Sunday, 9 August 2026

À roda da Magdalena: o Monete, o Bonete e o Rozendo

Magdalena (rua da) segunda á esquerda na rua nova d'Alfandega, indo da praça do Commercio e finda no poço do Borratem, freguezias da Magdalena 2 a 22, 32 a 146 ela 197, S. Christovão 148 a 186, Santa Justa 188 a 234, 199 a 291, Sé 24 a 30. [Velloso: 1869]

A Rua da Madalena nunca teve qualquer característica comercial ou industrial muito acentuada. Artéria de passagem, de ligação entre a Baixa e S. Cristóvão, S. Mamede e altos do Castelo e da Graça, e ainda à margem da zona principal do comércio citadino, nunca foi uma rua cujo nome lembrasse, ao pronunciá-lo, uma especialidade comercial que a dominasse. No entanto lá teve uma zona que era a das sapatarias e lá teve também as suas casas de venda de bixas (barbearias?).
Da indústria, alem da dos tamancos e das violas, só mais duas, na segunda metade do século passado se afeiçoaram à rua: a hoteleira, na parte que desce para o sul, e a das molherinhas de porta, no pitoresco dizer do quinhentista Miguel Leitão de Andrade ao referir-se às mulheres que se vendiam a si próprias, as quais, sorrateiramente, fugindo a vigilância por entre as sombras imprecisas projectadas pela mortiça luz de azeite, se foram acomodando, hoje uma, amanhã outra, depois várias, ao fim da rua, junto à Betesga, no enfiamento da Mouraria, foco principal. Foi esta a parte suja da rua. Foi ... e infelizmente ainda é, pelo menos à noite, na passagem obrigatória para as casas duvidosas do beco do Rosendo. Mas tirando esta parte — a que resvala das embocaduras das escadinhas de Santa Justa e da travessa da Madalena, antigo beco do Monete — a rua foi sempre uma artéria limpa, uma rua pacatamente habitada pela burguesia com alguma coisa de seu, circunstância que lhe emprestou noutros tempos um ar calmo, de intimidade, que nos confidenciava morarem ali as senhoras Silvas com o seu jogo de gamão, as suas fatias de pão de fôrma com manteiga, o seu chá, e os seus bolos do afamado Baltresqui ...==
[MACEDO, Luiz Pastor de, Tempos que passaram; um artista, uma rua e uma freguesia de Lisboa, 1940]

Rua da Madalena (S→N) |c. 1911|
A dir. lê-se o dístico municipal indicando o então Beco do Monete, que por edital de 1924, passou a denominar-se Tv. da Madalena. Ao funco fica o Poço do Borratém.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
Legenda no abandalhado amL: «Manietação popular»

O topónimo Rua da Madalena, como o próprio nome indica, deriva da proximidade à Igreja da Madalena, existente desde pelo menos 1164, mandada construir por D. Afonso Henriques junto à Cerca Moura, em terrenos onde outrora se erguia um templo romano dedicado a Cibeles, a deusa-mãe.
De acordo com o olisipógrafo Luíz Pastor de Macedo, esta artéria teria sido a Rua do Arco de N. S. da Consolação. Por seu lado, Norberto Araújo defendia que não correspondia a qualquer arruamento existente antes do terramoto de 1755. Em 1841, adianta, ainda nesta artéria não havia passeios empedrados.

 

Rua da Madalena em 1911 e 1901, respectivamente
A primeira transversal na imagem da esq. é a Rua de Santa Justa (escadinhas)
Na imagem da dir. vê-se a embocadura das Escadinhas de São Cristóvão, sendo que, ao prédio com que estas faziam gaveto, foi acrescentado do lado poente
uma fiada com um arco que se abre sobre a antiga serventia.
Fotografias por Alberto Carlos Lima e Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Monete (beco do) primeiro á esquerda nas escadinhas de S. Christovão, indo da rua da Magdale Magdalena, e finda na rua da Magdalena, não tem saída, freguezia de Santa Justa 2 a 50 e 1 a 9.

Monete (Beco do) Em 1551 «rua do Monturo do Bonete», assim como as Escadinhas de S. Cristóvão «rua da calçada do Monturo do Bonete», havendo também no sítio a «travessa do Monturo do Bonete».
Em 1715, a rua do Monturo do Bonete desceu já à categoria de «beco», e a sua denominação está reduzida a «Beco do Bonete». Em 1763, ainda o Padre Castro lhe chama igualmente «Beco do Bonete». Aparece, enfim, o beco do Bonete transformado em beco do Monete, no Itinerário de Inácio Paulino, edição de. edição de. 1804. É. provável. que. a. transformação. venha. da. aposição geral dos letreiros, mandada executar dois anos antes pela Administração Geral dos Correios.
É o segundo à esquerda, subindo pela rua da Madalena e termina nas escadinhas de S. Cristóvão, diz o Itinerário lisbonense de 1818. [Brito: 1935]

Beco do Rosendo |c. 1945|
Perpectiva tomada da Rua da Madalena.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Em Lisboa há um beco hoje chamado «do Rosendo» que pelos documentos antigos e pelo Tombo da Cidade, composto depois do terremoto de 1755, se vê ter tido a denominação de Resende. [O Archeólogo português: 1906]

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