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Sunday, 19 April 2026

O Sítio de Alcântara

Dizer Alcântara na toponímia lisboeta é, só por si, compor um quadro de movimento e de febril agitação bairrista — recorda Norberto de Araújo, o grande enamorado de Lisboa. Alcântara foi um lugar, um sítio; é um bairro, uma zona com individualidade e consciência. Tudo gira em Alcântara: fábricas, oficinas, linhas, ruas — vidas.
O que em Alfama é estático é, em Alcântara dinâmico. Este bairro tem azougue.
O seu pitoresco é de cosmograma. Não existe neste rincão da Cidade nada de contemplativo. Apenas nas Necessidades, com seu jardim, com seu obelisco, com o seu palácio e na sua tapada — mora o repouso. Persiste ali um pedaço de beleza e gracilidade de miradouro. É a mancha aristocrática e requintada do bairro. 

Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Antigo Largo de Alcântara 
À dir. destaca-se o prédio setecentista — pombalino e altaneiro — referido mais à frente por Norberto Araújo,   
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1965|
Remodelação da Rotunda de Alcântara, devido à construção do acesso à ponte sobre o Rio Tejo; à dir. observa-se o antigo Eden Cinema
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

Alcântara urbanizada não leva duzentos anos: de arrabalde fez-se cidade em fins de setecentos. Mas é lisboeta de casco e sumo. Rescende alguma coisa de um passado evocativo. Já lá não está a ponte de Alcântara com S. João Nepomuceno. Mas o Prior do Crato resiste no letreiro da artéria principal do bairro. Do tempo velho ficaram e falam deliciosas legendas: Baluarte, Trabuqueta, o Arco, as Fontainhas, a Triste-Feia; a Horta Navia — saudade de Alcântara quinhentista, o Fiúza — reminiscência de Alcântara palaciana, o Sacramento — evocação de Alcântara conventual.
Foram-se os marinheiros rude golpe no coração do bairro! — ; ficou a Praça da Armada com seu Neptuno de tridente no Chafariz. O risonho vale de Alcântara vai-se sumindo, mas nas lombas do Alvito e da Cruz das Oliveiras demora-se a expressão popular campesina que ficou do rústico antigo.
O prédio setecentista cor-de-rosa da quina poente-sul do Largo — pombalino e altaneiro — é com a sua famosa adega do «Sete-e-Sete» — o padrão bairrista de Alcântara [vd. 1.º imagem à dir.]: cinco gerações o contemplaram — sequiosas.
Pequeno mundo alfacinha, vizinho do Calvário, da Pampulha, da Avenida da India — desentranha-se em vida. É o pregão cantante do trabalho. Contido entre a Serra e Tejo, possui a índole atávica de um poeta, a alma rude, nostálgica de um mareante.==

Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Vista tomada da R. da Quinta do Jacinto — onde brincam os ganapos. Ao fundo nota-se o pináculo da torre sineira do Palácio das Necessidades.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente
Praça General Domingos de Oliveira |1966|
Rua de Alcântara (esq-) e acesso à ponte sobre o Rio Tejo.
Artur I. Bastos, in Lisboa de Antigamente

N.B. A edilidade lisboeta, através  edital de 18/08/1966, presta homenagem ao General Domingos de Oliveira atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade. [1943-1974 - Actas da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa]
Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira (1873–1957) foi presidente do Conselho de Ministros em 1920, ministro interino da Justiça, membro vitalício do Conselho de Estado (1949) e oficial-general do Exército. A sua carreira reúne inúmeros louvores e condecorações, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis e a da Ordem Militar da Torre e Espada.

Fotografia aérea da zona industrial de Alcântara |1950-04|
Caminho de ferro; Palácio das Necessidades; Estação de Alcântara-Terra e Mercado de AlcântaraVale de Alcântara...
Garcia Nunes, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 142-143, 1943.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, 1939.

Sunday, 9 March 2025

Avenida Dom Carlos I que foi «das Cortes»

Avenida rasgada em 1889 com a denominação Avenida das Cortes atribuída em 1918. Antiga Avenida do Presidente Wilson (até 1948), antes Rua Dom Carlos I, antes Rua Duque de Terceira (1866), antes Rua dos Ferreiros a Esperança, antes Rua dos Ferreiros a Santa Catarina) e Travessa Nova da Esperança.

Avenida Dom Carlos I |c. 1900|
Troço entre a Rua do Merca-Tudo e a Calçada Marquês Abrantes (dir.) 
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

Carlos Fernando Luís Maria Victor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon e Saxe-Coburgo-Gota, foi o penúltimo Rei de Portugal. Nasceu em Lisboa, no Palácio da Ajuda, a 28 de Setembro de 1863, e morreu na mesma cidade, no Terreiro do Paço, a 1 de Fevereiro de 1908. Era filho de D. Luís I e de D. Maria Pia de Sabóia.
O seu reinado vai de 19 de Outubro de 1889 até 1 de Fevereiro de 1908 e é caracterizado por constantes crises políticas e consequente insatisfação popular.
No seu reinado deram-se também as revoltas no ultramar, desde a Guiné a Timor.
D. Carlos distinguiu-se como pintor de talento e cientista, especialmente na oceanografia.
Estabeleceu uma profunda amizade com Alberto I, do Mónaco, igualmente apaixonado pelas coisas do mar. Como consequência desta “aliança” nasceu o Aquário Vasco da Gama, que pretendia, em Portugal, desempenhar um papel semelhante ao do Museu Oceanográfico do Mónaco.

 

Avenida Dom Carlos I |c. 1900|
Troço entre a Calçada Marquês Abrantes e a Rua do Cais do Tojo (dir.).
Nota(s): A Antiga Fábrica de Gessos Raul Ennes Ramos supõe-se que estivesse relacionada com os estucadores de Afife (Viana do Castelo), bem conhecidos pela sua hábil mestria.
Machado & Souza, in Lisboa de Antigamente

 

Foi também um excelente agricultor, tendo tornado rentáveis as seculares propriedades da Casa de Bragança, produzindo vinho, azeite, cortiça, entre outros produtos, tendo também organizado uma excelente ganadaria e incentivado à preservação dos prestigiados cavalos de Alter.
Grande apreciador das tecnologias que começavam a surgir no início do século XX, instalou a luz eléctrica no Palácio das Necessidades e fez planos para a electrificação das ruas de Lisboa.
Ficou conhecido pelo cognome de O Diplomata devido às múltiplas visitas que fez pela Europa.
Foi numa das suas viagens à Europa que conheceu a sua futura esposa, a princesa francesa D. Amélia de Orleães. Após um curto noivado, vêm a casar, em Lisboa, na Igreja de S. Domingos, a 22 de Maio de 1886. (in mosteirobatalha-pt)

 

Avenida Dom Carlos I |c. 1930|
Troço entre a Rua do Cais do Tojo e a Rua Dom Luís I (ao fundo) na direcção da Av. 24 de Julho.
Nota(s): Fábrica de gessos Serafim Ramos.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 9 February 2025

Rua Possidónio da Silva que foi da Fonte Santa

Há em Lisboa uma Rua da Fonte Santa, nome que se mudou em «de Possidónio da Silva». Sem dúvida Possidónio foi um benemérito da pátria, a quem a Arqueologia nacional muito deve, mas podia o seu nome ser imposto a uma nova, isto é, ainda inominada, e conservar-se o de Fonte Santa, que se liga a concepções míticas e religiosas da antiga Lisboa, da Lisboa pré-cristã. Estas substituições, porém, são por via de regra intempestivas, porque o povo, na sua prudência secular, despreza as apelações camarárias, e continua a adoptar as que ele já conhecia, herdadas de seus avós.

Isto dito, decidiu a CML através do seu Edital de 17/05/1897 homenagear Joaquim Possidónio Narciso da Silva pelos relevantes serviços que prestou à classe operária inválida, fundando, em 1864, o Albergue dos Inválidos do Trabalho — hoje Inválidos do Comercio no nº 204 neste arruamento.

Rua Possidónio da Silva |1961|
Ao fundo a Rua Santo António à Estrela, 35 e a Casa de Santa Zita da Estrela antes solar dos Aires de Ornelas.
Artur Goulart, in Lisboa de Antigamente

Joaquim Possidónio Narciso da Silva (1806-1896) partiu para o Brasil com apenas um ano de idade, acompanhando o seu pai, um mestre-geral dos paços reais destacado para o Rio de Janeiro. Aí cresceu, regressando a Portugal já com 21 anos para estudar nos ateliers de Sequeira e Sendim.
Em 1824 partiu para Paris para frequentar o curso de Arquitectura da École des Beaux-Arts, que concluiu quatro anos depois, e onde foi discípulo de Charles Percier. Passou dois anos em Roma, e voltou para Paris, onde participou das obras do Palais Royal e das Tulherias.
Regressou a Portugal apenas no final de 1833, tornando-se arquitecto da Casa Real e trabalhando nos palácios da Pena, de São Bento e das Necessidades, traçando também o Palácio do Alfeite. Em 1863 fundou a Associação dos Arquitectos. Porém, as suas ideias, marcadas pela Restauração francesa, não foram bem acolhidas em Portugal, razão pela quais muitos dos seus projectos para teatros, academias e um palácio real, foram recusados.

Rua Possidónio da Silva |1945|
Antiga da Fonte Santa: escadinhas de acesso ao Chafariz da Fonte Santa, junto ao n.º 111.
Fernando Martinez Pozal, in Lisboa de Antigamente

N.B. Em 1882, o escultor francês Anatole Vasselot fez um busto de bronze de Possidónio da Silva mas este nunca permitiu a divulgação da sua imagem em nenhum meio até à sua morte e assim, este busto apenas foi inaugurado em 5 de julho de 1968, colocado sobre um pedestal de pedra na Praceta da Rua Possidónio da Silva.

Rua Possidónio da Silva |1964|
Antiga da Fonte Santa junto ao n.º 25.
Arnaldo Madureira, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 2 February 2025

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano

Nos primeiros anos do século XX, paralela à antiga Estr. de Sacavém e prolongando para Norte a Rua da Palma, é aberta a Av. Almirante Reis que, na sua primeira fase, terminará junto ao hospital de Arroios, na actual actual Praça do Chile. Rasgada no último período da monarquia. Quantos lisboetas saberão hoje quem foi este Almirante Reis que deu o nome a uma das mais importantes artérias citadinas? Chamava-se Carlos Cândido dos Reis (1852-1910), foi vice-almirante da marinha de marinha de guerra e um dos grandes instigadores e organizadores da revolução de 5 de Outubro de 1910. Construída sobretudo com prédios de rendimento, destinada a uma classe média de cariz republicano, o nome caiu-lhe bem. E ficou.

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano (Intendente) |1966|
Junto à Tv. Cidadão João Gonçalves com o Castelo encimando a imagem.
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

A Avenida tem sofrido alterações diversas. Começou por ser ladeada de árvores, ao gosto da época; só que as necessidades de época (e de todas as épocas afinal; só que as necessidades de trânsito se tornam prioritárias), para ser depois alargada e «modernizada» no início da década de quarenta. No meado do seculo8 XX dá-se inicio à construção do Metropolitano.

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano |1965-05|
Junto ao antigo Cinema Lys (Roxy) no cruzamento com a Rua dos Anjos.
Artur J. Goulart, in Lisboa de Antigamente

A sociedade Metropolitano de Lisboa, é constituída a 26 de Janeiro de 1948 e tinha como objectivo o estudo técnico e económico, em regime de exclusivo, de um sistema de transportes colectivos fundado no aproveitamento do subsolo da cidade. A concessão para a instalação e exploração do respectivo Serviço Público veio a ser outorgada em 1 de Julho de 1949.
Os trabalhos de construção iniciaram-se em 7 de Agosto de 1955 e, quatro anos depois, em 29 de Dezembro de 1959, o novo sistema de transporte foi inaugurado.
O 1º escalão de construção da rede foi concretizado em fases sucessivas. Assim, em 1963 entra em exploração o troço Restauradores/Rossio, em 1966, o troço Rossio/Anjos e, por último, é completado em 1972 com a ligação Anjos/Alvalade.

Avenida Almirante Reis: obras do Metropolitano (Anjos) |1966|
Junto ao eixo Rua de Angola/Rua Febo Moniz
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ADRAGÃO, José Victor & PINTO, Natália, RASQUILHO, Rui, Lisboa, vol. 2, 1985.
metrolisboa.pt

Friday, 8 November 2024

Panorâmica da Estrela tomada do zimbório da Basílica da Estrela

Do majestoso zimbório da Basílica da Estrela — a que se pode ascender depois de galgados mais de 200 degraus — o panorama de que ali se desfruta é dos mais belos de lisboa. 

Se da maioria dos pontos altos de lisboa se avista a parte antiga da cidade — recorda o Guia de Portugal (1924) —  o que aqui domina inteiramente no conjunto é a  cidade moderna. O espectáculo torna-se por isso mais claro e mais alegre, variado ainda pela abundância de pequenos bosques e jardins, desdobrados como numa grinalda. Logo a O. a tapada da Ajuda, hoje já muito rarefeita, e a mole enorme do palácio; mais para cá a mancha verde do parque das Necessidades, e a seguir a parada sombria dos ciprestes dos Prazeres. Ao longe desdobra-se o espinhaço de Monsanto, e mais além e a NO. as alturas de Sintra. Para o N. abrange-se a cidade nova, e logo em baixo repousa o olhar a frondosa espessura do Jardim da Estrela, continuada ao fundo com os belos ciprestes do cemitério dos Ingleses. A E. avista-se o Castelo, a torre de S. Vicente e mais abaixo as da , um pouco perdidas na massa escura dos telhados. Ao S. abre-se enfim, maravilhosa de luz e de amplidão, a enseada do Tejo, a melo da qual se ergue o pontal de Cacilhas, avançando no rio como a proa duma nau.

Panorâmica da Estrela tomada do zimbório da Basílica da Estrela |entre 1926 e 1936|
Vêem-se os terrenos onde virá a ser rasgada a Avenida Infante Santo nas décadas de 1940/50, o Hospital da Estrela, antigo Convento do Sagrado Coração de Jesus, um trecho do Aqueduto das Aguas Livres [demolido], uma nesga do Tejo e a Outra Banda.
António Passaporte,  in Lisboa de Antigamente

Nota(s): Conforme o Edital de 13 de Maio de 1949 «o arruamento em construção, que ligará a Avenida 24 de Julho à Estrela, compreende parte da Rua Tenente Valadim, desde o término da curva do prédio do Estado (Instituto Maternal); parte da Travessa dos Brunos prédios nºs 22 e 24 e, ainda, a Rua da Torre da Pólvora» passou a ser a Avenida Infante Santo.

Obras para abertura da Avenida Infante Santo |1949|
Junto ao Hospital Militar Principal, à Estrela
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 9 June 2024

Avenida do Brasil: Hospital Júlio de Matos

A construção do então chamado «Novo Manicómio de Lisboa ou do Campo Grande», ficou em grande parte a dever-se ao entusiasmo e influência do psiquiatra Júlio de Matos (1856-1922) - que acabou justamente por dar o nome ao hospital, tendo sido considerado um dos melhores da Europa, na época da sua inauguração em 1942.
A edificação, em Lisboa, de um hospital psiquiátrico moderno, capaz de satisfazer as necessidades de assistência, do ensino e da investigação científica foi possível graças ao grande prestígio de Júlio de Matos junto dos primeiros governantes do regime republicano e ao valor testamentário do empresário António Hygino Salgado d’Araújo, falecido em 24 de Junho de 1911.
Em Testamento, de 16 de Abril de 1910, este benemérito legou prédios, urbanos e rústicos. O valor destes legados foi avaliado, ao tempo, em cerca de cento e quarenta contos de réis, verba destinada à construção, na cerca de Rilhafoles, de um Pavilhão (cujo custeio foi calculado em cerca de vinte contos de réis) destinado à observação de doentes mentais, antes da sua admissão definitiva no Hospital.
Contrariamente  ao  que  se  tem  veiculado,  António Hygino Salgado d’Araújo  nunca  esteve hospitalizado no Manicómio Bombarda. (Rilhafoles).

Vista panorâmica dos edifícios e da Avenida do Brasil |c. 1942|
A Avenida do Brasil foi anteriormente designada como Avenida do Parque (1906) e Avenida Alferes Malheiro (até 1948), o revoltoso esquecido do 31 de Janeiro de 1891.
Horácio Novais, in Lisboa de Antigamente

Em concordância com o seu pensamento e o dos arquitectos Leonel Gaia e Carlos Chambers Ramos, o tipo de hospital escolhido foi o de pavilhões (em número de 33), de côr rosa, dispostos de forma funcional numa área de 14,5 hectares. Nestes, os doentes seriam agrupados em pequenas unidades de 8 a 10 doentes, para evitar a influência de uns sobre os outros. Numa área de 22 hectares, a ornamentação arbórea foi cuidadosamente planeada, graças à inclusão, entre 1942 e 1943, numa vasta equipa técnica, de um arquitecto paisagista, Prof. Caldeira Cabral e de um engenheiro agrónomo e silvicultor, Prof. Azevedo Gomes.

Avenida do Brasil: Hospital Júlio de Matos |1944|
Júlio de Matos terá adquirido (…) uma parte substancial dos terrenos (…)
[ao preço de] três tostões o metro quadrado (…).
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Panorâmica sobre o Hospital Júlio de Matos |191-|
A construção compreende o período de 1914, Julho. O início da primeira fase de construção, Julho de 1914 (a 1932), foi marcado pelo eclodir da Primeira Guerra Mundial, na qual Portugal esteve envolvido a partir de 1916. Este facto contribuiu para que o ritmo das obras e a qualidade da construção decaíssem.
José A. Bárcia, in Lisboa de Antigamente

A primeira fase de construção compreende o período de 1914, Julho, a 1932. Tem como Presidente, da Comissão, o professor Júlio de Matos e, como vogais, o engenheiro D. Luís de Melo Correia, e, o arquitecto Leonel Gaia.
A segunda fase, compreende o período de 1933 a 1942. Tem como Presidente da Comissão, o professor Sobral Cid, sucessor de Júlio de Matos, o neurologista Almeida Dias, o arquitecto Carlos Chambers Ramos, o engenheiro Leote Tavares e o coronel Ricardo Amaral, representante da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
Aqui se realizaram algumas cirurgias de lobotomia pré-frontal no seguimento do trabalho do Nobel professor Egas Moniz. O hospital é um projecto muito ambicioso no sentido do melhoramento das condições da medicina psiquiátrica em Portugal.

Fotografia aérea de Alvalade |195-|
Vermelho: Hospital Júlio de Matos
Verde: Av. Gago Coutinho
Azul: Avenida do Brasil antiga Alferes Malheiro
Amarelo: Av. D. Rodrigo da Cunha
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente
 
Bibliografia
chpl.min-saude.pt
trienaldelisboa.com

Sunday, 28 April 2024

Rua Dom João V

Este arruamento foi rasgado no meado da década de 1940 [vd 2ª imagem] na anterior «Rua A à Rua das Amoreiras». O topónimo foi atribuído pela edilidade em 22 de Junho de 1948.
O Edital de 22 de Junho de 1948 veio confirmar a proposta da Comissão de Toponímia datada de 8 de Junho do mesmo ano, que atribuía os topónimos aos novos arruamentos à Rua das Amoreiras, homenagem que incidiu nas seguintes personalidades: Dom João V (Rua A), Custódio Vieira (Rua B), Dom Tomás de Melo Breyner (Rua C) e Cláudio Gorgel do Amaral (Rua D). 

Rua Dom João V |195-|
Perspectiva tomada a partir do terraço do reservatório da Mãe de Água das Amoreiras. 
Helena Corrêa 
Barros, in Lisboa de Antigamente

Dom João V (1689-1750) foi o vigésimo quarto rei de Portugal, e o seu reinado, 1707-1750 (ano da sua morte), foi um dos mais longos da História portuguesa. Nasceu a 22 de Outubro de 1689, e foi aclamado rei a 1 de Janeiro de 1707. Adquire o cognome de «Magnânimo» devido à promoção de obras grandiosas como o Convento de Mafra edificado para agradecer o nascimento do seu primeiro filho varão.
O monarca marcou Lisboa com a construção do imponente Aqueduto das Águas Livres. A ele se deveu também a construção do Convento das Necessidades e da Igreja de Santa Engrácia, transformada no século XX em Panteão Nacional.

Panorâmica tirada da Mãe de Água sobre a Quinta do Biaggi vendo-se a abertura da futura Rua Dom João V |1943-06]
Atalaia (ou mirante?) existente na Quinta do Biaggi.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

Friday, 15 March 2024

Cantina Escolar de Alcântara

A Cantina Escolar de Alcântara, inaugurada a 25 de Julho de 1909, estava vocacionada para a protecção das crianças da Escola Asilo S. Pedro de Alcântara, Sociedade Promotora de Educação Popular e Escola Paroquial das Necessidades. Funcionava em terreno cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, na Rua de Alcântara, n.º 27. Tinha uma grande sala de refeições e uma grande sala de banho para banhar as crianças. A primeira refeição foi servida a 50 crianças. Os sócios da cantina eram 400. Em 1910 contava com 900 sócios e alimentava 200 crianças.
(RIBEIRO, Lia. A popularização da cultura republicana: 1881-1919, pp. 178-179, 2011)

Rua de Alcântara, 27 |1909|
Cantina Escolar de Alcântara, instalada no edifício da escola central n.º 76 
Joshua Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Sunday, 15 October 2023

O Cinema Lumiar e a Calçada de Carriche

Inaugurado em 1968 com o filme japonês "Shaka" (aka Budda, 1961), no original, e por cá com o título "O Reino de Buda", encerrou para férias no dia 1 de Junho de 1982 e não voltou a reabrir. 
O Cinema Lumiar fazia descontos nos bilhetes a algumas colectividades da zona, nomeadamente ao Clube de Santo António dos Cavaleiros. 

A história do Cinema Lumiar é mais difícil de traçar do que a dos outros cinemas que pontuam a expansão da cidade. O facto de ter sido concebido já na década de 60, a circunstância de ter podido beneficiar de uma significativa alteração na lei que regulamentava a construção deste tipo de edifícios e a exigência de ter de se adaptar às mudanças que se imprimiam na zona tornam-no, realmente, num caso particular. Esta situação pode ser vista como um efeito de um conjunto de factores que se conjugou ou como decorrente dos condicionalismos que existiam no lugar para onde foi projectado. De qualquer modo, trata-se de um cinema de bairro, quer dizer, de um cinema que serve a freguesia do Lumiar e todo um conjunto de zonas limítrofes, suja influência no projecto não pode ser iludida nem deixada de fora no momento de o analisar. O seu traçado tem, assim, m sentido que importa verificar e afirma-se numa espécie de particularidade formal que o distingue dos outros cinemas que os novos bairros da cidade se construíram.
 
Cinema Lumiar |1977|
Calçada de Carriche, 38; Rua Comandante Fontoura da Costa (entrada)
Fachada do Cinema Lumiar traçado pelo arq.º José Croft de Moura em 1962.
Vasques, in Lisboa de Antigamente

Traçado por José Croft de Moura em 1962, o Cinema Lumiar não tem, por assim dizer, antecedentes que o expliquem. O arquitecto trabalha a partir das possibilidades que a lei lhe dá integra-o entre dois edifícios de habitação, dotando-o de uma sala com uma lotação de 800 lugares, que era servida por dois foyers e por um palco, cuja vantagem se justificava nas necessidades culturais que o novo aglomerado de prédios teria. Sabe-se que a encomenda partira da empresa Cruz & Cruz que promovera uma urbanização local num terreno denominado Quinta da Nazaré, e que o seu intuito era construir uma sala de espectáculos de modo a imprimir alguma animação zona. A implantação do edifício apoiou-se, por conseguinte, no próprio traçado da urbanização e integrou se com naturalidade no contexto que definia as edificações vizinhas. Deste modo, a unidade do conjunto foi assegurada e garantiu-se uma relação de continuidade com os prédios que lhe eram contíguos. Mas mais importante ainda foi o facto de o Cinema Lumiar ter sido capaz de se insinuar neste núcleo urbano de uma forma quase tão discreta como as mudanças que se observavam na legislação que regulamentava a construção das salas.

Cinema Lumiar, em obra |1967-10|
Calçada de Carriche, 38; Rua Comandante Fontoura da Costa (entrada)
O Cinema Lumiar fazia descontos nos bilhetes a algumas colectividades da zona, nomeadamente ao Clube de Santo António dos Cavaleiros.
Augusto de Jesus Fernandes, in Lisboa de Antigamente


A questão da sua integração no local prende-se, naturalmente, com os condicionamentos do lugar e com as tentativas que se fizeram no sentido de os superar, Se é verdade que o cinema se implantava entre os prédios que se erigiam na Estrada do Desvio, no Lumiar, não é menos certo que a sua entrada se fazia pela Rua Comandante Fontoura da Costa, uma artéria secundária que corria paralelamente à Calçada de Carriche, cujo novo traçado implicara um arranjo do local, alterando as referências da zona. 

 

Calçada de Carriche, |1938|
Entre muros e já com algumas construções.
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente

O sítio era há muito conhecido como uma das entradas de Lisboa que tinha uma especificidade própria. Em finais do século XIX, coincidia com a fronteira que separava Carriche da cidade, tendo-se mesmo construído um alto alto muro de cada um dos lados da antiga calçada que corria transversalmente os dois desfiladeiros que ali existiam e que servia de barreira fiscal. Quando, em 1922, é abolido o imposto sobre todas as mercadorias que entravam na capital, vindas dos campos de Loures, Bucelas, Odivelas, Caneças e Montemor, o sítio contava já com algumas construções que se estendiam pela do país indo localidade de Olival de Basto, onde se edificou uma Malaposta e algumas «vilas» que pouco se distinguiam entre si. Tal é a história do local onde se inseria a antiga e íngreme Calçada de Carriche, percorrida anos a fio por mulas e carroceiros que ostentavam as marcas de um viver que vigorava às portas de Lisboa .

Cinema Lumiar, em obra |31-10-1968|
Calçada de Carriche, 38; Rua Comandante Fontoura da Costa (entrada)
 Inaugurado em 1968 com o filme japonês "Shaka" (aka Budda, 1961), no original. Por cá estreou com o título "O Reino de Buda", encerrado para férias no dia 1 de Junho de 1982 não voltou a reabrir.
Cartaz de espectáculos» in Diário de Lisboa, in Lisboa de Antigamente

Bibliografia
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa, 2012
Diário de Lisboa

Sunday, 28 August 2022

Praça do Príncipe Real: a Patriarcal e a Praça do Rio de Janeiro

Estamos numa das praças mais lindas, e mais «alfacinhas» de Lisboa  — a Praça do Rio de Janeiro [e de novo, desde 1948, do Príncipe Real]. Deves ter no ouvido algumas das designações deste largo terreiro  e eu, — diz Norberto de Araújo —  sempre por curiosidade, tas relembro pela ordem das idades: «Chãos da Ferrôa» no século XVI, a mais antiga que se lhe conhece; «Alto da Cotovia», denominação que perdurou mesmo através de outros dísticos posteriores, municipais e populares; sítio das «Casas do Conde de Tarouca», cerca de 1755; «Patriarcal Queimada», depois de 1769; sítio das «Obras do Erário Novo», em 1810-1815; «Praça do Príncipe Real», em 1855; «Praça do Rio de Janeiro» depois de 1911.

Em boa verdade esta Praça é das mais modernas da capital, no seu aspecto urbano e paisagista; data assim de 1879. A sua regularidade é contudo notável, e respira um ar sadio, gozando desafogo, uma relativa tranquilidade, e oferecendo curiosos aspectos: pousio de «reformados» à sombra do velho cedro copado, com sessenta anos idade, brinco de crianças, jardim «de estar» dos nostálgicos e desocupados inocentes.
Pois, Dilecto, sentemo-nos também à sombra do cedro, ouvindo cantar o repuxo do lago, que mal se distingue no murmúrio afogado do conjunto entre o espesso arvoredo que tem resistido às devastações do tempo.

Praça do Príncipe Real |1940|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
A praça foi traçada em 1853 e o jardim, plantado em 1869, projecto do jardineiro João Francisco da Silva. Em termos urbanísticos é um exemplo do Romantismo das últimas décadas do século XIX.
«O Príncipe Real é um largo deliciosamente arborizado. Do seu harmonioso conjunto, destacam-se o majestoso cedro, considerado de interesse público, a deliciosa araucária e os formosos ulmeiros, também como tal distinguidos e as decorativas palmeiras. A «araucária columnaris» (araucária colunar — Nova Caledónia), de aspecto altaneiro e delgado, forma com o corpulento «cupressus», uma estranha parelha, que aos espirituosos frequentadores do recinto não passou despercebida, e por isso atribuem esse local de recreio o dito popular de Jardim do Bucha e do Estica». [Lisboa em quatro horas e Lisboa em quatro dias, 1895]
Judah Benoliel, in Lisboa de Antigamente

Um pouco antes de 1755, neste alto cômoro da Cotovia, sobranceiro sobre a ponta do Salitre e portas de Valverde — mais largo para norte do que é hoje [em 1938], depois de urbanizado — existia apenas o Palácio dos Penalvas, à esquina das actuais Escadinhas da Mãe d'Água, e ao fundo do curto Arco do Evaristo. No centro da actual Praça andava o Conde de Tarouca construindo um Palácio, e ao local, por isso, chamava o povo «Casas do Conde de Tarouca», e o povo crisma a seu bel-prazer os sítios e as coisas, de modo que as denominações acabam por entrar na linguagem oficial e, quando as Câmaras as alteram ou corrompem, levam lustros, levam até séculos a apagar-se.
O Terramoto abalou inteiramente o edifício Tarouca soerguido, resignando-se o fidalgo no infortúnio, e compondo versos sobre os destroços.
Como a Patriarcal, que estava assente na Capela Real do Paço da Ribeira, tivesse ardido no dia do horroroso cataclismo, deliberou-se, após hesitações, transferir a Basílica para os restos, de pé, do palácio Tarouca, na «Cotovia»; a bênção foi dada em 26 de Junho de 1756, e logo nesse ano se realizou uma procissão, depois repetida, que deu o nome à Rua da «Procissão» (desde há poucos anos denominada de «Cecílio de Sousa»). 

Praça do Príncipe Real |c. 1869|
Lago octogonal com repuxo; ao fundo notam-se as torres e zimbório da Basílica da Estrela. 
Ао repuxo dedicou Júlio de Castilho um hino de ternura, mais próprio de poeta, como o Mestre se mostrava muitas vezes: «Quando ele arroja, metros ao alto, as suas pérolas fluídas, decompondo a luz, sussurrando frescura, e espadanando-se todo vaidoso no azul da atmosfera, está, muito de industria, repassando as águas nos gazes aéreos que as vivificam e as tornam potáveis; pensa em nós; prepara para nós a melhor das bebidas; colabora na higiene da Cidade. Aquele tanque é um sábio: reconhece as leis da física; sabe que os líquidos, vindo de longe, impregnando-se do calcário dos canos, e morando lá em baixo às escuras, se tornam pesados; quer aligeirá-los , banhá-los de sol e de oxigénio. Aquele tanque é um poeta utilitário: mistura habilmente o Belo e o Bom. Olhemos pois com gratidão para esse pequenino Oceano de puríssimas linfas, que abastecem as cozinhas, e amanhã brilharão aos poucos nas nossas taças de cristal. [Lisboa Antiga: 1904]
Fotógrafo não identificado, in Lisboa de Antigamente

E a Igreja [armada em madeira] foi-se construindo, no edifício adaptado; era imponente: três naves, largo cruzeiro, quinze capelas, um zimbório oitavado, e anexos esplêndidos. Treze anos perdurou: a Patriarcal foi devastada por um terrível incêndio em 10 de Maio de 1769, obra criminosa de um empregado da Igreja, que pelo fogo queria ocultar seus sacrílegos roubos; foi justiçado, depois de lhe cortarem as mãos no próprio local onde os escombros fumegavam ainda. E aí está a origem da designação de «Patriarcal Queimada».[...]
As ruínas e montes de pedregulho ficaram por aqui durante dezenas de anos, ninho de valhacoutos. Em 1807 pensou-se em levantar no sítio o novo Erário Régio, a casa do Tesouro (pois ardera o do Rossio) mas o projecto, que era do Visconde de Vila Nova da Cerveira, não teve seguimento, embora se chegasse a começar a obra, e nela se gastassem alguns milhões de cruzados.
Em 1841 ainda o sítio continuava a ser vazadouro público e albergue de patifes. Só em 1856 se começou a terraplanar o local, que pouco depois recebeu iluminação. Já chamada «Praça do Príncipe Real», em 1859, começou então a estudar-se o seu aformoseamento, com a construção dum lago, por acordo entre a Câmara e a Companhia das Águas; os restos da «Patriarcal Queimada» foram então destruídos a tiros de pólvora.

Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 Localizado no subsolo da Praça, existe o Reservatório da Patriarcalprojectado em 1856 pelo eng. francês Mary. Construído entre 1860 e 1864 para servir a rede de distribuição de água da zona baixa da cidade. 
Eduardo Portugal, in Lisboa de Antigamente
Praça do Príncipe Real |1945|
Antiga Praça do Rio de Janeiro
 No centro da praça está o monumento-memória a França Borges, o jornalista fundador de «O Mundo», foi erigido em 1924; é obra de Maximiano Alves; à dir. observa-se destaca-se o Cedro-do-Buçaço, árvore secular com mais de 20 metros de diâmetro.
Ferreira da Cunha, in Lisboa de Antigamente

Em 1864 regularizou-se a disposição da Praça, tornando-a quadrada, e alinhando algumas edificações que entretanto se tinham erguido, o que tudo se concluiu em 1863. Construiu-se então a muralha sobre a Rua da Procissão e plantou-se este magnífico jardim, que estamos contemplando.
O «Príncipe Real» começou a existir, pequeno parque e logradoiro, com a sua ingenuidade, o seu repuxo e a sua «memória esquecida» de anteriores desgraças. E assim até hoje…==

Muralha da Praça do Príncipe Real sobre a Rua Cecílio de Sousa, antiga da Procissão |1960|
Terraço, com varanda, assente sobre muralha, que se ergueu em substituição da velha ribanceira, que por longos tempos existiu. Esta obra faz parte do arranjo geral da praça, foi concluída em 1864 e custou 3.208$400 réis. Numa lápida elucidativa, lê-se: «A Câmara Municipal mandou construir no ano de 1863». Por dois caminhos laterais, conduz à Rua da Procissão, que começou por chamar-se do Corpo de Deus e Cotovia ou simplesmente do Corpo de Deus. É hoje Cecílio de Sousa (desde 1926) a rua onde morou em 1869 o paciente bibliófilo Inocêncio Francisco da Silva, e se chamou desde 1756, ano em que, da nova Basílica Patriarcal, já implantada nas «Casas do Conde de Tarouca», saiu o grande cortejo religioso comemorativo do solene dia do Corpo de Deus.
Armando Serôdio,, in Lisboa de Antigamente

N.B. A Praça tem este nome em homenagem ao filho primogénito da Rainha D. Maria II, o futuro rei D. Pedro V — nasceu no Palácio das Necessidades, a 16 de Setembro de 1837, recebendo o nome de Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Vítor Francisco de Assis Júlio Amélio; morrendo no mesmo local, a 11 de Novembro de 1861.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, pp. 65-68, 1938.

Sunday, 10 October 2021

Palácio ou Paço das Necessidades

O Palácio ou Paço das Necessidades, com seus corpos de edifícios na parte Norte, e com sua fachada elegante e discreta, e da qual olhando o Tejo, avança a frontaria da Igreja, é, Dilecto, como observas, de um conjunto gracioso, e, como expressão arquitectónica, muito equilibrado.


Dilecto: o Palácio das Necessidades, como o de Belém constitui uma página viva da história política e realenga dos últimos cem anos. Escuso de te reavivar a memória. Não é indiferentemente que nos quedamos a olhar a sua fachada. Glórias e tragédias, alegrias e dores, confiança e certeza, fausto e penumbra — passaram por ele.
Não temos que o olhar com saudade, mas com um certo respeito comovido: não será do seu tempo aquele que for insensível às cousas do passado.

Palácio das Necessidades, pórtico da Capela, vendo-se o pináculo de Torre |c. 1900|
Largo das Necessidades
A Frontaria, sobre o Largo das Necessidades, em três corpos de edifício,  contínuos, adornados de vinte e quatro janelas de sacada, coroadas de ática; e  nela, como parte integrante, a frontaria da Capela.
Fotógrafo não identificadoin Lisboa de Antigamente

Deve-se a D. João V o Paço das Necessidades, hoje Palácio Nacional, e sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Desde 1607 que existia neste sitio do Alto de Alcântara uma ermidinha da invocação de N.ª Senhora das Necessidades, cuja irmandade foi constituída por marítimos da carreira da Índia. Meio século depois (1659) Pedro Castilho, servidor de D. João IV, comprou umas casas contiguas à Ermida, ampliando o piedoso sacelo [pequeno templo ou santuário] das Necessidades; no meado do século XVIII a Ermida e um largo prazo de terreno da Lapa (ou Cova) da Moura e da Ribeira de Alcântara pertenciam a um descendente daquele Pedro Castilho, Gaspar (ou Baltasar) Pereira Lago de Castilho. Foi a este que o Rei D. João V, que atribuiu a intercessão da Senhora das Necessidades à cura de uma grave doença (1742), comprou terrenos e casas com o tríplice objectivo de erguer uma nova igreja condigna, de edificar um paço real e de construir uma grande casa para os padres da Congregação do Oratório. O arquitecto Caetano Tomás de Sousa traçou o projecto, ficando a Igreja de N.ª Senhora das Necessidades integrada no Paço, e este contiguo ao convento e à sua larga quinta. As obras principiaram logo em 1748 e estariam concluídas em 1750.

Palácio das Necessidades |post. 1910|
Largo das Necessidades
O p6rtico da Capela, aberto por três arcos laterais entre quatro colunas, e por dois arcos laterais, e, nele, um vestíbulo ou galilé.
Paulo Guedes, in Lisboa de Antigamente
Palácio das Necessidades |1908|
Largo das Necessidades
A Guarda no Palácio das Necessidades após o Regicídio.
Alberto Carlos Limain Lisboa de Antigamente

O irmão de D. João V, infante D. Manuel, aventureiro militar da Europa, dado camo pretendente ao trono da Polónia, e que regressara à Pátria em 1784, foi o primeiro morador do novo Paço, ainda que por pouco tempo, e depois o seu irmão D. António. Até D. Maria, porém, os soberanos não residiram senão eventualmente nas Necessidades, servindo este Paço para hospedar príncipes estrangeiros (o príncipe de Gales, depois Jorge I V, por exemplo, e seus irmãos) ou algum infante da Casa de Bragança. D. Maria II é que fez das Necessidades residência habitual, assim como D. Pedro V e D. Estefânia (que nele morreram), D. Manuel II, que no Paço residia quando da revolução de 8 de Outubro de 1910.
Proclamada a República, o Palácio das Necessidades, como outros paços reais, entrou no património da Nação; esteve alguns anos encerrado até que em 1916 para ele se transferiu da ala Nascente da Praça do Comércio o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Palácio das Necessidades |c. 1870|
Largo das Necessidades
A varanda superior da Capela, e nela, as estátuas de S. Felipe Nery e de S. Francisco de Şales, obra de Alexandre Giusti, e ainda a estátua de S. Pedro, a um lado da porta, do mesmo escultor italiano, e a de S. Paulo, do outro lado, trabalho do escultor português António de Almeida.
Francesco Rocchini, 
in Lisboa de Antigamente

Interiormente, nas salas e mesmo nos pátios, foi, em várias épocas, o Palácio beneficiado, restaurado e transformado, nomeadamente em 1836 quando do casamento de D. Maria II com D. Fernando, cujas iniciais subsistiam entrelaçadas em muitos motivos decorativos, e em 1886 quando do casamento de D. Carlos com D. Maria Amélia de Orleans. Pode afirmar-se, porém, que a estrutura do Palácio é a original, pois o Terremoto de 1755 nenhuns danos lhe causou. De 1910 até à data variaram, porém, quási totalmente, as utilizações das salas e câmaras, adaptadas a repartições e gabinetes, sendo o recheio substituído e realizadas algumas transformações decorativas. A capela não tem culto desde 1910 e muitas das suas alfaias e imagens encontram-se no Palácio da Ajuda, em depósito. A antiga «Casa Forte das Necessidades» onde se guardava o «Tesouro», está vazia, havendo sido transferidas as suas preciosidades de ourivesaria para o Museu de Arte Antiga.

Fotografia aérea da zona de Alcântara, vendo-se na esquerda alta, o Palácio e a Tapada das Necessidades |1971|
Armando Serôdio, in Lisboa de Antigamente

Do antigo Convento da Congregação do Oratório apenas restam silhares de azulejos. Quanto ao Palácio, cujo recheio quási inteiramente desapareceu daqui para outros palácios nacionais, conserva ainda o seu ar palaciano, um certo ambiente austero de beleza fria, e salas que mal fazem lembrar a opulência antiga.
Nota, Dilecto, a torre da antiga Igreja, recuada à esquerda da frontaria do edifício. Parece uma sentinela de Nossa Senhora das Necessidades.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa: Paços e  palácios nacionais, 1946.
idem, Peregrinações em Lisboa, vol. IX, p. 18-19, 1939.
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