenciados - um pequeno palco com camarins ao nível da sala, área superiormente ocupada pela galeria fotográfica, seguindo-se depois a plateia e o "promenoir" (esplanada), este sob o balcão, tendo no topo um pátio aberto, disfarçado para a rua com o corpo da fachada onde se localizam as bilheteiras.
Em 1911/1912, é inaugurado o cinema com a frontaria que hoje conhecemos [vd. 3ª foto].

Animatógrafo Chiado Terrasse [1912]
Rua António Maria Cardoso
Em 1911, o arquitecto Tertuliano de Lacerda Marques (1833-1942) redesenhou a fachada, em gosto mais erudito, fim-de-século.
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente
Animatógrafo Chiado Terrasse, bilheteiras [1912]
Rua António Maria Cardoso e, ao fundo, a R. Nova da Trindade
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente
 
A partir de 1916, os responsáveis deste espaço passaram a ser António Augusto Tittel e Alberto do Valle Colaço. Começam logo por fazer transformações no edifício, dando-lhe o aspecto exterior que manteria até ao seu encerramento [vd. 4ª foto], bem como a construção de um pequeno palco, que seria utilizado mais tarde por uma companhia de revista. Pouco tempo depois, mudou novamente de mãos, passando para a responsabilidade de Arthur Emúz.  Em 1921 passou a apresentar também números de variedades.
O sr. Augusto, de maré, dá-lhes dinheiro e eles levam-na ao Chiado Terrasse. A Ryala, que nunca imaginou que tal coisa pudesse existir, enche a sala de brados de assombro e risos descompassados. Há uma comédia de Max Linder e uma fita de peles-vermelhas  Ao ver surgir pela frente em pleno Far-West, entre cavalgadas, frechadas e tiros, uma locomotiva que avança a todo o vapor sobre a audiência, não há quem a segure: um grito de terror, um salto de cabra, e a Ryala abala a fugir, para não ser esmagada pelo trén! Esta noite foi ela a heroína do Far-West ao alto do Chiado.  
(Miguéis, José Rodrigues (1901-1980),  A Escola do Paraíso, 1960)

Carro de propaganda do cinema Chiado Terrasse [1911]
Largo do Chiado; Palácio do Loreto
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Em 1972 o Chiado Terrasse cessa actividade e no final da década um projecto para transformação do cinema em edifício de escritórios conduz à lamentável demolição dos interiores.
Actualmente, do imóvel original já pouco resta para além da fachada.

Cinema Chiado Terrasse [1961]
Rua António Maria Cardoso
Arnaldo Madureira, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987.
cnc.pt.

domingo, 7 de março de 2021

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa»

Pode São Bento ter-se convertido no símbolo da Política; o Terreiro do Paço no símbolo da Burocracia; a Rua dos Capelistas no símbolo da Finança; o Chiado alcançou o privilégio de os superar a todos, porque se converteu no símbolo do Bom-Tom. Passando a pontificar na Literatura e na moda, consequentemente os homens de letras passaram a escrever para o Chiado, os janotas a apurar-se para o Chiado, as Senhoras a vestir-se para o Chiado. Mais do que uma rua, ainda que das mais afortunadas de Lisboa, o Chiado tornou-se uma verdadeira instituição nacional  quase que um autêntico Estado dentro do Estado, com o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia, a sua Catedral. Eça de Queiroz não hesitou mesmo em afirmar: «o que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, mundanos decide no Chiado que Portugal seja — é o que Portugal é.»¹


Quem está neste Largo do Chiado — relembra Mário Costa — , pode dar um saltinho até à Praça de Luís de Camões, e é justo que se atreva a essa pressuposta acrobacia, para trazer à lembrança os traços pitorescos que o progresso apagou, a começar na eliminação dos típicos quiosques com venda de refrescos, onde se bebia o melhor capilé de Lisboa. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Ajudavam a compor o singelo friso, os esfuziantes vendedores das popularíssimas castanhas assadas no forno — quentes e boas, dé réis vinte! — ; o pictural homem do realejo, acompanhado do urso amestrado, que dançava ao som do toque de pandeireta; a sugestiva tela que conglobava as incomparáveis cenas interpretadas pelos inimitáveis pantomineiros de praça pública  empoleirados em pequena tripeça, fazendo uso do mais cómico palavreado, uma arenga às massas ingénuas — às vezes também desfrutadoras – propagandeando milagrosos produtos, tudo maravilhoso, elixires da longa vida, para fazer crescer o cabelo e extrair calos sem dor, os únicos para tirar as nódoas do fato.

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [séc. XIX]
Largo do Chiado, que já foi Largo das Cavalariças Reais, Largo do Loreto e Largo das Duas Igrejas.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 Foi-se toda essa colorida pintura, muito século XIX, quadros que enterneciam, pela ingenuidade do desenho. Também certo dia se arrancaram os utilíssimos bancos de duas tábuas, que foram o consolo de velhos reformados; e, em nome da civilização, se demoliu outro estilo de quiosque, todo de ferro e em forma cilíndrica, disfarçado por grande biombo, com entrada só para homens. [vd. 3ª imagem]

Da Praça de Luís de Camões ao Chiado, «capital de Lisboa» [1912]
Ao fundo notam-se os antigos bancos de duas tábuas e o desaparecido urinol
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 90-102, 1987.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Café Chiado

O Café Chiado, nos n.°* 58 e 60, sucedeu a uma Livraria Portugal-Brasil, cujo estabelecimento, neste sítio, por sua vez sucedera à Chapelaria de Augusto Ribeiro. O mais interessante do Café Chiado não está no seu presente, mas no passado remoto. É que foi aqui o celebrado Café Marrare «do Pulimento», fundado por António Marrare (...)1

 

Corria então o ano de 1925 — escreve Mário Costa no seu Chiado pitoresco e elegante. Depois da inevitável interrupção para as sucessivas obras de reconstrução e embelezamento, os célebres vãos de portas, números 58 e 60, com outro sistema de arquitectura, e lá dentro uma nova marcenaria, voltaram a abrir-se, para acolher outro público, de características bem diferentes. Apareceu o Café Chiado, que a escritura social de 6 de Maio especificadamente denominou Café Chiado, Ld.ª. O seu parecer mostrou-se sempre carregado, de ar pacato, talvez sensaborão, sintomas que um quarteto musical procurava alterar, proporcionando aos clientes contínuos acordes de boa música, à hora dos almoços e durante a noite, passatempo que, numa volta do calendário, se extinguiu penosamente. 
Em grande parte, os frequentadores do Café Chiado eram estudantes de cursos superiores. Com a simples bica e o complementar copo de água à sua frente, justificavam a sua demorada presença, rodeados de calhamaços, e iam engrolando uns tantos palavrões que o estudo da anatomia impunha conhecer, ou enchendo quartos e quartos de papel com os cálculos matemáticos que a Ciência ordena e o Mestre não dispensa. 

Café Chiado |1929|
Rua Garrett, 58-60

Fotógrafo não identificado,in Lisboa de Antigamente

À porta, juntavam-se uns grupos de tagarelas. Rapaziada de sangue na guelra, olhando para as pequenas, a quem dirigia dichotes, e uma roda de intelectuais, que deixaram grande saudade. 
Era esse o ponto preferido pelo sentimental Bourbon e Meneses, que aí passou os seus últimos e tristes dias. Um tal espírito, que não parecia terreno, classificava-o Aquilino, uma «alma tão galharda e fina de sentimentos e de têmpera». Acrescentou, o ilustre escritor: «Às segundas e terças, era certo no vão da porta ocidental (...), de cutelo para a rua, lançando as suas anedotas com esperto sainete e ouvindo as larachas da roda (...). Despedia-se do Chiado, a rua ali ciadora em seu recato e até na sua incrustada pasmaceira elegante; despedia-se de modo geral da cidade que tanto amou, lhe recebeu o livro carinhoso Sua Graça (...) pelo qual viria a ser galardoado tão justamente com o prémio camarário».

Café Chiado |1939|
Rua Garrett, 58-60

Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Dentro do ano de 1963, o Café Chiado acentuou a sua decadência. Em pleno Junho, os jornais chamavam a atenção para o estado caótico do alpendre exterior; e, em Novembro, já os periódicos noticiavam, com grande surpresa dos lisboetas, o próximo encerramento do estabelecimento, facto que se confirmou no dia 27 de tal mês, um tanto precipitadamente, para evitar o completo desaparecimento de toda a utensilagem em serviço, levada pelos clientes, como gratos souvenirs.
O leilão teve início em 4 de Dezembro. Nada escapou à rasoirada, incluindo as duas grandes telas que guarneciam as paredes de outras tantas salas: «O Festim Antigo», de Fernando Santos, e «Interior de Casino», de Carlos Neves.  
Dos últimos contemporâneos, conservaram-se fiéis, até à hora derradeira, os escritores José Gomes Ferreira, Augusto Abelaira, Alexandre Pinheiro Torres, Alves Redol, Manuel Ferreira, José Cardoso Pires, Alexandre Cabral, Fernando Namora e Rogério Fernandes.2

Café Chiado, aspecto da entrada |1929|
Rua Garrett, 58-60

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia 
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 95, 1939)
² COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 148-149, 1987.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Rua Garrett que foi «do Chiado»

Saiamos da freguesia dos Mártires — sugere Mestre Castilho — , não sem deitar uma vista de olhos à célebre rua dos elegantes lisbonenses, ao nosso Boulevard de Gand, à nossa Regent Street, ao nosso velho e falador Chiado, hoje crismado (bem mal a propósito, quanto a mim, salvo melhor juízo) em Rua de Garrett.

Antigamente essa grande artéria, que seguia desde o convento do Espírito Santo (palácio Barcelinhos) até à frente do palácio do marquês de Marialva (praça de Luiz de Camões), tinha em cima o nome de rua das Portas de Santa Catarina, e só era Chiado para baixo da rua da Cordoaria Velha (a nossa rua de S. Francisco). Ultimamente chamava-se a tudo, em linguagem oficial, rua das Portas de Santa Catarina, mas a denominação de Chiado invadira, e dominava no uso. Os janotas da casa Havanesa estavam tanto no Chiado, como os fregueses da loja do José Alexandre. O edital do Governo Civil de Lisboa, de 1 de Setembro de 1859, incorporou nesse nome os dois nomes seguidos da mesma rua, passando a chamar-se em toda a sua extensão rua do Chiado.

Rua Garrett que foi «do Chiado» |c. 1950|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): imagem sem data; local da foto não está identificado no arquivo

Esse nome do Chiado, destronado pelo do imortal Garrett, pelo edital de 14 de Junho de 1880, também tinha os seus foros, e não muito mesquinhos; foi injustiça desconhecer-lhos. Garrett presou-se de bom companheiro em letras; ¿porque o obrigou a Câmara Municipal a ser mau companheiro depois de morto? Tenham a certeza disto: se o pudessem consultar, pediria ele que deixassem quieto no seu lugar o velho Chiado, o poeta António Ribeiro Chiado, seu predecessor, e seu colega (se bem que muito somenos, é claro) na carreira literária. [Castilho: 1879]

Rua Garrett que foi «do Chiado» |c. 193-|
O Chiado durante Quinta-feira Santa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Chiado

E porquê «Chiado»?  — Questiona o olisipógrafo Norberto de Araújo.
Querem uns que a designação proviesse do poeta António Ribeiro, o «Chiado», que por aqui vadiaria, e outros opinam que, na inversa, foi o fazedor de autos que tomou o nome da Rua. A ser assim, como adveio ao troço fundo desta serventia o dístico oral de Chiado, visto que não foi o poetastro quem lha deu? 

Rua Garrett, antiga do Chiado |entre 1886 e 1889|
Vista tomada dos Grandes Armazéns do Chiado antigo Palácio Barcelinhos.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Matos Sequeira, seguindo Alberto Pimentel, lembra que, aí por 1560, aqui defronte da porta dos actuais Armazéns do Chiado, deante da esquina da Rua do Carmo de hoje, existia uma adega ou estalagem de um Gaspar Dias, por alcunha «O Chiado». Pouco mais de vinte anos depois o sítio era nomeado com aquele ressonante sinal oral, devido ao taverneiro quinhentista. E, a ser assim, o frade dos autos nada tem como o nome do sítio: Chiado não seria alcunha de António Ribeiro, mas apelido, pois o frade era alentejano, e no Alentejo havia muitos Chiados, em nome de família. [...] só em em 1856 tudo isto passou a ser Rua do Chiado  — ou Chiado  — , para em 1880 o nome cair oficialmente e passar então a ser, como hoje, Rua Garrett.  

Rua Garrett, antiga do Chiado |1897|
M. Goulart, New Bedford, Col. do autor, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 91-92, 1939.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Largo do Chiado: vendedora ambulante de fitas-métricas

O vocábulo Chiado — segundo Mário Costa, no seu Chiado Pitoresco e Elegante, 1965 — de efeito sonoro e quase mágico, designa como adjectivo aquele que se revela astuto, ladino, malicioso. No dicionário de Caldas Aulete, chiado, o mesmo que chiada ou chiadeira, quer dizer o ruído provocado pelo acto de chiar, som agudo e desagradável. Há uma hipótese segundo a qual o nome Chiado adviria do ruído carruagens que, séculos atrás, subiam a calçada (ladeira) do Chiado. Alberto Pimentel e Matos Sequeira, olisipógrafos ambos, estudaram a origem do nome Chiado.
Enquanto o primeiro concluiu que ele derivou da existência e modos de proceder de duas figuras excêntricas, alcunhadas de Chiado (Gaspar Dias, o vinhateiro, e António Ribeiro, o poeta chocarreiro), o segundo pesquisador afirmou convictamente que a transmissão de tal nome derivou da popularidade de que gozou o taberneiro na vida que fez em pleno Chiado, no século XVI, vida pública que o levou a tomar larga familiaridade com o chistoso vate, ex-frade franciscano, que em religião usou o nome de fr. António do Espírito Santo.

Largo do Chiado |1960|
Vendedora ambulante de fitas-métricas
Dístico de 1925; antigo Largo das Duas Igrejas ou Praça Do Loreto e antes lugar da Porta (ou Portas) de Santa Catarina, construída na cerca de D. Fernando, entre 1373 e 1375; Igreja da Encarnação.
Arnaldo Madureira, 
in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Edifício Ramiro Leão

O Chiado teve e tem os seus escritores, artistas e figuras típicas, tal como tem os seus edifícios emblemáticos. O Ramiro Leão é um deles. Distingue-se da diversidade que caracteriza,  anacronicamente,  a unidade deste lugar e do conjunto de armazéns, como o Grandella, o Chiado ou o Eduardo Martins, todos eles com origem anterior ao Ramiro Leão. Durante décadas, esta foi uma das casas comerciais mais cosmopolitas de Lisboa.

Edifício Ramiro Leão |séc. XIX|
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Fotógrafo não identificado [P.M.], in Lisboa de Antigamente

Na década de 1880, um jovem comerciante de Lisboa, Ramiro Leão, nascido em 1857 na aldeia de Degracias, no concelho de Gavião, avançou para a fundação de uma grande casa comercial num dos locais mais nobres da cidade. Vindo muito novo para Lisboa, Ramiro Leão cedo se dedicou à actividade comercial, desde que abriu com seu irmão António um primeiro estabelecimento na Rua Nova do Almada. 

Edifício Ramiro Leão |c. 1910|
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3;  [Rua Paiva de Andrada]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A passagem para o edifício do Chiado processou-se por duas fases: as primeiras instalações não iam para além de uma loja e 1.º andar, mas depressa a fraternal sociedade se assenhoreou de todo o prédio, após a saída do Hotel Borges, que ocupava dois pisos, e dos demais inquilinos das lojas aí existentes. A abertura e expansão desta casa, no Chiado, trouxe fama e riqueza aos seus proprietários, tendo Ramiro Leão chegado a director da Associação Comercial, mantendo-se como tal durante largo tempo.

Edifício Ramiro Leão |c. 1910|
Rua Paiva de Andrada; Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Ramiro Leão, interior da loja |c. 1910|
Rua Paiva de Andrada; Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na parede que envolve a escada, foram executadas pinturas murais da autoria do pintor João Vaz (1859-1931), figurando o Palácio de Queluz, a Boca do Inferno, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e a Basílica da Estrela e um vitral ao estilo Arte-Nova figurando motivos vegetalistas e animais; contava também com um elevador ao mesmo estilo e com pinturas a óleo no tecto realizadas por alunos da Escola Afonso Domingues com base em cartões de João Vaz. Em 2001, estas pinturas foram retiradas e doadas ao Museu da Cidade em Lisboa

Edifício Ramiro Leão, incêndio  [1927]
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3;  Rua Paiva de Andrada
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1927, após o incêndio que vitimou parcialmente o imóvel, foi realizado um projecto de recuperação pelo arqº Norte Júnior, que também trabalhou noutras obras nesta área. A intervenção do arqº no Ramiro Leão consistiu essencialmente na construção de uma mansarda em substituição do sótão que ardeu. Numa altura em que estas decorriam, foi proposta a construção do torreão de gaveto, ainda durante o ano de 1927. Este torreão foi concebido totalmente em cimento armado, sendo a parte superior montada directamente sobre o cunhal.  Em 2001, instalou-se no prédio a «Loja United Colors of Benetton».
(Cadernos do Arquivo Municipal, Nº4, 2000, Arquitecturas de esquina em Lisboa, Jorge Mangorrinha)

Edifício Ramiro Leão |c. 1950|
 Torreão NO. construido em 1927 sob a orientação do arqº Norte Júnior
Rua Garrett, 83, esquina com o Largo do Chiado, 1-3
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Joalharia Leitão & Irmão — antigos Joalheiros da Coroa

Este Largo do Chiado, aprazível e portentoso, é um alfobre de história. Estivemos encantados a enumerar e analisar algumas das suas melhores estampas, e só agora demos pelo faiscar dos brilhantes que se engastam nas jóias de alto preço — só para ricaço adquirir! — que se mostram expostas nas montras da antiga Joalharia de Leitão & Irmão, fundada em 1877 por José e Narciso Pinto Leitão, cujo acontecimento mereceu nessa data uma crónica especial de Ramalho. 


É o mais rico estabelecimento do burgo, uma autêntica casa-forte, onde se acumulam grandes riquezas, e que fez luxo em ostentar a divisa «Fornecedor da Casa Real». A parte exterior está revestida de mármores negros, o que levou certo gracioso a chamar a essa tão conhecida casa, o «túmulo do Chiado». 

Joalharia Leitão & Irmão |post. 1910|
Largo do Chiado, 21-23 (actualmente no n.º 16); Rua Nova da Trindade
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A Joalharia Leitão instalou-se aqui quando artéria que lhe corre do lado nascente, já se chamava Rua Nova da Trindade, assim classificada em 1836. Antes, era Rua do Secretário da Guerra, um alto funcionário de muita nomeada no século XVIII, de nome João Pereira da Cunha Forjaz, morador e proprietário do prédio que antecedeu o actual, que o Terramoto obrigou a reconstruir. 

Joalharia Leitão & Irmão |1910-10-05|
Largo do Chiado, 21-23 (actualmente no n.º 16); Rua Nova da Trindade
Grupo de civis revolucionários aquando do 5 de Outubro
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Um dos antecessores da Joalharia Leitão, foi a Fábrica de Marcenaria de José Aniceto Raposo, talvez de 1810 a 1814, pelo menos. No 1.° andar, funcionou o estabelecimento de banhos de Francisco Geneste, que morreu em 1835; e foi Andrilliat, cabeleireiro da Casa Real, quem tomou a casa e a dirigiu, ao mesmo tempo que exercia a sua principal profissão, vendendo aos clientes toda a espécie de adereços, como chinós, meias-cabeleiras metálicas, elásticas e de pressão; marrafas e crescentes, «tudo chegado de Paris». Causaram sensação, «imersões quentes a 320 réis».

Joalharia Leitão & Irmão |1953|
Largo do Chiado, 21-23 (actualmente no n.º 16); obras de pavimentação
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

No dia 1 de Dezembro 1877, o Rei D. Luís atribuiu à Joalharia Leitão & Irmão o título de «Joalheiros da Coroa». A Leitão & Irmão continuou a ser a escolha da Casa Real para a criação de presentes a familiares, amigos e personalidades. A rainha D. Maria Pia foi igualmente uma entusiasta e fiel cliente.
As principais oficinas da Casa Leitão foram construídas em finais do século XIX no pátio de um pequeno palacete no Bairro Alto [vd. imagem abaixo]. Aí se instalaram grandes artistas prateiros que até então trabalhavam em oficinas de “vão de escada”, um pouco por toda a Lisboa. Os modernos meios de fabrico e condições de trabalho foram contribuição decisiva para a manufactura de peças de excepção.
Em 1981, as oficinas de joalharia, originalmente localizadas no primeiro andar da loja do Chiado, foram integradas na oficina do Bairro Alto.
A actual loja do Largo do Chiado foi remodelada no ano 2000 pelo artista Pedro Leitão.
 
Antigas oficinas da Joalharia Leitão & Irmão |c. 1900|
Rua da Gáveas com a Travessa da Espera
Machado & Souza,
in Lisboa de Antigamente
_____________
Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987.
leitao-irmao.com.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Lojas de antanho: «Ao Último Figurino»

O Chiado — resiste. Perdeu-se o seu romantismo ainda de ante de ontem, mas o Chiado persiste [...] Resiste... Garrett, flamante de casaca verde e bronze com botões dourados, colete de pique de grandes bandas, cintado e pernoita calça cor de alecrim, peitilho e punhos de canudo, luvas cor de canário, gravata azul-ferrete — ainda lá está na parede da esquina da... Rua Garrett. O Maggiolo à esquina da Calçada do Sacramento, casa de café e de brinquedos — foi-se embora. Está lá agora o Último Figurino. ¹

Rua Garrett, 20-26 [1966]
Antiga Rua do Chiado (até 1880); Esquina da Calçada do Sacramento
Montra da casa de modas «Ao Último Figurino», fundada em 1910. mais tarde «Novo Figurino».
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Atravessando para o quarteirão seguinte da Rua Garrett (antiga do Chiado), vamos encontrar uma das casas de melhor gosto e apresentação, a que o seu fundador, António Gonçalves Marques, já falecido, nomeou, com justeza, Ao Último Figurino. A princípio (1910-1911?) abrangeu apenas os números 20 a 24, e, desdobrando-se mais tarde para a loja seguinte, a firma António Gonçalves Marques, Ld.a, acabou por tomar a sobreloja e andares superiores. 

Rua Garrett, 20-26 [191-]
Antiga Rua do Chiado (até 1880); Esquina da Calçada do Sacramento
Montra da casa de modas «Ao Último Figurino», 
fundada em 1910. mais tarde «Novo Figurino».
Alexandre Cunha, in Lisboa de Antigamente

 Recorrendo aos antecedentes, vamos encontrar (ainda no século passado), as lojas números 20 a 24 na posse de Magiolo & Magiolo, que, na parte com entrada pela porta de esquina, se dedicavam ao negócio de mercearias, chás e cafés, casa muito farta e especializada. Nos dois números seguintes (22 e 24), expunham um profuso mostruário de bijutarias e brinquedos, nesse tempo de simples aparência e modestos na composição. Como os adultos, as crianças, então contentavam-se com pouco. Qualquer bugiganga lhes servia. Bastavam aquelas bem conhecidas carrocinhas de madeira, um cavalo de pasta ou uma boneca de trapos, para tornar felizes esses inocentes, limitados nas ambições. Estavam longe o engenhoso «Meccano», os maravilhosos comboios eléctricos (com os quais brincam mais os pais do que os filhos) e as sedutoras bonecas falantes, que também abrem e fecham os olhos.

Rua Garrett, 20-26 [1974]
Antiga Rua do Chiado (até 1880); Esquina da Calçada do Sacramento
Montra da casa de modas «Ao Último Figurino», 
fundada em 1910. mais tarde «Novo Figurino».
Alfredo Cunha, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 93, 1939.

² COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, p. 265, 1987.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Rua Garrett: a «ladeira vaidosa»

Chiado às quatro horas da tarde, quando os amanuenses vêm para cima e as cocottes vão para baixo. [Ortigão: 1889]


Afinal ele não é uma designação — é um código de costumes. Não é uma rua — é um índice de Lisboa». As palavras são de Norberto de Araújo, das Legendas de Lisboa, e definem o Chiado, a tal «ladeira vaidosa» de Ramalho Ortigão ou a «personificação de Lisboa elegante» de Júlio de Castilho. Quantos não foram os poetas e escritores que ao Chiado se referiram em termos semelhantes? Estamos, pois, num dos «píncaros do mundo» e quem o afirma é Guerra Junqueiro. No Chiado, «instituição profundamente gomosa», se «exibem as raridades do sport e a fina essência da elegância», e Fialho de Almeida sabia-o. O conselheiro Acácio, este, «aprumava a estatura» ao descer o Chiado e Artur Corvelo, que deixava a Capital, «ia devorando com os olhos os lugares que amava: a Casa Havanesa, a janela do seu quarto, lá em cima no [hotel] Universal [prédio dos Armazéns do Chiado] — que ferro ir-se!»

Rua Garrett |1912|
Antiga do Chiado: a "Ladeira Vaidosa"
A elegância das modistas; Tabacaria Estrela Polar na esquina com a Rua Ivens.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Semana Santa em Lisboa

Na quarta-feira de Cinzas, os católicos, arrependidos por tantos disparates que teriam cometido durante o Entrudo, iam penitenciar-se às igrejas e saíam à rua, refeitos, com cinza na testa, aplicada pelos sacerdotes. Os agnósticos, ou os mais esquecidos das obrigações, partiam para «fora de portas» a deglutir famosas ementas que faziam parte das cozinhas das casas de pasto dos arredores e onde, naturalmente, havia vinho afamado.

Semana Santa em Lisboa |1907|
Igreja de Nossa Senhora do Loreto no Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Semana Santa, à saída da Igreja do Loreto |1907|
Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

As tipóias carreavam, por estradas hoje desaparecidas debaixo dos arranha-céus, toda uma malta de pândegos que ia afundar em bebedeiras os restos histriónicos dos dias do Carnaval. No António das Caldeiradas, em Belém; no Ferro-de-Engomar e nas Pedralvas, por Benfica, no Perna-de-Pau, ao Areeiro, o Caliça, o Quebra-Bilhas e outros que não nos ocorre, fazia-se o rescaldo da paródia! Acabaria a estúrdia noite alta com fados cantados por gargantas privilegiadas.
Depois do Carnaval, a Quaresma. São cinco semanas de encontro com Deus. Depois a Semana Santa!
Para a canalha miúda eram mais uns dias de férias. Depois da licença, as amêndoas e o folar cheio de ovos. Mas a Semana Santa era algo de solene. Podia-se não ser crente, que família católica impunha já na quarta-feira de Endoenças a gravata preta. Não se discutia. Havia sermões nas igrejas e vasta audiência aos pregadores de maior fama. — Que belo sermão ouvimos hoje! — Os padres, Governo, Farinha e Fernandes de Castro, entre outros, atraíam um público de qualidade. la-se de igreja em igreja para os ouvir!

Semana Santa, à saída da Igreja da Encarnação |1912|
Largo do Chiado
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Semana Santa, à saída da Igreja da Encarnação [|22-4-1922|
Largo do Chiado
 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Senhoras durante a Semana Santa |1912|
Rua António Maria Cardoso; ao fundo, o Largo do Chiado
Pela Páscoa, na altura da Semana Santa, era tradição o luto carregado, as pessoas vestiam-se de escuro e com discrição.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Quinta-feira Santa era o dia de maior respeito, havia silêncio nas ruas, apesar da multidão que, de luto, visitava as sete igrejas da obrigação. O ar cheirava a rosmaninho que atapetava as entradas dos templos, onde mulheres vendiam raminhos com alfazema e alecrim. Nas pastelarias, cheias de gente, os caixeiros não tinham mãos a medir para aviar as guloseimas.
Naquele tempo, o sábado de Aleluia era uma festa! Desapareciam dos altares os reposteiros roxos, reboavam os sinos no entusiasmo da vida nova! Colaborando no festival de Deus, bandos de pombos eram libertos nas naves das igrejas.
Depois do Concílio foram alteradas algumas normas, mas o Domingo de Páscoa continua a ser a alvorada cheia de luz que a todos enternece e enche de alegria. É o grande dia litúrgico; desapareceram os lutos, desejam-se reciprocamente as Boas-Festas!


Largo do Chiado
Venda do rosmaninho em Quinta-feira Maior [22-4-1922]


Largo do Chiado
Venda do rosmaninho em Quinta-feira Maior
 [18-04-1935]
in Lisboa de Antigamente



Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O «Café Marrare do Pulimento»

Lisboa era o Chiado; o Chiado era o Marrare; e o Marrare ditava a lei. Ser frequentador do Marrare era a suprema elegância para os elegantes; frequentar o Marrare era como para os romanos ir a Atenas; imprimia carácter.


    
Numa tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, à porta de Madame Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapéu branco, e uma senhora loura, embrulhada num xale de Caxemira.
     O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhada por baixo do queixo, uma face tisnada de antigo embarcadiço e o ar goche, desceu todo encostado ao trintanário como se um reumatismo o tolhesse, entrou arrastando
perna o portal da modista; e ela voltando devagar a cabeça olhou um momento o Marrare.» [...]
    (QUEIROZ, Eça de, Os Maias», 1888)
O café Marrare «do Polimento» situado na Rua Garrett, em meados do século XIX, gravura

   O Café mais antigo e, sem dúvida, o de maior nomeada em Lisboa, foi o Café Marrare «do Polimento» a que Tinop chamou o «príncipe dos botequins». Era «do Pulimento» porque «estava forrado com silhares de madeira pulida, e ainda por oposição aos outros «Marrares» [ARAÚJO, 1939]
   O seu proprietário e fundador foi António Marrare que viera para Lisboa como copeiro do Marquês de Nisa, italiano de berço, estabeleceu-se primeiramente no Largo de S. Carlos, mudando daqui, em 1820, para o edifício da Rua do Chiado que tinha então os números 25 e 26, hoje Rua Garrett, 58-60. 
   Desde logo, o Marrare foi uma «espécie de café-clube, frequentado de dia e de noite por uma sociedade, o high-life, que era com certeza a fina flor da nossa aristocracia e da alta burguesia lisboeta. Júlio de Castilho sintetizou assim o Marrare: «Lisboa era o Chiado; o Chiado era o Marrare; e o Marrare ditava leis.» 

Todos os escritores contemporâneos enalteceram a simpatia do seu ambiente e as qualidades do serviço, desde o magnífico infuso, em que entrava o genuíno «Moka», às bebidas das melhores marcas e aos excelentes sorvetes e chocolates de fama. Entre os pratos que servia, celebrizou-se o famoso bife à Marrare, confeccionado numa frigideira de ferro com molho de natas. Além da sala de bilhar, tinha ainda um pequeno pátio coberto por uma clarabóia envidraçada onde, no Verão, as senhoras podiam comer os melhores gelados da cidade. Polido era também o atendimento: criados de libré serviam excelente café em cafeteiras de prata.

Prédio setecentista onde existiu o «Café Marrare do Polimento» [c. 1910]
  Rua Garrett, 54-64
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bulhão Pato disse muito categoricamente: «Em 1848 o Marrare do Polimento, no Chiado, tornara-se o ponto de reunião de todos os elegantes e homens superiores de Lisboa». E, logo a seguir: ««Foi notável aquele café; assumiu um carácter literário e político, que hoje pertence à história. Ali só entravam pessoas que andassem em certa roda; as outras não se sentiam à sua vontade em semelhante convivência, ou em tal meio. como agora se diz. O Marrare possuía uma casa de numerosos hóspedes, todos parentes, mais ou menos próximos.»
Encerrou portas em 1866.
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