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domingo, 8 de setembro de 2024

Rua de Santo António dos Capuchos

Santo António dos Capuchos (Rua de) — Em 1786 se lhe chamava «Rua Nova de Santo António dos Capuchos». Por esta rua transitou o cadáver da rainha de Inglaterra [Catarina Henriqueta de Bragança, vd. Nota(s)], indo a seu enterro em Belém. [Brito: 1935]
O topónimo do arruamento deriva da Convento de Santo António dos Capuchos (hoje hosp.) — dos religiosos franciscanos da província de Santo António — fund. neste local em 1570.

Rua de Santo António dos Capuchos, 35 |1942|
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Dona Catarina de Bragança (1638-1705) morreu no Paço da Bemposta. Enterrada no real convento de Belém ou Igreja dos Jerónimos, o seu corpo foi depois trasladado para o panteão dos Braganças em São Vicente de Fora.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Praça da República: venda ambulante de queijadas e travesseiros de Sintra

A chamada Praça da República, designação que o povo de Sintra nunca aceitou como boa, persistindo em chamar-lhe o Largo da Vila que actualmente se acha reintegrado no seu primitivo nome de Praça da Rainha D. Amélia.
Chegando ao Largo da Rainha D. Amélia, onde se aglomera o comércio em todos os ramos da sua actividade, depara-se-nos finalmente o velho Paço de Sintra, monumento notabilíssimo sob qualquer aspecto — arquitectónico ou histórico.

Praça da República antigo Largo Rainha D. Amélia |1924-08-10|
Vendedor ambulante queijadas e travesseiros de Sintra; 
Palácio Nacional de Sintra
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Como já tivemos ocasião de notar, é este palácio um conjunto irregular de construções diversas no seu tipo que tira dessa mesma irregularidade o principal motivo da sua estranha harmonia e também talvez o seu maior encanto Do corpo central, correspondente aos primitivos paços joaninos, olham sobre o eirado cinco elegantes janelas geminadas estilo mourisco — a do centro com arcos peraltados e denticulados sobre impostas cortadas nas faces, com capitéis mouriscos e fustes elegantemente torcidos que evocam troncos enlaçados de árvores despidas de folhas, e as outras quatro com fustes lisos e encurtados por parapeitos.

Largo Rainha D. Amélia |c. 190-|
Vendedor ambulante queijadas e travesseiros de Sintra; 
Entrada do Palácio Real
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Oh! nobres paços da riosnha Cintra
Não sobre a roca erguida mas pousados,
Na planicie tranquilla, que memorias,
Não estaes recordando saudosas,
Dos bons tempos de Lysia!
(in Roteiro Lirico de Sintra, de Oliva Guerra, 1967)

 

Largo Rainha D. Amélia, recanto |c. 1910|
Vendedor ambulante queijadas de Sintra

Artur Bensabat Benarus, in Lisboa de Antigamente

domingo, 3 de dezembro de 2023

Terreiro do Paço: «O Caes das ex-colunas»

Segundo Norberto Araújo «Este delicioso Cais das Colunas — que deve seu nome às colunas de pedra colocadas no sopé da escadaria suave — é posterior ao Terramoto. Anteriormente, mais à nossa esquerda, e também mais recuado, existia um «Cais da Pedra», que o sismo de 1755 subverteu.==
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 28)

Contudo, as colunas nem sempre estiveram presentes. A ausência de um ou mesmo dos dois ornatos, terá sido uma constante durante diversas décadas.
A 13 de Março de 1925, o jornal «A Época» fazia saber que «na última reunião da Câmara Municipal de Lisboa, o sr. dr. Alexandre Ferreira chamou a atenção da Comissão Executiva e especialmente ao vereador do pelouro de engenharia sr. Raul Caldeira, para o facto, de no Cais das Colunas, não existirem há muito as colunas que deram origem àquela nomenclatura».

Terreiro do Paço: «O Caes das ex-colunas» |c. 1953|
António Passaporte, in Lisboa de Antigamente

A queda das colunas, representando por vezes vários anos de ausência de um ou mesmo dos dois ornatos, terá sido uma constante durante diversas décadas — conforme comprovam estas imagens captadas na década de 1950. Ribeiro Cristino frisou a sua falta, no início da década de 1910, nas páginas do Diário de Notícias, com a publicação do artigo «O Caes das ex-colunas» (Cristino 1923, p. 14-16).

As colunas regressaram ao cais a que deram o nome em Julho de 1929. Assim o noticiou o «Diário de Notícias» de 9 de Julho desse ano: «O Cais das Colunas estava há largos anos sem colunas (…) A primeira das colunas do cais ficou ontem de pé, como a nossa gravura atesta e prova. Pouco falta, portanto, para que o «Diário de Notícias» possa dizer nas suas colunas que o Cais das Colunas voltou a ter colunas no cais». As colunas que actualmente ali se encontram são as mesmas que foram colocadas em 1939.

Terreiro do Paço: «O Caes das ex-colunas» |1957-02-18|
Visita oficial da rainha Isabel II de Inglaterra
Artur Pastor, in Lisboa de Antigamente

domingo, 28 de maio de 2023

Rua Bartolomeu de Gusmão: o Paço de D. Leonor

E já agora, duas palavrinhas acerca do Paço de D. Leonor, de Santo Elói ou S. Bartolomeu (pois não houve senão lindos Lolós um com duas designações locais). A solução do problema da sua localização — adianta Norberto de Araújo — deu-a o historiador Anselmo Braamcamp Freire, em termos irremissíveis, e ante uma argumentação documentada. Assentava no extremo deste Largo dos Lóios, num triângulo contido pelas antigas e desaparecidas Rua da Amargura, Rua de Jerusalém (que corria ao meio longitudinal do actual Largo) e Adro de S. Bartolomeu. Isto é: a ponta extrema do Paço ou Casas entrava pela actual Rua Bartolomeu de Gusmão (até há pouco de S. Bartolomeu), e que é esta que aqui corre subindo para o Castelo, correspondendo sensivelmente a setecentista Rua Direita das Portas da Alfofa.
Do Paço da Rainha, mulher de D. João II, [o Príncipe Perfeito], a excelsa fundadora das Misericórdias, residência que teve larga história realenga, tocada de certa poesia e envolta em relativa grandeza, que não ostentação  — nada existe.

Rua de São Bartolomeu, actual Bartolomeu de Gusmão |1903|
«Inventor dos Aeróstatos 1675–1724» (legenda de 1911)
Os Paços de D. Leonor eram situados, pouco mais ou menos, no local onde hoje assenta o prédio aqui se vê e que da Rua Bartolomeu de Gusmão esquina para o Largo dos Lóios. 
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A Rua de São Bartolomeu passou pelo Edital de 13 de Dezembro de 1911 a denominar-se Rua Bartolomeu de Gusmão, com a legenda «Inventor dos Aeróstatos 1675–1724», em homenagem ao criador da Passarola Voadora, embora mais de 40 anos depois a legenda tenha passado a «Precursor da Aeronáutica 1675–1724» de acordo com o parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 24 de Julho de 1958.
Este arruamento homenageia Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685–1724), filho dum modesto cirurgião-mor de presídio, Francisco Lourenço, e de sua mulher, Maria Álvares.
Nascido em Santos, S. Paulo, no Brasil, fez estudos no Seminário jesuíta de Belém, na freguesia de Cachoeira, Capitania da Baía, onde se ordenou. Desde muito cedo se interessou pelo estudo da Física, tendo concebido uma máquina de elevação de água a 100 metros de altura, no Seminário de Belém. Em 1701 veio para Portugal. 

Rua de São Bartolomeu |1903|
«Inventor dos Aeróstatos 1675–1724»
Em 1911, este arruamento passou a denominar-se Bartolomeu de Gusmão (com a legenda acima), antes Direita das Portas da Alfofa.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Quando se matriculou na Faculdade de Cânones de Coimbra, em 1 de Dezembro de 1708, com o nome de Bartolomeu Lourenço, já como sacerdote, desconhecia-se, ainda, a célebre figura em que se tornaria, no ano seguinte, devido ao prodigioso invento de um aeróstato, recebendo, por isso, o epíteto de “padre voador”. Era o primeiro balão de papel que se ergueria no ar, sem fazer grande voo, tendo recebido do Rei D. João V a exclusividade da construção de “máquinas voadoras”. A primeira apresentação pública, feita em Lisboa, no Palácio Real, não teve sucesso e o balão ardeu, sem ter feito qualquer voo. Só numa segunda tentativa, em 8 de Agosto de 1709, se ergueu no ar, em voo de 4 metros de altura. A ”passarola voadora”, de que se conhecem diversos desenhos e gravuras, não seria mais do que um projecto que o engenhoso inventor nunca chegou a construir.

Rua Bartolomeu de Gusmão |1949|
Precursor da Aeronáutica [1685-1724] (legenda de 195-)
Antiga de São Bartolomeu antes Direita das Portas da Alfofa.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Durante a segunda metade do século XVIII difundiu-se a ideia de que o próprio Bartolomeu de Gusmão teria efectuado um voo num aeróstato por ele construído, entre o Castelo de S. Jorge e o Terreiro do Paço, mas trata-se de uma lenda, não há documentos que registem esse acontecimento e as suas experiências teriam avivado a imaginação popular a tal ponto que ele seria alvo de chacota.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, pp. 65-66, 1938.
Olisipo : boletim do Grupo "Amigos de Lisboa", 1948.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Largo Conde-Barão, 9-12

Conde Barão (Largo do) - Na Corografia de Carvalho da Costa, II, 143, lê-se: «Christóvão de Almada, que he provedor da Casa da India, senhor das villas de Ílhavo, Ferreiros e Avelans de Cima com muitos lugares, comendador na ordem de Christo, foi gentilhomem da camera do principe D. Pedro, veador da Rainha, coronel do Terço da nobreza desta côrte, governador e capitão general de Mazagão; casou a primeira vez com Dona Luiza d'Eça, sua prima co-irmã , herdeira de sua casa, filha de D. João d'Eça e de D. Brites de Alencastre, irmã segunda da dita sua mãy D. Magdalena de Alencastre, de que teve muitos filhos que todos morrerão. Casou segunda vez com Dona Felippa de Mello, filha de Dom Luis de Almada, senhor do Pombalinho, & de sua mulher Dona Luiza de Menezes, de que teve a D. Ignes de Alencaftre, que foy Dama do Paço, & casou com Dom Vasco Lobo, Barão de Alvito & Conde de Oriola; & a Dona Maria Maria Antonia de Almada, que foy a herdeyra deita Casa, a qual casou com D. Bernardo de Noronha, filho segundo de Dom Thomás de Noronha, Conde dos Arcos , de que teve , entre outros filhos, a Francisco José de Almada».

Foi este Cristóvão de Almada, provável fundador do palácio, que, por pertencer a seu genro barão de Alvito e conde de Oriola, veio a chamar-se do conde-barão e dar o nome ao Largo. Ainda se não encontra o Largo no «Livro das Plantas», porém já nos aparece no «Itinerário Lisbonense» publicado em 1818. Ai se diz que ficava entre a Rua da Boa Vista e a Calçada do Marquês de Abrantes.
(BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935)

Largo Conde-Barão, 9-12 |c. 1910|
Cena de rua defronte da loja de quinquilharia (hoje uma dep. bancária) e junto à paragem dos eléctricos, um vendedor ambulante de marisco atrai a pequenada com as suas irresistíveis delicias do mar. Mais atrás, os ardinas riem-se para a máquina fotográfica de Benoliel enquanto a senhora toda aperaltada de guarda-sol na mão faz de conta que nada se passa. Toda a cena se desenrola sob o olhar atento do peralvilho com chapéu de palha e farta bigodeira.
Nota(s): O arco, que se advinha parcialmente ali à esq. no n.º 8, ainda existe.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

domingo, 28 de agosto de 2022

Praça do Príncipe Real: a Patriarcal e a Praça do Rio de Janeiro

Estamos numa das praças mais lindas, e mais «alfacinhas» de Lisboa  — a Praça do Rio de Janeiro [e de novo, desde 1948, do Príncipe Real]. Deves ter no ouvido algumas das designações deste largo terreiro  e eu, — diz Norberto de Araújo —  sempre por curiosidade, tas relembro pela ordem das idades: «Chãos da Ferrôa» no século XVI, a mais antiga que se lhe conhece; «Alto da Cotovia», denominação que perdurou mesmo através de outros dísticos posteriores, municipais e populares; sítio das «Casas do Conde de Tarouca», cerca de 1755; «Patriarcal Queimada», depois de 1769; sítio das «Obras do Erário Novo», em 1810-1815; «Praça do Príncipe Real», em 1855; «Praça do Rio de Janeiro» depois de 1911.

Em boa verdade esta Praça é das mais modernas da capital, no seu aspecto urbano e paisagista; data assim de 1879. A sua regularidade é contudo notável, e respira um ar sadio, gozando desafogo, uma relativa tranquilidade, e oferecendo curiosos aspectos: pousio de «reformados» à sombra do velho cedro copado, com sessenta anos idade, brinco de crianças, jardim «de estar» dos nostálgicos e desocupados inocentes.
Pois, Dilecto, sentemo-nos também à sombra do cedro, ouvindo cantar o repuxo do lago, que mal se distingue no murmúrio afogado do conjunto entre o espesso arvoredo que tem resistido às devastações do tempo.

Praça do Príncipe Real |1940|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
A praça foi traçada em 1853 e o jardim, plantado em 1869, projecto do jardineiro João Francisco da Silva. Em termos urbanísticos é um exemplo do Romantismo das últimas décadas do século XIX.
«O Príncipe Real é um largo deliciosamente arborizado. Do seu harmonioso conjunto, destacam-se o majestoso cedro, considerado de interesse público, a deliciosa araucária e os formosos ulmeiros, também como tal distinguidos e as decorativas palmeiras. A «araucária columnaris» (araucária colunar — Nova Caledónia), de aspecto altaneiro e delgado, forma com o corpulento «cupressus», uma estranha parelha, que aos espirituosos frequentadores do recinto não passou despercebida, e por isso atribuem esse local de recreio o dito popular de Jardim do Bucha e do Estica». [Lisboa em quatro horas e Lisboa em quatro dias, 1895]
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sobre a ponta do Salitre e portas de Valverde — mais largo para norte do que é hoje [em 1938], depois de urbanizado — existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mãe d'Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. No centro da actual Praça andava o Conde de Tarouca construindo um Palácio, e ao local, por isso, chamava o povo «Casas do Conde de Tarouca», e o povo crisma a seu bel-prazer os sítios e as coisas, de modo que as denominações acabam por entrar na linguagem oficial e, quando as Câmaras as alteram ou corrompem, levam lustros, levam até séculos a apagar-se.
O Terramoto abalou inteiramente o edifício Tarouca soerguido, resignando-se o fidalgo no infortúnio, e compondo versos sobre os destroços.
Como a Patriarcal, que estava assente na Capela Real do Paço da Ribeira, tivesse ardido no dia do horroroso cataclismo, deliberou-se, após hesitações, transferir a Basílica para os restos, de pé, do palácio Tarouca, na «Cotovia»; a bênção foi dada em 26 de Junho de 1756, e logo nesse ano se realizou uma procissão, depois repetida, que deu o nome à Rua da «Procissão» (desde há poucos anos denominada de «Cecílio de Sousa»). 

Praça do Príncipe Real |c. 1869|
Lago octogonal com repuxo; ao fundo notam-se as torres e zimbório da Basílica da Estrela. 
Ао repuxo dedicou Júlio de Castilho um hino de ternura, mais próprio de poeta, como o Mestre se mostrava muitas vezes: «Quando ele arroja, metros ao alto, as suas pérolas fluídas, decompondo a luz, sussurrando frescura, e espadanando-se todo vaidoso no azul da atmosfera, está, muito de industria, repassando as águas nos gazes aéreos que as vivificam e as tornam potáveis; pensa em nós; prepara para nós a melhor das bebidas; colabora na higiene da Cidade. Aquele tanque é um sábio: reconhece as leis da física; sabe que os líquidos, vindo de longe, impregnando-se do calcário dos canos, e morando lá em baixo às escuras, se tornam pesados; quer aligeirá-los , banhá-los de sol e de oxigénio. Aquele tanque é um poeta utilitário: mistura habilmente o Belo e o Bom. Olhemos pois com gratidão para esse pequenino Oceano de puríssimas linfas, que abastecem as cozinhas, e amanhã brilharão aos poucos nas nossas taças de cristal. [Lisboa Antiga: 1904]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E a Igreja [armada em madeira] foi-se construindo, no edifício adaptado; era imponente: três naves, largo cruzeiro, quinze capelas, um zimbório oitavado, e anexos esplêndidos. Treze anos perdurou: a Patriarcal foi devastada por um terrível incêndio em 10 de Maio de 1769, obra criminosa de um empregado da Igreja, que pelo fogo queria ocultar seus sacrílegos roubos; foi justiçado, depois de lhe cortarem as mãos no próprio local onde os escombros fumegavam ainda. E aí está a origem da designação de «Patriarcal Queimada».[...]
As ruínas e montes de pedregulho ficaram por aqui durante dezenas de anos, ninho de valhacoutos. Em 1807 pensou-se em levantar no sítio o novo Erário Régio, a casa do Tesouro (pois ardera o do Rossio) mas o projecto, que era do Visconde de Vila Nova da Cerveira, não teve seguimento, embora se chegasse a começar a obra, e nela se gastassem alguns milhões de cruzados.
Em 1841 ainda o sítio continuava a ser vazadouro público e albergue de patifes. Só em 1856 se começou a terraplanar o local, que pouco depois recebeu iluminação. Já chamada «Praça do Príncipe Real», em 1859, começou então a estudar-se o seu aformoseamento, com a construção dum lago, por acordo entre a Câmara e a Companhia das Águas; os restos da «Patriarcal Queimada» foram então destruídos a tiros de pólvora.

Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 Localizado no subsolo da Praça, existe o Reservatório da Patriarcal, projectado em 1856 pelo eng. francês Mary. Construído entre 1860 e 1864 para servir a rede de distribuição de água da zona baixa da cidade. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 No centro da praça está o monumento-memória a França Borges, o jornalista fundador de «O Mundo», foi erigido em 1924; é obra de Maximiano Alves; à dir. observa-se destaca-se o Cedro-do-Buçaço, árvore secular com mais de 20 metros de diâmetro.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Em 1864 regularizou-se a disposição da Praça, tornando-a quadrada, e alinhando algumas edificações que entretanto se tinham erguido, o que tudo se concluiu em 1863. Construiu-se então a muralha sobre a Rua da Procissão e plantou-se este magnífico jardim, que estamos contemplando.
O «Príncipe Real» começou a existir, pequeno parque e logradoiro, com a sua ingenuidade, o seu repuxo e a sua «memória esquecida» de anteriores desgraças. E assim até hoje…==

Muralha da Praça do Príncipe Real sobre a Rua Cecílio de Sousa, antiga da Procissão |1960|
Terraço, com varanda, assente sobre muralha, que se ergueu em substituição da velha ribanceira, que por longos tempos existiu. Esta obra faz parte do arranjo geral da praça, foi concluída em 1864 e custou 3.208$400 réis. Numa lápida elucidativa, lê-se: «A Câmara Municipal mandou construir no ano de 1863». Por dois caminhos laterais, conduz à Rua da Procissão, que começou por chamar-se do Corpo de Deus e Cotovia ou simplesmente do Corpo de Deus. É hoje Cecílio de Sousa (desde 1926) a rua onde morou em 1869 o paciente bibliófilo Inocêncio Francisco da Silva, e se chamou desde 1756, ano em que, da nova Basílica Patriarcal, já implantada nas «Casas do Conde de Tarouca», saiu o grande cortejo religioso comemorativo do solene dia do Corpo de Deus.
Armando Serôdio,, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Praça tem este nome em homenagem ao filho primogénito da Rainha D. Maria II, o futuro rei D. Pedro V — nasceu no Palácio das Necessidades, a 16 de Setembro de 1837, recebendo o nome de Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Vítor Francisco de Assis Júlio Amélio; morrendo no mesmo local, a 11 de Novembro de 1861.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 65-68, 1938.

domingo, 24 de outubro de 2021

Rua da Prata que foi «Bela da Rainha»

As instruções do decreto de 12 de Junho de 1758 classificam as «ruas principais» da Baixa Pombalina e atribuem-lhes a largura máxima de sessenta palmos, com dez de cada lado para os passeios, e cloacas — cuja construção e conservação adviriam aos proprietários fronteiros. Passeios públicos também surgem nas ruas secundárias, de quarenta palmos, cuja utilidade "para a liberdade do ar e da luz" era sublinhada, numa consciência urbanística e sanitária nova.

A altura das casas era ali regulamentada, aferindo-a pela dos edifícios do Terreiro do Paço e já não com dois andares mas com o número deles que coubessem em tal pé direito; o desenho das fachadas, ainda não fixado, determinava, porém, janelas sacadas (ou «rasgadas») nos primeiros andares e janelas de peito (ou «de peitoril») nos outros, nas ruas principais , e só janelas de peito nas outras vias, prevendo portais especialmente tratados em ruas como as de S. Francisco e de S. Roque, de modo a distinguirem «casas nobres».

Rua da Prata (S→N) com a  Rua de São Julião [1930]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

As «ruas principais» seriam aquelas que corriam no sentido S→N, ligando as duas praças — do Terreiro do Paço e do D. Pedro IV — , e que receberiam os nomes de «Augusta» — a do meio, «Áurea» — a sua paralela a poente, e (mais tarde) «Bela da Rainha»  — hoje da Prata, a nascente,  embora só as duas primeiras fossem mencionadas como «ruas nobres»; mas também seria considerada principal uma outra rua correndo transversalmente e que receberia o nome de Nova d'El-Rei — hoje do Comércio. Era, de certo modo, a antiga e tradicional Rua Nova dos Ferros, disciplinada na nova malha mas ressuscitada, e sempre paralela, afinal, à face norte do Terreiro do Paço, no ponto onde uma rua importante continuava a ser necessária à imagem urbana.

Rua da Prata (S→N), pavimentação [c. 1951]
Horácio Novais, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
FRANÇA, José Augusto  Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina , 1978.

domingo, 17 de maio de 2020

Rua da Bempostinha: a Bemposta Pequena

[...] Castilho — escreve Luís Pastor de Macedo  — depois de nos dizer que em Dezembro de 1705 se achava a rainha D. Catarina da Grã-Bretanha gravemente enferma no Paço da Bemposta, conta: "A essa doença da real Senhora liga-se a seguinte tradição, que alguns repetem: diz-se que foi causa de se abrir a serventia pública chamada hoje Bempostinha. [...] Tudo isso é lenda. Um documento de 1673, que logo citarei, fala já da Bemposta pequena, muito antes que a Rainha aí habitasse, e vinte anos antes que chegasse a Lisboa". [...]

Rua da Bempostinha  |1900|
Perspectiva tirada da Calçada do Conde de Pombeiro
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Pela nossa parte diremos que a Bemposta Pequena só nos aparece nos registos paroquiais da freguesia dos Anjos em 1682, e que a denominação de Rua da Bempostinha só a topamos em 1707. Um e outro nome serviram para designar esta artéria até aos fins do século passado [séc. XIX]. [...] Ora se o Lugar da Bemposta quer dizer Rua da Bemposta como aliás parece dar a entender o declarar-se que a travessa corria no sentido norte-sul, não há dúvida, conjugando-se a petição com este passo do auto, que a nossa Rua da Bempostinha se chamava então de S. Boaventura. E temos assim duas serventias com o mesmo nome, nome que teria sido dado ao sítio, talvez quando elas ainda estivessem mal delineadas, e que depois serviu para indicar as duas, e uma delas, às vezes com o contrapeso do adjectivo larga.







Rua da Bempostinha |1900|
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente








Pelo menos é isto que se pode deduzir, sem que no entanto nos demos por satisfeitos. O que já fica averiguado é que a Rua da Bempostinha, ou parte dela, já existia muito antes do ano apontado por Castilho pois em 1611, conforme vimos atrás, já se fazia um reconhecimento de foro imposto numas casas situadas naquela rua.
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Bibliografia
MACEDO, Luís Pastor de, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. II, pp. 206-209, 1942.

domingo, 15 de setembro de 2019

Cais das Colunas: o miradouro raso e rasteirinho da cidade

Levantam voo as gaivotas à roda delas, e largam para o rio os bergantins reais e os botes catraios. Visão de séculos neste Cais das Colunas — dois brasões de pedra que nunca chega a ser morena. As colunas são um sinal de atenção, o mais lindo e recortado sinal na fronte de Lisboa ribeirinha. Fazem uma evocação da Veneza dos doges.


Em verdade estes dois pilares não levam duzentos anos, pois são invenção posterior ao Terramoto. E não são os primitivos. O Tejo divertiu-se sempre muito com as colunas, e arrebata-as várias vezes. Quando, em 1903, se preparava o desembarque de um rei inglês [Eduardo VII], que no cais havia de abicar na galeota dourada de trinta remeiros — houve que improvisar umas colunas de madeira, porque as de pedra tinham caído. Foi outro brinquedo: o rio levou as colunas no outro dia. . .

Cais das Colunas, Terreiro do Paço |1903|
Do lado esq. podem observar-se as colunas provisórias em madeira de forma quadrangular. Ampliando a foto vê-se na base dos pilares — manifestamente desalinhados —o  travessão que os unia e mantinha no lugar, supostamente..
 Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este Cais das Colunas, que sucedeu ao Cais da Pedra — é o miradouro raso e rasteirinho da cidade. Um livro aberto de evocações. Viu sucessivamente as barcas, as fustas, as galeras, as caravelas, as naus; as galés e os galeões; as fragatas, as corvetas, os brigues e as escunas, depois os navios chapeados de ferro e aço, os transportes e os transatlânticos, os cruzadores e os couraçados. Guarda na retina as silhuetas da nau «S. Gabriel», que foi à Índia, do galeão «Santa Teresa», o mais imponente que cruzou os mares, da nau «D. Maria», do Marquês de Nisa, que esteve em Trafalgar, da corveta «Pero de Alenquer», e do «Adamastor».

Cais das Colunas — sem colunas |c. 1900|
O Tejo divertiu-se sempre muito com as colunas, e arrebata-as várias vezes.
 José Artur Bárcia,in Lisboa de Antigamente

Cais das Colunas |post. 1931|
Por ocasião da visita a Portugal de Alexandre da Dinamarca — rainha consorte do ReinoUnido da Grã-Bretanha e Irlanda, e Imperatriz da Índia e esposa do rei Eduardo VII — as colunas foram pintadas de branco tal como informa a edição de 15 de Março de 1905 do Diario Ilustrado.
Postal, in Lisboa de Antigamente

Conheceu as velas de todo o mundo, os pavilhões de todos os povos, os alcaxas¹ de todos os marujos, e ouviu trons e salvas em todas as línguas. Da sua rampa de pedra rolada, ou da sua escadaria carcomida — viu cem gerações dizerem adeus a cem armadas que partiam. Pórtico escancarado do Terreiro do Paço, a sumir-se abaixo do nível, dir-se-á um adiantado do Arco Triunfal, o primeiro aviso de que a cidade começa.
¹  peças inconfundíveis do uniforme dos marinheiros

Cais das Colunas — «Salazar» e «Carmona» |post. 1939|
As duas famosas colunas ainda têm os nomes que lhes foram dados em pleno Estado Novo, em homenagem às duas figuras mais importantes do país na altura: ««Salazar» e «Carmona».
 Garcia Nunes,in Lisboa de Antigamente

De acordo com alguns autores, as colunas que pontuam a escadaria de pedra que desce até ao rio, poderão ser de inspiração maçónica e representar as duas colunas do Templo de Salomão (colunas Boaz (B) e Jaquim (J) ,ou Jerusalém e Belém, conforme as interpretações) simbolizando força e estabilidade, rigor e misericórdia, força e beleza, ciência e conhecimento, o Ocidente e o Oriente. O "estar entre colunas" maçonicamente significa estar em segredo entre irmãos
Mas o que talvez poucos saibam, é o que o lodo esconde. As duas famosas colunas ainda têm os nomes que lhes foram dados em pleno Estado Novo, em homenagem às duas figuras mais importantes do país na altura: «Salazar» e «Carmona».

Cais das Colunas — «Salazar» |post. 1939|
Inscrição no pilar esquerdo (Oriental):
«A SEGUNDA VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: CABO VERDE, MOÇAMBIQUE E ANGOLA. XVII DE JUNHO - XII DE SETEMBRO DE MCMXXXIX A VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS DO IMPÉRIO EM ÁFRICA ESTÁ NA MESMA DIRECTRIZ DAS NOSSAS PREOCUPAÇÕES E FINALIDADE, É MANIFESTAÇÃO DO MESMO ESPÍRITO QUE PÔS DE PÉ O ACTO COLONIAL»
SALAZAR
Luís Filipe de Aboim Pereira,,in Lisboa de Antigamente

Acima dos nomes dessas duas importantes e polémicas personalidades da História de Portugal, estão citações que cada uma delas proferiu na sequência de duas viagens que Óscar Carmona, Presidente da República, fez às colónias.

Cais das Colunas — «Carmona» |post. 1939|
Inscrição no pilar direito  (Ocidental):
«AQUI EMBARCOU O CHEFE DO ESTADO PARA A PRIMEIRA VIAGEM ÀS TERRAS 
ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE E ANGOLA. XI DE JULHO - 
XXX DE AGOSTO DE MCMXXXVIII COM A CERTEZA DE QUE FALA PELA MINHA
PORTUGAL INTEIRO, PROCLAMO A UNIDADE INDESTRUTÍVEL E 
VOZ ETERNA DE PORTUGAL»
GENERAL CARMONA
Luís Filipe de Aboim Pereira,, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de,  Legendas de Lisboa, pp. 38-39, 1943.
lusophia.wordpress.com.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Calçada do Conde de Pombeiro

Tem esta designação por aqui se situar o Palácio dos Condes de Pombeiro. A Rainha D. Catarina de Bragança para erguer o seu Paço da Bemposta, comprou neste sítio e em Santa Bárbara vários terrenos, dos quais, por lhe sobrarem, cedeu vários pedaços a pessoas amigas, e um deles, no actual Largo do Conde de Pombeiro, à sua camarista D. Luísa Ponce de Leão, para que esta pudesse ir viver para perto de si. D. Luísa era casada com o 1.º Conde de Pombeiro e foi um seu neto, o 3º conde deste título que veio a edificar aí um palácio conhecido pela Bempostinha e que o Terramoto de 1755 arruinou. [cm-lisboa.pt]

Calçada do Conde de Pombeiro com a Rua dos Anjos |1907|
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Rua dos Fanqueiros

A Rua dos Fanqueiros — diz Norberto de Araújo — é o primeiro produto que eu te mostro da imaginativa simétrica dos arquitectos de Pombal.
Destinada aos mercadores de fancaria, de lençaria e de quinquilharia — se para estes houvesse espaço — começou por chamar-se Rua Nova da Princesa (e ali tens o dístico no cunhal da Rua), e, por vezes, Rua Bela da Princesa por analogia cem a Rua Bela da Rainha (Rua da Prata), ou simplesmente Rua da Princesa. Vinte anos depois do Terramoto era Rua Nova dos Fanqueiros, e, depois, Rua dos Fanqueiros.

 

Rua dos Fanqueiros [1911]
 Rua de Santa Justa; Comemoração do 1.º aniversário da República.
António Novais, in Lisboa de Antigamente

A estrutura urbanística da cidade de Lisboa foi largamente determinada pelo terramoto extremamente intenso que destruiu grande parte do núcleo urbano em 1 de Novembro de 1755. O sismo e o vasto incêndio que se lhe lhe seguiu causaram cerca de 10 000 mortos e perdas materiais incalculáveis em edifícios e bens patrimoniais móveis. Na ausência do Rei D. José, que temia regressar à capital, o longo e complexo processo de reconstrução foi dirigido por Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro do Reino e futuro Marquês de Pombal.

Rua dos Fanqueiros, 39-40 [c. 1910]
«Drogaria e perfumaria Dias»
Após a requalificação toponímica de 1950, este troço foi integrado na actual Praça da Figueira, 11.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A sua parte principal define-se entre o Terreiro do Paço e o Rossio, regularizando as duas praças tradicionais e criando, de uma para outra, uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortando-se em ângulos rectos, com importância variada que é expressa pela largura dos seus leitos, passeios (e esgotos), inovação nos hábitos urbanos. Do terreiro ribeirinho partem três ruas «nobres»: Áurea, Augusta e Bela da Rainha (da Prata), das quais as duas primeiras desembocam no Rossio e a outra contra a fachada lateral do velho Hospital Real de Todos-os-Santos que daria sobre o Rossio mas que, não sendo reconstruido (passou ao Convento de Sant'Antão/S. José), abriu espaço para uma praça paralela a este, onde se instalou, primeiro provisória e depois definitivamente, um mercado (Praça da Figueira). Ainda duas ruas paralelas a estas, Nova da Princesa (dos Fanqueiros) e da Madalena, têm igual comprimento, enquanto outras três, na mesma direcção, se entremeiam, a partir da terceira das três grandes vias transversais a contar do Terreiro do Paço — a primeira das quais e a Rua Nova d'El-Rei (do Comércio) que adoptou, corrigindo-a geometricamente no alinhamento, a direcção da velha e famosa Rua Nova dos Ferros. Entre todas estas ruas definem-se também quarteirões longitudinais e transversais, num ritmo dinâmico que vitaliza a malha urbana, salvando-a da monotonia aparente.

Rua dos Fanqueiros, 152-160 [c. 1910]
Após a requalificação toponímica de 1950, estes prédios correspondem aos números de polícia 34-44, junto à Rua do Comércio.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 38, 1939.
FRANÇA, José-Augusto, Lisboa: Urbanismo e Arquitectura, pp. 45-46, 1980.

domingo, 16 de junho de 2019

Chafarizes de Sant'Ana

Este Largo do Mastro é que foi o sítio exacto do «Campo do Curral» — recorda-nos o insigne olisipógrafo Norberto de Araújo. Mas é preciso não perderes de vista que essa cortina — o muro paredão que sustenta o jardim do Campo dos Mártires da Pátria — não existia sequer até hà cem anos [c. 1838]. Desde o Convento de Sant'Ana até ao Paço da Rainha (isto é: desde o Instituto Bacteriológico até à Escola do Exército), o pavimento, em encosta, era todo um, com mal pronunciada ondulação de terreno.


Adossado ao muro paredão que sustenta o jardim do Campo dos Mártires da Pátria encontramos o Chafariz do Campo de Santana virado ao Largo do Mastro. O muro é em cantaria de granito aparente, em aparelho isódomo e está fronteiro a pequena faixa de passeio público, pavimentado a calçada, a qual confina com um parque de estacionamento.
Chafariz simplista de planta rectangular, construído em 1887, autor desconhecido, assente em plataforma de dois degraus em cantaria de calcário lioz e vermelho. É executado em cantaria de calcário lioz, composto por espaldar rectilíneo, encimado por recortes lobulados e, ao centro, pequeno espaldar contracurvado, onde surgem as armas municipais, emolduradas por painel circular e a data «1887». Cada um dos lóbulos, com molduras múltiplas circulares, possui uma bica em chumbo, rodeada por pétalas de flores, que vertia para tanque rectangular, de perfil galbado, assente em pequeno rodapé rectilíneo, com bordos boleados; o interior encontra-se tripartido por blocos de cantaria, capeados a cimento, com escoamento metálico. No espaldar e no bordo do tanque surgem vestígios das antigas réguas de apoio ao vasilhame. No lado esquerdo, surge um vão de verga recta e moldura simples, protegido por porta metálica, pintada de verde, de acesso à caixa de água.
Monumento Nacional desde 2002.

Chafariz de Santa Ana [1944]
Largo do Mastro
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Nas imediações, situa-se um segundo chafariz, denominado Chafariz do Largo do Mastro. [vd. 2ª foto]
Este chafariz foi inaugurado em 1848, em Belém, no sítio do Chão Salgado, por iniciativa camarária, com projecto do arq. Malaquias Ferreira Leal. Na sua construção foram utilizados elementos escultóricos do Chafariz do Campo de Santana [vd. N.B.], que nunca chegou a ser construído, nomeadamente 4 golfinhos da autoria do escultor Alexandre Gomes. Por ocasião da Exposição do Mundo Português, em 1940, o chafariz foi retirado do local original e mais tarde, em 1947, reutilizado no Largo do Mastro, ao Campo de Santana. Chafariz elegante, de boa cantaria, em forma de obelisco, que apresenta uma urna de curvas reentrantes e de 4 faces, das quais emerge, respectivamente, um golfinho com a função de bica. A rematar este núcleo decorativo eleva-se uma alta pirâmide hexagonal, estriada, cintada por faixa lisa a um terço de altura, coroada por uma pinha.

Chafariz do Largo do Mastro [1947]
Largo do Mastro
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Quanto ao novo e esplendoroso Chafariz de Santa Anna — que viria substituir o chafariz "interino" que ali existia — , diz-nos a Memória de Velloso de Andrade, que o projecto foi abandonado por razões desconhecidas:
"Esse Chafariz, se se fizesse conforme o risco approvado, era de tamanha architectura, que devia conter as quatro figuras que estiveram no Lago do Passeio Público; o Tejo, e o Douro, que ainda existem no dito Passeio; os quatro Golfinhos, que se acham no Chafariz de Belém, e as quatro Carrancas, que serviram para o Chafariz d'Alcântara; como tudo se mostra no dito risco. As figuras acima ditas, foram feitas pelo Portuguez Alexandre Gomes, por 3:746$246 réis, incluindo 706$S46 réis, importe das seis pedras postas no telheiro ao Campo de Santa Anna, aonde as ditas figuras foram feitas; pelas quaes um Lord Inglez offerecia doze mil cruzados.[...]

Chafariz de Santa Ana [finais do  séc. XIX]
Campo dos Mártires da Pátria
Foi demolido em finais do séc. XIX aquando da construção do Jardim dos Campos dos Mártires da Pátria vulgo Campo de Santana; a dir. nota-se uma clarabóia do Aqueduto e, ao fundo, vê-se o prédio sito nos Campo dos Mártires da Pátria, 96, erguido em 1854 e que ainda lá está.
Autor não identificado, in Lisboa de Antigamente

Este chafariz n.º 6 situava-se a norte do Campo de Santa Anna (Campo dos Mártires da Pátria) sobre a antiga Carreira dos Cavallos, hoje Rua de Gomes Freire, conforme atesta o levantamento topográfico realizado em 1858 por Filipe Folque [vd. carta topográfica]. Em 1838 "foi reformado, pondo-se-lhe em frente um semicírculo de columnellos, cujo espaço foi calçado de novo". 
Em 1851, o Chafariz do Campo de Santa Anna (chafariz n.º 6) tinha 4 bicas, 2 tanques, 5 companhias de aguadeiros, 5 capatazes e cabos, 165 aguadeiros e 2 ligeiros. Os sobejos foram concedidos ao Hospital de S. José, por Ordem de 23 de Maio de 1792. Abastecia, por volta de 1850, o antigo Hospital de Rilhafoles (hoje Miguel Bombarda) e o Asilo de Mendicidade (hoje Hospital dos Capuchos). 

Local do Chafariz do Campo de Santa Anna em 1858
Levantamento topográfico de Lisboa sob a orientação de Filipe Folque, 1858 (excerto)
A vermelho está assinalado o chafariz e o Aqueduto que levava a água ao Chafariz do Campo de Santa Anna; a azul, a antiga Carreira dos Cavallos, hoje Rua de Gomes freire.
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IV, pp. 61, 1938.
VELOSO DE ANDRADE, José Sérgio , Memória sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém e muitos lugares do Termo., 1851.
cm-lisboa.pt.
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