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Sunday, 14 February 2016

Avenida 24 de Julho: Mercado de peixe e hortaliças da Ribeira Nova

Junto ao Cais da Ribeira, onde desembarcava o pescado, existia, desde 1846, um mercado de peixe que, como refere Norberto de Araújo, passou, anos mais tarde, a 1 de Janeiro de 1882, para «local coberto [... ], ocupando os pavimentos ao nível da rua». O Mercado da Ribeira Nova — explica o mesmo autor — «há vinte anos era [c. 1918], quase exclusivamente, de peixe, e o das hortaliças e frutas arrumou-se até 1927 nuns barracões, entre a linha do caminho-de-ferro, à qual se encostava por lado de terra, e a Avenida 24 de Julho. Esse Mercado de frutas e verdes junto à linha férrea fora originado por uma greve de hortaliceiras na Praça da Figueira; as rebeldes foram - se instalar no Cais de Santarém cnde estiveram dois anos, até que, despejadas dali, se instalaram [1905] no sítio — hoje ajardinado onde fizeram o seu negócio... até 1927. Entretanto juntaram-se-lhe as hortaliceiras da Ribeira Nova. [Araújo, vol. XIII, 1939].

Mercado de peixe na praça da Ribeira Nova, 1771-1882, reprodução de gravura
 
Se do rio e do mar chegavam os principais produtos aqui vendidos, a posterior diversificação dos produtos — hortaliças e fruta, carnes e criações, e as flores — fizeram do mercado da Ribeira Nova, como dizia Norberto de Araújo, «o mais digno e pitoresco, em cor e movimento, de Lisboa do cabaz das compras».

Mercado da Ribeira Nova, o peixe antes da licitação [1906]
  Avenida 24 de Julho
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Um dia, ainda no tempo em que «não havia sombra de Aterro», uma «regatôa moça» a quem Bulhão Pato havia comprado ostras, entrava em aberta discussão com o nosso escritor. «Uma enxurrada de obscenidades! Bocage talvez corasse... de inveja!». Anos depois, é António Nobre que vem ao mercado da Ribeira Nova, «à procura do camarão da barra». Também Aquilino Ribeiro por aqui anda à procura, não de ostras nem de camarão, mas do que restava da «velha e camoniana Ribeira», «varrida da borda de água pela vaga sísmica de 1755», e que no Aterro se viera instalar. Da Ribeira velha, «só restava aquele cisco da vida babilónica e sabúrrica e do porto, empório do mundo?».

Mercado da Ribeira Nova [1933]
  Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século
 
Posterior ao terramoto, e mandado erigir por determinação pombalina, o Mercado da Ribeira Nova é seguramente mais antigo, se o relacionarmos com a história do seu antecessor, o antigo mercado da Ribeira Velha, que se situou nos terrenos em frente à Casa dos Bicos. Este remonta, pelo menos, aos finais de quinhentos e, nas «Estatísticas de Lisboa de 1552» era apontado como um dos mercados de peixe mais bem abastecidos do mundo. Era «um dos mais movimentados e bem equipados da Europa, elogiado pela sua boa organização, abundância e variedade de produtos. Nele, ao lado dos produtos da terra, ou de importação europeia, como a manteiga de Flandres, apareciam espécies exóticas, as tâmaras, os cocos, especiarias diversas, e outros produtos que se começavam, então, a divulgar, como as laranjas da China» [Moita, 1983]. Foi este o primeiro grande mercado de Lisboa que posteriormente ao terramoto viria a ocupar, por determinação pombalina, os terrenos da Ribeira Nova, junto à Praia de S. Paulo

Vendedeira de figos no mercado da Ribeira Nova [1910]
  Avenida 24 de Julho
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Decorria o ano de 1771 quando, por alvará de 13 de Abril desse ano, o marquês de Pombal determinava a fixação da venda de peixe na Ribeira Nova. Com a designação de Mercado da Ribeira Nova dura até ao ano de 1882, data em que é demolido. Um novo mercado, o da 24 de Julho, abria então ao público, após a inauguração no primeiro dia do ano de 1882. O antigo, o da Ribeira Nova, estava condenado, por deliberação camarária de 5 de Janeiro desse ano, a ser arrasado.

Venda de legumes no mercado da Ribeira Nova [1910]
  Avenida 24 de Julho
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

N.B. Os mercados rapidamente são incorporados no cenário urbano e ganham, a partir de meados dos séculos XIX e início do XX, a característica de estarem directamente ligados às políticas públicas de fornecimento de mercadorias indispensáveis à sobrevivência quotidiana. O ganho chegava através de diferentes produtos — como hortaliças, cebolas, peixes, figos, castanhas, entre outros — comercializados não apenas nos mercados, mas também na venda ambulante pelas ruas e praças da cidade.

Wednesday, 27 September 2017

O sítio dos Remolares

Pois, dilecto, estamos de novo nos Remolares área de S. Paulo  e da Ribeira Nova. Entramos, outra vez, no movimento da Lisboa marítima, no pitoresco desfigurado.

Vale uma pausa.


Um dos sítios da nossa Peregrinação — afirma Norberto de Araújo — ao qual já ligeiramente me referi — os Remolares — perdura ainda em reminiscência viva nos dísticos de uma Rua e de uma Travessa. Mas em verdade a designação oral sucumbiu, como sítio. A Ribeira Nova, mais a poente, e em cujo Largo finda a Rua dos Remolares, tomou-lhe o lugar. Ninguém diz: «eu moro nos Remolares», tomando assim as serventias por sítio. Mas diz-se: «fui à Ribeira Nova» ou «ele é muito da Ribeira», sem que esta maneira de dizer queira referir-se ao Mercado.

Rua dos Remolares com a Travessa dos Remolares |1858|
Do lado esquerdo vê-se o antigo Mercado da Ribeira Nova¹ (actual Mercado 

da Ribeira) e, ao fundo, o extinto forte de S. Paulo onde hoje se situa 
a Praça de D. Luís I.
Amédée de Lemaire-Ternante (atrib.), 
in Lisboa de Antigamente

Neste sítio existiu [hoje ocupado pela Praça D. Luís I] o Forte de S. Paulo [vd. mapa abaixo], um dos teóricos baluartes seiscentistas de defesa marítima de Lisboa, e cujos restos começaram a ser demolidos em Janeiro de 1865, já depois de delineada, em plano, a Praça nova. Poucos anos depois o local estava arborizado.

Travessa dos Remolares com a Rua dos Remolares |c. 1913|
Perspectiva tirada da  Rua Nova do Carvalho (N→S)
Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

«Sítio dos Remolares» — Rua e Travessa dos Remolares (cor laranja) |1856|
Da dir. para a esq.: antigo Mercado da Ribeira Nova (vermelho), antigo Forte  de S. Pauulo (azul), futura Praça D. Luís (verde) e antiga Fábrica de Gás da Boavista (negro)-
Levantamento topográfico de Lisboa, sob direcção do Eng.º Filipe Folque, 
in Lisboa de Antigamente

Nota(s):
¹ «Ribeira Nova» e não da «Ribeira Velha» como refere o arquivista do CPF. O mercado da «Ribeira Velha» ocupava terrenos em frente à Casa dos Bicos vulgo Campo das Cebolas. Mas os disparates não se ficam por aqui. Acrescenta o autor: «Nesta fotografia pode ver-se ao fundo uma praça que deu abertura para o mítico Cais do Sodré. Pode ver-se ao fundo a Sé Catedral (sic)». É caso para dizer «nem sabes para onde estás virado», já que a imagem é voltada a poente, e não a nascente, como é sugerido; de qualquer modo seria de todo impossível ver a «Sé Catedral» a partir da Rua dos Remolares, quando muito, poder-se-ia ver a Basílica da Estrela. O que se consegue observar distintamente, isso sim, são as chaminés da antiga Fábrica de Gás da Boavista.
_____________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 55-58, 1939.

Friday, 12 February 2021

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova

O Mercado da Ribeira Nova há vinte anos [por  volta de 1919] — lembra Norberto de Araújo — era, quási exclusivamente, de peixe, e o das hortaliças e frutas arrumou-se até 1927 nuns barracões, entre a linha do caminho de ferro, à qual se encostava por lado de terra, e a Avenida 24 de Julho

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Esse Mercado de frutas e verdes junto à linha férrea fora originado por uma greve de hortaliceiras na Praça da Figueira; as rebeldes foram-se instalar no Cais de Santarém onde estiveram dois anos, até que, despejadas dali, se instalaram (1905) no sítio — hoje [1939] ajardinado — onde fizeram o seu negócio (quem se lembrava já da greve?) até 1927. Entretanto juntaram-se-lhe as hortaliceiras da Ribeira Nova.

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [Início do séc. XX]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Lê-se no Novo guia do viajante em Lisboa de Francisco Bordalo publicado nos idos 1853Ribeira Nova - Mercado de peixe , mas onde se encontram também fructas e hortaliças. Está situado em uma boa praça junto ao caes de Sodré; tem logares cobertos como a Praça da Figueira. Na frente do mercado, junto ao rio, está a casa fiscal da administração do pescado.==

Mercado de hortaliças da Ribeira Nova [1919]
Avenida 24 de Julho
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 57, 1939.
BORDALO, Francisco Maria, Novo guia do viajante em Lisboa e seus arredores, 1853.

Tuesday, 12 January 2016

Mercado da Ribeira: a «Mesquita do Nabo»

O Mercado da 24 de Julho foi erigido em terrenos do antigo Forte de S. Paulo, após a sua demolição em 1865, para construção do «Aterro da Bôa Vista», hoje Av. 24 de Julho. O novo Mercado da Avenida 24 de Julho ou Mercado da Ribeira Nova, como também ficou conhecido, foi projectado pelo engenheiro Ressano Garcia e a ele se devem alguns aspectos inovadores para a época: edifício de estrutura em ferro e no interior um amplo corredor central onde os vendedores dispunham de água em abundância, o que permitiu pela primeira vez em Portugal cuidados de higiene num mercado abastecedor. 

Tinha 10 mil metros quadrados de área coberta e foi inaugurado em 1 de Janeiro de 1882. O espaço era pontuado por mais de uma centena de telheiros, utilizados como bancas pelos vendedores de peixe, legumes e flores da cidade de Lisboa. Em 1893 foi parcialmente destruído por um incêndio e acabou por ser demolido em 1926

Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova) [post. 1901]
Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente
Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova) [post. 1901]
Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Alberto Carlos Lima, 
in Lisboa de Antigamente

A reconstrução, ficou a cargo do arquitecto João Piloto e ficou concluída em 1930, com a instalação da cúpula com um lanternim. tal como ainda hoje existe (v. última foto).
Os lisboetas ficaram tão espantados ao verem uma cúpula num mercado decorado com frescos com motivos hortícolas pintados pelo italiano Gabriel Constanti que lhe chamavam a Mesquita do Nabo.

Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova), corpo central [entre 1882 e 1893]
Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente

Foi revestido a azulejo por fora e o tecto pintado por dentro; na entrada foram colocados silhares de azulejos do pintor Vitórai Pereira e outros painéis de Jorge Colaço, representando fainas marítimas.
 
Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova), interior [ant. 1893]
 Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Fotógrafo não identificado, 
in Lisboa de Antigamente
Mercado 24 de Julho (ou da Ribeira Nova), interior [Inicio séc. XX]
 Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

No corpo central foi instalado um relógio fabricado em França, na empresa Horloges Bodet, considerado revolucionário para a época. Mas a sua importância não impediu que a máquina estivesse parada quase 20 anos. Só em 1998 a Câmara Municipal de Lisboa decidiu contratar um dos mais prestigiados relojoeiros portugueses. António Franco foi chamado para inspeccionar o relógio da torre. Em menos de um ano, o sistema mecânico foi restaurado e o mostrador teve de ser feito de novo. Um mostrador que guarda a assinatura do homem que permitiu que os cacilheiros voltassem a guiar-se pelo relógio da torre do mercado». (lisboanoguiness.blogs.sapo.pt)

Mercado da Ribeira: a «Mesquita do Nabo» [post. 1930]
 Avenida 24 de Julho, antes «Aterro da Bôa Vista»
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): O Mercado voltou rapidamente a ser o centro do comércio grossista e retalhista. No ano de 2001 o espaço estreou um novo aspecto social, cultural e recreativo. Desde 2014 é gerido pela revista «Time Out Lisboa», que apresentou um projecto que inclui bancas dedicadas à restauração, juntamente com atracções culturais.

Friday, 10 July 2015

Ribeira Nova

Consideremos, porém, o que está à vista — Ribeira Nova — não sem que eu te diga que há duzentos anos isto, por aqui, era bem mais pitoresco, mas infinitamente mais sujo do que em nossos dias. Abundavam as baiúcas, em maior número do que hoje [em 1939] (apesar de serem ainda às dezenas), e os «cafés de lepes» ; eram frequentes as rixas , não sendo o sítio, pelo que se sabe das crónicas, muito recomendável . [...]
A Praça da Ribeira Novapequenino chão — é esta que se situa entre o quarteirão Rio Maior [edificio n.ºs 2 a 23] e o edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos.

Cais da Ribeira Nova, varinas lavando o peixe, 1909
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Este local, antes de se levantar o edifício, era, por assim dizer, público, havendo-se instalado nele, há cerca de 50 anos, um destes Circos ambulantes, que — por ser vizinho da Ribeira Nova — foi conhecido pela pitoresca designação de «Circo do Carapau». Vivem ainda muitas centenas de pessoas que foram seus frequentadores.
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, pp. 55-56, 1939)

Cais da Ribeira Nova, varinas lavando o peixe, 1909
(Imagem colorida, amável contributo da leitora Fátima Rocha)
Joshua Benoliel, iin Lisboa de Antigamente

Friday, 5 June 2026

Rua do Instituto Dona Amélia

Antigo "arruamento sem nome que começa na Avenida 24 de Julho e finda na Rua da Ribeira Nova, entre o Mercado 24 de Julho e o edifício da A.N.T." fundada pela Rainha Dona Amélia de Orleães e Bragança em Junho de 1899.

A Comissão de Toponímia, no dia 22 de Maio de 1946, realizou uma visita a alguns arruamentos da cidade, a fim de estudar a respectiva nomenclatura, no decurso da qual foi resolvido propor “que o arruamento sem nome que começa na Avenida Vinte e Quatro de Julho e finda na Rua da Ribeira Nova, entre o Mercado vinte e quatro de Julho e o edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos, tenha a denominação de Rua do Instituto Dona Amélia”.

Rua do Instituto Dona Amélia |post. 1910|
À esq. notam-se os prédios na Rua e Praça da Ribeira Nova e na R. dos Remolares com parte do edifício da Assistência Nacional aos Tuberculosos à dir..
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

O topónimo Rua do Instituto Dona Amélia foi oficializado pela Câmara Municipal de Lisboa através de Edital de 18/12/1947. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]

Rua do Instituto Dona Amélia |1960|
Perspectiva tirada da Rua da Ribeira Nova observando-se à dir. o actual Mercado 24 de
Julho rendo defronte o antigo edifício da extinta A.N.T..

Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Friday, 7 June 2024

Sítio de São Paulo

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, o sítio de São Paulo «Foi de seu princípio ribeirinho, sítio mercadejador, piedoso e turbulento. É coevo do Cata-que-farás e dos Remolares, vizinho actual da Ribeira Nova. (...) Remonta ao quinhentismo, extramuros. Em 1550 não contava como freguesia; existia como formigueiro de mareantes. (...)» [Araújo: 1939]

Rua de São Paulo |1963-07|
Junto à Calçada da Bica Grande
Augusto Fernandes, in Lisboa de Antigamente

freguesia de S. Paulo foi fundada em 1412 reedificada em 1512 e arruinada pelo terremoto do 1755 foi novamente reedificada em 1757.

Paulo (praça de S.) fica entre as ruas de S. Paulo, nova do Carvalho, travessas do boqueirão da Ribeira Nova, de S. Paulo e beco do Carvalho, freguezia de S. Paulo 1 a 22.
Paulo (rua de S.) principia na rua do largo do Corpo Santo e finda na calçada de S. João Nepomuceno e rua da Boa-Vista, freguezia de S. Paulo 36 à 260 e 21 a 129, Martyres 2 a 34 e 1 a 19.
Paulo (travessa de S.) segunda á esquerda no largo de S. Paulo, indo da rua nova do Carvalho e finda na rua da Ribeira Nova, freguesia de S. Paulo 2 a 14 e 1 a 13. [Velloso: 1869]

Praça de São Paulo (lado S.) |c. 1930|
Esquina com a Tv. de S. Paulo
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

No meio da Praça está um pequeno chafariz mandado fazer pela Camara Municipal e concluído no ano de 1849. A igreja (arq-º Remígio Abreu) tem na fachada as imagens de S. Pedro e S. Paulo feitas pelo insigne escultor António Machado. 

Rua e Praça de São Paulo (lado S.) |c. 1911|
Igreja de São Paulo
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Tuesday, 26 July 2016

Profissões de antanho: a (o)varina

A mais curiosa população desta cidade


As ovarinas (o 'o' etimológico perdeu-se na pronuncia) (peixeiras) formam com seus pais, maridos e irmãos a mais curiosa população desta cidade; população inteiramente à parte e com carácter e feição própria. São esses rudes operários do mar que fornecem peixe à capital do país; os homens embarcam para ir pescá-lo, as mulheres percorrem para vendê-lo as ruas da cidade, os homens embarcam para ir pescá-lo, as mulheres percorrem para vendê-lo as ruas da cidade, levando à cabeça uma canastra de fundo chato, equilibrada com graça e habilidade

Varina descarregando o peixe das fragatas, na Ribeira Nova [c. 1900]
Já ali o cais,e ela naquele tem-te-não-caias.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

As ovarinas têm um fraseado e expressão peculiares; falam uma algaravia, que é necessário ter o ouvido afeito para perceber. No mais, como todas as peixeiras do mundo — parece condão do ofício — , berram espantosamente e são corajosas e destemidas. Uma ovarina de 12 ou 15 anos é capaz de responder sem se perturbar às provocações impertinentes de muitos homens, ficando sempre senhora do terreno. 

Varinas no Mercado do Peixe [c. 1890]
 Varinas no terreiro da Ribeira Nova, junto ao Mercado do Peixe, local onde se preparava, encanastrava e vendia o peixe por grosso, defronte do Mercado 24 de Julho.
Louis Levy, in Lisboa de Antigamente

Os que cortejam as ovarinas não só demonstram que não receiam o cheiro do peixe, como provam que são susceptíveis de arrostarem qualquer revés: virtudes ferozes, respondem habitualmente a uma galanteria com uma bofetada. É brutal, mas enfim a virtude pode escolher as armas que lhe convenham e servir-se até do soco e do  pontapé.
Maria Rattazzi (1833-1902). Portugal de Relance, [c. 1879]

Varinas esperando o peixe [c. 1912]
Cais da Ribeira Nova

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 3 March 2024

Profissões de Antanho: vendedores de melancias

 — Quem a quer da  várzea, melancia á faca!

Era assim o pregão saloio, que os saloios sempre ganharam a vida com a barriga de Lisboa — recorda Calderon Dinis. Escarafunchando a terra magnífica que Deus lhes deu, sabiamente a têm aproveitado tirando partido de tudo o que ela lhes dá. Sempre assim foi e noutros tempos eram eles mesmo que, de rua em rua, apregoavam e vendiam as suas couves e alfaces, como as favas e as ervilhas.
Com a saborosa melancia vermelha e fresca que era uma beleza, os saloios corriam meia Lisboa com as suas carroças, a malta a comprar e eles mesmo a parti-las em grossas talhadas, refrescando-se os lisboetas nas tardes quentes, que aquilo foi sempre fruto de Verão.
Estamos a lembrar-nos que, no largo de Cacilhas, onde hoje é parque e estação de autocarros, se fazia o grande mercado da melancia, amontoadas em pirâmides, tal era a quantidade do magnífico fruto!

Vendedeira de melancias no cais da Ribeira Nova |1912|
As saborosas e frescas talhadas.
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Vem das várzeas nos grandes catraios — lê-se na Illustração portugueza, 1910 —, nos barcos d'agua à riba e nos cais, da Ribeira Velha a Belém, é ver os homens atirando-as com metódica precisão, dos botes para terra como grandes bolas num torneio. Raramente uma cai para gaudio, regalo e refresco da garotada que d'olho alerta espera sempre ganhar alguma coisa nos espectáculos que presenceia.
Neste tempo a melancia, nascida nas Várzeas de Alcochete e Ribatejo além, bem regada e linda na sua cama de folhas largas é manjar de todas as mesas; cai na cidade como um chuveiro de balas: expõe-se nas portas dos estabelecimentos frutas onde os ricos vão e aparece aos montões nos mercados. As portas das vendas e dos pequenos Jugares lá estão duas ou três; nas mercearias mostram-se com a designação do preço por quilo como se em vez daquela casca verdenegra, que tanas promessas de frescura contem, tivessem os exteriores vermelhos de queijos flamengos.
Mas onde ela tem todo o seu carácter, onde aparece como o anuncio de um grande consolo é na cidade, para os que a não deixam; anunciada no pregão cantarolado:

 — Quem a quer da várzea, melancia á faca!

Profissões de Antanho: descarga melancias no cais da Ribeira Nova |1912|
Uma melancia a voar do barco para o cais.
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O pregão atroa Lisboa por este tempo de calor ardente e as mulheres com as suas gigas a cabeça, tostadas pela soalheira, vão vendendo a mais fresca das frutas, a melancia de coração rubro, que é um alarme e é uma delicia.

 — Quem a quer da várzea, melancia á faca!
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Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.
Illustração portugueza, 1910.

Monday, 27 July 2015

Rua Nova do Carvalho

Carvalho (Beco do) — Ou Rua Nova do Carvalho. Anteriormente ao terramoto de 1755, havia na freguesia de S. Paulo um beco denominado «da Carvalha».¹ Corria na direcção N. S., e ficava «entre a rua direita de S. Paulo e a da Praia [de S.Paulo?]». Tinha de comprimento 79 varas, 2 p. e 7/10, e de largura 2 varas, 4 p. e 9/10 [vd. N. do A.]. É provável reminiscência desta denominação transmudado o género, a da actual «Rua Nova do Carvalho», a qual, conquanto lançada na orientação oposta, deve avizinhar o poiso do antigo beco referido.
¹ «Que antigamente chamavam do Varão» , diz Carvalho da Costa [1712].
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935)

N. do A. A «vara» correspondia a 110cm e o «pé» a 0.33cm.

Rua Nova do Carvalho, lado nascente.|c. 1940|
Denominado Arco Pequeno, sendo  o Arco Grande o da Rua de S. Paulo; Rua do Alecrim
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
 
A Rua Nova do Carvalho, que liga a Travessa do Corpo Santo à Praça de São Paulo, na zona do Cais do Sodré, tal como a Travessa do Carvalho, evoca a família do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, responsável político pela reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755 e, sobretudo o seu irmão Paulo de Carvalho e Mendonça.
O plano urbanístico de Pombal resolveu a forte inclinação da vertente da Rua do Alecrim, prolongando-a numa espécie de ponte em dois grandes arcos sobre a Rua de São Paulo e a Rua Nova do Carvalho e, este projecto mereceu especial atenção do Marquês de Pombal (1699-1782) que encarregou o seu irmão Paulo de Carvalho e Mendonça (1702-1770), que foi Monsenhor da Patriarcal de Lisboa, Inquisidor-mor e Presidente do Senado da Câmara (1764), da administração das obras da Praça, a par de outras obras de primeira importância para a cidade, como os Paços do Concelho, o Depósito Público e o Cais da Ribeira.
 
Rua Nova do Carvalho, lado poente.|c. 1947|
Denominado Arco Pequeno, sendo  o Arco Grande o da Rua de S. Paulo; Rua do Alecrim
Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Para que a Rua do Alecrim descesse até à margem do Tejo e obtivesse assim uma formosa entrada — diz Pinho Leal no seu Portugal antigo e moderno — , foi preciso ao insigne arquitecto da nova Lisboa, Eugénio dos Santos Carvalho, vencer a grande dificuldade que lhe apresentava o terreno, na quebrada do Sul da rua.
Para isto concebeu, desenhou e executou arco (viaduto) que passa sobre a Rua de S. Paulo, por cuja circunstância se lhe deu o nome de Arco de S. Paulo (ou Arco Grande). Este arco, de ponto abatido e a ponte toda obliqua, a sua solidez e elegância, constituem esta obra um primor de arte neste género.
Pouco mais abaixo deste arco, há outro (denominado Arco Pequeno) que dá passagem à rua inferior (Nova do Carvalho). Estes arcos tinham primeiramente as guardas feitas de parede: hoje têm boas e solidas grades de ferro.
(PINHO LEAL, Augusto Soares de Azevedo de, Portugal antigo e moderno, 1874)

Monday, 12 July 2021

Profissões de antanho: a vendedora de figos

— Quem quer figos quem quer merendar?


Bem, elas ofereciam os figos para o almoço, mas a verdade é que ninguém ficaria almoçado só com figos, a não ser que comesse tantos que enchesse a pança! Não era de acreditar, até porque as raparigas que cantavam alegremente o pregão apareciam de manhã e também pela tarde. E nesta altura já o pregão era outro:
 
— Quem quer figos , quem quer merendar?! Ó figuinhos de capa rota!

Vendedoras de figos transportando os cestos à cabeça, após a descarga no cais da Ribeira Nova |1912|
Antigo Cais dos Vapores devido à Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890;  Cais do Sodré
J
oshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

E lá iam com a ceira à cabeça, os figos cobertos por largas folhas de figueira, que tudo aquilo cheirava a campo e abria o apetite para adoçar a boca com os belos figos estaladiços, que era um louvar a Deus!
E a verdade é que a rapaziada não largava as mães a pedir-lhes o regalo de merendar uma pratada de figos.
— Tem cuidado, rapaz, que se não lhes tiras a capa rebenta-te a boca!
E por toda a cidade, na época própria:

— Quem quer figos, quem quer merendar?!


Vendedoras de figos transportando os cestos à cabeça, após a descarga no cais da Ribeira Nova |1912|
Antigo Cais dos Vapores devido à Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses", fundada em 1890;  Cais do Sodré
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e factos da Lisboa do meu tempo: 1970-1974, 1986.

Friday, 26 August 2022

Varinas na Ribeira Nova

Poucas horas depois começam as varinas a aparecer, os pés descalços, as pernas nuas, roxas de frio, apregoando o carapau, a pescada marmota, a «salpicadinha da costa».
Que bellos corpos de varinas, alguns! E tão mal tratados pela intempérie, ao passo que outros muitos, bem menos esculpturaes por certo, dormem ainda afofados em brandos colchões de sumaúma...
(PIMENTEL, Alberto, Vida de Lisboa, p. 53, 1900)

Varinas na Ribeira Nova (Cais do Sodré) |1928|
...os pés descalços, as pernas nuas, roxas de frio...
Estúdio Mário Novais, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 17 July 2022

Atêrro da Bôa-Vista

Remolares, Cata-que-farás, Ribeira Nova, S. Paulo, Boa Vista, foram tudo praias ribeirinhas que acabaram por dar - na conquista do rio - o que principiou por se chamar genericamente o Aterro, designação extensiva que depois se formalizou em Avenida 24 de Julho». (Araújo: 1993)


Despediu-se da senhora Marquesa e dos netos, pôs o chapéu na cabeça e desceu a escada, irresoluto na direcção a dar à passeata. Ainda bem longe de decidido, chegou à porta na ocasião em que, puxado por muitas mulas, começava um americano a subir vagarosamente a rampa de Santos. Saiu o Marquês para a rua. Foi logo muito cumprimentado pelos cocheiros e moços do Pingalho, que no fronteiro pátio do Visconde de Asseca tinha carruagens de aluguer. Correspondeu civilmente à cortesia e, tomando à esquerda, dirigiu-se para o Atêrro, pensando que ainda havia gente bem criada e que o dia realmente estava muito ameno. Avista o americano; veio-lhe logo à ideia um passeio de carro. Era barato, e não fazia frio mesmo nenhum.
— Para onde irá êle?... .Ah! lá parou... j Olha! vai para Belêm...
Apeiam-se umas senhoras; tenho lugar.
(Braamcamp Freire: 1927)

Atêrro da Bôa Vista |c. 1895|
Actual Av. 24 de Julho, antiga Rua 24 de Julho: Rampa de Santos, actual Calçada Ribeiro Santos e Palácio Abrantes (dir.); carro americano.
Francesco Rocchini, in Lisboa de Antigamente

Informa o autor das Peregrinações que se pode datar o Atêrro, com o possível rigor, a 1867, tendo-se as obras iniciado em 1858. A designação de Rua 24 de Julho é anterior à conclusão do Atêrro e o topónimo "24 de Julho" evoca a entrada em Lisboa das tropas do Duque da Terceira em 24 de Julho de 1833.

Atêrro da Bôa Vista |post. 1867 e ant. a 1872!
Actual Av. 24 de Julho, antes Rua 24 de Julho junto da Ribeira Nova.
Francesco Rocchiniin Lisboa de Antigamente

Júlio de Castilho, que se faz acompanhar do fotógrafo Francesco Rocchini [vd. imagem acima], comunica-nos que «Lisboa toda, desde 1867, se acostumara com gosto ao desafogado terreiro marginal», o «mais belo dos passeios públicos», recordando que «a sociedade concorria ali, àquele salão enorme, a ver o Tejo, que é o amigo de nós todos, e a contemplar as magnificências da grande orquestra de tons luminosos com que o sol se despedia» até que, «anos depois, abriu-se a Avenida da Liberdade; e o Aterro... nem mais sequer lembrou.»
(JANEIRO, Maria João, Lisboa: histórias e memórias, pp. 130-132)
 
Atêrro da Bôa Vista |c. 1895|
Actual Av. 24 de Julho, antes Rua 24 de Julho; carros americanos.
Fotógrafo não identificadoin Lisboa de Antigamente

Sunday, 14 January 2024

Avenida Vinte e Quatro de Julho: velhas inundações, novíssimo Mercado

O novo Mercado da Avenida 24 de Julho ou Mercado da Ribeira Nova, como também ficou conhecido, foi projectado pelo engº Ressano Garcia. Tinha 10 mil metros quadrados de área coberta e foi inaugurado em 1 de Janeiro de 1882. Em 1893 foi parcialmente destruído por um incêndio e acabou por ser demolido em 1926.
A reconstrução, ficou a cargo do arqº João Piloto e ficou concluída em 1930, com a instalação da cúpula com um lanternim.
Os lisboetas ficaram tão espantados ao verem uma cúpula num mercado decorado com frescos com motivos hortícolas pintados pelo italiano Gabriel Constanti que lhe chamavam a «Mesquita do Nabo».

Avenida Vinte e Quatro de Julho |1929-12-05|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
|Praça Dom Luís I; Mercado da Ribeira
.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Vinte e Quatro de Julho |1932-12-09|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Mercado da Ribeira em fase final de construç
ão.
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Na sessão da C.M.L. de 10/02/1862 foi apresentada uma proposta no sentido de que no Aterro da Boavista no terreno confinante, pelo norte com a Casa da Moeda, pelo sul com o Tejo, pelo nascente com o Forte de São Paulo e pelo poente com a Rua 24 de Julho, se formasse uma Praça e que a mesma tivesse a denominação de Praça Dom Luís I. O topónimo Praça de Dom Luís I foi atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa após Deliberação Camarária de 10/02/1862.
A Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, na sua reunião de 19/01/1950, propôs alterar os nomes da Praça Dom Luís I e da Rua Dom Luís I, para Praça e Rua Marquês de Sá da Bandeira, em virtude de existir na praça um monumento ao ilustre fidalgo. Esta alteração nunca se efectivou e o marquês foi homenageado na toponímia, mas nas freguesias de Nossa Senhora de Fátima e São Sebastião da Pedreira.

Avenida Vinte e Quatro de Julho |1932-09-21|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente
Avenida Vinte e Quatro de Julho |1929-12-05|
Antiga Rua 24 de Julho e antes Aterro da Boavist
a
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

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