Sunday, 24 November 2019

Madragoa, o velho Mocambo do século XVIII

De que deriva o nome de Madragoa? — questiona Norberto de Araújo.

Tem sido isto um inocente problema e talvez continue a sê-lo, assediado por explicações mais ou menos fantasistas. O verosímil — e fiquemo-nos, Dilecto, nesta verdade — é que «Madragoa» é vocábulo de corruptela.


Havia aqui perto o Convento das freiras bernardas — já to disse atrás — que, primeiro, justificou o nome à actual Rua das Madres. Mas, paralela, pelo norte, corria a Rua das Madres, de Goa, pois assim se chamava no século XVI a artéria que corre superior, em 1802 oficialmente Rua da Madragoa, e em 1859, como hoje, Rua Vicente Borga. No extremo desta Rua, à esquina das Trinas, existia um hospício de senhoras da Índia, as tais «madres de Goa», e por corruptela fonética — Madragoa. E aí tens uma explicação.

Rua das Madres [1940]
Ao fundo corre a Travessa do Pasteleiro
Eduardo Portugal, in AML

Madragoa!
Nome ressonante e plebeu: pescadores, ovarinas, homens da estiva; mulheres de Estarreja e subúrbios, donas de trabalho na prancha do carvão e nas areias da lota, de peitos altos, saias de cinta dobrada nos corpos durazios a contrastar nas cinturinhas ágeis das raparigas da Murtosa; cordões de ouro, bailaricos de S. João, mareantes de olhar nostálgico, traficantes do peixe de olhar vivaço; tavernas onde se fala do mar e das fainas ribeirinhas.
Ao cabo, uma colónia aveirense trespassada à capital — e que se arreigou, no único bairro de Lisboa que não tem Lisboa por fundo dinástico.

❞Ó velha Madragoa,
Não tens um só painel
Um arco ou um brazão
Só tens ó Madragoa
Nos lábios doce mel
No peito um coração.

Rua Vicente Borga [1945]
Dístico de 1859 originado por corruptela de Vicente Borchers — filho de um negociante
alemão, um tal Conrado Bicker, natural de Hamburgo —, que morou na antiga Rua 

da Madragoa após ter casado com Maria Clara Sousa Peres, no séc. XVIII, e acabou 
por substituir o antigo topónimo.
Eduardo Portugal, in AML

Em todo êste pitoresco, desligado da história — um pouco de miséria, ao lado da mediania suficiente, que com pouco se contenta para ser rica,
A Madragoa normal é buliçosa, rumorejante, mas incaracterística ao primeiro contacto: há que adivinhá-la; há que surpreendê-la aos domingos à noite ou nas quadras populares festivas.
A sua «côr local» existe, mas oculta-se sob um esfuminho de trivialidade.
Rigorosamente a Madragoa é um reduzido xadrez irregular — recorda-nos Norberto de Araújo — que se condensa numa área que corresponde à décima parte do Bairro Alto e da Alfama, às dimensões da Mouraria popular.

Travessa do Pasteleiro à Esperança [1950]
Desconhece-se a origem do topónimo, mas sabe-se que é muito antiga, pois, vem já 

citado no Livro IV de Óbitos da Freguesia de Santos-o-Velho. Presume-se que derive 
do facto de ali ter vivido um conhecido pasteleiro.
Eduardo Portugal, in AML

No sentido oriente-poente é cortada pela Ruas do Machadinho, de Vicente Borga, das Madres, limitadas estas pela Esperança, avenida bairrista e independente da característica castiça, e de norte a sul pelas Travessas do Pasteleiro, das Inglesinhas (que morre na Rua das Madres), das Izabéis, (um trôço apenas)  e pela Calçada do Castelo Picão, a artéria empinada e representativa.

❞ Uma saudade do mar, tem
Seu monumento em Lisboa
Velho bairro popular
Sombrio e vulgar
Que é a Madragoa.
E reza a história que foi, lá
Numa noite de natal
Que veio a luz o primeiro
Herói marinheiro
Que honrou Portugal.

Rua da Esperança [c. 1900]
O nº 46 corresponderá à loja de alfaite que ali se vê à esquerda. Segue-se a Tv. do Pasteleiro e, ao fundo, a Avenida Dom Carlos I. Boa parte destes prédios ainda lá estão.
Fotógrafo não identificado, in AML

Como vais vendo, Dilecto, a Madragoa, o velho Mocambo do século XVIII, teve o seu ambiente religioso, como tôda a Lisboa afinal, mas sem grandeza, sem beleza, e de tal modo modesto — à parte o casarão das Bernardas- — que de todo se perdeu.
O que por aqui impressiona é o rapazio à sôlta, a multiplicidade de tavernas, a vida feita quási à soleira das portas.
Esta gente, êste sítio, devem ter e têm, a sua alegria, mas não transparece, não sorri. É um formigueiro de vidas, em cujo quadro falta o fundo ancestral, robusto, «água-forte» da Alfama.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, p. 22, 1938.

2 comments:

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  2. Muito interessante. Belas fotografias. A Madragoa (antigo Mocambo) é um bairro rico de história. Ainda hoje mantém muito do seu carácter. A maior parte dos edifícios são pré-pombalinos.

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