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Sunday, 16 March 2025

Rua dos Ourives da Prata

À rua que em 1755 subia do Largo do Pelourinho, e que então “trifurcava, depois de percorridos os seus quatrocentos e oitenta e quatro palmos”, nas ruas das Pedras Negras, da Correaria e do Arco de Nossa Senhora da Consolação, designava-se, então, de Rua dos Ourives da Prata

Assim descreve Luís Pastor de Macedo a rua que, por alvará de D. Manuel I, de 19 de Abril de 1514, relativo ao arruamento dos ofícios, estabelecia que do dia de São João em diante, passassem para a Rua Nova d’El Rei [actual R. do Comércio] os ourives do ouro, ficando a designada Rua da Ourivesaria à disposição dos “prateiros”, para nela abrirem as suas oficinas. 

Rua (dos Ourives da Prata) |séc. XIX|
Os «carros americanos» um dos mais famosos meios de transporte lisboetas. Mais confortáveis que os «Choras», serão substituídos gradualmente pelos carros eléctricos que a Carris começa a comprar durante a última década de oitocentos.
Emílio Biel, in Lisboa de Antigamente

Mais tarde, em 1551, de acordo com descrição de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, surge esta rua já designada por Rua da Ourivesaria da Prata, ou, também, por Rua dos Ourives da Prata, nome apresentado por João Brandão em 15527, embora a antiga denominação de Rua da Ourivesaria perdurasse até finais do terceiro quartel do século XVI. 
A 20 de Fevereiro de 1588, uma provisão de Filipe I, relativa ao arrua- mento do ofício dos ourives da prata, refere que “os ourives morassem, e estivessem suas tendas no arruamento”, tendo os vereadores elaborado uma postura para que não pudessem os ditos ourives morar, nem possuir as suas oficinas, fora do respectivo arruamento, na Rua da Ourivesaria da Prata.

Rua (dos Ourives da Prata) |1917|
Antiga Bella da Rainha, junto à Igreja de São Nicolau na Rua da Vitória
Venda da Flor, iniciativa da escritora Genoveva da Lima Mayer Ulrich a favor das vítimas da I Grande Guerra.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Na Lisboa erguida após o terramoto de 1755, a Rua dos Ourives da Prata, juntamente com a dos Ourives do Ouro, evidenciava-se pelas preciosidades expostas aos olhares de quem por elas passava e pasmava. Assim descrevia Carl Ruders, aludindo às referidas ruas, nas quais “havia sempre muita gente pasmada”, porque “todas as lojas das casas (...) são ocupadas por estabelecimentos onde se vem expostas as alfaias e jóias mais preciosas”. Obras de ouro e prata “de toda a espécie”, que se revelavam em armários envidraçados, suspensos dos dois lados das portas”-

Rua (dos Ourives da Prata) |1917|
A Rua da Prata nasceu em 1910 como topónimo da Baixa pombalina, por via da publicação do Edital camarário de 5 de Novembro, o 1º relativo a toponímia após a implantação da República em Portugal, substituindo a Rua Bela da Rainha que havia sido atribuída em 1760, pela Portaria de 5 de Novembro, a 1ª sobre toponímia. 
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente


Bibliografia
MACEDO, Luís Pastor – A Igreja de Santa Maria Madalena de Lisboa. Lisboa: Solução Editora, p. 5.1930,.
RUDERS, Carl Israel – Viagem em Portugal: 1798-1802. Lisboa: B.N.P., p. 35, 1981.
CARLOS, Rita, Da Rua dos Ourives da Prata à Rua Bela da Rainha: as lojas dos ourives da prata em Lisboa na segunda metade do século XVIII, 2015.

Friday, 10 March 2017

As Galerias Romanas da Rua da Prata

Em plena Baixa lisboeta há uma cidade invisível, quase secreta, mesmo por baixo dos nossos pés, que remonta à época romana e da qual pouca ou nenhuma noção temos. Esta Cidade dentro da cidade é um património arquitectónico que resistiu ao passar dos milénios, e por essa razão, é protegido.


Esta estrutura romana, descoberta no subsolo da Baixa de Lisboa, em 1771, na sequência do Terramoto de 1755 e posterior reconstrução da cidade, tem sido objecto, ao longo do tempo, de múltiplas interpretações quanto à sua função original. Actualmente, teses quase unânimes avançam a possibilidade destas galerias romanas terem sido um criptopórtico, solução arquitectónica que criava, em zona de declive e pouca estabilidade geológica, uma plataforma horizontal de suporte à construção de edifícios de grande dimensão, normalmente públicos, como é o caso do Fórum da cidade, que teria sido suportado por este criptopórtico.

Rua da Prata |c. 1910|
O quarteirão na Rua da Prata, entre as Ruas de S. Julião e da Conceição que fica acima das galerias romanas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A descoberta de uma inscrição consecratória a Esculápio, Deus da Medicina, em nome de dois sacerdotes do culto imperial e no do Município de Olisipo, gravada numa das faces de um bloco paralelepipédico de calcário e datada do séc. I a.C., actualmente no Museu Nacional de Arqueologia, poderá ser uma confirmação do carácter público deste edifício. No início do séc. XX, estas galerias ficaram conhecidas como as Conservas de Água da Rua da Prata¿ por serem utilizadas pela população como cisterna.

Rua da Prata |1909|
Bomba a vapor dos Bombeiros Municipais esgotando a água das galerias romanas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

As suas características construtivas, tipologia e materiais associados remetem-nos para uma construção datada entre o séc. I a.C. e o séc. I d.C., contemporânea de outros edifícios públicos da cidade romana de Olisipo. Abertas ao público com regularidade a partir da década de 80 do séc. XX, são visitáveis, hoje em dia, apenas uma vez por ano, devido à acumulação de água no interior das galerias. A bombagem dessa água com maior frequência, para além de constituir um processo moroso, poderia colocar em risco a conservação do edifício assente sobre esta estrutura romana, assim como a daqueles que lhes estão anexos. O acesso ao interior é feito através de um alçapão localizado na Rua da Conceição. Este monumento integra a classificação do Conjunto Baixa Pombalina (Imóvel de Interesse Público) e, mais recentemente, do Conjunto Lisboa Pombalina (Em Vias de Classificação para Monumento Nacional). [cm-lisboa.pt]

Rua da Prata |1909|
O fotógrafo Joshua Benoliel (autor das imagens acima) falando com o chefe dos bombeiros Carvalho, à volta das galerias romanas.
J. Canella, Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 24 November 2024

Rua da Prata, 257: Ourivesaria da Moda

Ourivesaria fundada em 1906 por António Esteves de Araújo, mantém-se na mesma família há 4 gerações. No interior, o ex-libris da casa, uma fonte em prata maciça com 2 metros de altura, dá-nos as boas-vindas. Especialistas em peças tradicionais portuguesas, o destaque vai para as jóias em filigrana, feitas artesanalmente com fios muito finos em ouro ou prata.
António Esteves de Araújo viera do Minho aos 11 anos à procura de melhores condições, tendo trabalhado numa mercearia até aos 16 anos altura em que passou a trabalhar na Ourivesaria do torreão do Mercado da Praça da Figueira. Depois disso entrou na Ourivesaria da Moda passando a decidir os seus destinos. Nos anos quarenta expandiram o espaço ocupando uma manteigaria na Rua da Prata [na dir. baixa] e uma loja de vidros na Rua de Sta. Justa, ficando assim com 4 montras para a Rua da Prata e 2 para a Rua de Sta. Justa. Nos finais dos anos 50 adquiriram um deposito de tabacos o que permitiu nova ampliação do lado da Rua de Sta. Justa. Chegou-se assim à loja actual. [circulolojas.org]

Rua da Prata, 257: Ourivesaria da Moda |191-|
Esquina com a Rua de Santa Justa, 34
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 16 February 2020

Rua da Conceição vulgo dos Retroseiros

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760 que «Assim se denominará a segunda das referidas seis traveças, e nella se acommodorão os Mercadores de logens de retroz.». A escolha do topónimo deriva da proximidade à [Igreja da Conceição (Nova), demolida].

Encontrou-se uma inscrição, que ainda em 1883 existia, e eu vi — diz mestre Castilho — , numa parede do armazém de retroseiro de Manuel Pereira Bastos [em 1909, Fernandes & Cardoso], na rua dos Retroseiros (ou da Conceição), com porta para a escada n.° 83 [11ª porta à esq.]; (...) Diz assim : SSACRVM / AESCVLAPIO / M[arcus] . AFRANIVS . EVPORIO / ET / L[ucius] . FABIVS DAPHNVS / AVG[ustales] / MVNICIPIO . D(ono) . D(ederunt) »
(CASTILHO, Júlio de, Lisboa antiga:Segunda parte: Bairros orientais, Vol. 1, 1884, pp.154-155)

Rua da Conceição vulgo dos Retroseiros |1915|
Esquina com a Rua da Prata, antiga Bella da Rainha [vd. N.B.]
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Esta dedicatória na lápide de mármore dedicada AESCVLAPIVS (deus da Medicina) não está necessariamente associada ao culto imperial, apesar dos cargos religiosos nesse âmbito desempenhados por Marcus Afranius Euporio e por Lucius Fabius Daphnus.
Tradução: «Consagrado a Aesculapio. Marco Afranio Euporio e Lúcio Fábio Daphno, augustais do município, deram e dedicaram»

N.B. A «Rua da Prata» foi chamada durante os anos de 1760 a 5 de Novembro de 1910 de «Rua Bella da Rainha» em memória da Rainha «D. Mariana Vitória (1718-1781)», mulher do Rei D. José I, e filha de Filipe V de Espanha. A «Rua da Prata» adquiriu este nome porque no período que antecedeu o terramoto de 1755 existiu próximo a «Rua Dos Ourives Da Prata», ou ainda dos «Prateiros» rua muito característica e concorrida na época.
Em Reunião na Câmara Municipal de Lisboa, em 6 de Outubro de 1910, presidida por Anselmo Braamcamp Freire, [...] a Rua Bela da Rainha passa a denominar-se Rua da Prata;[...]

Saturday, 7 November 2015

Rua da Prata esquina com a Rua do Comércio

Esta artéria pombalina é pobre de edifícios, como vês. Anotemos, porém, o prédio do Banco de Angola, pela sua arquitectura «lavrada», varandas rasgadas, e deselegante exuberância de cantaria. O Banco de Angola — recorda Norberto de Araújo — foi criado em 30 de Julho 14 de Agosto de 1926, e começou a funcionar. no 3.° andar  deste prédio, ao tempo pertencente ao Banco Economia Portuguesa [fundado em 1897]

Rua da Prata. 10-22, esquina com a Rua do Comércio, 57-61 |Início séc. XX|
O Banco de Angola 
começou a funcionar no 3° andar do edifício do Banco
Economia Portuguesa.

Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

Tinha por capital social inicial 50.000 contos, repartidos em partes iguais entre o Estado Português e o Banco Nacional Ultramarino. Com a sede social estabelecida em Lisboa, e filial em Luanda, a instituição possuía o privilégio da emissão de notas em Angola, por um período de 25 anos. Por sua vez, o banco deveria pagar uma renda anual de 1.000 contos e conceder um empréstimo de 5.000 contos à colónia.

Rua da Prata. 10-22, esquina com a Rua do Comércio, 57-61 |c. 1900|
O Banco de Angola
começou a funcionar no 3° andar do edifício do Banco Economia Portuguesa.
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Passou depois para o prédio, que adquiriu — prossegue Norberto de Araújo —  na Rua do Comércio, 58 a 64, onde está a Companhia de Seguros «Tagus», e em Novembro de 1930 comprou ao Banco do Comércio e Ultramar este prédio da Rua da Prata [10-22], no qual se instalou.==

 


 

Banco de Angola |1928 e 1929|
Novo edifício-sede na esquina coma Rua da Prata, 24-28 esquina com a Rua do Comércio, 58 a 64. Hoje é lá um hotel.
(clicar para ampliar)
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

 



Na década de 60, dá-se a expansão de algumas instituições da metrópole, para o ultramar. Os bancos então surgidos alargaram a rede de balcões ao longo de todo o território angolano, conseguindo captar importantes quotas de mercado, e reduzindo os resultados do Banco de Angola. O Banco de Angola alterou então a sua estratégia de desenvolvimento e canalizou-a para a metrópole.
O Banco de Angola foi nacionalizado em 15 de Setembro de 1974.

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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 45, 1939.
bportugal.pt.

Wednesday, 29 July 2015

Casa das Bengalas

O plano de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, aprovado pelo Marquês de Pombal, apresentava uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortadas em ângulos rectos, com importância diferente que é traduzida pela largura das suas ruas e passeios.
Em 5 de Novembro de 1760 foi inaugurada em Lisboa a pratica de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste diploma D. José estabelece a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio, bem como regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio. 
 
Rua da Prata, 87~91 [c. 1910]
Joalharia e ourivesaria Casa das Bengalas de António Costa
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente
  
A Rua da Prata, uma das artérias, recebeu, por este diploma, a denominação de Rua Bela da Rainha. Ficou também estabelecido que nela deviam ser arruados os ourives da prata e nas lojas que sobejarem os livreiros que antes viviam na sua vizinhança.
A homenagem efectuada a um membro da realeza levou a que no período da Primeira República, designadamente, em 5 de Novembro de 1910, este topónimo fosse alterado para Rua da Prata, numa manifestação clara de republicanismo em contraposição com a monarquia. (cm-lisboa.pt)

Rua da Prata, 87~91 [c. 1910]
Joalharia e ourivesaria Casa das Bengalas de António Costa
Alberto Carlos Lima,
in Lisboa de Antigamente

Sunday, 24 October 2021

Rua da Prata que foi «Bela da Rainha»

As instruções do decreto de 12 de Junho de 1758 classificam as «ruas principais» da Baixa Pombalina e atribuem-lhes a largura máxima de sessenta palmos, com dez de cada lado para os passeios, e cloacas — cuja construção e conservação adviriam aos proprietários fronteiros. Passeios públicos também surgem nas ruas secundárias, de quarenta palmos, cuja utilidade "para a liberdade do ar e da luz" era sublinhada, numa consciência urbanística e sanitária nova.

A altura das casas era ali regulamentada, aferindo-a pela dos edifícios do Terreiro do Paço e já não com dois andares mas com o número deles que coubessem em tal pé direito; o desenho das fachadas, ainda não fixado, determinava, porém, janelas sacadas (ou «rasgadas») nos primeiros andares e janelas de peito (ou «de peitoril») nos outros, nas ruas principais , e só janelas de peito nas outras vias, prevendo portais especialmente tratados em ruas como as de S. Francisco e de S. Roque, de modo a distinguirem «casas nobres».

Rua da Prata (S→N) com a  Rua de São Julião [1930]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

As «ruas principais» seriam aquelas que corriam no sentido S→N, ligando as duas praças — do Terreiro do Paço e do D. Pedro IV — , e que receberiam os nomes de «Augusta» — a do meio, «Áurea» — a sua paralela a poente, e (mais tarde) «Bela da Rainha»  — hoje da Prata, a nascente,  embora só as duas primeiras fossem mencionadas como «ruas nobres»; mas também seria considerada principal uma outra rua correndo transversalmente e que receberia o nome de Nova d'El-Rei — hoje do Comércio. Era, de certo modo, a antiga e tradicional Rua Nova dos Ferros, disciplinada na nova malha mas ressuscitada, e sempre paralela, afinal, à face norte do Terreiro do Paço, no ponto onde uma rua importante continuava a ser necessária à imagem urbana.

Rua da Prata (S→N), pavimentação [c. 1951]
Horácio Novais, 
in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
FRANÇA, José Augusto  Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina , 1978.

Friday, 6 November 2015

Lojas de Antanho: Rua da Prata, 261

O plano de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, aprovado pelo Marquês de Pombal, apresentava uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortadas em ângulos rectos, com importância diferente que é traduzida pela largura das suas ruas e passeios.

Casa das Manteigas, Rua da Prata, 261 [1910]
Antiga  Rua Bela da Rainha

Joshua Benoliel, 
in Lisboa de Antigamente

Mas Pombal quis ainda prestar homenagem à família real, fazendo baptizar quatro ruas do novo bairro; a Rua Nova d'El-Rei — hoje Rua do Comércio, a Rua Bela da Rainha hoje Rua da Prata, a Rua Nova da Princesa — hoje Rua dos Fanqueiros e a Rua do Príncipe, paralela ao Rossio — hoje Rua Primeiro de Dezembro. À terceira rua principal, mais chegada ao lado do nascer do Sol, chamar-se-ia Rua Bela da Rainha. Não que a Rainha fosse particularmente bela. Mas uma rainha é sempre um obstáculo incontornável mexerico do Paço e nas tramóias do governo, e é bom que tenha rua de nome, para boas graças próximas e distantes do ministro.
Em breve, porém, estas ruas (as três primeiras) receberam outros nomes, segundo os ofícios que nelas se exerciam — capelistas, ourives de prata e fanqueiros. (FRANÇA, José Augusto, Lisboa pombalina e o Iluminismo, 1987, p.117)
 

Sunday, 8 October 2017

Lisboa Vista do Cimo dos Montes

Poucas vezes no mundo verá o viajante, como em Lisboa, tanta magnificencia de espectaculos naturaes, e tamanha variedade de scenario! (...)

Temos ahi uma vista tomada da beira da esplanada sudoeste do castello de S. Jorge, e inundada do nosso formosíssimo sol peninsular. Que vasto quadro! (...) 

Basta um quadro assim, para justificar os enthusiasmos insuspeitos, com que os estrangeiros saudaram sempre a nossa capital.


«Parece-me extraordinário — escrevia em 1826 um viajante inglez — como se póde contemplar a magestade do Tejo, desde as janellas da hospedaria de Reeve, sem ficar assombrado com a magnificencia de tal quadro!» 
E vinte annos andados, exclamava Hughes:
«Lindissima se ostenta a formosa capital, como um amontoado de palacios de marmore levantado na orla d'aquelle glorioso rio! Só depois de um conhecimento intimo do interior da cidade é que a illusão se dissipa.» Se hoje voltasse o auctor a percorrer Lisboa, limpa, banhada de agua, enfeitada de jardins, cortada de avenidas, e melhorada em todo o genero de viaçao, veria todo o caminho andado na estrada do progresso material. ¹

Vista parcial de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  [c. 1870]
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Observe-se, ao centro, o Arco Triunfal da Rua Augusta ainda por rematar. O coroamento, composto pelo grupo escultórico alegórico "A Glória coroando o Génio e o Valor" só ficou concluído em 1875.
Francesco Rocchini (1822-1895), in Lisboa de Antigamente

[...] situação única desse morro mirando o deslumbrante estuário do Tejo, a sumptuosidade do ar, a diafaneidade do céu e dos contemplativos montes da outra margem. 
Fialho de Almeida (1857-1911), «Lisboa Monumental», Barbear, Pentear [1910]

Sentado num capachinho, agarrado às grades da estreita sacada pombalina, mudo e fascinado, o menino olha os telhados de veludo, o céu sereno, o rio coberto de palhetas de prata cintilantes: são peixinhos que saltam, andam a brincar, brilham à lua - diz a irmã, e ele acredita. A tia Zulmira, sentada na pedra ao lado dele, canta baladas tristes — Sentinela do céu avançada, Que noite serena — e de repente... 
... da janela do meu quarto 
vejo saltar a sardinha!
Então é que são mesmo peixinhos de prata que pulam ao luar. A voz fresca e sentida derrama-se pela vizinhança adormecida, mexe-lhe com alguma coisa lá dentro, afoga-o de sedução. Larga as grades e estende os braços... E amor, é de amor que ele sofre! A tia aperta-o ao peito e ri-se, beija-o com ternura: «Tolo, meu tolinho!»O seio dela é macio, o seu cabelo negro cheira bem, e ele fecha os olhos, gosta de adormecer assim no zunzum das conversas, dos risos. Sente-se embalado e parte à desfilada pelo céu de prata. 
Mas há muito mais, ali, do que o luar: os cais, os guindastes, as sereias e apitos, o arfar das locomotivas e o ranger das correntes e roldanas, o martelar das forjas e dos caldeireiros. Chegam até à mansarda distante os cheiros náuticos. Riscos de fumo babujam o azul trespassado de sol. Os vapores sobem e descem devagar o rio, parecem rastejar, deixando uma esteira de espuma, as cadeias das âncoras guincham nos estais — como tudo se ouve bem, cá tão longe, no ar imenso e cristalino! ²

Vista parcial de Lisboa tirada do Castelo S. Jorge  [c. 1870]
Panorâmica de Lisboa tirada da Sra do Monte
Francesco Rocchini (1822-1895), in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ CASTILHO, Júlio de (1840-1919). «Lisboa vista do Castello de S. Jorge» [26 de Outubro de 1901] in A Arte e a Natureza em Portugal.
² MOURÃO-FERREIRA, David (1927.1996), «Saudades de Lisboa de Eça de Queiroz a Miguel Torga», [1967]

Thursday, 3 September 2015

Rua da Conceição

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria pombalina de 5 de Novembro de 1760, diploma do rei D. José com que foi inaugurada em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto e, no qual se estabelece a denominação dos arruamentos localizados da Baixa lisboeta reconstruída, entre a Praça do Comércio e o Rossio, ao mesmo tempo que regulariza a distribuição dos ofícios e ramos do comércio pelos diferentes arruamentos, a saber: Rua Nova d'El Rey, Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha, Rua Nova da Rainha, Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa.

Sobre a Rua da Conceição refere a Portaria que «Assim se denominará a segunda das referidas seis traveças, e nella se acommodorão os Mercadores de logens de retroz

A escolha do topónimo deriva da proximidade à Igreja da Conceição, aliás como o sublinha Luís Pastor de Macedo quando afirma que «os nomes de S. Julião, da Conceição, de S. Nicolau, da Vitória e de Santa Justa, foram dados às ruas que mais perto passavam das igrejas e ermidas que com aquela invocação, segundo o plano estabelecido, se haviam de erguer ou se estavam já construindo.»
(in cm-lisboa.pt)

Rua da Conceição vulgo dos Retroseiros [1909]
Retrosaria Fernandes & Cardoso onde existe uma lápide e um poço com acesso às galerias romanas.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Depois do grande terramoto de 1755, quando, em 1770, se abriam caboucos para a construção de um prédio na esquina da Rua da Prata com a Rua dos Retroseiros (ou da Conceição) foram encontradas as ruínas de um complexo de galerias inicialmente identificadas como termas romanas. No local apareceu também uma grande lápide, de mármore dedicada a Esculápio, deus da Medicina que fora mandada gravar por dois augustais, ambos de origem grega e por eles oferecida ao município olisiponense que levou à identificação deste sítio como termas. Calcula-se que a sua construção date do tempo de Tibério (14-37 a.C.). (in arqueologia.patrimoniocultural.pt)

Base de estátua a Esculápio
Proveniência: Rua da Prata, Lisboa
Cronologia: Época romana. Ano (s) 14-37 d.C.
Tipologia: Base de estátua em mármore branco (lápide)
Dimensão: altura 73 cm largura 72 cm espessura 53 cm

Pedestal de estátua (lápide; na face superior está patente um orifício destinado ao respectivo encaixe; bloco alisado nas faces laterais e anterior; a peça encontra-se fracturada na face posterior. A paginação do texto segue sensivelmente o eixo de simetria. Os dedicantes apresentam antropónimos de cariz grecizante e identificam-se como augustais; são, evidentemente, libertos. Esta dedicatória a AESCVLAPIVS não está necessariamente associada ao culto imperial, apesar dos cargos religiosos nesse âmbito desempenhados por Marcus Afranius Euporio e por Lucius Fabius Daphnus. 

« SACRVM / AESCVLAPIO / M(arcus) . AFRANIVS . EVPORIO / ET / L(ucius) . FABIVS DAPHNVS / AVG(ustales) / MVNICIPIO . D(ono) . D(ederunt) //.»

Tradução: "Consagrado a Aesculapio. Marco Afranio Euporio e Lúcio Fábio Daphno, augustais do município, deram e dedicaram".

Planta e cortes verticais das galerias romanas consagradas a Esculápio,
descobertas no subsolo da Rua da Prata

Thursday, 13 October 2016

Igreja de São Nicolau

O templo primitivo data do séc. XIII. Totalmente destruído pelo Terramoto de 1755 foi reedificado em 1780 com traço do arq.º Reinaldo Manuel dos Santos, prolongando-se as obras até 1850. A igreja, revestida exteriormente a cantaria, encontra-se orientada a Norte e a sua fachada principal, cortada verticalmente por 6 pilastras, possui os corpos externos laterais arredondados. 

 Igreja de São Nicolau |1959|
Rua da Vitória; Rua da Prata

Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

No interior destacam-se: as pinturas do tecto da nave atribuídas a Pedro Alexandrino de Carvalho, representando cenas da vida de S. Nicolau e uma alegoria à Fé, Esperança e Caridade e a antiga Capela do Santíssimo, revestida de mármores, com tecto de cúpula e lanternim. Possui um núcleo museológico de arte sacra, que foi aberto em 1914.

 Igreja de São Nicolau |1955|
Rua da Vitória; Rua da Prata

Fotografia anónima, in Lisboa de Antigamente

O arco da capela-mor, em cujo centro se vêm as armas reais, e, acima, em pedra emoldurada de lavores, um nicho, sem imagem ou escultura;
A Capela-mor, que é a dependência mais antiga da reedificação, revestida de mármores, e nela:
O tecto, de abobadilha, representando, a fresco, a «Glória de S. Nicolau», pintura de António Manuel da Fonseca;
O altar-mor, guarnecido de colunas de mármore, coroado de urna composição escultórica na qual se vêem os emblemas de. S. Nicolau; a imagem do Santo bispo pa droeiro; quatro tribunas, duas por cada lado.
 Igreja de São Nicolau [c. 1910]
Rua da Vitória; Rua da Prata

Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

O recheio da Igreja apresenta elementos provenientes de outros conventos da cidade, nomeadamente do Convento de São Francisco da Cidade, relicários e talha dourada do Convento da Esperança, paramentos do Convento dos Lóios e do Mosteiro de Alcobaça.
Esta igreja integra a Lisboa Pombalina, que está classificada como Conjunto de Interesse Público.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Monumentos históricos, 1944.

Saturday, 8 October 2016

Palácio do Machadinho

Aquele Pinto Machado, que tinha o seu palácio na Rua do Machadinho — diminutivo que nasceu do apelido do fidalgo —, foi quem fez rasgar, depois de 1758, uma serventia já desenhada desde 1680 — «Caminho Novo» — na quinta de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, por alcunha o «Quelhas», quinta na qual o fidalgo tinha sua casa, que bem pode ter sido aquela onde assentou o palácio dos Pintos Machados. 

 

A Rua do Machadinho, de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo («Lisboa de Lés a Lés») foi a «Rua do Acipreste» que já em 1805, no Livro de óbitos da freguesia de Santos, surge como Rua do Machadinho, topónimo «dado pelo vulgo em razão de nela ser erguer [no nº 20 da artéria] o Palácio do Machadinho, assim conhecido por ter sido mandado restaurar ou edificar por José Machado Pinto, fidalgo cavaleiro da Casa Real, Coronel de Auxiliares e administrador geral do Contrato de Tabaco, que nele faleceu em 22 de Abril de 1771, deixando viúva D. Isabel de Sousa Ventaga (ou Vetingão)».

Palácio do Machadinho |c. 1940|
Rua do Quelhas, 13; Rua do Machadinho, 18-22; Beco do Machadinho (muro); Travessa dos Inglesinhos
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Na segunda metade do século XVIII, José Pinto Machado, o Machadinho, fidalgo da Casa Real, torna-se proprietário de um palácio seiscentista à Madragoa, empreendendo uma campanha de reedificação, ampliação e redecoração do edifício. Após a sua morte sucedem-se os proprietários e inquilinos, dos quais se destacam o poeta António Feliciano de Castilho e seu filho, o olisipógrafo Júlio de Castilho. Adquirido pelo município, em 1948 é alvo de um grande restauro que recriou o esplendor perdido graças à reutilização de azulejos provenientes de outros edifícios da cidade. Destaca-se o salão com tectos estucados por João Grossi. O jardim foi redesenhado pelo arq.º Ribeiro Telles.

Palácio do Machadinho, portão com pedra de armas |1968|
Rua do Machadinho, 20
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Entre os painéis de azulejo que ornamentam as salas do piso nobrefigurando cenas mitológicas, profanas (festas galantes) que ornamentam algumas salas reconhecem-se, pelo desenho e composição, conjuntos diversos, datáveis período joanino. Nos jardins reconhece-se uma construção de planta hexagonal (casa de fresco), coberta por cúpula revestida de azulejo, bancos e conversadeiras revestidos com azulejos polícromos setecentistas (reaproveitados). A pedra de armas é um escudo partido, ao 1º de Pintode prata com 5 crescentes de vermelho postos em sautore ao 2º de Machado de vermelho com 5 machados de prata encabados de ouro postos em sautor. Como timbre : um elmo com dois machados em aspa.

Palácio do Machadinho, portão e pedra de armas |1968|
Rua do Quelhas, 13; Rua do Machadinho, 18-22; Beco do Machadinho (muro); Travessa dos Inglesinhos
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VII, p. 33, 1938.
cm-lisboa.pt/toponimia; monumentos.pt.

Sunday, 29 September 2024

Igreja de São Domingos

S. Domingos — Dilecto — é uma crónica viva de Lisboa, com as suas imediações da Praça da Figueira, com o seu trânsito obrigatório, pela Rua Barros Queiroz e Calçada do Garcia, formigueiros de gente, que desce dos Anjos, dos bairros novos, ou de Sant'Ana velha. [...]

Junto do templo dominicano, assentava, crê-se que já antes de se erguer o Convento, a pequenina ermida de N. Senhora da Purificação, da Escada, de grande nomeada na Lisboa velha; o seu lugar era onde está a Casa de Candeeiros, que foi de Tomé de Barros Queiroz, bom cidadão de Lisboa (...)»

Igreja de São Domingos [c. 1910]
Rua Barros Queirós; Largo de S. DomingosGinjinha do Rossio
A velha Igreja de São Domingos ficava junto à ermida de Nossa Senhora da Escada, também conhecida por Nossa Senhora da Corredoura, por ficar próximo do sítio deste nome, actualmente a Rua das Portas de Santo Antão, e cuja construção datava dos princípios da monarquia.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Tendo sido lançada a primeira pedra no ano de 1241, e alvo de sucessivas e diferentes campanhas de obras que lhe foram alterando e adicionando a traça primitiva, data de 1748 a reforma efectuada na capela-mor pelo arqº Ludovice, acabando por ser a única zona do templo poupada ao terramoto de 1755. Seguidamente, a igreja foi reconstruída por Manuel Caetano de Sousa, que reaproveitou o portal e a sacada sobrejacente pertencentes à Capela-Real do Paço da Ribeira.
Em termos formais, esta Igreja conventual denuncia uma arquitectura barroca, de planta em cruz latina. Enquanto que exteriormente é caracterizada pelas suas linhas simples, o interior ainda revela alguma da sua notória riqueza ecléctica. Assim, serão dignos de realce, não apenas o aspecto grandioso de todo o espaço interior, como os próprios mármores e pinturas, infelizmente hoje desaparecidos.

Era notável a sua riqueza em alfaias preciosas, havendo uma imagem de prata maciça, que saía em procissão num andor do mesmo metal, alumiada por lâmpadas também de prata. As pinturas dos altares, os paramentos, os tesouros, tudo desapareceu durante o terramoto de 1755, salvando-se unicamente a sacristia e a capela-mor, mandada fazer por D. João V e riscada pelo arquitecto João Frederico Ludovice, em 1748 - homem que projectou o colossal Convento de Mafra. A capela-mor, toda de mármore negro, e em cujas colunas se vêem, junto à base, medalhões delicadamente cinzelados, que também avultam sobre os nichos laterais.
 
Igreja de São Domingos |Inicio séc. XX|
Perspectiva longitudinal do interior da Igreja
A Capela-mor, edificada em 1748 por Ludovice e acabada por João António de Pádua é rematada
por um arco de volta perfeita que marca a outra extremidade da abóbada de berço e possui quatro
grandes colunas sem capitel que delimitam o receptáculo do Sacrário com porta de bronze. O conjunto
é rematado por formação escultórica ladeando o registo central, duas mísulas com as estátuas de
S. Domingos e S. Francisco. Nas paredes laterais, janelas ao nível do grupo escultórico superior.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

Em 13 de Agosto de 1959, um violento incêndio destruiu por completo a decoração interior da igreja, onde constavam altares em talha dourada, imagens valiosas e pinturas de Pedro Alexandrino de Carvalho. A igreja recebeu obras e reabriu ao público em 1994, sem esconder as marcas do incêndio, como as colunas rachadas. Ainda que destruída, é uma igreja que sobressai pela policromia dos seus mármores. 
Actualmente é a igreja paroquial da freguesia de Santa Justa e Santa Rufina, em plena Baixa Pombalina e foi classificada como Monumento Nacional. Expõe metade do lenço usado por Lúcia no dia 13 de Outubro de 1917 (a outra metade encontra-se no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Fátima) e ainda o terço usado por Jacinta Marto no mesmo dia.

Igreja de São Domingos, abside e torre sineira |c. 1950|
Rua Dom Duarte cruzamento com a Rua da Palma  e Rua Barros Queirós
Numa passagem para a sacristia, com entrada pela Rua da Palma, encontram-se os túmulos do grande pregador dominicano Fr. Luís de Granada (m. 1588) e do reformador da ordem Fr. João de Vasconcelos (m. 1652). Esta igreja tem ainda uma cripta abobadada e dotada de lambris de azulejos, onde está o túmulo de D. João de Castro, capelão de D. João. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. XII, p. 80, 1939.
CARRIÇO, Hugo Miguel, Informação sobre igrejas de Lisboa, 2017.
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