Showing posts sorted by relevance for query Madalena. Sort by date Show all posts
Showing posts sorted by relevance for query Madalena. Sort by date Show all posts

Sunday, 7 February 2016

Igreja da Madalena

Eis-nos no Largo da Madalena — na companhia de Norberto de Araújo — , defronte da Igreja de manuelino pórtico. Antes do Terramoto (sempre o Terramoto...) este templo já tinha a sua frente na orientação de hoje, olhando para a Rua dos Ourives da Prata que então aqui corria, serventia estreita endireitando ao Terreiro do Paço, e que a actual Rua da Madalena apenas sobrecortou no lanço entre o último quarteirão de casas da Rua de S. Julião, e aquele exactamente onde se encosta a Igreja.
Estes sítios foram desafogados nos séculos XIV e XV, e de boa nomeada.

Igreja da Madalena, portal manuelino da fachada principal. escadaria |190-|
Largo da Madalena, Rua de Santo António da Sé
Paulo Guedes,
in Lisboa de Antigamente

O actual templo é de construção posterior ao Terramoto (1767- 1783), obra do arquitecto João Paulo, e assenta nas mesmas bases sobre as quais se erguia, antes, a antiga e real Igreja de Santa Maria Madalena, muito recuada de história e de fundamento, pois é certo existir em 1164 (se não antes), e ter sido reedificada no ano de 1262. Ardeu em 1372, por ocasião do primeiro cerco castelhano a Lisboa, visto ficar fora da Cerca Moura, e foi depois restaurado; padeceu estragos em 1600, foi novamente beneficiado em 1692, e, havendo resistido ao Terramoto, foi devorado no dia imediato pelo incêndio que se seguiu ao cataclismo, e que só poupou, e em parte, a sacristia. Do antigo templo só existe hoje o pórtico manuelino da fachada, considerado monumento nacional, e que ficara de pé em 1755.¹

Igreja da Madalena, portal manuelino da fachada principal. escadaria |c. 1900|
Largo da Madalena, Rua de Santo António da Sé
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Em 1783 a nova igreja é aberta ao público, na festa da padroeira, a 22 de Julho. E em 1798 é construído o adro avançado sobre a rua.
Símbolo da arquitectura religiosa pombalina, revivalista e neo-manuelina, o portal neo-manuelino onde assentam duas esferas armilares, tem fortes afinidades formais com o portal da Igreja do Convento da Madre de Deus.
Foi objecto de alguma contestação quanto à sua proveniência, permanecendo ainda a tese de que o mesmo portal veio da extinta Igreja da Conceição dos Freires, a actual Igreja da Conceição Velha.
Da nova Igreja, merece destaque a decoração no seu interior: mármores, talha e as pinturas da autoria de Pedro Alexandrino. As esculturas foram executadas por Machado de Castro e José de Almeida.²

Igreja da Madalena, portal manuelino da fachada principal. escadaria |c. 1910|
Largo da Madalena, Rua de Santo António da Sé
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 14, 1938.
² cm-lisboa.pt.

Tuesday, 11 October 2016

A corcova da Rua da Madalena

Não. A corcova da Rua da Madalena não foi adquirida com o tempo e portanto não deve ser tomada como uma certidão de idade.   A rua é corcovada desde que nasceu e a sua existência não conta ainda,  relativamente, muitos anos.
   A primeira vez que vemos citar a Rua da Madalena é em 1766. Mas não se pense que eram já muitos os edifícios que a emolduravam. Pelo contrário, eram pouquíssimos, tão poucos que se poderia dizer que era uma rua sem casas. Calcule o leitor que dois anos depois, em Abril de 1768, eram apenas três os prédios que se erguiam na rua! Do lado do nascente dois, os quais tinham sido mandados edificar por João Gonçalves e por D. José de Meneses; do lado do poente um que pertencia à congregação de Nossa Senhora da Doutrina. No entanto, na praça que se abria ao cimo dos dois lanços da rua — praça que se chegou a denominar da Bela Vista — já se tinha erguido um grande edifício, o dos irmãos Caldas, João e Luís, e no qual nesse ano, morava o francês Jacome Ratton, grande industrial e amigo e admirador de Pombal. Tinha ido para ali em 1766.
   1940 — -Tempos que passaram.
(MACEDO, Pastor de, in Olisipo: boletim do Grupo «Amigos de Lisboa», 194, n-º 57, p. 58)

Rua da Madalena (ca. 1910)
Postais de Lisboa, Autor desconhecido

A Rua da Madalena, como o nome indica, advém da proximidade à Igreja de Santa Maria Madalena, que já existia seguramente em 1164, mandada edificar por D. Afonso Henriques junto à Cerca Moura, em terrenos onde existiu um templo romano dedicado a Cibeles, a deusa-mãe.

Sunday, 9 April 2023

Sítio das Pedras Negras: Prédio do Almada

Este prédio alto que olha o Largo, entre a Rua da Madalena e a Travessa do Almada, encostado pelo posterior à Travessa das Pedras Negras, foi construído, num aspecto que não diverge muito do actual, em 1749, por João Manuel de Almada e Melo, visconde de Vila Nova de Sotto de El-Rei, tenente general, paroquiano, que no sítio das Pedras Negras outras mais casas edificou. Desse Almada — recorda Norberto de Araújo — veio o nome à Travessa e ao prédio, pois ainda há quem o designe por aquele título.

Largo da Madalena, 3-5 6 |1901|
O «Prédio do Almada» sofreu modificações nos séculos XIX e XX — foi-lhe acrescentado
uma fiada do lado nascente — hoje porta com o n.º 6À esq., a Rua da Madalena e, à dir.,
a Travessa do Almada.

Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Lisboa está cheia de testemunhos da força inconsciente das tradições orais. O edifício — aliás sensaborão — , n.°ˢ 3 e 5 [6] do Largo, tem, como vês, seis andares, além dos estabelecimentos em loja; há quem suponha ter ele pertencido a um ramo da família Pombal, no começo do século passado. [...] Neste edifício funcionou, durante algum tempo, no século passado [séc. XIX], o Senado da Câmara de Lisboa. [...]

Prédio do Almada visto da Travessa do Almada |1901|
À dir., a Travessa das Pedras Negras e, ao fundo, o Largo da Madalena.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Na parede do edifício Almada desta Travessa estão embebidas quatro lápides e pedras romanas, que podes ler e ver sem dificuldade. Foram encontradas soterradas neste local, em 1749, quando o tal João de Almada e Melo ordenou aberturas de novos caboucos para erguer sua propriedade. Este sítio foi fértil em achados arqueológicos, do tempo da dominação romana. Mas falemos por agora apenas destes. 
A maior [a 3ª lápide nas  imagens abaixo] corresponde, na legenda latina, a uma dedicatória de Lisboa a um pretor. Pode traduzir-se deste modo: "Felicitas Julia, Olisipo, dedica a Lúcio Cecílio, filho de Lúcio Celeri, recto questor da província da Bética, tribuno do povo e pretor”

Prédio do Almada, fachada lateral sobre a Tv. do Almada |190-|
O edifício integra na sua fachada nascente quatro lápides com inscrições romanas, conhecidas como Lápides das Pedras Negras.
José A. Bárcia
, in Lisboa de Antigamente

 

Esta primeira lápide, no começo da Travessa, está incompleta; é, na melhor das interpretações, uma dedicatória de certo Caio Júlio a Mercúrio e a César Augusto.
A lápide a seguir [2ª lapide abaixo], sobre uma pequena coluna, diz justamente, no seu latim, que "Tito Licínio Amarântio por voto dedicou à mãe dos deuses” [Cibele].
Esta outra da extremidade  [4ª lapide abaixo], mais decorativa, tem a legenda completa. Interpreta-se desta forma: Tito Licínio Cerno, natural de Lychaonia, dedicou à mãe dos deuses, a grande Ida da Frígia, sendo nobres duúnviros Cássio e Cassiano , e cônsules nobilíssimos Marco Atílio e Afroniano, e sendo governador Gaio".
Mas deixemo-nos de deuses e de cônsules; o muito interessante deste assunto (por aqui foram encontradas algumas dezenas de monumentos epigráficos romanos) excede os nossos planos. 

Prédio do Almada, lápides romanas, pormenor |194-|
Ad quatro lápides dedicadas aos deuses Mercúrio e Cibele. Classificadas como Monumento Nacional, desde 1910, foram descobertas aquando da construção do prédio, juntamente com imponentes ruínas romanas.
in Lisboa de Antigamente

Mas subamos: eis-nos na "Avenida" do sítio: a Rua das Pedras Negras, que abrange por um lado e outro três quarteirões , a ligarem a Rua da Madalena com a Sé .⁼⁼
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. II, p. 16, 1938)

Friday, 14 April 2023

Escadinhas de Santa Justa

Aqui temos as Escadinhas de Santa Justa, que levam à Rua da Madalena, e em cuja esquina do lado de cima, se deu o pavoroso «incêndio da Madalena», na madrugada de 10 de Abril de 1907.
Existiu aqui, à entrada das Escadinhas — recorda o ilustre Norberto de Araújo — a paroquial de Santa Justa, uma das primeiras de Lisboa, fundada — crê-se — em 1166. A Igreja sofreu incêndio no dia seguinte ao do Terramoto. Pensou-se em construir outra neste local, precisamente onde se elevou depois esse prédio enorme, com os armazéns da Companhia do Papel do Prado [actual Pollux]; a paroquial instalou-se mal, numa parte logo edificada, mas as obras demoravam, veio o regime liberal (1833), e Santa Justa, paroquial, transitou para a Igreja de S. Domingos. Instalou-se então aqui um batalhão da Guarda Nacional de Lisboa, que durou até 1838; depois o edifício que, como igreja nunca se chegou a concluir, converteu-se em teatro, o «Teatro de D. Fernando», que existiu até 1860. Só depois se realizou a urbanização do local (1863-1864). 

Escadinhas da Rua de Santa Justa |c. 1945|
Escadinhas que ligam a Rua dos Fanqueiros à Rua da Madalena (ao cimo)
Fernando Pozal, in Lisboa de Antigamente

O que sobreviveu (até que a municipalidade se esforce em o apagar) — afirma, por seu lado, Mestre Castilho — é apenas o titulo do orago. O largo de Santa Justa, e as escadinhas ou travessa [Rua] de Santa Justa, são os últimos padrões que nos ficaram d'isso tudo!

Escadinhas da Rua de Santa Justa |1971|
Escadinhas que ligam a Rua da Madalena  à Rua dos Fanqueiros (ao fundo)
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, pp. 40-41, 1939.
CASTILHO, Júlio de,  Lisboa antiga, vol. IV,  1885, 

Thursday, 2 July 2015

Rua da Madalena

A Rua da Madalena, como o nome indica, advém da proximidade à Igreja de Santa Maria Madalena, que já existia seguramente em 1164, mandada edificar por D. Afonso Henriques junto à Cerca Moura, em terrenos onde existiu um templo romano dedicado a Cibeles, a deusa-mãe. 
 
Rua da Madalena [Poço do Borratém] [5-10-1910]
Arthur Benarus,in Lisboa de Antigamente

Sunday, 21 August 2016

Convento do Sacramento

Estamos na Rua. do Sacramento. Antecedido por um pátio, defendido da rua por uma cortina de grades, aqui tens um antigo casarão conventual, edifício dependente do Ministério da Guerra, que desde 1916 o destinou a Depósito de Material de Aquartelamento do Exército.1


Perto de Alcântara, à Rua do Sacramento, encontra-se um edifício que foi convento de religiosas Dominicanas, o quarto mais antigo fundado pela Ordem. Por escritura do início do séc. XVll (1605), foram seus benfeitores D. Luís de Portugal e sua mulher, D. Joana de Castro e MendonçaCondes de Vimioso, que viriam a recolher-se à vida conventual na casa que a Ordem primeiramente possuiu em S Vicente de Fora. Foi portanto aí que em 1607, a Condessa de Vimioso e outras 6 freiras se congregaram: 4 do convento de Santa Catarina de Évora; 1 da Anunciada; 1 do convento de Jesus de Aveiro; tendo como prioresa Madre Isabel de Jesus.
Em 1612, D. Aleixo de Meneses, Primaz da Índia e de Espanha, lançou a primeira pedra do novo convento do Sacramento, mudando-se as freiras, 4 anos depois, para Alcântara. [...] Concluída a igreja em 1620, foi refeita em 1636 com arquitectura mais agradável, sob a direcção do vigário do Convento (e do Conselho Geral do Santo Ofício) Frei João de Vasconcelos.

Convento do Sacramento  (Convento do Santíssimo Sacramento/Convento dos Vimiosos) [c- 1940]
Rua do Sacramento, 51
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Em 1614, outro casal trilhou o mesmo rumo conventual: neste Mosteiro professou  D. Madalena de Vilhena, sob o nome de Soror Madalena das Chagas, a mulher de D. João de Portugal (o Romeiro do drama «Frei Luiz de Sousa» de Almeida Garrett); D. Madalena de Vilhena, supondo seu marido morto em Alcácer Quibir, casara com D. Manuel de Sousa Coutinho, que foi depois o erudito Frei Luiz de Sousa, famoso dominicano. (ARAÚJO, 1939)  
Com o terramoto de 1755 sofreu o Convento do Sacramento estragos de pouca monta, segundo parece, em virtude dos «gigantes» que lhe sustentavam as paredes.
Após a extinção das Ordens Religiosas e a implantação da República, aqui se instalou a Academia das Ciências de Portugal, fundada por Teófilo Braga, passando depois para os militares, como Departamento Geral de Material de Aquartelamento.²

Convento do Sacramento  (Convento do Santíssimo Sacramento/Convento dos Vimiosos) [1968]
Rua do Sacramento, 51
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 13, 1939.
² CAEIRO, Baltazar Mexia de Matos, Os conventos de Lisboa, p. 116, 1989.

Friday, 3 July 2015

Rua dos Condes de Monsanto que foi da Bitesga

Por Edital de 28-08-1950 a Rua da Betesga ficou limitada pela Praça da Figueira e de Dom Pedro IV. Até então, a antiga Rua da Betesga — vulgo da Bitesga — , estendia-se desde a Praça Dom Pedro IV até ao Poço do Borratém. Este  troço da Rua da Betesga —  entre a Rua dos Fanqueiros e Poço do Borratém  — passou a denominar-se Rua dos Condes de Monsanto.

Pelo mesmo edital, a Rua dos Fanqueiros, antiga da Princesa antes Rua Nova da Princesa, que até 1950 se prolongava até à Rua da Palma, passou a terminar na actual Praça da Figueira. Confuso? Para melhor compreensão ver carta topográfica aqui.

Rua dos Condes de Monsanto, 5 de Outubro de 1910
Antigo troço da Rua da Betesga; ao fundo, o Poço do Borratém e a Rua da Madalena.
Artur Benarus, in Lisboa de Antigamente

Toda esta área — recorda-nos o ilustre Norberto de Araújo — hoje contida entre a Rua dos Álamos, o princípio da Velha Rua dos Canos, a Rua da Praça da Figueira toda até à Betesga e daí ao Poço do Borratém e Marquez do Alegrete (no encontro com os Áamos) pertencia, com excepção de alguns pedaços, à Casa dos Condes de Monsanto e Marqueses de Cascais descendentes e herdeiros de D. Leonor da Cunha, mulher do famoso jurisconsulto João das Regras; [...] [Araújo: 1938]

Rua dos Condes de Monsanto, 5 de Outubro de 1910
Antigo troço da Rua da Betesga com a Rua dos Fanqueiros [troço integrado, desde 1910, na actual Praça da Figueira; ao fundo, o Poço do Borratém e a Rua da Madalena.
Artur Benarus, in Lisboa de Antigamente

Friday, 4 October 2024

Ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros

As Rua Nova da Alfândega e a Rua da Ribeira Velha [actual Rua do Instituto Virgílio Machado] passaram a constituir um único arruamento, com a denominação de Rua da Alfândega, por edital do Governador Civil de Lisboa de 1 de Setembro de 1859, em razão do edifício da Alfândega que ocupa todo o lado sul desta Rua, uma construção pombalina posterior ao terramoto de 1755 que veio substituir a alfândega quinhentista que se situava aproximadamente onde hoje confluem as Ruas do Comércio e da Madalena.
De acordo com o olisipógrafo Pastor de Macedo, a partir de 1755 a parte oriental da rua era a Ribeira Velha que só em 1836 aparece como Rua da Ribeira Velha, enquanto a parte compreendida entre o Terreiro do Paço e a Rua dos Arameiros foi denominada como Rua Direita da Misericórdia (1766), Rua da Misericórdia de Baixo (1780), Rua dos Freires da parte de baixo (1787), Rua da Conceição dos Freires da parte do mar (1799) e Rua Nova da Alfândega (1806).

Rua da Alfândega |Início séc. XX|
À esquerda, a Rua dos Arameiros e à dir. o edifício da antiga Alfândega [hoje Min. Finanças].
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente

De acordo com Gomes de Brito, pelo mesmo Edital do Governador Civil de 1 de Setembro de 1859, as Ruas dos Bacalhoeiros e dos Confeiteiros foram mandadas reunir em uma só, sob a designação de «Bacalhoeiros». A dos Confeiteiros, que anteriormente a 1755 se denominava «Rua de Cima da Misericórdia» principiava no Arco Escuro (Campo das Cebolas) e findava na rua da Madalena. [Brito: 1935]

Ruas da Alfândega e dos Bacalhoeiros (dir.) | c. 1900|
Ao centro vê-se o antigo Terreirinho das Farinhas composto por um renque de seis
pequenos núcleos de casas sito entre a Rua dos Arameiros e o Campo das Cebolas e demolido na
década de 1940.

Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

Saturday, 29 July 2017

Igreja dos Freires da Conceição Velha ou Conceição Velha (antiga da Misericórdia)

Ora bem, Dilecto — expressão com que habitualmente Norberto de Araújo interpela o leitor — mais tem que ver a Rua dos Bacalhoeiros, em 1755 designada Rua de Cima da Misericórdia, e depois, e até à dos Arameiros, aberta depois do Terramoto, chamada dos Confeiteiros.
E da Misericórdia, porquê? Porque no chão onde se eleva hoje um quarteirão de propriedades sólidas, entre as Ruas dos Bacalhoeiros e da Alfândega, se ergueu no começo do século de quinhentos a Igreja do Recolhimento da Misericórdia.
Pois metamos já por esta transversal da Rua dos Arameiros, e vamos ver o que resta desse templo manuelino, chamando, desde a segunda metade do século XVIII, da Conceição Velha. Quedemo-nos sob o majestoso pórtico. Duas breves notícias de história, que é simples, afinal.
   A instituição das Misericórdias foi obra, como já disse quando passámos pela Sé, e por S. Roque, da Rainha D. Leonor. A primeira Confraria, instalou-se na Capela de N. Senhora da Piedade, vulgo da Terra Sôlta no claustro ogival da Sé, em 15 de Agôsto de 1498.
   Prosperou a Confraria, ou seja a Misericórdia de Lisboa, reconhecendo-se pouco depois que a capela claustral da Sé era mesquinha para sede da instituição. D. Manuel, irmão da Rainha fundadora, viúva de D. João II, projectou, não se sabe ao certo o ano, mas seguramente depois de 1510, erguer neste chão — que era ocupado por vários edifícios públicos, como o Paço do Trigo, a Portagem, o Paço da Madeira — um majestoso templo e Casa para Misericórdia, a obra querida de sua irmã, inspirada por freire Miguel Contreiras.
   Era o tempo opulento da Índia e do Brasil, caracterizado pela sumptuosidade na arquitectura religiosa. A obra — templo, Recolhimento das Orfãs e Casas da Misericórdia — só se concluiu em 1534, tempo de D. João III, já havia falecido (1525) D. Leonor. A Igreja ostentava-se de três naves, sendo a abóbada apoiada ao centro por seis colunas monolíticas (de mármore?) e por mais catorze laterais, pilares de sustentação da cobertura; as casas anexas ocupavam quatro pavimentos.
   Obra notável era, de precioso recheio. Orientada no sentido poente-nascente, a porta principal com seu adro rasgava-se, de começo, para o Largo da Portagem, prolongamento, então da Rua da Padaria; a sua porta travessa, a sul, é hoje o portal desta Conceição Velha (já vou dizer, porque se chama Conceição Velha).

Igreja da Conceição Velha [ant. 1900]
À esquerda, a Rua dos Arameiros em direcção ao Campo das Cebolas
Rua da Alfândega, 112-114 
Augusto Bobone, in Lisboa de Antigamente

   Veio o Terramoto. Aluiu e incendiou tudo. Do templo escaparam este pórtico magnífico, a Capela do Espírito Santo, hoje Capela-mor, e uma ou outra imagem.
   D. José ordenou que se reedificasse a Igreja, mas a Misericórdia andou de empréstimo por aqui e por ali, até que ocupou a Casa dos Jesuítas de S. Roque.
   A nova igreja, já num estilo bastardo da arquitectura religiosa, cujo risco é de Francisco António Ferreira, o «Cangalhas», foi entregue aos freires de Cristo de Nossa Senhora da Conceição, cuja Casa e templo haviam ardido também.
   Aquela Igreja da Conceição [vd. gravura] que ocupava uma antiga sinagoga dos judeus, situava-se próximo à Madalena, caindo sobre a actual Rua dos Fanqueiros junto ao quarteirão cujas traseiras são a Rua dos Douradores; fora N. Senhora da Conceição dada aos freires de Cristo em troca da Ermida do Restelo, derrubada para se erguer os Jerónimos, e chamava-se, por oposição, «a Velha» (paroquial em 1568), porque em 1698 se construíra outra sede paroquial de N. S. da Conceição «Nova» — desaparecida também pelo, Terramoto — e que se localizava onde passa hoje a Rua da Prata, segundo quarteirão do sul, então Rua Nova dos Ferros.
   E como foram os freires da Conceição Velha que para a antiga Misericórdia vieram em 1770, esta Igreja que temos à vista se passou também a chamar da Conceição Velha.
   Falta dizer que nunca estes chãos foram de sinagoga e de judeus, (como anda escrito), ou sítio de uma Vila Nova de Gibraltar, que nunca existiu, versão esta que corre derivada de um dos raros erros do grande Herculano, e que mestre Vieira da Silva teve a felicidade de poder desfazer, sem deixar qualquer espécie de dúvida.
Ficaste sumariamente a par do que isto foi, e como e porque foi.

Vista de Lisboa [1598?-1610?]
(clicar para  ampliar)
Olissippo quae nunc Lisboa, civitas amplissima Lusitaniae ad Tagum, totius orientis... emporium nobilissimum
Autores: Georg Braun, gravador (1542-1622) e Franz Hogenberg, geógrafo (1535-1590)
Esta gravura, colorida à mão e gravada em cobre, faz parte da colecção "Civitates Orbis Terrarum" publicada entre 1572 e 1618. Representa  a cidade de Lisboa com Armas Reais e as Armas de Lisboa ladeando uma rosa dos ventos e com os edifícios e espaços públicos numerados correspondente a uma legenda na parte inferior e superior..

Assinalados no mapa: 
Antiga Igreja da Misericórdia, actual Conceição Velha
Primitiva Igreja da Conceição
Terreiro do Paço, actual Praça do Comércio
Sé Patriarcal de Lisboa

Agora contempla o Pórtico — antiga porta travessa lateral —, obra de peregrinos lavrantes da pedra: ali tens, sobre a porta geminada, dentro do arco, o quadro escultórico, pormenor largo historiado desta bela peça arquitectónica, e que representa N. Senhora da Misericórdia, de manto aberto [sustido por dois anjos], tendo de joelhos, a seus pés, de um lado D. Manuel, D. Leonor, e alguns príncipes, e do outro o Pontífice Leão X, freire Miguel Contreiras — o inspirador das Misericórdias —, e algumas figuras da Igreja. Este quadro admirável esteve retirado deste seu lugar, desde 1818 a 1880, substituído por uma grade iluminante da Igreja, e colocado numa capela da nave, então de N. Senhora das Mercês.

Igreja da Conceição Velha, aguarela [s.d.]
Pórtico de estilo manuelino
Rua da Alfândega, 112-114 
Autor desconhecido, in Lisboa de Antigamente

De cada um dos lados do Pórtico rasga-se uma formosa e decorativa janela, avolumando a beleza deste conjunto plástico, que o frontão alto de remate avilta até à mesquinhez.
Como observas, esta peça solta de arte, encravada entre prédios vulgares do século passado [XIX], é de puro estilo manuelino, do tipo dos pórticos dos Jerónimos, posto que menos grandioso e exuberante.
A-pesar-de, aparte o pórtico, a Conceição Velha não ser famosa, ela merecia mais dilatada visita; se deste templo mais quiseres saber recomendo-te o livro «A Igreja da Conceição Velha», de Filipe Nery de Faria e Silva (1900).

Igreja da Conceição Velha [c. 1940]
Capela de Nossa Senhora do Restelo ou do Parto, quadro
oferecido pelo Infante D. Henrique aos freires.
Rua da Alfândega, 112-114 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Vejamos agora o templo no seu interior — prossegue o autor das Peregrinações — obra do final de setecentos, cuja torre sineira se encrava em propriedades particulares. (...)
À direita vemos a Capela de N. Senhora do Restelo  [vd. imagem acima], ou do Parto — pela circunstância de a Virgem, sentada numa cadeira (esta de madeira) ter o Menino Jesus nu sobre os joelhos. Esta imagem, em pedra pintada, é o venerando monumento dêste templo, relíquia da imaginária religiosa portuguesa; pertenceu à primitiva Ermida de N. Senhora do Restelo, doada em 1460 pelo Infante D. Henrique aos freires de Cristo, e adveio de Sagres onde o Infante teve sua Casa, sendo por consequência anterior à Ermida, podendo atribuír-se-lhe meio milhar de anos de idade (há receio de se lhe tocar por correr o perigo de se desfazer).
_______________________________________________________________________________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, pp. 16-19, 1939.

Thursday, 25 February 2016

Escadinhas de São Cristóvão

As Escadinhas de São Cristóvão ficam no centro histórico da capital, no bairro da Mouraria. Estas movimentadas escadas, que ligam a Rua de São Cristóvão à Rua da Madalena, são local de passagem de muitos lisboetas e zona de comércio local e restaurantes. 

Escadinhas de São Cristóvão [1953]
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

Este arruamento e os envolventes (Rua e Largo de São Cristóvão) devem o seu nome à Igreja de São Cristovão, de que são adjacentes, e onde assentou a antiga igreja de Santa Maria de Alcamim, no séc XIII.

Escadinhas de São Cristóvão [1953]
O painel de azulejo foi substituído em 1969 por um baixo-relevo representando São Cristóvão.
Fernando Martinez Pozal, 
in Lisboa de Antigamente

Monday, 4 January 2016

Palácio Marialva (Quinta Real da Praia)

Aí temos — diz Norberto de Raujo — , à esquina da Rua de Bartolomeu Dias e da Praça Dom Vasco da Gama [hoje «do Império»], e até há um mês [1939] dentro de um recinto circundado de muros a cair e de vedações provisórias, demolidos já, um edifício, precedido de um Pátio, pelo qual se entra por um portal antigo, armoriado, que se mantém de pé, por milagre.


O antigo palácio, ou casa de campo, da «Quinta Real da Praia», dito também «de Marialva» e, depois, «de Loulé» [onde é hoje o Centro Cultural de Belém], na Praça do Império em Belém, tornejando do lado Sul-Poente para a Rua Bartolomeu Dias, é uma fundação, de seu irreconhecível núcleo primitivo, do século XVI, transformada no século XVII. Pertenceu esta quinta ribeirinha a D. Manuel de Portugal, filho do l.º Conde Vimioso, poeta, amigo de Camões, e que morreu em 1606; este D. Manuel de Portugal foi também o possuidor (1669) da quinta que chegou aos Condes de Aveiras, adquirida por D. João V. De D. Mam1el passou a uma filha, D.  Joana, e  depois foi comprada por Rui da Silva, sogro do l.º Conde de S. Lourenço, Pedro da Silva, do qual transitou para sua filha D. Madalena, que casou com seu primo Martins Afonso de Melo, 2.° Conde de S. Lourenço, falecido em 1671. Era então chamada a  Quinta de S. Lourenço. A viúva do 5.º Conde, D. Rodrigo de Melo e Silva, vendeu esta quinta com casa nobre a D. João V, passando a propriedade a ser conhecida por «Quinta Real da Praia».

Palácio Marialva (Quinta Real da Praia) [1931]
Rua Bartolomeu Dias/Praça do Império

Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

Depois do Terramoto o Rei D. José presenteou o seu amigo D. Pedro de Meneses, seu estribeiro-mor, e 4.º Marquês de Marialva, com esta agradável estância solarenga e quinteira, e deste fidalgo foi herdada por seu filho D. Diogo José, 6.º Marquês, casado com D. Margarida, filha do 8.º Duque de Cadaval, entrando a  seguir na posse do 6.º Marquês, D. Pedro José, falecido sem descendência, e transitando assim para uma filha do 5.º Marquês, D. Maria Margarida, que era Marquesa de Loulé.

Panorâmica sobre Belém, vê-se o palácio da Marialva, o mercado e a fábrica de gás de Belém [ant. 1949]
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Nesta família se conservou, chegando a  José Pedro Folque, que foi quem em 1929 vendeu ao Estado toda a propriedade — então muito diferente do que fôra, já sem torreões, mas ainda com seu pátio orientado a Nascente — para ali se instalar a Faculdade de Letras, ideia posta de parte, passando a ocupar o palácio, em Fevereiro de 1929, o Liceu D. João de Castro, que pouco tempo ali demorou. Logo em Março instalou--se no velho palácio o Comissariado da Exposição do Mundo Português, sendo eliminado o pátio fidalgo, e  o edifício sujeito a obras sumárias no exterior. Em 1941 o edifício passou a sede da extinta comissão administrativa das obras da Praça do lmpério, e em 1946 instalou-se nele a comissão administrativa das obras da Universidade de Coimbra.
A casa nobre «da Praia» foi restaurada ou reedificada nos meados do século X\VII, e, depois, em 1727. Hoje [1939] é apenas uma sombra setecentista, com raros documentos de seiscentos.

N.B. Foi demolido em 1962.
 
Panorâmica sobre Belém tomada do Mosteiro dos Jerónimos, vê-se o palácio da Marialva [1937]
Praça do Império  com a Rua Bartolomeu Dias
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, 1946.

Friday, 11 April 2025

Rua da Judiaria

Judiaria (Rua da) Principia no largo de S. Rafael, e finda no Arco do Rosário. Freguesia de Santa Maria Maior. Houve em Lisboa várias judiarias que, tais como o vocábulo indica, eram bairros habitados por judeus, do mesmo modo que os muçulmanos tinham as suas «mourarias». A actual rua é o único vestígio que existe da «Judiaria d'Alfama», extinta em 1496.
[BRITO, Gomes de) Ruas de Lisboa. Notas para a história das vias públicas, 1935]

Rua da Judiaria,  antes das obras de remodelação |1960|
Rua da Judiaria vista do Arco Rosário.
Apontamento para as graciosas janelas a espreitar do murete que quasi as encobre. 
Salvador de Almeida Fernandes, in Lisboa de Antigamente

Não se comporta aqui uma notícia, sucinta que seja, acercar das Judiarias de Lisboa — recorda por seu lado o ilustre Norberto de Araújo — olisipógrafo que legendou Lisboa.
Em apontamento posso dizer-te que aquela existente neste sítio no século xv era chamada Judiaria da Alfama, ou a «Pequena», por oposição à «Grande» que existiu onde se ergueu a Conceição Velha, à Madalena, desaparecida pelo Terramoto. Esta Judiaria, como todas, foi extinta em Dezembro de 1496, como acima vimos, por D. Manuel, logo no ano seguinte aquele em que subiu ao trono: foi o presente de noivado à fanática D. Izabel, gentil viúva de seu primo o Príncipe D. Afonso, filho de D. João II, morto aos 17 anos.
E os judeus foram-se do Reino — violência que só prejudicou o país — e as judiarias ficaram desertas.
Aí a temos hoje — morta

Rua da Judiaria |1960|
Rua da Judiaria
 cachorrada, do terraçoadarve que foi da muralha
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Respira-se, porém, neste recanto ou betesga um arcaísmo, de que este brasão da muralha é o mantenedor silencioso. Observa daqui a silhueta desluzida quem quer saber destas velharias? da cachorrada, do terraço, adarve que foi da muralha [erigida em 1375 por El-Rei D. Fernando], e o apontamento das graciosas janelas a espreitar do murete que quasi as encobre.  [Araújo: 1939, X, 48]

Rua da Judiaria no velho bairro d'Alfama |1911|
Tem a vetusta rua da Judiaria uma feição pronunciadamente arcaica; e o seu principal
brasão é a altissima muralha de cantaria de uma casa grande á esquerda de quem sobe,
casa cuja frente dá sobre a rua de S. João da Praça, e que julgo ser a do citado João Vogado,
escrivão da fazenda d'El-Rei D. Affonso V.
Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), in BNP

Thursday, 2 March 2017

Igreja de S. Cristóvão

Estamos diante de S. Cristóvão, no Largo pequeno que tem a Sul, defronte do templo as Escadinhas que levam à Rua da Madalena. Encosta-te à cortina: observa-me essas minúsculas casitas, do principio do século passado, acumuladas, em capricho de intersecção, graciosas na suas escadas exteriores, e melancólicas no seu ar de condenadas perante um urbanismo racional. 

 
Não reparaste que apenas pelo enunciado — S. Cristóvão tem uma ressonância bairrista? Ora vejamos o templo, que do seu começo esteve isolado, e só mais tarde foi rodeado de casas e, por consequência, de betesgas, naquele amontoado indisciplinado que caracterizava os focos de população crescente nos séculos da primeira dinastia.

 

Igreja de São Cristóvão, fachada principal [c. 1900]
Largo de São Cristóvão
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

A igreja primitiva remonta talvez a finais do século XII, denominada então Igreja de Santa Maria de Alcamim. Há notícia que durante o reinado de D. Manuel I a igreja sofreu um incêndio que a deixou totalmente destruída. Em 1610 é restaurada e em 1671-72 dá-se a conclusão das obras. No século XVIII, resistiu globalmente ao Terramoto de 1755, mantendo-se a fachada maneirista da igreja característica do século XVII. 

Igreja de São Cristóvão, fachada lateral [c. 1900]
Calçada Marquês Tancos
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente


O tecto da nave tem pintura ornamental exuberante, apresentando 15 quadrelas desenvolvendo-se em torno do painel central, composto por figuração de anjos ao redor de uma custódia barroca. Possui 44 telas de Bento Coelho da Silveira, de finais do século XVII. Sabe-se que «contam a história de S. Cristóvão, falam de S. Francisco, de Santo António, dos jesuítas S. Francisco Xavier e Santo Inácio de Loyola, falam sobre o Céu», mas estão quase ilegíveis, aliás, tudo está em risco devido à infiltração de água pelo telhado.

Igreja de São Cristóvão, traseiras [c. 1900]
Rua da Achada
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

________________
Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 52, 1938.
cm-lisboa.pt.

Friday, 28 June 2019

Rua dos Fanqueiros

A Rua dos Fanqueiros — diz Norberto de Araújo — é o primeiro produto que eu te mostro da imaginativa simétrica dos arquitectos de Pombal.
Destinada aos mercadores de fancaria, de lençaria e de quinquilharia — se para estes houvesse espaço — começou por chamar-se Rua Nova da Princesa (e ali tens o dístico no cunhal da Rua), e, por vezes, Rua Bela da Princesa por analogia cem a Rua Bela da Rainha (Rua da Prata), ou simplesmente Rua da Princesa. Vinte anos depois do Terramoto era Rua Nova dos Fanqueiros, e, depois, Rua dos Fanqueiros.

 

Rua dos Fanqueiros [1911]
 Rua de Santa Justa; Comemoração do 1.º aniversário da República.
António Novais, in Lisboa de Antigamente

A estrutura urbanística da cidade de Lisboa foi largamente determinada pelo terramoto extremamente intenso que destruiu grande parte do núcleo urbano em 1 de Novembro de 1755. O sismo e o vasto incêndio que se lhe lhe seguiu causaram cerca de 10 000 mortos e perdas materiais incalculáveis em edifícios e bens patrimoniais móveis. Na ausência do Rei D. José, que temia regressar à capital, o longo e complexo processo de reconstrução foi dirigido por Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro do Reino e futuro Marquês de Pombal.

Rua dos Fanqueiros, 39-40 [c. 1910]
«Drogaria e perfumaria Dias»
Após a requalificação toponímica de 1950, este troço foi integrado na actual Praça da Figueira, 11.
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

A sua parte principal define-se entre o Terreiro do Paço e o Rossio, regularizando as duas praças tradicionais e criando, de uma para outra, uma rede de ruas longitudinais e transversais, cortando-se em ângulos rectos, com importância variada que é expressa pela largura dos seus leitos, passeios (e esgotos), inovação nos hábitos urbanos. Do terreiro ribeirinho partem três ruas «nobres»: Áurea, Augusta e Bela da Rainha (da Prata), das quais as duas primeiras desembocam no Rossio e a outra contra a fachada lateral do velho Hospital Real de Todos-os-Santos que daria sobre o Rossio mas que, não sendo reconstruido (passou ao Convento de Sant'Antão/S. José), abriu espaço para uma praça paralela a este, onde se instalou, primeiro provisória e depois definitivamente, um mercado (Praça da Figueira). Ainda duas ruas paralelas a estas, Nova da Princesa (dos Fanqueiros) e da Madalena, têm igual comprimento, enquanto outras três, na mesma direcção, se entremeiam, a partir da terceira das três grandes vias transversais a contar do Terreiro do Paço — a primeira das quais e a Rua Nova d'El-Rei (do Comércio) que adoptou, corrigindo-a geometricamente no alinhamento, a direcção da velha e famosa Rua Nova dos Ferros. Entre todas estas ruas definem-se também quarteirões longitudinais e transversais, num ritmo dinâmico que vitaliza a malha urbana, salvando-a da monotonia aparente.

Rua dos Fanqueiros, 152-160 [c. 1910]
Após a requalificação toponímica de 1950, estes prédios correspondem aos números de polícia 34-44, junto à Rua do Comércio.
Alberto Carlos Lima, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 38, 1939.
FRANÇA, José-Augusto, Lisboa: Urbanismo e Arquitectura, pp. 45-46, 1980.
Web Analytics