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Sunday, 1 February 2026

Calçada da Bica Grande

Olha-me esse gracioso nicho, com forma de baldaquino vazio, em lavra Manuelina, no cunhal do prédio da esquina Oriental da Calçada (escadinhas) da Bica Grande. (Araújo: XIII, 1939)


Atestando as fartas quantidades de água existentes no sítio, foram surgindo na encosta do Bairro da Bica desde o final do século XVI diversos chafarizes públicos na confluência das ruas.
Poder-se-ia assim pensar que a razão do topónimo Calçada da Bica Grande para esta calçada de escadinhas do Bairro que sobe da Rua de São Paulo à Travessa do Cabral, derivasse da proximidade a uma fonte, sendo que tal sucede com um grande tanque setecentista que se encontra na Vila Pinheiro, local mais conhecido como Pátio do Broas.

Calçada da Bica Grande |entre 1908 e 1914|
Note-se, à dir .do prédio que vira para a da R. de S. Paulo, à altura das
bacias das sacadas do 1.º andar, um nicho com baldaquino , de delicada escultura do séc. XVI.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Todavia, sobre esta artéria central do bairro da Bica, o olisipógrafo Norberto Araújo argumenta que “Bica Grande” e Bica Pequena podem ter sido apenas denominações dadas com o sentido de “Calçada Grande” e “Calçada Pequena”, o que até se ajusta à largura e extensão das serventias.

Calçada da Bica Grande |191-|
Roque Gameiro (1864-1935)

Sunday, 16 November 2025

Profissões de antanho: o cauteleiro

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

É profissão que jamais acabará. É vê-los por aí, sobretudo pela Baixa, oferecendo a fortuna a toda a gente. No nosso tempo, a cautela, cremos que a vigésima parte do bilhete inteiro, vendia-se por três vinténs!
E não havia barbeiro que, pelo Natal ou Páscoa, não tivesse colado no espelho, em frente do freguês, o bilhete da sorte, para que bem o observasse e comprasse enquanto lhe escanhoava os queixos.
O grande actor Estêvão Amarante, criador admirável de tantos tipos populares de Lisboa, também fez o cauteleiro num quadro de revista, cantando um fado que ficou, como todas as suas criações, na alma do povo, imitando um cauteleiro que era muito conhecido pelo pregão harmonioso e nostálgico com que oferecia a Sorte Grande!

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |entre 1908 e 1914|
Largo de Dom João da Câmara, antigo «de Camões».
Ao fundo observa o afamado Café Suisso.
Charles Chusseau-Flaviens, in Lisboa de Antigamente

Nesse tempo, e hoje também, os cauteleiros apregoam por Lisboa e por todo o País, mas sem a cantoria de então.
A dada altura apareceu pelas ruas da Baixa, sem apregoar, um cauteleiro fardado, que oferecia o jogo quase sempre pelos estabelecimentos. Exibia boné agaloado a ouro, sobrecasaca preta com botões amarelos, galões dourados na gola e pasta debaixo do braço, cautelosamente segura por corrente. Era um indivíduo gordo, à volta dos quarenta anos e que, no seu jeito amável, aconselhava, como quem conversa, a jogar na lotaria. Hoje os cauteleiros usam boné de pala e a profissão, aparentemente, deve ser rendosa. Haja em vista o desafogo de certas casas de lotaria! 

— Quem é que se habilita à sorte, é o 1469 que anda amanhã a roda!

Profissões de antanho: o cauteleiro |1922-3-8|
Calçada do Duque com a Rua da Condessa.
Legenda no arquivo: «O coxo das cautelas na Escadinhas do Duque»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? Questiona-se o Desassossegado Bernardo Soares. O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros, [e das Escadinhas do Duque, porque não?]. Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu — a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim — sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.
(Fernando Pessoa / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 1931)

Profissões de antanho: o cauteleiro |início séc. XX|
Aguadeiro e cauteleiro junto ao fontanário do Largo Trindade Coelho, antigo de S. Roque. 
Ao centro vê-se a Coluna mandada erguer pela colónia italiana, comemorando o casamento do 
Rei Dom Luís I com Dona Maria Pia de Sabóia em 1862.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
(DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo (1900-1974), p. 276, 1986).

Sunday, 26 October 2025

Rua Andrade Corvo, 15: Garage Parisiense

Note-se que por esta altura - início séc. XX - esta nova via mais não era do que um beco sem saída pois ainda não se encontrava completamente rasgada, nomeadamente junto à Av. Duque de Loulé, como, aliás, se pode ver ao fundo na 1ª imagem.

Pelo edital da CML de 29 de Novembro de 1902, esta nova serventia, sita entre a Avenida Duque de Loulé e a Rua Viriato (antiga Barros Gomes), passou a ter a denominação de Rua Andrade Corvo.

Rua Andrade Corvo, 15 na direcção da Avenida Duque de Loulé |c. 1911|
Entrada da Garage Parisiense.
Recorde-se que o primeiro veículo automóvel a circular em Portugal foi um Panhard & Levassor, trazido de Paris pelo Conde D. Jorge de Avillez em 1895.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Um dos primeiros automóveis a circular em Lisboa, à entrada da "Garagem Parisiense"
Rua Andrade Corvo, 15 na direcção da Avenida Fontes Pereira de Melo |c. 1911|
Entrada da Garage Parisiense junto ao cruzamento com a R. Sousa Martins; ao fundo, à dir., a seguir aos omnipresentes tapumes lisbonenses, vislumbra-se o Palacete da Avenida Fontes Pereira de Melo, 28Sede do Metropolitano de Lisboa.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Legenda no arquivo: «Um dos primeiros automóveis a circular em Lisboa, à entrada da "Garagem Parisiense"

N.B. João de Andrade Corvo (1824-1890), filho de um miguelista convicto, formou-se liberal depois de observar as convulsões das lutas entre os dois partidos. Estudou medicina, matemática e ciências naturais. Foi coronel de engenharia e lente da Escola Politécnica e do Instituto Agrícola. Na política estava próximo do Partido Regenerador e foi membro do governo, deputado e par do reino. Para além de político, foi também dramaturgo e romancista.

Rua Andrade Corvo, 15: «Garage Parisiense» |início séc. XX|
 Recolha de automóveis, venda de gasolina e, aos melhores preços do mercado, de óleos, pneus e acessórios, propriedade da firma “Vaquinhas & Cª".
Nota(s): A palavra "automóvel" surgiu na França em 1875 e vem do grego autos, que significa "por si só" e do latim mobilis, que quer dizer "móvel".
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Friday, 22 August 2025

Travessa dos Inglesinhos com a Rua da Atalaia

Esta artéria do Bairro Alto que liga Rua da Atalaia à Rua dos Caetanos tem o seu topónimo – Travessa dos Inglesinhos – devido à existência no local do Colégio de São Paulo e São Pedro, conhecido como Convento dos Inglesinhos, que entre 1632 e 1644 foi erguido em terras doadas por D. Pedro Coutinho.
Após o Ultimatum inglês de 1890, a população alfacinha passou a apelidar esta artéria como “Travessa dos Ladrões”; o mesmo com a Rua da Estrela ou a devido a presença do Cemitério dos Ingleses[Machado: 1998]

Travessa dos Inglesinhos com a Rua da Atalaia |1923|
Sede da Associação de Classe das Empregadas Domésticas de Hotéis e Casas Particulares de Lisboa.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): A Travessa do Enviado de Inglaterra, a Santa Marta, foi apelidada pelos populares como a “Travessa do Diabo que o Carregue”, por existir neste local um palacete onde habitou o Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário, Lorde Robert Stephen Fitzgerald (1765-1833), entre 1802 e 1806.
 
Travessa dos Inglesinhos |1902|
Quarteirao entre as Ruas Luz Soriano e da Rosa tendp ao fundo a Rua da Atalaia.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


Friday, 27 June 2025

Palácio de São Bento: Estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães

Inaugurada em 1876 no então designado Largo das Cortes — até à construção da escadaria monumental na década de 1930 — esteve posteriormente implantada no Vestíbulo do Palácio de São Bento, tendo sido reinaugurada, em 15 de Outubro de 1984, no jardim da Praça de São Bento. A estátua de corpo inteiro e cadeira fundidas em bronze e modeladas, em 1870, por Vítor Bastos, assentam sobre uma base de pedra.
  
Estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães |Início séc. XX|
Palácio de São Bento, antigo Largo das Cortes
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

N.B. José Estêvão Coelho de Magalhães (1809-1862), destacou-se pela sua contínua luta a favor da liberdade, denominador comum que moveu tanto a sua carreira como a sua vida. Foi soldado, jornalista, professor da Escola Politécnica, advogado, político, parlamentar e grande orador, tendo ficado célebres os seus empolgantes discursos parlamentares, em particular as suas discussões com Almeida Garrett. Em sua homenagem, a Câmara Municipal de Lisboa consagrou-lhe uma rua com o nome de José Estêvão, pelo qual ele era mais conhecido.

Palácio de São Bento, galilé escadaria monumental |1938-11-08|
Rua de S. Bento
A fachada principal, remodelada durante a primeira metade do século XX, projecto do arqº Ventura Terra.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 1 June 2025

Rua da Boavista

A origem do nome do sítio é projecção toponímica do Alto da Boa Vista, ou seja, ou Alto do Belver ou Belveder actual Alto de Santa Catarina. Não quero deixar de observar-te — recorda o ilustre Norberto de Araújo — que as edificações desta artéria da Boa Vista, do lado Sul, não levam cem anos (c. 1840). O edifício da Companhia do Gás sucedeu ao antigo Quartel da Brigada Real de Marinha. Foi aqui a primeira Fábrica do Gás, cujo privilégio concedido a Claudio Adriano da Costa e ao francês José Detry, datava de 3 de Maio de 1846

Rua da Boavista |ant. 1914|
O edifício do lado esq., até à esquina com o Boqueirão dos Ferreiros pertencia à «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz»; em ampliando a foto observam-se, ao fundo, os sete arcos do do prédio nº 67 erguido pelo industrial Ferreira Pinto em meados do séc. XIX para «palacete de família, e constitui ainda a única nota decorativa urbana da Rua da Boa Vista.» [Araújo, 1939]
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): o local da foto não está identificado no abandalhado amL

De facto, foi junto ao rio, meio de transporte privilegiado, que a «Companhia Lisbonense de Iluminação a Gaz» instalou, em 1846, a sua primeira fábrica de Gás; e, dois anos depois, em 1848, já Lisboa inaugurava a iluminação a gás, com 28 candeeiros, nas ruas da Baixa (Rua dos Capelistas, Rua do Ouro e Rua da Prata), no Chiado, na Rua do Alecrim, no Cais do Sodré, em S. Paulo e na Boavista.

Rua da Boavista |1940|
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade: fachadas Norte e OesteBoqueirão dos Ferreiros.
Kurl Pinto, in Lisboa de Antigamente

Em 1914 deu-se na fábrica a formidável explosão que originou dezanove mortes, e o fabrico do gás passou então, inteiramente, para o Bom Sucesso — vizinhança da Torre de Belém — , onde ase manteve até 1949.

Rua da Boavista |1914|
Topónimo anterior ao terramoto de 1755, como vem mencionado nas Memórias Paroquiais.
Incêndio no edifício da Companhia de Gás.
Anselmo Franco, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 1 April 2025

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio (1916-1959)

O Chave d'Ouro foi não só o maior, mas também um dos mais emblemáticos cafés e salões de chá do século XX lisboeta, orgulhando - se na imprensa de fazer o chá e o café com água do Luso. Aberto ao público em 1916, tomou o espaço de uma antiga loja de ferragens, da qual reteve o respetivo nome comercial. Na segunda metade dos anos 30 foi totalmente remodelado pelo arquiteto Norte Júnior, autor da decoração original, na qual se destacara o enorme anjo que então decorava a fachada deste estabelecimento. O novo Chave d'Ouro abriu as suas portas em Fevereiro de 1936, tendo merecido uma página inteira no Diário de Lisboa, que realçou as suas «duas rentes — Rossio e Primeiro de Dezembro — sete andares, nove pavimentos, central — o grande café — galeria de café; salão de bilhares, salão de chá, restaurante, esplanada, cinco bares [...] » e até «11 400 lâmpadas».¹

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio de 1916 a 1959 |1923-05-10|
Praça D. Pedro IV, 33-38
Nota(s): Esta fotografia integra a reportagem "A Festa da Flor" em Lisboa. Foi coroada do melhor êxito,
sendo importantes os donativos alcançados", publicada no jornal 'O Século' de 10 de Maio de 1923.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Eram 5 da tarde e o Café Chave d'Ouro, no Rossio, no topo superior da grelha da Baixa, o coração da cidade , estava cheio de gente. Ainda não fazia frio e as janelas estavam todas abertas. Laura van Lennep tinha-se sentado ao pé de uma dessas janelas e olhava repetidamente para a praça. Tinha diante dela a pequena chávena de café que pedira há hora e meia, quando chegara, mas os empregados não a incomodavam. Já estavam habituados.

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio entre 1916 e 1959 |c. 1940-50|
Praça D. Pedro IV, 33-38
Anote-se o anjo esculpido em pedra de lioz e ferro, projecto de Fausto Fernandes. Á dir. observa-se a afamada Joalharia Lory. 
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Distraidamente, ia ouvindo a conversa duma mesa de refugiados que falavam francês com forte sotaque. Os dois homens tinham visto camiões do exército na Baixa, de manhã cedo, e desenvolviam uma fantástica teoria de invasão que não contribuiu nada para acalmar Laura. Não podia suportar a inércia daquela gente, que sabia vir de uma pensão a três prédios da sua, na rua de S. Paulo, por trás do Cais do Sodré. Tinha-os ouvido na rua, corrigindo-se mutuamente acerca de aristocratas que tinham conhecido em festas, como se isso tivesse sido na semana passada, e não noutro país e noutra década. Estava desesperada por não ter cigarros, e o homem que ia mudar a sua vida, que tinha prometido mudar a sua vida, não chegava.²

 

Café Chave d'Ouro: o maior café do Rossio de 1916 a 1959 |1959|
Praça D. Pedro IV, 33-38 
Frontaria estilo Art Déco após remodelação, em 1936. e onde se destacam as grandes chaves pintadas de ambos os lados da entrada no dia em que foi encerrado.
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ WILSON, Robert W, Último Acto em Lisboa.1941
² SANTOS, João Moreira dos, Roteiro do Jazz na Lisboa dos anos 20-50 : guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do Jazz em Portugal 2012.

Sunday, 30 March 2025

Rua do Cais de Santarém

Caes de Santarém (Rua do) Principia no largo do Terreiro do Trigo e finda no Campo das Cebolas. Freguesia de Santa Maria Maior. Já o Pe. Castro lhe dá esta denominação. Map. de Port. pág. 459, ed. de 1758. O caes de Santarém era o destinado para a descarga dos barcos que vinham da vila de Santarém. Note-se que no Livro das Plantas [das Freguesias de Lisboa por Monteiro de Carvalho] encontramos rua e travessa do Caes, na freguesia de S. Julião; rua do caes dos remolares na mesma freguesia e na freguesia de Santa Engrácia a rua do Caes do Carvão. Também havia os caes da fundição e de S. Paulo. [BRITO: 1935]

Rua do Cais de Santarém, 10, junto ao Chafariz de El-Rei |1929-08|
Os dois edifícios à direita (revestidos a azulejo) faziam parte da antiga propriedade e Palácio do Conde de Vila-Flor. Logo a seguir (edifício de dois pisos) a antiga propriedade e Palácio do Conde de Coculim. Ao fundo à esq. vislumbra-se o edifício da antiga Cozinha Económicas Nº 5 [vd. imagem abaixo], criada em 1897, na Ribeira Velha (Soc. Protectora das Cozinhas Económicas), conhecidas como «Sopa do Sidónio».
Fotógrafo: não identificado, in Lisboa de Antigamente
Nota(s): O abandalhado amL identifica (erradamente) o local como, Rua dos Bacalhoeiros ou Rua Jardim do Tabaco. Mais uma fotografia que deve ter sido classificada depois do almoço.
Legenda: Cortejo fúnebre de Dom António Mendes Belo (1842-1929), 13º cardeal-patriarca de Lisboa

As ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros — diz o Guia de Portugal — vêm siar ao Campo das Cebolas, adiante do qual se estende a rua do Cais de Santarém, ambos conhecidos, antes do terramoto grande, pelo nome de rua Direita da Ribeira.
Toda esta porção da margem, desde o Campo das Cebolas à Misericórdia, era nesse tempo a Praça da Ribeira, onde se fazia a venda de numerosos géneros. Ainda hoje se dá ao Cais de Santarém o nome de Ribeira Velha, Aí se ergueu durante muitos anos a forca e se fizeram as últimas execuções que houve em Portugal. 

Rua do Cais de Santarém |1953-06|
Edifício da  Cozinha Económicas Nº 5 criada em 1897, na então Ribeira Velha (Soc. Protectora das Cozinhas Económicas), conhecidas como «Sopa do Sidónio». À esq. nota-se o portal seiscentista do velho Palácio Coculim.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935.
Guia de Portugal: Generalidades. Lisboa e arredores, p. 301, 1924.

Sunday, 26 January 2025

O Hotel Francfort de «Santa Justa»

Ora, Dilecto, enfiemos pela esquerda da Rua de Santa Justa, onde, n.ºˢ 70-72, está o Hotel Francfort (de Santa Justa, chamado).
Este Hotel, mais antigo do que o seu irmão do Rossio, foi fundado em 1867, por D. Joaquim Silva, e coube em partilhas a um filho, João Narciso da Silva, já falecido, como o do Rossio coube a Artur Silva, outro irmão. Por morte, o ano passado (Setembro 1938) ) da viúva de João Narciso, a propriedade do Hotel transitou para herdeiros menores; o estabelecimento que desde 1932 está em regime de administração, consequência de uma crise comercial, é hoje dirigido por Vítor Marques Simões, representante dos credores, e parente das duas crianças, herdeiras.

O Hotel Francfort de «Santa Justa» |190-|
Rua de Santa Justa, 70-72 com a Rua Augusta
Situado no Centro da Cidade Instalações Modernas Recomendado para Grupos
e Excursões Preços desde Esc. 30$00 - 150 Quartos.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

O Hotel foi muito ampliado e beneficiado em 1914, e ocupa dois prédios, ambos da Condessa de Casal Ribeiro, um com frente para a Rua de Santa Justa e laterais para as Ruas Augusta e do Arco Bandeira [actual dos Sapateiros], e outro nesta última rua. 
Nota(s): encerrou no final da década de 1970.

O Hotel Francfort de «Santa Justa» |1914|
Frentes sobre as ruas de Santa Justa e dos Sapateiros.
Pires Marinho, in Lisboa de Antigamente

 — Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo fará a esse homem, aos sessenta anos, ser deputado, passar meses em Lisboa no Francfort, abandonar as propriedades, deixar aquela linda quinta... E para quê? Para rosnar de vez em quando "apoiado"! Antes ele me cedesse a cadeira, a mim, que sou mais esperto, não possuo grandes terras, e gosto do Hotel Bragança. (Eça de Queiroz, ln A Ilustre Casa de Ramires, 1900)

O Hotel Francfortde «Santa Justa», salão de jantar e vestíbulo |1914|
E na Baixa, no «Francfort de Santa Justa, que arvorava, por então, a pequena fama de um hotel correcto (...), uma população heteróclita arrastava-se, lá ao fundo, na sala de pavimento de mosaico poligonado, abandonando-se nos cadeirões de couro negro , entre a exuberância dos ramos das aspidistras». [Cláudio: 1992]
Pires Marinho, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 53 1939.
A Arquitectura portuguesa ; revista mensal da arte arquitectural antiga e moderna, 1914.

Sunday, 15 December 2024

Rua do Alecrim que foi «do Conde»

Do fundo N. da Praça do Duque da Terceira sobe em declive violento a Rua do Alecrim, antiga Rua do Conde (de Vimioso), que, para ganhar o desnível, passa sobre dois arcos, um na R. Nova de Carvalho e outro na de S. Paulo.

Ora agora podemos ver a interessante perspectiva desta Rua do Alecrim — diz Norberto de Araújo — , com seus estabelecimentos de bric-à-brac, as fachadas dos seus prédios com recorte nas cantarias e sacadas bem desenhadas, e ao fundo um retalho do Tejo, alegria de Lisboa.
E «do Alecrim» ― porquê ? Que originou a modificação no tradicional dístico de Rua do Conde?
 
Rua do Alecrim que foi «do Conde» |1965|
Tinha um traçado pré-pombalino, sendo «uma das artérias mais características destes sítios, muito lisboeta, com o seu delicioso enfiamento até S. Roque, direita como um fuso e em dois terços da sua extensão corresponde à seiscentista Rua do Conde». [Araújo: 1939]

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No quarteirão ao alto da Rua do Alecrim, entre esta e a Rua das Flores, uns trinta metros abaixo de onde está a Farmácia Andrade [vd. 3ª imagem], fazendo esquina para uma rua de Brás da Costa, desaparecida, existiu uma Ermida, integrada numa propriedade, fundada por D. Ana de Vilhena entre 1628 e 1641, e cuja Imagem de Nossa Senhora, que viera de S. Miguel de onde D. Ana era natural, foi chamada «do Alecrim» por inspiração de uma criança, filho da fundadora da Ermida, muito tempo antes de esta ser erigida.=

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |Início séc. XX|
Antes de ser rua, «era o torcicolo do Cata-que-farás que serpeava, na subida, tocando,
à direita, uma confusão de casas encostadas às muralhas trecentistas de D. Fernando» [França: 1994]
Alexandre Cunha, in Lisboa de Antigamente

Uma curta paragem no Largo do Barão de Quintela onde, numa madrugada de 1866, vamos encontrar Hans Christian Andersen. Acabava de chegar a Lisboa e tinha pedido ao cocheiro que o «conduzisse ao Hotel Durand na praça perto da Rua das Flores». Num outro prédio, num «segundo andar, por trás de uma janela iluminada», está Alípio Abranhos «a olhar, desesperadamente, para a tenebrosa pacatez do Largo». O palácio Quintela, que dá o nome ao largo, possui a sua fachada principal virada para o largo e ocupa um vasto terreno entre as ruas do Alecrim e António Maria Cardoso. Foi comprado, em 1777, por Luís Rebelo (irmão de Inácio Pedro Quintela). Nesse terreno, esteve um outro Palácio, o dos condes de Vimioso, que ardeu em 1726. O largo foi terraplenado em 1788 e a estátua de Eça de Queirós, obra do escultor António Teixeira Lopes (1866-1942), que nele se encontra, foi inaugurada no dia 9 de Novembro de 1918.

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |1965|
Palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo (esq.); Farmácia Andrade
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No primeiro lanço da rua, vindos  da Praça do Duque da Terceira, que assenta sobre dois arcos mandados construir pelo marquês de Pombal, situava-se o Hotel Bragança (no n.º 12, à direita), fundado em 1912, então como pensão, e só anos mais tarde tornado hotel, para cujo nome foi necessário obter autorização da Casa de Bragança. Foi neste hotel que Saramago hospedou Ricardo Reis, quando este regressa do Brasil, em 1935: «(...) quando o automóvel já está a dar a volta ao largo, e o motorista avisa. O hotel é aquele, à entrada da rua. Parou em frente de um café, acrescentou, O melhor será ir ver primeiro se há quartos, não posso esperar mesmo à porta por causa dos eléctricos».

Rua do Alecrim que foi «do Conde» |190-|
Não deve ser confundido este «Hotel (Pensão) Bragança (1912)» da Rua do Alecrim, 12, fundado por Manuel Miguez Simas, como simples Pensão, com o «Hotel Bragança» (ou Braganza), citado em «Os Maias» de Eça de Queirós, sito na Rua Vítor Cordon (antiga rua do Ferragial de Cima), 45.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
JANEIRO, Maria João , Lisboa: histórias e memórias, 2006.
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 51, 1939.
PROENÇA, Raul, Guia de Portugal, Generalidades: Lisboa e arredores, 1924.

Sunday, 25 August 2024

O Sítio de Belém

Assinala Norberto de Araújo que Belém — orgulhoso sítio da antiga Lisboa arrabaldina — nasceu do Restelo, praia e lugar, Barra ou Surgidouro do Restelo, ao qual as navegações do século XV emprestaram notoriedade, ainda que o Restelo já de si falasse nos séculos anteriores. [...]

Rua de Belém |1930-11-09|
Legenda no arquivo: «A chegada do príncipe do Japão ao palácio de Belém».
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1835 tornou-se concelho independente do de Lisboa, e assim, com sua Câmara Municipal, viveu até 1885, ano de reorganização administrativa, ficando, então, como hoje, Belém a constituir uma freguesia senhora de si.

Rua de Belém |1939-02|
Lado S. antes das demolições de prédios e de alguns arruamentos por ocasião da Exposição do Mundo Português que teve lugar em 1940. Ao fundo nota-se o Mosteiro dos Jerónimos.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

No quarteirão entre as Travessas das Linheiras e da Praça na esquina poente, podes observar esse prédio altaneiro, com ar solarengo vencido pela desfortuna, e que contribui para tornar simpático este troço da velha Belém.

Rua de Belém com a Tv. da Praça |193-|
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, pp. 67-73, 1939.

Friday, 7 June 2024

Sítio de São Paulo

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, o sítio de São Paulo «Foi de seu princípio ribeirinho, sítio mercadejador, piedoso e turbulento. É coevo do Cata-que-farás e dos Remolares, vizinho actual da Ribeira Nova. (...) Remonta ao quinhentismo, extramuros. Em 1550 não contava como freguesia; existia como formigueiro de mareantes. (...)» [Araújo: 1939]

Rua de São Paulo |1963-07|
Junto à Calçada da Bica Grande
Augusto Fernandes, in Lisboa de Antigamente

freguesia de S. Paulo foi fundada em 1412 reedificada em 1512 e arruinada pelo terremoto do 1755 foi novamente reedificada em 1757.

Paulo (praça de S.) fica entre as ruas de S. Paulo, nova do Carvalho, travessas do boqueirão da Ribeira Nova, de S. Paulo e beco do Carvalho, freguezia de S. Paulo 1 a 22.
Paulo (rua de S.) principia na rua do largo do Corpo Santo e finda na calçada de S. João Nepomuceno e rua da Boa-Vista, freguezia de S. Paulo 36 à 260 e 21 a 129, Martyres 2 a 34 e 1 a 19.
Paulo (travessa de S.) segunda á esquerda no largo de S. Paulo, indo da rua nova do Carvalho e finda na rua da Ribeira Nova, freguesia de S. Paulo 2 a 14 e 1 a 13. [Velloso: 1869]

Praça de São Paulo (lado S.) |c. 1930|
Esquina com a Tv. de S. Paulo
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

No meio da Praça está um pequeno chafariz mandado fazer pela Camara Municipal e concluído no ano de 1849. A igreja (arq-º Remígio Abreu) tem na fachada as imagens de S. Pedro e S. Paulo feitas pelo insigne escultor António Machado. 

Rua e Praça de São Paulo (lado S.) |c. 1911|
Igreja de São Paulo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 11 February 2024

Rua Vicente Borga, à Madragoa

Dístico de 1859 originado por corruptela de Vicente Borchers — filho de um negociante alemão, um tal Conrado Bicker, natural de Hamburgo — , que morou na antiga Rua da Madragoa após ter casado com Maria Clara Sousa Peres, no séc. XVIII, e acabou por substituir o antigo topónimo.

O autêntico nome que substituiu o de Madragoa é, reverendo leitor, o de Vicente Borchers — refere o olisipógrafo Luiz Pastor Macedo. Vicente Borchers e não Vicente Borga.
Nem mais, nem menos.
Declaramo-lo peremptoriamente e por nossa honra, como se fossemos em pessoa o próprio Borchers que há um século, já passante — Deus saberá com que desgosto —  ouve pronunciar mal o seu apelido e há um ror de lustros o vê mal grafado nas esquinas da sua rua. Vicente Borchers e não Vicente Borga é que é, e vamos já, já ver porquê.

Rua Vicente Borga |1936|
Perspectiva tomada da Cç. Castelo Picão para a Travessa do Pasteleiro
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Vicente Bernardo Borchers Maldonado, nasceu em 15 de Setembro de 1739 numa casa da Rua Direita dos Anjos; casou, morando então na freguesia de S. Paulo, em 28 de Setembro de 1776, com D. Maria Clara de Sousa Peres, e foi depois aquele morador da velha Rua da Madragoa que originou a substituição do seu vocativo. Não temos .a menor dúvida a esse respeito. Foi deste Vicente Borchers, uma das pessoas mais importantes que por aqueles tempos moraram na rua, que nasceu nos soalheiros do sítio o Vicente Borga que a: pouco e pouco foi destronando, até se fixar oficialmente na artéria, a decrépita denominação de Madragoa.

Rua Vicente Borga |1945|
(Na direcção Rua das Trinas)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Júlio de Castilho, algum tempo antes do dia 1 de Julho de 1893, explicou a razão por que, segundo lhe parecia, a uma das ruas do antigo bairro do Mocambo dera o povo o nome de Madragoa. E foram estas as palavras de que se serviu para a sua explicação:

O Mosteiro das Bernardas, com a invocação de Nossa Senhora da Nazaré, foi fundado em 1652. Pela sua parte oriental, na Rua das Madres, que vai da Calçada do Castelo Picão para a Travessa do Pasteleiro, ficava o antigo recolhimento de Santa Isabel da Hungria, fundado em dias da Raínha D. Catarina: por uma Isabel de Jesus, falecida em 1612, isto segundo o Agiológio Lusitano de Jorge Cardoso. título da Rua das Madres é abreviatura do outro que a rua teve, Rua das Madres Bernardas, para se diferençar da outra travessa superior, e paralela, que se chamou das Madres de Goa, por causa de um hospício ou recolhimento de senhoras da India, que existia na casa que ficou fazendo esquina para a íngreme Rua das Trinas, desde que alargaram esta última. Pois o nome de Rua das Madres de Goa corrompeu-se em Rua da Madragoa, de imunda e torpe memória; e tão torpe, que obrigou o letreiro a mudar-se no de Rua de Vicente Borga, sujeito que não conheço. 

A marcha infantil da Rua Vicente Borga |1935-06-09|
(Junto ao jornal o Seculo)
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Porém — temos de declará-lo —  nem foram as madres de Goa que deram origem à denominação da rua, nem ela foi pelo vulgo baptizada com o extravagante nome de Mandrágora. As vezes sucedem coisas —   acrescenta Pastor de Macedo —  , até aos Mestres, especialmente quando a documentação anda arredia ou escasseia, e surge portanto aliciante e convidativo o campo das hipóteses.
A quinhentista denominação da rua (data pelo menos do ano 1579) provém, reverendo leitor, duma Mandragoa, mulher dum Mandragão. Não tenhamos dúvida alguma a esse respeito. Mandragão,
apelido duma família que viveu na Ilha da Madeira, deu em Mandragoa quando na cola de nome de dona ou  de moça, talqualmente sucedeu com os apelios de Leitão, Falcão, Varejão e outros, que, consoante o melhor jeito, se transformavam ou não em Leitoa, Falcoa e Varejoa. E que a rua primitivamente teve em vez de Madragoa o vocativo de Mandragoa também não se nos oferece dúvida alguma, pois que assim a topamos nos documentos antigos e assim a encontramos ainda nas obras impressas na primeira metade do século XVIII.=

N.B. Nesta artéria, no nº 33, nasceu no dia 26 de Julho de 1820, Maria Severa Onofriana, filha de Ana Gertrudes Severa (conhecida como a Barbuda) e de Severo Manuel de Sousa. Por isso, no dia em que se celebrava o 193º aniversário do nascimento da fadista, a Câmara lisboeta e a Junta de Freguesia de Santos-O-Velho colocaram uma placa evocativa no prédio do evento com os seguintes dizeres: 
Neste local
onde sua mãe tinha uma taberna
segundo a tradição nasceu/
em 26 de Julho de 1820
a mítica fadista
Maria Severa Onofriana
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Bibliografia
A Madragoa e o Vicente Borga, artigo de Luís Pastor de Macedo, em Olisipo, VII, 26, pp, 81-84, 144, 1944.
Grande Enciclopédia Portuguesa E Brasileira, p. 213.

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